Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 7 de abril de 2020

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

O presente trabalho pode ser consultado e acompanhado aqui

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis 
publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

"O “material socialmente tido por histórico” a que alude o narrador d’A viagem do elefante projeta-se sobretudo em personagens – e José Saramago, com licença pela banalidade da afirmação, foi um grande criador de personagens. Menos evidente, mas também irrefutável: no universo ficcional saramaguiano convivem personagens de natureza, de configuração e de condição muito diversas. Na multidão de figuras que povoam aquele universo distingo, então, figuras provindas da História, outras com origem mítico-bíblica, personagens sem referência extraficcional conhecida (ou nativas na ficção), animais diversos (sobretudo cães) e mesmo, pelo menos, uma personagem alegórica stricto sensu (a morte n’As intermitências da morte).

Foto: Pedro Soares

Inevitavelmente, José Saramago problematizou a personagem, a sua génese e a sua relação com o romancista que as criou e com alguns dos narradores que falam delas. Primeira abordagem: a personagem sai da cabeça do escritor: “Nenhuma personagem minha é inspirada por pessoas reais. Em caso nenhum” (C. Reis, Diálogos com José Saramago, p. 137). A firmeza da asserção dá que pensar, sobretudo quando temos presente a longa tradição de construção mimética da personagem, em especial no romance de costumes oitocentista e numa subcategoria – presente na ficção de Saramago, para que conste – a que chamamos tipo social. O vigor daquelas palavras obriga o escritor a recuar: afinal, há personagens com origem na vida real (Marcenda foi vista num restaurante, confessa Saramago; cf. Diálogos com José Saramago, p. 138) e outras (D. João V, por exemplo) vêm da História.

Outra coisa e mais pertinente, a meu ver, é atribuir à personagem uma dinâmica própria: “As minhas personagens nascem em cada momento, são impelidas pela necessidade e não são cópias, não são versões” (Diálogos com José Saramago, p. 138), declara José Saramago. Daqui à questão da autonomia e da sobrevida da personagem vai uma linha que não é reta, mas que lá conduz. Uma etapa desse trajeto cumpre-se na História do cerco de Lisboa, quando Maria Sara questiona Raimundo Silva acerca das “pessoas de livro” que o revisor de imprensa está a compor, sem saber ainda se elas são personagens, na plena aceção do termo: “Quem é esta Ouroana, este Mogueime quem é, estavam os nomes, e pouco mais, como sabíamos. Raimundo Silva deu dois passos breves na direção da mesa, parou, Ainda não sei bem, disse, e calou-se, afinal deveria ter adivinhado, as primeiras palavras de Maria Sara teriam de ser para indagar quem eles eram, estes, aqueles, outros quaisquer, em suma, nós. Maria Sara pareceu contentar-se com a resposta, tinha experiência suficiente de leitora para saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram, mesmo assim não tudo, e pouquíssimo do que virão a ser (História do cerco de Lisboa, ed. Caminho, pp. 263-264).

Não é, evidentemente, de José Saramago a voz que aqui escutamos, nem mesmo a do narrador por ele instituído. E contudo, do diálogo entre o escritor incipiente e em aprendizagem (Raimundo Silva, claro) e a sua leitora de circunstância emerge um princípio de doutrina: o escritor não sabe tudo sobre as suas personagens e o futuro que elas hão de viver é incerto. Um futuro que se desenrola dentro e fora da ficção (ou durante e depois dela, se se preferir), porque a personagem pode sobreviver ao ficcionista, de modo às vezes bem singular.

Curiosamente, colocando-se perante esta questão, José Saramago resiste, mas depois transige. Resiste a aceitar a autonomia da personagem, mas acaba por reconhecer a sua capacidade de autodeterminação. De forma mais explícita: por um lado, “as personagens não são autónomas” (Diálogos com José Saramago, p. 140), mas por outro lado reconhece-se o dinamismo das figuras que interagem com a história e com quem a rege: “É a história que necessita que aquela personagem se determine desta ou daquela forma” (ibid. p. 140). Se Maria Sara estava certa, ao “saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram”, então posso bem dizer que as conclusões a que chegou dão razão ao título de um dos discursos de Estocolmo: “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz.”

(Extrato de “José Saramago e a poética da narrativa: uma ordem por decifrar”, in Teresa Cerdeira  et alii (org.), E agora, José(s)? José Saramago e José Cardoso Pires 20 anos depois. Belo Horizonte: Moinhos, 2019, pp. 20-22)."


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”

Coimbra, Convento São Francisco

8, 9 e 10 de outubro de 2018

Organização: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e
Câmara Municipal de Coimbra



© Fotografia de Pedro Soares

"Para celebrar os 20 anos da atribuição do  Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra  organiza, com a Câmara Municipal de Coimbra, o Congresso Internacional  “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” (8  a 10 de outubro de 2018, no Convento São Francisco, em Coimbra). Veja o programa provisório. 

Está em curso, até 31 de julho, a segunda fase de apresentação de propostas de comunicação (aceda aqui à terceira circular e também à ficha de inscrição.). As inscrições sem proposta de comunicação encerram-se a 15 de setembro, tendo sido fixado um máximo de 200 participantes.

Como atividade paralela, foi instituído um prémio de ensaio literário, destinado a estudantes do ensino secundário português. O prazo de envio de trabalhos terminou a 31 de julho. Aceda aqui ao regulamento do concurso.

