Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 28 de novembro de 2015

"Espuma das Palavras" de Rui Santos (16/11/2014) Homenagem a Saramago

(Capa da edição, ilustrações de Diana Sbardelotto)



Pode ser acedido para consulta, leitura ou impressão, aqui
em http://www.revistasetefaces.com/2015/06/espuma-das-palavras-de-rui-santos.html

(Open publication - Free publishing)

Género: Poesia

Capa e ilustrações: Diane Sbardelotto

74 Páginas

Sobre o opúsculo
“Espuma das palavras traz a relevo o exercício da força imaginativa do escritor como produto da relação com os acontecimentos de sua própria vida, das leituras e da aproximação que mantém com os principais temas de seu tempo” (Pedro Fernandes)

Link para aceder a todo o trabalho constante nas edições anteriores, aqui
em http://www.revistasetefaces.com/

segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Palavras trocadas" inspiradas em algumas obras de José Saramago


"Palavras Trocadas"

... vivemos num autêntico "Ensaio sobre a Cegueira", 
que se repete num "Ensaio sobre a Lucidez"
... a alguns apetece partir numa "Jangada de Pedra", 
ou seguir na "Viagem do Elefante", 
porque as coisas que vivemos não são "Deste Mundo e do Outro".
Quando chegará de novo "A Noite", 
para que "Os Poemas Possíveis" possam ser de novo musicados?
Às vezes, sinto-me acabado de ser "Levantado do Chão", 
extenuado depois de uma "Viagem a Portugal", 
onde "Os Apontamentos" recolhidos, são peças soltas de uma passarola construída por um padre alucinado que vive num suposto estado de "Provavelmente Alegria". 
"O Ano da Morte de Ricardo Reis", que este, sendo "O Homem Duplicado" de Pessoa, 
viveu nas suas "Pequenas Memórias" 
as "Intermitências da Morte", 
dentro da "Caverna" em que este país se tornou, 
desde a famosa "História do Cerco de Lisboa".
Os censores andam aí, com a cara destapada ou com uma simples capa vestida, 
gritam e bramem aos céus "In Nomine Dei", "In Nomine Dei"!!!
... talvez em busca de outro "Evangelho Segundo Jesus Cristo"
... mas tenham atenção, que "Caim" marcado para sempre, 
dará outra oportunidade tal qual se tratasse de uma "Segunda Vida de Francisco de Assis".
Nesta "Terra do Pecado", onde falta a bondade ao homem, 
procuramos uma nova luz de esperança 
e que essa possa chegar sob o signo da "Maior Flor do Mundo".
"Que Farei com este Livro", 
onde constam todas as evangélicas atrocidades cometidas em nome de deuses, 
por homens raivosos e cegos de razão e moral... 
esses a quem lhe faltou sempre um "Manual de Pintura e Caligrafia" 
com os valores inscritos para a humanidade...

Miguel de Azevedo


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

"Viagem a Portugal" a preparação do roteiro da minha leitura...

(edição da Editora Caminho)

Terminada a leitura da "Viagem a Portugal", e compiladas cerca de 340 entradas de interesse, sob a capa do compasso dos tempos do "Viajante", retenho a profunda convicção do respeito e sentimento da necessidade de preservação deste património, que José Saramago, tinha pelas artes deste país. Quem percorre o país de lés a lés, no ido ano de 1981, data da publicação da obra para o Circulo de Leitores, absorveu um "mundo" diferente do que hoje existe.
Tenho-me perguntado durante este trajecto de leitura: 

«Este é o Portugal de 1981. Como será o Portugal de 2015?»

Alguns factos permitem olhar para esta leitura, vislumbrando um Portugal passado, com quase 35 anos de distância e que desde essa data muita coisa mudou. Terá sido a evolução dos tempos e dos novos conhecimentos benéficos para esta temática? 
Por exemplo:
- A paisagem do interior estará mais desertificada.
- Os caminhos estão mais directos, por obra das múltiplas auto-estradas construídas e que tornaram os pontos distantes mais próximos, mas também, votaram os pontos interiores ao abandono.
- A falta de protecção, os roubos da arte sacra e o vandalismo crescente a que estão continuamente sujeitos estas centenas de lugares que a obra descreve, muito por culpa do abandono das vilas e aldeias do interior e também do desinteresse das tutelas locais, regionais e nacionais, facilitando este desconforto no facilitismo com que se rouba e destrói.
- A paisagem rural está desertificada, onde que as antigas explorações agrícolas são tornadas em mato abandonado, ou, dizimadas pelos fogos florestais de todos os anos. Isto é também um alerta da politica de pressão que torna as grandes cidades como fonte de eventual oportunidade para as populações, relegando as aldeias para os velhos que morrendo ficam novos povoados em ruínas.
A leitura da "Viagem a Portugal", é um maravilhoso roteiro de arte, de história, de fulgor de outras eras, mas também poderá ser um documento de demonstração da contradição com a necessária intervenção humana na organização e preservação do território nacional.
Passando pelo norte e centro de um românico vibrante e verdejante, José Saramago, desce até à planície amarelada da cultura rural do Alentejo e continua pelas terras do Algarve. Aqui a (já) pressão turística cria nitidamente muitos anticorpos no Viajante. Parado numa falésia da Ponta de Sagres, regressa a casa. O que viu uma vez deve ser visto mais vezes, como refere no apontamento das visitas que fazia regularmente ao Museu Nacional de Arte Antiga, onde reservava cada incursão para uma única sala, chegando mesmo a alegar que tamanha quantidade de obras de arte não podem ser vistas em barda, sob prejuízo de muito ficar por ver e do muito que se vê, pouco se aproveitar, tal como, é uma afronta ao que não visto merece o mesmo respeito que o restante.
Este Saramago, o "Viajante", ateu convicto mas imbuído de um enorme sentido de religiosidade, criador do "Levantado do Chão" da família Mau-Tempo, e que, após este ano de 1981, dará vida e imortalidade em Blimunda e Baltasar, este "Viajante" mal sabia que caminhos viria a criar pelo mundo fora. 
O roteiro da minha leitura, chegará nos próximos dias através de um longo e quiçá pachorrento elencar de lugares sem a graciosidade dos que baseados na obra foram superiormente descritos, e aqui, estes transmitirão as minhas sensações recolhidas, talvez apreciadas, mas será o que consegui reter.

