Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 5 de julho de 2015

Actualização da "Biblioteca" com referência ao estudo da obra de José Saramago

Actualização da "Biblioteca" com referência ao estudo da obra de José Saramago
Data 01/07/2015

(Autografo de José Saramago na obra de teatro
"Que Farei com Este Livro?", a 17/05/1998)

Livros referentes à temática "Saramaguiana"
Democracia e Universidade – Ensaio (Fundação José Saramago e ed.ufpa – 2013)
Chamo-me… José Saramago – Infantil - Cidália Fernandes (Didáctica Editora – 2010)
Conversas com José Saramago – Entrevistas – José Carlos de Vasconcelos (JL – 2010)
José Saramago da Cegueira à Lucidez – António José Borges (Zéfiro – 2010)
José Saramago Nas suas Palavras – Fernando Gómez Aguillera (Caminho – 2010)
Correspondência 1959-1971 José Saramago | José Rodrigues Miguéis (Caminho 2010)
Lanzarote A Janela de Saramago – João Vilhena (Porto Editora – 2014)
Biografia de José Saramago – João Marques Lopes (Guerra e Paz – 2011)
José e Pilar Conversas Inéditas – Miguel Gonçalves Mendes (Quetzal – 2011)
Saramago: A Consistência dos Sonhos – Fernando Gómez Aguilera (Caminho - 2008)
Revista de Estudos Saramaguianos - (Patuá Editora – Novembro 2014)
Dicionário de Personagens da Obra de José Saramago – Salma Ferraz (Edifurb – 2012)
Colóquio Letras, n.º 151/152 (01-06/1999) – José Saramago o Ano de 1998
Palavras para Saramago – (Caminho e Fundação José Saramago – 2011)
A Viagem do Elefante Banda Desenhada – João Amaral (Porto Editora – 2014)
Uma Longa Viagem com José Saramago – João Céu e Silva (Porto Editora – 2009)
"Apontamentos sobre a cidade saramaguiana" - Horácio Costa (Universidade de São Paulo)
José Saramago e a tradição do romance histórico em Portugal - Horácio Costa (Revista USP, São Paulo, dez./fev. 1998/99)
Lucerna, n.º 0, (04/2014) Versão digital impressa – dará lugar a “Blimunda” no n.º 1
"Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens", de Pedro Fernandes
Caderno-revista de poesia (07/2011) "Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago"
Caderno-revista de poesia (07/2011) Encarte "Um ensaio itinerante para ler José Saramago, paisagens"
A Espiritualidade Clandestina de José Saramago - Manuel Frias Martins (Fundação José Saramago)
Retratos para a Construção do Feminino na Prosa de José Saramago - Pedro Fernandes (Editora Appris)
O essencial sobre José Saramago - Maria Alzira Seixo (INCM)
Diálogos com José Saramago - Carlos Reis (Porto Editora, 2015 reedição do original de 1998, via Caminho)
José Saramago A luz e o Sombreado - Fernando Venâncio (Campo das Letras, 2000)
A Viagem do Elefante por Viseu Dão Lafões (2014)
"José Saramago El viaje del elefante - diseño e ilustraciones de Manuel Estrada" - Alfaguara 2010 (Tradução de Pilar del Río)

(Selo emitido pelos CTT, em homenagem à atribuição do Prémio Nobel, 
como valor facial de 200$00 - Dez./1998)