Foi  atribuída acreditação ao congresso pelo Conselho Científico-Pedagógico de Formação Contínua (grupos: 200 Português e Estudos Sociais/História; 210  Português e Francês; 220  Português e Inglês; 300  Português). 

Apoios: Reitoria da Universidade de Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago; Porto Editora."


8 de outubro
9h30 Cerimónia de abertura.
10h45 Eduardo Lourenço: apresentação do Último Caderno de Lanzarote, de José Saramago.
11h00 Pausa para café.
11h15 Conferência por Teresa Cristina Cerdeira: “Primo Levi e José Saramago: a obra eterna e o quadro infinito”.
13h00 Almoço.
14h30 Sessões paralelas: comunicações.
16h00 Pausa para café.
16h15 Mesa plenária: “Personagens e identidades”.
Ana Paula Arnaut: “Ricardo Reis: o mesmo e o outro”.
Miguel Koleff: “De Juan Maltiempo a Cipriano Algor. Tres o cuatro pinceladas
sobre los personajes saramaguianos”.
Antonio Sáez Delgado: “José Saramago, transiberista”.

9 de outubro
9h30 Mesa plenária: “Diálogo sobre Deus e Saramago”.
Gerson Roani: “Deus como mito literário na escritura de José Saramago”.
Anselmo Borges: “Sobre o Deus de Saramago”.
11h00 Pausa para café.
11h15 Sessões paralelas: comunicações.
13h00 Almoço.
14h30 Mesa plenária: “Outros Saramagos: transmediações”.
Jorge Urrutia: “Intermedialidad y transformación en el cine sobre Saramago”
Filomena Oliveira: “Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis – propostas dramatúrgicas”.
Mário Vieira de Carvalho: “Blimunda de Azio Corghi / José Saramago encenada
por Jerôme Savary (1990)”.
16h00 Pausa para café.
16h15 Conferência por David Frier: “De crónicas familiares à construção dum romance: da génese de Levantado do Chão”.
20h00 Jantar do congresso (por inscrição).

10 de outubro
9h30 Conferência por Roberto Vecchi: “Disjecta membra do século breve: memórias em risco e história a contrapelo em dois romances de José Saramago”.
11h00 Pausa para café.
11h15 Sessões paralelas: comunicações.
13h00 Almoço.
14h30 Sessões paralelas: comunicações.
16h00 Pausa para café.
16h15 Conferência por Carlos Reis: “José Saramago e a personagem como alegoria”.
17h00 Sessão de Encerramento: com Pilar del Río.
17h30 O Ano da Morte de Ricardo Reis (adaptação dramatúrgica de Filomena Oliveira e Miguel Real; por Éter – produção cultural).

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Apresentação do livro "Diálogos con José Saramago" do Professor Carlos Reis na Feira do Livro de Madrid (via Real Academia Española, 05/06/2018)


A presente informação pode ser consultada e recuperada aqui



"Diálogos con José Saramago en la Feria del Libro de Madrid
Participó el director de la RAE, Darío Villanueva
Ayer se presentó en la Biblioteca Eugenio Trías el libro Diálogos con José Saramago, del ensayista y catedrático de Literatura de la Universidad de Coimbra (Portugal) Carlos Reis.

En el acto, enmarcado en las celebraciones por la Feria del Libro de Madrid, participaron, además del autor de la obra, Darío Villanueva, director de la RAE; Tomás Albaladejo, catedrático de Teoría de la Literatura y Literatura Comparada de la Universidad Autónoma de Madrid; Filipa Soares, del Instituto Camões, y la periodista y viuda del nobel de literatura portugués, Pilar del Río. 

Tal y como señaló la propia Pilar del Río, «esta obra sirvió para que Saramago recuperara de la memoria sus primeros escritos». Una obra que la editorial La Umbría y la Solana acaba de publicar en español, con traducción de Susana Gil. 


NARRADOR DE IDEAS

Darío Villanueva quiso resaltar de José Saramago que «era un gran creador», ya que tenía una conciencia de la literatura «como un sistema de relaciones insertadas en la sociedad en la que intervienen diferentes agentes. Toda esta suma es la que forma ese sistema de la literatura del que formaba parte Saramago». 

Este sistema literario, continuó Villanueva, parte de un juego entre escritor y lector. Entre uno y otro intervienen otros factores, como el editor, la censura en algunos casos, el agente literario. «Pero la obra existe en cuanto que es leída. Esta idea —añadió el director de la RAE— está muy presente en Saramago, quien reconoció que nunca se sintió escritor hasta que no tuvo muchos lectores». Un libro, añadió Villanueva, que, siendo de conversaciones, «incluye un tratado sobre literatura y nos deja una huella imborrable de quién fue José Saramago». 

Darío Villanueva también quiso referirse al nobel portugués como «un gran narrador de ideas [...]. La función extraordinaria del escritor que plantea en su obra preguntas es una cualidad de Saramago, algo que Carlos Reis ha sabido plasmar muy bien en este libro». 


DIÁLOGOS CON SARAMAGO

Si bien han pasado casi veinte años desde que «iniciamos estas conversaciones», tal y como apuntó Carlos Reis, «Saramago seguirá estando presente con nosotros siempre porque es un gran escritor».

