Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 15 de março de 2016

"Uma visão sobre o artista" Artistas Plásticos e outras artes - José Santa-Barbara - Lena Gal - João Amaral - Violant - Minela Reis - Isa Silva - Odeith

O "cão das lágrimas" de José Santa-Bárbara


"A Viagem do Elefante" de João Amaral


"Mulheres Marias" de Lena Gal


"A Existência da Memória" de Minela Reis


Graffiti de Odeith


Violant


"Square Faces" de Isa Silva







Exposição da artista plástica Lena Gal "Mulheres de Saramago" de 5/4 a 19/4 no "Espaço Arte" em Lisboa

"Espaço Arte" Publicações Europa-América
Avenida Marquês de Tomar, 1B - 1050-152 LISBOA
Telefone: 213 563 791

Exposição patente de dia 5 de Abril até dia 19 de Abril


Sinopse de Apresentação da Exposição
"Ao ler o livro “Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago,” de  Pedro Fernandes de Oliveira Neto e  estar em contato com parte significativa da obra do escritor português, entrei  na essência e senti um elo forte  entre as personagens saramaguianas e a minha linguagem plástica, entre a minha pintura feminina e as mulheres reais da minha própria história de vida. Identifiquei a mesma força, os silêncios os sentidos do olhar, a intuição, o amor, a sensualidade, a denúncia de casos de violência e do assédio sexual, a cumplicidade feminina  do despertar para a consciência do ser mulher, e deixei-me guiar  pelo meu interior, pelo sentir este foco feminino, pelo envolvimento emocional e pelos momentos de ansiedade  para, num trabalho criativo, pela forma, pela cor e pelo simbolismo dar rosto  a mulheres como Blimunda, a mulher do médico entre outras mulheres/personagens tão fortes tão sábias como tantas mulheres da vida real que encarnam o arquétipo da Grande Mãe que pinto; mulheres que temos na nossa vida, desde a mãe, a amiga, a irmã. Pintar estas mulheres foi contatar momentos que senti mágicos e de muitas emoções."

“Na pintura de Lena Gal encontro, a procura da plenitude do feminino, …” 
de Raquel Pinto, in “Estudo (análise semiótica “Simbologia na pintura de Lena Gal - Ao encontro do mito Universal da Terra Mãe


"Estou inventando mulheres ou talvez, 
outra forma de ser mulher"
José Saramago

De Pedro Fernandes sobre a obra da artista plástica Lena Gal, torna-se indispensável ler e estudar o texto "A pintura de Lena em diálogo com o feminino na literatura de José Saramago" aqui  

"Uma rápida visita ao currículo de Lena Gal nos colocará diante de algumas exposições cuja matéria está pautada no feminino e suas representações, tais como Mulheres, terramãe e O feminino insular. É do catálogo que compõe a primeira exposição que li a tela “As xamãs” num diálogo tão próximo e tão forte com uma cena de Memorial do convento, de José Saramago. Foi esse contato que me pôs em contato com sua arte; Lena sempre muito solícita não hesitou, na ocasião, em ceder esse trabalho para compor a capa de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago, um extenso ensaio publicado em 2012 cujo interesse é de lançar alguma luz, por parca que seja, sobre o tema da representação do feminino na obra saramaguiana.
O contato com o ensaio e, logo depois com a literatura do Prêmio Nobel produziu na artista o desejo de estreitar esse diálogo a princípio individual de alguns temas de sua pintura. Esses dois encontros fez nascer na artista a necessidade de ir ao que ela chama de essência da representação a título de enformar e avivar o traço entre as representações produzidas pela literatura e as lidas pelo ensaio. Nessa zona de interstícios, a linguagem plástica ainda se alimenta do próprio movimento subjetivo da artista e se confunde com sua história da arte e a vida. Lena Gal, como tenho designado, tentou debruçar-se no interstício a fim de produzir o que ela própria designou pelo título de O feminino na escrita de José Saramago."

Lena Gal - "Mulheres Marias" 116x89

"Há no título desse conjunto de pinturas ao menos duas questões que quero apresentá-las nestas notas: uma delas diz respeito a humildade da própria artista em designar seu exercício imagético e imaginativo como representação da escrita. De certa maneira, a pintura e a literatura são duas formas bastante aproximadas de representação; apenas que uma pinta com palavras o que a outra pinta com tintas. Essa é uma observação viva na própria literatura de José Saramago, mais especificamente, nas reflexões costuradas pelo pintor de retratos H. em Manual de pintura e caligrafia. Tomado pela repetição da técnica da arte de eternizar rostos, H. tentará se desenvencilhar da mesmice, ensaiando-se através da escrita. O exercício de Lena Gal, embora não seja ela uma pintora de retratos, é o contrário. Sair do emaranhado de palavras para dizê-las com tinta e pincel. 

Outra é não deixar-se ficar acima da representação maior que lhe move à pintura: a obra de José Saramago. Tenta com o escritor, numa tomada de posição que não é nem de esconder-se à sua sombra nem a de elevá-lo a um pedestal de glória que, creio, ele próprio não gostaria porque sempre me pareceu alguém dado à simplicidade e não chegado à vaidade que corrói muita das existências de alguns grandes nomes, vai tentar dar luz a esse inventário de outras formas de ser mulher. É quando vem em boa hora, uma frase do próprio Saramago recolhida em As palavras de Saramago por Fernando Gómez Aguilera – “Estou inventando mulheres, ou talvez, outra forma de ser mulher”.

