Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 10 de janeiro de 2021

"O veto ao Evangelho de Saramago, 25 anos depois" Publicado em 25/04/2017 no Observador


Publicado aqui

via https://observador.pt/especiais/o-veto-ao-evangelho-de-saramago-25-anos-depois/

De Joana Stichini Vilela (25 abr 2017)

"Em 1992, o subsecretário de Estado da Cultura afasta José Saramago de um prémio literário. Magoado, o escritor deixará Portugal e anos depois ganhará o Nobel. Sousa Lara diz ter rezado por ele.

– “Quer que lhe conte o que se passou? Normalmente, é publicado errado.”

– “Quando quiser. Está a gravar.”

António Sousa Lara, 65 anos, senta-se na primeira fila do pequeno auditório da Academia de Letras e Artes, no Monte Estoril, instituição a que preside e que funciona “por caturreira” há 30 anos. Porte aristocrático, chapéu de feltro na cabeça, anel com brasão no mindinho, prepara-se para recuar a 1992. O ano é o da morte da sua carreira política e o de uma viragem radical na vida e obra do Nobel José Saramago. Provocador experiente, o ex-subsecretário de Estado da Cultura levanta o queixo, semicerra os olhos, contempla o horizonte e arranca: “Vamos lá ver. Estamos num Governo de Cavaco Silva…”


A vida pública desta história começa de forma tímida, numa altura em que ninguém intui nem o impacto nem a longevidade e muito menos as repercussões que terá. Nas palavras de Lara, “três meses de xivarri”.


“Este livro não, porque ofende”

A 25 de Abril de 1992, faz agora 25 anos, uma notícia remetida para o terço inferior de uma das páginas da secção de Cultura do jornal Público avança, “Sousa Lara corta nome de Saramago”. Antetítulo: “Prémio Literário Europeu” (PLE). Em causa está O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o sexto romance do autor depois de, em 1980, com Levantado do Chão, ter saltado das notas de rodapé para um papel de destaque na história da literatura portuguesa. “Não representa Portugal”, justifica Sousa Lara ao jornalista do Público. “Não me pediram um julgamento sobre a obra inteira de Saramago, mas sobre este livro. Ora, há questões pessoais que me modelam, às quais não me oponho por questões de consciência pessoal.”


A capa da edição de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” 
que está atualmente nas livrarias (Porto Editora)

Saramago escusa-se a comentar. Só sabe da notícia pelo próprio jornalista. “O Torcato [Sepúlveda] ligou-nos para casa e o José ao princípio disse, ‘Palavra? Nah, não é possível’. Estava quase divertido”, conta a viúva, Pilar del Río, 67 anos. “[Quando se confirmou] Ficou tão dececionado e tão magoado… Não por causa do prémio. Mas porque o Governo do seu país tinha feito uma coisa de que ele tinha vergonha. Dizer, ‘este livro não, porque ofende’.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo “era um romance de grande ousadia”, lembra o editor de Saramago na Caminho, Zeferino Coelho. “O ateísmo militante de Saramago já era conhecido. Agora, pegar em Deus, em Cristo, e transformá-los em personagens de romance, ainda por cima um romance negativo, isso foi uma grande ousadia.” Na sua opinião, Saramago tinha noção do efeito que o livro causaria e terá sido essa uma das razões por que o escreveu. O autor gostava de provocar o debate. Só não contava com a censura.

A administração interna, explica Sousa Lara, “tinha tudo a ver” com o seu perfil. “A minha tese de doutoramento é sobre subversão do Estado.” Quanto à cultura, ainda mais a “dos vivos”, olhava para ela “como um lúdico”.

No Monte Estoril, Sousa Lara afirma não gostar de polémica. “Mas não fujo”, assegura. “E não cedo.” Há 25 anos, declarava: “A tutela cultural não deve assinar de cruz as sugestões dos seus serviços.” Referia-se com isto ao processo de seleção das obras, ou seja à parte inicial desta história, os bastidores.

A 14 de Abril, avançará o jornal O Independente, Sousa Lara recebe do Instituto Português do Livro e da Leitura (IPLL) um ofício com a sugestão de três nomes para candidatos ao PLE: Saramago, Pedro Támen e Fiama Hasse Pais Brandão. A lista fora elaborada depois de consultados a Associação Portuguesa de Escritores, o Pen Club e o Centro Português de Escritores Literários. Artur Anselmo, então presidente do IPLL, informa Lara de que também obtiveram o apoio dos Escritores Literários os nomes de Hélia Correia, com A Casa Eterna, e de Sophia de Mello Breyner, pelo Obra Poética – Volume II. Dois dias depois, Lara assina um primeiro despacho com a sua escolha: Fiama, Támen e Sophia. A 20 de Abril, Artur Anselmo responde, “proponho, a título pessoal, o Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís”. Lara junta o nome de Agustina ao despacho. Nem Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura, nem Maria José Nogueira Pinto, secretária de Estado Adjunta, estariam a par destas movimentações.

O artigo publicado no Público a 25 de abril de 1992

Sousa Lara recorda este capítulo de forma um pouco diferente, na sua versão a história começa ainda antes, com a sua nomeação para subsecretário de Estado da Cultura.

O convite original para secretário de Estado da Administração Interna fora do amigo Dias Loureiro. E Lara aceitara. Só que pouco depois viu o seu passe transferido para outro Ministério. Melhor dizendo, secretaria de Estado. “Domingo à noite, liga-me o Dias Loureiro a dizer que o Santana dizia que ficava ofendido, porque eu tinha criado o Instituto de Estudos Políticos com ele”, conta. “E eu lembro-me de ter respondido por telefone, ‘Olha, Manuel, não te agradeço. Já estou…’ E depois disse um palavrão que equivale a ‘lixado’ mas começa por ‘f’. Sic.” A administração interna, explica, “tinha tudo a ver” com o seu perfil. “A minha tese de doutoramento é sobre subversão do Estado.” Quanto à cultura, ainda mais a “dos vivos”, olhava para ela “como um lúdico”.

“Parece que há um problema com o Saramago”
De perfil harmonioso, barba branca bem aparada e bigode de pontas arrebitadas, Sousa Lara mantém o rosto a que Saramago chamou “suave” numa entrevista de 10 de Maio de 1992 ao Público (para depois acrescentar que quer em Portugal quer em Espanha, “os retratos dos inquisidores apresentam semelhanças [com Lara], numa espécie de ar de família”). Professor universitário, o ex-subsecretário de Estado tem jeito para as palavras. Verbo certeiro, ágil, informal. As narrativas surgem com frequência em discurso direto, pontuadas por termos coloridos. E também por uma ideia recorrente: a alegada omissão deliberada por parte dos média de determinados aspetos deste episódio.

Como quando Artur Anselmo lhe apresentou a lista e lhe transmitiu que teria de ser a tutela a indicar os candidatos. “Eu disse, ‘acho muito mal. Posso estar aqui como gestor e não perceber nada de literatura’. Sic. Este facto é sempre omitido.” Lara continua: “E, depois, quem é que fabricou a short-list? Aquilo era uma lista ‘esquerdosa’.” E ainda: “Eu digo ao Anselmo, ‘Com esta porcaria, o Saramago não vai, nem por cima do meu cadáver’.” Solução: “’Nem li o livro da Sophia, mas não me interessa – vai esse. Tudo o que ela faz é bom’.”

Parêntesis: Se está a perguntar-se se Lara tinha lido o Evangelho Segundo Jesus Cristo, a resposta é “não”. Ou melhor, “uma parte”. Porquê? “Porque houve alguém que leu e disse, ‘este gajo é um pulha, já viste o que ele diz de Deus?’ E fui ler aquele bocado. E era ofensivo.” Parêntesis dentro do parêntesis: hoje, não só já leu como tem várias edições. Tornou-se uma piada entre os amigos que, volta e meia, lhe oferecem um exemplar.

Lara defende que a lista estava “cozinhada” para Saramago fazer parte dela. Insiste que a cultura “é um ninho de vespas da esquerda”. E que houve “má fé”. Acabaria por tomar uma decisão pessoal em nome do Estado. “É a minha maneira de fazer política”, assume sem hesitar. “A minha conceção de democracia – e agora entra outra parte que ninguém publica – é que a democracia não é o consenso nem a bissetriz. É a direita contra a esquerda e a esquerda contra a direita. Tenho uma lógica de luta, de combate, de cruzada, de porrada.”

Santana Lopes só sabe do veto na véspera da notícia do Público. Sousa Lara argumentaria que se tratava de uma “competência delegada”. De acordo com O Independente, na estreia do filme “Aqui D’El Rei”, Maria José Nogueira Pinto terá comentado com o secretário de Estado: “Parece que há um problema com o Saramago”.


Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Quatro dias depois o caso vai parar à Assembleia da República durante o debate parlamentar sobre a Cultura. A intervenção de Lara ficará para a história. Se por boas ou más razões, depende da perspetiva. O subsecretário de Estado começa por argumentar que o caso não devia ter sido tornado público. Depois, alega que “a obra ataca o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, divide-os.”

No Público, Torcato Sepúlveda comenta, “tal raciocínio evoca, com efeito, o Tribunal do Santo Ofício”. Sucedem-se as acusações de censura. A palavra “inquisição” nas suas várias declinações, enunciada pelas mais variadas personalidades literárias e da cultura, propaga-se pelas páginas dos jornais. Promovida a escândalo, a polémica internacionaliza-se. Surgem relatos e reações nos jornais espanhóis ABC, El País e El Mundo, nos franceses Libération e Le Monde, no italiano La Stampa, e na Folha de São Paulo. Até o ministro da cultura francês se manifesta. Para Jack Lang a censura de que o “Evangelho” foi alvo é “inaceitável”.

