Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 18 de janeiro de 2020

12 a 17 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

12 de Janeiro
(...) "Primeira participação no programa da RDP O Mundo de..., para que Adelino Gomes me convidou em Novembro do ano passado. Voltarei de cinco em cinco semanas,decidido, como sempre, a não dizer o que não penso..."

13 de Janeiro
"Pastelaria Versalhes. Enquanto almoço, entretenho-me a pensar nos enredos do livro que ando a ensinar a andar, este Todos os Nomes por enquanto bastante inseguro de pernas, quando uma palavra repetidamente dita numa mesa próxima começou a romper a muralha de abstracção em que me tinha envolvido e a empurrar o estaleiro do romance para fora da área dos cuidados imediatos. A palavra era «universo»" (...)

17 de Janeiro
"Hoje, em Lanzarote, lendo o jornal, enquanto tomava o sol no terraço, tive noticias do Universo, aquele cujo nome costumamos escrever com a letra inicial maiúscula para não fazer confusão com o da Pastelaria Versalhes. Dois cientistas da Universidade do Michigan, Fred Adams e Greg Laughlin, afirmam que acabará dentro de um numero de anos definido por 154 zeros (...) Pressinto que não viverei tanto..." (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre o seu livro de memórias a Adelino Gomes

(...) "Eu considero que, se não somos a criança que fomos, 
pelo menos a criança que fomos gerou a pessoa que somos." (...)
Entrevista de Adelino Gomes a José Saramago (17.11.2006 - Mil Folhas)

sábado, 19 de março de 2016

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites" - Adelino Gomes entrevista José Saramago (Público - 27/05/2002)

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"
Adelino Gomes entrevista José Saramago - Público (27/05/2002)

A entrevista pode ser recuperada e consultada, aqui
em, http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/entrevistaAnoMorteRicardo.htm

"O livro está editado em 22 países. Em Portugal, vendeu quase 100 mil exemplares. Para muitos leitores, é o melhor romance de José Saramago. O autor acha que com ele tocou "o tecto". E chegou a Pilar, a jornalista espanhola, hoje sua mulher. Com o PÚBLICO, chegaram hoje às bancas mais 90 mil exemplares, no segundo livro da colecção Mil Folhas, vendido juntamente com o jornal a 5 euros.

José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah.


Contou, em mais do que uma ocasião, que o título "O Ano da Morte de Ricardo Reis" lhe surgiu num hotel, em Berlim. Pode especificar?
Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos.
Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil.

E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
Talvez "História do Cerco de Lisboa".

E o de mais rápida elaboração?
"A Caverna".

Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa.

Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está...


Frases

Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor...

Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro.

"O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele...

Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram.

Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

(...) Não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin...

Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar.

Não sei se ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"] é o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Entrevista de Adelino Gomes a Carlos Fuentes - «Divara é uma ópera estremecedora» (Público, 28/07/2001)

Adelino Gomes, entrevista Carlos Fuentes - "Público", publicado em 28 de Julho de 2001
Link, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/divara-e-uma-opera-estremecedora-160260

Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Belisario Betancourt, José Saramago 
e Eloy Martínez (foto Victor Serra, 2004)


"Divara é uma ópera estremecedora"

"É diplomata, professor em Harvard e escritor consagrado (prémios Cervantes, Príncipe das Astúrias, Picasso, entre muitos outros). Acaba de entregar à editora francesa Grasset o original de um novo livro, onde fala de tudo - da política, da religião, do sexo, da família, da globalização. Carlos Fuentes, 72 anos, é também um apaixonado de ópera. De férias por uma semana em Portugal, onde veio pela primeira vez nos anos 50, o "Público" descobriu-o esta segunda-feira, no Teatro Luís de Camões, em Lisboa, no espectáculo de encerramento da temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos. Ao lado de José Saramago, o escritor mexicano assistiu, entusiasmado, à última representação da ópera "Divara - Água e Sangue", de Azio Corghi, baseada na peça "In Nomine Dei", que o Nobel português escreveu a pedido do Teatro de Münster, em 1993.

Carlos Fuentes, refere:
«É emocionante, estremecedora. Não faz concessão nenhuma. Nem lírica, nem romântica. Há uma coincidência total, uma fraternidade bárbara entre o tema, a música, a interpretação. Não se separam em nenhum momento: a representação não se separa do tema, a música não se separa do tema, e este não se separa da música, de modo que fazem uma unidade perfeita sobre a cegueira, a intolerância que caracterizou a história dos homens. Temos um lado de luz e um lado obscuro e quando este lado aparece é realmente a noite que aparece.»

P - A acção desenrola-se no século XVI. Acha que tem actualidade?
R - A violência é sempre actual. A imposição de dogmas é actual. Tudo coisas que é bom ir recordando para que não se repitam, embora, na verdade, se repitam. 

P - E a figura da mulher, nesta ópera?
R - São os seres mais poderosos. Quatro mulheres estão sentadas no final e são como uma coluna, o centro do universo nesse momento.

P - Já conhecia a peça?
R - Sim, claro.

P - O espectáculo corresponde à leitura que fez da peça?
R - É perfeito.

P - A reacção do público hoje [como na representação anterior] não foi muito calorosa...
R - Nem podia ser. Não se enfrentam acontecimentos como estes facilmente. Não se lhes pode responder como se responde à "Madama Butterfly"...

P - É amante de ópera. Qual foi a última a que assistiu?
R - Tive o enorme gosto de ver num espaço de dois meses, imagine, no Metropolitan de Nova Iorque e em Glyndebourne, Inglaterra, a ópera "O Caso Makropulos" do [compositor checo Leos] Janacèk [apresentada em Portugal na Lisboa 94]. Em duas interpretações diferentes. Uma grande experiência. Antes desta...

P - Está de férias em Portugal?
R - Sim, vim com a minha mulher. O embaixador do México [escritor José María Pérez Gay, de quem acaba de sair no México "Tu nombre en el silencio", Leon y Cal editores] é um velho amigo nosso e não podíamos perder a oportunidade de ver Saramago, Pilar e a ópera.

P - É a primeira vez que vem de férias a Portugal?
R - O meu pai foi embaixador do México aqui, nos anos 67, 68. E antes já cá tinha estado. Foi a primeira cidade europeia que conheci. Vim directamente para aqui, nos anos 50. Impressionou-me esta extraordinária mescla do mundo mediterrâneo, árabe, lusitano. Ela mostrou-me desde o primeiro momento uma Europa já mestiça, nesses anos 50. Tenho muitas recordações de Portugal, muitas leituras.

