Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Visita à Delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga - Golegã

Delegação de Azinhaga
Largo das Divisões
Azinhaga
2150-008 Golegã
azinhaga@josesaramago.org
Tel. ( 351) 249 957 032








 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Visita à delegação da Fundação José Saramago na Azinhaga (Golegã)

Delegação de Azinhaga da Fundação José Saramago
Os presentes dados podem ser consultados na página da FJS, aqui

Largo das Divisões
Azinhaga
2150-008 Golegã
azinhaga@josesaramago.org
Tel. ( 351) 249 957 032

Horário de  funcionamento
Horário de Inverno: De 3.ª a sábado, das  10 às 13 horas e das 15 às 18 horas

Horário de Verão: De 3.ª a sábado, das  10 às 13 horas e das 15 às 19 horas
Entrada gratuita

Como chegar à Azinhaga, de carro
1. Na A1, ir pela saída nº 6 em direção a Torres Novas.
2. 1,5km depois, sair em direção Torres Novas / Porto de Mós, entrando na N3.
3. Na N3 seguir as indicações de Torres Novas.
4. Cerca de 4,5km depois, passagem por Póvoa de Santarém.
5. Cerca de 3,5km depois, ir pela saída para Alcanhões, entrando na N365 a seguir até ao destino final.
6. 2km depois, em Alcanhões, virar à esquerda em direção a Golegã.
7. 400m depois, virar à direita em direção a Golegã / Pombalinho / Vale de Figueira.
8. Cerca de 3,5km depois, em Vale Figueira, virar à esquerda em direção a Golegã.
9. 700m depois, virar à direita em direção a Pombalinho / Golegã.
10. Cerca de 7,8km depois, no Pombalinho, virar à direita em direção a Golegã
11. 200m depois, virar à esquerda em direção a Golegã.
12. Cerca de 2km depois, chegada ao destino: Azinhaga.

Tempo estimativo de Lisboa → Azinhaga: cerca de 70 minutos.
How to arrive to Azinhaga by car
1. Take the high-way A1, take exit no. 6 to Torres Novas.
2. 1,5km (0,93206mi) after, take the direction Torres Novas / Porto de Mós, in the main road N3.
3. In N3 follow the direction to Torres Novas.
4. About 4,5km (2,7962mi) after, you’ll find Póvoa de Santarém.
5. About 3,5km (2,1748mi) after, take the exit to Alcanhões, in the side road N365 to be followed till the final destination.
6. 2km (1,2428mi) after, at Alcanhões, turn left to Golegã.
7. 400m (0,248mi) after, turn right to Golegã / Pombalinho / Vale de Figueira.
8. About 3,5km (2,1748mi) after, at Vale Figueira, turn left to Golegã.
9. 700m (0,435mi) after, turn righ to Pombalinho / Golegã.
10. About 7,8km (4,846mi) after, at Pombalinho, turn right to Golegã
11. 200m (0,124mi) after, turn left to Golegã.
12. About 2km (1,2428mi) after, arrival to final destination: Azinhaga.

Estimate time Lisboa → Azinhaga: about 70 minutes.

 

 




















(Créditos fotografias: Helena Mesquita, 24/11/2017)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Azinhada retratada na obra "As Pequenas Memórias" - (Caminho, 2006)

"Deixa-te levar pela criança que foste" - O Livro dos Conselhos

(...) "A terra é plana, lisa como a palma da mão, sem acidentes orográficos dignos de tal nome, um ou outro dique que por ali se tivesse levantado mais servia para guiar a corrente aonde causasse menos dano do que para conter o ímpeto poderoso das cheias. Desde tão distantes épocas a gente nascida e vivida na minha aldeia aprendeu a negociar com os dois rios que acabaram por lhe configurar o carácter, o Almonda, que a seus pés desliza, o Tejo, lá mais adiante, meio oculto por trás da muralha de choupos, freixos e salgueiros que lhe vai acompanhando o curso, e um e outro, por boas ou más razões, omnipresentes na memória e nas falas das famílias. Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com os seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer. Durante toda a infância, e também os primeiros anos da adolescência, essa pobre e rústica aldeia, com a sua fronteira rumorosa de água e de verdes, com as suas casas baixas rodeadas pelo cinzento prateado dos olivais, umas vezes requeimada pelos ardores do Verão, outras vezes transida pelas geadas assassinas do Inverno ou afogada pelas enchentes que lhe entravam pela porta dentro, foi o berço onde se completou a minha gestação, a bolsa onde o pequeno marsupial se recolheu para fazer da sua pessoa, em bem e talvez em mal, o que só por ela própria, calada, secreta, solitária, pode-ria ter sido feito. Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, as-zinaik, «rua estreita», o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância." (...)

