Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 10 de maio de 2020

"A separação ibérica idealizada por José Saramago" - por João Céu e Silva (DN/1864 (01/02/2020)

"Trinta anos antes do referendo do Brexit, o escritor separou a Península Ibérica do continente europeu. Um sonho que a Inglaterra persegue, apesar de já ser uma ilha, ao querer afastar-se da União Europeia após o voto popular de 2016."



"Trinta anos antes do referendo do Brexit, 
José Saramago separou a Península Ibérica do 
continente europeu no livro A Jangada de Pedra."

"A separação ibérica idealizada por José Saramago" - por João Céu e Silva (DN/1864 (01/02/2020)
Pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www.dn.pt/1864/a-separacao-iberica-idealizada-por-jose-saramago-11763278.html

"Não é o cão Constante o protagonista de José Saramago que tem mais importância no romance A Jangada de Pedra, mas até o animal é um símbolo do ceticismo do escritor perante a ideia da integração dos dois países ibéricos na Comunidade Económica Europeia (CEE) - a atual União Europeia. Quem dá início à cena fantástica que separa a península do restante continente europeu é Joana Carda, ao riscar com uma vara de negrilho o chão espanhol perto da fronteira com a França, um gesto que separa a terra ibérica e a empurra para uma viagem em direção aos mares atlânticos do Sul.

O cão Constante é, no entanto, o ser ibérico que hesita entre as terras de Espanha e as de França ao sentir a fenda abrir-se com o gesto de Joana Carda e que pula para o lado de cá, colocando-se do lado da opção saramaguiana de quem vive na Península Ibérica e é contra o esquecimento atávico dos poderosos da Europa."

"A Jangada de Pedra é o romance publicado em 1986, exatamente 
quando Portugal e Espanha aderem à CEE numa cerimónia cheia 
de significado ao usar o claustro do Mosteiros dos Jerónimos para 
assinar o processo. Saramago é contra por considerar que essa adesão 
não irá retirar os dois povos de um esquecimento de há muito e de 
uma falta de identificação com o continente além-Pirenéus."

"A Jangada de Pedra é o romance publicado em 1986, exatamente quando Portugal e Espanha aderem à CEE numa cerimónia cheia de significado ao usar o claustro do Mosteiros dos Jerónimos para assinar o processo. Saramago é contra por considerar que essa adesão não irá retirar os dois povos de um esquecimento de há muito e de uma falta de identificação com o continente além-Pirenéus. Na boca das personagens Joana Carda, Maria Guavaira, Joaquim Sassa e José Anainço, além desse cão com um papel preponderante - não é o único cão importante na sua obra - vão-se contando as grandes objeções a essa espécie de unificação europeia e dados exemplos dos desfasamentos entre as culturas e as realidades sociais das duas partes.

Pode-se dizer que A Jangada de Pedra é um argumento que agora se concretiza quando se observa a Inglaterra apostada na efetivação do Brexit, uma ideia para um romance que alguns escritores portugueses consideram genial, apesar de ser unânime que o romance sofre de um grande problema, um início fulgurante e a ausência de matéria-prima para se manter ao mesmo nível literário. Essa questão não escapou ao próprio autor, que como recorda o seu antigo editor, Zeferino Coelho, ouviu Saramago referir que "é um romance em que o clímax está no princípio"."


"A Jangada de Pedra, livro de José Saramago, foi publicado em 1986, 
no mesmo ano em que Portugal e Espanha aderem à CEE."

"A comparação entre A Jangada de Pedra e o Brexit desejado pela Inglaterra salta à vista trinta anos depois, mesmo que esta saída do Reino Unido tenha protagonistas e situações bem diferentes das de José Saramago. No romance, os protagonistas não são tão inventivos como os políticos britânicos e o tremor que leva à separação é feito de simbologias pouco reais: uma meia de lã azul que se desfaz sem um fim, uma pedra lançada ao mar que viaja uma distância impossível ou uma revoada de estorninhos. Mas o ceticismo de Saramago e de algumas das suas personagens em relação à futura União Europeia é replicado no Brexit. Segundo o ex-ministro da Cultura o poeta Luís Filipe Castro Mendes "não foi preciso arrancar a ilha [a Inglaterra] do seu lugar porque já está separada fisicamente do continente", no entanto pode imaginar-se a Inglaterra como a península de Saramago "numa deslocação política rumo aos Estados Unidos". É, no seu entender, "uma perfeita analogia entre uma península que sai da Europa rumo à América Latina e uma Inglaterra que sai rumo à América". Ou seja, conclui: "Um movimento que José Saramago antecipou."

Na base da separação de A Jangada de Pedra está o ceticismo de Saramago. Para Castro Mendes, o "escritor participa de um ceticismo de esquerda, em que vê na Europa uma manifestação do poder do capitalismo, daí não simpatizar com a ideia europeia porque esta tem servido para aprofundar o fosso entre os países com diferentes níveis de desenvolvimento económico dentro da [futura] União Europeia - isso viu-se durante a troika, através de uma clivagem entre credores e devedores que é contra o ideário de solidariedade e de coesão -, que provocou uma evolução negativa nos últimos anos e o consequente crescimento do euroceticismo"."

"Para Zeferino Coelho, tudo tem que ver com a maneira como 
José Saramago vê a Europa e dá uma versão sobre como nasce 
o romance: “ele ia num comboio entre paris e Bruxelas com 
mais gente e conversavam. Então, Saramago propôs às pessoas 
adivinharem as nacionalidades de cada uma e nenhuma delas falou 
em Portugal.”© Global Imagens"

"Para Zeferino Coelho, tudo tem que ver com a maneira como José Saramago vê a Europa e dá uma versão sobre como nasce o romance: "Ele ia num comboio entre Paris e Bruxelas com mais gente e conversavam. Então, Saramago propôs às pessoas adivinharem as nacionalidades de cada uma e nenhuma delas falou em Portugal." Será este esquecimento que há na Europa em relação a Portugal que está na origem do romance, além de que todo o processo da União Europeia do ponto de vista do escritor "depende do grande capital europeu". Portanto, "achava que a utopia de haver uma fuga para esta realidade nos povos ibéricos só resultaria se pudessem ter uma vizinhança com os povos africanos e sul-americanos, que sofrem a mesma opressão da parte do grande capital europeu e americano. Era isto que ele tinha na cabeça e daí a ideia daquela rutura [terrestre], que é uma ideia mágica".

É o potencial da metáfora inicial de Saramago na construção d'A Jangada de Pedra que mais surpreende os leitores. O seu antigo editor considera que essa criação "acontece muito na obra do Saramago, como no Ensaio sobre a Cegueira, em que as pessoas cegam sem se saber porquê, e assemelha-se ao que se faz na geometria: lança-se um conjunto de dois ou três princípios e deduz-se a partir daí. Foi isso que ele também fez nesse romance."

Magia premonitória
A escritora Lídia Jorge considera que "na altura achou o livro interessante e, passado todo este tempo, ainda o vê tão forte e premonitório. Ultrapassa uma visão comum portuguesa, é internacional". Para a autora, que recentemente recordou o romance por necessidade de escrever um texto sobre a questão da Europa, o que Saramago faz "numa forma um pouco irónica é intuir o que nós todos só hoje percebemos. Que os países quando não são ilhas gostariam de o ser". No caso da Grã-Bretanha e do Brexit, a Inglaterra já "tem a grande vantagem de ser uma ilha, mas a Alemanha bem gostaria de ter sido uma ilha, tal como a França, e o mesmo se passa com Portugal, que também gostaria de se ter deslocado do seu sítio afastando-se de Espanha." Acrescenta: "A história dos países que são tomados de ideias de grandeza porque têm uma história que é única começam a funcionar no imaginário como ilhas. José Saramago percebeu isto muito bem em 1986, transformando a península nessa jangada porque não é vista pelos outros europeus como um espaço geopolítico importante. O que ele demonstra é que se a Península Ibérica fosse deslocada, tornar-se-ia tão incómoda que toda a gente nela iria reparar."