Diálogos con José Saramago nació en Lanzarote, donde residía el nobel portugués y a donde se trasladó Reis. Se recogen en él más de siete horas de conversaciones sobre el oficio de escribir, la trayectoria personal y profesional de Saramago y su opinión sobre otros escritores que le precedieron, sobre su obra y su influencia. Tres días de trabajo en los que ambos, Saramago y Reis, hablaron sobre el lenguaje de la narración, de la inspiración y del trabajo diario, pero también sobre la vida y la condición del escritor, de sus primeras novelas y lecturas, de cómo se eligen los títulos o estos eligen al autor.


LECTURA FASCINANTE

El profesor Tomás Albaladejo recordó que la lectura de este libro tiene, como muchas obras de Saramago, «el sabor de la oralidad». Albaladejo añadió que en la obra de Saramago se hallan todas las preguntas y respuestas, así como los asuntos y problemas más importantes de la literatura. 

Diálogos con José Saramago es, como concluyó Filipa Soares, «un libro fascinante que ofrece la oportunidad a los lectores de reconocer el interior de Saramago»."




sábado, 3 de março de 2018

Congresso Internacional "José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel" - Informação do Professor Carlos Reis

"Por ocasião dos 20 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, realiza-se em Coimbra, de 8 a 10 de outubro próximo, um congresso internacional que assinalará a efeméride. 
O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra. 
Mais informação no site do Centro de Literatura Portuguesa.
Por favor, partilhe."
Mensagem do Professor Carlos Reis publicada no Facebook


Congresso Internacional
"José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel"

"A 10 de dezembro próximo, cumprem-se 20 anos sobre a entrega do  Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a quem, até agora, foi concedido o mais  prestigiado de todos os galardões literários.  

Por ocasião desta efeméride, terão lugar diversas iniciativas que constituirão também uma oportunidade privilegiada para se reler e estudar a obra saramaguiana, bem como a trajetória cívica e cultural que o seu autor protagonizou,  na segunda metade do século XX e nos primeiros anos  do século XXI.   

Entende-se, por isso, ser pertinente organizar uma reunião científica com a projeção  que as circunstâncias justificam.  Assim,  o Congresso Internacional  “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” terá lugar de 8  a 10 de outubro  do corrente ano, no Convento São Francisco, em Coimbra. 

Aceda aqui à primeira circular e também à ficha de inscrição.

O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra.  Apoios: Reitoria da Universidade de Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago; Porto Editora."

Informação constante na primeira circular e que está disponível, aqui 
"Congresso Internacional
“José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”
Primeira circular
A 8 de outubro, cumprem-se 20 anos sobre o anúncio da atribuição do Prémio
Nobel da Literatura a José Saramago. A 10 de dezembro de 1998, José Saramago recebia
em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura.
Lembrando a efeméride, terão lugar diversas iniciativas que constituirão também
uma oportunidade privilegiada para se reler e estudar a obra saramaguiana, bem como a
trajetória cívica e cultural do seu autor.
Entende-se, por isso, ser pertinente organizar uma reunião científica com a
projeção que as circunstâncias justificam. Assim, terá lugar em Coimbra, de 8 a 10 de
outubro do corrente ano, no Convento São Francisco, o Congresso Internacional “José
Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel”. O congresso incluirá conferências, mesasredondas
e comunicações subordinadas ao seguinte temário:
 Representações da História em José Saramago
 A personagem saramaguiana: figuração e sobrevida
 Alegorias saramaguianas
 A poesia de José Saramago
 O teatro de José Saramago
 Representações transmediáticas da obra saramaguiana
 José Saramago polemista e doutrinador literário
 José Saramago cronista e jornalista
 A fortuna crítica de José Saramago
Convida-se a comunidade científica a apresentar propostas de comunicações
subordinadas aos temas referidos, bem como a formular inscrição, de acordo com o
seguinte calendário e preços:
 Primeira fase: até 15 de abril
o € 25.00: participantes sem comunicação
o € 35.00: participantes com comunicação
 Segunda fase: até 31 de julho
o € 35.00: participantes sem comunicação
o € 45.00: participantes com comunicação
o € 15.00: estudantes
As fichas de inscrição e propostas de comunicação (máximo: 300 palavras) devem
ser enviadas para congressosaramago@gmail.com. O resultado da arbitragem das
propostas apresentadas será comunicado até 31 de julho (primeira fase) e até 31 de agosto
(segunda fase). Pagamento de inscrições através da Loja Virtual da UC.
Como atividade paralela ao Congresso, será lançado um concurso de ensaios
destinado a estudantes do Ensino Secundário e incidindo sobre os romances Memorial do
Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis.
O Congresso Internacional “José Saramago: 20 Anos com o Prémio Nobel” é
organizado pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em
coorganização com a Câmara Municipal de Coimbra. Apoios: Reitoria da Universidade de
Coimbra; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fundação José Saramago;
Porto Editora." 