Entretanto, o eurodeputado socialista João Cravinho tenta levar o caso ao Parlamento Europeu. A 9 de Maio, o Expresso noticia: “O Presidente do Parlamento Europeu, Egon Klepsch, envia carta a Jacques Delors [presidente da Comissão Europeia] pedindo explicações sobre o afastamento de Saramago à candidatura ao PLE.”

Um fax enviado por Agustina Bessa-Luís para a Sociedade Portuguesa de Autores, 
um pedido para José Saramago não desistisse da candidatura ao Prémio Europeu de Literatura

Por cá, Támen e Fiama recusam a candidatura ao PLE. Já o poeta David Mourão Ferreira é dos mais vocais. Numa mensagem escrita defende que o primeiro-ministro devia “ter pedido desculpas públicas” ao escritor e que é Cavaco Silva “quem deve ser responsabilizado pelo estado novo a que chegou o grotesco e tenebroso processo das candidaturas portuguesas”. Já Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”

Entretanto, uma sondagem do jornal Público indica que 63,3 por cento dos habitantes de Lisboa e Porto acham que o “Evangelho” devia fazer parte da lista de candidatos ao PLE. O Expresso também consulta o cidadão comum e divulga resultados que apontam para um equilíbrio maior na sociedade portuguesa: 57 por cento dos inquiridos está contra a exclusão.

“Tony, que Deus te guie”
Por esta altura já Santana Lopes chamou a si o caso, revogou a decisão de Sousa Lara e afastou o subsecretário de Estado. Santana anuncia a criação de novo júri para escolher nova lista de candidatos. Saramago avisa logo que não estará disponível e pede para não ser considerado sequer. Santana ignora o repto, alegando que essa decisão cabe ao júri internacional.

Se Sousa Lara começou por agir sem informar ninguém, agora é ele próprio quem se queixa de ter sido mantido na ignorância. A quem? Ao primeiro-ministro. “O Cavaco apoiou-me sempre”, diz. “Ele é uma pessoa hierática.” Como prova disso, depois do veto, Cavaco tê-lo-á convidado para ir à estreia de “qualquer coisa do La Féria” [“Maldita Cocaína”]. Lara conta que recusou dizendo que a sua presença monopolizaria as atenções e neutralizaria a imagem que o primeiro-ministro queria dar, que era a de pessoa atenta à cultura. “E então não fui. Porque não preciso. Porque se o Cavaco estivesse contra, eu diria a mesma coisa. Aqui não há negociação possível. É risco no chão. Ninguém percebeu. Não há negociação possível!”

Na sequência da decisão de Santana, o subsecretário de Estado acabaria por pedir a demissão ao primeiro-ministro. Sem sucesso. Conta que Cavaco lhe respondeu: “’Isso não pode ser. Seria uma atitude de fraqueza’”. Conclusão: “Estive lá a ‘abobrar’. Só saí em novembro, quando o Deus Pinheiro foi à vida. Perguntaram, ‘Quer ir agora?’ ‘Quero, quero’. Ala!” De facto, Lara só abandona o Governo a 13 de novembro de 1992, altura em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros também sai, apesar de, entretanto, ter havido duas outras remodelações, uma em junho e outra em agosto.

Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Novo parêntesis. Em junho, um jantar de “homenagem ao Prof. Doutor António de Sousa Lara (…) pela coerência e verticalidade” reunirá 250 pessoas no restaurante Muchaxo, no Guincho. Entre elas incluem-se D. Duarte Pio de Bragança, que não presta declarações mas que horas antes tinha dito à TSF que o livro de Saramago era “uma grande merda” e o presidente da Câmara de Cascais, Georges Dargent, que fala num “combate às forças do mal”. Enviam mensagens de apoio Cavaco Silva, os ministros Couto dos Santos, João de Deus Pinheiro e Marques Mendes, bem como os diretores dos jornais O Diabo (Vera Lagoa), O Título e A Zona. A dada altura, um dos membros da organização lança o repto, “Tony, que Deus te guie”.

Mesmo com Sousa Lara fora do caminho, não há maneira de Santana conseguir nova lista de candidatos. Parte dos jurados vai-se revelando indisponível até que o presidente do IPLL, que anunciara a formação do júri, decide acabar com ele. “A polémica tinha atingido tal grau de insanidade e envenenamento que o Dr. Óscar Lopes [presidente do júri] diz que não há condições políticas, ecológicas, ambientais para o júri se reunir.”, lembra Artur Anselmo, hoje presidente da Academia das Ciências. “E a coisa ficou por aí.”

Na opinião de Artur Anselmo, tudo não passou de uma “lamentável intromissão da esfera política na esfera cultural. E não teve só a ver com Portugal. Teve a ver com todos os países que faziam parte da então CEE.” Este é capaz de ser o único ponto em que há acordo entre todos os intervenientes: ao contrário do previsto no regulamento do prémio, a decisão não devia ser política – embora os dois anteriores governantes por quem passaram listas da mesma natureza, em 1990 e 1991, se tivessem limitado a dar o seu aval às sugestões das entidades consultadas. Quanto a 1992, com o fim do júri, volta tudo ao início: Támen, Fiama… e Saramago.

Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”

Nos jornais, há sobretudo declarações de solidariedade, mas também se desenterram acusações de censura. Recorda-se o Verão Quente de 1975, altura em que o militante comunista esteve à frente do Diário de Notícias: “Pessoalmente, quero servir a construção do socialismo. E o DN vai ser um instrumento nas mãos do povo português para a construção dessa linha já adotada pelo Conselho Superior de Revolução…” O diretor do Expresso, José António Saraiva, cria um cenário em que o PCP subiu ao Governo e Saramago é secretário de Estado da Cultura para provocar: “Na hipótese de um livro, mesmo notável – mas crítico em relação ao comunismo –, ser indigitado para um prémio, Saramago dar-lhe-ia ou não o seu apoio? Muito provavelmente não.”

Reportagem no jantar de apoio a Sousa Lara; no canto superior direito 
é reproduzido o convite do evento (Público)

Ao mesmo tempo, as vendas do romance disparam. A 21 de maio, já vai nos 135 mil exemplares, só em Portugal. Pouco depois, torna-se um dos mais procurados na Feira do Livro de Madrid e entra para o Top 10 espanhol. Pilar del Río diz desconhecer quantos livros se venderam ao todo. Remete para a Caminho, que por sua vez passa a bola para a Porto Editora, que detém atualmente os direitos da obra do Nobel mas declara não poder avançar essa informação. Adianta, porém que o “Evangelho” continua a vender-se “todas as semanas”, longe, porém, dos números do principal best-seller de Saramago, “Memorial do Convento”.

Saramago diz precisar de tranquilidade. Já há bastante tempo que o casal procurava uma casa para comprar nos arredores de Lisboa. Mafra, por exemplo, lembra Zeferino Coelho. Por coincidência, a 1 de maio, uma semana apenas depois de estalar a polémica, vão visitar a irmã de Pilar a Lanzarote, em Espanha. “Descobrimos o princípio do mundo”, lembra Pilar. “E aí fui eu que disse, ‘por que não nos mudamos para Lanzarote?’ Todos os criadores dizem a dada altura, ‘iria viver para uma ilha deserta’. Pois alguns o dizem e o fazem.”

A notícia cai com estrondo em Portugal: Saramago abandonaria o país na sequência do veto de Sousa Lara. Em entrevista ao Público, o escritor tenta clarificar: “Há uma coincidência que eu não busquei”. Pilar começa por admitir que foi em parte por causa desta questão que resolveram mudar-se – “foi muito duro para um escritor a polémica que se montou, ter de responder ao mundo” –, para depois desvalorizar: “Coincidiu”.

“Ingrato e repugnante”
Na Fundação Saramago, em Lisboa, a Presidenta – como insiste em formular a palavra – limpa distraída um retrato a óleo do escritor com um lenço de papel. As obras do Terminal de Cruzeiros, mesmo em frente à Casa dos Bicos, enchem tudo de pó. Conversa rodeada de artefactos da vida e obra do Nobel, incluindo um top 10 da Bertrand da década de 1990 em que apenas dois livros não são dele: Vai Onde te Leva o Coração, em 7º, e Aparição, em 10º. Há alguma acidez no discurso, mas sobretudo amargura: “Este episódio é ingrato e repugnante”; “Não significou nada para Saramago”; “’Desilusão’? Não. Para nos desiludirmos temos de ter estado iludidos”; “Saramago está a anos de luz de toda esta situação e de toda esta gente. Pensam que Saramago estava preso a uma decisão de um Governo que já não existia, que tinha membros presos? Por amor de Deus. Saramago tinha seguido navegando pelo mundo e os outros continuavam por aí.”



Seja qual for a interpretação, a verdade é que o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que coincide com a mudança para Lanzarote, assinala um ponto de viragem na obra do escritor. “Ele dizia que até ao ‘Evangelho’ escrevia sobre a estátua”, explica Zeferino Coelho. “A partir do ‘Evangelho’ passou a escrever sobre a pedra.” A primeira é a superfície; a segunda o seu interior. “Já não é o homem em determinada circunstância. O que lhe importa é a alma humana no que ela tem de universal.”