Miguel de Azevedo

Aqui ficam as últimas palavras da "Viagem a Portugal".


"O Viajante volta já".
"Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já." 

(Caminho, 11.ª edição, página 387)

sábado, 10 de janeiro de 2015

O Caderno - "Quê?" ... José Saramago questiona

O mundo está em guerra.
Os homens contra as liberdades dos outros.
As lutas em nomes de deuses e seus afins.
Fanatismos e outros tantos "ismos" que tornam o ar deste mundo irrespirável.
Será este mundo pequeno para os homens de bem?

Miguel de Azevedo


"Um dos líderes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), Harith bin Ghazi al-Nadhari, congratulou-se pelo ataque levado a cabo pelos irmãos Chérif e Saïd Kouachi contra o Charlie Hebdo, na quarta-feira, através de um vídeo difundido esta sexta-feira na página de internet do SITE, um site de monitorização da ameaça jihadista.
Segundo aquele site, no vídeo intitulado "The Faces Succeeded" (Os rostos triunfaram) com a duração de 5 minutos e 37 segundos, al-Nadhari volta a colocar a França sob a ameaça de novos atentados caso não pare de "combater" o Islão e os seus símbolos e os próprios muçulmanos. O vídeo foi partilhado algumas horas depois dos dois irmãos terem sido mortos pela polícia francesa.
"Alguns dos filhos da França desrespeitaram os profetas de Alá, por isso um grupo de soldados de Alá marchou contra eles, ensinando-os a respeitar e os limites da liberdade de expressão. Soldados que amam Alá e os seus mensageiros foram até vós, e eles não temem a morte e adoram a ideia de serem mártires em nome de Alá", pode ler-se na página do SITE."

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/video-da-al-qaeda-ameaca-franca-com-novos-ataques=f905762#ixzz3OPjptgY7






Link para consulta
em, http://caderno.josesaramago.org/23054.html

"Quê?
As perguntas: “Quem és?” ou “Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja."

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2009

em, "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição
Página 174

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

"História do Cerco de Lisboa” que PODERIA ter sido inspirada na obra de Dino Buzatti, “O Deserto dos Tártaros”

Será possível conhecer a obra e o legado de um homem, baseado no estudo e conhecimento do que produziu e deixou aos seus, enquanto resultado final?
Neste caso, nesta área de acção - a escrita - e numa alusão algo simplista, um escritor deixa livros publicados ou rascunhos que poderiam ter dado lugar a algo mais substancial. Dessa obra que deixou e que pode sobreviver à morte do autor, serão traçadas as linhas caracterizadoras do seu pensamento; poucas linhas servirão para descrever quem foi "fulano de tal", que morreu na tal data, e que "abaixo se transcreve a sua bibliografia". Isto é o mundanamente vulgar que se inscreve, todos os dias, nos anais da história da literatura.

Daí a pergunta inicial, que cada um poderá dar a sua resposta, com base na experiência própria ou da sua percepção sobre o que é, o que pensa ser, o que gostaria de ser, e também, do que pensa que os outros entendem sobre si.
José Saramago, e na percepção do que eu assumo como meu pensamento principal, é a negação à resposta da minha pergunta.

A minha leitura da extraordinária conversa, entre a jornalista Ana Sousa Dias e José Saramago (Verão de 2006 em Lanzarote), acrescentou ao meu conhecimento mais alguns detalhes sobre a pessoa, o escritor e o intervencionista inquieto e desassossegado, que caracterizaram o autor. Neste caso, mostro-me maravilhado, pelo pormenor revelado sobre a via inicial com que a "História do Cerco de Lisboa", poderia ter sido conduzida pelo punho de Saramago, em eventual analogia à obra de Dino Buzatti, "O Deserto dos Tártaros". 
Qual a importância deste facto? Relevância ou mera curiosidade? Talvez um pouco de cada, mas depois de ter lido estas linhas, perguntei-me: 
«Poderíamos ter perdido e passado ao lado de Raimundo Silva? 
Poderíamos ter perdido a discussão filosófica do peso do "não" e do "sim"? 
O que seria deste quadro histórico se a linha de escrita tivesse sido outra?»

José Saramago, o seu legado, a extensão do seu "mundo", continuam hoje a provar, que, ele enquanto figura inicial e génese da filosofia "Saramaguiana", transcendem toda a sua obra publicada. Não é possível conhecer uma pessoa, só pelo que ela deixou realizado, e, neste caso transmitido em obras devidamente catalogadas. Não só, é obrigatório incluir as obras publicadas, mas também, tudo o que gira à volta do homem e das suas referências, sendo disto exemplo, as crónicas e textos realizados ao longa da vida e que muitas publicações deram disso testemunho, como objecto de reflexão sobre os dias e a história desses tempos passados - refiro-me aos livros de crónicas de teor político e social. Também não poderá faltar, a incursão pela sua poesia; poemas que continuam a ser musicados e cantados por homens e mulheres que sentem a mesma urgência inicial com que o autor os escreveu. Disto, e de entre alguns, são testemunhas Barata Moura, Manuel Freira, Mísia, Luis Pastor.
O intervencionista, o manifestante, a incursão pelos meandros da politica, o agitador de consciências, o homem social, o confronto com os pilares corrompidos da "igreja", a luta pela liberdade, a luta contra as várias formas de censura, as guerras que "comprou" e as em que foi envolvido, fizeram de Saramago, um ícone social, diria até, exterior e independente da obra produzida. O homem que lutou pela causa dos Zapatistas em Chiapas; na defesa do meio ambiente, que inscreveu nos Princípios da Fundação José Saramago; na intervenção conjunta com Sebastião Salgado; ou no apelo feito em defesa da activista e resistente Saharaui Aminatou Haidar; na posição pública perante a causa palestiniana; na oposição frontal a Guantanamo e a G.W.Bush, são momentos de intervenção cívica, que embora não retratados nos romances, não deixam de ficar imortalizados na história em memória daqueles que foram terrivelmente assassinados e oprimidos.  

