Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 21 de agosto de 2016

“O Ano da Morte de Ricardo Reis” texto reflexivo sobre a obra de José Saramago pela professora Almerinda Bento (02/08/2016)

O presente texto é da autoria da professora Almerinda Bento e foi publicado, aqui
em http://www.esquerda.net/artigo/o-ano-da-morte-de-ricardo-reis-jose-saramago-1984/44089

“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, 1984

"Uma das minhas leituras de férias e mais um dos livros de José Saramago já há algum tempo à espera de chegar a sua vez. Como sempre, fascinante, denso, com incursões inesperadas a propósito de tudo e de nada, desde expressões da nossa linguagem do dia-a-dia, até deambulações sobre a vida, a morte, o ser, o existir, o sonho… sobretudo nos encontros de Ricardo Reis com Fernando Pessoa. Surpreendente, para ser lido com calma, saboreando os caminhos que Saramago nos convida a seguir ao longo das páginas deste romance. 
Em finais de Dezembro de 1935, Ricardo Reis chega de barco a Lisboa, vindo do Brasil onde esteve dezasseis anos a viver. É o reencontro com a sua cidade, ficando alojado no Hotel Bragança na Rua do Alecrim, não sabendo ainda por quanto tempo lá vai ficar. Sem planos definidos, Ricardo Reis é uma personagem solitária que vai observando e apreendendo a realidade da cidade, do país e do mundo, sem se envolver directamente, antes colocando-se de fora. 
No entanto, o cemitério dos Prazeres onde está sepultado Fernando Pessoa falecido em 30 de Novembro de 1935, é o primeiro local que Ricardo Reis visita mal chega a Lisboa. No primeiro dia do ano de 1936, quando a euforia do novo ano é vivida lá fora e Ricardo Reis já se recolheu ao seu quarto no hotel Bragança, Fernando Pessoa (ou o seu fantasma) visita-o pela primeira vez e avisa-o de que só poderão ter mais oito meses para se encontrarem e explica que tal como quando estamos no ventre das nossas mães não somos ainda vistos, mas todos os dias elas pensam em nós, após a morte cada dia vamos sendo esquecidos um pouco “salvo casos excepcionais nove meses é quando basta para o total olvido”. 
O “Senhor Doutor Reis” como é tratado pelos empregados e hóspedes do hotel é um homem solitário, embora goste de almoçar em pequenos restaurantes pedindo ao empregado que não levante o prato à sua frente e deixe cheios o seu copo e o do seu companheiro imaginário. Gosta de observar e imaginar histórias sobre alguns hóspedes que jantam e frequentam o hotel e cria uma familiaridade por vezes forçada com o gerente – Salvador – com Pimenta que lhe carrega as malas e com Lídia a empregada que lhe limpa o quarto e lhe leva o pequeno almoço. Por outro lado, sendo alguém que se instala durante algum tempo no hotel sem ocupação nem ligações familiares ou sociais conhecidas, é observado não só pelo gerente e pelo empregado do hotel, mas também pela polícia política que quer saber as motivações daquele estranho doutor Ricardo Reis que regressou a Portugal vindo do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais para se pôr a par do que se passa no mundo e em Portugal pintam um retrato idílico de um país em que o salazarismo começa a fazer o seu caminho. O país da ideologia da família unida e feliz, em paz, em confronto com as convulsões que se vivem na vizinha Espanha e no Brasil. O país da sopa dos pobres e das obras de caridade em todas as paróquias e freguesias. O país onde se morre de doença e de falta de trabalho. O país dos milagres de Fátima e da devoção ao chefe, arregimentando os seus seguidores na Mocidade Portuguesa, na Legião e em outros instrumentos de propaganda como a Obra das Mães pela Educação Nacional. O país dos filhos de pais incógnitos. O país da discricionaridade e da devassa da vida privada, dos interrogatórios e da intimidação sem quaisquer motivos, o início da triste história da PVDE/PIDE. No fim do interrogatório à saída da António Maria Cardoso, Ricardo Reis sentiu um fedor a cebola que exalava Victor, o informador. Mas também noutros momentos esse fedor rondava por perto.
Lisboa, a cidade de Pessoa, a cidade onde Ricardo Reis veio para morrer, é uma cidade cinzenta e triste em que a chuva cai impiedosa. O Carnaval também é molhado e sem graça. No Verão, o calor é sufocante. A condizer com o ambiente de suspeição e desconfiança do Estado Novo, a cidade é mesquinha, coscuvilheira, intromete-se na vida dos outros. Seja primeiro no hotel Bragança, ou mais tarde quando Ricardo Reis aluga um andar na Rua de Santa Catarina, as vizinhas espreitam, conjecturam, mexericam, imiscuem-se. Até para os dois velhos que se sentam junto à estátua do Adamastor, aquele novo morador de Santa Catarina não deixa de ser um motivo de interesse para matar as horas de ócio e de conversa. Felizmente para Ricardo Reis, daquele segundo andar há uma vista deslumbrante para o Tejo. 
Em Espanha, depois da vitória das esquerdas nas eleições é para Lisboa que fogem e se refugiam os detentores de riquezas, aguardando a reviravolta que não tardará com o golpe fascista liderado por Franco. Na Alemanha e na Itália, os ditadores lançam os seus instrumentos de propaganda e preparam os seus seguidores para um dos períodos mais negros da história da humanidade. No Brasil o comunista Luís Carlos Prestes é preso. As notícias dos jornais portugueses dão conta de que no estrangeiro Portugal é visto como o país que finalmente vive um período de paz e prosperidade. 
E agora, as duas personagens femininas que se relacionam com Ricardo Reis. Lídia – a musa das Odes de Ricardo Reis – e Marcenda são duas personagens centrais nesta obra e neste período da vida de Ricardo Reis. Como é apanágio de Saramago, as suas heroínas são sempre mulheres fortes e decididas. Lídia, empregada no hotel onde Ricardo Reis vai viver os primeiros tempos após a sua chegada a Lisboa, é senhora de si, apaixona-se pelo doutor Ricardo Reis mesmo sabendo das diferenças sociais que a impedem de poder ter uma vida social sem ambiguidades com aquele com quem se relaciona sexualmente. Marcenda, a jovem hóspede do hotel que todos os meses vem com o pai para uma consulta médica, encontra em Ricardo Reis uma pessoa mais velha que a trata como uma adulta e não como uma criança a quem se escondem verdades dolorosas. 
Muito mais haveria a dizer sobre este denso romance de José Saramago, repleto de referências poéticas a Camões, à “Mensagem” de Fernando Pessoa e aos seus muitos heterónimos, entre outros. Não sendo especialista na obra do poeta, limito-me aqui a fazer este breve apontamento sobre esta obra de Saramago que penso ser um manancial para os/as amantes da literatura e, sobretudo, para os/as estudiosos/as da poesia de Pessoa e dos seus diversos heterónimos."
2 de Agosto de 2016
Almerinda Bento