Revistas e Jornais
A Bola Magazine, n.º 138 – 11/1998 – Entrevista “Vamos lá falar de futebol”
Actual Expresso, n.º 1965 – (26/06/2010) – Reportagem
Actual Expresso, n.º 2014 – (03/06/2011) – Entrevista a Pilar del Río
Actual Expresso, n.º 2187 – (27/09/2014) – Reportagem sobre o inédito “Alabardas Alabardas”
Actual Expresso, recorte (20/04/2013) – “Um movimento de escavação”
Actual expresso, recorte (30/08/2014) – Lídia Jorge em análise a “Alabardas Alabardas…”
Actual Expresso, recorte, (30/12/2010) – “O Ano da Morte de José Saramago” de J. Mário Silva
Actual Expresso, recorte, (não datado) – Cartaz promoção do filme “José e Pilar”
Blimunda, Edição Impressa Junho 2014 (autografada por Pilar del Río)
Camões Revista de Letras, n.º 3 – (1998) – Estudo sobre Saramago
Caras, recorte (não datado) – Reportagem no lançamento de “A Claraboia”
Courrier Internacional, n.º 127 – (07/09/2007) – Reportagem no “The New York Times”
DN, (16/11/2012) – Ensaio Inédito – “Verdade e Ilusão Democrática”
DN, n.º 51.572 – (19/06/2010) – Reportagem
DN, n.º 51.574 – (21/06/2010) – Reportagem
DN, n.º 51.622 – (08/08/2010) – Entrevista a Pilar del Río
DN, recorte, 12/11/2014 – João Amaral e “A Viagem do Elefante” em BD
Expresso - Grandes Entrevistas da História, n.º 6 (1991-2006) Entrevista de Clara Ferreira Alves em (2/11/1991)
Expresso, recorte (não datado) – Inês Pedrosa “A aliança”
Fnac, recorte (não datado) – Entrevista a Pilar del Río, lançamento de “A Claraboia”
JL / Visão, 19/06/2010 – Edição conjunta – Número especial
Jornal de Letras, n.º 1000 – (28/01/2009) - Edição comemorativa – Crónica “Esperança”
Jornal de Letras, n.º 1073 – (16/11/2011) – “José e Pilar – Saramago continua”
Jornal de Letras, n.º 1147 – (17/09/2014) - Reportagem sobre o inédito “Alabardas Alabardas”
Jornal de Letras, nº 1037 – (30/06/2010) - Reportagem
Jornal de Letras, nº 704 – (08/10/1997) – Reportagem “Portugal em Frankfurt”
Jornal de Letras, nº 800 – (30/05/2001) – “Harold Bloom em Portugal com Saramago”
Jornal de Letras, nº 841 – (24/12/2002) – Crónica de Carlos Reis
LIV do Jornal I, recorte (10/04/2014) – Reportagem “Estrada fora na Lanzarote de Saramago”
LIV do Jornal I, recorte (16/10/2010) – Entrevista a Pilar del Río
Notícias Magazine, n.º 1039 – 22/04/2012 – “Pilar sem Saramago”
Playboy Portugal, n.º 16 – 07/2010 – Entrevista de Humberto Werneck”
Público Suplemento P2, (26/06/2010) – Reportagem
Público, n.º 7380 (19/06/2010) – Reportagem
Público, n.º 7381 (20/06/2010) – Reportagem
Público, recorte (26/06/2010) – Notícia de Isabel Coutinho
Revista Caras, recorte, 04/03/2012 – Entrevista a Pilar del Río
Revista DN (150 anos), n.º 4 - "José Saramago - O Verão Quente do Diário de Notícias"
Revista Expresso "100 Portugueses 4.º Volume" - de Luísa Mellid-Franco "José Saramago - A serenidade do conhecimento das coisas"
Revista Expresso Única, n.º 1818 – 1/09/2007 – “Pilar de Saramago”
Revista Expresso Única, n.º 1876 – 11/10/2008 – “Pilar del Río entrevista José Saramago”
Revista Expresso, n.º 1355 – 17/10/1998 – Diversos “Prémio Nobel 1998)
Revista Flash, recorte (??/11/2010) – Entrevista a Pilar del Río
Revista Ler, n.º 43 - 1.º Edição Verão/Outono 1998
Revista Ler, n.º 70 – 06/1998 – “O Nobel é uma invenção diabólica”
Revista Ler, n.º 93 – 07/08 2010 – “O autor está no livro todo”
Revista Tabu, n.º 84 – 19/04/2008 – “José Saramago Sou um sentimental”
Revista VIP, recorte (??/06/2011) – Reportagem “Um ano sem Saramago”
Sábado, n.º 321 – 24/06/2010 – Número especial
Todos os Nomes do Homem Duplicado ou o Caos é uma Ordem por Decifrar de Eula Carvalho Pinheiro
Vértice, n.º 14, II Série, 05/1989 - Entrevista com José Saramago (diálogo com Manuel Gusmão)
Vértice, n.º 168, II Série, 07-09/2013 – Estudo e Projecto “Oficina Saramago”
VidaMundial, n.º 10 (11/1998) - Linguagem e História segundo José Saramago de Manual Gusmão

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

José Saramago e o seu texto no caderno/blog sobre "Eduardo Lourenço" (e notícia "BN adquire seu espólio")

No dia em que é anunciada a compra do espólio, do ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, pela Biblioteca Nacional, recupero aqui, um texto de José Saramago, onde de forma graciosa, fala dos afectos que os unia e do apreço e estima, que por ele evidencia.



