Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"Vontades Uma leitura de Memorial do Convento" de José Santa-Bárbara

Capa da edição

José Santa-Bárbara

Encontro de "Josés"

Momentos



Baltasar Mateus o Sete-Sóis


"Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda." - Memorial do Convento

Rei D. João V - "Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça." - Memorial do Convento

Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas

domingo, 24 de abril de 2016

Cartaz de "Blimunda" de Azio Corghi, ópera baseada no "Memorial do Convento" de José Saramago (Teatro Alla Scala, Milão - 1990)

Teatro Alla Scala

"Blimunda" de Azio Corghi, ópera baseada no "Memorial do Convento" de José Saramago

22 de Maio de 1990

Cartaz de apresentação do espectáculo, depositado na Fundação José Saramago e que faz parte da exposição permanente "José Saramago: A semente e os frutos"

"Blimunda, o Orfeu no feminino ou passagem de Blimunda" por Itália, 
por Maria Armandina Maia

O artigo de Maria Armandina Maia, publicado na revista "Camões  Revista de Letras e Culturas Lusófonas" (n.º3, Outubro-Dezembro de 1998), pode ser recuperado aqui,

"Blimunda", a ópera lírica em três actos que às 21.30 do dia 20 de Maio de 1990 estreava no Teatro Lírico de Milão, tinha a assinatura do compositor italiano Azio Corghi, autor de uma obra consagrada, que conhecera representações nos mais prestigiados teatros e salas de concerto, também a nível internacional. Na obra deste compositor, responsável pela Cátedra de Composição no Conservatório de Milão, colaborador da Fundação Rossini e da Casa Ricordi, ocupavam lugar de indiscutível relevo as obras musicais que resultavam de incursões pelo mundo literário, sobretudo com a composição Gargantua, experiência de tal modo notável que levaria o Teatro alla Scala de Milão a confiar-lhe o projecto da ópera lírica Blimunda, extraída do romance de José Saramago, Memorial do Convento.
O autor do Memorial tinha, por essa altura, três obras suas publicados em Itália: Memoriale del Convento, Feltrinelli, Milano, 1984; La Zattera di Pietra, Feltrinelli, 1987; e Storia dell'Assedio di Lisbona, Bompiani, 1990, traduções assinadas por Rita Desti (com excepção do Memoriale del Convento, fruto de uma tradução a quatro mãos, de Rita Desti e Carmen Radulet).
Para o vasto e exigente público italiano, Saramago era o autor português mais conhecido depois do "fenómeno" Pessoa, o primeiro a merecer destaque e interesse de casas editoras que constituíam um selo de garantia. No entanto, era junto de um núcleo de intelectuais que José Saramago assumia foros de verdadeira revelação, pela qualidade e ineditismo da sua palavra literária.
Ligado, na sua maior parte, a Instituições Universitárias, este grupo promovia a obra e o escritor que, pela sua mão, conheceu cidades como Perugia, Florença, Roma, Milão e Turim, em conferências e reuniões que se multiplicavam.
Foi, aliás, num destes momentos que conheceu Azio Corghi, que, impressionado pela atmosfera criada no Memorial, confessou a José Saramago o seu desejo de "contar a história de um Orfeu no feminino". A resposta de Saramago baptizaria a ópera. "Chamê-la-emos Blimunda".
Num exercício de grande unidade, escritor e compositor intersectaram os respectivos saberes, dando lugar ao magnífico trabalho que é o libreto de Blimunda, descrito pela crítica Lidia Bramani (casa Ricordi), como "uma estrutura em que são determinantes a voz recitante, solistas, oiteto madrigalista, coro, orquestra, electrónica, que se intersectam ao longo de linhas que se fragmentam e refazem, entrecruzando-se, distanciando-se, por vezes tocando-se ao de leve em três espaços musicalmente e cenograficamente distintos: o espaço acústico, o espaço imaginário e o espaço real".
Mas a estreia da ópera não se limitou em Milão ao público da sala que na noite de 20 de Maio encheu o Teatro Lírico, para aplaudir uma obra que, num só tempo, nos deslumbrava e quase estarrecia pela opulência, grandiosidade e magnificência, mas também pelo seu próprio e surpreendente avesso, na contenção da gestualidade, na pureza dos sons, no acenar dos sentidos.
Nos dias que a antecederam, numa organização promovida pela Universidade de Milão, tinha lugar o Colóquio Viaggio intorno al Convento di Mafra, na belíssima "Sala di Rapprezantanza", cujo programa era completado por um concerto de homenagem a autores portugueses do tempo – Carlos Seixas, Domingos Bomtempo e Francisco Lacerda – excelentemente interpretados por um grupo do Conservatorio Verdi, ao qual a Fundação Calouste Gulbenkian, num assinalável esforço de colaboração, facultara, num curtíssimo espaço de tempo, as partituras das obras.
Um vasto público ouviu, entre outros, textos de Piero Ceccucci: Il "Memoriale del Convento" nell'itinerario narrativo di José Saramago e Eduardo Lourenço: O Memorial da história humana como história santa.
De registar, sobretudo, as intervenções dos dois autores, Azio Corghi e José Saramago, que se prolongariam num longo debate com o público, em que falaram longamente do(s) sonho(s) de cada um: "Eu acho que, depois de o padre Bartolomeu Gusmão ter inventado a "passarela" e eu ter inventado a "máquina para viajar", é chegado o momento de o Maestro Corghi explicar a sua obra". A resposta de Corghi deixa clara a unidade da travessia entre a obra e a ópera: "História e história tenderiam para harmonizar-se numa síntese até exigirem, tornando-a "quase necessária", a intervenção da música".
Voltando às palavras de Lidia Bramani "A extraordinária coerência estrutural do Memorial do Convento permite compreender globalmente o pensamento do escritor. Mantendo um desenrolar de sequências, Saramago torna o tempo narrativo centrífugo, dissolvendo a rigidez deste a partir do interior. O tempo psicológico, individual e colectivo vence o da narração convencional graças a uma prosa moderníssima, barroca, opulenta, transbordante de rasgos de projecção, simultaneamente capazes de uma suavíssima essencialidade".
Foi assim no tempo de estreia de Blimunda em Itália. E foi também assim que José Saramago se fez Nobel: com uma estatura de excelência e humildade que ampliou, indelevelmente, o espaço da literatura e da cultura portuguesas no mundo.