"Também o escritor Mário Cláudio acha a tese de 
A Jangada de Pedra muito interessante: "A metáfora 
que José Saramago escolheu é um achado e qualquer
 autor europeu gostaria de a encontrar, mas a verdade 
é que só nós é que a poderíamos ter por razões de 
ordem geográfica e histórica e estaríamos em condições 
de levar avante um livro destes."© Rui Oliveira /Global Imagens"

"Também o escritor Mário Cláudio acha a tese de A Jangada de Pedra muito interessante: "A metáfora que José Saramago escolheu é um achado e qualquer autor europeu gostaria de a encontrar, mas a verdade é que só nós é que a poderíamos ter por razões de ordem geográfica e histórica e estaríamos em condições de levar avante um livro destes." Já se fosse um autor inglês, diz, "não faria a sua ilha deslocar-se para o mar da América do Sul, antes rumar à Irlanda, por exemplo, porque a Inglaterra não tem um imaginário comum tão forte como nós com a América Latina". Para Mário Cláudio, este romance tem características políticas muito especiais. Nada que estranhe: "Os meus livros são políticos também, mesmo que passados noutras épocas. É o caso da reedição recente de As Batalhas do Caia, que aborda a questão ibérica sempre recorrente da anexação de Portugal pelo país vizinho. Coincidentemente, ambos tratam de questões ibéricas."

"A escritora Lídia Jorge considera que “na altura achou o livro 
interessante e, passado todo este tempo, ainda o vê tão forte e 
premonitório. Ultrapassa uma visão comum portuguesa, 
é internacional”.© DIANA QUINTELA / GLOBAL IMAGENS"

"Lídia Jorge alerta ainda para o facto de na altura o romance "ter sido olhado de forma depreciativa porque a ideia que estava na base de José Saramago era a de ser contra a integração de Portugal e de Espanha na CEE. Aparece como um livro ilustrativo de uma ideia antieuropeísta, só que passado este tempo todo essa raiz desaparece para ficar a ideia pura, que é a criação de uma nova geografia. E o desejo que os países têm de uma nova geografia é muito forte, veja-se que no Brexit existe o aproveitamento absoluto dessa ideia e, no momento em que esse país está em crise, pensa que tal situação vem das vizinhanças e quer tornar-se uma ilha. Como já o são, aproveitam isso da forma que estamos a observar".

Zeferino Coelho não se surpreendeu como a temática quando recebeu o original: "Nada daquilo é estranho na forma como Saramago via a Europa e as questões do mundo. Tem um pouco de realismo mágico, porque é um livro que começa com uma coisa fantástica - a separação do continente europeu - e segue-se um conjunto de coisas também fantásticas que vão acontecendo como surgem na vida, só que irão ter uma importância grande."

"Segundo o ex-ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes, 
“não foi preciso arrancar a ilha [a Inglaterra] do seu lugar 
porque já está separada fisicamente do continente”, no entanto 
pode imaginar-se a Inglaterra como a península de Saramago 
“numa deslocação política rumo aos Estados Unidos”.© Global Imagens"

"Para o escritor Mário Cláudio, A Jangada de Pedra tem apenas o óbice do seu tamanho após a impactante metáfora inicial: "O livro aproveitaria se fosse um pouco mais curto porque haveria uma poupança de prosa benéfica." Já para Luís Filipe Castro Mendes, o romance "é feito com a coerência que José Saramago sabia pôr no seu trabalho e nas alegorias que desenhava". Explica: "Ele constrói o romance a partir de uma suspensão da credibilidade e aproveita esse arrastar telúrico da península pelos mares para criar uma verosimilhança que lhe é habitual. O leitor avança na leitura com aquele pressuposto e dentro dele constrói uma realidade verosímil - essa é a grande força da ficção e do grande romancista - dentro de um pressuposto de total inverosimilhança. Nesse aspeto é magnificamente construído, mas as ideias dos romances de Saramago são sempre grandes."

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Manchete do DN - 12 de Abril de 1975

Pode ser recuperado e consultado via site do DN, aqui
em https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-abr-2020/o-pacto-mfa-partidos-12060280.html

"Aconteceu em 1975 - O pacto MFA-partidos
PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE estiveram em Belém 
para assinar o acordo que abriria o "verão quente".

Edição de 12 de Abril de 1975

"No Palácio de Belém é assinada a Plataforma de Acordo Constitucional, mais conhecida por pacto MFA-partidos. O Presidente da República, Costa Gomes, falou perante os dirigentes dos maiores partidos - PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE -, que compareceram à cerimónia. "Largos estratos do nosso povo não sentiram ainda a força criadora do uso das liberdades democráticas", é a frase do Presidente que a direção do DN - Luís de Barros e José Saramago - escolheu para a manchete do dia 12.

O objetivo do pacto foi o de "estabelecer uma plataforma política comum, que possibilite a continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante que permita levar a cabo, em liberdade, mas sem lutas partidárias estéreis e desagregadoras, um projeto comum de reconstrução nacional".

O documento previa um "período de transição" de três a cinco anos, durante o qual o Conselho da Revolução e a Assembleia do MFA se manteriam como órgãos de soberania. Caber-lhes-ia defender as "conquistas legitimamente obtidas ao longo do processo, bem como os desenvolvimentos ao programa impostos pela dinâmica revolucionária que, aberta e irreversivelmente, empenhou o País na via original para um Socialismo Português".

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

«Quando Saramago dizia: "Portugal acabará por integrar-se na Espanha"» de João Céu e Silva - DN (01/12/2019)

"Há 12 anos, o escritor José Saramago recusou ser profeta mas anunciou a "Ibéria" no prazo máximo de meio século. O conflito na Catalunha pode afastar esta hipótese digna de uma sequela do romance A Jangada de Pedra."

"José Saramago na sua casa em Lanzarote, Canárias, Espanha. © Arquivo DN"

"A palavra Espanha, ou o que significa o pedaço de terra que faz fronteira com Portugal, está presente na história das mentalidades do país desde sempre. O desejo de independência também, mesmo que entre os escritores que pensaram esta relação ao longo dos séculos o desejo fosse de haver uma coexistência maior ao nível cultural, opinião que irmanava o escritor espanhol Miguel de Unamuno e o português Miguel Torga, expressa em vários parágrafos dos seus livros, poemas ou mesmo no ensaio do primeiro, intitulado Por Terras de Portugal e Espanha.

Unamuno era um investigador do lado de lá do seu país e estranhava o desejo suicidário de personagens seus colegas, como Camilo Castelo Branco, e de muitos outros portugueses desistentes de viver. Ao contrário, Cervantes viveu em Lisboa um par de anos no século XVI e achava que era na capital portuguesa que as pessoas gozavam bem a vida. E chegamos a José Saramago...

O único Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa olharia até mais de metade da sua vida para Espanha como a maioria dos seus compatriotas e, decerto, aceitava bem o velho ditado "de Espanha nem bom vento nem bom casamento". Mas não morreu com esse pensamento, pois até expressou o desejo de ser enterrado debaixo da oliveira que fora da terra natal, a Azinhaga do Ribatejo, para o jardim da sua biblioteca em Lanzarote. Tal não aconteceu, mesmo que da Azinhaga tenha ido uma oliveira substituta para a praça em frente à Casa dos Bicos, onde foi sepultado, e que esteve para morrer devido ao stress citadino que Lisboa lhe provocou.