Saramago, é também conhecido, como tendo sido entusiasta e estudioso de outras áreas das artes e expressões artísticas. Melómano e apreciador de musica clássica, da pintura e cinema, de onde as suas obras disso fazem menção expressa; rapidamente nos lembramos do violoncelista em "As Intermitências da Morte", o espaço cénico e musical sempre presente no "Memorial do Convento", o retratista crítico de si, no "Manual de Pintura e Caligrafia", os barros e artes populares em "A Caverna", e toda a arte na sua forma do retrato que é (foi) Portugal através da "Viagem a Portugal". O seu interesse pela arte, é transportado para dentro dos seus livros e transmitido sob a forma de conhecimento.

José Saramago, foi também a solidariedade e amizade com aqueles que muito prezava e respeitava, dizia-se um solitário cheio de gente à sua volta; as multidões para o ouvir nas inúmeras conferências que realizou, deixava-o de boca aberta, as longas e intermináveis filas de autógrafos que tinha de estoicamente resistir, são exemplos do homem que era mais do que os livros escritos, e que lhe trouxeram a obrigação social de se manter disponível. Após a atribuição do Nobel, percorreu o mundo, deu voltas a Portugal e a muitos lugarejos, mais mundo teria percorrido se lhe fosse humanamente possível. 
Foi com este humanamente impossível, e aqui relembro a visita que efectuou em cadeira de rodas, manifestamente debilitado, à exposição "A Consistência dos Sonhos", que ele involuntariamente ao longo dos tempos alcança uma imagem de força, resistência e tenacidade. 
Ultrapassar o impossível e a alcançar o possível. A urgência de retribuir. O agradecimento. O homem que se sentia reconhecido, e a bondade com que, em forma de romance viveu os seus dias. 
Será Pilar a responsável?

Miguel de Azevedo 




"Depois vem um livro estranho que é a “História do Cerco de Lisboa”. A primeira ideia era na linha de “O Deserto dos Tártaros” do [Dino] Buzzati. Um cerco em que não se percebia muito bem quem cercava nem quem era cercado. Usemos a palavra: um pouco kafkiano. Isso andou na minha cabeça durante uma quantidade de anos até que me dispus a escrever o livro já com um objectivo completamente diferente. Em princípio, toda a gente parte do cerco de 1385, mas não, os cercados são os mouros. E entre as figuras simpáticas do livro algumas delas são mouros."

Extracto da entrevista de Ana Sousa Dias


(Dino Buzatti, 1906/1972)

Pequena referência biográfica do escritor Dino Buzatti,

"Dino Buzzati Traverso (San Pellegrino di Belluno, 16 de outubro, 1906 — Milão, 28 de janeiro, 1972) foi um escritor italiano, bem como jornalista do Corriere della Sera. Sua fama mundial é principalmente devido ao seu romance Il deserto dei Tartari, traduzido para português como O Deserto dos Tártaros, de 1940. Dino Buzzati detém um estilo inconfundível, que não obedece a modas e etiquetas, explorando sempre uma visão fantástica e absurda do real. A sua obra está traduzida em inglês, francês, alemão e espanhol e difundida largamente em todo o mundo.
Dino Buzzati nasceu perto de Belluno em uma pequena propriedade rural de sua família. Sua mãe, veterinária, era veneziana e seu pai, professor universitário, era de uma arntiga família de Belluno. Buzzati foi o segundo dos quatro filhos do casal. Desde muito jovem manifestou as que iam ser as aficções de toda sua vida: escrevia, desenhava, estudava violino e piano, além da paixão pela montanha à que dedicou sua primeira novela, Bárnabo das montanhas (Bàrnabo delle montagne) (1933).
Em 1924 ele entrou para a faculdade de direito da Universidade de Milão, onde seu pai já ensinara. Quando já estava para terminar seu curso de direito, aos 22 anos, tornou-se jornalista do jornal milanês Corriere della Sera, onde permaneceria até a sua morte. Não começou como repórter, onde só depois trabalharia como correspondente especial, ensaista, editor e crítico de arte. É comum dizer que sua profissão como jornalista teve forte influência sobre seus escritos, emprestando mesmo para seus contos mais fantásticos uma aura de realismo. Frequentou o Liceo Classico Parini di Milano e laureou-se em jurisprudência com uma tese La natura giuridica del Concordato.
O sucesso obtido com sua primeira novela, a já citada Bárnabo das montanhas, não se repetiu com a seguinte O segredo do Bosque Velho (Il segreto do Bosco Vecchio) (1935), que foi acolhida com indiferença.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Buzzati serviu na África, como jornalista da Marinha italiana. Após o fim da guerra, publicou sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros, alcançando fama mundial e tendo grande sucesso de crítica.
Desde 1936 escreveu numerosos relatos para o Corriere della Sera e outros jornais, posteriormente recopilados em Os sete mensageiros e outros relatos (I sette messaggeri) (1942), Paura alla Scala (1949), Il crollo della Baliverna (1954), Sessanta racconti (1958, prêmio Strega), Esperimento dei magia (1958), Il colombre (1966), As noites difíceis e outros relatos (Lhe notti difficili) (1971).
Em 1960 saiu O grande retrato (Il grande ritratto), quase um experimento de novela]] de ciência ficção]], onde entra em cena o universo feminino, que até então tinha explorado muito pouco. Três anos depois, em Um amor (Um amore) relatou a história de Antonio Dorigo, um homem que encontra o amor aos cinquenta anos: apresenta prováveis rasgos autobiográficos, já que aos sessenta Buzzati casou-se com Almerina Antoniazzi.
Também elaborou roteiros de cinema, como o de Il viaggio de G. Mastorna, colaborando com Federico Fellini, além de libretos de ópera. Entre vários outros, venceu o prêmio jornalístico Mario Massai (1970) pelo artigo publicado no Corriere della Sera nell'estate (1969), sobre a descida do homem à Lua.
Em 1972 morre em decorrência do câncer, após uma prolongada luta contra a doença, na clínica La Madonnina de Milão."