in, "As Pequenas Memórias"
Caminho, páginas 12 e 13 - 2006

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

"VIVER SARAMAGO" Continua na Azinhaga - Salas Esgotadas com palavras do Nobel (30/11/2015)

Via EOL EntroncamentoOnline, aqui
em http://www.entroncamentoonline.pt/portal/artigo/salas-esgotadas-com-palavras-do-nobel

(Imagem dos actores - Ver site EOL)


«Depois de duas salas esgotas com a presença de mais de duas centenas de pessoas, fazem com que a Junta de Freguesia de Azinhaga promova mais uma representação no dia 4 de Dezembro às 21H30.
Segundo O Presidente da Junta Vitor Guia, a grande adesão da população ao espetáculo VIVER SARAMAGO fez com que a Junta decidisse marcar mais uma sessão de forma a permitir que todos os interessados possam ver este espetáculo que coloca a Aldeia Nobel no caminho da Cultura na Região, tendo ultrapassado as expectativas criadas quando este projeto foi apresentado à casa da comédia.
VIVER SARAMAGO foi a única iniciativa regional integrada no mês do desassossego e que se juntou às iniciativas em Lisboa e Lanzarote, e dedicada ao único Nobel da Literatura da Língua Portuguesa o que vem demonstrar que uma pequena Aldeia pode integrar os grandes circuitos culturais quando se junta partilhas de sucesso, acreditando que a qualidade literária também pode ser popular.
Sob a direção de João Coutinho e um elenco alargado de atores da Aldeia, este projeto abre porta para uma intensa actividade cultural a desenvolver em 2016 fazendo da Aldeia um imenso palco artístico.
Recorde se que este espetáculo faz uma viagem por diversas obras de Saramago, e que tem sido recebido com enorme aplausos pelo publico.
As entradas para o espetáculo são gratuitas sendo no entanto necessário um contato com a Junta de Freguesia para reserva de bilhetes.»


(João Coutinho junto à estátua de José Saramago - Azinhaga) 


«Na Aldeia Nobel da Azinhaga...Saramago voltou a esgotar, provando que a Grande Cultura literária é possível quando as vontades são partilhadas. Sem facilitismo a Azinhaga assume-se como um enorme espaço cultural. Esgotar Saramago só é possível quando se têm atores, autarcas,e população sensível ao belo. Dia 4 e embora não estivesse previsto realiza se a 3ª sessão. Recordemos que a Azinhaga é a única localidade da região que ao mesmo tempo que Lisboa realiza actividades chamadas do desassossego dedicadas ao único Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Só assim é possível desenvolvimento e criação de circuitos culturais regionais.»
Palavras de João Coutinho

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância" - Texto de Adelino Gomes (Público, 12/11/2006)

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância"

Texto de Adelino Gomes, publicado no jornal Público, em 12 de Novembro de 2006

Aqui, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/o-homem-a--quem-roubaram--as-oliveiras--da-infancia-106925



