Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 7 de junho de 2016

"Todos faremos jornais um dia" texto de Março de 1990 incluído na obra "Os Apontamentos" (edição Porto Editora)

Estatueta retratando José Saramago  - FJS

"Todos faremos jornais um dia"
"Nesse dia, estão cumpridos doze anos sobre a data, teve Luzia Maria Martins a lembrança de convidar-me a escrever uma peça de teatro, fingindo ignorar, com assinalável generosidade, que dessas artes mágicas, provavelmente, não teria eu outra informação que uns escassos rudimentos adquiridos em vida de especta-dor mais atento às histórias contadas no palco do que aos modos próprios de as contar ali. Não surpreenderá, pois, que tenha recusado o convite, como também não deverá surpreender, conhecidas as contradições e as incongruências da humana natureza, que quarenta e oito horas depois me tenha resolvido a aceitá-lo. Não é este o lugar, felizmente, menos ainda a ocasião, de apurar se os resultados valeram a pena: as águas de ontem não movem os moinhos de hoje, tendo variado tanto, em farinha e fermento, a composição do pão. 
Chamei a essa peça A Noite, que foi a de 25 de abril, pois claro. houve quem gostasse, houve quem não. A ação, como é costume dizer-se, passava-se na redação de um grande jornal diário, ma-latino, que os mais suspicazes logo se apressaram, à boca pequena, a identificar, e o conflito opunha os bons aos maus, como é de regra, com vitória final e glória dos primeiros, que eram ótimos, e humilhação e vergonha dos segundos, que eram péssimos. Penso, contudo, que não seria justo acoimar este primeiro tentame teatral dos obséquios de um maniqueísmo elementar, porquanto, entre os anjos e os demónios, crê o instinto do autor ter sabido reservar um lugar àquela gente, sempre a mesma, que espera o desatar dos conflitos para apanhar do chão os restos, enquanto não vem a hora desejada de fazer-se ao substancial. Sobre esta história, tão extremadamente ingénua, não volta-rei a falar aqui, pois a ela não se destina uma apresentação que, propondo-se brevíssima, já leva algum tempo perdido. Apenas recolherei das páginas do livro que A Noite também veio a ser a epígrafe que lá se pode ler e que encabeça estas linhas: «Todos faremos jornais um dia», atribuída a um autor anónimo que, escusado seria dizê-lo, não existiu nunca. Vem a propósito referir que não foi esse o meu primeiro e inocente embuste bibliográfico: já em A Bagagem tinha feito aparecer uma citação assaz panglossiana de um imaginário Manual do Viajante, que pro-clamava: «[...] é muito raro poder dizer-se que uma viagem é per-feita antes de acabar. Mas acontece». Deverei acrescentar que, desde então, não me faltaram as oportunidades para confrontar esta aerifica convicção com os factos da vida. Hoje, no geral, não seria tão afirmativo. Quanto ao particular, melhor será que re-serve a minha opinião." 