sábado, 12 de março de 2016

"Aproximação a uma textura do pintor" - Sobre José Santa-Bárbara

"Aproximação a uma textura do pintor" 

A unidade e o plural
Algumas das obras de José Saramago apresentam a curiosidade de as suas personagens serem identificadas e incorporadas na acção desprovidas de nome próprio. É o caso do "Manual de Pintura e Caligrafia" com a simples e residual identificação através de letras maiúsculas, ou os dois "Ensaios", o da Cegueira e Lucidez, e também em "As Intermitências da Morte". Nestas obras existem características da personagem que se sobrepõem ao seu nome, entre outros são o caso por exemplo do violoncelista, da mulher do médico, do presidente da câmara. As personagens foram assim identificadas ao mesmo tempo que o autor criou espaço e estrutura para uma aproximação à causa (ou acção) em detrimento da sua nomeação. A causa ou a acção é plural e não reduzida pelo individuo, lá caberão todos os nomes. 
Ao invés, outras obras como o "Levantado do Chão" ou o "Memorial do Convento", revestem-se de um carácter plural, onde a nomeação dos seus interpretes são acima de tudo sinónimo de unificação de classes da sociedade que se encontram menos representadas ou em posição de subalternidade e dependência para com os poderes instituídos. Será transversal e constante em toda a sua obra, as vozes e palavras dos considerados mais fracos e desprotegidos. As "vozes" e a coloquialidade que se manifestam em diversos momentos; por exemplo, nas lutas dos camponeses das terras alentejanas ("Levantado do Chão") ou dos operários na construção do Convento de Mafra ("Memorial do Convento"), ultrapassam a dimensão física que cada nome pode personalizar enquanto unidade ou individuo, para se revestir de uma dimensão absolutamente colectiva.
Em suma, a atribuição de um nome à personagem ou a recusa da sua nomeação, produzirão o mesmo efeito - a transmissão da voz e da mensagem de todos através de um, seja ele o "cão das lágrimas" ou a "Blimunda".