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Texto para uma exposição de pinturas em Lanzarote - 10/12/95 ("Cadernos de Lanzarote - Diário III)

10 de Dezembro (de 1995)
"Palavras de apresentação para uma exposição de pinturas cuja venda se fará em benefício de obras sociais de Lanzarote: 
A mão esquerda não nasceu com sorte. Por causa desse nome (esquerda, sinistra), é como se fosse ela a culpada de todas as maldades deste mundo, e tão pouco digna de confiança costumam considerá-la que, segundo um dito corrente, no caso de a mão direita dar alguma coisa, convém que a esquerda não o saiba. Em princípio, a intenção do dito é bastante louvável, uma vez que com ele se pretende impedir que as pessoas andem por aí a gabar-se das bondades que pratiquem, mas o certo é que a ninguém ocorreu dizer até hoje que a mão direita não deverá saber o que a esquerda dá... Nenhuma palavra é inocente. 
Felizmente que há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esqueceram de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos, para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que envergonhar-se de ser bondade, assim a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a. justiça e a bondade, o primeiro lugar dá-lo-ia à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa justiça e caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça. 
Pintar é dar a ver. Portanto, dar o que se pintou é dar duas vezes. E se é verdade que em geral se pinta com a mão direita, não é menos verdade que a mão esquerda esteve lá presente, no acto de criação. Quando Miguel Ângelo, no tecto da Capela Sistina, fez estender a mão direita de Deus para que o homem nascesse, a mão que ele tocou, já humana, foi a esquerda. Chamemos, então, se quisermos, caridade à mão direita, por ser a mais fácil e a mais comum, à mão esquerda chamemos-lhe bondade, por ser tão rara, mas a justiça que a ambas deverá gerir, é na razão que se há-de encontrar. A relação humana terá de ser obra da razão para que possa ser, conjuntamente, caritativa, bondosa e justa." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 215 e 216 (10/12/95)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Sobre a pintora Teresa Magalhães


(Acrílico sobre tela, 2000)

"As cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, 
ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. 
E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. 
O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem 
qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido".
José Saramago

Mais informações sobre a pintora Teresa Magalhães, aqui



Texto de José Saramago para apresentação de exposição

"Quando Rimbaud, no seu célebre soneto Voyelles, disse que o A era noir, não disse que era negro, quando disse que o E era blanc, não disse que era branco, quando disse que o I era rouge, não disse que era vermelho, quando disse que o U era vert, não disse que era verde, e quando finalmente disse que o O era bleu, não disse que era azul. Se o som de cada uma delas, pronunciada no francês que ele falava, suscitou no seu espírito a correspondência de uma cor diferente em cada caso, e supondo que em tudo isto houve algo mais que um artifício gratuito ou não foi o mero resultado de uma exigência simplesmente determinada pela métrica do verso, então teremos de concluir que o A dito em português nunca seria negro, nem branco o E, nem vermelho o I, nem azul o O, nem verde o U. Quer isto dizer que nem as vogais têm para toda a gente as cores supostamente sugeridas pelo som que produzem, nem as palavras são, elas próprias, as cores que convencionalmente expressam. Rouge só é vermelho no dicionário, aquelas duas sílabas não dizem o mesmo que estas três. É possível que a maioria dos pintores não perca tempo com dilucidações deste tipo, que mais lhes parecerão pueris exercícios de retórica, mas creio que não me equivocarei demasiado se disser que, para eles, os nomes das cores só têm utilidade na hora de ir comprar as tintas... O que depois se passa é outra coisa.