Estatueta de José Saramago presente na biblioteca da FJS

"Vamos pois ao tema, poupando, se possível, as palavras. Ao proclamar que todos um dia faríamos jornais, o que eu tentei foi exprimir uma espécie de aspiração cívica, evidentemente utó-pica, segundo a qual o direito de informar e de ser informado se regeria por exclusivos ditames de verdade e de dignidade, sem cedências ou contemporizações com qualquer forma de poder. Não estaríamos a salvo do erro, porém justificar-nos-ia a boa-fé. Estas ideias, que a muitos hão de parecer, hoje, antiquadas e fora de uso, quando os jornais são, eles próprios, na sua maioria, poder ou instrumento de poder, criaram-se e alimentaram-se durante as duas épocas em que, mais por imperativas circunstâncias do momento do que por apetites irresistíveis de vocação, me achei a trabalhar na imprensa. A primeira foi vivida no Diário de Lisboa, nos anos de 1972 e 1973, quando o marcelismo já estava na sua fase de decomposição. A segunda, no Diário de Notícias, durou muito menos: tendo começado nos princípios de abril de 1975, no rescaldo dos acontecimentos de 11 de março, veio a ter-minar no dia 25 de novembro desse mesmo ano, por óbvias razões. Experiências diferentes, mas, tanto numa como noutra, foi de liberdade que se tratou: no primeiro caso, uma liberdade que se pressentia; no segundo caso, uma liberdade que afinal era preciso aprender. 
Juntam-se agora neste volume os dois pequenos livros em que essas experiências, no seu tempo, se configuraram. Toma por título o título de um deles - Os Apontamentos -, e não por falta de imaginação para encontrar outro mais atrativo aos olhos do leitor, mas porque não se quis dissimular, nesta ocasião, o que foi a característica formal mais evidente destes textos: a brevidade, a espontaneidade - sinais, quase sempre, duma reação despreconcebida (diria mesmo: desprogramada) aos estímulos exteriores. Cada uma das partes deste livro conserva as introduções para elas escritas, o que oferece, pelo menos, a vantagem de mostrar ao leitor o juízo que o autor, em cada caso, fez dos seus próprios atos. A ninguém deverá estranhar que tenha procurado absolver-se: é o que todos fazemos. 
E hoje? Direi como o outro, e basta: «O que escrevi, escrevi.» As palavras que aí estão foram, todas elas, escritas com sinceridade e boa-fé. E, no meio de tantas, não encontro senão duas que gostosamente apagaria se não fosse o escrúpulo de proteger o meu próprio respeito. É quando, lá para diante, uma e outra vez, falo de «jornalistas revolucionários». Como se não bastasse a ingenuidade de os imaginar assim, ainda fui cair na presunção de me incluir no grupo. Ilusão minha, ilusão nossa." 
José Saramago 
Março de 1990 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Portugal de 75 "À espera de Godot?" de Beckett - A analogia com a politica nacional

O momento político nacional, nos tempos do verão quente de 1975.
Os que fazem e concretizam o espírito da revolução, e os seus momentos de pausa e recuos.

Os Apontamentos
Caminho - 2.ª edição / 1990

À espera de Godot? - 17 de Junho de 1975



Godot, quem é? Na peça de Beckett, todo o tempo se passava na espera e na esperança dessa entidade invisível que resolveria todos os problemas, quando chegasse. Quando chegasse, e se chegasse... Quem conhece a peça, sabe que nenhuma diferença há entre o princípio dela e o fim, que a mesma árvore seca cobre ou agride o mesmo esperar e o mesmo desespero. Continuaremos a literatizar? Um pouco mais, apenas, para satisfazer o gosto... Aqueles personagens discutem, ferem-no, alternam o ódio e reconciliação, tudo de acordo com a chamada natureza humana, para Beckett idêntica e transmissível de todos os tempos para todos os tempos: tudo se resumiria a um eterno esperar, a um projecto contínuo, só projecto, sem começo sequer de realização, porque sem Godot nada se pode fazer e Godot não vem...
E nós, em Portugal? Godot chegou a 25 de Abril, e tornou outras vezes: Junho, Setembro, Março recente, não por predestinação ou favor especial dos deuses, mas porque aqui nos esforçámos todos os que querem a Revolução e a estão fazendo. Este Godot de carne, osso e vontade não precisa das artes da dramaturgia,  mas depende da vitalidade de um processo que muitas mãos empurram (bem ou mal) e outras procuram travar. (...)
(...) E aqui voltaríamos à peça de Beckett: pela primeira vez, em momento de crise, se passam tão poucas coisas à luz do dia e às claras, e tantas tão secretas, nos bastidores. É como se o Poder (onde esteja) desconfiasse do peso das massas populares e da sua distribuição, e, desconfiando, prefira deliberar, apresentar e praticar sozinho. (...)