Saramago explica esta evolução em 1998, na Universidade de Turim, numa palestra mais tarde publicada em livro e intitulada “Da Estátua à Pedra” (em que afirma ainda e de forma taxativa que o Evangelho Segundo Jesus Cristo é não só o seu romance que “gerou mais polémica” mas também “a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote”).

O primeiro romance desta nova fase chama-se Ensaio Sobre a Cegueira. “Que eu acho”, prossegue Zeferino Coelho, “e até lho disse várias vezes – ele não concordava – que é o melhor romance dele.”

Entre um e outro livro passam quatro anos. O interregno é atípico, mas a vida do escritor está cada vez mais cheia. Além de que a matéria ficcional que agora o ocupa é de uma dureza inusitada. “A certa altura cheguei a dizer: ‘Não sei se consigo sobreviver a este livro.’”, contaria ao Expresso em 1995. “Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse de sacá-la. Mas não saiu, está no livro e está dentro de mim.”

Saramago era um pessimista. Para ele, a irracionalidade estava a tomar conta de um mundo contemporâneo ao serviço do lucro e do mercado. Na opinião do autor de Biografia – José Saramago (Guerra & Paz), João Marques Lopes, “os efeitos da polémica e do veto poderão ter contribuído para o aprofundamento do pessimismo”, afirma por email, “mas creio que são secundários face às mudanças geo-políticas e ideológicas do ‘mal-chamado’ socialismo real em 1989-1991.” Quanto a Lanzarote? “Há quem relacione a ‘secagem’ do estilo barroco com a orografia desprovida de vegetação e de arvoredo. Acho que pode estar correto.” Pilar concorda: “Talvez a austeridade de Lanzarote [tenha sido uma influência]”.

“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma Sousa Lara. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer cota-parte nessa causa.”
Índice
“Este livro não, porque ofende”
“Parece que há um problema com o Saramago”
“Tony, que Deus te guie”
“Ingrato e repugnante”
“O Inferno está cheio. Não se ria”
Adaptado ao cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira é porventura o livro mais importante no percurso internacional de Saramago. A edição americana sai em 1998 e é recebida com entusiasmo pela imprensa. “Lembro-me de uma recensão publicada no Los Angeles Times que o classificava como um romance sinfónico”, conta Zeferino Coelho. “Isto em Agosto, Setembro. Em Outubro dão-lhe o Prémio Nobel. Pode ter empurrado um bocadinho.” O romance aparece em destaque no texto de atribuição, “Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título ‘Ensaio Sobre a Cegueira’.”

“O Inferno está cheio. Não se ria”
Uma das histórias que Sousa Lara gosta de contar tem a ver com um momento de epifania na sua vida. Antes do 25 de Abril, um artigo seu sobre o LSD publicado num jornal monárquico foi censurado pela PIDE. Indignado com a situação, foi falar com o director, Jacinto Ferreira. “Eu tinha 18, 19 anos”, conta. “Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”

Não deixa de ser curioso que o homem que aponta um episódio de censura como um dos mais transformadores da sua vida se tenha tornado infame por causa de uma acusação de censura. Hoje, Sousa Lara diz-se “proscrito”: “Escovaram-me da política”. Ainda assim, voltaria a vetar a candidatura. “Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”

Quando no ano passado Cavaco Silva condecorou Sousa Lara com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a “quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro”, o colunista João Pereira Coutinho aproveitou para atiçar o lume: “Se a esquerda fosse verdadeiramente grata, já teria erguido uma estátua ao homem por serviços prestados à causa.” Para provocador, provocador e meio. O gesto de Lara foi “pacóvio”, escreveu no Correio da Manhã, e “ridículo” avançou ao Observador por email, mas “sem Sousa Lara, jamais Saramago teria optado pelo ‘exílio’ em Lanzarote; sem esse ‘exílio’, jamais Saramago teria sido o escritor ‘maldito’ (ou ‘perseguido’) que ele passou a usar na lapela; e sem o ‘exílio’ e a ‘perseguição’, não haveria Prémio Nobel para ninguém.” Mais: “a repercussão internacional foi imensa – e é justo extrapolar que aumentou a visibilidade de Saramago.” Como Lara gosta de dizer, “os argumentos são subjetivos”.

O editor de Saramago acredita que hoje o “Evangelho” voltaria a causar alvoroço. “Para mim, o direito à blasfémia é a medida da liberdade do pensamento. Mas a opinião dominante lida mal com isto.” Um exemplo recente é o da Bíblia de Frederico Lourenço (Quetzal). Traduzida do grego, faz opções semânticas que põem em causa dogmas da Igreja. Lourenço, Prémio Pessoa 2016, chegou a ser acusado de ignorante. Mas não por Sousa Lara, ressalve-se. O ex-subsecretário de Estado da Cultura é fã. “Tenho cinco versões da bíblia na minha mesa de cabeceira. Desde que saiu, que só leio essa”, conta. “É mais consentânea com o que terá sido. O gajo é um erudito. Aquilo dá gosto. Só que tem perigos, rasteiras.”

Lara diz viver em oração permanente. Tem uma fé inabalável, permanente, impositiva: “Preenche o oxigénio dos meus dias.” Pela primeira vez, parece ter algum receio de ser mal interpretado. “Dizer isto parece mal.” Da mesma forma, garante não guardar rancores. Nem um ao longo da vida.

– E quando disse, ‘vou rezar pelo Saramago’, rezei. Não acho que valha a pena porque ele deve estar no Inferno.
– Acredita no Inferno, portanto?
– Ah, claro. E acredito que está cheio. Não se ria.
– E quando chegar a sua vez?
– Espero passar no exame.

Contactados pelo Observador, nem Aníbal Cavaco Silva nem Pedro Santana Lopes se mostraram disponíveis para comentar este caso. Em 1992, ganharia o Prémio Literário Europeu e os correspondentes 20 mil ecus o espanhol Manuel Vázquez Montalbán.





terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"Evangelho segundo Jesus Cristo"

(...) "José dormia, com um sorriso resignado nos lábios, mas triste era como se sentiria se ouvisse Maria dizer-lhe, Que o não queira o Senhor, que de ciência certa sei eu que esse homem não tem onde descansar a cabeça. Em verdade, em verdade vos digo que muitas coisas neste mundo poderiam saber-se antes de acontecerem outras que delas são fruto, se, um com o outro, fosse costume falarem marido e mulher como marido e mulher." (...)

"Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho (Pags 71 e 72)



#Saramago #josesaramago
#ContinuarSaramago

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

3 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Não tenho culpa de que o Evangelho volte tantas vezes a estas páginas. Quem o traz aqui são os leitores, os que gostaram e os que detestaram, aqueles que foram tocados no coração e aqueles a quem se lhes revolveu a bílis. Esta carta veio de Israel e assinam-na Martha e Yakov Amir." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A censura do "Evangelho segundo Jesus Cristo" e algumas reacções (Fonte: Observador)

"O veto ao Evangelho de Saramago, 25 anos depois"
Publicado no site "Observador", autoria de Joana Stichini Vilela (25/04/2017), pode ser recuperado na integra, aqui

"Público" artigo de Torcato Sepúlveda de 25 de abril de 1992

(...) «A 25 de Abril de 1992, faz agora 25 anos, uma notícia remetida para o terço inferior de uma das páginas da secção de Cultura do jornal Público avança, “Sousa Lara corta nome de Saramago”. Antetítulo: “Prémio Literário Europeu” (PLE). Em causa está O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o sexto romance do autor depois de, em 1980, com Levantado do Chão, ter saltado das notas de rodapé para um papel de destaque na história da literatura portuguesa. “Não representa Portugal”, justifica Sousa Lara ao jornalista do Público. “Não me pediram um julgamento sobre a obra inteira de Saramago, mas sobre este livro. Ora, há questões pessoais que me modelam, às quais não me oponho por questões de consciência pessoal.”

Saramago escusa-se a comentar. Só sabe da notícia pelo próprio jornalista. “O Torcato [Sepúlveda] ligou-nos para casa e o José ao princípio disse, ‘Palavra? Nah, não é possível’. Estava quase divertido”, conta a viúva, Pilar del Río, 67 anos. “[Quando se confirmou] Ficou tão dececionado e tão magoado… Não por causa do prémio. Mas porque o Governo do seu país tinha feito uma coisa de que ele tinha vergonha. Dizer, ‘este livro não, porque ofende’.”

O Evangelho Segundo Jesus Cristo “era um romance de grande ousadia”, lembra o editor de Saramago na Caminho, Zeferino Coelho. “O ateísmo militante de Saramago já era conhecido. Agora, pegar em Deus, em Cristo, e transformá-los em personagens de romance, ainda por cima um romance negativo, isso foi uma grande ousadia.” Na sua opinião, Saramago tinha noção do efeito que o livro causaria e terá sido essa uma das razões por que o escreveu. O autor gostava de provocar o debate. Só não contava com a censura.»

«A 14 de Abril, avançará o jornal O Independente, Sousa Lara recebe do Instituto Português do Livro e da Leitura (IPLL) um ofício com a sugestão de três nomes para candidatos ao PLE: Saramago, Pedro Támen e Fiama Hasse Pais Brandão. A lista fora elaborada depois de consultados a Associação Portuguesa de Escritores, o Pen Club e o Centro Português de Escritores Literários. Artur Anselmo, então presidente do IPLL, informa Lara de que também obtiveram o apoio dos Escritores Literários os nomes de Hélia Correia, com A Casa Eterna, e de Sophia de Mello Breyner, pelo Obra Poética – Volume II. Dois dias depois, Lara assina um primeiro despacho com a sua escolha: Fiama, Támen e Sophia. A 20 de Abril, Artur Anselmo responde, “proponho, a título pessoal, o Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís”. Lara junta o nome de Agustina ao despacho. Nem Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura, nem Maria José Nogueira Pinto, secretária de Estado Adjunta, estariam a par destas movimentações.»