Para Lena Gal, este trabalho é exercício de inspiração. E é exercício de outra forma de ser mulher. Os silêncios, os sentidos do olhar, o amor, a intuição, a sensualidade, a violência sobre o corpo da mulher, o assédio sexual, a cumplicidade feminina, o despertar para a consciência do ser mulher são tornadas tonalidades para as formas extraídas do negro das palavras para o colorido das telas. O feminino na escrita de José Saramago é um caudal de sensações. A artista plástica busca pelo seu interior trazer à superfície emoções, alegrias, tristezas, materializando-se em texturas e cores diversas os sentimentos ora nascidos em ora provocados por personagens como Blimunda, de Memorial do convento ou a mulher do médico, de Ensaio sobre a cegueira – dois dos romances mais significativos da bibliografia saramaguiana e pontos centrais na leitura proposta em Retratos."

Lena Gal - "Humilhação dolorosa" 130x97

"Como exercício de recriação artística, coloca na mesma cena personagens que, no plano dos romances nunca tiveram a oportunidade de se conhecer, mas permanecem irmanadas no sentimento sobre o mundo; penso para o caso em telas em que se apresentam Blimunda, a mãe e a rainha D. Maria Ana Josefa. Ou se aproxima de cenas há muito já representadas por outros artistas e introduz
nelas novas forças de sentido: é assim com a cena da crucificação de Jesus Cristo inspirada d’O evangelho segundo Jesus Cristo ou com outra figura para Lilith. Ou reconstrói personas e cenas da narrativa saramaguiana. Além de cenas d’O evangelho, ficamos diante de cenas de Memorial do convento como a incansável busca da mãe de Blimunda pela filha e o diálogo costurado pelas formas do olhar; o encontro de Blimunda com Baltazar sendo queimado num auto-de-fé e a recuperação de sua vontade. Ou de Ensaio sobre a cegueira: a cena de assassinato do cego mal da camarata; do cão que lambe as lágrimas da mulher do médico; o estupro de uma das mulheres na camarata dos cegos maus; o banho das mulheres. 

O feminino na escrita de José Saramago, portanto, refaz por outra via que não a da palavra, as imagens sobre o feminino sugeridas pela escrita do romancista, escrita que, para além do Manual de pintura e caligrafia conversou igualmente com as artes plásticas – penso na abertura d’O evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo, quando o narrador reconstrói a cena pintada por Albrecht Dürer
ou mesmo a plasticidade oferecida pela própria narrativa. À sua maneira, a obra se reinventa, vai logrando outras possibilidades de ser vista e de ser lida.

Como redigi para o catálogo que acompanha a exposição e para outro texto a ser publicado em breve também acompanhado por telas da artista plástica, Lena desvela um duplo manto de sentidos. Não é apenas sobre o meu discurso produzido pela leitura da obra saramaguiana; é a aproximação simultânea de três formas de interpretação, a dela própria, a do escritor e a do ensaísta. Cada tela desnuda num inventário muito próprio das imagens, um imaginário que se inscreve numa zona brumosa não captável pelo verniz da palavra; isso num mesmo instante em que se alimenta dessa seiva que contorna os sentidos e é matéria nutritiva para as imagens desenhadas pelo escritor português capaz de produzir retratos únicos para a mulher. Um apelo, portanto, aos sentidos da visão, esta que tanto foi exercitada pelo próprio Saramago para rever o que nos cerca."

De Pedro Fernandes, académico e estudioso da temática saramaguiana, aqui 

O link geral do projecto em http://letrasinversoreverso.blogspot.pt/

Consultar também o projecto da revista de "Estudos Saramaguianos", aqui em http://www.estudossaramaguianos.com/


domingo, 28 de fevereiro de 2016

"A Existência da Memória" - José Saramago na perspectiva da pintora Minela Reis

(...) "Enquanto troco o pincel e dou os dois passos atrás que me permitem enquadrar melhor e clarificar o novelo que sempre é um rosto «para retrato», respondo calado: «sei» e continuo a reconstruir um azul necessário, uma terra qualquer, um branco que fará as vezes da lua que nunca poderei captar." (...)
Manual de Pintura e Caligrafia
Caminho, página 41 (1983)

"A Existência da Memória"

Pintura Acrílica (80*60) - 2015 

Para mais informação, pode ser consultada a página da artista plástica, aqui


Registo pessoal e biográfico das suas influências
"Ser angolana, à partida já me faz ver a vida de uma maneira, que mesmo os anos vividos em Portugal, não fizeram mudar!
O respeito pelo outro, o direito à liberdade e justiça, são valores fundamentais de que não abdico.
Não tenho religião, mas acredito na espiritualidade. 
A família, os amigos, parte integrante da minha vida, condicionam muitas vezes o rumo da minha vida, porque sem eles, nada do que procuro, para a minha felicidade, faria sentido.
UBUNTU… é a palavra que define os passos da minha maneira de estar na vida.A Música, faz parte do meu universo. Ela acompanha-me nos momentos felizes, nos tristes e enquanto crio e é ela que muitas vezes, me inspira e algumas vezes me faz mudar o rumo do que estou a criar, seja no motivo e nas próprias cores, que às vezes são um reflexo do sentimento que a música me provoca.
Alguns cantores entre muitos outros, destacam-se, pela frequência com que me acompanham nos momentos de inspiração. 
Valdemar Bastos; Ouro Negro ; Aline Frazão; Maria Bethânia; Joe Coker…
A Poesia, é um bálsamo para a minha alma. Quisera eu, pôr em palavras o sentimento que procuro nas minhas pinceladas. Agostinho Neto ( cujos poemas dão título a muitas das minhas obras), Graça Arrimar; Amaral Jorge; Charlie Chaplin e muitos outros, inspiram-me sentimentos, muitas vezes direccionando o que crio.
Livros, são o meu vício! Sou uma leitora compulsiva e gosto de todos os estilos.
Mia Couto e José Eduardo Agualusa, estão entre os meus preferidos."