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel” do Professor Carlos Reis (10/12/2017)

Congresso Internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”
Cumprem-se a 10 de dezembro de 2018 vinte anos sobre a entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a quem, até agora, foi concedido o mais prestigiado de todos os galardões literários. Conforme na altura declarou o secretário da Academia Sueca, o Prémio Nobel assinalou, em José Saramago, a “capacidade de tornar compreensível uma realidade fugidia com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia”. A 10 de dezembro de 1998, José Saramago recebia em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura.
Por ocasião das efemérides em causa, terão lugar diversas iniciativas que constituirão também uma oportunidade privilegiada para se reler e estudar a obra saramaguiana, bem como a trajetória cívica e cultural que o seu autor protagonizou, na segunda metade do século XX e nos primeiros anos do século XXI. Reconhecida tanto em Portugal como no estrangeiro, a relevância daquela obra está atestada em dezenas de traduções e em incontáveis estudos, de diferente dimensão e propósito. 
Entende-se, por isso, ser pertinente organizar uma reunião científica com a projeção que as circunstâncias justificam. Assim, terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – uma das muitas universidades que concederam ao escritor o doutoramento honoris causa – o congresso internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel”, a realizar em data a fixar, no período que vai de 8 de outubro a 10 de dezembro de 2018. Nesse congresso e conforme será pormenorizado no respetivo anúncio programático, serão abordadas diversas facetas da obra de José Saramago, em vários géneros literários, bem como em atividades correlatas (por exemplo, a de jornalista), com inquestionável projeção no universo da língua e da literatura portuguesas. 
O congresso internacional “José Saramago: Vinte Anos com o Prémio Nobel” terá organização científica do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, incluirá diversas atividades paralelas e contará com o apoio institucional da Universidade de Coimbra, da Faculdade de Letras de Coimbra e da Fundação José Saramago.
(Por favor, partilhe)
Mensagem do Professor Carlos Reis, partilhada via Facebook em 10/12/2017

Outros trabalhos em publicação, aqui

Mais recente trabalho, livro de apoio à leitura da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis"

Capa da edição original (1998) realizado em 1997 na ilha de Lanzarote 


Momento de apresentação da nova edição (2015)

Apresentação da obra do Prof. Carlos Reis "Diálogos com José Saramago" (17/04/2015)

Citador #37 ... da estrutura e coerência do romance, 
em "Diálogos com José Saramago" de Carlos Reis (19/04/2015)

"Diálogos com José Saramago" - Estrutura e capítulos da obra do Prof. Carlos Reis

Outros destaques e apontamentos sobre a intervenção do Professor Carlos



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"Mafra comemora 300 anos do Palácio Nacional com meia centena de eventos" com vários destaques para o "Memorial do Convento" de José Saramago

Pode ser consultada e recuperada a informação aqui,
em https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/mafra-comemora-300-anos-do-palacio-nacional-com-meia-centena-de-eventos-1749749

"Mafra comemora 300 anos do Palácio Nacional com meia centena de eventos"

O programa prevê conferências, visitas à Tapada Nacional, lançamento de livros, concertos, encenação de uma peça de teatro, visitas subterrâneas a locais vedados ao público e exposições

Mafra vai comemorar os 300 anos, desde o lançamento da primeira pedra do Palácio Nacional, com cerca de 50 iniciativas culturais e religiosas, ao longo do ano, anunciou esta quarta-feira a comissão organizadora.

Direcção-Geral do Património Cultural, Palácio Nacional, Câmara Municipal, Escola das Armas, Tapada Nacional e a Paróquia de Mafra anunciaram, em conferência de imprensa, o programa, que prevê conferências, visitas à Tapada Nacional, lançamento de livros, concertos a seis órgãos, encenação de uma peça de teatro baseada no Memorial do Convento, de José Saramago, visitas subterrâneas a locais vedados ao público e exposições, ao longo do ano.

O director do palácio, Mário Pereira, espera que as comemorações sejam "sinónimo de investimento", recordando que foi lançado um concurso de 2,3 milhões de euros para a reabilitação dos sinos e carrilhões durante o próximo ano.

Em 2017, o monumento vai ser alvo também de obras de instalação de um elevador (400 mil euros), para as quais deverá ser em breve lançado concurso, e de restauro da Sala do Trono (50 mil euros), além de vir a ser dotado de 'áudio-guias' para facilitar a visita pelos turistas.

O programa das comemorações arranca no dia 17 com um espectáculo de fogo-de-artifício e uma conferência, pelo bispo auxiliar de Lisboa, D. Nuno Brás Martins.

O programa contempla, ainda este mês, uma exposição de arte alusiva ao tricentenário, uma missa na Basílica, acompanhada pelos seis órgãos históricos e dois coros (dia 19), e uma conferência pelo cardeal patriarca, Manuel Clemente (28).

Em Dezembro, acolhe, nos dias 17 e 18, um concerto a seis órgãos com a participação do Coro da Academia de Música de Santa Cecília de Lisboa, enquanto no dia 10 é lançada uma nova edição do Memorial do Convento, com prefácio de Carlos Reis e ilustrações do pintor João Abel Manta, para assinalar os 18 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Em 2017, o palácio associa-se às cerimónias da Quaresma (Março) e da Páscoa (Abril), com missas presididas pelo cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente.

Em Maio, é realizado o espectáculo teatral A luz no Sagrado, nos dias 19 e 20, a 26 é lançado o livro Os Órgãos Históricos do Concelho de Mafra, e, de 24 a 28, o palácio acolhe o Festival Internacional de Órgão, promovido pela Associação das Cidades com Órgãos Históricos.

Em Junho, organistas austríacos dão um concerto nos seis órgãos da basílica (dia 11) e vai ser promovida uma recriação histórica alusiva à fase de construção do monumento (dias 24 e 25).