(Capa da obra de Dino Buzzati)


Sinopse da obra, via Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Deserto_dos_Tártaros

"O Deserto dos Tártaros é uma romance escrito pelo escritor italiano Dino Buzzati em 1940, que gerou um filme - homónimo em 1976
A necessidade humana de dar sentido à vida e o desejo de imortalidade através da glória são o tema, sobre o qual circulam as alegorias desta obra. O enredo se desenrola sobre a narração da espera feita ao longo da vida do personagem Drogo, um militar de carreira, que vive se preparando para uma grande guerra na qual ele acredita que sua vida e existência serão postas à prova.
Drogo ainda jovem, é designado a uma remota fortaleza, localizada defronte a um deserto desolado, fronteiriço ao território tártaro. Nela, ele gasta sua carreira esperando e se preparando para uma invasão tártara, sempre temida em renovados rumores, alimentados pelo próprio Estado a que serve.
Só muito tarde, Drogo vai percebendo que ao longo dos anos em sua estadia no forte, ele deixou passar anos e décadas e que, apesar de seus velhos amigos, tanto os da cidade, como os militares que passaram pelo forte, terem tido filhos, casado, e vivido uma vida plena, ele em sua longa e paciente vigília veio acabar com nada, excepto a camaradagem militar.
Quando finalmente o ataque dos tártaros está para ocorrer de verdade, com as tropas inimigas à vista da fortaleza pela primeira vez em todos os seus anos, Drogo já velho e doente é dispensado pelo novo comandante do forte. Em seu caminho de volta à civilização, Drogo morre solitário em uma pousada."

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Carta ao "Pai Natal", digo e corrijo, a José Saramago

Carta ao "Pai Natal", a José Saramago

Escrevo-te, e desculpas antecipadas, prestadas pelo tom directo com que me dirijo, mas assim fica mais fácil de me fazer entender, e estando o ano de 2014 nos seus últimos dias, gostava de te deixar algumas perguntas.

Bem sabes, que à "força", os "grandes" gostam de incentivar os "pequenos", em casa ou nas escolas, a escrever cartas ao "Pai Natal da Coca-cola", para que peçam as prendas, os seus desejos e sonhos que só as crianças sabem ter. Elas, a criançada, contrapõem estes pedidos com inocentes e auto-elogiosos discursos de bom comportamento e vontades, geralmente, em tom de duvidosa certeza, para que possam, enfim, justificar uma carrada de presentes. Nestas alturas, os mais irrequietos, julgam-se uns santos apaziguadores, e os mais disciplinados, esses pois, levam pela mesma bitola do escrutínio do elogio dos anteriores.
Só quem não foi criança. não pode alcançar a ilusão destes pecados.

Assim, e em estilo de intróito justificativo, escrevo esta missiva, para que, de alguma forma, e tendo este ano a quem escrever, o meu destinatário possa aclarar esta mente inquieta e ávida de respostas, ou, talvez com um pouco de sorte, me agracie com novas perguntas.

Bem saberás, que sou empiricamente contra a saga do "Pai Natal da Coca-cola", esta figura criada,  e dotada de um poder inebriante junto das pessoas. Não raras vezes, se deve ouvir perguntar, em que parte da fábula do natal, entra o "velho das barbas". Ou, se, ele entra em cena, com os "três reis magos", ou, se é actor de outra versão do espírito natalício.

Por isto, e mais algumas coisas, que bem sabemos, segue esta carta para alguém como tu, tem a capacidade de dar respostas diferentes a perguntas, de tão antigas que são, e de tão gastas respostas dadas, que as mesmas perguntas continuam sem solucionar os respectivos enigmas. Parece-me, mas confesso, que sou bastante distraído, que a mesma pergunta feita durante tanto tempo, à qual as respostas também são sempre as mesmas, criam a alegoria da verdade ilusória. O problema manter-se-á, com base na resposta dada como adquirida e não questionada. Em outro paralelo, posso colocar-te isto, como a rábula da «mentira dita muitas vezes que se torna numa outra verdade».
Daí que, admiro as pessoas, que muitas das vezes não sendo iluminadas, têm o desprendimento de espírito suficiente, que lhes permita fazer perguntas diferentes ou inéditas.
As minhas dúvidas, as minhas questões, as incertezas, os medos, tudo isto e mais algumas outras coisas, têm sido, como que, o meu privilégio surreal de me manter desassossegado e inquieto, como tu bem gostavas que o mundo assim se sentisse.

Ontem, em Pashawar, no Paquistão, 141 pessoas foram executadas por um suposto comando Talibã. Destas pessoas executadas, porque não há outra forma de o expressar, a quase totalidade eram crianças. O massacre deu-se numa escola. Pelo número de mortos, a quantidade de feridos deve ter sido assustadora.
O "contador" da humanidade, fez um sonoro "plim", e deu o desconto destes mortos.
Isto, foi notícia ontem, dia 16/12/2014.
Como sabes, os meios de comunicação social dão destaque a estas atrocidades. As manchetes destes casos continuam a vender. Quanto mais sangue e corpos estropiados à hora dos telejornais, melhor. E quando acontece, as famílias reunidas à frente da televisão a jantar, têm a mesma reacção que se tem a ver um filme Hollywood. Impávidos e serenos.
As várias notícias sobre este assunto, fez a contagem, mostrou sangue e mortos, homens a carregar em braços, crianças estropiadas. Mas, e um mas, muito firme, não houve uma reportagem que perguntasse - Porque? Ou, o que é realmente necessário para que isto não aconteça, nunca mais?
As notícias de hoje, anunciam retaliações do governo paquistanês. Volta a pena de morte. Olho por olho, dente por dente.

No dia anterior, em Sidney, Austrália, aconteceu um sequestro num café. Um suposto religioso muçulmano, barricou-se dentro do estabelecimento, com uma carrada de pessoas reféns, e no final o mais que previsível banho de sangue. 3 mortos e alguns feridos.
Aqui, o "contador" da humanidade, fez outro "plim", e deu o devido desconto.
Não há outra forma de o dizer.
Parece que nestes assuntos, há os executados, as vítimas, e os outros que vão escapando até subir de nível, até serem abatidos.
Ahh, já me esquecia! Tens razão, a pergunta.
Quando, ou melhor, como será possível que deixem de existir mortos em nome de um qualquer deus?
Porque, ao que parece, em pleno século XXI, ainda subsistem alguns deuses, como se de partidos políticos diferentes se tratasse, em que se apresentam pelos seus interpostos fiéis, capazes (estes) de efectuar massacres e execuções, num sinal atroz de poder. Aconteça isto em zonas de guerra, ou num café de uma cidade em paz. 
O que poderá ser feito, para que as guerras religiosas acabem? Estas e as outras, é claro!
Será que a tua obra "In Nomine Dei", se perpetuará para sempre?
De outro lado, numa outra latitude, no Vaticano, o Papa Francisco sopra as velas do bolo de aniversário. Ao todo são 78 anos. Houve festa e tango vindo da Argentina. Orações e afins.