Contactos: 
934 144 636 / minelareis@hotmail.com






segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Recuperação de texto "Apresentação do catálogo da exposição de João Hogan" (Beja 1983) - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (19/03/1995)

19 de Março (de 1995)
"Mexendo em antigos papéis, veio-me às mãos a apresentação que, vai em doze anos, escrevi para o catálogo duma exposição de João Hogan. Reli-a, sorri de algumas ingenuidades, mas achei que não era justo fazê-la regressar à obscuridade do gavetão donde tinha saí-do, sem lhe dar a oportunidade de submeter-se a outros juízos que não tivessem sido os meus, evidentemente suspeitos de parcialidade, ou os de Hogan, que nunca me disse o que pensou do palavreado. Por isso, aqui fica:

"Hogan: retrospectiva" Beja, 1983 - (Dimensões 61 x 43 cm) 
Promoção da Câmara Municipal de Beja; Associação de Municípios de Distrito de Beja

«Sobre o cavalete, o pintor colocou uma tela branca. Olha-a como a um espelho. A tela é aquele único espelho que não pode reflectir a imagem do que está diante de si, daquilo que com ele se confronta. A tela só mostrará a imagem do que apenas noutro lugar é encontrável. É isso a pintura. A pintura não está no espelho branco e opaco que é a tela. A pintura não está, sequer, no mundo que, por todos os lados, rodeia tela, cavalete e pintor. A pintura está, inteira, na cabeça do pintor. Ao pintar, o pintor não vê o mundo, vê a representação dele na memória que dele tem. A pintura é, em suma, a representação duma memória. 
«João Hogan, pintor, está na sua oficina. São quatro paredes apertadas, um casulo minúsculo de silêncio, fechado por sua vez num claustro antigo. Os quadros encostam-se uns aos outros, esteiam-se como placas geológicas, descem do tecto como severos jardins suspensos, formam um labirinto de três dimensões, porventura inextricável. Não faltariam, ao correr da comparação, outras analogias: é o bruxo na sua caverna, é o criador criando universos novos para emendar os antigos, é Fausto convocando os espíritos. Afinal, é só, e basta, João Hogan, pintor. Move-se devagar, tranquilo, no reduzido espaço desafogado que ainda lhe resta, todos o seus passos e atitudes são rigorosos, precisos, nenhuma exuberância, a palavra breve, se tem de a dizer, o sorriso sossegadamente irónico, de mansa ironia, porque a si mesmo primeiramente se terá julgado, e, tendo-o feito, compreendeu que não precisava doutro tribunal nenn doutro réu. A isto se chama, às vezes, sabedoria. 
«Fala-se facilmente da sabedoria do filósofo, do sábio, do escritor, não se fala da sabedoria do pintor. E, contudo, um artista como este, que parece estar trabalhando desde o princípio do mundo, transporta, no gesto que mesmo antes de chegar à tela ou ao papel é já traço e cor, um acúmulo de experiências, um saber que transcende a simples técnica que tem de haver no desenhar e no pintar, para se localizar nas camadas pro-fundas onde o inconsciente pessoal e colectivo a todo o momento está procurando as formas e as vozes da sua expressão possível. A pintura, como Leonardo da Vinci disse um dia, é realmente coisa mental. 

João Hogan, Paisagem, 1964, óleo sobre tela, 81 x 100 cm
Via http://quadrogiz.blogspot.pt/2013_10_01_archive.html

«Mas, em João Hogan, a expressão dessas vozes e dessas formas percorre caminhos que o levam, simultaneamente, a procurar reproduzir o sentido máximo das coisas (ou a máxima concentração do sentido que têm) e o despojamento de todo o sentido (ou o instante primitivo, se não o primitivo olhar, em que as coisas não têm mais sentido que serem-no). São dois extremos que se tocam, é uma contradição aparente. Tentarei ser mais claro. 
«De toda a obra de João Hogan escolho uma das suas paisagens de subúrbio ou um amontoado de pedras, aí onde não se divisa um vulto humano, um mero rasto de passagem, excepto, talvez, por aqui e além, o afloramento impreciso de uma cor, de um volume, acaso já obra das mãos, acaso ainda acidente natural. Em rigor, tal paisagem não existe na realidade. O pintor, como foi dito já, representa no quadro a memória, agora reelaborada pela consciência, duma memória de paisagem. Vemos colinas redondas, cobertas de verde não de verdura, vemos penhascais cortados de planos não de pedreiras. Entendamo-nos: não é de paisagem que estamos tratando aqui, mas de pintura, não ' o pareci-do que devemos procurar, mas o profundo. João Hogan não se oferece para guiar o contemplador o quadro a um certo arrabalde de Lisboa, o que João Hogan propõe é um lugar de pintura. Qualquer coincidência entre isto e aquilo será sempre fortuita e irrelevante. 

João Hogan, Sem título, 1972, óleo sobre tela, 130 x 180 cm

«Ora, esta paisagem, que justamente é confluência de memórias, espaço de reunião cumulativa, foco de sugestões e apelos - esta paisagem vem a definir-se em síntese essencial por via de um processo selectivo que precisamente faz da verdura a cor verde e da pedreira corte e plano. Então, e é aqui que reside a resolvida contradição entre os pontos de partida e o ponto de chegada, é quando o quadro aparentemente menos diz que mais exprime, e a paisagem surge diante dos nossos olhos como se ninguém a tivesse visto antes, como se fosse nosso o primeiro olhar que a encontra e nesse mesmo acto a mostra. A arte de João Hogan é, como por uma espécie de prodígio inesperado, a arte do primeiro olhar. 
«Pelo seu próprio, natural caminho, Hogan atinge, duplamente, a raiz da pintura e a raiz do ser. O mundo em que nos introduz está, quase sempre, desabitado. Mas é um mundo em expectativa, um mundo que espera os seus homens, ou porque eles ainda não nasceram, ou porque dele foram retirados. Porém, não esqueçamos que diante desta paisagem solitária esteve o homem que a criou. Foi dele o primeiro olhar. Cabe-nos a nós olhar agora, para podermos ver o que ele viu já: os homens que habitarão, por direito, este lugar. De pintura, como foi dito. De vida, como se acrescenta. Que tudo é o mesmo.»