Em Setembro, os visitantes vão poder observar um espectáculo de videomapping e fogo-de-artifício ( dias1 e 2).

Em Outubro, destaque para o dia 21, com uma mostra gastronómica alusiva à época e ópera e, no dia 22, uma missa presidida por Manuel Clemente, para assinalar a sagração da basílica.

O programa encerra a 17 de Novembro de 2017, com a comemoração dos 300 anos do lançamento da primeira pedra da basílica, de novo com um concerto a seis órgãos e fogo-de-artifício."

domingo, 23 de outubro de 2016

"Os 12 Melhores Livros Portugueses dos Últimos 100 anos" - pela Revista Estante (FNAC - Outubro 2016)

"OS 12 MELHORES LIVROS PORTUGUESES DOS ÚLTIMOS 100 ANOS"

"A Estante convidou um júri de cinco elementos, composto pela jornalista Clara Ferreira Alves, o crítico Pedro Mexia, o professor catedrático Carlos Reis, o editor Manuel Alberto Valente e a jornalista Isabel Lucas, para eleger os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Este é o resultado.

Por: Catarina Sousa | Ilustração: Gonçalo Viana | Fotografias: Bruno Colaço/4SEE"



AO LONGO DE DEZ EDIÇÕES a revista Estante tem vindo a entrevistar muitos autores portugueses, explorando várias temáticas nas quais a língua portuguesa surge como pano de fundo. Tínhamos desde o início uma vontade que transformámos em desafio e materializámos em iniciativa: eleger os melhores livros portugueses.

Não procurávamos uma lista demasiado extensa. Queríamos que os decisores fossem pessoas dos mais variados quadrantes, mas personalidades respeitadas e conhecedoras do mundo da literatura em Portugal. Cinco pessoas aceitaram o nosso convite: o professor e ensaísta Carlos Reis; a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves; a jornalista Isabel Lucas; o editor da Porto Editora, Manuel Alberto Valente; e o crítico literário e assessor cultural do Presidente da República, Pedro Mexia.

O desafio não se adivinhava fácil: escolher os melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Contudo, reunidos à volta de uma mesa, a escolha foi até bastante rápida.

O júri selecionou os melhores livros portugueses dos últimos 100 anos, restringindo a escolha a obras de ficção narrativa publicadas entre 1 de janeiro de 1916 e 1 de janeiro de 2016. A eleição recaiu sobre os 12 livros que se apresentam abaixo, sem qualquer ordem a não ser a alfabética.

Curiosamente, entre os autores dos livros selecionados apenas dois estão vivos: António Lobo Antunes e Agustina Bessa-Luís. Deixamos mais informação sobre cada um destes livros que ajudam não só a justificar a escolha do júri, mas a enquadrar a importância de cada uma das obras na literatura portuguesa dos últimos 100 anos.

A equipa da Estante estabeleceu alguns critérios que considerou pertinentes para a seleção dos melhores livros portugueses.
1. Os livros devem ter sido originalmente publicados a partir do dia 1 de janeiro de 1916.
2. Os autores devem ser de nacionalidade portuguesa.
3. As obras em causa devem ser de ficção.
4. Podem ser incluídas edições de autor."


"O Ano da Morte de Ricardo Reis" - José Saramago
A obra de José Saramago (1922-2010) é tão singular que lhe valeu o Prémio Nobel de Literatura – o único que Portugal recebeu até hoje nesta área.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é não só peculiar como faz por questionar tudo o que nos rodeia. Quem somos? O que nos acontece quando morremos? Somos únicos ou, como Fernando Pessoa, somos vários?

O livro conta a história do regresso a Portugal, vindo do Brasil, de Ricardo Reis, o heterónimo de Pessoa, quando confrontado com a morte do seu criador. É um livro denso mas vai envolvendo o leitor do início ao fim, fazendo também uma viagem pela história de Portugal.

AS PRIMEIRAS FRASES
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias.”

SOBRE O AUTOR
“Falava e escrevia com o desassombro e com a clareza que a alguns desagradava, mas que para ele eram uma forma inalienável de respiração intelectual.”
Carlos Reis


A compilação das 12 obras escolhidas

domingo, 19 de junho de 2016

"Nos seis anos da partida de José Saramago" do professor Carlos Reis

O presente texto, pode ser recuperado e consultado, através do site "Figuras da Ficção" do professor Carlos Reis, aqui
em https://figurasdaficcao.wordpress.com/2016/06/18/a-personagem-segundo-saramago/
Palavras proferidas no elogio fúnebre (20/06/2010) 

"Nos seis anos da partida de José Saramago" - Professor Carlos Reis

"Das personagens de José Saramago, magistral inventor de ficções que ecoam no quotidiano palpável das nossas vidas, bem podemos dizer que são mestres do escritor e nossos mestres, sempre que nas suas ações, nos seus rostos e nas suas palavras reencontramos a sabedoria de homens e de mulheres legitimados pela  autonomia e pela incondicional possibilidade que a  ficção lhes confere; homens e mulheres chamados Baltasar e Blimunda, Ricardo Reis e Bartolomeu Lourenço, Raimundo Silva e José,  Maria Sara e Oriana, Lídia e Maria de Magdala, Joana Carda e Cipriano Algor,  o elefante Salomão e o seu cornaca, Tertuliano Máximo Afonso e António Claro,  sua cópia exata e duplicada – ou vice-versa.   E mesmo quando o nome não está lá – como em Ensaio sobre a Cegueira e em Ensaio sobre a Lucidez – é a sua omissão, como falso anonimato,  que alegoricamente projeta  os homens e as mulheres da  ficção sobre o mundo real em que revemos dramas e conflitos ficcionais identificados como  nossos e porventura com os nossos nomes.  Citando um título conhecido: identificados com Todos os Nomes que no nosso mundo se encontram; ou ainda, lembrando palavras do escritor, no discurso de Estocolmo: “Não escritos, todos os nossos nomes estão lá.”  
José Santa-Bárbara, "Os fazedores do capricho"