"Biblioteca Nacional adquire espólio do ensaísta Eduardo Lourenço"

Notícia, via Lusa e RTP sobre a aquisição do espólio, que pode ser consultada, aqui

"O espólio do ensaísta português Eduardo Lourenço, que inclui milhares de documentos, como manuscritos inéditos e correspondência, foi adquirido pela Biblioteca Nacional, revelou hoje a Secretaria de Estado da Cultura (SEC).
"Trata-se de um bem cultural fundamental para a investigação filosófica, literária, histórica e sociológica não só da obra de Eduardo Lourenço, mas do pensamento português dos séculos XX e XXI", afirma a tutela em comunicado, sem revelar o valor da compra.
O espólio inclui "uma grande quantidade de manuscritos do autor, alguns deles inéditos", desde finais dos anos 1940 até à atualidade, e "mais de 11.000 documentos referentes a correspondência" que Eduardo Lourenço manteve com figuras como Jorge de Sena, Vergílio Ferreira e Sophia de Mello Breyner Andresen.
O espólio passa a integrar o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional e o seu acesso está limitado, por enquanto, aos investigadores que trabalham na publicação da obra completa do ensaísta pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Eduardo Lourenço de Faria, de 91 anos, ensaísta e crítico, estudou na Universidade de Coimbra, onde deu aulas até sair do país, na década de 1950, fixando-se desde então entre França e Portugal.
Prémio Camões (1996) e Prémio Pessoa (2011) - só para citar duas das várias distinções do autor - Eduardo Lourenço escreveu obras como "Heterodoxias", "Tempo e poesia", "O fascismo nunca existiu" e "O labirinto da saudade - Psicanálise mítica do destino português".
A par do plano editorial da Gulbenkian, a Gradiva tem vindo a publicar, desde 1999, a obra de Eduardo Lourenço, planeando para este ano seis títulos do autor, entre os quais "Do Brasil: Fascínio e miragem", com textos escritos entre 1945 e 2012.
Em 2014, o ensaísta foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Este mês, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, afirmou no Parlamento que o Estado tem tido capacidade financeira para adquirir espólios literários recorrendo a verbas do Fundo de Fomento Cultural.
No final do ano passado, o Estado adquiriu o espólio o escritor Almeida Garrett, da coleção Futscher Pereira.
Na Biblioteca Nacional estão também depositados, entre outros, os espólios dos escritores António Ramos Rosa, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e de Fernando Namora, do compositor Joly Braga Santos, da compositora Constança Capdeville e do pensador Delfim Santos."


“O nosso grande problema, enquanto portugueses, neste fim de século, é integrar a realidade, a banal realidade europeia, com os seus imperativos de organização, de competitividade, de invenção. Sem perder um certo arcaísmo, um certo perfume de vida que se lembra ainda do seu passado rural, vida banhada da doce luz da Finisterra.”

em "A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia", Lisboa, Gradiva, 1999
Eduardo Lourenço

Mais informação sobre o autor em:
http://www.eduardolourenco.com/index.html (site não oficial)
http://www.eduardolourenco.uevora.pt/ (projecto da Universidade de Évora)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Lourenço (via Wikipédia)


O texto de José Saramago, sobre Eduardo Lourenço, pode ser consultado, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/5878.html

"Eduardo Lourenço"