Stress foi também o que José Saramago provocou à pátria quando declarou numa entrevista ao Diário de Notícias, a 15 de julho de 2007, o seguinte pensamento: "Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha." Era uma declaração tão inesperada para uns como aguardada por outros. Entre os "outros" estavam todos os que detestavam o escritor pelas suas posições políticas - e outros "defeitos" - e que não aceitavam que um português da sua geração fizesse tal afirmação. Entre os "uns" encontravam-se os que se embriagaram com a União Europeia e viam como aceitável que a Península Ibérica se unisse mais ainda e Portugal se tornasse uma província do país vizinho."

"Capa da edição do Diário de Notícias de 15 de julho de 2007, 
que incluia uma entrevista com a José Saramago. O Nobel criou polémica 
com a sua de ideia de uma ibéria unida com um só país."

"A declaração de Saramago devia-se ao ambiente vivido nesses dias, em que as sedes das multinacionais passaram a estar em Madrid e Espanha apresentava uma normalidade social e um crescimento económico atrativos. Tal como Saramago dizia ao DN, "a vida política nacional não produz melhor gente" e "é uma situação natural" que Espanha vá tomando conta da economia portuguesa; também a sondagem então feita por um jornal mostrava que mais de 40% dos portugueses lhe davam razão e não se incomodavam com uma União Ibérica.

Para Saramago, a União Ibérica, que aconteceria num prazo de 50 anos, não era a de Unamuno ou de Torga: "Culturalmente, não." Antecipava uma "integração territorial, administrativa e estrutural", em que "não deixaríamos de falar português e de escrever na nossa língua". Acrescenta: "Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castela-La Mancha, e teríamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria." Doze anos depois, no entanto, a realidade desmente Saramago e a integração de Portugal numa Ibéria contrasta com a violência dos desejos separatistas da Catalunha. Em 2007, o escritor antevia apenas um problema na unidade espanhola: "A única independência real que se pede é a do País Basco e, mesmo assim, ninguém acredita."

A Ibéria de Saramago foi uma proposta tão surpreendente que no dia seguinte vários jornais estrangeiros deram notícia do que dissera ao DN e na semana que se seguiu o planeta inteiro ouviu ecos: foram reproduzidos nos países nórdicos, na Índia, na América do Sul e até no órgão oficial do Partido Comunista da China. Como as fake news ainda não eram moda - esta pareceria hoje enquadrar-se bem nesse estatuto -, os jornais mais rápidos na resposta à ideia de Saramago foram os espanhóis, os ingleses e os italianos, e todos fizeram uma ou mais páginas a desenvolver o que seria essa "Ibéria" saramaguiana, mais próxima de um argumento para um romance do que de palavras de uma entrevista. A conclusão mais divertida era a de que com os jogadores ibéricos a península seria a maior potência do futebol.

Nem todos apreciaram a proposta de Saramago, a começar pelo governo que pôs o ministro dos Negócios Estrageiros Luís Amado a refutar esse futuro, bem como dezenas de comentadores e até o rei D. Duarte. Saramago não se incomodou, respondendo em nova entrevista ao DN que "quanto mais velho mais livre e quanto mais livre mais radical". Deu um ponto final com a seguinte resposta: "Não tenho mais nada a comentar. Está tudo na entrevista." E, para surpresa geral, um dia depois casa-se oficialmente com Pilar del Río em Castril (Espanha). Numa outra resposta na segunda entrevista, o escritor não refere o exílio em Espanha como razão para a polémica que deu a volta ao mundo: "Não [sou um exilado político], sou uma pessoa que mudou de bairro, alguém a quem o vizinho do andar de cima incomodava e decidiu ir para outra casa." Nem considera que mudar de país tenha sido uma decisão elaborada: "Houve uma altura em que andámos a tentar encontrar outra casa. Estivemos em Mafra e procurámos pela região e é quando sucede que nasce a ideia de fazer uma casa na ilha de Lanzarote para passar as férias."

O que levou José Saramago a fazer estas declarações sobre Portugal e Espanha? A convivência direta com o país vizinho após ter decidido mudar para Lanzarote de armas e bagagens e fixar-se numa ilha espanhola para sempre. Um país cuja importância e interesse dos seus jornais lhe deram uma exposição mundial - e latino-americana - que em Portugal as eternas intrigas nas redações proibiam; a vida com uma mulher espanhola que o seduziu com o anúncio de um amor tão real como literário e que foi em muito responsável para que a obra do autor chegasse aos corredores da Academia Sueca, e um conflito que começa com a censura de um secretário de Estado da Cultura ao romance Evangelho segundo Jesus Cristo."

terça-feira, 13 de novembro de 2018

"José Saramago Rota de Vida Uma Biografia" de Joaquim Vieira (Livros Horizonte) em destaque na edição online do DN

"A biografia de Saramago para esclarecer portugueses sectários

A perceção nacional sobre o único Nobel da Literatura em língua portuguesa ainda é mais negativa do que positiva para os seus concidadãos. Pode ser que a biografia de Joaquim Vieira ajude a esclarecer os maus leitores de Saramago."

Via edição online do DN, pode ser consultada aqui
em https://www.dn.pt/edicao-do-dia/13-nov-2018/interior/a-biografia-de-saramago-para-esclarecer-portugueses-sectarios-10167864.html

"A introdução de Joaquim Vieira à sua mais recente biografia, José Saramago - Rota de Vida, é reveladora do preconceito para com um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa. Nela conta como propôs, enquanto diretor adjunto do semanário Expresso, que se convidasse Saramago para escrever uma crónica semanal em 1993. Justificara o convite com a sua experiência própria de leitor soixante- huitard, o modelo de uma coluna existente no Le Monde, e porque pressentia que o autor ainda poderia vir a ser Prémio Nobel. Assim aconteceu cinco anos depois, deixando o jornal sem a sua marca como testemunho impresso nas páginas de sábado devido às posições do então diretor José António Saraiva, e o fundador Pinto Balsemão, contra a presença de um comunista num jornal de tradição liberal."

"José Saramago no famoso plenário no "Diário de Notícias" 
em 1975, do qual terá resultado o saneamento de jornalistas.
Foto DN/António Aguiar"


"A revelação é a primeira entre as muitas que esta biografia hoje apresentada oficialmente na Biblioteca do Palácio Galveias traz nas suas 751 páginas. O local da sessão não terá surgido por acaso, afinal foi naquelas salas que o operário José se formou intelectualmente e se transformou em Saramago, o escritor que acalentava desejo de o ser desde cedo e que até aos 60 anos nunca teve sucesso suficiente para se destacar entre a "aristocracia" que dominava as letras portuguesas.

Teve a sorte, disse-o Saramago, de ser demitido de subdiretor do Diário de Notícias após a deriva esquerdista do pós-Revolução do 25 de Abril e de ter ido parar a Lavre, uma terra alentejana em que a cooperativa e os comunistas que por lá andavam o fizeram ouvir a voz literária que colocou para trás de si a maioria dos autores seus contemporâneos e inovou a narrativa nacional.