Penso em tudo isto enquanto contemplo as pinturas de Teresa Magalhães, mas não me detenho a interrogá-las sobre se têm alguma relação, directa ou indirecta, imediata ou evocativa, com as sugestões cromáticas consequentes da pronunciação das cinco vogais em português ou em francês. Pela simples razão de que as cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido. Contra a evidência material e visual de que, ao mesmo tempo, elas são o que vejo e estão onde as vejo (o francês de Rimbaud não daria para mais que dizer elles sont e elles sont...), afigura-se-me que cada uma destas pinturas foi imobilizada de repente, travada num instante preciso de um processo de transformação sucessiva e multiforme, tal como o caleidoscópio que fazemos girar nas nossas mãos e que, com motivo ou sem ele, abandonámos com uma certa ordenação de formas e cores, até que um novo movimento de rotação venha desordenar a imagem e reordená-la outra vez, para novamente desfazer o que, em potência, será sempre uma ordem ameaçada pela instabilidade. Estou certo de que se pudesse tomar uma destas tábuas nas minhas mãos e a rodasse a um lado ou a outro, outra imagem imediatamente surgiria, as mesmas cores, as mesmas formas, mas uma nova pintura. O mundo como caleidoscópio, o sentido como movimento, eis o que julgo ver na pintura de Teresa Magalhães. É certo que os escritores, em geral, sabem pouco destas coisas, Que a este seja perdoada a intromissão abusiva, é a minha esperança. De todo modo, por muito que isso custe a Rimbaud, o O nunca foi azul..."

domingo, 12 de abril de 2015

"Saramago y Ella" de Joaquín Dholdan - Revista Visperas (30/03/2015)




Texto de Joaquín Dholdan, pode ser lido e consultado em

"Saramago y Ella"

"Con el tiempo algunos de los llamados “defectos” se enquistan. O sea, las características con las que nos movemos socialmente- si no evolucionan- se instalan en nuestros mecanismos. Prueba de ello es un viejo padecimiento, tengo la mala costumbre de reaccionar luego de un tiempo. O sea, ante un suceso cualquiera, me quedo inmóvil (a veces unos minutos, a veces días) y luego de la pausa aparece la respuesta, o la pregunta, o la reacción de forma tardía y en general inoportuna. Les cuento este “defecto” como excusa para mi reacción el día que conocí a Pilar del Rio, la compañera de José Saramago, su esposa, su viuda. Que conste que sigo con la teoría que durante unas décadas los hombres deberíamos dejar de escribir, gobernar y administrar, quizás sea una forma de compensar el despropósito que nuestra civilización hizo con ellas. Ya está bien de Yokos Onos, de María Kodamas, de hombres recogiendo premios y dándoles las gracias a ellas, sus apoyos, sus respaldos. El caso de Pilar es otro, aunque seguramente José podía escribir con calma teniendo a alguien que le gestionara la parte de su obra que no tiene que ver con la escritura. Pero volvamos a mi reacción lenta: en un homenaje que algunas asociaciones de amigos del pueblo saharaui le hicieron a Aminetu Haidar y a Saramago conocí a Pilar. Le iba a contar que había visto muchas veces (muchas) el documental José y Pilar y quería contarle que había llegado a una conclusión… Pero no lo hice, le pedí que me firmara su traducción de “El cuaderno” , me dijo “que bien, ya está publicado”, y yo sabía que iba a querer decirle algo más, pero necesitaba un tiempo indefinido para pensar como hacerlo… esto fue hace cuatro años.


Saramago está afeitándose y de repente mira al espejo y murmura “El hombre duplicado” y allí nace la novela, que no sabe sobre que, o quien, hablará, y como con tantos de sus libros a partir de una anécdota”mágica” todos sus sucesos son lógicos e hipnóticos- La muerte deja de matar. Se desprende la península ibérica y va a la deriva por el Atlántico. Casi todo el mundo se queda ciego- Quizás por esto Manuel Vilas me dijo un día que Saramago escribía siempre la misma novela, y tal como les conté con mis reacciones lentas, al mes le pedí que me explicara su afirmación y en cambio me contó: “Una vez presenté a Saramago en el norte y uno del público se levantó y le cantó una jota, una compuesta para él, ante el estupor de todos, pero Saramago la escuchó con atención sabiendo que era un gesto de afecto de aquel tipo”.


En “José y Pilar” veía muchas cosas que me hacían sentir aún más cercano a uno de mis escritores preferidos. Me encantaba cuando se escuchaba el murmullo que hablaba de él mientras estaba en su casa, ajeno a todo, o cuando mientras Pilar armaba y organizaba y él decía “Pilar, yo me voy para casa”. Jorge Wagensberg dice que el “aire de familia” entre un escritor y un lector, es clave en el hecho artístico. Por eso, cada vez que escuchaba una entrevista y sabía como pensaba Saramago, en las cosas que creía, en las que no creía, a quienes defendía, a quienes acusaba, yo saltaba de libro en libro como quien se va a vivir de adulto a la casa en la que fue criado.


Ahora hagamos el siguiente ejercicio: Cortázar nunca traduce a Poe. Historias extraordinarias , ese libro, nunca llega a nuestras manos, nuestra vida es otra. Pilar del Río no traduce a Saramago, lo haría otro u otra traductora, pero nunca de forma tan simultánea. Podrían decir, los contras de siempre, que también otro u otra traduciría a Poe, y que quizás nadie traduciría a Saramago. Lo que importa es: los libros de Saramago que yo he leído, todos, han sido traducidos por Pilar del Río. Y más allá de la traducción como género literario, está, en este caso, la perfecta sintonía entre la versión portuguesa y la española, pocos casos habrá en la literatura en que uno podría asegurar, sin el mínimo atisbo de duda, que la traducción y la versión original son el mismo libro.


Hay otra anécdota que pasa muy rápido en José y Pilar, el documental: la pareja viene cansada en un vuelo trasnoceánico cuando, bajando del avión Saramago dice al pasar algo así como “Me gustaría escribir un libro sobre Caín”, al rato Pilar le pide que lo repita y mira de reojo a la cámara “Pues nada señores, tenemos un nuevo libro”. ¿Qué habrá visto o pensado esta vez José durante ese vuelo? ¿En algún traidor? ¿En algún escritor hermano? ¿Viendo las nubes pensó en ese Dios que no entendemos ni nos entiende? Me gustaba ver como en ese comentario ella sabía que había un libro, conocía ese mecanismo como nadie. Por eso, y hablando estrictamente de literatura, mucho se ha escrito y se escribirá sobre Saramago, y seguramente grandes escritores podrán construir brillantes ensayos sobre su obra, pero el análisis definitivo, el verdadero “Universo Saramago” sólo nos podrá ser descrito por Pilar del Río.