P - Essa Lisboa dos anos 50, reencontrou-a agora?
R - O perfil urbano sim, mas felizmente a situação política mudou. Esta ópera não podia ter sido representada sob Salazar. Havia sempre um censor sentado a ver o que se ia dizendo e representando. Nós riamo-nos, os intérpretes riam-se dele, ele ria-se um pouco, era de certo modo uma ditadura branda. O país mudou.

P - E a cidade?
R - Mal acabo de chegar, não a vi ainda. Sinto que há um perfil novo, moderno, mas parece-me que a cidade de sempre está aí. Essa Lisboa antiga não desapareceu, felizmente.

P - O que vai fazer durante estas férias em Portugal?
R - Ler, apanhar sol, nadar. Acabo de terminar um livro.

P - Como se chama?
R - É um livro de uma série francesa, da editora Grasset, chamada "Ce Que Je Crois". Iniciou-a François Mauriac, há 40 anos. O escritor diz o que pensa, naquilo em que crê.

P - Religião, política, globalização?
R - Fala-se de tudo: literatura, sexo, família, filhos, política. Fi-lo por ordem alfabética - amizade, amor, Balzac, beleza, Buñuel, ciúmes. Também globalização...

P - O que diz da globalização?
R - Que ela está aí. E que não vai desaparecer. O desafio é convertê-la em algo que sirva o ser humano. Não que o esmague e o aliene, como está a fazer. O Renascimento foi globalização. E o descobrimento da América. Vasco da Gama foi um globalizador. Faz parte de um fenómeno que temos que dominar. Não está sujeito à política, não está sujeito a leis e isso é o que a faz tão ameaçadora. É um mercado tão desbocado que não tem nenhum limite, nenhuma lei que o domine. (...)

P - O que disse a José Saramago no final do espectáculo?
R - Que intensidade! Que intensidade!..."

Por Adelino Gomes, publicado no "Público" a 28/07/2001

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância" - Texto de Adelino Gomes (Público, 12/11/2006)

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância"

Texto de Adelino Gomes, publicado no jornal Público, em 12 de Novembro de 2006

Aqui, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/o-homem-a--quem-roubaram--as-oliveiras--da-infancia-106925



"Vamos! Vamos!", diz, poucos minutos após a primeira paragem.
Foi ele quem chamou a atenção para a curva do rio. Um carro desviara-se da estrada principal. Preparamo-nos para esclarecer as razões da inusitada incursão de um casal entre uma e a outra estreita margens, mas o escritor Nobel mostra-se impaciente. Tem pressa de chegar à Azinhaga, a terra onde nasceu. 
O que vê, porém, à medida que avança o carro - no qual viajam, além dele próprio, José Saramago, a mulher, Pilar, o fotógrafo espanhol Jose Manuel Navia e este jornalista do PÚBLICO - deixa-o inconformado. 
- Aqui havia oliveiras - começa por constatar. - Roubaram-me as minhas oliveiras! - protesta, por várias vezes, à medida que desfila aos nossos olhos a interminável, monótona paisagem, nua de árvores.
- Olhem para estes campos [de milho transgénico]. Aceitaram as indemnizações que a CEE ofereceu e agora temos isto, tudo igual...
Iniciámos a peregrinação a pé pela aldeia. Quase nenhuma emoção perante o lugar em que outrora se ergueu a casa natal. Está guardada para mais à frente, no que resta da casa que foi dos avós maternos.
Pilar acha que deve comprar o espaço. Não parece ser essa a sua ideia
Desfia recordações para o fotógrafo espanhol, que pretende ilustrar, com imagens desta peregrinação, o texto que a revista de domingo do El Pais lhe vai dedicar, na série com grandes escritores mundiais deste Verão de 2001. 
Os locais gostam de lembrar que a aldeia, administrativamente situada no concelho da Golegã, tem foral desde D. Sancho II e que é a mesma a que, antes da fundação de Portugal, chamavam Santa Maria do Almonda. Características edificações na rua principal constituem a prova de que ali se ergueram, a partir do século XII, palácios, solares, igrejas e capelas, o mesmo será dizer, "ali se foi construindo um país". 

(Estátua de José Saramago, na Azinhaga)


A Azinhaga foi, nos célebres concursos salazaristas de António Ferro, a "aldeia mais portuguesa do Ribatejo". O contacto com os toiros, nas fainas do campo, fez da raça de maiorais desta terra "de lezírias e espargais", pelo saber, os mais famosos campinos das terras da Borda d"Água, diz uma nota do rancho folclórico "Os Campinos da Azinhaga", lida durante a breve paragem para almoço.
Não foi para estas divagações, contudo, que José Saramago se deslocou de Lisboa. Sobe, e nós com ele, ao campanário da igreja. Dá um beijo a uma prima, encontrada na rua. Ruma ao Paul do Boquilobo, para onde gostava de ir, em longas viagens de dias, e para onde - torna-se claro nos gestos, nas recordações, na insistência em ir até onde o carro pode chegar - não se importava nada de partir agora mesmo em nova aventura. Boquilobo, oferecida, depois da crise de 1385 por D. João I a João das Regras com a legenda "Melhor lhe dera se melhor houvera".
Passados cinco anos, estas recordações tomam a forma de livro - As Pequenas Memórias (Editorial Caminho) - que aqui mesmo vai ser lançado, em cerimónia de ressonância internacional, na próxima quinta-feira, 16, num regresso simbólico aos lugares da infância e adolescência do escritor, na aldeia ribatejana. 
Casas, oliveiras, arbustos, dois rios, um pântano. Que importa que deles só restem os dois últimos? Que tenha desaparecido sob um monte de escombros a casa que foi a pobríssima morada dos avós maternos de quem os leitores já sabem os nomes, desde o discurso de aceitação do Nobel da literatura, em 1998 (Josefa e Jerónimo se chamam, este último, analfabeto, "o mais sábio dos homens" que Saramago conheceu)? Que importam os estragos do prémio da CEE sobre os olivais desaparecidos?
A cada instante, José levantará as paredes da casa branca, plantará as oliveiras, fechará o postigo da porta e a cancela do quintal e dirá: "Avó, vou por aí dar uma volta", e ouvi-la-á responder: "Vai, vai", meterá "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge", pegará num pau para qualquer mau encontro canino e partirá para uma das quatro partes em que o universo se dividia então para a criança "melancólica", para o adolescente "contemplativo e não raro triste" que era ele: o rio, "os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado", a mata de tramagueiras, faias, freixos e chopos que ladeia o Tejo, um pouco à frente da confluência com o Almonda, ou o Paul do Boquilobo, "um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso". 
Tudo nítido setenta anos depois - paisagem, gentes, afectos -, numa revisitação através do "poder reconstrutor da memória". E da literatura. 