O biógrafo Joaquim Vieira faz um levantamento exaustivo do seu percurso de vida com recurso a inúmeras entrevistas de quem o conheceu ou trabalhou com ele, revê estudos e investigações de outros sobre o biografado, e escreve o mais longo trabalho que Saramago teve até agora sobre a sua vida e obra. Que esclarece bastantes pormenores de uma vida que foi dourada por amigos, contestada por inimigos, maltratada por estudiosos da literatura das últimas décadas, analisada com despeito ideológico por alguma crítica literária e até amaldiçoada por várias figuras governativas pouco esclarecidas.

Não será por acaso que o primeiro capítulo começa com o discurso de Saramago na entrega do Nobel em Estocolmo. Joaquim Vieira destaca a escolha do premiado em elogiar o seu avô tratador de porcos e questiona se foi uma "tirada literária concebida para a ocasião" ou um "pensamento genuíno". Desta e doutras dúvidas está a rota de vida de José Saramago cheia, que o biógrafo tenta esclarecer de vez neste livro, não se preocupando em observar os limites do politicamente correto ou satisfazer interesses.

A melhor notícia é que esta biografia escapa à hagiografia habitual dos que estavam próximos de Saramago e dos que lhe estão ainda. Não retira um ponto da sua vida ideológica como se vai tentando esbater, não ignora a sua roda-viva emocional que colegas seus fazem questão de debicar em sussurro, não passa ao lado das invejas na vida editorial que o "jovem" Saramago tem de enfrentar quando se tenta aproximar dos "grandes" durante o anterior regime, não esquece as duas primeiras mulheres nem o papel de Isabel da Nóbrega nos primeiros grandes sucessos de Saramago.

A página 216 da biografia é um bom exemplo desta última situação, quando uma "incógnita amiga" refere como Isabel da Nóbrega encontra Saramago: "O Zé não se sabia vestir, e nem tinha dinheiro para isso. Quem o arranjou, etc., foi ela, quase como numa campanha de publicidade - eu diria que a Isabel criou o produto."

A página 271 (e seguintes) é outro bom exemplo da velha questão do "saneamento" no Diário de Notícias que aqui é tratado com bastantes depoimentos de jornalistas que viveram a situação.

A página 419 é um bom exemplo de como parte do poder não apreciava Saramago, onde se relata o exemplo do caso do atraso de sete meses na entrega do Prémio Cidade de Lisboa e de o então autarca Krus Abecasis dizer na cerimónia que "não me perturba dar um prémio que exprime uma conceção do mundo inteiramente oposta à minha e à dos cidadãos que me elegeram".

A página 525 é um bom exemplo de dois temas grandes da biografia de Saramago, o escândalo de O Evangelho segundo Jesus Cristo e o ruir do universo comunista.

A página 665 é um bom exemplo de como a outorga do Prémio Nobel irritou em muito os seus concidadãos, designadamente o que se chamava a crítica literária que utilizou o romance pós-Nobel A Caverna como o melhor exemplo para o pior da escrita de Saramago.

As únicas páginas que faltam neste José Saramago - Rota de Vida são aquelas que poderiam proporcionar um maior detalhe sobre a vida literária pós Levantado do Chão, mas a biografia aponta para o conhecimento maior do homem e não pretende ser uma radiografia literária. Portanto, nada a apontar sobre a opção, até porque o período pré-Levantado do Chão faz dos melhores retratos do esforço literário do escritor."



"José Saramago Rota de Vida - Uma Biografia

Joaquim Vieira

Editora Livros Horizonte

751 páginas

A obra será apresentada hoje por Fernando Dacosta, às 18.30, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa"

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago" via DN por João Céu e Silva (02/01/2017)

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago"
via DN por João Céu e Silva (02/01/2017)

Pode ser consultada e recuperada aqui
em https://www.dn.pt/artes/interior/o-convento-de-mafra-esta-habitado-pelo-espirito-de-saramago-5581060.html

"Pilar del Rio junto ao Convento de Mafra" - Gustavo Bom/Global Imagens

"Pilar del Rio foi a Mafra com o DN e recorda a construção do romance Memorial do Convento a partir das histórias que o escritor lhe contou

Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa foi razão pela qual em Mafra se erigiu um convento de dimensões tão exageradas que só a megalomania do rei D. João V, o falso voto de pobreza dos Franciscanos, a ausência de sucessão dinástica nacional e o ouro vindo do Brasil justificaram.

Mafra não ficava assim tão distante da capital do reino: 25 quilómetros. Mas o edifício que ali se iria fazer crescer era uma coisa nunca vista. Que começa por ser pequeno, apenas para 13 frades franciscanos, número que foi engordando para 40 frades, depois 80 e fechou-se o negócio entre a Ordem e o monarca com lugar para 330 hóspedes religiosos.

Os ecos das vozes de quem construiu o convento mantém-se nas compridas alas, salas, capelas e inúmeras divisões desde que há trezentos anos foi posta a primeira pedra no local, no dia 17 de novembro de 1717. Nos treze anos seguintes, 52 mil trabalhadores fizeram as fundações, subiram os pilares e cobriram a imensa área com tetos de todos os géneros, estando a basílica pronta para ser consagrada no dia do 41º aniversário de D. João V e com festa rija durante toda a semana seguinte.

Apesar de tão desejada, a herdeira do reino, Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa nunca conheceu a magnífica obra de Mafra. Casou com o futuro rei espanhol, D. Fernando VI, levando consigo o músico italiano Domenico Scarlatti, que fora contratado para educar a princesa.

Quem for ao Convento de Mafra hoje em dia também não deixará de ouvir esses ecos que replicam tudo o que se passou desde então entre aquelas paredes três vezes centenárias porque o edifício foi tendo várias vidas além da dos franciscanos, sendo a última a presença etérea e constante provocada pelas personagens do romance de José Saramago, o Memorial do Convento. E esses ecos que vêm de uma sala ao fim de seis lances de escadas tornam-se cada vez mais reais conforme o visitante se aproxima do antigo solário onde os frades se banhavam ao sol, porque ali está a decorrer uma representação teatral que condensa esta obra do Prémio Nobel da Literatura.

Gustavo Bom/Global Imagens

Algumas dezenas de jovens - os que hoje dominam a plateia - escutam atentos a dramatização do Memorial do Convento e absorvem as grandes linhas históricas dos acontecimentos. Há olhares de cumplicidade entre uns e outros quando se escutam as falas dos dois camareiros que recordam as dificuldades da rainha em engravidar, uma deixas brejeiras qb; surpreendem-se quando veem a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar, e apreendem os mistérios de uma das principais personagens femininas inventadas por Saramago: Blimunda.

Estampa antiga onde se pode ver o Palácio Nacional de Mafra há mais de um século

Também percebem que o escritor não descreve a princesa como nos contos de fadas, pois esta tem cara de lua cheia e é bexigosa.

Nem o rei sai bem desta ficção em que o autor pretende mostrar o estatuto da aristocracia e do alto clero em contraponto ao do povo e dos oprimidos. Os alunos identificam-se com a peça e saem do Convento com outra opinião sobre o romance. Diogo gostou, principalmente porque o está a ler e compreendeu melhor a narrativa; Raquel ficou "com vontade de ler o livro". A responsável por estas representações, Filomena Real, já tinha avisado desta boa receção por parte das escolas que vêm de autocarro desde Bragança, por exemplo, para as duas sessões diárias: "Há dez anos que fazemos as representações e eles gostam, tal como os adultos que visitam o Convento."

Estas representações do grupo teatral Éter não acontecem apenas no Convento de Mafra, também as há na Fundação José Saramago, um local onde os atores da companhia ficam mesmo entre os visitantes da Casa dos Bicos.