No conjunto, não está mal. E a propósito: como pintaria João Hogan. se ainda fosse vivo, esta ilha de Lanzarote?"
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 70 a 73


Breve biografia, via WikiPédia, aqui
"De ascendência irlandesa, era neto do aguarelista Ricardo Hogan e sobrinho do pintor Álvaro Navarro Hogan.
Entre 1930 e 1939 trabalha numa oficina de marcenaria; entretanto inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que abandona ao fim de apenas um ano letivo, para continuar, em 1937, os estudos com Frederico Ayres e Mário Augusto na SNBA. Apresentará a sua obra publicamente pela primeira vez em 1942, na Exposição de Arte Moderna do SPN, Lisboa.
Está representado em diversas coleções e museus, nomeadamente no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, no Museu do Chiado e no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Foi sócio fundador da Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, em Lisboa, onde dirigiu diversos cursos de gravura, tendo um papel importante na formação das gerações mais novas (muitos dos actuais gravadores de Portugal foram seus alunos).

Sobre Sofía Gandarias, a pintora que retratou José Saramago - "Cadernos de Lanzarote Diário III" (19/08/1995)

Informação sobre a pintora Sofía Gandarias - http://gandarias.es/

19 de Agosto (de 1995)

"Com o título de O Rosto e o Espelho ou a Pintura como Memória, escrevi hoje para o catálogo da exposição que Sofía Gandarias vai apresentar em Lisboa o seguinte breve texto, por onde se verá que ainda não pude libertar-me completamente dos cegos do Ensaio e que certas ideias do Manual se mantêm constantes: 

Título "Saramago" - Técnica Oleo sobre lienzo y arena
Año 1995 - Medidas 162x130 cm

«O pintor está diante do espelho, não de viés ou a três-quartos, conforme se queira designar a posição em que costuma colocar-se quando decide escolher-se a si mesmo para modelo. A tela é o espelho, é sobre o espelho que as tintas irão ser estendidas. O pintor desenha com rigor de cartógrafo o contorno da sua imagem. Como se ele fosse uma fronteira, um limite, converte-se em seu próprio prisioneiro. A mão que pinta mover-se-se-á continuamente entre os dois rostos, o real e o reflectido, mas não terá lugar na pintura. A mão que pinta não pode pintar-se a si própria no acto de pintar. É indiferente que o pintor comece a pintar-se no espelho pela boca ou pelo nariz, pela testa ou pelo queixo, mas deve ter o cuidado supremo de não principiar pelos olhos porque então deixaria de ver. O espelho, neste caso, mudaria de lugar. O pintor pintará com precisão o que vê sobre aquilo que vê, com tanta precisão que tenha de perguntar-se mil vezes, durante o trabalho, se o que está a ver é já pintura, ou será apenas, ainda, a sua imagem no espelho. Correrá portanto o risco de ter de continuar a pintar-se infinitamente, salvo se, por não ter podido suportar mais a perplexidade, a angústia, resolveu correr o risco maior de pintar enfim os olhos sobre os olhos, perdendo assim, quem sabe, o conhecimento do seu próprio rosto, transformado num plano sem cor nem forma que será necessário pintar outra vez. De memória. 
«As telas de Sofía Gandarias são estes espelhos pintados, de onde se retirou, recomposta, a sua imagem, ou onde, oculta, ainda se mantém, talvez sob uma camada de luz dourada ou de sombra nocturna, para entregar ao uso da memória o espaço e a profundidade que lhe convêm. Não importa que sejam retratos ou naturezas-mortas: estas pinturas são sempre lugares de memória. De uma memória visual, obviamente, como se espera de qualquer pintor, mas também de uma memória cultural complexa e riquíssima, o que já é muito menos comum num tempo como o nosso, em que os olhares, quer o do quotidiano, quer o da arte, parecem satisfazer-se com discorrer simplesmente pela superfície das coisas, sem se darem conta da contradição em que se encontram, em confronto com um olhar científico moderno que transferiu o seu campo principal de trabalho para o não visível, seja ele o astronómico ou o subatómico. 
«Para Sofía Gandarias, um retrato nunca é só um retrato. Algumas vezes parecerá que ela se propôs contar-nos uma história, relatar-nos uma vida, quando, por exemplo, rodeia o seu retratado de elementos figurativos cuja função, ou intenção, se há-de supor alegórica, como um hieróglifo cuja decifração mais ou menos rápida irá depender do grau de conhecimento das respectivas chaves por parte do observador. É transparente, por exemplo, o significado da presença da pirâmide maia no retrato de Octavio Paz, ou o de uma Melina Mercuri atada ao Pártenon, é-o muito menos o de Graham Green olhando por uma janela com as vidraças partidas, ou o de Juan Rulfo amarrado às tumbas de Comala. Encarada deste ponto de vista, a pintura de Sofía Gandarias, com independência do seu altíssimo mérito artístico e da sua evidente qualidade técnica, poderia ser entendida como um exercício literário para iniciados capazes de organizar os símbolos mostrados, e portanto completar, em nível próprio, a enigmática proposta do quadro. Tratar-se-ia de uma consideração flagrantemente redutora, em todo o caso absolvida pelo próprio imediatismo da leitura, se a pintura de Sofía Gandarias não fosse o que, de modo superior, é: a singularidade de uma memória de relação. 