Adelino Gomes

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Adelino Gomes entrevista José Saramago, para o jornal "Público" em 29/05/2002

"Escrevi o romance para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites"

(Semear palavras pelo campo,
já não cavará por entre os torrões de terra seca,
os homens que fecharam a água a montante,
jamais abrirão as suas comportas erguidas,
a juzante urge uma nova fonte,
eterna esperança para alimentar o horizonte vindouro
fazer brotar novos rebentos
que de fortes caules
que de altos troncos,
possam abraçar melhores sombras.
Semear palavras pelo campo,
para que alguém as possa ler de novo)




Aqui, pode ser consultado através do link,
em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/escrevi-o-romance-para-resolver-o-choque-entre-uma-admiracao-e-uma-rejeicao-sem-limites-171041

Por Adelino Gomes, para o caderno Ipsilon, do jornal Público, em 29/05/2002

"José Saramago, 79 anos, acabara de regressar a casa, na ilha de Lanzarote, após mais uma das longas viagens e respectivo cortejo de compromissos que a concessão do Nobel só veio aumentar. As datas das próximas passagens por Portugal não coincidem com os prazos editoriais. Na impossibilidade de uma entrevista frente a frente, combina-se uma sessão de perguntas e respostas via Internet. Com direito a "repique", por parte do entrevistador. O tema é o livro que hoje o PÚBLICO distribui aos seus leitores. Mas Saramago aceita uma digressão pela polémica israelo-palestiniana, em que se envolveu após ter invocado Auschwitz quando se encontrava em Ramallah. JOSÉ SARAMAGO - Passaram mais de 20 anos, não recordo o nome do hotel, se alguma vez o fixei. E não se tratou de um congresso, mas de um grupo viajante, daqueles que a Associação de Amizade Portugal-RDA organizava. Calhou-me ser o "porta-voz" da delegação, o que significou ter a meu cargo os discursos de agradecimento em todos os lugares e instituições que visitámos. Foi no final de um desses dias que a "coisa" aconteceu. Tinha visto em Lisboa um filme ("Anno Domini" não sei quantos, não recordo o nome do realizador) e, não sei porquê, ele veio-me à memória quando entrei no quarto do hotel. Sentei-me na cama para descansar um pouco, deixei-me cair para trás e, nesse momento, "caíram-me" do tecto as palavras "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Tinha publicado poucos meses antes "Levantado do Chão" e esta era a primeira ideia que me surgia para um novo livro. A ideia do "Memorial do Convento" veio depois. Se me perguntarem porque não os escrevi pela ordem de "nascimento", direi que me assustou o que os "pessoanos" iriam dizer da presunção deste adventício. O "Memorial" deu-me forças e confiança para arrostar depois com aquele Adamastor..."


(José Saramago com Eduardo Lourenço)


"P - É verdade que lhe acontece muitas vezes ter o título antes de escrever uma única palavra do livro?
R - Quase sempre. O Memorial esteve para chamar-se simplesmente "O Convento", mas como Agustina Bessa-Luís tinha publicado "O Mosteiro", achei que devia arredondar o título para não parecer que andava a inspirar-me em títulos alheios. Quanto a romances que começaram pelo título, são eles, por exemplo, "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "A Caverna" e este em que estou a trabalhar, "O Homem Duplicado".

P - Mas para aparecer um título deve haver antes uma ideia geral para a qual ele remete. Por exemplo, "Todos os Nomes" tem relação com uma busca de dados que andava a fazer sobre o seu irmão Francisco de Sousa, morto aos dois anos. 
R - Alguns títulos, de facto, propõem imediatamente o que chama "uma ideia geral" da história. Não é, porém, o caso de "Todos os Nomes", que me apareceu num avião que me levava a Brasília. Já íamos a pouca altura, eu olhava a paisagem lá em baixo e de repente saltaram-me dentro da cabeça aquelas três palavras. Perguntei a mim mesmo que diabo quereria aquilo dizer e pensei que, tendo escrito um romance - "Ensaio sobre a Cegueira" - em que nenhuma personagem tem nome, poderia agora tentar outro em que apareceriam "todos os nomes". Uma espécie de contraponto. A ligação à busca de dados sobre o meu irmão Francisco em que andava empenhado deu-se algum tempo depois. Estava em Amherst, no estado norte-americano de Massachusetts, hospedado em casa do professor José Ornelas, e foi aí que se me desenhou na mente a história do funcionário do Registo Civil. 

P - E quanto a "O Ano da Morte de Ricardo Reis"? Andava às voltas com Pessoa? 
R - Directamente, não andava às voltas com o Fernando Pessoa, mas todos nos lembramos que por aqueles anos (cinquentenário da morte, centenário do nascimento) era o Pessoa que andava às voltas connosco...

P - Começou a escrever o livro logo a seguir? Quanto tempo lhe levou? Esse tempo foi superior ou inferior ao normal? 
R - O Ricardo Reis teve de aguardar na fila que eu me livrasse do "Memorial", sobrou-lhe portanto a espera para chegar maduro ao momento de principiar a ser escrito. Creio que o trabalho de escrita não me ocupou mais de nove meses. Aliás, é esse, pouco mais ou menos, o tempo de que necessito para pôr um romance em pé.

P - Como concilia as exigências da editora (e dos leitores) com os eventuais caprichos da inspiração?
R - A minha relação com a Editorial Caminho não é desse tipo. Eles respeitam o meu trabalho, eu respeito o trabalho deles. Os prazos fixo-os eu a mim mesmo, não eles. E se alguma vez me atrasei na entrega de um original, foram bastante compreensivos para aceitar sem reserva as razões por que isso tivesse sucedido. Quanto aos leitores, não têm eles mais remédio que esperar pacientemente. Ou impacientemente, o que será melhor ainda...

P - Qual foi o livro que lhe levou mais tempo a escrever?
R - Talvez "História do Cerco de Lisboa".

P - E o de mais rápida elaboração?
R - "A Caverna".

P - Lembra-se do seu primeiro contacto com o heterónimo de Fernando Pessoa Ricardo Reis?
R - Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista "Athena" em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa. 