São estas figuras e outras mais (sem esquecer um cão chamado Constante), com nome inscrito ou sem ele, que nos provocam  (provocare: chamar para fora),  ao mesmo tempo que nos  propõem sentidos que os transcendem e que nos transcendem, sob o signo do poder subversivo da linguagem. É esse poder que José Saramago invoca, quando um  minúsculo e redondo vocábulo – um simples não – suscita a  reconstrução histórica  de um universo afinal fragilizado por esse poder subversivo; e é ainda em clave de subversão que o romancista enuncia a alegoria da fratura e da deriva, engenhosa indagação ficcional do destino ibérico; ou a metáfora do regresso e do reencontro com a pátria, sentidos camonianos mas também, à sua maneira,  pessoanos; ou a imagem do coletivo e do seu poder redentor, no termo de  um processo histórico  que conduz à libertação dos levantados do chão; ou a imagem da construção e a sugestão ascensional que a confirma, quando se ergue  o convento que a vontade real idealizara, ao mesmo tempo que a passarola voa; ou a representação da cegueira coletiva em que se surpreende uma condição humana degradada na repulsiva violência do seu egoísmo. Isso tudo e também o árduo trajeto da existência humana, a dissolução da identidade, a contestação da ortodoxia religiosa, a celebração da rebeldia, a revisão da palavra bíblica, a questionação da culpa ou a  denúncia da arbitrariedade divina."
(Extrato do elogio fúnebre; Lisboa, 20 de junho de 2010)

O
Post do Facebook, 18/06/2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - José Santa-Bárbara "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento"

É unânime afirmar-se que só as grandes obras literárias merecem ser adaptadas em outros formatos.
Seja no teatro ou cinema, banda desenhada ou pinturas. O "Memorial do Convento" foi publicado em 1982 e já teve 54 edições, a última das quais em 2014 pela Porto Editora, e traduzido para um número de países que torna a obra com carácter universal (http://www.josesaramago.org/memorial-do-convento-1982/)
Aqui recupero e destaca-se a obra do artista plástico José Santa-Bárbara, "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento" que o Professor Carlos Reis, também estudioso da obra de José Saramago, deu especial destaque e relevo.
Das suas palavras e que podem ser consultadas no site "Figuras da Ficção", em https://figurasdaficcao.wordpress.com/category/jose-santa-barbara/ deixo com a devida referência ao autor o seguinte:

(Capa do catálogo Vontades)

«A 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.
O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Ilustração do Rei Dom João V

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…”

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas

 Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades). - 28/12/2012 

Baltasar Mateus

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Texto de José Saramago "Do canto ao romance, do romance ao canto" - 16/09/2009

O professor Carlos Reis, na sua obra agora reeditada, "Diálogos com José Saramago" - Porto Editora, à página 142, lança a seguinte pergunta ao escritor.
«Quero voltar à questão do tempo, mas só num seu aspecto particular, ao qual chego em função de um texto seu intitulado «Do canto ao romance, do romance ao canto», em que fala no tempo peculiar do romance (...). Este tempo descrito como labirinto, é o tempo de muitas personagens?»

Pode ser lido e consultado via página da Fundação José Saramago, aqui

(Pilar e Saramago)


"Do canto ao romance, do romance ao canto"

"É conhecido o caso de um moço, habilidoso de nascença, que, sem nunca ter recebido lições de belas-artes nem aprendido de mestres particulares, e não dispondo de outra ferramenta que um canivete, era capaz de transformar em pouco tempo um toco de madeira bruta no mais perfeito e acabado urso de que rezariam histórias da escultura se o objectivo delas fosse ocuparem-se de talentos místicos. Invariavelmente, a gente da terra maravilhava-se com a  rapidez e o jeito apurado, e, também invariavelmente, o rapaz respondia às curiosidades: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro no bocado de madeira e fico a olhar para ele até ver o urso. Depois, é só tirar o que está a mais.»

O nosso escultor dava-nos assim, de uma vez só, duas lições magníficas: a da modéstia e a da generosidade. Revelava-nos sem disfarce nem engano o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, obrigá-lo a aparecer.

Mas, ai de mim, não há perversidade  pior que a dos ingénuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos  como fez, não permite que lhe saia da boca uma única palavra sobre  como se faz. Não duvidamos de que o urso ali esteja, mas entre a figura do animal e as nossas inábeis mãos existe uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que se necessitará muito engenho e muita  arte para abrir um caminho e fazer dele avenida por onde possa alongar-se, enfim comprazido, um olhar fruidor. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se à nossa custa.