Título "Pessoa" - Técnica Oleo sobre lienzo
Año 1995 - Medidas 195x130 cm

«De dupla relação, acrescentarei. A do retratado e da sua circunstância, exposta na distribuição dos elementos pictóricos secundários do quadro, e em que naturalmente se apreciarão questões como a semelhança, a pertinência, a concatenação plástica; e outra, a meu ver não menos importante, que é a relação cultural que Sofía Gandarias, a pintora, mas sobretudo a pessoa desse nome, mantém com a circunstância vivencial e intelectual dos seus retratados. Aqui trata-se claramente de pintura, mas trata-se também da expressão intensíssima de uma memória cultural particular. Mais do que simplesmente pintar retratos de figuras ditas públicas, o que Sofía Gandarias faz é convocar um por um os habitantes da sua memória e da sua cultura, aqueles a quem ela própria chama "as presenças", transportando-os para uma tela onde terão o privilégio de serem muito mais do que retratos, porque serão os sinais, as marcas, as cicatrizes, as luzes e as sombras do seu mundo interior. 
«Há melancolia nesta pintura. A melancolia de nos sabermos fugazes, transitórios, pequenos corpos cadentes que se apagam quando mal começaram a brilhar. O fundo quase sempre escuro dos quadros de Sofía Gandarias é uma noite, os rostos e os símbolos que como satélites os rodeiam são apenas os nosso pálidos e humanos fulgores. O mundo é o que somos, e esta pintura um dos seus sentidos.» 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 142 a 145 (19 de Agosto de 1995)

Título "Año de Nacimiento de Ricardo Reis" 
Técnica Óleo, arena y polvo de mármol
Año 1995 - Medidas 230x200 cm.



Sofía Gandarias, faleceu dia 23 de Janeiro de 2016, em Madrid
"Sofia era uma amiga antiga de Portugal, do Centro Nacional de Cultura, de Helena e Alberto Vaz da Silva, de Yehudi Menuhin. Há cerca de um ano esteve connosco com seu marido Enrique Barón Crespo cheia de entusiasmo e de projetos, com a ideia de poder trazer-nos a Portugal algumas das suas obras emblemáticas. Em casa de Francisco Balsemão foi uma noite plena de sonhos e de futuro. Em si a literatura e a pintura estavam intimamente ligadas. Trabalhou intensamente até nos deixar e em Sevilha (no Espaço Santa Clara) é possível visitar uma extraordinária exposição de 28 telas que assinala os quatro séculos da morte de Miguel de Cervantes - «Coloquio de Perros». O conto é uma extraordinária metáfora humana. Quis que tudo ficasse pronto e conseguiu, apesar da doença. Sofia era determinada e persistente. A vida era um bem sagrado. Deixa-nos esse extraordinário exemplo. Amiga de José Saramago e de Pilar del Rio, o autor de «Memorial do Convento» definiu as suas telas como «espelhos pintados». É a defesa da dignidade humana que está sempre presente, invocando Kafka, o holocausto, a memória de Velasquez, a lembrança do seu País Basco e de Guernica… O carácter sombrio de muitas das suas telas é um grito de alerta, um apelo humaníssimo, para que não se esqueça a barbárie! 
Sofia Gandarias fica na nossa memória como uma mulher de fibra e de sensibilidade, de amizade e afetos! Ao Enrique e ao Alejandro enviamos a expressão mais funda da nossa amizade e solidariedade! Sofia continua connosco." 
Guilherme d’Oliveira Martins

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Sobre a pintora Teresa Magalhães


(Acrílico sobre tela, 2000)

"As cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, 
ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. 
E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. 
O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem 
qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido".
José Saramago

Mais informações sobre a pintora Teresa Magalhães, aqui



Texto de José Saramago para apresentação de exposição

"Quando Rimbaud, no seu célebre soneto Voyelles, disse que o A era noir, não disse que era negro, quando disse que o E era blanc, não disse que era branco, quando disse que o I era rouge, não disse que era vermelho, quando disse que o U era vert, não disse que era verde, e quando finalmente disse que o O era bleu, não disse que era azul. Se o som de cada uma delas, pronunciada no francês que ele falava, suscitou no seu espírito a correspondência de uma cor diferente em cada caso, e supondo que em tudo isto houve algo mais que um artifício gratuito ou não foi o mero resultado de uma exigência simplesmente determinada pela métrica do verso, então teremos de concluir que o A dito em português nunca seria negro, nem branco o E, nem vermelho o I, nem azul o O, nem verde o U. Quer isto dizer que nem as vogais têm para toda a gente as cores supostamente sugeridas pelo som que produzem, nem as palavras são, elas próprias, as cores que convencionalmente expressam. Rouge só é vermelho no dicionário, aquelas duas sílabas não dizem o mesmo que estas três. É possível que a maioria dos pintores não perca tempo com dilucidações deste tipo, que mais lhes parecerão pueris exercícios de retórica, mas creio que não me equivocarei demasiado se disser que, para eles, os nomes das cores só têm utilidade na hora de ir comprar as tintas... O que depois se passa é outra coisa.