"Sou devedor contumaz de Eduardo Lourenço desde 1991, precisamente há dezassete anos. Trata-se de uma dívida um tanto singular porque, sendo natural que ele, como lesado, não a tivesse esquecido, já é menos habitual que eu, o lesante, ao contrário do que com frequência sucede em casos semelhantes, nunca a tenha negado. Porém, se é certo que jamais me fingi distraído da falta, há que dizer que ele também não consentiu que eu me deixasse enganar pelos seus silêncios tácticos, que de vez em quando interrompia para perguntar: “Então essas fotografias?” A minha resposta era sempre a mesma: “Ó diabo, tenho tido muito trabalho, mas o pior de tudo é que ainda não pude mandar fazer as cópias”. E ele, tão invariável como eu: “As fotografias são seis, tu ficas com três e dás-me as restantes”, “Isso nunca, era o que faltava, tens direito a todas”, respondia eu, hipocritamente magnânimo. Ora, é tempo de explicar que fotografias eram estas. Estávamos, ele e eu, em Bruxelas, na Europália, e andávamos por ali como quaisquer outros curiosos, de sala em sala, comentando as belezas e as riquezas expostas, e connosco ia o Augusto Cabrita, de máquina em riste, à procura do instantâneo imortal. Que pensou haver encontrado num momento em que Eduardo Lourenço e eu nos havíamos detido de costas para uma tapeçaria barroca sobre um tema desses históricos ou míticos, não sei bem. “Aí”, ordenou Cabrita com aquele ar feroz que têm os fotógrafos em situações de alto risco, como imagino que eles as consideram. Ainda hoje estou sem saber que diabinho me levou a não tomar a sério a solenidade do momento. Comecei por compor a gravata do Eduardo, depois inventei que os óculos dele não estavam bem ajustados e dediquei-me a pô-los no seu sítio, de onde nunca haviam saído. Começámos a rir-nos como dois garotos, ele e eu, enquanto o Augusto Cabrita aproveitava, com sucessivos disparos, a ocasião que lhe tinha sido oferecida de bandeja. Esta é a história das fotografias. Dias depois o Augusto Cabrita, que morreria passados dois anos, mandou-me as imagens tomadas, crendo, decerto, que elas ficariam em boas mãos. Boas eram, ou não de todo más, mas, como já deixei explicado, pouco diligentes.Tempos depois deu-me para escrever o romance Todos os Nomes, o qual, conforme pensei então e continuo a pensar hoje, não poderia ter melhor apresentador que o Eduardo. Assim lho fiz saber, e ele, bom rapaz, acedeu imediatamente. Chegou o dia, a sala maior do Hotel Altis a rebentar pelas costuras, e do Eduardo Lourenço nem novas nem mandadas. A preocupação respirava-se no ar carregado, algo deveria ter sucedido. Além disso, como toda a gente sabe, o grande ensaísta tem fama de despistado, podia ter-se equivocado de hotel. Tão despistado, tão despistado que, quando finalmente apareceu, anunciou, com a voz mais tranquila do mundo, que tinha perdido o discurso. Ouviu-se um “Ah” geral de consternação, que eu, por obra dos meus maus instintos, não acompanhei. Uma suspeita atroz me havia assaltado o espírito, a de que o Eduardo Lourenço decidira aproveitar a ocasião para se vingar do episódio das fotografias. Enganado estava. Com papéis ou sem eles, o homem foi brilhante como sempre. Pegava nas ideias, sopesava-as com o falso ar de quem estava a pensar noutra coisa, a umas deixava-as de lado para um segundo exame, a outras dispunha-as num tabuleiro invisível esperando que elas próprias encontrassem as conexões que as potenciariam, entre si e com alguma da segunda escolha, mais valiosa afinal do que havia parecido. O resultado final, se a imagem é permitida, foi um bloco de ouro puro.A minha dívida tinha aumentado, ultrapassara em tamanho o buraco de ozono. E os anos foram passando. Até que, há sempre um até que para nos pôr finalmente no bom caminho, como se o tempo, depois de muito esperar, tivesse perdido a paciência. Neste caso foi a leitura recente de um ensaio de Eduardo Lourenço, Do imemorial ou a dança do tempo, na revista “Portuguese Literary & Cultural Studies 7” da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Resumir essa extraordinária peça seria ofensivo. Limitar-me-ei a deixar constância de que as famosas cópias já se encontram finalmente em meu poder e de que o Eduardo em poucos dias as receberá. Com a maior amizade e a mais profunda admiração." (13 de Outubro de 2008)

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"Memorial do Convento" e o episódio do "abade do norte" na alusão ao povo de Mafra

Da magnífica obra de João Céu e Silva, vários episódios podem ser recordados ou descobertos. Desta feita, a menção à alusão que Saramago inscreveu no seu "memorial", onde por palavras com origem num livro de Camilo Castelo Branco, este recupera a famosa carta de um abade beneditino de Tibães. Eis, algumas passagens alusivas à entrevista e ao excerto do texto.



"Está a falar da preparação do "Memorial do Convento", livro que, apesar do sucesso mundial, não deixou algumas pessoas de Mafra muito satisfeitas? 
O problema foi ter incluído uma carta de um abade do Norte, um beneditino acho, que criticava aquela obra gigantesca e o modo como milhares e milhares de pessoas foram levadas até lá para a fazer. 0 Camilo Castelo Branco escreveu um livro em que falava dessa carta e onde se dava a cada uma das letras que fazem a palavra Mafra um significado. Como fiz referência a este abade, quem era e o que tinha dito exactamente, isto foi transformado em algo que eu tinha dito em vez de se atribuir ao verdadeiro autor como eu fizera. Disseram que eu caluniara e que insultara os habitantes de Mafra! Ainda me ocorreu dizer «Olhem lá! Eu não disse isso», mas mesmo que mostre que não é verdade serei sempre aquele que fez isto, aquilo e aqueloutro. Ninguém aceita as provas em contrário ou os factos que se apresentem, transformou-se numa espécie de lenda urbana ou campestre. O Saramago disse isto ou o Saramago disse aquilo e ninguém vai realmente ver se foi verdade.