Fax de Agustina Bessa-Luís enviado à SPA - Sociedade Portuguesa de Autores
manifestando a sua posição perante a censura da obra de Saramago

(...) «Santana Lopes só sabe do veto na véspera da notícia do Público. Sousa Lara argumentaria que se tratava de uma “competência delegada”. De acordo com O Independente, na estreia do filme “Aqui D’El Rei”, Maria José Nogueira Pinto terá comentado com o secretário de Estado: “Parece que há um problema com o Saramago”.

Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”
Quatro dias depois o caso vai parar à Assembleia da República durante o debate parlamentar sobre a Cultura. A intervenção de Lara ficará para a história. Se por boas ou más razões, depende da perspetiva. O subsecretário de Estado começa por argumentar que o caso não devia ter sido tornado público. Depois, alega que “a obra ataca o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, divide-os.”

No Público, Torcato Sepúlveda comenta, “tal raciocínio evoca, com efeito, o Tribunal do Santo Ofício”. Sucedem-se as acusações de censura. A palavra “inquisição” nas suas várias declinações, enunciada pelas mais variadas personalidades literárias e da cultura, propaga-se pelas páginas dos jornais. Promovida a escândalo, a polémica internacionaliza-se. Surgem relatos e reações nos jornais espanhóis ABC, El País e El Mundo, nos franceses Libération e Le Monde, no italiano La Stampa, e na Folha de São Paulo. Até o ministro da cultura francês se manifesta. Para Jack Lang a censura de que o “Evangelho” foi alvo é “inaceitável”.

Entretanto, o eurodeputado socialista João Cravinho tenta levar o caso ao Parlamento Europeu. A 9 de Maio, o Expresso noticia: “O Presidente do Parlamento Europeu, Egon Klepsch, envia carta a Jacques Delors [presidente da Comissão Europeia] pedindo explicações sobre o afastamento de Saramago à candidatura ao PLE.”

Por cá, Támen e Fiama recusam a candidatura ao PLE. Já o poeta David Mourão Ferreira é dos mais vocais. Numa mensagem escrita defende que o primeiro-ministro devia “ter pedido desculpas públicas” ao escritor e que é Cavaco Silva “quem deve ser responsabilizado pelo estado novo a que chegou o grotesco e tenebroso processo das candidaturas portuguesas”. Já Francisco Sousa Tavares pede a demissão do subsecretário de Estado, alegando que este está “agarrado à cadeira do poder” e alerta para a repercussão internacional: “Lançou de novo sobre nós os estigmas tradicionais da intolerância religiosa e do repúdio da abertura espiritual”. O escritor João de Melo sintetiza, “Saramago neste momento somos todos nós.”

Entretanto, uma sondagem do jornal Público indica que 63,3 por cento dos habitantes de Lisboa e Porto acham que o “Evangelho” devia fazer parte da lista de candidatos ao PLE. O Expresso também consulta o cidadão comum e divulga resultados que apontam para um equilíbrio maior na sociedade portuguesa: 57 por cento dos inquiridos está contra a exclusão.»

«Ao longo destas semanas, José Saramago desdobra-se em entrevistas e declarações. A sua casa, um pequeno T1+1 na Rua dos Ferreiros à Estrela, em Lisboa, converte-se em central telefónica. “Um inferno”, resume Pilar del Río. “Não só por causa deste caso mas também porque Saramago era a pessoa mais conhecida de Portugal tirando os futebolistas.”

Na opinião de Artur Anselmo, tudo não passou de uma “lamentável intromissão da esfera política na esfera cultural. E não teve só a ver com Portugal. Teve a ver com todos os países que faziam parte da então CEE.” Este é capaz de ser o único ponto em que há acordo entre todos os intervenientes: ao contrário do previsto no regulamento do prémio, a decisão não devia ser política – embora os dois anteriores governantes por quem passaram listas da mesma natureza, em 1990 e 1991, se tivessem limitado a dar o seu aval às sugestões das entidades consultadas. Quanto a 1992, com o fim do júri, volta tudo ao início: Támen, Fiama… e Saramago.

Nos jornais, há sobretudo declarações de solidariedade, mas também se desenterram acusações de censura. Recorda-se o Verão Quente de 1975, altura em que o militante comunista esteve à frente do Diário de Notícias: “Pessoalmente, quero servir a construção do socialismo. E o DN vai ser um instrumento nas mãos do povo português para a construção dessa linha já adotada pelo Conselho Superior de Revolução…” O diretor do Expresso, José António Saraiva, cria um cenário em que o PCP subiu ao Governo e Saramago é secretário de Estado da Cultura para provocar: “Na hipótese de um livro, mesmo notável – mas crítico em relação ao comunismo –, ser indigitado para um prémio, Saramago dar-lhe-ia ou não o seu apoio? Muito provavelmente não.”

Ao mesmo tempo, as vendas do romance disparam. A 21 de maio, já vai nos 135 mil exemplares, só em Portugal. Pouco depois, torna-se um dos mais procurados na Feira do Livro de Madrid e entra para o Top 10 espanhol. Pilar del Río diz desconhecer quantos livros se venderam ao todo. Remete para a Caminho, que por sua vez passa a bola para a Porto Editora, que detém atualmente os direitos da obra do Nobel mas declara não poder avançar essa informação. Adianta, porém que o “Evangelho” continua a vender-se “todas as semanas”, longe, porém, dos números do principal best-seller de Saramago, “Memorial do Convento”.

Saramago diz precisar de tranquilidade. Já há bastante tempo que o casal procurava uma casa para comprar nos arredores de Lisboa. Mafra, por exemplo, lembra Zeferino Coelho. Por coincidência, a 1 de maio, uma semana apenas depois de estalar a polémica, vão visitar a irmã de Pilar a Lanzarote, em Espanha. “Descobrimos o princípio do mundo”, lembra Pilar. “E aí fui eu que disse, ‘por que não nos mudamos para Lanzarote?’ Todos os criadores dizem a dada altura, ‘iria viver para uma ilha deserta’. Pois alguns o dizem e o fazem.”

A notícia cai com estrondo em Portugal: Saramago abandonaria o país na sequência do veto de Sousa Lara. Em entrevista ao Público, o escritor tenta clarificar: “Há uma coincidência que eu não busquei”. Pilar começa por admitir que foi em parte por causa desta questão que resolveram mudar-se – “foi muito duro para um escritor a polémica que se montou, ter de responder ao mundo” –, para depois desvalorizar: “Coincidiu”.

“Ingrato e repugnante”
Na Fundação Saramago, em Lisboa, a Presidenta – como insiste em formular a palavra – limpa distraída um retrato a óleo do escritor com um lenço de papel. As obras do Terminal de Cruzeiros, mesmo em frente à Casa dos Bicos, enchem tudo de pó. Conversa rodeada de artefactos da vida e obra do Nobel, incluindo um top 10 da Bertrand da década de 1990 em que apenas dois livros não são dele: Vai Onde te Leva o Coração, em 7º, e Aparição, em 10º. Há alguma acidez no discurso, mas sobretudo amargura: “Este episódio é ingrato e repugnante”; “Não significou nada para Saramago”; “’Desilusão’? Não. Para nos desiludirmos temos de ter estado iludidos”; “Saramago está a anos de luz de toda esta situação e de toda esta gente. Pensam que Saramago estava preso a uma decisão de um Governo que já não existia, que tinha membros presos? Por amor de Deus. Saramago tinha seguido navegando pelo mundo e os outros continuavam por aí.”

Seja qual for a interpretação, a verdade é que o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que coincide com a mudança para Lanzarote, assinala um ponto de viragem na obra do escritor. “Ele dizia que até ao ‘Evangelho’ escrevia sobre a estátua”, explica Zeferino Coelho. “A partir do ‘Evangelho’ passou a escrever sobre a pedra.” A primeira é a superfície; a segunda o seu interior. “Já não é o homem em determinada circunstância. O que lhe importa é a alma humana no que ela tem de universal.”

Saramago explica esta evolução em 1998, na Universidade de Turim, numa palestra mais tarde publicada em livro e intitulada “Da Estátua à Pedra” (em que afirma ainda e de forma taxativa que o Evangelho Segundo Jesus Cristo é não só o seu romance que “gerou mais polémica” mas também “a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote”).

O primeiro romance desta nova fase chama-se Ensaio Sobre a Cegueira. “Que eu acho”, prossegue Zeferino Coelho, “e até lho disse várias vezes – ele não concordava – que é o melhor romance dele.”

Entre um e outro livro passam quatro anos. O interregno é atípico, mas a vida do escritor está cada vez mais cheia. Além de que a matéria ficcional que agora o ocupa é de uma dureza inusitada. “A certa altura cheguei a dizer: ‘Não sei se consigo sobreviver a este livro.’”, contaria ao Expresso em 1995. “Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse de sacá-la. Mas não saiu, está no livro e está dentro de mim.”