Mudemos de assunto, agora para questões terrenas. Não seriam as outras, também terrenas?
Levo-te até à Califórnia. Estados Unidos da América. Sim, a terra de G.W.Bush, aquele presidente a que dedicaste, no "Caderno", a 18 de Setembro de 2008, uma inserção a que deste o nome de "George Bush, ou a idade da mentira".
É também neste país, que tem como presidente Barack Obama, prémio Nobel da Paz, do ano 2009. Nesse ano, a Academia Sueca fez a seguinte menção na entrega - "for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples". Pasme-se.
O que na altura não entendi, e continuo a não perceber, quais são préstimos à causa da paz que Obama realizou, ou será, que bastou a eloquência ou argumentária dos discursos que efectuou? 
Desculpa-me a franqueza, mas neste capítulo, o do prémio Nobel da Paz, a Academia Sueca deixa muito a desejar. Colocar Obama, com o mesmo título, que Mandela, Dalai Lama, Martin Luther King e mais alguns receberam, é uma afronta.
Continuando. 
Um dos itens que redigiste na "Declaração de Princípios", datada de 29 de Junho de 2007, aquando da instituição da Fundação José Saramago, e passo a citar, é que «mereçam atenção particular os problemas do meio ambiente e do aquecimento global do planeta, os quais atingiram níveis de tal gravidade que já ameaçam escapar às intervenções correctivas que começam a esboçar-se no mundo».
Vi a notícia da seca brutal, que dura há mais de 3 anos na Califórnia, e recordo-me logo, das tuas intervenções e preocupações, com o meio ambiente, a forma como os seus recursos são espoliados numa sangria desenfreada, afectando, ainda não sabemos como, as futuras gerações, tanto ao nível das alterações climáticas que se agravam a olhos vistos, como, ao nível da disponibilidade efectiva de recursos num futuro próximo.
A água, será, dizem os entendidos, muitas vezes apelidados de catastrofistas e loucos, o "ouro" das próximas décadas. Os povos do sul, tenderão a sofrer com as secas e avanço de terras desérticas, algumas florestas densas, serão cada vez mais confinadas a pequenos santuários de terras.
A noticia da seca na Califórnia, que dura há muito tempo, e com danos irreversíveis em algumas áreas, vem agora à luz do dia, porque a NASA apurou serem necessários 42 quilómetros cúbicos de água para inverter a situação. Este estado tem 38 milhões de habitantes, e estão a serem impostas multas e leis rígidas, para disciplinar/racionar o uso da água. Parece que, por lá, também se ataca a raiz dos problemas, pelo lado errado da questão.
A minha pergunta, que aqui te deixo, à qual não tenho resposta, é muito simples. Talvez, até um pequeno rapaz de tenra idade, a possa formular melhor do que eu. Porém, como é que o país supostamente, mais industrializado do mundo, talvez, o mais evoluído cientificamente; o que detém mais ilustres cientistas e investigadores galardoados com os mais prestigiados prémios; o país com mais recursos económicos, e que, cuja moeda pode ser impressa e inundar os mercados financeiros a seu belo prazer; ou, para não mencionar, o poderio militar, a indústria que o suporta, as guerras em que intervém/patrocina, ou sim, mencionar, o orçamento da Defesa, que tem tantos zeros à direita do algarismo, que torna a soma um buraco negro de recursos, dizia eu, antes de me perder, pergunto eu, como é possível, um país dotado de atributos mil, não ter conseguido inverter o desastre que assola o estado da Califórnia?
Ou, será que este assunto, a demonstração do inevitável rumo que a humanidade está a tomar, alegremente vivendo e consumindo, sob a forma de crédito da natureza, e que será pago, sabe-se lá com que custos e "apocalipses" pelas próximas gerações. Quiçá, os filhos dos nossos filhos, amanhã, muito lamentarão o tamanho egoísmo dos seus avós, homens e mulheres que somos hoje.
Será, que toda a tecnologia existente, ainda assim, neste actual elevadíssimo patamar de desenvolvimento e conhecimento, é incapaz de conseguir inverter e diminuir os impactos ambientais severos, provocados pela seca extrema?
Será que, num futuro poderemos assistir a colonização de outros planetas, sem que este, esteja devidamente curado dos males, que agora, são perceptíveis de padecer?
Sei que não gostas das utopias, consideravas as ideias utópicas, como exercícios de pensamento, algo desnecessários. O que hoje, pode ser considerado como um pensamento ou ideia para a humanidade, daqui a uns quantos séculos, nesse mesmo futuro, quando o presente se tiver tornado, poderiam as tais ideias serem consideradas absurdas ou irrealistas. Gosto da tua ideia, desmistificando o peso da utopia, em que o bem a ser praticado - deve ser para agora, já, para estes homens e mulheres.
Não sendo uma pergunta, concreta, mas um enorme ponto de interrogação, talvez do tamanho deste planeta e da lua, que a nós anda atracada; será que os Estados Unidos da América, nação de tal poder, permite que tal desgraça se manifeste de forma irreversível, no seu próprio território, num estado onde vivem mais de 38 milhões de habitantes, sem que o consigam resolver/reparar? Então, outra questão se levanta. O que será que está a passar no coração de África, onde os holofotes das notícias estão apontados para as pestes e epidemias, mas não sintonizam a devastação que por lá existe? Ou, o estado em que o desflorestação do chamado "pulmão verde do planeta", deixou a floresta Amazónica? Ou, pior ainda, a tentativa que as grandes petrolíferas fazem para avançar com a exploração do petróleo, no polo norte?
Estaremos nós, população mundial, directa e indirectamente a criar condições para o seu próprio extermínio?  
Será que, aquilo que é considerado hoje, de ficção científica, se confundirá com a realidade de um amanhã próximo? Isto, tal como aconteceu no passado, com a ideia herege do padre Bartolomeu de Gusmão, ao criar a "passarola", qual máquina ilusória que colocaria os homens a voar sem que tivessem as asas de Ícaro, quando hoje, a aviação civil é tão banal como andar de bicicleta.