Sente-se injustiçado com as coisas que dizem sobre si? 
Injustiçado?! Para isso era preciso que essa gente soubesse o que significa justiça! São simplesmente caluniadores, mentirosos e nada mais. Nem vou dar grandes nomes a essas atitudes."

em, Uma longa viagem com José Saramago
de João Céu e Silva
Porto Editora, página 183 

(fotografia do interior da Biblioteca do Convento de Mafra)
Referência à descrição da biblioteca, 

"O maior tesouro de Mafra é sua biblioteca (c.1730) que, juntamente com a biblioteca de Coimbra, representam o que de mais belo e elegante há nesse tipo de arquitetura em Portugal.
As prateleiras, feitas em madeira brasileira, medem, ao todo, 83 metros de extensão. Entalhadas em estilo rococó, as estantes abrigam mais de 40 mil obras; entre elas vemos verdadeiras raridades bibliográficas, como os incunábulos.
Todas as encadernações em couro marroquino gravado a ouro, são prova viva de que as bibliotecas antigas são, na verdade, porta-jóias que guardam jóias.
A sala imensa, com 88 m de comprimento, 9,5m de largura e 13m de altura, recebe iluminação natural que até hoje impressiona pela perfeição com que a luz do dia foi aproveitada, invadindo o salão e iluminando o piso principal e a galeria, através de enormes janelas que além de funcionais, são muito belas.
A biblioteca tem planta em cruz; na parte mais a sul, ficam os livros religiosos, com manuscritos religiosos ainda em pergaminho. Prática habitual nas bibliotecas antigas, os códices e incunábulos eram acorrentados, como podemos ver na foto à esquerda.
No centro, encontramos os livros sobre os quais a inquisição tinha reservas, que vão da filosofia à anatomia, e entre eles uma preciosa relíquia: o manuscrito do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente.
Na parte a norte da cruz, perto da entrada, estão os livros de arquitetura, direito, medicina e música. Ali fica uma primeira edição de "Os Lusíadas", impressa em 1572.
Na foto abaixo uma mesa especial para o estudo e desenho de mapas; não consegui descobrir seu nome, e olhem que já fui a Mafra algumas vezes... E quantas mais pudesse ir, iria: tudo lá é um verdadeiro deslumbramento!"


Aqui remeto para o importante desta alusão.
O episódio do abade beneditino
Excerto da obra "Memorial do Convento"

"De madrugada, muito antes de nascer o sol, e ainda bem, porque estas horas são sempre as mais frias, levantam-se os trabalhadores de sua majestade, enregelados e famintos, felizmente os libertaram das cordas os quadrilheiros, porque hoje entraremos em Mafra e causaria péssimo efeito o cortejo de maltrapilhos, atados como escravos do Brasil ou récua de cavalgaduras. Quando de longe avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra, que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão pouco sabem da sua cruzadia. Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacionais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizemos eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitura se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para acabar, por causa dele é que vocês vieram das longes terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em ,tempo de transição, e agora que já viram o que vos espera, sigam lá para adiante, que nós, ficando vocês entregues, vamos buscar mais."

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 295

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Quadro da autoria do artista plástico Jiří "Georg" Dokoupil, na Biblioteca de José Saramago (Tías, Lanzarote)

(Quadro da autoria do artista plástico, Jiří "Georg" Dokoupil)

Extracto do texto de apresentação da biblioteca de José Saramago - Tías, Lanzarote
"A biblioteca é dominada por um retrato de José Saramago e da sua esposa, da autoria do pintor checo Jiri Dokoupil, que plasma um momento da apresentação do livro As Pequenas Memórias, que o artista viu num jornal e que, “como tudo pode ser contado de outra maneira”, como dizia Saramago, o pintor aplicou numa tela, realizando com fumo de uma vela e tinta amarela uma obra moderna e bela na qual o escritor se revia com muito gosto."



Pode ser obtida mais informação, via Wikipédia, 
"Jiří "Georg" Dokoupil (born 3 June 1954) is a contemporary Czech artist. He was founding-member of the German artist groups Mülheimer Freiheit and Junge Wilde, which arose in the late 1970s and early 1980s.
Dokoupil lives and works between Berlin, Madrid, Prague, Rio de Janerio and Santa Cruz de Tenerife." (...)



Biblioteca d'A Casa, em Lanzarote, "Um altar à literatura" nas palavras de Stephanie Merritt (30/04/2006)

A biblioteca José Saramago, na sua casa em Lanzarote.
A este propósito, João Céu e Silva, em "Uma longa viagem com José Saramago", página 137, faz uma nota de rodapé à entrevista ao jornal "The Observer", realizada por Stephanie Merritt, em 30 de Abril de 2006.
Refere a jornalista: «A arquitectura da biblioteca de José Saramago, pela forma como se ergue na encosta de uma colina na sua ilha adoptiva de Lanzarote, dá a impressão de ser uma catedral moderna. A luz do sol entra por estreitas janelas altas de vidro opaco que abrangem os dois andares; as nuas paredes brancas e a fresca pedra contribuem para uma sensação de reverência na presença de tantos volumes, antigos e modernos, em tantas línguas diferentes. É um altar à literatura, uma religião alternativa para o Nobel português, o qual deixou a sua pátria há 14 anos em protesto contra a censura governamental do seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (...)»