José Santa-Bárbara    
A obra do artista plástico e pintor José Santa-Bárbara (que aqui recupero duas pinturas emblemáticas), no que se refere à sua abordagem da temática Saramaguina, é no meu entendimento sem querer de alguma forma ser redutor, a soma das vontades e desassossegos que José Saramago gerou em cada personagem. 
Algo que me fascina profundamente nesta complementaridade entre "Josés", Saramago e Santa-Bárbara, e que me permite perceber a existência de uma atmosfera de cumplicidade, absoluto conhecimento mútuo das obras e quase transferência de conteúdos (pintor e escritor), é a forma como o pintor consegue absorver o espírito, tanto ao nível da cena do livro e personagem, como da obra em termos gerais, para dar corpo e textura visual a algo que em geral não é identificável ou identificado por palavras do escritor e transportar assim para a tela o corpo de um sentimento ou sensação de personagem.

Aqui presto a minha homenagem ao artista José Santa-Bárbara, criador destas sensações que aqui quis deixar testemunho.

Rui Santos (12/03/2016)   

Aqui deixo o enquadramento das pinturas com alusão a fonte do texto
"O cão das Lágrimas" Pintura a óleo de José Santa-Bárbara

(...) "A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu tinha diante de si um grande mapa (...) 

(...) Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou estão muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão. O certo é que entraram juntos na loja, o cão das lágrimas não estranhou ver pessoas estendidas no chão, tão imóveis que pareciam mortas, estava habituado, às vezes deixavam-no dormir no meio delas, e quando era hora de se levantarem, quase sempre estavam vivas. (...)

(...) Acordem, se estão a dormir (...) 

(...) Tem, porém, a palavra comida poderes mágicos, mormente quando o apetite aperta, até o cão das lágrimas, que não conhece linguagem, se pôs a abanar o rabo, o instintivo movimento fê-lo recordar-se que ainda não tinha feito aquilo a que estão obrigados os cães molhados, sacudirem-se com violência, respingando quanto estiver ao redor (...)

in, "Ensaio sobre a Cegueira"
Caminho, páginas 226 e 227 (1995)


Blimunda "Nunca te olharei por dentro" - Óleo sobre Tela (60*73cm)
de José Santa-Bárbara (Informação livro/catálogo "Vontades")

(...) "Se começa a chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósia, Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por, trás delas, e Blimunda respondeu, Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti está, Ou de ti, Ou de mim, pudesses tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem, Mas tu nunca viste a minha nuvem, nem a tua, Ninguém pode ver a sua própria vontade, e de ti jurei que nunca te veria por dentro, mas tu, Baltasar Sete-Sóis, minha mãe não se enganou, quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro, Se eu morrer antes de ti, peço-te que me vejas, Morrendo tu, vai-se-te a vontade do corpo, Quem sabe. (...)

in, "Memorial do Convento"
Caminho, página 139 (1982, 20.ª edição de 1990)

domingo, 6 de dezembro de 2015

"O destino de um nome" Texto de José Saramago inserido no libreto "Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos - 1991"

"O destino de um nome" José Saramago

(Libreto "Blimunda" - Teatro Nacional de São Carlos / 1991)

"Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minucioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico, à espera de um sinal de aceitação que haveria de começar na imagem decifrada pelos olhos para ir consumar-se, por ignoradas razões, numa parte adequadamente sensível do cérebro.
Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama hoje assim. E tão-pouco é verificável a hipótese de tratar-se de um apelativo que em tempos tivesse merecido o favor das famílias e depois caísse em desuso: nenhuma personagem feminina da História do meu país, nenhuma heroína de romance ou figura secundária levou alguma vez tal nome, nunca estas três sílabas foram pronunciadas à beira duma pia batismal ou inscritas nos arquivos do registo civil. Também nenhum poeta, tendo de inventar para a mulher amada um nome secreto, se atreveu a chamar-lhe Blimunda. Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo."