Dicen que uno se hace hombre cuando muere su padre. El día que me dijeron que el mío ya no estaba, me llevó todo un día reaccionar y llorar, y el resto de los días entender lo que había pasado. Estaba haciendo una tortilla cuando dijeron por la televisión que había muerto Saramago y quizás por primera vez reaccioné de inmediato y me puse a llorar (esto también me hubiera gustado contárselo a Pilar). El resto de lo días pensé en ella y llegué a la conclusión que no me dio tiempo a decirle aquel día que nos conocimos: se merece cada una de los libros que José le dedicó."



sexta-feira, 6 de março de 2015

Texto "Indignado" - Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) - Apresentação da obra "Ensaio sobre a Cegueira" Novembro de 2004

Recuperação do texto publicado na revista "Blimunda" #10, de Março de 2013

"Em novembro de 2004 José Saramago visitou a Biblioteca Luís Ángel Arango, de Bogotá, para uma conversa com Jorge Orlando Melo, director da Biblioteca, a propósito do livro Ensaio sobre a Lucidez. No mês que antecede o início da Feira do Livro de Bogotá, que terá Portugal como país convidado, parte dessa conversa é agora publicada na Blimunda."

(José Saramago durante a "Feria Internacional del Libro" em Bogotá, Colômbia)

"A conclusão é muito fácil: os políticos preferem a abstenção ao voto em branco. Com a abstenção viveram sempre e encontraram uma forma de a justificar: pela chuva, pelo sol, pela praia, pela gripe, pela doença, ou simplesmente porque à pessoa não lhe apeteceu votar. Não é o mesmo que 40% de eleitores tenham intenção de votar e, porque as propostas existentes não lhes interessam, decidem votar em branco. 
Penso que não se pode dizer, com toda a ligeireza do mundo, que vivemos em democracia quando essa democracia não dispõe de meios nem de qualquer instrumento para controlar ou para impedir os abusos do poder económico. 
Acima daquilo a que chamamos o poder político há outro poder não democrático, o económico, que a partir de cima determina a vida do outro poder que está por baixo. 
Ao FMI manobram-no representantes das cinco grandes potência do mundo. Por isso para os outros países não há nada a fazer: ou se submetem, aceitam as condições, ou então fecha-se-lhes a torneira.
Isto parece-me muito claro e dou-vos um exemplo. Houve um tempo em que toda a ambição, a ilusão de um governo que se prometia aos cidadãos era o que se chamava então de pleno emprego, o que significaria emprego para toda a gente e para toda a vida. Era um ideal inalcançável, mas pelo menos falava-se disso. Em 20 anos, ou até em menos tempo, passámos do pleno emprego para a realidade brutal do emprego precário, a que eufemisticamente chamo mobilidade social. Como é que isto aconteceu? 
No fundo, é como um exercício de prestidigitação assombrosa, pelo meio do qual o poder económico, muito respeitado, fez saber aos governos que precisamos de ter as mãos livres, que se temos de encerrar umas fábricas, pois que as cerremos e não peçamos contas, levamo-las para outro país onde os salários são mais baixos e onde os horários de trabalho não têm limite. Então, como uma ordem que cai do céu, pouco a pouco, sem nos darmos conta, passamos ao emprego precário. Isto fez-se de maneira tal que já ninguém recorda, ou comportamo-nos como se não nos recordássemos de que houve um tempo, não tão distante assim, em que se falava de emprego para toda a gente. 
Agora vivemos nisto. Empresas que contratam trabalhadores por uma hora, aquilo a que em Espanha se chama contrato-lixo. O pior de tudo é que é como se nos tivessem arrancado um dente com anestesia. Arrancaram o dente, não sofremos nada, mas agora sentimos que há um vazio que é a preocupação, o medo de perder o trabalho. Isso é o que chamamos de democracia. É uma fachada. Não quero dizer que por trás dessa fachada não exista nada, pois todos os dias se constrói, todos os dias se tenta e todos os dias algo se consegue, mas não no fundamental, que constitui o velho e permanente problema: o poder. Quem detém o poder, como chegou ao poder, para que fim o tem, e o que há que aceitar, porque é uma evidência que os governos se transformaram nos comissários políticos do poder económico, o concubinato entre o poder político e o poder económico existe desde sempre. Creio que a democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos, mas poderíamos reinventá-la, e para isto apenas se requer que lhe demos os meios adequados, que são as convicções dos cidadãos, a capacidade de intervenção de cada um de nós para que a democracia, simplesmente, seja como deve ser, e a verdade é que não o é.