Um gancho em vez da mão

Entre os personagens de o Memorial do Convento está Baltazar Sete-Sóis, que surge com a mão esquerda escondida por "um gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão". É como Saramago o descreve ainda não vai à página 50, sendo que uma dúzia de páginas à frente surge Blimunda, aquela que de manhã é obrigada "a comer pão, de olhos fechados" para não ver o que se passa no interior de Baltazar.

No ano em que se cumprem 35 anos do lançamento do romance, Pilar del Río, a viúva de José Saramago, recorda a sensação que teve ao confrontar-se com a sua leitura: "Foi o primeiro que li dele e achei muito curioso que se intitulasse Memorial do Convento. Li a primeira página numa livraria, onde estava com quatro amigas. Gostei logo tanto que comprei quatro exemplares para lhes oferecer. Depois de acabar de ler, voltei à livraria e pedi todos os outros livros do autor. Todos, era apenas O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando terminei de o ler o segundo, senti-me obrigada a vir a Lisboa por causa do meu deslumbramento perante o Memorial."

O que contribuiu para esse deslumbramento, pergunta-se a Pilar del Río: "O que me impressionou foi o facto de ser uma leitura tão moderna e contemporânea da História e do comportamento dos homens e das mulheres." Lembra-se de que enquanto o ia lendo parava a cada duas páginas: "Queria convencer-me de que estava a ler um autor contemporâneo. Nunca tinha ouvido falar de Saramago, não sabia quem ele era! Mas dizia para mim: isto está escrito num registo que é clássico, sublime, no entanto, é de um autor contemporâneo. Ia lendo e dizia: não, ele não é deste tempo, isto é uma leitura progressista e contemporânea da História. Por isso, li este livro num estado de exaltação."

Foi então que pediu para se encontrar com o autor: "Queria agradecer-lhe ter escrito o livro. Perguntei se podíamos tomar um café, disse-lhe que era jornalista mas vinha sem intenção de o entrevistar. Sabia de antemão que logo que o conhecesse iria querer escrever sobre ele, mas dessa vez nem gravador trouxe. O interesse era ter a perceção direta de como era o autor."

Para Pilar del Río este não é o livro mais político de José Saramago. "Livros políticos não lhe faltam", diz, e dá exemplos: Ensaio sobre a Cegueira, Caim, Evangelho segundo Jesus Cristo... "Os livros são todos políticos, este é um livro de uma beleza extraordinária, sobre o qual Saramago disse depois que estava a descrever a estátua, tal como no Evangelho, mas a partir do Ensaio sobre a Cegueira sentiu que já não queria descrever a estátua mas a pedra da qual é feita", explica.

Quanto à grande presença da religião em o Memorial, refere: "Está sempre presente na obra de Saramago, porque também o está em todos os seres humanos - sejam ou não crentes. Também existe em Levantado do Chão ou em Intermitências da Morte, quando a Igreja não quer que as pessoas sejam eternas para não deixar de ter sentido."

A história da escrita do Memorial do Convento começa com uma visita a Mafra do escritor, onde confessa aos amigos que o acompanhavam [entre eles a anterior mulher do autor, Isabel da Nóbrega] que "gostaria de meter o Convento num livro". Será que o conseguiu, questiona-se: "E de que maneira! Mas foram os amigos, sempre muito insistentes, que o lembravam da promessa e lhe perguntavam: "Então, já meteste o Convento de Mafra num romance?" Saramago sentiu-se pressionado a escrever e ainda bem, porque o livro tem uma grande beleza."

Será que o convento é olhado de um outro modo após a publicação do romance em 1982? Pilar del Río é muito direta na resposta: "Ainda há dias vim cá com vários amigos espanhóis que não o conheciam e eles ficaram fascinados com a "presença" das personagens do romance que andavam pelo edifício, a Blimunda, Bartolomeu... Não há dúvida, este convento está habitado pelo espírito de Saramago."

Essas personagens não surgiram por acaso, como explica: "A música de Scarlati está no romance porque fazia parte da vida de Saramago." Recorda a leitura de um caderno de notas do escritor em que percebe a evolução das personagens: "Elas vão entrando no livro e Saramago, que queria colocar a contradição entre os nobres e o povo, vai notando a imposição de Blimunda. Porque ela não nasce com essas capacidades que vem a ter na narrativa. Tanto Blimunda como a Mulher do Médico [do Ensaio sobre a Cegueira] são duas grandes personagens femininas, que têm muito de parecido, que vão crescendo com a obra mas não faziam parte do projeto inicial naquela dimensão."

Após a enumeração de vários títulos do escritor, pergunta-se qual é o romance de Saramago de que mais gosta? "Tem dias, Cada dia gosto mais de um livro do que doutro e depende do estado de alma. Tendo muito a ir ao Evangelho, porque é um livro que tem reflexões muito sérias e que acompanha as pessoas que possam sentir determinadas ausências", diz. Depois de relidos há os que ficam lidos para sempre? "Não, leio-os por prazer e por obrigação. Acabei de ler a Jangada de Pedra por causa da montagem de uma peça no México. Li recentemente as Intermitências." E quando os relê compreende o livro de outra forma? "Sim, principalmente aqueles a que eu não assisti enquanto Saramago os escrevia. Quando leio aqueles a que acompanhei o processo de escrita, distraio-me a pensar nos acontecimentos desses dias: se tínhamos uma visita, se cozinhei certa coisa. Por isso, nesses primeiros livros, não tenho a distração de outros pensamentos, é só o livro."

No que respeita ao Memorial, Pilar del Río não deixa de recordar "os passeios a sós ou acompanhados por todas estas salas do convento. Ele não precisou de muitas horas a fazer consultas na biblioteca, mas tomava notas sobre como se vestiam as pessoas na época ou o que comiam. Coisas que poderiam ou não entrar no livro; e muitas outras que não precisava de saber. Também passeava por aqui para se aperceber da temperatura, se era frio ou quente, detalhes que não entravam no livro, mas de que precisava de se impregnar. Explicou-me onde vivia a família de Sete-Sóis, onde decorriam os trabalhos, o caminho por onde veio a pedra desde Pero Pinheiro." Terá sido o livro que exigiu mais investigação? Não, diz: "Os romances de Saramago exigiram sempre muita investigação."

Atuações populares

Quando os ecos da representação da peça terminam, o silêncio regressa ao convento de Mafra. Mas, em muitos locais do mundo, há atores a representar José Saramago. Segundo Pilar del Río, "neste momento A Barraca interpreta Ricardo Reis, no ano passado foi Claraboia; a Viagem do Elefante, a Ilha Desconhecida e o Memorial estão a ser representados quase todos os dias da semana. No dia 12 vai estrear o Homem Duplicado em Madrid, o Ensaio sobre a Cegueira está em Itália, nos EUA estão duas óperas e no México a Jangada de Pedra."

Cá fora do convento, há quem não tenha sido atriz na peça de Saramago, mas personagem em representações comemorativas deste património. É o caso de Clara Reis (1933) que já fez de ama da princesa e até trouxe a neta para ser uma das crianças: "Já trabalhei em várias recriações históricas, com fatos de época e perante muito público. Guardo com muito carinho as fotografias desses momentos."

domingo, 16 de julho de 2017

"A importância de dizer não, segundo José Saramago" de Maria João Caetano (DN 05/07/2017)

Recuperação da notícia da estreia da peça de teatro baseada na obra de José Saramago, via DN por Maria João Caetano (05/07/2017) aqui
em http://www.dn.pt/artes/interior/a-importancia-de-dizer-nao-segundo-jose-saramago-8612698.html

"Quatro companhias portuguesas juntaram-se para adaptar "História do Cerco de Lisboa", do Nobel. Espetáculo estreia hoje no Teatro Municipal Joaquim Benite, no Festival de Almada.