Páginas 8 a 11

"Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado. Blimunda não tinha outro recurso que chamar-se Blimunda. Ou talvez não seja apenas assim. Regressando ao vocabulário, e mesmo sem recair em excessos de minúcia, posso observar como abundam os nomes de pessoa extraordinários e extravagantes, que ninguém hoje quereria usar e antes só excecionalmente, e contudo não foi a nenhum deles que escolhi: rareza e estranheza não seriam, afinal, condições suficientes. Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei hoje a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse outro misterioso caminho que terá levado Azio Corghi a denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se na própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom de que não se sente merecedor, a recolhê-lo, num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente." 
In libreto de Blimunda, Teatro Nacional de São Carlos, 1991


(Retrato de Azio Corghi, páginas 32 e 33)






terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Citador #24 - Blimunda de Jesus, Blimunda mulher... Sete-Luas...

Citador #24
Blimunda
(desenho representativo de Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis)


(...) Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem, e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. (...)

Página 102

(Quadro de José Santa-Bárbara, da exposição "Vontades")


(...) Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo. (...)

Página 331

em, "Memorial do Convento
Caminho, 20.ª edição

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Bartolomeu Lourenço de Gusmão... o padre "Voador" doutorado em recolha de vontades

Pequenos episódios identificativos da personagem

Em "Memorial do Convento" (Caminho, 20.ª edição)

(...) "Diz o padre Bartolomeu Lourenço, No mundo tenho-te a ti, Blimunda, a ti, Baltasar, estão no Brasil os meus pais, em Portugal meus irmãos, portanto pais e irmãos tenho, mas para isto não servem irmãos e pais, amigos se requerem, ouçam então, na Holanda soube o que é o éter, não é aquilo que geralmente se julga e ensina, e não se pode alcançar pelas artes da alquimia, para ir buscá-lo lá onde ele está, no céu, teríamos nós de voar e ainda não voamos, mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres, Nesse caso, é a alma, concluiu Baltasar, Não é, também eu, primeiro, pensei que fosse a alma, também pensei que o éter, afinal, fosse formado pelas almas que a morte liberta do corpo, antes de serem julgadas no fim dos tempos e do universo, mas o éter não se compõe das almas dos mortos, compõe-se, sim, ouçam bem, das vontades dos vivos." (...)

Páginas 123 e 124
(Iluminura de Bartolomeu Lourenço de Gusmão)

(...) "Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de Coimbra, já é doutor em cânones, confirmado de Gusmão por apelativo onomástico e firma escrita, e nós, quem somos nós para nos atrevermos a taxá-lo do pecado de orgulho, maior bem nos faria à alma perdoar-lhe a falta de humildade em nome das razões que deu, assim possam ser-nos perdoados os nossos próprios pecados, esse e outros, que ainda o pior de tudo não será mudar de nome, mas de cara, ou de palavra. De palavra e cara não parece ele que tenha mudado, para Baltasar e Blimunda de nome também não, e se el-rei o fez fidalgo capelão de sua casa e académico da sua academia, são de tirar e pôr essas caras e palavras, que, com o nome adoptado, ficam ao portão da quinta do duque de Aveiro, e não entram, embora se adivinhe o que fariam os três se chegassem à vista da máquina, diria o fidalgo que são trabalhos mecânicos, esconjuraria o capelão a obra diabólica ali manifesta, por ser isto coisa do futuro se retiraria o académico, para só voltar quando fosse coisa passada." (...)