Peço desculpa pelo incómodo, e pelo tempo que te tomo, mas há coisas que me fazem confusão, e as respostas às coisas que me fazem a dita confusão, são tão estranhas como as mesmas perguntas que as antecedem.

Dei por mim, lendo uma notícia, daquelas habituais dos fins de ano, onde se fazem a contabilização de tudo e de nada. Desta feita, o "monstro da espionagem universal", digo, a ferramenta de pesquisa "Google", elencou os termos mais pesquisados a nível mundial, e local, de alguns países. Portugal, também teve à sua lista, ao modo "os 10 mais pesquisados". Então, para nossa satisfação, em 2014 o "Campeonato do Mundo de Futebol", o reality show "Secret Story 5", e a morte do actor "Rodrigo Menezes", foram os três assuntos mais pesquisados. Da lista restante, fica para a história do nosso país, o "blog azul", "NOS", "Novo Banco", "Legionella", "telexfree", IPhone 6" e por fim, a morte do actor "Robin Willians".
Vi a notícia, e... deixa estar, pelos termos pesquisados, não sei que pergunta te posso fazer, a ti que colocaste uma Joana Carda a riscar o chão, o cão das lágrimas a afagar o rosto da mulher do médico, tu que deste corpo a Ricardo Reis, puseste a morte numa posição desconfortável quando se apaixonou por um mero violoncelista, ou chamaste à terra o oleiro Cipriano Algor, os Mau-Tempo, enfim... tantos deles...
Perante isto, que te poderei perguntar?

Meu amigo, José
Meu amigo José, envio-te esta carta, porque ando preocupado.
Ando inquieto com este mundo, desassossegado com tantas questões, e não sei mais o quê, e o que pense destes nossos dias.

José, envio-te esta carta, porque tenho saudades tuas.

Miguel de Azevedo
17 de Dezembro de 2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

“O Mago que era Mestre” a minha homenagem ao Mestre José Saramago - Evocação dos 16 anos da entrega do Prémio Nobel

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca



“O Mago que era Mestre”

Não roubei palavras, as palavras nunca têm dono
Todos somos donos de todas as palavras
Uso-as como retratos do meu ser
Às vezes peço-as emprestadas
Outras vezes são-me oferecidas
Um dia, lá longe, tão longe, tão longínquo
Que da memória apenas guardo um afago
Um mago bateu à minha porta
Deixei-me abrir, abri a porta, como teria aberto antes
Abrirei se assim voltar a acontecer
Estupidamente não perguntei quem era, como que já o esperasse
Estupidamente não perguntei ao que vinha
Deixei-me abrir assim a porta, como quem abre o coração da sua casa
Ele não estava, estando, não estava
Não bateu só à minha porta
Não iria bater só à minha porta
O mago seguia o seu caminho
Por cada porta que passava, batia três vezes
Três vezes, como os antigos carteiros faziam para anunciar as novas que traziam
Quando abri a porta, o mago já ia longe
Percebi-lhe a sombra, caminhava, seguia
Percebi que a sombra de um homem é tão grande, quanto ele a possa imaginar
A sua sombra caminhava e crescia 
O mago seguia o seu caminho, caminhava, caminhando
Deixava as suas palavras
Colocava-as à beira de cada porta com cuidado
Não eram peças que pudessem ser arremessadas
Algumas portas estavam fechadas, numa eternidade enclausurada,
Eternamente cerradas em si
Nem toda ou qualquer pessoa está precisada de palavras
Nem toda a gente, debaixo da sua própria sombra, procura palavras
Muitas portas ficam fechadas
Muitas portas ignoram
Muitas portas procuram ficar fechadas para sempre, com suas janelas quais com olhos fechados
Janelas fechadas com mentes inertes, imóveis e estanques no que são
Alguns vêm à porta, escutar se os passos já foram, ignorando que as palavras podem ser mudas
Outros abrem a medo o postigo
Não raros, entreabrem a porta presa por uma corrente, não vão as palavras assaltar sem avisar e invadir esses antros receosos
Incautos e surpreendidos, muitos barram passagem à espuma das palavras
Essas, que de umas, trazem companhia, outras e mais outras, e mais e mais que se aproveitam
Ouvem-se portas bater
Que batam, quem das palavras não aprouver necessidade
Que batam, quem medo tenha de novas palavras
Que batam, por deseducação
Que batam, porque sim, e por distracção 
Ouvem-se portas bater
Confusos por não estar ninguém, que estando, deixava cuidadosamente as suas palavras
Uns que ainda as aproveitavam, outros nem tanto
Tantas palavras que assim esmoreciam e esfumavam, regressariam ao caminhante, talvez
Aqui e ali, pelo caminho fora, observa-se que muitos,
Muitos, mas muitos, tantos, mais do que o mago previra ou iria algum dia vir a prever 
Seguem o mesmo caminho
Colhendo-as, como que, quais pardais que esmiúçam as migalhas do chão

Tantos que seguem esse caminho
Também existem homens e mulheres, que com palavras dadas procuram outros significados
Mais significados para as respostas já dadas
Mais significados, que descobrem novas perguntas
Que buscam mais certezas para avolumar às suas incertezas primeiras
Que dos pesadelos das terras áridas buscam novos sonhos
Mas que mago será este, será mesmo um mago?
Se as suas palavras entregues a quem as aprouver não têm respostas
Não dará um mago a resposta a todas as perguntas?
Se as suas palavras depositadas mais perguntas levantam
Dizem que ouviram perguntar – para quê e o porquê de mais perguntas?
Não bastava já as que os idos tempos ainda não tinham resolvido
Mas que mago será este?
Quando os que abriram as portas, que das entranhas sopram urgência de respostas
Quando os que desorientados procuram novos sentidos e indicações que façam sentido
Um dia, lá longe, de tão longe, tão longínquo
Que das memórias guardo apenas um afago
 Tive a sorte de me baterem à porta
Tive a necessidade de procurar palavras
Muitos de nós tivemos a sorte de nos bateram à porta
Terríveis palavras, tormentas e atormentados
Cruas verdades, para os que se levantam do chão e das suas terras
Mais palavras para os que tentam construir “empresas” maiores que as suas capacidades,
Recordando de igual forma, os tempos dos caminhantes marítimos que empreendiam viagens longínquas
Viagens quem prometiam descobrir novos horizontes promissores 
O mago caminha, vai caminhando, altruísta, o caminho que o escolhia para que seus passos o seguissem
Não pedia que o seguissem
Não assobiava para se anunciar
Não havia qualquer murmúrio de chamamento
Não há memória que alguém testemunhasse 
O mago será mago?