(Esta biblioteca não nasceu para guardar livros, mas sim para acolher pessoas. - José Saramago)

Nas palavras de Saramago, a implementação da biblioteca pode ser encontrada na página 203 ("Uma longa viagem com José Saramago", João Céu e Silva - Porto Editora), onde são já visíveis, os esboços e planos para a concretização deste espaço.

"É também a Universidade de Granada que está a organizar a sua biblioteca?
- Sim. A biblioteca é para ficar em Lanzarote até que a Fundação seja extinta. Enquanto a Pilar for viva ela administrará a Fundação - eu já cá não estarei mas a coisa continuará -, não sei quantos anos irá durar a Instituição, mas se um dia acabar, os seus bens pertencerão à Biblioteca Nacional de Lisboa à excepção da biblioteca que será levada para a Universidade de Granada, onde constituirá um núcleo de literatura que tem a ver com a própria cátedra que se vai criar. Aliás, a Universidade já destacou funcionários para trabalhar na catalogação em Lanzarote."


Agora, atravessamos mares, e vamos em direcção à casa propriamente dita. 
Situada em Tías, cidade próxima de Arrecife, capital de Lanzarote, fica localizada a poucos quilómetros do aeroporto.

Todas as informações podem ser encontradas no site da "Casa", 

Transcrição do maravilhoso texto de apresentação da biblioteca, 

"Diz José Saramago que aos livros, há que abri-los com cuidado, porque têm dentro o autor, com toda a sua sensibilidade, com tudo o que o fez ser único e irrepetível. Diz que há que passar a ponta dos dedos pelas lombadas dos livros comum gesto cúmplice, dizer-lhes, aos escritores, que não estão esquecidos e demonstrá-lo voltando a eles, hoje um livro, amanhã outro, para que não desesperem enquanto nos aguardam e nos chamam. Esta biblioteca tem gente nas estantes e Saramago pensava passar com ela muito tempo, vir aqui para ler e conversar com os seus contemporâneos ou com os que os haviam precedido. Mas tal não foi possível. O projecto foi cortado porque a morte não é inteligente nem compassiva.

Saramago vinha à biblioteca todas as manhãs. Sentava- se na mesa da frente depois de ter colocado um disco, talvez Bach, e começava o seu trabalho de escritor lendo as últimas palavras que tinha deixado acabadas e impressas. Corrigia pouco, quase nada, porque quando escrevia tinha já a história e, inclusivamente, as palavras, ordenadas na sua cabeça. “Escrever, dizia, é como fazer uma cadeira, as quatro pernas têm que assentar no chão, deve estabelecer-se uma certa harmonia entre as várias partes, ser bela, se o talento chegar para tanto”..E então começava o ritual: reorganizar os objectos em cima da mesa, ligar o computador, recostar-se no seu cadeirão, unir as mão, olhar em seu redor, começar a escrever. E de fora ouvia-se o som leve do teclado, um ritmo lento, cadenciado, sem grandes pausas, sem ruídos. Não fumava, não precisava de um café, talvez água, quase sempre esquecida a um dos lados da mesa. Escrever, dizia, é como fazer uma cadeira, as quatro pernas têm que assentar no chão, deve estabelecer-se uma certa harmonia entre as várias partes, ser bela, se o talento chegar para tanto. E assim, como um artesão, ia criando páginas que já estão na História da Literatura, enquanto à sua volta todos se envolviam noutras tarefas mais prosaicas, como catalogar livros, abrir correspondência e receber visitas, conscientes, todos, de que assistiam como testemunhas silenciosas ao acto mágico da criação, aquele que aqui, entre estas paredes, se produziu ao longo de quatro anos.-

A biblioteca é dominada por um retrato de José Saramago e da sua esposa, da autoria do pintor checo Jiri Dokoupil, que plasma um momento da apresentação do livro As Pequenas Memórias, que o artista viu num jornal e que, “como tudo pode ser contado de outra maneira”, como dizia Saramago, o pintor aplicou numa tela, realizando com fumo de uma vela e tinta amarela uma obra moderna e bela na qual o escritor se revia com muito gosto. Da série que Santa Bárbara realizou sobre o Memorial do Convento há na biblioteca outros dois quadros, para além das quatro gravuras do artista cubano Kcho, que Saramago trouxe de Cuba tendo muito claro em que lugar da sua casa iriam ficar.os livros escritos por mulheres estão juntos e por ordem alfabética A organização dos livros baseia-se em critérios pessoais. Assim, e embora a Literatura seja universal, os livros estão colocados pelos países de origem dos autores. A filosofia, o ensaio e as memórias arrumam- -se por uma ordem temática, como história ou política. Há, no entanto, uma excepção a todas as normas: os livros escritos por mulheres estão juntos e por ordem alfabética. Saramago nunca concordou com este critério, mas respeitou a decisão da sua esposa, que não quis que autoras que não tivessem sido consideradas pelos seus pares, pelo facto de serem mulheres, estivessem condenadas a partilhar estantes com quem não as respeitou ou valorizou.