Neste livro há uma frase que, no fundo, resume o romance, condensa-o, concentra-o em pouquíssimas palavras: «Quando nascemos é como se assinássemos um pacto para toda a vida, mas pode chegar o momento em que nos perguntemos quem é que assinou isto por mim». Creio que isso nos acontece. A Saulo, que perseguia os cristãos, de repente aparece-lhe uma luz imensa, cai do cavalo e escuta uma voz que diz: «Por que me persegues, Saulo?». E aí converteu-se. Claro que não aspiro a tanto, não sou tão ingénuo a ponto de poder dizer que com esta frase mudei o mundo, mas vai chegar o dia em que perguntaremos quem é que assinou isto por mim e não se ouvirá uma voz que diga por que me persegues, mas talvez possamos dizer-nos uns aos outros «óptimo, andamos a pensar nisso». 
Há uns anos reuniram-se dez escritores e filósofos para debater algo tão interessante e ao mesmo tempo tão inútil como apresentar dez propostas para o milénio, como se o milénio estivesse preocupado com as propostas, e eu era um deles. Todos tomaram o tema proposto de forma séria e apresentaram propostas para o milénio, evidentes quase todas, e eu, que sou muito mais consciente das minhas próprias limitações, propus regressar a essa coisa tão simples, tão estupenda, tão magnífica, tão deslumbrante, que é o pensamento. Pensar, regressar à filosofia. 
Agora mesmo, em todo o mundo estão a realizar-se milhares de congressos, milhares de mesas redondas, milhares de simpósios, e posso assegurar, sem medo de me equivocar, que há uma única coisa que não se está a discutir: a democracia. É como se fosse um dado descoberto de uma vez por todas e para sempre, e portanto sobre ele não vale a pena falar e eu digo que, pelo contrário, sim, vale a pena, falar interminavelmente, pensar, reflectir, discutir com os nossos entes mais próximos, clarificar coisas. Nós vivemos no que se pode chamar hoje, sem nenhum exagero, um deserto de ideias; não há ideias, não há ideias novas, não há ideias que mobilizem, não há ideias que façam levantar as pessoas da sua resignação, parece que todos nos resignámos a uma espécie de fatalidade que não aceita mudanças. Mas as ideias tão-pouco nascem assim do nada, é a própria sociedade a que tem de gerá-las e, quando tal ocorrer, começaremos a ter alguma coisa. 
Se a vida privada acabou de alguma forma, a consciência privada, para usar o mesmo termo técnico, sofreu um atentado semelhante. A liberdade, e agora falo da liberdade de consciência, por vezes arrisca-se a converter-se em algo utópico, com muito pouco conteúdo. 
Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para ir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra. O importante é que exista a presença de um sentido de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito colectivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isto pode ser uma semente para que algo mude. 
O que vai provocar a palavra semente? Algo que amanhã dará flores e frutos. Acredito muito que, se houver debate, é possível mudar as coisas, mas não podemos limitar-nos a esse debate que por vezes aparece nos meios de comunicação, que é uma coisa entre uma determinada família de comunicadores, de jornalistas, de políticos também, que no fundo manipulam os conceitos, como temos visto, como é claro para todo o mundo. Enquanto não ser puder mudar o que está por cima (o poder económico), vai ser muito difícil. 
Hoje, quando passámos ao lado de um cemitério de Bogotá, falava com a minha mulher sobre o epitáfio que escreveria na lápide, supondo que os restos ficassem ali, e então disse que poria «Indignado». E realmente digo indignado por dois motivos: um pessoal e o outro egoísta. Indignado por estar morto, não há direito, realmente, e o outro, pior, indignado por ter passado pela vida e não ter podido mudá-la. Isto é terrível." 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"Saramago, a vaidade justificável" texto de Miguel Sanches Neto (05/06/1999)