Estranhamente o mago não era mago, que o sendo, não era
Não era feiticeiro, nem paladino, nem profeta de outras causas gastas
O mago que não era mago, abominava as outras palavras, as palavras que anunciavam as certezas
Seguia o seu caminho
Seguia… não carregava paus, cruzes e amuletos,
Seguia…  tocava às portas, e não estando para quem as abrisse, estava
Ouviram dizer muitos murmúrios sobre o mago
Ouviram dizer que o mago procurava que as pessoas saíssem debaixo da própria sombra e se libertassem
Abandonassem a caverna dos sentidos ensombrados onde se permitiram mergulhar
Sabe-se lá quantos são, os amarrados e mergulhados nesse assombro
Ouviram dizer, que alguns tinham visto um belo sol, tão belo, quanto aquele sol que se vê pela primeira vez
Outros tinham sentido um sol tão forte, como aquele que nos aquece a alma
Ou que o sol luminoso, tão luminoso como aquele que nos obriga a tapar o olhos com os dedos entreabertos 
Quanto sol seria necessário existir para que as pessoas o pudessem vislumbrar por cima das suas sombras
Houvera também quem tivesse dito que o vento que varre as folhas das árvores
Esses ventos fortes, tão fortes, poderiam não ser suficientes para abanar as consciências nubladas
Eólo poderia soprar eternamente, mas poderia não bastar para esta gesta
Mas o mago não trazia nenhum sol
Mas o mago não colocava nenhum floco de luz ao lado das palavras depositadas
O mago não deixava correr nenhum vento, maior que aquele que soprava na rua
Iluminava a alma de muitos sem anunciar a luz
Soprava a consciência de outros tantos sem lhes soprar 
Tocava à porta três vezes como os carteiros ainda fazem para anunciar as novas
Deixava as palavras a quem as procurava
Deixava palavras a quem por assombro as pudesse recolher
Deixava um trilho já caminhado a quem procura um novo sol
Que das sombras das casas fechadas, as janelas pudessem ser finalmente abertas de par em par
O mago batia às portas e seguia
As mentes que se agigantavam de novo, agora maiores que a sua própria sombra
Os medos que não desapareciam, mas que eram enfrentados
As consciências que subiam das cavernas
As sombras que subiam chaminés e trepavam muros intransponíveis
As sombras que eram obrigadas a desvanecer e a criar corpo
O mago, que mago será este?
Aqui e ali ia trazendo pessoas a uma nova luz a um novo sol
Sem querer ia destapando buracos de onde emergiam sombras
Outros que iam somando a mais alguns
Havia palavras havia luz
Havia perturbação havia inquietação
Inquietos que procuravam novas palavras
Iluminados que assumiam novas inquietudes
Qual legião de desassossegados brotavam das suas almas
Um dia, depois de muitas portas ter batido
Regressou, regressou… o caminho devolveu-lhe o regresso
O caminho conduziu-o pela tal encosta acima
O mago que não era mago, foi obrigado a pausar o seu passo de caminhante
O mago que não era mago, conduzido, regressou ao seu espaço
Sentou-se numa pedra, perto da sua Oliveira, ainda apanhando um pouco da sua sombra
Sua que não sendo, porque as árvores são como as pedras, e as pedras não são de ninguém 
Mas o mago pedia este espaço emprestado e dele ser servia
Os seus olhos apontavam o horizonte, para lá, muito para lá, 
Um horizonte, para lá de onde os nossos olhos alcançam
Aí é o horizonte, o lugar para onde enviamos a nossa mente quando buscamos um local para pensar
As pernas cansadas, de tanto percorrer caminhos
Os pés, doridos de tantos sulcos terem cavado pelas terras que pisaram
As mãos, essas pobres coitadas, poderiam estar esvaídas em sangue de a tantas portas terem batido
A sua Oliveira, porto de abrigo, como se de uma jangada tratasse
A sua Oliveira, que tão torcida estava, abria largas pernadas disformes
Desde tempos, que o tempo deste mago desconhecia, que já as suas raízes tinham cavado as terras fundas
Cada vez que o mago, aqui tornava
Cada vez que o mago por aqui passava
Aproximava-se da Oliveira e abraçava-a
Era assim que o mago pensava sentir o mundo, o pulsar das gentes e das terras
Seria aqui, que o mago que não era mago, vinha buscar mais palavras?
A árvore que sempre esperava o seu abraço, mesmo que o não pudesse esperar
Por um momento, tudo se fundia num só sentido, num sentir diferente
O homem, a sua árvore, a sua pedra… todos seus e uns dos outros
 As raízes da Oliveira, que sentem o pulsar do sangue bombeado
Os braços do mago que asfixiam o tronco, se mais pudessem, para sentir a seiva desta raiz profunda
Assim era desde que há memória, e que alguém estivesse presente para agora testemunhar
Mal o mago se pôs a caminho, que assim passou a ser
Desta vez, o mago pausou antes, a urgência impunha que se sentasse na pedra
Desta vez a árvore não foi abraçada
Este homem que habitualmente aqui passava para abraçar a Oliveira, desta vez, sentou-se
Simplesmente, unicamente, sem mais olhares para mascarar o remorso
Foi a pedra, cuja face estava enterrada no chão, sentiu a urgência de quem lhe chegava
A urgência tem um sentir diferente, o frio marmóreo 
Nada vibrava, nada tremia, faltava a energia, faltava a pressa de quem se lhe apoiava para descansar entre jornadas
Desta vez, aqui chegado, o mago que não era mago, não tinha urgência de seguir
Teria perdido a impaciência de retomar caminho
Naquela rua, naquela qualquer rua, o mago não bateu três vezes à porta
Naquela rua, lá longe, a gigante sombra do caminhante não está seguindo
Naquela rua, onde os cães não ladram, agora poisam as suas cabeças em cima das patas
Naquela rua, ali mesmo, os cães deixam cair lágrimas
Ali, como em todas as outras ruas, onde alguns tinha aberto a porta
Onde alguns recolheram palavras depositadas
Onde alguns, espalhados por todas as ruas
Abriram as suas portas e janelas, deixando entrar a luz que de lá de fora aprouvera existir
E desta vez, o mago que não era mago, não pôde testemunhar
Não testemunhou as portas e janelas abrindo, como se fossem peças de dominó, caindo, umas atrás das outras
A luz que entrava pelas portas dentro, a luz que servia para iluminar as palavras depositadas
Hoje as palavras não foram deixadas
Hoje alguns não recolheram as palavras
Não foram depositadas palavras emprestadas, para novas perguntas fazer amanhecer
Hoje, alguns, os que sentiram necessidade de abrir a porta,
Os outros, que entretanto, chegando e aproximando aos poucos, destes alguns
Largaram um suspiro ao vento
Largaram ao sopro do vento, uma força para que pelas terras pudesse empurrar novos ventos
Largaram um suspiro que levantasse todas as palavras semeadas
Palavras ditas, agora murmuradas entre lábios fechados, sussurrando pelos caminhos da sombra do mago
Um murmúrio silencioso e abafado ecoava
Tal não é a força do som do silêncio
O mago que não era mago, sentiu ao longe, tão longe, os murmúrios que ecoavam
A aragem que não era uma brisa, deixou de ser aragem
A brisa que não era vento, deixou de ser uma brisa
O vento que não era vento, era outra coisa
O mago que não era mago, adivinhava a chegada, sentia um regresso
Regressou, chegava até si…
Lá em baixo, os juncos e as canas oscilavam e adornavam junto ao riacho
Regressou, subia até si…