A ante-sala da biblioteca é ocupada pelas duas pessoas que trabalhavam mais perto de Saramago. Aqui se encontra parte da literatura da América e vários retratos de escritores amados: Cervantes, Camões, Pessoa, Drummond de Andrade, e até um Dom Quixote vencido, que regressa derrotado de todas as batalhas, e que no entanto é, para sempre e em todo o mundo, o mestre que se invoca quando se dá início a uma empresa ousada. A gravura de Tàpies, as palavras de Saramago em português, euskera e castelhano: Uma inesgotável esperança.Preside a esta sala um trabalho conjunto que realizaram, por iniciativa do grupo basco Elkarri, Tàpies e Saramago, e que tinha como objectivo abrir uma campanha para encontrar uma saída pacífica e digna para o conflito basco. Durante uns meses, Tàpies e Saramago percorreram vários lugares, acumulando vozes e apoios. Como testemunho, a gravura de Tàpies, as palavras de Saramago em português, euskera e castelhano: Uma inesgotável esperança.

Na biblioteca José Saramago recebeu os seus amigos. Quando recuperou da doença que em 2007 esteve a ponto de acabar com a sua vida, o primeiro acto público que organizou foi convidar María Kodama para que falasse de Borges em Lanzarote. A memória de Borges é predominante na biblioteca porque Jorge Luis Borges, com Pessoa e Kafka, eram para Saramago os escritores imprescindíveis do século XX. Mais tarde,por aqui passaram outros companheiros de letras e deixaram as suas palavras. Estão contidas neste espaço, se é verdadeira essa lei que diz que nada se perde."



Aqui, o link com a entrevista completa,
em http://www.theguardian.com/books/2006/apr/30/fiction.features1

José Saramago: "Still a street-fighting man"

"In his first interview with an English newspaper, 83-year-old Portuguese novelist José Saramago reveals that his famed radicalism is undiminished

The architecture of José Saramago's purpose-built library, as it rises from a parched hillside on his adopted island of Lanzarote, creates the impression of a modern cathedral. Sunlight splinters through high, narrow windows of opaque glass that stretch the full two storeys; the clean, white walls and cool flagstones contribute to a sense of hushed reverence in the presence of so many volumes, ancient and modern, in so many languages. Here is a shrine to literature, an alternative religion for a Portuguese Nobel laureate, who left his homeland 14 years ago in protest at the government's censorship of his novel, The Gospel According to Jesus Christ (it vetoed its submission for the European Literature Prize on the grounds that it was offensive to Catholics).



It takes some effort to believe that Saramago is about to turn 84 - not just because of his vivid physical presence, his barely-lined face and the quickness of his eyes and hands when he talks, but also because of his extraordinary productivity.

Although Seeing is published this week in English translation, he has produced another book in the meantime; Las Intermitencias de la Muerte was published last autumn in Portugal, Spain and Latin America (his Spanish wife, Pilar del Rio, translates his books as he goes along so that they can be published simultaneously for his large Spanish readership), and he is now working on an autobiography entitled Peque?Memorias (Little Memories), about his childhood in rural Portugal.

But the image of the venerable novelist shut away in his island retreat, disengaged from the world, could not be further from the truth. Saramago is about to leave Lanzarote for two months of travelling, as he does most years, in part to promote the new novel, but mainly to speak at conferences and presentations on politics and sociology. 'Most of it doesn't have much to do with literature,' he explains, 'but this is a part of my life that I consider very important, not to limit myself to literary work; I try to be involved in the world to the best of my strengths and abilities.' Still a member of the Communist party, Saramago is a vocal opponent of globalisation and many of his best known novels have taken the form of political allegory. Does he believe that the artist is obliged to take on a political role? 'It isn't a role,' he says, almost sharply.

'The painter paints, the musician makes music, the novelist writes novels. But I believe that we all have some influence, not because of the fact that one is an artist, but because we are citizens. As citizens, we all have an obligation to intervene and become involved, it's the citizen who changes things. I can't imagine myself outside any kind of social or political involvement. Yes, I'm a writer, but I live in this world and my writing doesn't exist on a separate level. And if people know who I am and read my books, well, good; that way, if I have something more to say, then everyone benefits.'

Seeing evolved into a kind of sequel to his 1995 novel, Blindness, in which the inhabitants of a republic that may or may not be Portugal are struck by a temporary epidemic of blindness and quickly revert to barbarism. Seeing revisits the same country four years later as it experiences another unprecedented phenomenon: despite the high turnout for the municipal election, when the votes are counted, more than 80 per cent have been returned blank. This wholesale vote of no confidence in any of the political parties makes a farce of the democratic process and the leaders are forced to declare a state of emergency.