(Fotografia de João Francisco Vilhena 
Exposição Lanzarote — A Janela de Saramago)

Texto pode ser consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/msanches29.html

"Saramago, a vaidade justificável" de Miguel Sanches Neto
em "Gazeta do Povo" (05/06/1999)

"Um diário é um cômodo íntimo de uma casa. Nele, encontramos o autor em suas roupas domésticas, vivendo como o comum dos mortais. O que impera é o acontecimento miúdo, as pequenas vaidades, as alegrias cotidianas, os prazeres de ver a vida que passa, as indignações, etc. Quando o diário é escrito por uma grande personalidade, a estes móveis mais inexpressivos são acrescentados outros: a sua participação em grandes acontecimentos, sua concepção de mundo e os eventos dos bastidores da vida pública por ele vivida. É, invariavelmente, a parte interna da casa, as intimidades do edifício, com suas manchas de bolor e com sua decoração, que encontramos na leitura dos textos nascidos sob este rótulo.
O leitor de diários está sempre atrás das grandezas e das fraquezas de quem escreve e sempre será possível encontrá-las nesta categoria de texto em que sobressai um eu. Acusar um autor de ser ególatra é algo que não diz absolutamente nada, servindo apenas para depor contra a inteligência de quem faz tal afirmação. Todo diário é, em sua essência, um culto do eu e, portanto, todo autor de diários é um cultor de si mesmo. O que varia é o grau de presença do eu, uns são mais e outros menos ególatras, e natureza desta presença, algumas são justificáveis pelas questões que suscitam.
Quem procura tais textos deve portanto saber que o que ele encontrará é um discurso do eu, que pode vir mais velado, como quando um viajante mostra uma paisagem ou fala de questões sociais. Mas o eu, neste caso, não está ausente, apenas oculto. São suas as opiniões e seu o olhar. Até esconder o eu não é mais do que chamar a atenção para ele.
No diário tudo é vaidade. Quem escreve é vaidoso por levar a sua vida a sério, por dar-lhe importância ao ponto de escancará-la ao público. E quem o lê também é vaidoso, porque no fundo quer se ver no diário. Mesmo que não seja conhecido do autor, ele quer se reconhecer na vida privada deste. Depois que começou a transcrever cartas em seus diários, cujo segundo volume da edição brasileira acaba de ser lançado (Cadernos de Lanzarote II, Cia. das Letras, 1999), José Saramago passou a receber um número muito maior de missivas, como fica sugerido pela recorrência delas no volume em questão. Também deve ter aumentado a freqüência de visitas à sua casa e de convites para participar de eventos. Pois são estas as matérias do diário, espaço da vaidade por excelência. O próprio artigo que escrevo não deixa de ser movido pela vaidade de freqüentar a sua casa, de ocupar-lhe um mínimo espaço.
Isso posto, acabemos com as acusações ao autor. Saramago é tão vaidoso quanto quem o lê. Ponto final. Abramos outro parágrafo.
Por baixo desta matéria mais mundana e perecível pode ou não haver uma base sólida. É isso que deve definir a relevância de um diário. Assim, a imprescindibilidade dos Cadernos de Lanzarote II se localiza em duas questões axiais, pelo menos para este crítico. A primeira é a sua proposta de um retorno ao autor. A segunda é a história (que geralmente fica no mais completo segredo) do nascimento da ficção, da sua fase pré-natal.
Durante as longas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a literatura sofreu uma aceleração do movimento de tecnicização que tem acompanhado a modernidade. Nunca, como nesta segunda metade do século, ser moderno significou de forma tão primária investir, em todos os sentidos, em aparatos tecnicamente sofisticados. A estética, na arte, acabou ocupando o mesmo espaço que os objetos eletrônicos têm em nossa vida. O homem viu-se reduzido a um ser perplexo em meio a coisas que roubaram o seu lugar, condenando-o ao exílio. Que isso tenha acontecido no mundo material já é algo assustador, mas que a mesma coisa tenha se manifestado no mundo da cultura é que me desespera. Tanto na crítica (entregue ao estudo de questiúnculas técnicas), quanto na filosofia (perdida em conceitos vagos) e nas artes (que enaltecem o domínio dos instrumentos), o homem passou a ser uma figura dispensável.
No território específico de Saramago - a ficção -, o centro das atenções foi transferido para o narrador, ou seja, para um lugar técnico da narrativa. A obra, dentro desta visão distorcida, ganha relevância quando há a construção aprimorada de um narrador. O livro, portanto, passa a valer pelos recursos que convoca e não pelas verdades humanas condensadas nas trajetórias de seus personagens. Quando a figura do narrador se sobrepõe, o autor perde espaço - o que é o mesmo que dizer: o homem deixa de ser relevante. "O problema está, mais cruamente, em que o escritor, regra geral, deixou de comprometer-se com o cidadão, e que muitas das teorizações em que se foi deixando envolver acabaram por constituir-se como escapatórias intelectuais, modos de disfarçar, aos seus próprios olhos, a má consciência e o mal-estar deste grupo de pessoas - os escritores – que, depois de terem se considerado a si mesmas como farol e guia do mundo, acrescentaram agora à escuridão intrínseca de todo o ato criador as trevas da renúncia e da abdicação cívicas"(p.118).
Vendo neste culto do narrador uma escapatória intelectual, Saramago propõe que a literatura dê maior visibilidade às pessoas. Só isto já seria mais do que suficiente para justificar os seus diários. O diário revela o homem Saramago, não como o reverso do escritor, mas como o homem/escritor, este ser indissociável. Ele não vê o escritor como um personagem, como uma criação intelectual, e sim como um ser vivo que adquire estatuto literário. Assim, o literário é um estado decorrente e revelador do real e não um mascaramento deste. Poderíamos até arriscar a dizer que não há diferença significativa entre os Cadernos de Lanzarote e os demais títulos do autor. Todos estão a serviço do homem. Este movimento de retorno ao autor é o mesmo movimento que buscou dar espessor humano tanto para a história (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa) como para o personagem de ficção criado por Fernando Pessoa (O ano da morte de Ricardo Reis). Neste livro, Ricardo Reis sai do mundo da literatura (onde se caracteriza por um programático abstencionismo) e penetra no mundo dos homens, para morrer como tal. Ele, ser sem corpo, se solidariza com a sofredora espécie humana. Alguém devia estudar as relações entre este romance e o filme Asas do desejo, de Wim Wenders.
Seus diários revelam ainda a precedência do humano no processo de gestação de seu mais recente romance: Todos os nomes, uma parábola sobre a imortalidade conquistada historicamente através da capacidade que o homem tem (e que muitas vezes acaba obliterada) de manter vivas, através da memória, pessoas que já se foram. Toda a busca do personagem de Todos os nomes, o escriturário José, um ser de essência autobiográfica, surgiu de um fato vivido por Saramago. Ele passou a desentranhar dos arquivos informações sobre um irmão morto no início da infância. O interesse pelo irmão deu origem a uma parábola (de caráter histórico e não religioso - que fique bem claro) em que ele propõe o interesse irrestrito por todos os seres humanos. Está aí não só a gênese da literatura de Saramago como também a razão de seu sucesso. Num período em que a maioria escreve a partir de uma concepção literária e artificiosa, ele se vale de suas vivências mais profundas, criando uma obra que encanta pela autenticidade.
É preciso ler os Cadernos de Lanzarote II perseguindo estas discussões e não atrás de exemplos de vaidade. Comecei este artigo dizendo que um diário é um cômodo íntimo de uma casa. A vasta produtividade do autor faz com que ele acolha muita coisa, transformando os cadernos numa espécie de quarto de despejo. No futuro, quando boa parte dos temas envelhecer, será preciso organizar este quarto, deixando apenas os móveis indispensáveis."