Página 159


(Imagem da ilustração da Passarola)


Via Wikipédia, alguma informação sobre a vida e obra de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o padre "Voador", em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu_de_Gusmão

"Bartolomeu Lourenço de Gusmão, SJ (Santos, dezembro de 16851 — Toledo, 18 de novembro de 1724), cognominado o padre voador, foi um sacerdote secular, cientista e inventor luso-brasileiro nascido na capitania de São Vicente, em Santos, na colónia portuguesa do Brasil, famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, a que chamou de "passarola".
Primeiros anos[editar | editar código-fonte]
Foi baptizado simplesmente com o nome de Bartolomeu Lourenço, em 19 de Dezembro de 1685, na Igreja Paroquial da vila de Santos pelo padre António Correia Peres. Era o quarto filho de Francisco Lourenço Rodrigues e Maria Álvares. Será mais tarde, em 1718, que adopta a si o apelido de Gusmão em homenagem ao preceptor e protector jesuíta Alexandre de Gusmão2 .
O casal teria tido ao todo doze descendentes, seis homens e seis mulheres, um dos quais, Alexandre de Gusmão, viria a se tornar importante diplomata no reinado de D. João V. Já a maioria dos seus irmãos optou ou foi orientada pelos pais a devotar-se à vida eclesiástica, dentre esses, Bartolomeu.
O menino cursou as primeiras letras provavelmente na própria Capitania de São Vicente, no Colégio São Miguel, então o único estabelecimento educacional da região. Prosseguiu os estudos na Capitania da Baía de Todos os Santos. Aí ingressou no Seminário de Belém, em Cachoeira, onde teria início a sua profícua carreira de inventor.
A edificação, situada sobre um monte de cem metros de altura, possuía precário abastecimento de água, que tinha que ser captada e transportada em vasos a partir de um brejo subjacente. Percebendo o problema, Bartolomeu inteligentemente planejou e construiu um maquinismo para levar a água do brejo até o seminário por meio de um cano longo. O invento, testado com absoluto sucesso, foi considerado admirável e de grande utilidade, inclusive pelo próprio reitor e fundador do seminário, o renomado sacerdote Alexandre de Gusmão.
Terminado o curso no Seminário de Belém em 1699, Bartolomeu transferiu-se para Salvador, capital do Brasil à época, e ingressou na Companhia de Jesus, de onde saiu antes de ser ordenado, em 1701.
Viajou para Portugal, onde chegou já famoso pela memória extraordinária, ficando hospedado em Lisboa, na casa do 3º Marquês de Fontes, que se impressionara com os dotes intelectuais do jovem. Contava ele então com apenas dezesseis anos.
Em 1702, Bartolomeu retornou ao Brasil e deu início ao processo de sua ordenação sacerdotal. Três anos depois ele requereu à Câmara da Bahia a patente para o seu aparelho inventado anos antes - o invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar. A patente foi expedida em 23 de março de 1707 pelo rei Dom João V. Foi essa a primeira patente de invenção outorgada a um brasileiro.
Em 1708, já ordenado padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal. Logo após sua chegada, em 1º de Dezembro matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Passados alguns meses, contudo, abandonou a faculdade para instalar-se em Lisboa, aonde foi recebido com sumo agrado pelo Rei Dom João V e pela Rainha Maria Ana de Áustria, apresentado que fora aos soberanos por um dos maiores fidalgos da Corte, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes. Esse homem era ninguém menos que o 3º Marquês de Fontes, o mesmo que o havia recolhido à sua casa aquando da sua primeira estada em Portugal.
Na capital portuguesa o padre Bartolomeu Lourenço pediu patente ou "petição de privilégio3 " para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão –, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 17094 . O fato causou celeuma na cidade e a notícia rapidamente se espalhou para alguns reinos europeus. O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas que, em geral, o retratavam como uma barca com formato de pássaro, ficou conhecido como “Passarola”.
Não só no além-fronteiras que o seu prestígio pelo seu saber deve ter aumentado imenso pois, em 1722, é nomeado fidalgo-capelão da casa real portuguesa.