Era a hora, tinha chegado a hora
O mago que não era mago, levantou-se, ergue-se sobre si
Dos seus pés nascia uma sombra, uma sombra que o acompanhava, sua companheira
A sombra com que muitos homens e mulheres se sentiam encaminhados
Esta sombra que nascia dos seus pés, regressava também
A sua sombra que sempre abriu caminho para novas palavras
A sua sombra que sempre abriu novos caminhos a outras perguntas
Regressava agora ao tamanho do seu mundo
O mago que não era mago, que não o sendo, era
Erguido sobre a sua sombra que o ampara
Da algibeira retirou o coto, aquele que ontem teria sido o lápis com que ia depositando as palavras
Este coto depositado em cima da pedra, que aqui ainda se agiganta através da sua sombra
Da mesma pedra sentinela, de onde se contemplava o horizonte
Agora esta pedra, que deixará de observar o ali, lá longe, será guardiã do lápis que teria oferecido palavras
A sombra regressou ao tamanho do homem
O seu a seu dono, o lápis e a réstia de grafite em cima da pedra
A sombra regressada, fraca e assustada com a finitude do caminhante
O seu a seu dono, o mago que não era mago, era tornado mestre,
De mestre vestiu tal pele durante a vida
O mago que era mago, pela força da sua sombra que abraçava os homens e mulheres que escolhiam abrir as suas portas
O mago que caminhava, e que a sua sombra tantos caminhos teria desbravado para novas perguntas 
O mago que batia três vezes à porta, depositava cuidadosamente as palavras e seguia a sua sombra
O mago que se sentia mestre
O mestre erguido, dobrou-se e apanhou com as duas mãos um punhado de terra negra
Terra que é o princípio e o seu fim
A terra, a mãe original de todos nós e onde acabamos por ficar
Levantou as mãos e lançou ao ar o punhado de terra negra
Lançou ao vento, ao vento que era a força das vontades, estes grãos de terra
O vento carregado de murmúrios e de palavras ditas em silêncio
As palavras empurradas pelo vento, abraçavam agora cada grão de terra
Os ventos aqui chegados, com suas línguas melancólicas, deixaram cair lágrimas
Cada lágrima caída, cada palavra abraçada, cada gota entornada como uma troca
O mestre que terra mãe tinha acabado de lançar
O mestre que erguido sobre a sua sombra, sentia tocar sobre si o afago de todos os homens e mulheres
O mestre que de pé, sentia as gotas abraçadas e entrelaçadas com palavras dentro,
Sabia da urgência que o tinha feito sentar naquela pedra onde jaz o coto do lápis
Os ventos que ali depositaram as nossas gotas sofridas de tantas perguntas
Os ventos que ali descarregaram as nossas lágrimas 
Estes ventos retornaram os mesmos caminhos
Os ventos regressaram com estas novas
O carteiro que também era companheiro deste mestre, que mago não era
Regressou depois de passar os ventos
Regressou à sua gesta de todos os dias, todos os dias batia três vezes a cada porta
Tinha chegado a hora,
Chegava o tempo em que a urgência esmorecia a sua pressa
O mestre aproximou-se da sua Oliveira, e abraçou-a
Abraçou esta sua amiga, abraçou o seu tronco nodoso 
Apertou sobre o seu peito, apertou e entrelaçou os seus dedos
Encostou a face, e deixou-a descair
Tanto para a Oliveira como para o mestre foram segundos de eternidade
Foi um tempo sem fim
Foi um momento em que as raízes sentiram o lento pulsar do mestre
Foi um momento em que o mestre sentiu a paz em que esta Oliveira sempre viveu
A eternidade estava de regresso 
A eternidade tinha poisado sobre este mestre
A eternidade tinha poisado sobre o mestre, discípulo da pedra e da Oliveira
A Oliveira enraizada e entranhada na terra mãe, que sempre espera o nosso regresso
O outro enraizado sobre a sua Oliveira, donde todas as palavras tinham sido colhidas
Sentado à sua beira
Desta vez não depositou palavras
Desta vez, simplesmente se despediu…

Um dia um menino, subiu este monte, e ao lado da Oliveira colheu uma flor
Disse … sentiu dentro de si…, disse estas palavras
Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

(Escrito por Miguel de Azevedo)

Texto poema, escrito para assinalar o 16.º aniversário
Da cerimónia de entrega do prémio Nobel
Na Academia Sueca