Referência na Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperando_Godot

En attendant Godot ou Waiting for Godot, em inglês (À Espera de Godot em Portugal; Esperando Godot no Brasil) foi a primeira peça de teatro escrita pelo dramaturgo Irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Escrita originalmente em francês, foi publicada pela primeira vez em 1952 e apresentada no pequeno Théâtre Babylone em Paris, com direção de Roger Blin (1907-1984). O Brasil foi o segundo país a ter uma montagem deste texto, com a direção de Alfredo Mesquita, em 1955. É considerado um das principais textos do teatro do absurdo e a principal obra de Samuel Beckett.
A Criação - Beckett escreveu a peça em 1949 e só veio a publicá-la no ano de 1952, em francês. Em 1955 Beckett realizou sua versão inglesa. Personagens da peça:
Vladimir
Estragon
Pozzo
Lucky
Um garoto
A peça é dividida em dois atos. Nos dois atos, inicialmente contracenam dois personagens: Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo). Durante cada um dos atos, que são bem semelhantes, surgem dois novos personagens: Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena no final de cada ato um garoto.
O Enredo - A rubrica inicial define: Estrada, árvore, à noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir). Em cena Estragon e Vladimir. Aparentemente esperam um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam longo diálogo, só interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. Lucky carrega uma pesada mala que não larga um só instante. O segundo ato desenvolve a mesma dinâmica. O cenário é o mesmo, apenas a árvore está um pouco diferente, agora com algumas folhas. Estragon e Vladimir iniciam sua jornada na espera de Godot. Surgem novamente Pozzo e Lucky. Pozzo está cego e Lucky surdo. Após a partida destes, aparece novamente um garoto anunciando novamente que Godot não virá, talvez amanhã. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.) (Yes, let's go.)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) (They do not move.)

Egas Moniz - um Nobel esquecido? - Saramago questiona

A propósito do ano (1973) em que se preparavam, pelas instituições da altura, as comemorações dos 100 anos do nascimento de Egas Moniz, José Saramago lança umas farpas direccionados ao aspecto festivaleiro da sociedade - "Está-nos na massa do sangue o vício da efeméride, corremos ansiosamente ao consolo lisonjeador da sessão solene, aperfeiçoamos todos os dias a técnica do descerramento de lápides..."
Este aspecto, o do folclore para inglês, poderá dizer-se assim mesmo, foi algo que sempre inquietava Saramago - os beberetes, as festas para aparecer na fotografia, a pompa e circunstância do momento que contrariava o natura apoio e reconhecimento fora das festanças.

Esta crónica, de 13 de Agosto de 1973, publicada no Diário de Lisboa com o titulo "A Propósito de Egas Moniz", é compilada no livro "Os Apontamentos - Crónicas Políticas".
Qual a razão do espanto?
Qual o motivo para a menção?

(...) Mas nós falámos em surpresa, e ainda por cima demo-la como legítima. Importa pois que nos expliquemos. Merecidas e justificadas serão todas as homenagens que venham a prestar-se ao homem de ciência que foi o professor Egas Moniz, nosso único prémio Nobel até esta data. Não é por aqui que a surpresa se introduz. (...)
Mas onde a surpresa se legitima é quando vemos que a ideia da homenagem vem, senão das mesmas pessoas, de instâncias que, em rigor, respondem no espírito e na substância, a uma anterior recusa displicente em reconhecer os méritos do futuro homenageado, em nome e por causa de divergências de ordem política. (...) 
  


Este, o motivo da estranheza, os mesmos que não toleram e impõem um regime de pensamento único político, são os que se preparam para lançar vivas ao prémio. Ao prémio, porque é sempre disso que se trata.
E continua...

(...) Não custa nada agora dizer que Egas Moniz foi um cidadão exemplar além do sábio que também era: como sábio amesquinhou-o a sua própria terra, e como cidadão não mereceram respeito as suas opções políticas. Mesmo hoje uma pergunta se justifica: merecerão mais respeito essas opções, ou simplesmente se «perdoam» elas a Egas Moniz graças ao lugar que ele ocupa na ciência mundial? E como considera o país aqueles filhos que não juntem as suas convicções democráticas à descoberta da leucotomia pré-frontal?... (fim de crónica) 