P - Um espectador da vida, Ricardo Reis é, talvez de todos, o heterónimo com o qual José Saramago se identificará menos. Porquê então este privilégio que lhe concede ao fazê-lo "herói" do seu livro?
R - Quando mais tarde avancei no conhecimento de toda aquela "gente" - foi muito importante para mim a antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro, cuja segunda edição, a que tenho, saiu em 1945 - e sobretudo comecei a penetrar mais profundamente no espírito do Reis, achei-me diante de algo que quase por instinto rechaçava, aquela sua ideia de que a sabedoria consiste em contentar-se cada um com o espectáculo do mundo... Pensava já então, e continuo a pensá-lo, que se a alguém o espectáculo do mundo contenta, ao menos que tenha a decência de não chamar sabedoria a essa atitude. Direi que "O Ano da Morte de Ricardo Reis" foi precisamente escrito para mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo (de Portugal também) e perguntar-lhe se continuava a considerar sabedoria a mera contemplação dele... Foi portanto para resolver o choque entre uma admiração sem limites e uma rejeição sem limites que escrevi o romance.

P - O próprio Fernando Pessoa pode dizer-se que esteve nos antípodas daquilo que José Saramago defende. Tanto no seu percurso pessoal como nas intervenções que ele foi fazendo na vida cultural e política do país. A sua admiração por Pessoa faz esse "distinguo"?
R - Todos sabemos que Fernando Pessoa dá para tudo. Se quisermos viver em paz com ele, teremos de o aceitar como foram. Mas realmente é difícil suportar com serenidade certas afirmações suas, como aquela de que a escravatura, afinal, não era um sistema assim tão mau...

P - Já agora, o mesmo quanto ao Padre António Vieira, cultor da língua, defensor dos índios e visionário do Quinto Império?
R - Provavelmente, para o Padre António Vieira, as visões de um Quinto Império não passaram de uma manha política (digo "manha" no melhor sentido da palavra), hoje sem particular significado, salvo para alguns "iluminados" que ainda imaginem por aí grandiosos futuros para Portugal. Quanto ao Quinto Império pessoano, esse era puro teatro. Não se vê que diabo de espiritualidade "futurante" poderia ter ele encontrado na modorrenta Lisboa dos anos 30...

P - Da sua lista de autores preferidos, constam outros escritores em que o fascínio pela obra literária não acompanhe a admiração pela pessoa? Pode especificar?
R - Falando de autores portugueses, confesso que não consigo ler aqueles a quem ao mesmo tempo não estime e respeite como pessoas. Sou menos exigente se se trata de autores estrangeiros.

P - Tem consciência de que esse é o "drama" de numerosos fãs da sua obra, que não o acompanham nas suas opções políticas e a quem nalguns casos essas opções repugnam até?
R - Se me lêem apesar de as minhas opções políticas lhes repugnarem (outra coisa seria se lhes repugnasse a pessoa que as tem), então o "drama" não é assim tão grande...

P - Alguma vez pensou em moderar a sua militância no terreno, de forma a alargar ainda mais a base de apoio literário de que goza no mundo, sobretudo a partir do Prémio Nobel?
R - A minha base de apoio literário nasceu simplesmente daquilo que escrevo, não de uma estratégia de autor ou de uma dosagem de ingredientes narrativos supostamente "abrangentes", para usar um termo do calão político. Moderar aquilo a que chama "a minha militância no terreno" para alargar ainda mais a dita base de apoio seria um cálculo indigno. Quem me quiser, terá de aceitar-me tal qual sou. Quanto aos outros, que vivam tão bem sem mim como eu vivo sem eles.

P - Disse uma vez numa entrevista: "Eu estou nos meus livros." Como explica que numerosos leitores (como se viu agora em Israel) adiram aos seus livros entusiasticamente mas reajam tão fortemente a posições políticas públicas suas?
R - Alguns críticos literários de Israel disseram que eu escrevi "Ensaio sobre a Cegueira" pensando no Holocausto e era voz corrente que um dos meus livros, suponho que o mesmo, havia sido lá escrito... Nada disto era verdade, simplesmente era o lado imaginário de uma relação privilegiada entre leitores e autor que se estabeleceu em Israel e que nunca alimentei de caso pensado. De certa maneira, consideravam-me um deles. Mesmo que para isso tivessem de saltar por cima de alguma interpelação minha, como aquela que sobre o conflito israelo-palestino se pode ler no "Evangelho segundo Jesus Cristo" (pp. 210-211 da edição portuguesa) e cuja parte final aqui deixo: "Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba." Nestas últimas palavras ("lho reconheçamos") está o nó da questão: Israel não reconhece o direito dos palestinos a viverem na sua própria terra, mas os judeus que leram aquilo fizeram de conta que não era nada com eles...

P - Acha que a sua opinião sobre a situação palestiniana vale a perda de milhares de leitores israelitas dos seus livros?
R - Ai de mim se quando vou dizer ou escrever alguma coisa começasse por pensar se com isso irei vender mais ou vender menos livros... Em Março venderam-se em Israel 3000 exemplares de "Todos os Nomes", em Abril, depois das minhas declarações em Ramallah, apenas 280. A conclusão é fácil: 2720 leitores andavam equivocados a meu respeito, 280 sabiam quem eu era. Estes são os que me importam.

P - Não o impressiona o argumento daqueles que lembraram que os seus leitores se encontram em Israel e não na Palestina?
R - É um argumento estúpido e mesquinho, que denuncia uma mentalidade de avaro. A Israel não falta dinheiro para comprar livros, mas eu não me vendo a quem compre os meus, seja quem for e onde quer que esteja. Em todo o caso, que não se preocupem, estou traduzido ao árabe e alguns dos livros que escrevi circularão certamente na Palestina. É mesmo muito possível que um exemplar desses se encontre soterrado sob os escombros de Jenin... 

P - Já agora, tendo em conta o seu recente artigo "Das pedras de David aos tanques de Golias" (na imprensa internacional e no PÚBLICO de 03-05-02): reconhece que foi excessiva a comparação histórica que fez com a situação que prevalecia em Ramallah durante o cerco israelita? 
R - O meu artigo não retira nada às declarações que fiz em Ramallah. É simplesmente outra visão do problema. Se a denominada comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse na Palestina, teria de informar que não comparei os factos de Ramallah aos factos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao espírito de Ramallah... Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o prof. Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeo-nazi) não fez depois mais que confirmar. E se ainda há por aí quem tenha dúvidas, que consulte o "plano de paz" que Sharon levou a Bush para aprovação. Nele se contempla o reconhecimento de um Estado palestino sem capacidade militar e com o território reduzido, em que se criarão zonas de segurança para separar fisicamente israelitas e palestinos. O "plano" prevê um acantonamento permanente de tropas nos territórios palestinos, grades, vedações electrificadas e portas de acesso, como as que actualmente separam Gaza de Israel. Não é preciso ser um lince de inteligência para perceber que a aplicação de um tal "plano de paz" transformará definitivamente o chamado território palestino num enorme campo de concentração...