Saramago era um pessimista. Para ele, a irracionalidade estava a tomar conta de um mundo contemporâneo ao serviço do lucro e do mercado. Na opinião do autor de Biografia – José Saramago (Guerra & Paz), João Marques Lopes, “os efeitos da polémica e do veto poderão ter contribuído para o aprofundamento do pessimismo”, afirma por email, “mas creio que são secundários face às mudanças geo-políticas e ideológicas do ‘mal-chamado’ socialismo real em 1989-1991.” Quanto a Lanzarote? “Há quem relacione a ‘secagem’ do estilo barroco com a orografia desprovida de vegetação e de arvoredo. Acho que pode estar correto.” Pilar concorda: “Talvez a austeridade de Lanzarote [tenha sido uma influência]”.

“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma Sousa Lara. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer cota-parte nessa causa.”
Adaptado ao cinema em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira é porventura o livro mais importante no percurso internacional de Saramago. A edição americana sai em 1998 e é recebida com entusiasmo pela imprensa. “Lembro-me de uma recensão publicada no Los Angeles Times que o classificava como um romance sinfónico”, conta Zeferino Coelho. “Isto em Agosto, Setembro. Em Outubro dão-lhe o Prémio Nobel. Pode ter empurrado um bocadinho.” O romance aparece em destaque no texto de atribuição, “Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título ‘Ensaio Sobre a Cegueira’.”»

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"El evangelio según Saramago" via "El Espectador" (27/01/2017)

A crónica publicada no "El Espectador" (de Fernado Araújo Vélez, 27/01/2017), pode ser recuperada e consultada aqui, em http://www.elespectador.com/noticias/cultura/el-evangelio-segun-saramago-articulo-676879

"El evangelio según Saramago"

"El escritor portugués, en uno de sus más polémicos libros, titulado ‘El evangelio según Jesucristo’, reconstruye parte de la relación entre Jesús y María Magdalena y afirma que vivieron un tiempo juntos. Cinco años atrás, en un papiro escrito en lengua copta, un evangelista sugería que se había casado."

"El escritor portugués José Saramago, premio Nobel de literatura en 1998."

"Y entonces fue cuando un hombre llamado José Saramago decidió escribir su Evangelio según Jesucristo. Habló de otro hombre, crucificado y muerto casi dos mil años antes, de sus miedos, de sus pasiones, de sus debilidades y remordimientos, de su madre, María, tan humana como él, y de su padre, José, quien lo salvó de la masacre de cientos de niños ordenada por Herodes sin que le importara la muerte de esos otros cientos de niños. José, escribió Saramago, supo del siniestro plan, pero sólo salvó a su hijo. El peso de la culpa lo persiguió durante más de veinte años y acabó en la cruz a la edad de 33 años.

El peso de esa culpa, una culpa ajena, según Saramago, llevó a Jesús a su destino, su histórico destino. Huyó a los 13 años. Se perdió en el desierto. Se encontró con el diablo que fue su pastor. Su guía y su condena. Ayunó. Lloró. Fue soberbio y sumiso. Vacío y ardiente. Un día se encontró con María de Magdala, María Magdalena, y se enamoró, un Jesús enamorado, sugirió Saramago, que recreó un diálogo entre ellos, fiel a su estilo de omitir guiones y de eliminar antiguas reglas gramaticales.

“Y cómo puedo yo ser tu amado si no me conoces, si soy sólo alguien que vino a pedirte ayuda y de quien tuviste pena, pena de mis dolores y de mi ignorancia, Por eso te amo, porque te he ayudado y te he enseñado, pero tú no podrás amarme a mí, pues no me enseñaste ni me ayudaste, No tienes ninguna herida, La encontrarás si la buscas, Qué herida es, Esa puerta abierta por donde entraban otros y mi amado no, Dijiste que soy tu amado, Por eso se cerró la puerta después de que tú entraras, No sé qué puedo enseñarte, a no ser lo que de ti he aprendido, Enséñame también eso, para saber cómo es aprenderlo de ti, No podemos vivir juntos, Quieres decir que no puedes vivir con una prostituta, Sí, Mientras estés conmigo, no seré una prostituta, no lo soy desde que aquí entraste, en tus manos está el que siga siéndolo o no, Me pides demasiado, Nada que no puedas darme por un día, dos días, el tiempo que tu pie tarde en curarse, para que después se abra otra vez mi herida”.

En El evangelio según Jesucristo, Saramago llevó a Jesús y a María de Magdala a unirse sólo por amor, en un tiempo en el que una mujer que viviera con un hombre sin vínculos sagrados, oficialmente sagrados, era adúltera. Cinco años atrás, en el Congreso Internacional de Estudios Coptos, en Roma, Karen King divulgó un papiro escrito en lengua copta, la lengua de los cristianos en los siglos que siguieron a la muerte de Jesús, en el que un evangelista apócrifo había dicho: “Jesús les dijo, mi esposa…”.

Su frase revivió una antiquísima teoría. Jesús tuvo, por lo menos, relaciones sentimentales con María Magdalena y se casó con ella. Ayer, también, Guillermo León Escobar (exembajador de Colombia ante la Santa Sede) explicaba que el matrimonio de Jesucristo “es un tópico que ya en la antigüedad tenía expresiones que eran normales, pero entonces no se centraba la discusión en eso, sino en la preocupación por el morir, ya que el Reino de Dios estaba cerca. Sin duda había quienes pensaban que Jesús era casado, pero esa postura no era un escándalo y no despertaba curiosidad alguna. Otros lo consideraron célibe, como Juan el Bautista, dedicados los dos a anunciar el Reino de Dios y su justicia y el bautismo por agua. Al llegar a Occidente, y en el sincretismo religioso que se produce, va y viene por épocas la versión del matrimonio de Jesús, lleno de mitologías y de acercamientos mágicos. Surge así la leyenda de María Magdalena y Jesús, que dio origen a una de las variantes del Santo Greal, en la que la supuesta esposa de Jesús, la Magdalena, desembarca en puerto francés para dar origen a la dinastía francesa de los Capetos, que tendrá su punto más alto en San Luis Rey, y al ritual de la Consagración con la santa ampolla en la Catedral de Reims”.

Literatura, magia, leyendas, mitos, verdades encubiertas y mentiras promulgadas. Para Saramago, Jesús era un hombre, “humano, demasiado humano”, como explicaba Nietzsche el mundo. En El evangelio según Jesucristo, año de 1991, el Dios de Judea de Saramago le decía a Jesús que el poder que éste tendría, “Es por ejemplo, ver, siempre, cómo te veneran en templos y altares, hasta el punto, puedo adelantártelo ya, de que las personas del futuro olvidarán un poco al Dios inicial que soy yo, pero eso no tiene importancia, lo mucho puede ser compartido, lo poco, no”. Para Saramago, los dioses fueron siempre ambiciosos, siempre injustos, siempre soberbios. Jesús, sólo un hombre.

“¿Ayudar a qué?”, le preguntaba a su creador con el diablo como testigo, dentro de una barca sobre el agua, alejada de las orillas, de los humanos y sus miserias. Hablaban sobre la razón de ser de Jesús, sobre el porqué de su sacrificio. Él, Jesús, quería saber. Dios le respondió: “A ampliar mi influencia para ser Dios de mucha más gente (…). Si cumples bien tu papel, es decir, el papel que te he reservado en mi plan, estoy segurísimo de que en poco más de media docena de siglos, aunque tengamos que luchar, yo y tú, con muchas contrariedades, pasaré de dios de los hebreos a dios de los que llamaremos católicos, a la griega”.

Luego le explicó que su papel en el gran plan sería el de mártir. “El de mártir, hijo mío, el de víctima, que es lo mejor que hay para difundir una creencia y enfervorizar una fe”. Después le dijo que moriría de la forma más dolorosa e infame, “para que la actitud de los creyentes se haga más fácilmente sensible, apasionada, emotiva”, y por último, le confirmó que fallecería en la cruz. Jesús quiso renunciar a su destino. Fue rebelde ante Dios, su padre, quien le respondió: “Todo cuanto la ley de Dios quiera es obligatorio”.

Después, derrotado, indefenso, preguntó por qué lo necesitaba a él: “Con el poder que sólo tú tienes sería mucho más fácil, y éticamente más limpio, que fueras tú mismo a la conquista de esos países y de esa gente”. Dios le respondió: “No puede ser, lo impide el pacto que hay entre los Dioses, ese sí, inamovible, de nunca interferir directamente en los conflictos, ¿me imaginas acaso en una plaza pública, rodeado de gentiles y paganos, intentando convencerlos de que el dios de ellos es un fraude y que el verdadero Dios soy yo?”.