"Vamos! Vamos!", diz, poucos minutos após a primeira paragem.
Foi ele quem chamou a atenção para a curva do rio. Um carro desviara-se da estrada principal. Preparamo-nos para esclarecer as razões da inusitada incursão de um casal entre uma e a outra estreita margens, mas o escritor Nobel mostra-se impaciente. Tem pressa de chegar à Azinhaga, a terra onde nasceu. 
O que vê, porém, à medida que avança o carro - no qual viajam, além dele próprio, José Saramago, a mulher, Pilar, o fotógrafo espanhol Jose Manuel Navia e este jornalista do PÚBLICO - deixa-o inconformado. 
- Aqui havia oliveiras - começa por constatar. - Roubaram-me as minhas oliveiras! - protesta, por várias vezes, à medida que desfila aos nossos olhos a interminável, monótona paisagem, nua de árvores.
- Olhem para estes campos [de milho transgénico]. Aceitaram as indemnizações que a CEE ofereceu e agora temos isto, tudo igual...
Iniciámos a peregrinação a pé pela aldeia. Quase nenhuma emoção perante o lugar em que outrora se ergueu a casa natal. Está guardada para mais à frente, no que resta da casa que foi dos avós maternos.
Pilar acha que deve comprar o espaço. Não parece ser essa a sua ideia
Desfia recordações para o fotógrafo espanhol, que pretende ilustrar, com imagens desta peregrinação, o texto que a revista de domingo do El Pais lhe vai dedicar, na série com grandes escritores mundiais deste Verão de 2001. 
Os locais gostam de lembrar que a aldeia, administrativamente situada no concelho da Golegã, tem foral desde D. Sancho II e que é a mesma a que, antes da fundação de Portugal, chamavam Santa Maria do Almonda. Características edificações na rua principal constituem a prova de que ali se ergueram, a partir do século XII, palácios, solares, igrejas e capelas, o mesmo será dizer, "ali se foi construindo um país". 

(Estátua de José Saramago, na Azinhaga)


A Azinhaga foi, nos célebres concursos salazaristas de António Ferro, a "aldeia mais portuguesa do Ribatejo". O contacto com os toiros, nas fainas do campo, fez da raça de maiorais desta terra "de lezírias e espargais", pelo saber, os mais famosos campinos das terras da Borda d"Água, diz uma nota do rancho folclórico "Os Campinos da Azinhaga", lida durante a breve paragem para almoço.
Não foi para estas divagações, contudo, que José Saramago se deslocou de Lisboa. Sobe, e nós com ele, ao campanário da igreja. Dá um beijo a uma prima, encontrada na rua. Ruma ao Paul do Boquilobo, para onde gostava de ir, em longas viagens de dias, e para onde - torna-se claro nos gestos, nas recordações, na insistência em ir até onde o carro pode chegar - não se importava nada de partir agora mesmo em nova aventura. Boquilobo, oferecida, depois da crise de 1385 por D. João I a João das Regras com a legenda "Melhor lhe dera se melhor houvera".
Passados cinco anos, estas recordações tomam a forma de livro - As Pequenas Memórias (Editorial Caminho) - que aqui mesmo vai ser lançado, em cerimónia de ressonância internacional, na próxima quinta-feira, 16, num regresso simbólico aos lugares da infância e adolescência do escritor, na aldeia ribatejana. 
Casas, oliveiras, arbustos, dois rios, um pântano. Que importa que deles só restem os dois últimos? Que tenha desaparecido sob um monte de escombros a casa que foi a pobríssima morada dos avós maternos de quem os leitores já sabem os nomes, desde o discurso de aceitação do Nobel da literatura, em 1998 (Josefa e Jerónimo se chamam, este último, analfabeto, "o mais sábio dos homens" que Saramago conheceu)? Que importam os estragos do prémio da CEE sobre os olivais desaparecidos?
A cada instante, José levantará as paredes da casa branca, plantará as oliveiras, fechará o postigo da porta e a cancela do quintal e dirá: "Avó, vou por aí dar uma volta", e ouvi-la-á responder: "Vai, vai", meterá "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge", pegará num pau para qualquer mau encontro canino e partirá para uma das quatro partes em que o universo se dividia então para a criança "melancólica", para o adolescente "contemplativo e não raro triste" que era ele: o rio, "os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado", a mata de tramagueiras, faias, freixos e chopos que ladeia o Tejo, um pouco à frente da confluência com o Almonda, ou o Paul do Boquilobo, "um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso". 
Tudo nítido setenta anos depois - paisagem, gentes, afectos -, numa revisitação através do "poder reconstrutor da memória". E da literatura. 

Adelino Gomes