Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 25 de abril de 2020

"A Noite" - Peça de teatro, 1979






"A Noite" - Peça de teatro, 1979





















Sinopse que pode ser consultada e recuperada na página da Fundação José Saramago


«Depois de ter feito jornais, escreveu sobre eles. Foi em “A Noite”, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de Abril. A acção passa-se na redacção de um jornal em Lisboa e autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.” Nem outra coisa seria de esperar. A ironia passa também pela história desta noite em que administradores e redactores entram em conflito. Uns a gritar que a máquina “há-de parar” e outros a defender que ela “há-de andar”. Quando o escreveu, Saramago já sabia que, para o bem e para o mal, a máquina tinha continuado a andar. “A Noite” chegou aos palcos em Maio de 1979 pelo Grupo de Teatro de Campolide. Com encenação de Joaquim Benite e direcção musical de Carlos Paredes, a peça contava, entre outros, com a participação de António Assunção no papel do chefe de redacção Abílio Valadares.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

25 de Abril - Continuar Abril - Continuar Saramago


Três obras emblemáticas de José Saramago 
onde o despontar e a presença do 25 de Abril de 1974 marca presença de forma muito vincada. 
O senhor "H" do manual, 
a redacção e as rotativas de A Noite 
os Mau-Tempo no Lavre que resistem à ditadura da fome

25 de Abril de '74

sábado, 4 de janeiro de 2020

4 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Escreve-me António de Macedo, em nome da sua produtora de filmes, a Cinequanon, para saber se estou interessado em escrever o argumento de um audiovisual (...) sobre os vinte anos do 25 de Abril. (...) Tirando o «renome», o que isto quer dizer é que não me deixam respirar. Aceito? Não Aceito?" (...)

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago


sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril de 1974... Três visões da revolução dos cravos nas obras de José Saramago


"Levantado do Chão"

(...) «Todos os dias são iguais, e nenhum se parece. Pelo meio da tarde chegaram à vinha notícias que desassossegaram o pessoal, ninguém tinha certezas do que tivesse sido, Diz-se que há tropas em Lisboa, ouvi na rádio» (...) «Em dois tempos se desfez o ritmo do trabalho, a cadência da enxada passou a ser vergonhosa distracção, e Maria Adelaide não é menos que os outros, está de nariz levantado, curiosa» (...) «Neste lugar do latifúndio, tão longe do Carmo de Lisboa, não se ouviu um tiro nem anda gente a gritar pelos descampados» (...) « Ah, isso é que é uma revolução.» (...) «A circulação é de lá vem um, faz-se a viagem depressa, e de ansiedades ali mesmo se reduzem as mais instantes, há unanimidade de cobrador, motorista e passageiros, o governo foi a terra, acabou-se o Tomás e acabou-se o Marcelo, neste ponto desfaz-se o acordo geral, não se sabe bem, alguém falou em junta, mas os outros duvidam, junta não é nome de governo, junta é de freguesia» (...)
Caminho, 10.ª edição
Páginas 350 a 352

(Fotografia de Helena Mesquita, 
Avenida da Liberdade - Lisboa, 25 de Abril de 2015)


"A Noite"

"Torres (Exultando)
Aconteceu! Aconteceu! (...) É tudo verdade! Há tropas na Emissora, na Televisão, no Rádio Clube. E o Quartel-General, em S. Sebastião, está cercado. E outros locais, Fora de Lisboa, também. Eu escrevo a notícia. Esperem, é só um bocadinho, vai ser rápido. Eu não demoro... eu não demoro... (...) Pronto já está. Querem ouvir?

Director (Estendendo a mão)
Dê-me isso Torres. Não vai para a tipografia sem que eu veja.

Torres (Como se despertasse)
Não vale a pena, senhor director. Só escrevi o que acabei de dizer. Nem sequer afirmo que as tropas saíram à rua para derrubar o governo. Nem sequer isso, imagine. Esteja descansado. Sei muito bem que o senhor procura um pretexto.

Director (Intimativo)
Ordeno-lhe que me entregue esse papel! Olhe que se arrepende!

Jerónimo (Tirando simplesmente o papel da mão de Torres)
Não se arrepende, não, senhor director. Cuide o senhor de si, que bem vai precisar, (...) Vamos, rapazes. Já ganhámos a nossa noite. (...)

(...)

Todos Juntos (Em tons diferentes)
A máquina já está a andar!

Grupo do Administrador (Começando em surdina e alternado com o grupo de Torres)
Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar! Há-de parar!

Grupo de Torres (Mesmo jogo)
Andar! Andar! Andar! Andar! (O ruído da rotativa cresce.)"
Caminho, 2.ª edição
Páginas 112 a 115

(Fotografia, momentos de tensão entre as tropas 
estacionadas no Terreiro do Paço e marinha no Rio Tejo, 25 de Abril de 2015)

"Manual de Pintura e Caligrafia"
"O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, os abraços, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo. Estou neste momento sozinho: M. foi encontrar-se com alguém do Partido, não sei onde. Vai acabar a clandestinidade. O meu auto-retrato já esta muito adiantado. Dormíamos em minha casa, M. e eu, quando o Chico, noctívago, telefonou, aos gritos, que ouvíssemos a rádio. Levantámo-nos de um salto (estás a chorar, meu amor?): «Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa...» Abraçámo-nos (meu amor, estás a chorar), e embrulhados no mesmo lençol, abrimos a janela: a cidade, oh cidade, ainda noite por cima das nossas cabeças, mas já uma claridade difusa ao longe. Eu disse: «Amanhã vamos buscar o António.» M. apertou-se muito contra mim. «E um dia destes dar-te-ei uns papeis que aí tenho. Para leres.» «Segredos?», perguntou ela, sorrindo. «Não, papeis. Coisas escritas.»"
Caminho, 4.ª edição
Página 311