'I was giving a talk about my novel, The Double, in Barcelona,' Saramago remembers. 'I have this habit of only talking about my books for a few minutes, then I prefer to spend the time talking about the world in which we find ourselves, a world which is a disaster, and usually I end up talking about the problem of democracy, whether we truly have a democratic system, and I believe that we don't. And in Barcelona, someone asked me, well then, what do you propose? Because I was saying that, in reality, the world is governed by institutions that are not democratic - the World Bank, the IMF, the WTO. People live with the illusion that we have a democratic system, but it's only the outward form of one. In reality we live in a plutocracy, a government of the rich.'

So what was his solution?

'I answered that I didn't have a solution, except that we, as citizens, do have the power of the vote, but we always use it to vote for one or other of the parties on off er. But there is another possibility, which is to cast a blank vote.' He leans forward and points a stern finger. 'And this is not at all the same as abstention. Abstention means you stayed at home or went to the beach. By casting a blank vote, you're saying that you understand your responsibility, you have a political conscience and you came to vote, but you don't agree with any of the existing parties and this is the only way you have of saying so.

'Then I thought about what would happen if the blank votes went up to 50 or more per cent. It would be a way of saying society has to change but the political powers we have at the moment are not enough to effect this change. The whole democratic system would have to be rethought.' He speaks Spanish with a heavy Portuguese inflection, each sentence composed with precision, not at all like the rather breathless, digressive narrative style that has become a hallmark of his novels. Expounding these theories, he comes across as grave and wise, though when he talks about the problems of poverty in Africa or the volatility of most employment, there flares a passionate anger that has fuelled his lifelong commitment to leftist politics.

But there's a twinkle of humour, too, in his mock sternness with his dog as she scuffles around our feet, and a warmth in his exchanges with his wife, who comes in to offer us coffee; as she turns to leave, he impulsively clutches her hand and gives it an affectionate squeeze. I point out that, for all the brave intentions of the blank voters in Seeing, the novel has a bleak end - the authorities simply revert to force, though the protest has been as peaceful as a protest could be; in the end, it seems to have been in vain. I tell him it reminded me of the anti-war demonstrations in London.

'Yes, it all ends badly, because things are not mature,' he says sadly. 'Here in Spain, 90 per cent of the population was against the war and nobody in power was interested. But look what just happened with the employment law in France - the law was withdrawn because the people marched in the streets. I think what we need is a global protest movement of people who won't give up, who won't leave the streets. In Madrid and London, we marched, we did our duty, then we went home and those in power did nothing.

'But we have to keep on demonstrating and demonstrating and demonstrating' - here he breaks into a rich, throaty laugh - 'there's no solution but to say we do not want to live in a world like this, with wars, inequality, injustice, the daily humiliation of millions of people who have no hope that life is worth anything. We have to express it with vehemence and spend days on the street if we have to, until those in power recognise that the people are not happy.'

In a lifetime of political activism, Saramago has witnessed the struggle from various angles. He grew up as the son of landless peasant labourers in a village north east of Lisbon and, although he published his first novel, Land of Sin, at the age of 23, it was another 30 years until he attempted another. In the meantime, he worked successively as a mechanic, civil servant, metalworker, production manager at a publishing house and a newspaper managing editor, until the politico-military coup of 1975 made it impossible for someone of his political colours to find work.

He turned to writing full time, publishing his second novel, Manual of Painting and Calligraphy, in 1976, and producing plays, poetry, essays and newspaper columns until his 1982 historical novel, Baltasar and Blimunda, brought him international recognition. His most successful novels were all written when he was in his sixties and he won the Nobel Prize in 1998, at the age of 76. Why, after so many years and excursions into different genres, did he decide that the novel was the best form for the ideas he wanted to express?

'I think the novel is not so much a literary genre, but a literary space, like a sea that is filled by many rivers. The novel receives streams of science, philosophy, poetry and contains all of these; it's not simply telling a story.' Saramago is often described as a pessimistic writer. I ask if he feels genuinely pessimistic about the future or if he thinks there could be hope for the left?

'We're not short of movements proclaiming that a different world is possible,' he says, heavily, 'but unless we can co-ordinate them into an organic international movement, capitalism just laughs at all these little organisations that do no damage. The problem is that the right doesn't need any ideas to govern, but the left can't govern without ideas. It's very difficult.

'At 83, I don't hope for much, but you are young, you have to keep a perspective. I don't think this novel is going to change the world, but look - those in power are there because we put them there. If they don't get it right, then out! And let others try. There are plenty of reasons not to put up with the world as it is, and if the book has any kind of message, I suppose that's it."