Raimundo Silva, revisor numa editora, solteiro, de 50 anos, é um homem apagado, daqueles funcionários que cumpre as suas tarefas sem dar muito nas vistas. Porém, ao ler uma obra intitulada História do Cerco de Lisboa, ele tem vontade de fazer uma alteração: introduzir um "não". Essa simples palavra iria implicar uma enorme mudança na história pois significaria que os Cruzados não teriam ajudado Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros, em 1147. Descoberto, Silva mete-se em apuros na editora. No processo, o revisor apaixona-se pela sua supervisora, Maria Sara, ao mesmo tempo que pensa como há de recontar a história do cerco num novo livro. A conquista amorosa desenrola-se a par da conquista dos portugueses aos mouros."

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

"Esta é, em traços largos, a História do Cerco de Lisboa, contada por José Saramago no livro de 1989, e que a dupla espanhola José Gabriel Antuñano (dramaturgia) e Ignacio García (encenação) transformou em espetáculo numa megaprodução de quatro companhias de teatro: ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, Companhia de Teatro de Almada, Companhia de Teatro de Braga e Teatro dos Aloés.

No palco, além das personagens da história, está também o próprio José Saramago, o narrador que no romance se revela em alguns momentos mas que aqui tem protagonismo: não só lhe ouvimos a voz inconfundível (são excertos de entrevistas) como ganha um corpo e uma presença constante com o ator Jorge Silva. "Interessou-me muito a sobreposição de planos - e esta é uma característica de muitos dos romances de Saramago", explica Ignacio García. "É como um conjuntos de matrioskas, as bonecas russas: Saramago escreve um romance sobre duas personagens, das quais uma é um romancista que está a escrever um livro e que tem as suas próprias personagens, Há um jogo de reflexos, histórias que se desenrolam em paralelo, em diferentes níveis, e que tanto no livro como no espetáculo vão lutando para captar a atenção do leitor/ espectador."

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

 Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

Nuno Pinto Fernandes / GLOBAL IMAGEBS

"José Saramago é uma personagem que fala com todas as personagens, de todos os planos, e também fala com o público", explica José Gabriel Antuñano, responsável pela adaptação da obra do escritor português. E vai mais longe na interpretação: "As personagens não pertencem a um único mundo, pois estão todas na cabeça dos escritores (Saramago e Silva). Por um lado, são criadas pelo escritor, por outro, também influenciam o autor, esse jogo acontece aqui permanentemente."

Quem está na plateia tem oportunidade ver todos os planos. No cenário povoado por livros, imaginado por José Pedro Castanheira, o palco fica aberto, mostrando a teia de iluminação e os chariots, nas laterais, onde estão pendurados os figurinos, vemos os atores entrar e sair de cena, trocar de roupa, fazer a maquilhagem, beber água quando precisam de beber água e até comentarem as cenas. "Todas as decisões do espetáculo tentam ser fiéis a Saramago", justifica o encenador. "Ele incluiu-se a si mesmo no romance e nós incluímo-lo no espetáculo. Saramago brinca com o que significa escrever um romance e nós, aqui, fazemos piadas sobre o teatro e a representação. O público vê os atores a fazerem personagens, vê o truque, a mentira." E explica: "Há uma frase de Saramago de que gosto muito: 'o passado é o reino dos fragmentos'. Isto inspirou-me muito. Numa mentira muito grande vemos fragmentos de verdade, é o que se passa neste espetáculo."

Que todo este jogo meta literário não nos desvie daquilo que Saramago queria dizer com o seu livro, sublinha o encenador: "Há que ler de uma maneira crítica e dialética, não se pode acreditar em tudo o que se lê. Num momento como este em que vivemos em que estamos todos acostumados a acreditar em tudo o que vemos - na televisão, no twitter... - Saramago propõe uma atitude crítica, ler sim mas ter uma opinião e ser capaz de dizer que não àquilo que não está certo ou que não é aceitável." A importância de dizer não - às injustiças, às ditaduras, às mentiras - é reforçada à medida que nos aproximamos do final do espetáculo. José Gabriel Antuñano sublinha essa ideia "de que um simples não pode mudar tudo".

E faz mais uma interpretação: "Este é também um livro sobre a condição do ser humano; como uma pessoa triste, como é o revisor (e como era Saramago) quando decide ter um ato de rebeldia transforma-se numa pessoa criativa e feliz, que sai de si mesmo e que encontra o amor, essa é a história de Silva mas também é a história de saramago com Pilar." José Saramago e Pilar casaram-se em 1988, na altura em que ele estaria a escrever História do Cerco de Lisboa.

O espetáculo estreia no Festival de Almada mas regressará, em setembro, com uma carreira longa que irá passar pelos vários teatros envolvidos, num esforço que Rodrigo Francisco, diretor do festival, vê como "um verdadeiro serviço público". No palco, juntam-se Elsa Valentim, Jorge Silva e José Peixoto (Aloés), Rui Madeira (Braga), Luís Vicente e Tânia Silva (ACTA), João Farraia, Pedro Walter (Almada) e ainda Ana Bustorff."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"O convento de Mafra está habitado pelo espírito de Saramago" de João Céu e Silva com Pilar del Río (DN, 02/01/2017)

O presente trabalho de João Céu e Silva para o DN Artes de 2 de Janeiro de 2017, pode ser recuperado aqui, em http://www.dn.pt/artes/interior/o-convento-de-mafra-esta-habitado-pelo-espirito-de-saramago-5581060.html

Pilar del Rio junto ao Convento de Mafra - Gustavo Bom / Global Imagens

"Pilar del Rio foi a Mafra com o DN e recorda a construção do romance Memorial do Convento a partir das histórias que o escritor lhe contou

Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa foi razão pela qual em Mafra se erigiu um convento de dimensões tão exageradas que só a megalomania do rei D. João V, o falso voto de pobreza dos Franciscanos, a ausência de sucessão dinástica nacional e o ouro vindo do Brasil justificaram.

Mafra não ficava assim tão distante da capital do reino: 25 quilómetros. Mas o edifício que ali se iria fazer crescer era uma coisa nunca vista. Que começa por ser pequeno, apenas para 13 frades franciscanos, número que foi engordando para 40 frades, depois 80 e fechou-se o negócio entre a Ordem e o monarca com lugar para 330 hóspedes religiosos.

Os ecos das vozes de quem construiu o convento mantém-se nas compridas alas, salas, capelas e inúmeras divisões desde que há trezentos anos foi posta a primeira pedra no local, no dia 17 de novembro de 1717. Nos treze anos seguintes, 52 mil trabalhadores fizeram as fundações, subiram os pilares e cobriram a imensa área com tetos de todos os géneros, estando a basílica pronta para ser consagrada no dia do 41º aniversário de D. João V e com festa rija durante toda a semana seguinte.

Apesar de tão desejada, a herdeira do reino, Maria Madalena Bárbara Xavier Leonor Teresa Antónia Josefa nunca conheceu a magnífica obra de Mafra. Casou com o futuro rei espanhol, D. Fernando VI, levando consigo o músico italiano Domenico Scarlatti, que fora contratado para educar a princesa.

Quem for ao Convento de Mafra hoje em dia também não deixará de ouvir esses ecos que replicam tudo o que se passou desde então entre aquelas paredes três vezes centenárias porque o edifício foi tendo várias vidas além da dos franciscanos, sendo a última a presença etérea e constante provocada pelas personagens do romance de José Saramago, o Memorial do Convento. E esses ecos que vêm de uma sala ao fim de seis lances de escadas tornam-se cada vez mais reais conforme o visitante se aproxima do antigo solário onde os frades se banhavam ao sol, porque ali está a decorrer uma representação teatral que condensa esta obra do Prémio Nobel da Literatura."