Penso em tudo isto enquanto contemplo as pinturas de Teresa Magalhães, mas não me detenho a interrogá-las sobre se têm alguma relação, directa ou indirecta, imediata ou evocativa, com as sugestões cromáticas consequentes da pronunciação das cinco vogais em português ou em francês. Pela simples razão de que as cores de Teresa Magalhães, tal como sou capaz de vê-las, ou segundo o que nelas julgo perceber, não têm nome. E mesmo que o tivessem não é isso que me importa. O que me importa, sim, é sentir nelas aquilo a que, provavelmente sem qualquer originalidade, chamarei uma instabilidade contínua do sentido. Contra a evidência material e visual de que, ao mesmo tempo, elas são o que vejo e estão onde as vejo (o francês de Rimbaud não daria para mais que dizer elles sont e elles sont...), afigura-se-me que cada uma destas pinturas foi imobilizada de repente, travada num instante preciso de um processo de transformação sucessiva e multiforme, tal como o caleidoscópio que fazemos girar nas nossas mãos e que, com motivo ou sem ele, abandonámos com uma certa ordenação de formas e cores, até que um novo movimento de rotação venha desordenar a imagem e reordená-la outra vez, para novamente desfazer o que, em potência, será sempre uma ordem ameaçada pela instabilidade. Estou certo de que se pudesse tomar uma destas tábuas nas minhas mãos e a rodasse a um lado ou a outro, outra imagem imediatamente surgiria, as mesmas cores, as mesmas formas, mas uma nova pintura. O mundo como caleidoscópio, o sentido como movimento, eis o que julgo ver na pintura de Teresa Magalhães. É certo que os escritores, em geral, sabem pouco destas coisas, Que a este seja perdoada a intromissão abusiva, é a minha esperança. De todo modo, por muito que isso custe a Rimbaud, o O nunca foi azul..."

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - José Santa-Bárbara "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento"

É unânime afirmar-se que só as grandes obras literárias merecem ser adaptadas em outros formatos.
Seja no teatro ou cinema, banda desenhada ou pinturas. O "Memorial do Convento" foi publicado em 1982 e já teve 54 edições, a última das quais em 2014 pela Porto Editora, e traduzido para um número de países que torna a obra com carácter universal (http://www.josesaramago.org/memorial-do-convento-1982/)
Aqui recupero e destaca-se a obra do artista plástico José Santa-Bárbara, "Vontades Uma Leitura de Memorial do Convento" que o Professor Carlos Reis, também estudioso da obra de José Saramago, deu especial destaque e relevo.
Das suas palavras e que podem ser consultadas no site "Figuras da Ficção", em https://figurasdaficcao.wordpress.com/category/jose-santa-barbara/ deixo com a devida referência ao autor o seguinte:

(Capa do catálogo Vontades)

«A 19 de agosto de 2001, foi inaugurada na Biblioteca Nacional, em Lisboa, uma exposição do artista plástico José Santa-Bárbara, intitulada Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento.
O motivo e os temas da exposição eram evidentes: o pintor fizera uma leitura de Memorial do Convento e as obras exibidas traduziam, num outro medium, o resultado dessa leitura. Recordo brevemente o que foi a mencionada exposição (que à época conheceu assinalável êxito de público), tal como o catálogo a testemunha: trata-se de 35 telas, compreendendo 11 estudos, com uso de diferentes técnicas e predominância do óleo  e da têmpera vinílica sobre papel colado; todos os estudos recorrem ao pastel, com uma exceção (uma aguarela). A feição geral das obras  revela-nos um conjunto de figuras com rostos alongados, individualmente e em grupos, pintados em cores sombrias e envoltos por uma atmosfera pesada e dramática.

Um dos episódios mais importantes da obra - O desfazer do jejum de Blimunda

Trata-se, neste conjunto pictórico, sobretudo de personagens, para usar um conceito que provém do romance e que aqui é pertinente. E parece estranho, à primeira vista, que nenhum dos quadros fixe a monumentalidade do convento que dá título ao romance: ele aflora apenas e de forma parcelar ou implícita em episódios (e em telas) como, por exemplo, “A ara de Cheleiros”, “Infanta gatinhando”, “Os fazedores do capricho” e sobretudo  “Os passatempos d’El-Rei”. Para além disso, o pintor fixou-se em temas e em contextos que, articulando-se com as personagens, desde logo sugerem o reiterar de componentes ideológicos que semanticamente estruturam a história contada no romance: o esforço anónimo dos operários, os cenários da Inquisição, a construção da passarola voadora. Aqueles componentes ideológicos e também, naturalmente, o tempo histórico em que transcorre a acção do Memorial do Convento, ou seja, o século XVIII português e o reinado de D. João V, que a História, digamos, oficial fixou com o cognome de Magnânimo.

Ilustração do Rei Dom João V

Encontram-se no catálogo Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento breves textos que constituem uma boa abertura para a análise de um diálogo  desenvolvido em função da triangulação História-ficção-pintura. Num deles, é o próprio pintor quem nota que Saramago “deu nome aos fazedores do capricho, João Francisco, João Elvas, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, José Pequeno, Francisco Marques, Joaquim da Rocha, Baltasar Mateus, Blimunda”; e logo depois cita o conhecido passo do Memorial do Convento em que são alfabeticamente elencados os nomes dos tais fazedores: “Torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo…”

Baltasar Mateus o Sete-Sóis e Blimunda a Sete-Luas

 Ou seja, todos os nomes, sem título de distinção social ou apelido de família, remetendo-se deste modo e por antecipação para a lógica da nomeação do desconhecido que reencontraremos num outro romance de Saramago, precisamente Todos os Nomes (1997). Por fim: “Aqui fica a minha «leitura» d’aquilo que para mim é a verdadeira História” (Santa-Bárbara, 2001: [4]). Como quem diz (repare-se nas aspas): há uma «leitura» outra, que não é modelizada em palavras, mas em imagens, e a “verdadeira História” requer a questionação (ideológica, bem entendido) da versão oficial que uma outra História tratou de instalar no imaginário que dela se alimentou.