Los hombres, incluido Saramago, jamás pudieron saber cómo era aquél Jesús inicial, el verdadero. La ciencia trabajó para explicar sus orígenes y todos los orígenes, los rostros, las relaciones, frases, vidas y muertes. En ocasiones se aproximó a una verdad. En otras ha continuado con su búsqueda. Los evangelios han descrito parte de lo que ocurrió, y los fragmentos dispersos que se han dado a conocer han revelado uno que otro detalle. En el fondo, el conflicto ha sido uno de poder, de poderes, como se lo confesaba Dios a Jesús en uno de los diálogos de Saramago. “Morirán miles, Cientos de miles, Morirán cientos de miles de hombres y mujeres, la tierra se llenará de gritos de dolor, de aullidos y de estertores de agonía, el humo de los quemados cubrirá el sol, su grasa rechinará sobre las brasas, el hedor repugnará y todo esto será por mi culpa, No por tu culpa, por tu causa, Padre, aparta de mí ese cáliz, El que tú lo bebas es condición de mi poder y de tu gloria, No quiero esa gloria, Pero yo quiero ese poder”.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Interessante artigo no blog "Socialista Morena" - "10 razões para amar o cristo de saramago"

O presente artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.socialistamorena.com.br/10-razoes-para-amar-o-cristo-de-saramago/

(José Saramago em Lanzarote. Foto: João Francisco Vilhena)

"Tem um livrinho clássico de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, Mártir, que conta a história do padre de uma cidadezinha no interior da Espanha que esconde um terrível segredo. O segredo de Dom Manuel, admirado por todos os moradores graças a sua bondade, generosidade e pelas palavras que apaziguam corações, é que ele não tem fé. Imaginem: um padre que não crê. E a maior prova de fé do padre sem fé é levar o consolo da religião aos demais, sendo que ele mesmo não o possui.
“Eu estou aqui para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para fazê-los felizes, para que sonhem ser imortais e não para matá-los. (…) Com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E isto faz a igreja, fazê-los viver. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto forma de fazer viver espiritualmente aos povos que as professam, enquanto lhes consolam de haver tido que nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, ainda que o consolo que lhes dou não seja o meu”, diz Dom Manuel no livro, ao revelar o segredo a seu “confessor”.
Vejo esta “fé dos que não têm fé” muito presente no livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ateu, Saramago criou um Cristo maravilhosamente falível, capaz de revigorar a fé de muitos. Na época em que foi lançado, em 1991, o livro sofreu ataques da igreja católica, porque Saramago ousou mexer com os dogmas do cristianismo. O então sub-secretário de Estado da Cultura português, Antonio Sousa Lara, chegou a vetar o romance em uma lista de indicações literárias sob o argumento de que ofendia a “moral cristã”. Quando Saramago morreu, em 2010, o jornal do Vaticano o chamou de “ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma”.
Leram muito mal o romance, porque não há nada mais cristão do que este evangelho de um ateu: é o retrato de um Jesus Cristo humano, demasiado humano, consciente da grandeza de sua tarefa e aterrorizado por ela. Não era esta a intenção de Deus ao mandar seu filho à Terra, que ele fosse o mais próximo possível de seus semelhantes, em vez do Cristo “divino”, milagreiro e marqueteiro de si mesmo que surge nos evangelhos?
De certa forma, o escritor português melhorou o Jesus do Novo Testamento ao desnudar a complexidade (e a crueldade) do papel que lhe cabia na história. Quem lê a obra de José Saramago não sai menos cristão e sim mais solidário a Jesus. Não dá para entender como puderam ficar contra um livro que é impregnado do mais puro, verdadeiro cristianismo. Desconfio que Saramago era como o Dom Manuel de Unamuno, só que ao contrário. Sua assumida falta de fé ocultava uma fé profunda –na humanidade.

Veja abaixo 10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você seja ateu).
1. Maria, como toda mãe, não é virgem: Jesus é gerado não pela visita de um anjo, mas pela conjunção carnal entre Maria e seu marido José. A semente de Deus está misturada à de José. “Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado”.

2. Jesus nasce da mesma maneira que todo mundo: “O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

3. Os “reis” magos trazem presentes úteis: os três “reis magos” são, na verdade, pastores, e, em vez de trazerem ouro, incenso e mirra, presentes absolutamente inúteis naquela situação, trazem leite, queijo e pão.

4. José e Jesus têm uma relação pai-filho: ao contrário dos relatos do Novo Testamento, que praticamente ignoram a existência de relação entre Jesus e seu pai terreno, o carpinteiro José, o evangelho de Saramago mostra que eles tinham uma proximidade especial e se irmanam na morte, crucificados injustamente ambos aos 33 anos.

5. Jesus é moreno: no Novo Testamento não há alusão à aparência de Jesus, o que favoreceu a imagem europeizada que se fez dele, louro de olhos azuis, pouco condizente com a aparência de um palestino. “Os cabelos são pretos como os do pai e da mãe, as íris já vão perdendo aquele tom branquiço a que chamamos cor de leite não o sendo, tomam o seu próprio natural, o da herança genética direta, um castanho muito escuro.”

6. O demônio não é tão feio quanto pintam: o “pastor” do romance de Saramago é um dos “reis” que visitam Jesus ainda na manjedoura e lhe leva o pão. Sua função não é representar o mal e sim a consciência sobre os sofrimentos que viverão Jesus e seus seguidores em nome de Deus. Quando Jesus o encontra no deserto, não é para “tentá-lo” e sim para ensinar a ele sobre a vida. O demônio é uma espécie de preceptor para um jovem sem experiência, o alter ego do próprio Deus. “Também se aprende com o diabo”, diz Jesus.

7. Jesus conhece o amor de uma mulher: o filho do Homem, como muitos homens no passado, se inicia sexualmente com uma prostituta, Maria Madalena, Maria de Magdala. “Nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.”

8. Jesus tem noção que é um sacrifício o que Deus lhe destina: ao encontrar Deus no deserto, Ele não diz que Jesus é seu filho, e sim que lhe dará glória e poder em troca de sua vida. Quem diz a Jesus que Deus é seu pai é o diabo. É só ao se aproximar a hora da crucificação que Jesus é informado do tamanho sacrifício que fará para alargar a influência no mundo de um Pai vaidoso, que desejava ser admirado por muito mais gente. “E qual foi o papel que me destinaste no teu plano”, pergunta Jesus a Deus. “O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé.”

9. Jesus tem dúvidas: ao ser informado de seu sacrifício por Deus, Jesus se comporta como qualquer ser humano naquela situação e pensa em desistir. “Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero viver como um homem qualquer”, ele diz a Deus, mas este faz troça: “Palavras inúteis, meu filho”. O raciocínio divino é que, sendo ele um deus, não acreditariam em sua palavras; na de um homem, sim. Daí o envio do filho à Terra. “Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar.”

10. Jesus se apieda dos que morrerão em seu nome: Jesus questiona Deus sobre o futuro da humanidade após sua morte, se serão mais felizes, e o Pai responde que, pelo contrário, muitos morrerão por conta desta fé, a começar por seus melhores amigos. “Será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, diz o Todo Poderoso, desfiando os horrores das perseguições aos cristãos e das mortes na Inquisição, a marteladas, queimados vivos, decapitados, crucificados, empalados. Tudo em nome de Deus. “Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”

domingo, 21 de agosto de 2016

"O Evangelho segundo Jesus Cristo" edição Porto Editora com a caligrafia de Sebastião Salgado

Via site da Porto Editora, aqui

"No dia 28 de julho a Porto Editora lança a nova edição de O Evangelho segundo Jesus Cristo, um dos principais e mais conhecidos romances de José Saramago, e certamente um dos mais polémicos. Para esta edição, o fotógrafo Sebastião Salgado foi o convidado a usar a sua caligrafia para ilustrar a capa.
A propósito deste livro, disse Harold Bloom: "estou convencido de que o seu melhor romance continua a ser O Evangelho segundo Jesus Cristo: corajoso, polémico contra o cristianismo em particular mas contra as religiões em geral. Há poucos livros que conseguem tratar Cristo e o catolicismo sem se sujeitar a um respeito obrigatório. Aqui, Saramago conseguiu, assim como D. H. Lawrence e, em menor grau, Norman Mailer. Creio que, de entre os premiados com o Nobel de Literatura nos últimos anos, ele foi quem realmente mereceu." Em A Estátua e a Pedra, José Saramago também se refere a este livro: "é o romance que gerou mais polémica e é a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote, em Espanha. É um livro que não projetei, porque jamais me havia passado pela cabeça escrever uma vida de Jesus, havendo tantas e sendo tão diferentes as interpretações que dessa vida se fizeram, destrutivas por vezes, ou, pelo contrário, obedecendo às imposições restritivas do dogma e da tradição. Enfim, sobre o filho de José e Maria disse-se de tudo, logo não seria necessário um livro mais, e ainda menos o que viria a escrever um ateu como eu. Simplesmente, o homem põe e a circunstância dispõe e aqui está o que me impeliu a uma tarefa cuja complexidade ainda hoje me assusta."

Capa da edição da Porto Editora com caligrafia de Sebastião Salgado

"À semelhança das edições publicadas pela Porto Editora, a capa deste título foi caligrafada por uma personalidade da cultura lusófona, neste caso o fotógrafo Sebastião Salgado. O design das edições ficou a cargo do atelier Silvadesigners. Este é o 22º título publicado nesta coleção."