20 anos depois, agora com José Saramago, encontra-se um paralelo. 
Um directório de pensamento único, em tempos de suposta democracia, já na década de 90, vai mais longe do que o "marcelismo" afrontou Egas Moniz.
José Saramago, que levava Portugal e os portugueses a todos os cantos do mundo, traduzido em muitas línguas; o homem que deu a conhecer a história de amor entre Baltazar e Blimunda, num lugar chamado Mafra, era carimbado com o carimbo vermelho e o lápis azul da censura. 
A tristeza deste paralelo, tratando-se de não compreender/aceitar a obra e a opção livre e democrática no pensamento de cada um, mesmo quando é diferente do vulgo sistema, foi mais vincada e agressiva com José Saramago.
Aquando da sua morte, em Portugal (e só por cá) onde as honras de estado eram mais do que obrigatórias, seriam unificadoras em redor de um símbolo nacional, apresentaram-se patéticas. O sistema colocou tentacularmente os seus braços invisíveis, mas assas cirúrgicos, de fora. 
Este sistema, que se escudou sempre atrás de subsecretários de estado ou de meros serviçais, nunca perdoou a Saramago a sua palavra persistente e desassossegada; o seu reconhecimento pelo mundo fora; a inveja de um suposto sucesso; o alinhamento por um pensamento democrático que se queriam em desuso.
Este o paralelo encontrado por Saramago em 1973, tem a devida distância - de o ser não sendo. Em 1973, Saramago não lhe apeteceria pensar no Nobel, mas o tempo verificou esta causalidade de circunstâncias e semelhanças com Egas Moniz - também este um Nobel algo proscrito.

Agora, em 2014, Egas Moniz é nome de escolas, ruas, centros de enfermagem - mas não passa de simples menções. Portugal, e aquilo que é a sua arquitectura do pensamento, pretende esquecer estes patrimónios. Mais do que uma estátua no Hospital Santa Maria, a ideia de que somos portadores de 2 prémios Nobel não faz parte do compêndio.     



"Em 1992, o subsecretário da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu, justificando tal decisão dizendo que a obra não representava Portugal mas, antes, desunia o povo português. Em consequência do que considerou ser um acto de censura por parte do governo português, Saramago mudou-se em 1993 para Espanha, passando a viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias."



Egas Moniz, dados via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Egas_Moniz

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz GCSE • GCB (Estarreja, Avanca, 29 de novembro de 1874 — Lisboa, 13 de dezembro de 1955) foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português.
Foi galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com Walter Rudolf Hess.
Nascido António Caetano de Abreu Freire de Resende no seio de uma família aristocrata rural, a dos Viscondes de Baçar, seu tio e padrinho, o padre, Caetano de Pina Resende Abreu e Sá Freire, insistiria para que ao apelido (sobrenome) fosse adicionado Egas Moniz, em virtude de a família de Resende descender em linha directa de Egas Moniz, o aio de Dom Afonso Henriques.
O Aio Egas Moniz (1080-1146) antepassado do neurologista português, apareceu com sua família antes de o rei de Leão. Mosaico na estação São Bento (Porto), por Jorge Colaço (1864-1942)
Formação e actividade académica[editar | editar código-fonte]
Completou a instrução primária na Escola do Padre José Ramos, em Pardilhó, e o Curso Liceal no Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Louriçal do Campo, concelho de Castelo Branco. Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 foi transferido para a recém-criada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa onde foi ocupar a cátedra de neurologia como professor catedrático. Reformou-se em Fevereiro de 1944.
Em 1950 é fundado, no Hospital Júlio de Matos, o Centro de Estudos Egas Moniz, do qual é presidente. O Centro de Estudos é, em 1957 transferido para o serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria onde existe ainda hoje compreendendo, entre outros, o Museu Egas Moniz (onde se encontra uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais, vários manuscritos, entre outros).
Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral.
As suas descobertas clínicas foram reconhecidas pelos grandes neurologistas da época, que admiravam a acuidade das suas análises e observações.
A 5 de Outubro de 1928 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência e a 3 de Março de 1945 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.1
Egas Moniz teve também papel activo na vida política. Foi fundador do Partido Republicano Centrista, dissidência do Partido Evolucionista; apoiou o breve regime de Sidónio Pais, durante o qual exerceu as funções de Embaixador de Portugal em Madrid (1917) e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1918); viu entretanto o seu partido fundir-se com o Partido Sidonista. Foi ainda um notável escritor e autor de uma notável obra literária, de onde se destacam as obras "A nossa casa" e "Confidências de um investigador científico".
Faleceu em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1955.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Saramago e a temática do "voto em branco" 22 de Abril de 1975 até 2004