Contudo, imprudente seria o céptico que se atrevesse a jurar que no interior de ada bocado de madeira não se encontra um urso à nossa espera. Está ali, e sempre há-de estar. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, pelo menos seremos capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como  uma luz instável e lenta, um vago luzeiro que, por assim dizer, não chegasse a iluminar-se a si mesmo.

E é aqui, num súbito relance, que descubro que não é de ursos que se trata, mas de um tema, exactamente este que vos trouxe: «Do canto ao romance, do romance ao canto». Creio distinguir-lhe e identificar-lhe os contornos, tornar-se-lhe nítido e preciso o vulto, chego a acreditar que me bastará estender a mão e agarrá-lo, mas no momento em que vou exclamar, triunfante: «Minhas senhoras e meus senhores, eis o urso», verifico que tudo não foi mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para mostrar isto que vêem aqui, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta, um assunto à procura da sua porta de entrada. E outra vez a luz recomeça a pulsar, como um coração implorando: «Tirem-me daqui.»

Disse: «Do canto ao romance» – e esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust, ou James Joyce, ou Franz Kafka, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopeias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelas sagas islandesas, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelo Roman de la rose e pelo Roman de Renart, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, por Don Quixote, e também por Gulliver e Robinson, Werther e Tom Jones, por Ivanhoe, Cinq-Mars e Os Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Monas, pela Guerra e Paz, pelos Irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pela Montanha Mágica, até aqui, até aos dias de hoje, essa viagem relata-se e explica-se por si mesma, começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior  de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu, e a seguir alguém que escreveu sobre o que antes tinha sido escrito, infinitamente repetindo, infinitamente variando, escrevendo, lendo, escrevendo, lendo…

Pouco importará a mais do que provável incoincidência com a realidade histórica entre esta visão lírica de narrativas entoadas em melopeia e uma escritura organizada e disciplinada, respeitadora de regras, preceitos e normas, e, fatalmente, de sistemas convencionais que nunca o são menos pelo facto inelutável de serem transitórios  e portanto substituíveis por outros sistemas, estes, por sua vez, condenados, mais cedo ou mais tarde, a idênticos processos de mudança. A evocação que aí deixei serviu-me somente para ilustrar, do modo mais persuasivo de que fui capaz, a primeira parte do título que dei a estas breves linhas: «Do canto ao romance», e, para os fins que tenho em vista, tão bem servia esta como outra qualquer. A dificuldade viria sempre depois. Precisamente agora.

Digo: «Do romance ao canto» – e nesta  altura deveria demonstrar, ou pelo menos propor-vos como uma hipótese plausível, que o género literário a que damos o nome de romance, havendo chegado na nossa época ao final do arco de círculo que, tal imaginário pêndulo, traçou através dos tempos, estaria regressando pelo caminho por onde veio, até reencontrar o canto primordial, donde recomeçaria a viagem, porventura com um novo impulso que lhe  permitiria galgar, em direcção ao futuro, mais uns quantos séculos ou milénios. Algo como dois passos para trás e três para diante…

Não sou tão desprovido de senso comum.  Dinâmica e cinética são programas de diferente foro do conhecimento, e a literatura, se repete infinitamente, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito  já. Posto o que, chegados a este ponto, é irresistível recordar aquele célebre Pierre Menard, autor de um Quixote  idêntico ao de Cervantes, segundo nos explica Jorge Luis Borges nas suas  Ficciones,  o qual Pierre Menard, tendo repetido, palavra por palavra, a obra do imortal «Manco de Lepanto» (assim designam a Cervantes quando não se quer repetir-lhe o nome, destino a que Camões escapou, pois ninguém, até hoje, se atreveu a chamar-lhe «Zarolho de Ceuta»), muitas vezes está a dizer coisas diferentes, não mais que por serem diferentes os modos de as entender neste século XXI em que estamos e naquele século XVII em que nunca estaremos. Porém, este mesmo exemplo nos mostra, derradeiramente, que qualquer repetição exacta é impossível. Naquela sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco de círculo, o pêndulo iria supostamente reencontrando e reconhecendo, passo a passo, a identidade  romanesca perceptível nas narrações que conhecemos do passado, ao mesmo tempo que iria deixando atrás de si o rasto de uma alteridade coincidente, se uma tão grosseira contradição em termos (se é alteridade, não é coincidente) pudesse ser admitida. É claro que foi pelos meus próprios passos que me meti no beco sem saída em que de repente me encontro. De facto, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, quando fiel e escrupulosamente copiou o Quixote, acabou por escrever outro livro, como conseguiríamos nós alcançar novamente o anto, o desejado canto, e, se sim lá chegássemos, de que canto seriam capazes as nossas bocas de hoje, ainda que as palavras fossem iguais e igual a música? Os homéridas já não têm lugar neste mundo, o  tempo é, de todas as coisas, a única que não é recuperável. Que nos resta, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me está obrigando a segunda parte do meu título? E com que direito me proporia eu, se é de facto essa a minha intenção, anunciar o advento de uma nova era, literariamente falando, claro está, sem cuidar de saber se isso agradaria a quem tivesse de vivê-la? Trazer Homero aos nossos dias, homerizar o romance, terá algum sentido?

Estas perguntas, em si mesmas, e pela ordem por que as apresentei, não são inocentes. Permitem-me, enfim, trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá um conhecimento de causa, isto é, o meu próprio e pequeno universo, o do romance que faço, o seu porquê, o seu como e o seu para quê.