Carlos Reis (A publicar em ANTHROPOS. Cuadernos de cultura, crítica y conocimiento.  Ilustrações do cabeçalho:   pormenores de quadros de Vontades). - 28/12/2012 

Baltasar Mateus

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

«Lugar-comum do quadragenário» Poema de José Saramago escrito nos seus quarenta anos

(Quadro de João Amaral, realizado em aguarela - 2015)


17 de Outubro (1993)

"Javier e María «inauguraram» ontem a sua casa, festejando ao mesmo tempo o recente aniversário de Javier, 41 anos, uma mocidade. (Ao escrever este número lembrei-me, subitamente, de que por essa mesma idade escrevi um poema, «Lugar-comum do quadragenário», que não resisto a transcrever aqui. Era assim: 

Quinze mil dias secos são passados, 
Quinze mil ocasiões que se perderam, 
Quinze mil sóis inúteis que nasceram, 
Hora a hora contados 
Neste solene, mas grotesco gesto 
De dar corda a relógios inventados 
Para buscar, nos anos que esqueceram, 
A paciência de ir vivendo o resto. 

Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: «Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...».) Fechado o parênteses, volto ao assunto. María e Javier resolveram convidar amigos para a festa e a casa encheu-se de gente, a maior parte da qual eu não conhecia nem de vista. Mas não é esta a questão. A questão foi ter eu confirmado a tremenda dificuldade que tenho em conviver com pessoas que ainda não tive tempo de conhecer, e mais quando o ambiente ferve de música alta e de palavras que têm de ser gritadas. Senti--me a pessoa mais sem graça, mais sem espírito, que é possível imaginar, e não me restou outra saída que desaparecer discretamente e ir fazer companhia ao cão que, na nossa casa, sofria de abandono como creio que só podem sofrer os cães."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, páginas 144 e 145

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Pintura de José Saramago - imagem alegórica onde são agregados vários aspectos da sua vida e obra


«Ao fundo, LANZAROTE !
"Onde não comem sete, não comem oito": antiprovérbio presente em LEVANTADO DO CHÃO. Sara da Conceição estava grávida uma vez mais e assim o texto ratifica a penúria do Portugal de então. Aliás, muito atual. E, por pensar em alimentos, a escrita é capaz de nos alimentar de ideias, de abrir os olhos para injustiças. Certo dia, um amigo português emprestou-me um "flyer" de um restaurante. Tal restaurante homenageava vários escritores; um deles, claro, foi José Saramago. Degustem a foto e identifiquem o nome dos pratos.»

Reflexão de Eula Carvalho Pinheiro, académica e ilustre Saramaguina

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Citador #24 - Blimunda de Jesus, Blimunda mulher... Sete-Luas...

Citador #24
Blimunda
(desenho representativo de Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis)


(...) Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem, e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. (...)

Página 102

(Quadro de José Santa-Bárbara, da exposição "Vontades")


(...) Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo. (...)

Página 331

em, "Memorial do Convento
Caminho, 20.ª edição

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"Baltasar Mateus, o Sete-Sóis" em o "Memorial do Convento" e pintura de José Santa-Bárbara

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis - pintura de José Santa-Bárbara

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, apresentado e depois, na aproximação de Blimunda de Jesus, a Sete-Luas

"Memorial do Convento", Caminho - 20.ª edição

(...) "Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com perda de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis fizeram sair de Badajoz. A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em Barcarrota e pouco gosto para gozar dele, que não tinha valido a pena marchar dez léguas para lá e correr outras tantas para cá, deixando no campo tanta gente morta e metade da mão de Baltasar Sete-Sóis. Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força do garrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado." (...)

Página 35

(Imagem do catálogo da exposição "Vontades" de José Santa-Bárbara)

Sebastiana Maria de Jesus, mão de Blimunda, é uma das cento e quarenta e quatro almas que sofrerão a "justiça" neste auto-de-fé. Sebastiana é um quarto de cristã-nova, diz que tem visões e revelações, mas o tribunal considera-a fingida, blasfema e herética. Amordaçada vai na fila, será açoitada para gáudio do povinho e enviada para o degredo da Angola, por oito anos.
Vê Blimunda junta ao padre Bartolomeu Lourenço, pensa «não fales, olha só»... ao que Blimunda, dirá ao padre «ali vai minha mãe», e de seguida perguntará ao homem alto que está perto «que nome é o seu?»

(...) "Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira
no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber E queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo." (...)

Páginas 55 e 56

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

"José Saramago: Sobre a gravura de David de Almeida"


"José Saramago: Sobre a gravura de David de Almeida"

Link para leitura completa e original, 

"São poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Na verdade, aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro da cabeça e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções gerais, vagas, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou simula crer, que isso era tudo quanto se precisava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparecesse feito.



Nunca teve a curiosidade de perguntar a si mesmo por que razão o resultado final desse processo manipulador, sempre complexo mesmo nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instruções às mãos para que lhe fizessem, também por exemplo, uma gravura. Note-se que ao nascer os dedos ainda não têm cérebros, vão-nos formando a pouco e pouco com o passar do tempo e o auxílio do que os olhos vêem. O auxílio dos olhos é evidentemente importante, mas também o é o auxílio daquilo que por eles vai sendo visto e ali se esconde. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro da cabeça possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que isso signifique, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi necessário primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro intuiu que daquele fragmento de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca ou uma coisa a que chamaria ídolo.