Caminho
Os Apontamentos - Crónicas políticas
2.ª Edição - Abril 1990

O branco em discussão
22 de Abril de 1975

Este branco que se discute não é o vinho a que esse nome damos, nem é já (felizmente) o português que por terras coloniais andava como colonizador e opressor. O motivo da polémica que, em todos os tons, lavra de Norte a Sul do País é o denominado voto em branco. Dizem uns (di-lo também a Comissão Nacional de Eleições) que o voto em branco é a resposta cívica daqueles eleitores que, conscientes do seu dever de votar, estão igualmente conscientes de que o esclarecimento político colhido ao longo deste ano não foi, afinal, tão claro como todos desejaríamos. Replicam outros que aconselhar o voto em branco (naquele caso) é pouco menos que insultar o eleitor, e que os 365 dias decorridos foram bastantes e sobejantes para que um povo que nunca exerceu a política se transformasse em perspicaz aferidor destes nada menos que doze partidos concorrentes.
Se traçássemos um risco vertical na página e escrevêssemos de um lado e do outro, isto é, à esquerda e à direita, os partidos, grupos e movimentos que preconizam ou não o voto em branco para o eleitor indeciso, veríamos que, com pouquíssimas excepções, a distribuição se faria segundo (precisamente) a tradicional divisão entre direita e esquerda, englobando a primeira o centro, como na prática política é uso acontecer. Aliás, ao longo destas últimas semanas não houve quem não dissesse o que pensava sobre o assunto, com maior ou menor sobriedade e em alguns casos com tanta exaltação que faz pensar serem mais importantes, no  entendimento de alguns, os votos em branco do que os assinalados com a cruzinha recomendada.
Quanto a nós, toda esta questão assenta num equívoco propositado e que propositadamente se disfarça. Tudo se resume à contabilidade dos votos, à cegueira, à obsessão de querer ter mais votos do que o vizinho, parceiro ou inimigo, mesmo que isso se consiga à custa das angústias do eleitor inseguro, muitas centenas de milhares de vezes analfabeto, no interior da guarita e perante um papel impresso que é, para tanta gente, uma charada indecifrável. Em tudo se admite que uma pessoa interrogada responda «não sei», e isto é honesto e respeitável. Mas, quando se trata de votar, há quem pense que esta resposta não deveria ser permitida... Provavelmente, esse tão categórico cidadão ficaria indignado se, procurando orientar-se em lugar desconhecido, recebesse uma indicação de acaso da parte de alguém que não tivesse a coragem ou a simples honradez de dizer «não sei»... Não faltariam aí protestos contra a falta de civismo do mau encaminhador.
É preciso que fique esclarecido que o voto em branco ou inutilizado com um traço também é voto. É voto que deve merecer tanto respeito como aquele que se exprime firmemente por uma opção partidária. O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma. O voto em branco é uma forma de protestar contra quarenta e oito anos de fascismo que, eles sim, são os verdadeiros responsáveis por esta discussão tão pouco clara, em que se procura pescar votos como em águas turvas se pescam peixes cegos...


É deveras interessante, observar e interpretar o contexto em que uma crónica, realizada em condições num país em urgência civil, acabado de sair de meio século de fascismo, que dominou um povo pobre e com recursos de todas as ordens nada abundantes.
Este povo, saído da guerra colonial e do abismo fascista, acorda num outro abismo. Decidir autonomamente, por si e para os seus, com todas as vicissitudes que os supostos novos ventos de liberdade e democracia poderiam trazer.
Nesta crónica, realço a interpretação do que era aos olhos de Saramago o valor do voto em branco. Tão legitimo como o voto partidário ou o nulo, este será também a expressão de um sinal ou sentimento - «O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma.» 
O "Ensaio sobre a Lucidez", aborda o mesmo voto em branco. 30 anos depois, da crónica publicada no Diário de Notícias, e compilada no livro de Crónicas Políticas - Os Apontamentos, o romance transmite uma outra perspectiva do acto - Ir, votar, mas de forma supostamente diferente, não previsível.
Aqui, colectivamente, o povo de uma capital decide votar maioritariamente em branco. Não é o "Eu", que pode querer votar como um acto de democracia e de direitos conquistados, mas o "Povo", como entidade colectiva que toma uma atitude contra o sistema instituído. 
Em "O Ensaio sobre a Lucidez", a história mostrará o acto colectivo (do povo), que o confirma em novo acto eleitoral, e um Governos com as suas estruturas de decisão que julgam, tal qual um tribunal de costumes, abandonar a capital e deixar a população à sua mercê.
Esta população que votou em consciência, abandona e liberta-se do sistema de poder instituído, ao permanecer na capital. A fuga dos governantes torna-se no momento épico das consequências do voto em branco.