P - Voltando ao livro. Que métodos seguiu para reconstituir o ambiente de Lisboa naquele período (segunda metade dos anos 30), para além da consulta de jornais da época, abundantemente citados? Foi aos locais para melhor os descrever (Hotel Bragança, Cemitério dos Prazeres, etc.)?
R - Apesar de ter apenas 13 anos em 1936, a minha lembrança do ambiente geral da cidade naquela época mantém-se bastante viva. Essa lembrança foi o pano de fundo de que me servi para fazer representar as minhas personagens. Mas, tal como refere, a substância dos factos colhi-a nos jornais, principalmente "O Século", pelas características populares que sempre o distinguiram: enquanto o "Diário de Notícias" afirmava ser o jornal de maior tiragem, "O Século" desforrava-se dizendo ser o de maior circulação... Não só visitei o Hotel Bragança, na Rua do Alecrim, como escolhi o quarto - o 201 - em que iria alojar-se Ricardo Reis. Aos Prazeres fui também, claro. O resto teve de resolvê-lo a imaginação.

P - E quanto às personagens? Por exemplo as duas mulheres, Lídia e Marcenda, sendo figuras literárias [das "Odes" de Ricardo Reis], onde foi buscar o corpo e os tiques que lhes deu?
R - Marcenda não é uma "personagem literária" de Reis, não é sequer um nome feminino com presença nos vocabulários onomásticos. A palavra aparece na ode "Saudoso já deste Verão que vejo" designando uma rosa emurchecida. Achei que estava a carácter com a "minha" personagem. Quanto a Lídia, uma vez que me tinha proposto mostrar a Ricardo Reis o espectáculo do mundo, pensei que seria uma boa partida dar a uma criada de hotel o nome de uma das suas quase incorpóreas musas...

P - O lançamento deste livro pelo PÚBLICO vai fazê-lo chegar a muita gente que de outra forma não o leria. Tendo em conta que entre os seus novos leitores se deverão encontrar muitos estudantes, que leituras lhes aconselharia a fazer para melhor compreenderem a história?
R - A leitura que eu próprio fiz, a da imprensa da época. Aprende-se muito a ler jornais 50 anos depois de terem sido publicados...

P - Foram vários os prémios atribuídos a "O Ano da Morte...". Qual a importância de que se revestiu, para si e para a sua "carreira", ter sido o Prémio de Ficção Estrangeira do diário britânico "The Independent", num ano, 1992, em que concorriam, entre outros, livros de Gunter Grass e de Ismail Kandaré?
R - É fácil de imaginar se se souber que eu trabalhava nos Estúdios Cor quando esta editora, no princípio dos anos 60, publicou "O Tambor" de Gunter Grass. A publicação de "Terra do Pecado", em 1947, não tinha feito de mim um escritor, e "Os Poemas Possíveis" só seriam publicados em 1966. Literariamente, portanto, não existia. Ganhei em 1990 o prémio de "The Independent" em competição com Grass e, como se isto não fosse bastante, dão-me o Nobel antes de o darem a ele. É caso para dizer que não há justiça neste mundo...

P - Refere-se muitas vezes, nos "Cadernos de Lanzarote", à grande quantidade de leitores que tomam a iniciativa de lhe escrever ou de o interpelar de viva voz sobre os livros que escreve. Qual o lugar de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nas preferências confessadas dos seus leitores?
R - Não faltam leitores que consideram ser "O Ano da Morte de Ricardo Reis" o meu melhor romance, mas não se me peça que concorde com eles, uma vez que iria contrariar aqueles outros leitores que, por razões não menos pertinentes, defendem outras preferências.

P - Qual o lugar dele na sua lista pessoal da obra escrita até agora? Porquê?
R - Apenas direi que nada poderia consolar-me se por alguma arte diabólica o "Ricardo Reis" desaparecesse da minha bibliografia. Não sei se é ele o melhor dos que escrevi, mas sei que pelo menos dessa vez toquei o tecto. E toquei algo mais, se se me permite uma nota pessoal: foi "O Ano da Morte de Ricardo Reis" que nos juntou. Refiro-me a Pilar, claro está..."

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Adelino Gomes e a reportagem "O nó na garganta do aprendiz" - Entrega do prémio Nobel (8/12/1998)

Reportagem sobre a entrega do prémio Nobel em 1998, realizada por Adelino Gomes e Alexandra Lucas Coelho, para o jornal Público.
Publicada em 8 de Dezembro de 1998




"O nó na garganta do aprendiz"

"O garoto da Azinhaga que "andou sempre descalço até aos 14 anos" terminou ontem a sua conferência de Nobel com a Academia a aplaudi-lo de pé: "Obrigado mestre. "A ele, que se apresentou como "aprendiz" num discurso quase íntimo por dentro da infância e dos livros. Comoveu e comoveu-se. Mas não deixou em sossego a Igreja, a Europa e os "poderosos do mundo”.
“Mestre Saramago, aqui, aqui!" Cercado de gente que assim o chama, José Saramago sorri, tentando corresponder aos acenos, às perguntas, aos pedidos de autógrafos, mãos ocupadas a assinar o seu nome de Nobel da literatura de 1998 nos livros que lhe, vão dando e nas cópias do texto que acaba de ler, emocionado perante a Academia Sueca — o discurso em que se define como aprendiz desses "mestres de vida" que foram os seus avós e, "essas dezenas de personagens de romance e de teatro", de repente vivas, a desfilar ali.

"Obrigada mestre", justamente assim lhe agradeceu Sture Allén, secretário permanente da Academia Sueca, mal Saramago terminou e a sala rompeu a aplaudi-lo, de pé. Demorou 45 minutos a comovente viagem de papel que o escritor partilhou com as centenas de pessoas que se juntaram às 17h30 (hora local) de ontem no salão de um velho palácio de Estocolmo, que já foi da Bolsa e agora é sede da Academia.