O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo agora, quando nos parece que passou adiante delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar numa ferramenta, a dilaceração aguda do raspador, a mordedura do ácido na chapa, a vibração contida de uma folha de papel deitada, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores. A verdade é que o cérebro não é tão entendido em cores quanto se supõe. É certo que vê mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas muitas vezes sofre do que poderemos designar por dificuldades de orientação na hora de converter o que viu em conhecimento.

Graças à segurança inconsciente com que a duração da vida acabou por beneficiá-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que chama elementares e complementárias, mas perde-se imediatamente, perplexo, duvidoso, quando experimenta formar palavras que possam servir de rótulos ou dísticos explicativos de algo inefável, de algo indizível, aquela cor ainda não nascida do todo que, com o assentimento, a cumplicidade e não raro a surpresa dos próprios olhos, as mãos e os dedos vão inventando e que provavelmente nunca chegará a ter o seu justo nome. Ou talvez o tenha já, mas esse só as mãos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de música, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque só com esse saber invisível dos dedos se poderá alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiado no que os olhos julgaram ter visto, o cérebro da cabeça afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia é branca, ou amarela, ou fulva, ou cinzenta, ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vêm os dedos e, com um movimento de recolha, discreto e antigo, levantam da areia todas as cores existentes no mundo.

O que parece único é plural, o que é plural sê-lo-á ainda mais. Não é menos verdade, contudo, que na fulguração exaltada de um só tom, ou na sua musical modulação, estão presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que já têm nome como os das que ainda o esperam, da mesma maneira que uma superfície de aparência lisa e plana poderá estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na história do mundo. Toda a arqueologia de materiais é, bem o sabemos, uma arqueologia humana. O que esta gravura esconde e mostra é o trânsito de ser no tempo e a sua passagem pelos espaços, os sinais dos dedos, as raspaduras das unhas, as cinzas e os tições das fogueiras apagadas, os ossos próprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se vão distanciando e perdendo uns dos outros. Este grão que aflora à superfície é uma memória, esta depressão a marca que ficou de um corpo deitado. O cérebro perguntou e pediu, a mão respondeu e fez."

 * Texto do catálogo de exposição de David de Almeida no Círculo de Bellas Artes,  Madrid, em 2002 (escrito em 1999)




"Breve biografia:
David de Almeida nasceu em S. Pedro do Sul em 1945. Frequentou, na Escola António Arroio, o Curso de Gravador Litógrafo e na Gravura – Cooperativa de Gravadores Portugueses um curso de Gravura em metal sob a orientação de Maria Gabriel. Subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, estagiou nos Moinhos do Vale do Lagat, em França, no sentido de se especializar na feitura manual de papel. Cursou holografia no Goldsmith College (London University) e estagiou com Stanley Hayter no Atelier 17 em Paris, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Artista vastamente premiado, do seu currículo fazem parte inúmeras exposições individuais em Portugal e no estrangeiro, intervenções em espaços públicos e representação em colecções e museus."

Dedicatória "Obrigado, David"
Inscrita no site da Fundação José Saramago, 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

João Maurício “Violant” pinta mural sobre Saramago na "Escola EB 2/3 Martins Correia" Golegã

"Suspenso num mundo de sonho"


"João Maurício “Violant” pinta Saramago gigante em escola da Golegã

"O “artista de rua” João Maurício “Violant”, de Riachos, continua a deixar a sua marca pelas paredes e muros da região. Desta vez pintou um quadro gigante de Saramago “suspenso num mundo de sonho” numa parede do antigo pavilhão da Escola EB 2,3 Martins Correia, na Golegã, concelho de origem do Nobel da Literatura, que nasceu na Azinhaga.
A pintura foi proposta à Fundação Saramago, que a rejeitou. A Escola Martins Correia acabou por aceitar o desafio do pintor que pintou uma área de 10×20 metros. Segundo João Maurício, este quadro pretende mostrar que Saramago, apesar da sua origem conseguiu sustentar-se nos seus ideais para se tornar num grande escritor. Os pilares são ao mesmo tempo uma alusão ao nome da mulher do Nobel, Pilar del Rio, e também ao livro “A Viagem do Elefante”, sendo que, neste caso, os pilares são as patas dos elefantes. Violant diz-se surrealista e sustenta a sua arte graças ao apoio financeiro da sua mãe, a sua “mecenas”, como lhe chama. Está a frequentar o mestrado de Artes Plásticas e Multimédia em Santarém. Já pintou dezenas de “quadros” semelhantes por toda a região. Está a ultimar um trabalho em Santarém, na zona da Senhora da Guia."


Discurso de Pilar del Río


"Pilar del Río inaugura mural de João Maurício de homenagem a José Saramago"

"Pilar del Río, viúva de José Saramago e Presidente da Fundação com o nome do marido, inaugurou esta manhã, na Escola Mestre Martins Correia na Golegã, um mural de grandes dimensões de homenagem ao Nobel da literatura da autoria de João Maurício (Violant) na parede do Pavilhão Desportivo.
Pilar del Río manifestou-se impressionada com a dimensão do mural e deu os parabéns ao autor pela criatividade da obra e pela “forma como vestiu Saramago, com uma roupa que ele nunca usaria…”, gerando uma gargalhada na plateia.
Todas as forças vivas da Golegã, autarcas e responsáveis escolares enalteceram a iniciativa e os vários apoios reunidos para a concretização deste projecto que homenageia um filho do concelho da Golegã e mais concretamente da freguesia da Azinhaga.
A cerimónia contou ainda com a actuação do Coral Cantar Nosso e do Rancho Folclórico da Azinhaga e a leitura de poemas por alunos da escola."

Pilar del Río com o artista plástico João Maurício (Violant)