Este texto é publicado, respeitando o original do autor


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

João Alexandre Barbosa escreve sobre José Saramago "Até os limites da realidade" 06/12/1998)

Um texto do académico João Alexandre Barbosa

Pode ser lido e consultado em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1jab.html

"Até os limites da realidade" (publicado em 06/12/1998)

"Vejo agora que venho lendo a obra de José Saramago há muito tempo. A prova está na mistura de edições em que tenho os seus textos publicados por duas ou três editoras portuguesas e, a partir de uma certa época, a brasileira Companhia das Letras, que, para quem lê no Brasil, seguindo aquilo que é feito, do lado de Portugal, pela Editorial Caminho, veio dar uma certa ordem no caos editorial que costumam sofrer os escritores de língua portuguesa. 
E por aí se vê que, embora tenha começado como romancista desde 1947 com "Terra do Pecado", publicado pela Editorial Minerva, somente em 1977, com "Manual de Pintura e Caligrafia, da Edição Moraes, assume a identidade de romancista que, para o público mais amplo, atinge a sua plenitude com a publicação, em 1982 e já pela Caminho, do "Memorial do Convento". Duas consequências para a reflexão: durante 30 anos entregou-se ao jornalismo e à poesia (de que dão notícias os livros "A Bagagem do Viajante", "Os Apontamentos" e "Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria" e "O Ano de 1993", respectivamente) e somente há 21 anos vem escrevendo os romances que lhe conferem, sem qualquer sombra de dúvida, a posição de um dos melhores prosadores de língua portuguesa deste século que vamos terminando -e, para dizer a verdade, o plural só está aí pela existência anterior de João Guimarães Rosa. São dez romances: além dos já citados "Terra do Pecado", "Manual de Pintura e Caligrafia" e "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "A História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". E não é muito difícil estabelecer, desde logo, uma marca narrativa que, por assim dizer, articula a variedade ficcional de cada um: a presença forte de um narrador, quase sempre no limiar da dicção autobiográfica, que busca fixar, no patamar mais objetivo da história e da realidade circunstancial, as dissonâncias das experiências subjetivas de que a linguagem tem dificuldades em dar conta.
Neste sentido, o chamado romance histórico sofre, com Saramago, um desvio fundamental: a história circunstancial não lhe serve apenas para alimentar a imaginação, mas esta, por meio de pequenos e substanciais erros de leitura, como vai estar explícito naquele "não" introduzido pelo revisor de "A História do Cerco de Lisboa", cria uma complexidade de maior realidade, pois inclui no real histórico as dissonâncias da própria linguagem que é utilizada para a sua apreensão. O que, por outro lado, permite ou mesmo imanta a presença contínua de uma desconfiança de base para com os dados históricos, freqüentemente embaralhados pelo imaginário da linguagem. E como este, no caso de um romancista, está constituído, sobretudo, pelas fontes próprias da tradição narrativa, o chamado romance histórico, em Saramago, inclui necessariamente, e de modo solidário, a história do próprio gênero. Por isso, é possível dizer que, na esteira do que há de mais inovador na narrativa moderna e pós-moderna, o romance de Saramago é uma prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções operadas pela imaginação ficcional.
Quando, portanto, o próprio Saramago apontava Pessoa, Borges e Kafka como, para ele, os mais importantes escritores do século, estava sinalizando para aquilo de que a sua própria obra dá testemunho, isto é, quer para a multiplicidade de vozes ficcionais que está em Pessoa, quer para a realidade da ficção, como está em Borges, quer para a precisão do sonho e do imaginário de Kafka, tudo, no entanto, por assim dizer, sob a tensão de uma consciência dilacerante da linguagem. Veja-se, por exemplo, o modo pelo qual, no seu último romance, "Todos os Nomes", transmite ao leitor lugares e tarefas que constituem o espaço da grande sala da Conservatória Geral do Registro Civil e que serve de pórtico à narrativa:
"A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender ao público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá no fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos oficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato cotidiano.
A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo
a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato".
Eis, portanto, um traço estilístico de Saramago em sua essência:
os dados da realidade objetiva são expostos até os seus últimos limites, não obstante as interferências irônicas, para que então possa surgir o elemento de dissonância que se introduz pela movimentação final do trecho citado e que é sua decorrente: o erro, o abuso, a irregularidade ou a falsificação que transformam a rasura do nome num motivo de procura pelo nome que é o romance e que por aí faz o leitor retornar, mesmo que não o saiba, às fontes primordiais do gênero narrativo. Mas a busca pelo nome, que é também a da identidade, tudo envolve, desde aquele que busca até o objeto que se busca e, por isso, a história se confunde com as histórias individuais, sejam as do personagem Sr. José, sejam as deste romance que dialoga com as suas origens. Nascimento e morte, fichas hierárquicas da Conservatória, diapasões pelos quais se mede o pulsar da realidade, é o espaço e o tempo que são alterados e renomeados pela presença do erro que somente o imaginário da ficção foi capaz de provocar."


* João Alexandre Barbosa é professor aposentado de teoria literária da USP. Autor, entre outros, de "A Biblioteca Imaginária" (Ateliê Editorial).

sábado, 24 de janeiro de 2015

José Saramago "A Difícil Conversa" - escrito em 13/03/1986 para a revista Status (Brasil) enviado por telex

Por ocasião e assinalando o primeiro aniversário da abertura ao público, a Fundação José Saramago, colocou online este texto - A Difícil Conversa - agora com quase 30 anos.


A alusão ao progresso e à evolução das tecnologias, da escrita até à publicação de textos, no blog "Caderno", passando pela famosa "velha Hermes", máquina de escrever que pode ser apreciada na exposição da FJS.
O texto, que se transcreve, fala também, e muito, de relações e humanidades, deixa as suas preocupações e perguntas.  