A Passarola
As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogênito do 3º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu. O 8º Conde de Penaguião e futuro 2º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois embusteiros.
Toda essa trama seria descoberta anos depois por um poeta italiano, Pier Jacopo Martello (1625 – 1727), e revelada por ele na edição de 1723 do livro Versi e prose, em que fazia um longo e meticuloso histórico das tentativas do homem para voar, das mais antigas às mais recentes daquele tempo.

As experiências com balões
Bartolomeu de Gusmão apresenta os seus protótipos à corte de D. João V.
Em Agosto, finalmente, Bartolomeu Lourenço fez perante a corte portuguesa cinco experiências com balões de pequenas dimensões construídos por ele: na primeira, realizada no dia 3 na Casa do Forte (Palácio Real), o protótipo utilizado pegou fogo antes de subir; na segunda, feita no dia 5 noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato, provido no fundo duma tigela com álcool em combustão, se elevou a 4 metros, quando começou a arder ainda no ar, sendo imediatamente derrubado por dois serviçais armados de paus, receosos dum incêndio aos cortinados do recinto; na terceira, feita no dia 6 novamente na Casa do Forte, o balão, contendo no interior uma vela acesa, logrou fazer um voo curto, mas se queimou no pouso; na quarta, feita no dia 7 no Terreiro do Paço (hoje Praça do Comércio), o balão elevou-se a grande altura, pousando lentamente minutos depois; na quinta, feita no dia 8 na Sala das Audiências, no interior do Palácio Real, o globo subiu até o tecto do aposento, aí se demorando, quando enfim desceu com suavidade.

Em 3 de Outubro de 1709, na ponte da Casa da Índia, o padre fez nova demonstração do invento. O aparelho utilizado era maior que os anteriores, mas ainda incapaz de carregar um homem. A experiência teve êxito absoluto: o aeróstato subiu alto, flutuou por um tempo não medido e pousou sem estrépito.

Cinco testemunhas registraram essas experiências: o cardeal italiano Miquelângelo Conti, eleito papa em 1721 sob o nome de Inocêncio XIII, os escritores Francisco Leitão Ferreira e José Soares da Silva, nomeados membros da Academia Real de História Portuguesa em 1720, o diplomata José da Cunha Brochado e o cronista Salvador Antônio Ferreira, portugueses.

Em 1843 o escritor Francisco Freire de Carvalho disse haver tomado conhecimento, por intermédio de um ancião chamado Timóteo Lecussan Verdier, de uma outra experiência aerostática, assistida pelo diplomata português Bernardo Simões Pessoa, em que o balão partiu da Torre de São Roque e caiu junto à costa da Cotovia por detrás de S. Pedro d’Alcântara. Segundo Carvalho, Verdier, por sua vez, assegurava que o relato da ascensão lhe fora transmitido pelo próprio Pessoa em tempos muito anteriores ao ano de 1783, quando dos primeiros voos de balões na França.

Lamentavelmente, todas essas experiências, embora assistidas por ilustres personalidades da sociedade portuguesa da época, não foram suficientes para a popularização do invento. Os pequenos balões exibidos, além de não haverem sido encarados como inovação importante ou útil, por serem desprovidos de qualquer tipo de controle - eram levados pelo vento -, foram considerados perigosos, pois podiam, como se vira, provocar incêndios. Esses factores desestimularam a construção de um modelo grande, tripulável.