Caminho - 2004 - 2.ª edição
Informação à obra, no sita da Fundação José Saramago - Bibliografia activa - aqui http://www.josesaramago.org/ensaio-sobre-lucidez-2004/

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%. Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.Ensaio sobre a Lucidez, o romance mais recente de José Saramago, constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst mencionadas em "Os Apontamentos"

José Saramago, no livro de crónicas políticas "Os Apontamentos", apresenta uma entrada a 8 de Março de 1972, sobre o Dia Internacional da Mulher.
Tece algumas considerações sobre a condição da mulher, os retrocessos que a civilização vai impondo. Interessantes as menções a Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst



(...) Com maior rigor diríamos que a mulher é mantida atrás do homem: muitas das suas conquistas são apenas aparência, e, quando se tornam reais, correm o risco de, com maior ou menor rapidez, perderem conteúdo e poder de aplicação prática. Na maior parte dos casos, o tempo e os interesses dos homens encarregam-se de neutralizar as conquistas alcançadas: a emancipação (no plano económico, através do trabalho remunerado, no plano intelectual, graças ao desenvolvimento da instrução, e no plano político, pela obtenção dos direitos de voto e de elegibilidade) encontra-se ainda hoje limitada por mil e uma pequenas teias. À volta da mulher continua a tecer-se o emaranhado casulo que a manteve isolada do mundo. Há excepções, bem sabemos, mas essas, ao que dizem, só existem para confirmar a regra...
Vai longe o ano de 1792 em que a Olympe de Gouges escrevia a sua «Declaração dos Direitos da Mulher e a Cidadã»; já vai igualmente longe a época de Mrs. Pankhurst, aquela inglesa que criou, no princípio do século, a União Feminina Social e Política, e que mereceu, com as suas companheiras de missão e de luta, o apoio displicente, senão desprezativo, de «sufragista». Mas é apenas de ontem, de 1952, para sermos mais exactos, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, aprovada, por maioria, pela Assembleia Geral das Nações Unidas... (...)
(...) O Dia Internacional da Mulher deveria ser, sobretudo, um dia de exame de consciência para os homens. (...)