Lá fora era noite escura e nevava. Lá dentro um homem de 76 anos, em pé num pequeno estrado, rodeado de estátuas de gesso e lustres dourados, de frente para a mulher amada, Pilar, folheou uma a uma as 15 páginas de um discurso como a Academia Sueca não se lembra de ter ouvido, quase íntimo na memória da infância, quase mágico no súbito aparecimento de todas as suas personagens, como se a uma única, longa, história pertencessem, encadeadas, umas dando origem às outras, e ao que o autor foi sendo. Como se num fim de tarde de uma cidade escandinava precocemente anoitecida algo, dentro de Saramago e do que ele escreveu, se iluminasse para revelar. um sentido, um fio, um fim.

"Foi vivido." Erik Lorinroth, o mais antigo membro da Academia Sueca não encontra melhor palavra para resumir ao PÚBLICO o que acaba de ouvir, depois de 46 anos a escutar 46 prémios Nobel da Literatura, nesta mesma sala, "Foi maravilhoso. Cada discurso é muito diferente do outro, mas este baseou-se muito na própria vida do premiado.”



Expõe-se assim um romancista perante o mundo, a lembrar o tempo em que andava descalço na aldeia, "sempre descalço até aos 14 anos", em que ajudava o "avô Jerónimo nas suas andanças de pastor", e ia com a avó Josefa pela madrugada ambos "munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado", esse tempo em que "nas noites quentes de Verão, depois da ceia", seu avô dizia "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira" e iam, e "enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos" que o avô contava, "lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias" que e mantinham desperto.

José Saramago, na sua tribuna de Nobel: "Nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência mundo." Porque esse avô "deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras". E é neste momento que a voz do neto treme, tantos anos passados sobre o tempo da figueira, à beira das lágrimas numa sala solene que o escuta, em silêncio, suspensa, os 18 membros da Academia debruçados sobre a tradução sueca das palavras que ali estão a ser ditas, em português.

"Esteve quase a ir-se abaixo", comentará depois Zeferino Coelho, editor e amigo de Saramago há tempo bastante para não se enganar. Pilar del Rio, a espanhola que apareceu na vida do romancista português quando ele já "não podia esperar nada assim", confirma esse nó na garganta em que se embrulharam as palavras do Nobel, a meio da viagem entre a infância e os personagens. Pilar esteve sempre de olhos levantados para o marido, sem folhas brancas no colo porque as sabia de cor sempre de olhos levantados para o que fosse preciso. Para quando Saramago precisasse.

Gente capaz de dormir com porcos

Da Azinhaga, da "gente paz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito" e que, como o avó Jerónimo, ao pressentir a morte, se despedia "das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas chorando porque sabia que as tornaria a ver", desse mundo partiu Saramago para contar as personagens dos livros que lhe deram o Nobel.

"Ao pintar os meus pais e meus avós com tintas de literatura(..) estava, sem o perceber a traçar o caminho por onde as personagens iriam fabricar trazer-me os materiais e as ferramentas que (...) acabariam por fazer de mim a pessoa em hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei."



Ei-las a desfilar, pela mão do autor, como bonecas russas umas contendo as outras, num descendo pela sala da Academia, desenhando aos poucos uma certa forma implicada (logo, política) de ver o mundo. H, o "medíocre pintor de retratos" ("Manual de Pintura e Caligrafia) que ensinou a Saramago "a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento nem frustração" os seus próprios limites; "os homens e as mulheres do Alentejo" ("Levantado do Chão") que o escritor conheceu como gente "enganada por uma Igreja tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado e dos terratenentes latifundiários, gente permanentemente vigiada pela polícia, gente, quantas e quantas vezes, vítima inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa"; Luís Vaz de Camões ("Que Farei com Este Livro?"), "génio poético absoluto, o maior da nossa Literatura" que "regressa pobre da Índia onde muitos se iam para enriquecer", "soldado cego de um olho e golpeado na alma", "sedutor sem fortuna" que revelou a Saramago "a humildade orgulhosa" e "obstinada" de "querer saber para que irão servir amanhã os livros que andamos a escrever hoje"; Baltasar, Blimunda e Bartolomeu ("Memorial do Convento"), "três loucos portugueses do século XVIII, num tempo e num país onde florescem as superstições e as fogueiras da Inquisição" e onde habita "uma multidão de milhares e milhares de homens as mãos sujas e calosas, como corpo exausto".

E o cortejo prossegue com Ricardo Reis, "mestre de arte poética" que há-de terminar no princípio da "Jangada de Pedra", romance que foi "fruto imediato do ressentimento colectivo português pelos desdéns históricos da Europa". Aqui, o Nobel abre um parêntesis no seu discurso e corrige: "Fruto de um meu ressentimento pessoal...". E sublinha, perante a Academia, a metáfora da jangada de pedra: "Que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética."

Viva a literatura

A plateia ainda o ouvirá regressar, com ironia, à Igreja, no momento em que auto-define "O Evangelho segundo Jesus Cristo" como "herético ao não ser "mais uma lenda edificante de bem-aventurados e de deuses, mas a história de uns quantos seres humanos sujeitos a um poder contra o qual lutam, mas que não podem vencer." Sobre as crenças religiosas, "essas que com tanta facilidade levam os seres humanos a matar e a deixar-se matar" repetirá, de pé na sua tribuna de Estocolmo, três vezes a palavra “intolerância".

E assim chegamos à última página (a 12, nas cópias que a assistência tem na mão, a 15 no original do autor), em que Saramago, "o aprendiz" explica que no "Ensaio sobre a Cegueira" quis recordar "que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo". Depois, "como se tentasse exorcizar os monstros", pôs-se o aprendiz a escrever "a mais simples de todas as histórias", a que contém todos os nomes", "dos vivos e dos mortos", a que foi publicada meses antes de a Academia Sueca decidir que a este aprendiz chamaria mestre.

Sem uma única vez ter pronunciado a palavra "Nobel", José Saramago fica de pé, no fim do seu discurso, no meio das palmas. 0 secretário permanente da Academia diz em francês: "Obrigado mestre, obrigado laureado, viva a literatura, o romance, Saramago!" E ele embaraçado a sorrir, dois passos adiante no pequeno estrado, cruza os braços contra o peito, agradece à esquerda, à direita, avança um passo mais e estende a mão para Pilar. Assim ficam por um segundo, só os dois no meio da sala, antes de começar o cerco."