Bartolomeu Gusmão e a Inquisição
Neste templo de São Romão mártir repousam os restos de Dom Bartolomeu Lourenço de Gusmão presbítero português nascido na cidade de Santos - Brasil - no ano de 1685, primeiro inventor do aérostato.
Faleceu nesta capital a 19 de Novembro de 1724. A cidade de Toledo dedica-lhe esta lembrança. epitáfio no átrio da igreja de São Romão em Toledo
Entre 1713 e 1716 viajou pela Europa. Em 1713 registrou na Holanda o invento de uma “máquina para a drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar” (patente que só veio a público em 2004 graças a pesquisas realizadas pelo arquivista e escritor brasileiro Rodrigo Moura Visoni).5 Viveu em Paris, trabalhando como ervanário para se sustentar, até que encontrou seu irmão Alexandre, secretário do embaixador de Portugal na França.
O padre Bartolomeu de Gusmão voltou a Portugal, mas foi vítima de insidiosa campanha de difamação. Acusado pela Inquisição de simpatizar com cristãos-novos, foi obrigado a fugir para a Espanha, no final de Setembro de 1724, com um seu irmão mais novo, Frei João Álvares, pretendendo chegar à Inglaterra.
Segundo o testemunho que, mais tarde, João Álvares daria à Inquisição espanhola, Bartolomeu de Gusmão ter-se-ia convertido ao judaísmo, em 1722, depois de atravessar uma crise religiosa. O relato de João Álvares ao Santo Ofício, ainda que deva ser considerado com cautela, mostra, segundo Joaquim Fernandes, aspectos místicos, messiânicos e megalómanos do "padre voador".
Em Toledo (Espanha), Bartolomeu adoece gravemente, recolhendo-se ao Hospital da Misericórdia daquela cidade, onde veio a falecer em 18 de Novembro de 1724, aos 38 anos. Antes de morrer, porém, confessou-se e recebeu a comunhão, conforme o rito católico, e assim foi sepultado na Igreja de São Romão, em Toledo. Foram feitas, ao longo de décadas, várias tentativas para localizar a sua tumba, o que só ocorreu em 1856. Parte dos restos mortais foi transportada para o Brasil e se encontra, desde 2004, na Catedral Metropolitana de São Paulo.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"Baltasar Mateus, o Sete-Sóis" em o "Memorial do Convento" e pintura de José Santa-Bárbara

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis - pintura de José Santa-Bárbara

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, apresentado e depois, na aproximação de Blimunda de Jesus, a Sete-Luas

"Memorial do Convento", Caminho - 20.ª edição

(...) "Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com perda de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis fizeram sair de Badajoz. A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em Barcarrota e pouco gosto para gozar dele, que não tinha valido a pena marchar dez léguas para lá e correr outras tantas para cá, deixando no campo tanta gente morta e metade da mão de Baltasar Sete-Sóis. Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força do garrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado." (...)

Página 35

(Imagem do catálogo da exposição "Vontades" de José Santa-Bárbara)

Sebastiana Maria de Jesus, mão de Blimunda, é uma das cento e quarenta e quatro almas que sofrerão a "justiça" neste auto-de-fé. Sebastiana é um quarto de cristã-nova, diz que tem visões e revelações, mas o tribunal considera-a fingida, blasfema e herética. Amordaçada vai na fila, será açoitada para gáudio do povinho e enviada para o degredo da Angola, por oito anos.
Vê Blimunda junta ao padre Bartolomeu Lourenço, pensa «não fales, olha só»... ao que Blimunda, dirá ao padre «ali vai minha mãe», e de seguida perguntará ao homem alto que está perto «que nome é o seu?»

(...) "Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira
no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber E queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo." (...)

Páginas 55 e 56

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Blimunda "Nunca te olharei por dentro"...

"Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração..."



(...) "Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, E disse, Nunca te olharei por dentro. (...)

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 57

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Dados biográficos de Azio Corghi e sua frutuosa colaboração nas obras de José Saramago



Azio Corghi

Referência a Azio Corghi, no jornal El Pais (Espanha)

"El escritor José Saramago estrena en Alemania una ópera sobre el integrismo religioso"

de Stefan Scheuermann, Munster (2 de Novembro de 1993)

"La opera Divara, agua y sangre, con partitura del compositor italiano Azio Corghi y libreto del portugués José Saramago se estrenó el pasado domingo en el teatro Stdtische Bühnen de Münster (Alemania). Basada en la obra teatral del escritor titulada In nomina Dei, gira en torno al integrismo religioso y la tolerancia, basándose en el movimiento anabaptista que pretendió establecer el imperio milenario de Sion en la ciudad de Münster entre 1534 y 1536. La obra ha sido realizada por encargo de la pequeña capital de Westfalia que celebra este año su 1.200 aniversario.