Biblioteca - Gustavo Bom / Global Imagens

"Algumas dezenas de jovens - os que hoje dominam a plateia - escutam atentos a dramatização do Memorial do Convento e absorvem as grandes linhas históricas dos acontecimentos. Há olhares de cumplicidade entre uns e outros quando se escutam as falas dos dois camareiros que recordam as dificuldades da rainha em engravidar, uma deixas brejeiras qb; surpreendem-se quando veem a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão voar, e apreendem os mistérios de uma das principais personagens femininas inventadas por Saramago: Blimunda."

"Estampa antiga onde se pode ver o Palácio Nacional de Mafra há mais de um século"

"Também percebem que o escritor não descreve a princesa como nos contos de fadas, pois esta tem cara de lua cheia e é bexigosa.

Nem o rei sai bem desta ficção em que o autor pretende mostrar o estatuto da aristocracia e do alto clero em contraponto ao do povo e dos oprimidos. Os alunos identificam-se com a peça e saem do Convento com outra opinião sobre o romance. Diogo gostou, principalmente porque o está a ler e compreendeu melhor a narrativa; Raquel ficou "com vontade de ler o livro". A responsável por estas representações, Filomena Real, já tinha avisado desta boa receção por parte das escolas que vêm de autocarro desde Bragança, por exemplo, para as duas sessões diárias: "Há dez anos que fazemos as representações e eles gostam, tal como os adultos que visitam o Convento."

Estas representações do grupo teatral Éter não acontecem apenas no Convento de Mafra, também as há na Fundação José Saramago, um local onde os atores da companhia ficam mesmo entre os visitantes da Casa dos Bicos.

Um gancho em vez da mão

Entre os personagens de o Memorial do Convento está Baltazar Sete-Sóis, que surge com a mão esquerda escondida por "um gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão". É como Saramago o descreve ainda não vai à página 50, sendo que uma dúzia de páginas à frente surge Blimunda, aquela que de manhã é obrigada "a comer pão, de olhos fechados" para não ver o que se passa no interior de Baltazar.

No ano em que se cumprem 35 anos do lançamento do romance, Pilar del Río, a viúva de José Saramago, recorda a sensação que teve ao confrontar-se com a sua leitura: "Foi o primeiro que li dele e achei muito curioso que se intitulasse Memorial do Convento. Li a primeira página numa livraria, onde estava com quatro amigas. Gostei logo tanto que comprei quatro exemplares para lhes oferecer. Depois de acabar de ler, voltei à livraria e pedi todos os outros livros do autor. Todos, era apenas O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando terminei de o ler o segundo, senti-me obrigada a vir a Lisboa por causa do meu deslumbramento perante o Memorial."

O que contribuiu para esse deslumbramento, pergunta-se a Pilar del Río: "O que me impressionou foi o facto de ser uma leitura tão moderna e contemporânea da História e do comportamento dos homens e das mulheres." Lembra-se de que enquanto o ia lendo parava a cada duas páginas: "Queria convencer-me de que estava a ler um autor contemporâneo. Nunca tinha ouvido falar de Saramago, não sabia quem ele era! Mas dizia para mim: isto está escrito num registo que é clássico, sublime, no entanto, é de um autor contemporâneo. Ia lendo e dizia: não, ele não é deste tempo, isto é uma leitura progressista e contemporânea da História. Por isso, li este livro num estado de exaltação."

Foi então que pediu para se encontrar com o autor: "Queria agradecer-lhe ter escrito o livro. Perguntei se podíamos tomar um café, disse-lhe que era jornalista mas vinha sem intenção de o entrevistar. Sabia de antemão que logo que o conhecesse iria querer escrever sobre ele, mas dessa vez nem gravador trouxe. O interesse era ter a perceção direta de como era o autor."

Para Pilar del Río este não é o livro mais político de José Saramago. "Livros políticos não lhe faltam", diz, e dá exemplos: Ensaio sobre a Cegueira, Caim, Evangelho segundo Jesus Cristo... "Os livros são todos políticos, este é um livro de uma beleza extraordinária, sobre o qual Saramago disse depois que estava a descrever a estátua, tal como no Evangelho, mas a partir do Ensaio sobre a Cegueira sentiu que já não queria descrever a estátua mas a pedra da qual é feita", explica.

Quanto à grande presença da religião em o Memorial, refere: "Está sempre presente na obra de Saramago, porque também o está em todos os seres humanos - sejam ou não crentes. Também existe em Levantado do Chão ou em Intermitências da Morte, quando a Igreja não quer que as pessoas sejam eternas para não deixar de ter sentido."

A história da escrita do Memorial do Convento começa com uma visita a Mafra do escritor, onde confessa aos amigos que o acompanhavam [entre eles a anterior mulher do autor, Isabel da Nóbrega] que "gostaria de meter o Convento num livro". Será que o conseguiu, questiona-se: "E de que maneira! Mas foram os amigos, sempre muito insistentes, que o lembravam da promessa e lhe perguntavam: "Então, já meteste o Convento de Mafra num romance?" Saramago sentiu-se pressionado a escrever e ainda bem, porque o livro tem uma grande beleza."

Será que o convento é olhado de um outro modo após a publicação do romance em 1982? Pilar del Río é muito direta na resposta: "Ainda há dias vim cá com vários amigos espanhóis que não o conheciam e eles ficaram fascinados com a "presença" das personagens do romance que andavam pelo edifício, a Blimunda, Bartolomeu... Não há dúvida, este convento está habitado pelo espírito de Saramago."

Essas personagens não surgiram por acaso, como explica: "A música de Scarlati está no romance porque fazia parte da vida de Saramago." Recorda a leitura de um caderno de notas do escritor em que percebe a evolução das personagens: "Elas vão entrando no livro e Saramago, que queria colocar a contradição entre os nobres e o povo, vai notando a imposição de Blimunda. Porque ela não nasce com essas capacidades que vem a ter na narrativa. Tanto Blimunda como a Mulher do Médico [do Ensaio sobre a Cegueira] são duas grandes personagens femininas, que têm muito de parecido, que vão crescendo com a obra mas não faziam parte do projeto inicial naquela dimensão."

Após a enumeração de vários títulos do escritor, pergunta-se qual é o romance de Saramago de que mais gosta? "Tem dias, Cada dia gosto mais de um livro do que doutro e depende do estado de alma. Tendo muito a ir ao Evangelho, porque é um livro que tem reflexões muito sérias e que acompanha as pessoas que possam sentir determinadas ausências", diz. Depois de relidos há os que ficam lidos para sempre? "Não, leio-os por prazer e por obrigação. Acabei de ler a Jangada de Pedra por causa da montagem de uma peça no México. Li recentemente as Intermitências." E quando os relê compreende o livro de outra forma? "Sim, principalmente aqueles a que eu não assisti enquanto Saramago os escrevia. Quando leio aqueles a que acompanhei o processo de escrita, distraio-me a pensar nos acontecimentos desses dias: se tínhamos uma visita, se cozinhei certa coisa. Por isso, nesses primeiros livros, não tenho a distração de outros pensamentos, é só o livro."