Em primeiro lugar, consideremos a relação do autor com o tempo. Não este em que agora estamos, não aquele outro que foi o do escritor enquanto trabalhou no seu livro, mas sim o tempo contido e encerrado no romance, e que também não é o das horas e dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, e menos ainda o tempo explicitado fora da narrativa, por exemplo, no título que ela recebeu, casos de Cem Anos de Solidão ou de Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.  Falo, sim, de um tempo poético, feito  de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, um tempo dotado de leis próprias, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este, repito, é o tempo poético, pertence à recitação e ao canto, aproveita todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático ou silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim percebido foi meu desejo e minha ambição que se alimentassem as ficções que inventei, consciente de que vou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo pura expansão, se mantivesse fisicamente coerente.

Afirmam músicos e musicólogos que uma  sinfonia, hoje, é algo impossível, como, na mesma linha de ideias, o seria  também esculpir um capitel coríntio. Obviamente, qualquer pessoa, se dotada de suficiente habilidade, poderá contrariar tal interdição de princípio, compondo, de facto, a sinfonia,  ou esculpindo, de facto, o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, ao fazê-lo, esteve a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da criação como no plano da fruição. Ora, quem sabe se não teremos  também nós de enfrentar a gravíssima responsabilidade de aplicar ao romance uma  sentença igual, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível nas suas formas paradigmáticas, prolongadas até hoje com mínimas variações, só raramente  radicais e sempre assimiladas e integradas no corpo tópico, o que tem permitido, com a graça de Deus e a bênção dos editores, que continuemos, muitos de nós, a escrever romances como comporíamos sinfonias brahmsianas ou talharíamos capitéis coríntios.
Mas este mesmo romance, que assim parecia estar condenando, contém já em si, nos seus diversos e actuais avatares, a possibilidade de se transformar num espaço literário (propositadamente digo espaço, e não género) capaz de acolher, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da ciência e da filosofia, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma
sabedoria, de uma cosmovisão, como o  foram, no seu tempo, os poemas da antiguidade clássica.

Porventura estarei caindo em erro, se recordarmos a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, do homem. Porém, não é impossível que essa mesma especialização, por força de algum mecanismo interior de compensação, e talvez por uma instintiva necessidade de sobrevivência e equilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura estamos falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa suprema vertigem, o alto e extático canto de uma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.

E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o bocado de madeira que aqui vos trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente. Juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza – culpa minha – de que o vejais vós. O mais provável foi ter-me  saído um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas doutros animais, desconforme, bicho fantástico – ainda que não tanto  como o ser humano. Este que nós somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente."

José Saramago
16 Setembro de 2009  

sábado, 25 de abril de 2015

"Diálogos com José Saramago" - Estrutura e capítulos da obra do Prof. Carlos Reis


Estrutura e capítulos da obra do Prof. Carlos Reis

Nota Prévia - apresentação da nova edição (datada de 21 de Setembro de 2014)
(...) " Não termino sem lembrar que este livro não teria sido possível sem a generosa disponibilidade de quem foi um grande escritor e amigo inesquecível." (...) Página 8

Apresentação - apresentação da obra (1998)
(...) "Aos amigos mostra Saramago a sua ilha (com orgulho, revela-me o escritor que oficialmente fizeram dele cidadão honorário de Lanzarote); e justamente não se cansa de chamar a atenção para a convulsiva beleza de um cenário que só visto pode ser razoavelmente apreciado, mas dificilmente entendido..." (...) Página 10

Introdução
"O escritor em contrução"

Diálogo I
"Sobre formação, aprendizagem e profissão do escritor"

Diálogo II
"Sobre a condição do escritor"

Diálogo III
"Sobre a História como experiência"

Diálogo IV
"Sobre o escritor e a linguagem da literatura"

Diálogo V
"Sobre géneros literários"

Diálogo VI
"Sobre a narrativa e romance"

Diálogo VII
"Sobre temas e valores, sentidos e destinos comuns"

Diálogos virtuais

"A Estátua e a Pedra ou a magia das ficções" 
Texto lido na apresentação de "A Estátua e a Pedra", de José Saramago 
(Lisboa, Fundação José Saramago, 7 de Maio de 2013)
Texto do professor/escritor Carlos Reis



domingo, 19 de abril de 2015

Citador #37 ... da estrutura e coerência do romance, em "Diálogos com José Saramago" de Carlos Reis

Citador #37
... da estrutura e coerência do romance
em "Diálogos com José Saramago"
Carlos Reis - Porto Editora
Página 134

(...) "O que me preocupa é a arquitectura do livro, a sua solidez, um sistema de vigas que suportam, de modo a que nada trema, mesmo que a história seja delirante e avance pelo fantástico de velas erguidas." (...)
José Saramago

Carlos Reis via Universidade Aberta - Documentário sobre José Saramago

Pode ser visionado pelo YouTube, aqui

... um testemunho sobre o Homem e sua Obra...

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Apresentação da obra do Prof. Carlos Reis "Diálogos com José Saramago"

Início da apresentação. 
A escritora Lídia Jorge, o autor e professor Carlos Reis
Pilar del Río a Presidenta da Fundação José Saramago e anfitriã do evento

Capa da actual edição - Porto Editora

Capa da edição original - Caminho