Texto publicado na edição de 8 de Dezembro de 1998

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Não sabemos se dentro de 50 anos Portugal ainda existe

«Estamos no fim de uma civilização e num processo de passagem de um tempo com raízes na Revolução  Francesa, no Iluminismo, na Enciclopédia, que tende a desaparecer. 
Não sei o que virá.
Como será a humanidade daqui a 50 anos?»

(citação, recolhida de "A Estátua e a Pedra", Fundação José Saramago, página 48)





Adelino Gomes entrevista José Saramago
11 de Novembro de 2005

Aqui, o relato da entrevista, do jornal Público, que foi impressa para o suplemento Mil Folhas, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/nao-sabemos-se-dentro-de-50-anos-portugal-ainda-existe-48253


"Não sabemos se dentro de 50 anos Portugal ainda existe"

"Saramago acha que As Intermitências da Morte é a sua melhor obra depois do Nobel. Bárbara Guimarães, a mulher e tradutora, Pilar, e a actriz brasileira Torloni estarão entre os leitores, ao vivo, de trechos do livro, no lançamento simultâneo de oito edições, logo à tarde, em Lisboa. A anteceder uma entrevista amanhã, no Mil Folhas, o escritor fala ao PÚBLICO sobre a sua escrita, antes e depois de 1998, das multidões que o aclamam mundo fora, e da relação com Portugal, país que considera viver neste momento em "estado de cinzas". 

A palavra e a música marcam o lançamento de As Intermitências da Morte, de José Saramago, ao fim da tarde de hoje, em Lisboa. Por entre frases do autor e música de Bach, essencial na trama do romance, editores, tradutores e amigos celebrarão o lançamento simultâneo das edições portuguesa, espanhola, mexicana, argentina, colombiana, catalã, brasileira e italiana do último livro do Prémio Nobel da Literatura de 1998, numa cerimónia programada para as 18h30, no Teatro de S. Carlos. José Saramago será o orador único da sessão, em que, se cumprir a regra que ele mesmo enuncia nesta entrevista ao PÚBLICO, reservará "10 minutos para a obra e mais 50, ou uma hora para falar de outras coisas". 
Bárbara Guimarães, a mulher e tradutora, Pilar del Rio - apresentadoras da sessão, em português e espanhol -, e a actriz brasileira Christiane Torloni figuram entre os leitores, ao vivo, de trechos do livro ("Com o seu vestido novo comprado ontem numa loja do centro, a morte assiste ao concerto", lerá Bárbara, iniciando uma sequência que continua noutras línguas, interpretada por cada um dos editores, e termina no português brasileiro de Torloni: "Quando o violoncelista se virou para o camarote, ela, a mulher, já não estava. Assim é a vida, murmurou.").
A violoncelista Irene Lima tocará o prelúdio da suite n.º 6 em ré maior BWV 1012, de Johann Sebastian Bach. O trecho musical escolhido desempenha um papel decisivo na obra, que se desenvolve a partir da ideia de que um dia a população de um determinado país com dez milhões de habitantes e um regime de monarquia constitucional se apercebe de que deixou de morrer. 
A trama do romance desemboca numa surpreendente relação entre a morte - que assume a figura de uma mulher atraente - e o violoncelista de uma orquestra, cujo falecimento tem vindo a ser sucessivamente adiado porque a carta com a data da sua morte é, misteriosa e sistematicamente, devolvida ao remetente: a própria morte. 

(Matt Haimovitz performs the Prelude of J.S.Bach's Suite for Solo Cello no. 6 in D major)


A 1.ª edição do livro, já à venda, tem uma tiragem de cem mil exemplares (número semelhante ao do seu romance anterior, Ensaio sobre a Lucidez, que vai em segunda edição, de vinte mil exemplares).
Nesta primeira parte da entrevista (a segunda preencherá parte da edição de amanhã do suplemento Mil Folhas), Saramago rejeita a ideia de estar a ser vítima do "mal do Nobel"; defende que tem um público muito próprio, em todo o mundo, ainda que admita que também ele não consegue ser completamente profeta na sua terra; e mostra-se preocupado com a capacidade de sobrevivência de Portugal enquanto país independente. "Num tempo de desconcerto, de mudança de valores rapidíssima, perdemos o pé, não sabemos para onde vamos", lamenta, citando a "apagada e vil tristeza" camoniana.

PÚBLICO - Na sua lista pessoal em que lugar coloca este seu último livro?
JOSÉ SARAMAGO - Não sei. Acho simplesmente que é um bom livro...

Tem-lhe sido mais fácil ou mais difícil escrever livros depois do Nobel? Isto é: sente o peso do prémio ou sente-se agora livre para fazer o que lhe apetece?
Continuo a sentir o medo da exigência. Os livros que escrevi depois penso que reflectem que o autor está tão preocupado com a qualidade daquilo agora como estaria antes. Não sinto o peso do Nobel. Escrevo como se não o tivesse tido. Escrevo como se não tivesse que provar que o mereci. Escrevo como escreveria provavelmente se o não tivesse tido.

Os livros vendem agora pelo que valem ou, digamos, por um preço que o autor tem no mercado livreiro depois do Nobel?
Para alguns leitores, sim, o Nobel terá alguma influência. Mas tenho muitos leitores que têm a preocupação de me dizer: "Olhe que eu já o leio desde antes do Nobel!..."

E não sente a chamada "maldição do Nobel"? O Homem Duplicado, por exemplo, não foi o êxito que esperaria. Depois do Nobel, acha que escreveu alguma obra-prima ao nível dos grandes livros que fizeram o seu nome?
Não me cabe a mim classificar os meus livros de obras-primas. Mas vamos lá ver: O Homem Duplicado - diga-se, com mais ou menos boa recepção do público - é um romance importante. Tanto do ponto de vista da expressão como do que propõe. A Caverna é talvez um livro demasiado longo, podia ter tido menos 50 páginas, ficava mais condensado. Mas põe, embora talvez não da maneira mais eficaz, uma questão que é de hoje (porque eu escrevo fábulas mas estou a falar do dia de hoje): a obsessão da segurança e do que é provável que aconteça no futuro - os centros comerciais deixarem de ser um mero conjunto de estabelecimentos para vender coisas e que se convertam em microcosmos onde se pode viver. É provável que isso venha a acontecer. Considero que o Ensaio sobre a Lucidez é uma obra importantíssima ...