Os Apontamentos
2.º Edição de 1990
Caminho

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Olympe_de_Gouges

Olympe de Gouges, pseudônimo de Marie Gouze (Montauban, 7 de maio de 1748 — Paris, 3 de novembro de 1793) foi uma feminista, revolucionária, historiadora jornalista, escritora e autora de peças de teatro francesa.
Os escritos feministas de sua autoria alcançaram enorme audiência. Foi uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Na sua obra "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" (em francês: Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne) de setembro de 1791, desafiou a conduta injusta da autoridade masculina e da relação homem-mulher que expressou-se na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão durante a Revolução Francesa. Devido aos escritos e atitudes pioneiras, foi executada.
Marie Gouze nasceu em uma família pequeno-burguesa em 1748 em Montauban, Tarn-et-Garonne, no sudoeste da França. Seu pai era açougueiro, sua mãe, lavadeira. Entretanto, ela acreditava ser filha legítima de Jean Jacques Lefranc; a rejeição no reconhecimento dessa paternidade influenciou sua defesa apaixonada dos direitos das crianças ilegítimas.
Casou-se jovem em 1765 com Luis Aubry de quem teve um filho, Pierre. Enviuvou logo depois e, em 1770, transferiu-se para Paris onde adotou o pseudônimo de Olympe des Gouges.
Pelas pinturas remanescentes, era uma mulher de notável beleza. Em torno de 1784 (ano da morte de seu suposto pai biológico), começou a escrever ensaios, manifestos e iniciou ações de cunho social.
Em 1774, escreveu uma peça de teatro anti-escravagista L'Esclavage des Nègres. Pelo fato de ser sido escrito por uma mulher e do assunto controvertido, tal obra somente foi publicada em 1789, no início da Revolução Francesa. Mesmo assim, Olympe demonstrou sua combatividade na luta incessante, porém, sem sucesso, pela encenação da peça. Ao mesmo tempo, escreveu obras feministas relacionadas aos temas dos direitos ao divórcio e às relações sexuais fora do casamento.
Como apaixonada advogada dos direitos humanos, Olympe de Gouges abraçou com destemor e alegria a deflagração da Revolução. Mas logo se desencantou com a constatação de que a fraternité da Revolução não incluía as mulheres no que se refere à igualdade de direitos.
Em 1791 ela ingressou no Cercle Social— uma associação cujo objetivo principal era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reunia-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres Sophie de Condorcet. Foi aí que Olympe expressou pela primeira vez sua famosa assertiva: "a mulher tem o direito de montar o seu palanque".
No mesmo ano, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ela escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã1 . Logo depois, escreveu o Contrato Social, nome inspirado na famosa obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo o casamento com relações de igualdade entre os parceiros.
Por se envolver ativamente nas questões que lhes pareciam injustas, como a condenação à morte de Luis XVI, por ser contra a pena de morte, e desapontada em suas expectativas, passou a escrever com mais e mais veemência. Em 2 de junho de 1793, os Jacobinos prenderam os Girondinos e seus aliados, enviando-os em seguida à guilhotina. Nesse mesmo ano, Olympe escreveu a peça Les trois urnes, ou le salut de la Patrie, par un voyageur aérien e, por causa dela, foi presa. A peça demandava a realização de um plebiscito para escolher uma das três formas potenciais de governo: República indivisível, Governo federalista e Monarquia constitucional. Os Jacobinos, que já haviam executado uma rainha, não estavam dispostos a tolerar a defesa dos direitos das mulheres: exilaram Sophie de Condorcet e, um mês depois, em 3 de novembro de 1793, guilhotinaram Olympe de Gouges.


Emmeline Pankhurst discursando

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Emmeline_Pankhurst

Emmeline Pankhurst, nascida Emmeline Goulden, (Manchester, 14 de julho de 1858 — Londres, 14 de junho de 1928) foi uma das fundadoras do movimento britânico do sufragismo. O nome da "Sra. Pankhurst", mais do que qualquer outro, está associado com a luta pelo direito de voto para mulheres no período imediatamente antes da primeira guerra mundial.
Em 1879 casou com Richard Marsden Pankhurst, um advogado. O Sr. Pankhurst era já um apoiante do movimento das sufragistas, e tinha sido o autor da legislação Married Women's Property Acts (Lei da propriedade da mulher casada), de 1870 e 1882. Em 1889, a Sra. Pankhurst fundou a Liga do Franchise das mulheres. A campanha não seria interrompida pela morte do marido em 1898. Em 1903 fundou a melhor conhecida união social e política da mulher (WSPU), um movimento militante cujos membros incluíramm a famosa Annie Kenney, a "mártir" do sufragismo; Emily Davison e a compositora Dame Ethel Smyth. Foi juntada no movimento por suas filhas, Christabel e Sylvia, ambas fariam uma contribuição substancial à campanha em maneiras diferentes.
As tácticas da Sra. Pankhurst para atrair a atenção ao movimento tiveram como resultado o emprisionamento por diversas vezes, mas por causa de seu perfil elevado, não passou as mesmos privações como outras colegas sufragistas (embora experimentasse alimentação forçada após greve de fome). A liderança da campanha não agradou a todos, e houve separatismo dentro do movimento em consequência. A autobiografia, Minha própria história, foi publicado em 1914. Morreu em 1928, tendo atingido a maior de seus objetivos: o direito de voto para as mulheres no Reino Unido.