Via Fundação José Saramago

"A Fundação José Saramago abriu-se ao público na Casa dos Bicos exatamente há um ano. Para assinalar este aniversário, as entradas são hoje gratuitas e a Casa fica aberta até às 20h00.
E para todos, em particular para os que não podem vir até a este novo espaço cultural da Lisboa histórica, aqui fica um texto de José Saramago, escrito em 13 de março de 1986 e enviado para a revista brasileira Status. Enviado por telex, tecnologia que na altura era muito avançada!"

(Imagem de telex escrito em 13 de Março de 1986 e enviado para a revista Status - Brasil)

"O progresso, dizia-me aquele amigo entusiasta, é o melhor que há. Estás, por exemplo, em Lisboa, e queres fazer chegar um recado a alguém que vive em São Paulo, Brasil. Se fosse aqui há duzentos anos terias de escrever trabalhosamente uma carta que atravessaria o Atlântico num barco à vela, metida em escuro porão, com risco de naufrágio, e então se perderia o negócio, ou a amada desesperaria por falta de notícias. Hoje é diferente: pairam na atmosfera uns mágicos objetos, chamados satélites, de cujo funcionamento não entendes, mas que por ares e ventos te transportam as palavras, entre telefone e telefone, em poucos minutos ficaste rico de dólares ou reforçado de sentimentos. E se, pela extensão do discurso ou sua complexidade, dúvidas que haja, embaraços na receção, tens ao teu alcance esse outro invento, o telex, que alinhará no destino, e por claro, ordens, projetos e afetos, como se os teus próprios dedos, invisíveis, fossem datilografar a mensagem a oito mil quilómetros de distância. Graças ao progresso, remata o meu amigo, a comunicação é fácil, imediata, instantânea.

Será? A pergunta exprime algum ceticismo, leva aquele trejeito de lábios de quem, por já ter vivido tanto, está de entusiasmo arrefecido, o que, apresso-me a acrescentar, não significa uma descrença radical nas virtudes da comunicação, apenas consciência do relativismo de todas as coisas, a começar por essa. Vejamos: que tem a dizer, com utilidade suficiente, um escritor português aos leitores brasileiros, separados, ele e eles, por um mar oceano e por mil acrescentadas dificuldades de navegação que não encontram compensação na comum língua e no seu aparente manejo comum? E quando aqui se escreve leitor brasileiro, que leitor é esse e de que Brasil? E se o escritor português falar do seu próprio país, da vida do povo a que pertence, da cultura que herdou e deseja ajudar, até que ponto interessa tudo isso a potenciais leitores que vivem num certo lugar do Brasil, pertencem a uma certa camada social e possuem um certo grau de instrução e educação? Mais ainda: tem o tal escritor português o direito de dirigir-se a esses leitores, se deles tão pouco ou mesmo nada sabe, como nada ou pouquíssimo nada da vida profunda da terra brasileira, provavelmente insondável para os seus próprios naturais? Porque, em verdade, que conhece do Brasil o escritor português, este? Esteve em São Paulo, para onde o recado vai, no Rio de Janeiro, em Santos e Campinas, em Belo Horizonte e Ouro Preto, a volta ao mundo. E a quem conhece? A outros escritores, a jornalistas, a professores universitários. Porém, não conhece o povo brasileiro, nem sequer a pequena parte dele que compra revistas e as folheia, que compra livros e os estima. Em Portugal, mais ou menos, o escritor conhece os leitores que tem. Dos leitores que no Brasil tiver ignora tudo.

Esta conversa é, pois, difícil. Porque uma outra questão não pode ser ocultada: para muitos brasileiros Portugal é um país do passado, e os portugueses, mesmo de novíssima geração, são todos bisavós e trisavós, talvez enternecedores, mas a quem não se deve levar muito a sério, porque com a idade vão treslendo e não compreendem o mundo em que ainda vivem. Claro que não se levam às costas oito séculos sem que os joelhos verguem um pouco, mas essa ideia de um Portugal reserva histórica e museu da língua não favorece o encontro nem o diálogo, numa palavra, não serve a comunicação que a tecnologia totalizou e globalizou. Quer dizer, não é por muito comunicar que melhor se comunica, ou então, diz-me o que comunicaste e eu te direi se vale a pena.

Do futuro destas crónicas serão julgadores e sentenciadores os que as lerem, mais ainda do que eu que as escrevo e de quem me convidou a escrevê-las. Convite e aceitação dele são, de certa maneira, questões de patrão e empregado, primeiro e segundo tempos de uma ação. O que realmente conta e importa é o que virá depois: o leitor e o seu juízo. O autor destas linhas não se decidiria a escrever numa publicação brasileira por motivos apenas materiais ou, se posso autorizar-me a palavra, de prestígio. De vozes que pregaram no deserto encheu-se a transbordar a história das relações entre Brasil e Portugal. Não é possível reprimir um sentimento de melancolia quando damos balanço aos mal-entendidos, aos equívocos, às atitudes intempestivas, às incongruências, e também aos oportunismos, aos truques e habilidades com que, de um lado e doutro, se tem tecido a capa rota dessas relações.

Mas também não se pode esquecer o que ainda existe de fé verdadeira, de amizade sem portas falsas entre tantos portugueses e brasileiros que conservam a esperança de uma fraternidade assente no conhecimento leal, na mútua compreensão, na vontade sincera de viver juntos vivendo cada um em sua casa. É a esse conhecimento, a essa compreensão, a essa vontade que estas crónicas querem servir. Pelo tempo e mérito da sua utilidade. Nem um segundo mais, nem uma palavra a mais."