No que respeita ao Memorial, Pilar del Río não deixa de recordar "os passeios a sós ou acompanhados por todas estas salas do convento. Ele não precisou de muitas horas a fazer consultas na biblioteca, mas tomava notas sobre como se vestiam as pessoas na época ou o que comiam. Coisas que poderiam ou não entrar no livro; e muitas outras que não precisava de saber. Também passeava por aqui para se aperceber da temperatura, se era frio ou quente, detalhes que não entravam no livro, mas de que precisava de se impregnar. Explicou-me onde vivia a família de Sete-Sóis, onde decorriam os trabalhos, o caminho por onde veio a pedra desde Pero Pinheiro." Terá sido o livro que exigiu mais investigação? Não, diz: "Os romances de Saramago exigiram sempre muita investigação."

Atuações populares

Quando os ecos da representação da peça terminam, o silêncio regressa ao convento de Mafra. Mas, em muitos locais do mundo, há atores a representar José Saramago. Segundo Pilar del Río, "neste momento A Barraca interpreta Ricardo Reis, no ano passado foi Claraboia; a Viagem do Elefante, a Ilha Desconhecida e o Memorial estão a ser representados quase todos os dias da semana. No dia 12 vai estrear o Homem Duplicado em Madrid, o Ensaio sobre a Cegueira está em Itália, nos EUA estão duas óperas e no México a Jangada de Pedra."

Cá fora do convento, há quem não tenha sido atriz na peça de Saramago, mas personagem em representações comemorativas deste património. É o caso de Clara Reis (1933) que já fez de ama da princesa e até trouxe a neta para ser uma das crianças: "Já trabalhei em várias recriações históricas, com fatos de época e perante muito público. Guardo com muito carinho as fotografias desses momentos."


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarabóia em cena na A Barraca - "Neste prédio imaginado por Saramago está Portugal inteiro"

O artigo de Maria João Caetano, pode ser visualizado e lido, na página do Diário de Notícias, aquiem http://www.dn.pt/artes/interior/neste-predio-imaginado-por-saramago-esta-portugal-inteiro-4920882.html

(Imagem do manuscrito original)


"A Barraca adaptou "Claraboia", romance que nos coloca num prédio lisboeta em pleno Estado Novo"
"No 1º esquerdo mora uma mulher infeliz, que perdeu a filha para a doença e atura um marido marialva e um pouco violento. No rés-do-chão direito mora um casal com problemas de comunicação, e não tem nada a ver com o facto de ele ser português e ela espanhola. Há uma família quase feliz no 2º direito, mesmo se a jovem Claudinha provoca cabelos brancos nos pais. No 2º esquerdo quatro mulheres entre tias, irmãs e sobrinhas, dedicam-se à costura e gostam de ouvir música clássica. No 1º direito, Lídia é uma mulher que dá nas vistas e que recebe muitas visitas do senhor Paulino. No rés-do-chão esquerdo é a oficina do sapateiro Silvestre, com porta para a rua, e que, um dia, em conversa com a mulher Mariana decide alugar um dos quartos para fazer frente às dificuldades financeiras. É assim que aparece Abel, o hóspede. Todas as casas dão para o patamar das escadas e é aí que fica a claraboia.
O prédio lisboeta é o cenário do romance de José Saramago, Claraboia, e é também o cenário da peça com o mesmo nome que o Teatro Barraca estreia amanhã. E é no prédio que reparamos assim que entramos na sala e o espetáculo ainda não começou. Nas mobílias que podiam ser dos nossos avós, nas louças, nas panelas, nos naperons, nas molduras douradas, na máquina de costura Singer com pedal.
Lisboa, 1952
"Assim que li o romance achei que seria delicioso criar esta história dentro de um prédio verdadeiro", conta a encenadora e atriz Maria do Céu Guerra. "Andei por Lisboa a ver prédios que pudessem ser usados, vi várias casas desabitadas mas depois caí na realidade e percebi que nunca nos iriam dar autorização, por razões de segurança, para fazer uma coisa dessas. Então, o cenógrafo José Manuel Costa Reis disse-me: a Barraca tem um teatro, tens que fazer isto no teatro, eu arranjo uma maneira." E arranjou. "Consegue dar-nos realmente a vida de um prédio, do qual vemos partes, vemos um prédio cortado e somos voyeurs, somos espias de um prédio de Lisboa de 1952. Conseguimos ver a vida de seus casas, seis famílias completamente distintas mas que nos dão aquela realidade que era a vida no Estado Novo."
O jornalista João Paulo Guerra, que fez a adaptação do romance de Saramago para teatro, explica que apesar de o autor não dizer exatamente onde ficava aquele prédio, é fácil imaginá-lo na zona de Santos, onde fica o teatro da Barraca:"Diz que da janela vê-se o rio e ouvem-se barcos. Além disso, sabemos que o José Saramago viveu na rua da Esperança, aqui na Madragoa". Mas seja em que bairro for, este é "um prédio classe baixa ou média-baixa, como, aliás, era a esmagadora maioria da população de Lisboa."

 Maria do Céu também interpreta uma das personagens
(Sara Matos/Global Imagens)

"Meia dúzia depois da Segunda Guerra Mundial, estamos em pleno Estado Novo", acrescenta Maria do Céu Guerra. "O Saramago, como José Cardoso Pires ou Lobo Antunes, escrevem sobre o fascismo branco. Não aparece a polícia, não aparece diretamente a repressão, nada que acuse o Estado Novo ou algum processo político, mas a gente sente que é insuportável viver aqui, é sufocante, e é isso que eu acho que o José Saramago nos dá muito bem."
João Maria Pinto, o ator que interpreta o sapateiro Silvestre, era um miúdo de seis anos em 1952 mas lembra-se bem desse modo de vida: "O livro é extremamente elucidativo sobre a época, dá-nos as famílias endurecidas pelo fascismo, cinzentas, partas, sem horizontes de vida. Estão espartilhadas. Vão uma vez ao cinema, quando há algumas economias, fazem uma refeição melhor ao domingo, dão um passeio e não fazem mais nada. Era assim que vivíamos."
Contrariar a crise
Apesar de haver quem possa ver semelhanças entre o mundo de Claraboia e o de filmes como O Pátio das Cantigas, Maria do Céu Guerra diz que as diferenças são muitas. Esta será uma "comédia negra": "Não tem nada a ver com a chamada comédia portuguesa, que era uma coisa demasiado apologética, simpática e ao mesmo tempo nostálgica de um tempo que não foi assim tão festivo. O que o Saramago nos dá é uma espécie de avesso da pueril e feliz comédia portuguesa. Aqui, todas as famílias tem a sua infelicidade e a sua luta pela vida, que era algo muito real."
Abel (Rúben Garcia) e o sapateiro Silvestre (João Maria Pinto)
(Sara Matos/Global Imagens)

"A vida no prédio é perturbada pela chegada do hóspede, um jovem que tem uma vida errante e pensamentos libertários. O papel de Abel é interpretado por Rúben Garcia e no vasto elenco encontramos ainda Paula Guedes, Lucinda Loureiro, Hélder Costa, Paula Sousa, Rita Lello, Carolina Parreira, Paula Bárcia, Adérito Lopes, entre outros. Trata-se, assume, a encenadora (que interpreta dois papéis), de uma "aposta muito grande" para a companhia. "Passámos os últimos anos numa situação muito difícil na barraca, quando começou a austeridade e se acentuaram os cortes e nós ficámos reduzidos a não poder fazer nada do que queríamos. Desta vez decidimos arriscar. Vamos fazer mesmo que a gente sofra as consequências disto. Não vamos continuar nesta apagada e vil tristeza de fazer peças com dois personagens e sem cenário. Vamos dar um pontapé na lua."