... pelo menos polémica foi... 
.... e que talvez As Intermitências da Morte sejam o melhor desses quatro romances.
É verdade que alguns tradutores estão a ter dificuldades em traduzir a palavra "intermitências"?
Na Alemanha, por exemplo, dizem eles que não há maneira de dizer "as intermitências da morte". Se eu lhes digo, por exemplo, que os automóveis têm uma luz intermitente, eles respondem-me que "luz intermitente" podem traduzir, não podem é dizer em alemão "as intermitências da morte". Ao que eu respondo: "Oh que língua maravilhosa temos nós, que é capaz de dizer coisas que as outras línguas não são capazes!..."

Multidões lá fora, frieza oficial aqui

Nos intervalos dos livros [desde o Ensaio sobre a Lucidez, há um ano e meio, publicou Don Giovanni ou o Dissoluto e agora este], anda pelo mundo. Num corrupio. 
Antes tinha estado no Canadá, onde me fizeram doutor honoris causa pela Universidade de Alberta...

Pela trigésima vez, não?...
São 33 ou 34 doutoramentos. Fomos a Cuba, Costa Rica, El Salvador, Estocolmo, para outro doutoramento...

O que o faz mover? Evidentemente que são os convites. Mas o que o leva a aceitá-los? O gosto da viagem, o prazer dos aplausos, ou uma mensagem que tem para transmitir?
Só aceito alguns convites. Se os aceitasse todos não escrevia nem uma palavra. Aplausos? Toda a gente gosta de carinhos e de mimos. Em Belo Horizonte, onde estive agora a apresentar este livro, havia 1700 pessoas. O que significava o auditório completamente cheio. Em S. Paulo eram mil, sem contar as pessoas que ficaram fora. Viajo porque há congressos em que me interessa estar; para apresentar livros (de dois em dois anos); e por muitas razões que não têm nada a ver com literatura.

Como por exemplo?
Empenhamentos sociais; políticos, nalgum caso. Quando apresento um livro, digo sempre: contem com 10 minutos para o livro e com mais 50, ou uma hora para falar de outras coisas.
Falou nesses milhares de pessoas que o procuram para o ouvir, por exemplo na América Latina. 

Também aqui ao lado em Espanha. Mas em Portugal não é assim. Por não ser profeta na própria terra?
Aqui, se eu apresento um livro em qualquer parte, a sala estará cheia.

Não das multidões que acorrem nos outros países.
Não são realmente multidões. Talvez porque não há esse hábito.

Não se sente menos amado na sua terra?
Não, que ideia! As Intermitências da Morte saem com uma tiragem de cem mil exemplares. E haverá uma segunda e uma terceira edições, estou seguro disso. Não me sinto menos amado. As pessoas param-me na rua. O que há é um sector oficial que realmente não tem muita simpatia por mim. E tem-no manifestado, ainda que agora já não tanto.

Quais as diferenças que encontra nesses públicos que o vão ouvir? Ou há um público global?
Creio que há um público meu.

O público "Saramago"?
O Homem Duplicado foi apresentado em Buenos Aires, no Teatro Colón, que tem 4100 lugares. Estava cheio até ao galinheiro. E cá fora dizia-se que mil pessoas não tinham podido entrar. Isto surpreende-me, porque, como às vezes digo, eu só falo, não danço. O que me impressiona mais é a juventude - a parte da juventude que está nesse meu público.

O que diz a essas pessoas, na Argentina, é o mesmo que diz aqui em Portugal ou nos países nórdicos?
Na maior parte. 

E a recepção é a mesma?
É.

O jornal El Pais traz frequentes notícias sobre intervenções suas perante plateias de intelectuais, de académicos, de políticos, em que se regista um grande assentimento em relação ao que diz. Em Portugal isso não acontece.
Não tem o mesmo impacto, efectivamente. Ninguém é profeta na sua terra, mas também eu não quero ser isso. Provavelmente terá a ver com o público. E também com o acolhimento dos meios de comunicação.

Aí estamos na pescadinha de rabo na boca; ou a procurar ver se foi o ovo se a galinha quem nasceu primeiro, sem a gente saber quem é o ovo e quem é a galinha...
Mas aquilo que eu vejo em alguns países é que actos destes são notícia. E aqui não é.

Tendo em conta esses públicos que o vão ouvir, qual é o estado do mundo? O que é preocupa as pessoas, hoje?
As preocupações que eu expresso, julgo que no fundo são as preocupações que as pessoas têm. Vão lá ouvir em voz alta as suas próprias preocupações, talvez. Como umas tantas coisas que eu digo parecem razoáveis, elas deveriam levar a um determinado tipo de acção. Mas também tenho que entender que ninguém está disposto, depois de eu ter dito umas tantas coisas....

 ... a partir de ali para a acção...
Isso aconteceu alguma vez na história, mas não é o caso.

Portugal em tom menor 

As pessoas dizem que Portugal nunca esteve tão mal como hoje. É um momento de descrença generalizada. É esse também o seu sentimento?
[Longa pausa] O Guerra Junqueiro escreveu aquele livro - Finis Patriae. A sensação que eu tenho é a de um processo de decadência com alguns sobressaltos. A proclamação da República foi um deles; o 25 de Abril foi outro. Ele parece que mostra a nossa incapacidade de manter alta a nossa tenção de viver. Fogos de palha, súbitas erupções de entusiasmo (aquilo a que chamamos entusiasmo) popular - tudo isto se converte, com mais ou menos rapidez, em cinzas. E aqui estamos num tempo de cinzas. Não vejo que haja um debate de ideias. Digamos que a política é discutida em termos de mera cozinha gastronómica. Faltam figuras, faltam pessoas. Em algumas épocas, podíamos citar nomes de grandes figuras nacionais. Hoje é muito difícil. Também não quero cair na tentação de necessidade dos líderes, dos homens exemplares. Não é isso. Quando se publicou O Ano da Morte de Ricardo Reis [1984], eu disse que era uma tentativa para compreender a doença portuguesa. Citando uma vez mais o épico, não são gratuitas aquelas palavras da "apagada e civil tristeza". Continua a haver algo disso na nossa mentalidade. Num tempo de desconcerto, de mudança de valores rapidíssima, perdemos o pé, não sabemos para onde vamos. Não temos a certeza se daqui por 50 anos este país existe.

E nisso somos diferentes dos espanhóis, que vivem em grande euforia, até económica.
Certo. É um país que, com todos os conflitos e que são sérios, como a questão das autonomias e das aspirações mais ou menos independentistas, está vivo, mexe-se. Aqui não. É tudo em tom menor. Não sei o que aconteceria se tivéssemos problemas semelhantes aos de lá. Não sei se teríamos arcaboiço para confrontarmos seriamente questões como essas.