Para assinalar a presente edição o "Diário Digital", publicou uma pequena nota por Pedro Justino Alves (18/08/2016)http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=838498

"O impiedoso Deus de Saramago"

"Da extensa obra de José Saramago, «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», editado em 1991, talvez seja a mais provocatória, já que coloca em causa alguns dos pilares fundamentais da sociedade ocidental, obrigando o leitor a olhar de um modo diferente a forma que entende o Mundo. A nova edição, da Porto Editora, apresenta a caligrafia do fotógrafo Sebastião Salgado na capa.
O narrador de «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» testemunha a vida de Jesus, principalmente a sua infância e juventude. Ou seja, temos uma oportunidade única para “conhecer” uma parte pouco conhecida do Homem mais importante da História, raramente retratada nos evangelhos. Ao mesmo tempo, Saramago apresenta o omnipotente, omnipresente e inquestionável Deus, que não admite que o jovem questione as suas diretrizes e que coloque em causa o destino que lhe escolheu.
Portanto, temos uma história emblemática e diferente de tudo o que conhecemos de Jesus, com Saramago a dar um novo olhar sobre a sua vida, principalmente a sua relação com os mais próximos. Uma história onde a ironia está sempre presente, com o Nobel da Literatura em 1998 a deixar entrever muito das suas convicções. Talvez o principal mérito de «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» seja precisamente esse, fazer com que o leitor coloque em causa as suas certezas, sejamos crentes ou não. Não é por acaso que o livro causou tanta polémica aquando do seu lançamento, uma polémica que acabou por fazer com que Saramago emigrasse para a Espanha.
Temos assim um texto iconoclasta, irónico, erótico e crítico, um texto corrosivo que faz questão de questionar os cânones impostos pela Igreja Católica, que subverte por completo os episódios mais populares da vida de Jesus segundo os “interesses” do seu autor, que coloca em causa os alicerces da ideia de Deus e de Cristo, alicerces fundamentais para a existência da Igreja Católica.
No fundo, Saramago não “perdoa” Deus, que joga sem piedade o xadrez da vida, sempre tendo as suas crenças impiedosas como objetivo final. Para o ser supremo, o Homem não é mais do que um peão no seu tabuleiro, um peão que deve estar preparado para ser sacrificado de acordo com os seus desejos, mesmo que incompreensíveis. Neste jogo da vida, encontramos sempre à espreita o Diabo, que, muitas vezes, acaba por ser a verdadeira consciência, o lado racional da existência.
Mortes, violência, fúria, guerras, desavenças, etc. O legado de Deus é realmente mais do que questionável, a construção do seu reinado é mais do que devastador. Em resumo, em «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», Saramago coloca isso em xeque. E a verdade é que consegue um brilhante xeque-mate."

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nova edição da obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" - Porto Editora

Detalhe da capa da obra, com caligrafia do fotógrafo Sebastião Salgado


Obra lançada em 1991 e que aqui é brevemente retratada através da sinopse constante na página da Fundação José Saramago.

«É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)
«Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, afim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído.» (Lucas, 1, 1-4)

sábado, 14 de maio de 2016

Testemunho de uma carta recebida de Itália (Micaela Bottinelli) - "Cadernos de Lanzarote Diário IV" (26/09/1996)

26 de Setembro (de 1996)

"Uma carta de Varese (Itália). Escreve-a Micaela Bottinelli. Tem 27 anos, é licenciada em Filosofia e frequentou ultimamente um curso de direcção cénica na Escola de Arte Dramática Paolo Grassi de Milão. Descreve-me em pormenor dois estudos-espectáculos que concebeu e que foram representados na escola, um com o título 7 soli e 7 lune, sobre Memorial do Convento, outro com o título INRI, sobre O Evangelho segundo Jesus Cristo. Envia-me quatro desenhos de cena, que tenho pena de não poder reproduzir aqui, mas que não resistirei à tentação de emoldurar... Micaela Bottinelli assistiu à estreia de A Morte de Lázaro, na Igreja de São Marcos, em Milão, e diz-me que vai tentar arranjar maneira de assistir aos ensaios de Divara, que no princípio do próximo ano se há-de representar em Catânia. Começo a pensar seriamente se não deveria suspendera escrituração destes Cadernos e passar a publicar as cartas que recebo (e que em grande parte os alimentam), cobrando os seus signatários, naturalmente, os direitos de autor respectivos... Um volume dedicado, todo ele, à safra epistolar originada pelo Evangelho, por exemplo, seria um êxito literário e editorial que deixaria na sombra o romance e o autor dele... Em meu entender, não haverá obras verdadeiramente completas enquanto estiver a faltar-lhes o contraponto das opiniões escritas dos leitores. Ninguém escreveu a Eça de Queiroz? Ninguém, por carta, disse a José Rodrigues Miguéis o que pensava da Escola do Paraíso? Ninguém, tendo-se deslumbra-do com o Húmus de Raul Brandão, escreveu a dizê-lo? Pedem-se investigadores, pedem-se editores. A ideia é boa, aproveitem-na. Ou terão os escritores um coração tão duro, que rasgam as cartas depois de as lerem? 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 225 e 226 (26/09/1996)

domingo, 10 de abril de 2016

Juan José Tamayo "Saramago: Deus, Silêncio do Universo" - Revista Blimunda (edição #1)

Artigo de Juan José Tamayo - "Saramago: Deus, Silêncio do Universo", publicado na edição #1 da revista "Blimunda", aqui
em https://pt.scribd.com/doc/120464475/Blimunda-N-º-1-junho-2012

Durante os últimos cinco anos da vida de José Saramago tive o privilégio de usufruir da sua amizade, de partilhar experiências de fé e de não-crença, de solidariedade e de trabalho intelectual, em total sintonia. No momento de refletir sobre a sua personalidade, a primeira imagem que espontaneamente me vem à memória é a parábola que na tradição bíblica conhecemos como “O bom Samaritano”, que o evangelho de Lucas narra deste jeito:

“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu em poder dos salteadores, que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote, que, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o encheu-se de piedade. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho,colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: “Trata bem dele e o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” O doutor da Lei que lhe tinha feito a pergunta respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele.“Jesus retorquiu: “Vai e faz tu também do mesmo modo”. (Lc, 10, 29-37)


Esta parábola é, sem dúvida, uma das mais severas críticas à religião oficial, cheia de leguleio e insensível ao sofrimento humano; uma das denúncias mais radicais contra a casta sacerdotal e clerical, dependente do culto e alheia ao grito das vítimas, e um dos mais belos cantos à ética da solidariedade, da compaixão, da proximidade, da alteridade, da fraternidade-sororidade. Uma ética laica, por fim, não mediada por qualquer motivação religiosa. O sacerdote e o levita, funcionários de Deus, passam ao largo, pior ainda, dão uma volta maior para não auxiliar a pessoa maltratada. O samaritano, que estava fora da religião oficial e era considerado herege pelos judeus, aparece, aos olhos de Jesus e do próprio doutor da Lei, como exemplo a imitar por ter tido entranhas de misericórdia. Pelo seu comportamento humanitário, o herege converte-se em sacramento do próximo; pela sua atitude impiedosa, o sacerdote e o levita tornam-se anti sacramento de Deus; é a religião do avesso ou, se se preferir, a verdadeira religião, a que consiste em defender os direitos das vítimas, em caminhar pelo trilho da justiça e seguir a direção da compaixão. Assim entenderam a religião os profetas de Israel, os fundadores e reformadores das religiões.

O “fator Deus”

Saramago sempre se declarou ateu, e no seu ateísmo foi um crítico impenitente das religiões, dos seus atropelos, das suas falsidades, sobretudo das guerras e cruzadas convocadas, legitimadas e santificadas por elas em nome de Deus… Já se disse que as religiões, todas elas, sem exceção… foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de matanças de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana”. Com a história na mão, quem vai negar tamanha verdade?

Mas a crítica de Saramago vai mais além e chega ao coração das religiões, a Deus mesmo, em cujo nome, afirma, “se permitiu e justificou tudo, principalmente o pior, o mais horrendo e cruel”. E dá como exemplo a Inquisição, que compara com os talibãs de hoje, qualifica como "organização terrorista” e acusa de interpretar perversamente os seus próprios textos sagrados nos quais dizia acreditar, até fazer um casamento monstruoso entre a Religião e o Estado “contra a liberdade de consciência e o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que é só isso o que a palavra heresia significa”. Esta denúncia de Deus situa-se dentro das mais importantes e incisivas críticas da religião de ontem, como a de Epicuro e Demócrito, a de Jesus de Nazaré e a do cristianismo primitivo, como a dos mestres da suspeita, e de hoje, como a dos cientistas.

Mas, mesmo quando pensa que os deuses só existem no cérebro humano, o prémio Nobel português preocupa-se com os efeitos do “fator Deus” – título de um dos seus mais célebres e celebrados artigos-, que está presente na vida dos seres humanos, crentes ou não,como se fosse dono e senhor dela, se exibe nas notas de dólar, intoxicou o pensamento e abriu as portas às mais sórdidas intolerâncias. O "Fator Deus” em que se converteu o Deus islâmico nos atentados contra as Torres Gémeas ao grito de “Morte aos infiéis!” de Osama Bin Laden. 


Juntamente com a crítica da religião, de Deus e do “fator Deus”,cabe destacar o sentido solidário da vida que caracterizou Saramago. A partir da filantropia e sem qualquer apoio religioso, foi o defensor das causas perdidas, algumas das quais foram ganhas graças ao seu apoio. Cito apenas três, de entre as mais emblemáticas. Uma era a solidariedade para com o povo palestiniano perante o massacre de que foi objeto entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009 por parte do exército israelita que causou 1400 mortos e que o Nobel português qualificou como genocídio. A segunda, o acompanhamento e apoio à dirigente sarauí Aminatu Haidar durante a sua greve de fome no aeroporto de Lanzarote. A terceira, ter destinado os direitos de autor do seu último romance às vítimas do terramoto do Haiti.

Quando relia Caim, vieram-me à memória as palavras de Epicuro:“Vã é a palavra do filósofo que não seja capaz de aliviar o sofrimento humano”. No caso de Saramago, as suas palavras e os seus textos não foram vãos. Foram carregados de solidariedade e de compromisso para com as pessoas mais vulneráveis. Por isso me atrevo a chamar-lhe respeitosamente “bom samaritano”.

“Deus é o silêncio do universo”

“Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá senti-do a esse silêncio”. Esta definição que Saramago dava de Deus é uma das mais belas que alguma vez li ou ouvi. Li-a nos seus Cadernos de Lanzarote, de 1993, e dei-a a conhecer por onde quer que eu falasse de Deus. O próprio Saramago o recorda em O Caderno: “Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos Cadernos de Lanzarote umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Península, especialmente Juan José Tamayo, que desde então, generosamente me deu a sua amizade. Foram estas: “Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu quantum satis de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de se aventurar pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que seja elementar” (Alfaguara, Madrid, 2009, pp. 152-153).

Esta definição merecia figurar entre as vinte e quatro definições – vinte e cinco, com ela – de outros tantos sábios reunidos num Simpósio que o Libro de los 24 filósofos (Siruela, Madrid, 2000) reco-lhe, e cujo conteúdo foi objeto de um amplo debate entre filósofos e teólogos durante a Idade Média. Para um teólogo heterodoxo como eu, seguidor das místicas e dos místicos judeus, cristãos, muçulmanos como o Pseudo-Dionísio, Rabia de Bagdad, Abraham Abufalia, Algazel, Ibn al Arabi, Rumi, Hadewijch de Antuérpia, Margarita Porete, Hildegard von Bingen, Mestre Eckhardt, Juliana de Norwich, João da Cruz, Teresa de Jesus, Baal Shem Tov) cristãos laicos como Dag Hammarksjlöd, hindus como Tukaram e MohandasK. Gandhi e não crentes como Simone Weil, é mais que suficiente. Dizer mais seria uma falta de respeito para com Deus, acredite-se ou não na sua existência. “Se compreenderes – dizia Agostinho de Hipona – não é Deus”.

Permitam-me contextualizar a definição tal como a vivi há pouco mais de um lustro. Caminhávamos pelas ruas de Sevilha no dia 11 de Janeiro de 2006, o escritor e prémio Nobel José Saramago, a sua esposa, a jornalista Pilar del Río, hoje entre nós, a pintora Sofía Gandarias e eu em direção ao Paraninfo da Universidade Hispalense para participar num Simpósio sobre Diálogo de Civilizações e Modernidade. Às 9 da manhã, ao passar pela plaza de la Giralda, os sinos da catedral de Sevilha – antes mesquita, mandada construir pelo califa almóada Abu Yacub Yusuf - começaram a repicar louca-mente. “Os sinos tocam porque passa um teólogo”, disse Saramago com o seu habitual sentido de humor. – “Não – respondi-lhe no mesmo tom – os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”. Nesse diálogo fugaz, a resposta do romancista português não se fez esperar: “Isso nunca. Fui ateu toda a minha vida e continuarei a sê-lo no futuro”. Veio-me à mente de imediato uma poética definição de Deus que lhe citei sem hesitação:“Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Essa definição é minha”, reagiu sem demora o Prémio Nobel. “Efetivamente, por isso é que a citei – respondi-lhe. E essa definição está mais perto de um místico que de um ateu”.A minha observação impressionou-o. Nunca ninguém lhe tinha dito nada parecido e deu-lhe que pensar, sem que por isso se tivesse deixado levar pela minha ocorrência. Era um homem de convicções profundas.

Em luta titânica com Deus

Saramago partilhou com Nietzsche a parábola de Zaratustra e o apólogo do Louco sobre a morte de Deus e talvez pudesse assinar por baixo de duas das afirmações mais provocadoras: “Deus é a nossa mais longa mentira” e “o melhor é nenhum deus, o melhor é cada um construir o seu destino”. Talvez tivesse a mesma opinião que Ernst Bloch em que “o melhor da religião é ela criar hereges” e que“só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”. A sua vida e a sua obra foram uma luta titânica com Deus num braço de ferro.

No seu romance Caim, Saramago recria a imagem violenta e sanguinária do Deus da Bíblia judaica, “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”, no dizer de Norbert Lo-hfink, um dos mais prestigiados biblistas do século XX. Imagem que continua nalguns textos da Bíblia cristã, onde Cristo é apresentado como vítima propiciatória para reconciliar a humanidade com Deus e que se repete no teólogo medieval Anselmo de Cantuária, que apresenta Deus como dono de vidas e bens e como um senhor feudal, que trata os seus adoradores como se se tratasse de servos da gleba e exige o sacrifício do seu filho mais querido, Jesus Cristo, para reparar a ofensa infinita que a humanidade cometeu contra Deus”.

O Deus assassino de Caim continua presente em muitos dos rituais bélicos do nosso tempo: nos atentados terroristas cometidos por falsos crentes muçulmanos que em nome de Deus praticam a guerra santa contra os infiéis; nos dirigentes políticos auto qualificados como cristãos, que apelam a Deus para justificar o derramamento de sangue de inocentes em operações que têm o nome de Justiça Infinita ou Liberdade Duradoura; em políticos israelitas que, julgando-se o povo escolhido de Deus e únicos proprietários da terra que qualificam como “prometida”, levam a cabo operações de destruição em massa de territórios, erguem muros carcerários e perpetuam assassínios, calculados impunemente, de milhares de palestinianos.

Depois destas operações, Saramago não podia senão estar de acordo com o testemunho do filósofo judeu Martin Buber: “Deus é a palavra mais vilipendiada de todas as palavras humanas. Nenhuma tem sido tão manchada, tão mutilada… As gerações humanas fizeram cair sobre esta palavra o peso da sua vida angustiada, e oprimiram-na contra o chão. Jaz no pó e suporta o peso de todas elas. As gerações humanas, com os seus partidarismos religiosos, dilaceraram esta palavra. Mataram e deixaram-se matar por ela. Esta palavra tem as suas impressões digitais e o seu sangue… Os homens desenham um boneco qualquer e escrevem por baixo a palavra “Deus”. Assassinam-se uns aos outros e dizem: “fazemo-lo em nome de Deus”… Devemos respeitar os que proíbem esta palavra, porque se revoltam contra a injustiça e os excessos que com tanta facilidades e cometem com uma suposta autorização de “Deus”. Eu também ponho a minha rubrica por baixo desta afirmação de Buber. Por isso muito raramente ouso pronunciar o nome de Deus.

A luta contra os fundamentalismos, os religiosos e os políticos, é o melhor antídoto contra o Deus violento e contra a violência em nome de Deus. Saramago esteve comprometido nessa luta não violenta de pensamento, palavra e obra.

Efetivamente, a vida e a obra de Saramago foram uma permanente luta titânica com-contra Deus. Como fora a do Job bíblico – “o Prometeu hebraico”, para Bloch -, que maldiz o dia em que nasceu, sente nojo da sua vida e ousa perguntar a Deus, em tom desafiante, porque é que o ataca tão violentamente, porque é que o oprime de maneira tão desumana e porque é que o destrói sem piedade (Job,10). Ou como o patriarca Jacob, que passou uma noite inteira num braço de ferro com Deus e acabou com o nervo ciático ferido (Génesis 32, 23-33). Não é o caso de Saramago, que saiu incólume das brigas com Deus e nunca se deu por vencido e que aos seus 87 anos continuou, em Caim, a perguntar-se e a perguntar aos teólogos e crentes que diabo de Deus é este que, para enaltecer Abel, tem de desprezar Caim.

Familiarizado com a Bíblia, a judaica e a cristã, recria com humor, um humor iconoclasta do divino e desestabilizador do humano, algumas das suas figuras mais emblemáticas e desmente as histórias com que, segundo León Felipe, “embalaram o berço do homem” (sic). Fê-lo em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, romance que apresenta Jesus de Nazaré como um homem que vive, ama e morre como qualquer outra pessoa e a quem Deus escolhe como elo de um imenso movimento estratégico e como vítima de um poder que o ultrapassa e acerca do qual nada pode fazer.

Voltou a fazê-lo no romance já citado, Caim, onde recria literária e teologicamente o mito bíblico, que vai buscar as suas imagens e símbolos às tradições mais antigas sobre as origens da humanidade. A Bíblia apresenta Caim como o assassino do seu irmão Abel, impelido pela inveja, e Deus, como “perdoa-vidas”. Saramago inverte os papéis do bom e do mau, do assassino e do juiz. Responsabiliza deus, o senhor (sempre com minúscula) pela morte de Abel e acusa-o de ser rancoroso, arbitrário e enlouquecedor das pessoas. Caim mata o seu irmão não arbitrariamente, mas sim em legítima defesa, porque deus o tinha preterido em seu favor. E mata-o porque não pode matar deus. Partilhe-se ou não da leitura que Saramago faz da Bíblia judaica, creio que temos de estar de acordo com ele em que “a história dos homens é a história dos seus desencontros com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. Excelente lição de contra-teologia em tempos de fundamentalismos religiosos!

Qualquer que tenha sido a responsabilidade de Caim ou de Deus na morte de Abel, fica de pé a pergunta que hoje continua tão viva como então ou mais e que apela à responsabilidade da humanidade na atual desordem mundial, nas guerras e nas fomes que assolam o nosso planeta: “Onde está o teu irmão?” (Génesis 4, 9). E a resposta não pode ser um evasivo “Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?”, mas sim, continuando com a Bíblia, a parábola evangélica do Bom Samaritano, que demonstra compaixão para com uma pessoa maltratada, e que é religiosamente sua adversária. Excelente lição de ética solidária nestes tempos em que a ética está submetida ao assédio do mercado!

Juan José Tamayo
Diretor da Cátedra de Teologia e Ciências das Religiões
Universidade Carlos III de Madrid
Tradução de Artur Guerra