Se trata de la segunda colaboración de Saramago con Corghi, cuyo primer trabajo al alimón fue la opera Blimunda, basada también en una de sus novelas, Memorial do Convento, estrenada en la Scala de Milán y que obtuvo muy buenas críticas. El estreno de Münster al que asistieron compositor y libretista, puede ayudar a la promoción de la obra del escritor portugués en Alemania.Como viene siendo habitual en la obra de Saramago, que se define como un comunista ateo que "no ha tenido nunca una crisis religiosa y por tanto vive tan feliz como cuando nació", de nuevo en Divara se dedica a un tema religioso. Si hubo una pregunta inquietante en la Europa de principios del siglo XVI fue cuál era la manera más cómoda de pasar al otro mundo. Los nombres de Calvino o Martín Lutero aún permanecen en la memoria popular. Pero hubo cientos de teólogos, profetas y visionarios que anduvieron pescando almas por Europa. En 1527, uno de ellos, Melchor Hoffmann sembró la semilla del reformismo en la zona de Münster. La historia de sus seguidores, los anabaptistas, se presta como pocas a la dramatización, lo que han hecho autores como Emst Bloch y Friedrich Dürrenmatt, entre otros.

Dos líderes anabaptistas, Jan Matthys, el teórico, y Jan van Leiden, el rey de la nueva Jerusalén, establecieron en Münster un sistema colectivista, sin propiedad privada, en el que se practicaba la poligamia y el amor libre y en el que la única ley era el Evangelio. El personaje más interesante sin embargo, fue la mujer de Van Leiden, Divara, una magna mater que ha acaparado la atención de todos los que han escrito sobre aquel acontecimiento, ya que encarna a un pacífico mundo femenino opuesto a la crueldad de los hombres. El experimento acabó muy mal, el gobierno degeneró en despotismo y el redentor en dictador. Finalmente, las tropas del obispo de Münster acabaron con "la nueva Jerusalén" y en una matanza escalofriante, ejecutaron a centenares de herejes, restableciendo el orden tradicional.

Tragedia con banda sonora

La versión operística de Saramago-Corghi de esta apasionante historia, sin embargo, no aporta nada nuevo, quedándose en una tragedia con banda sonora en mal estado. La orquesta, bajo la batuta de Will Humburg y apoyada por sonidos pregrabados y numerosos altavoces, se limitó a emitir sonidos y ruidos. Los cantantes, entre largos recitativos, agudos extremos y numerosos gritos, arriesgaron la integridad de sus cuerdas vocales y la de los tímpanos del público. Hay una clave, que el propio Corghi explica en el programa de mano: la nota re simboliza a Cristo, mientras la es la muerte. El aficionado erudito provisto de un oído ejemplar podrá sumergirse en los problemas existenciales que nos azotan, pero alguien menos capacitado se queda con el susto provocado por los constantes cambios entre fortisimos y pianisimos o los efectos especiales, como la extracción de filetes del cuerpo del Rey de Jerusalén. La sofisticada puesta en escena de la ópera desconcertó al público."


Parte de interpretação, via Youtube
"Cruci-Verba" di Azio Corghi - 2012
per voce recitante, coro e orchestra
Orchestra della Svizzera italiana
diretta da Enrique Mazzola
voce recitante: Sonia Bergamasco


Biografia de Azio Corghi, via "Casa Ricordi",
em http://www.ricordi.it/catalogue/composers/azio-corghi/

"Azio Corghi was born at Cirié, near Turin. Until 1950 he divided his studies between those of painting and music. In 1956 he enrolled at the Conservatory of Turin, where he attended the classes of piano and music history held by M. Zanfi and Massimo Mila respectively. In 1962 he moved to Milan and attended the Conservatory of Milan, studying composition, choral music, conducting (choral and orchestral) and vocal polyphonic composition with Bruno Bettinelli, A. Bortone, A. Votto and G.Farina respectively. In 1967 he won the Ricordi-Rai competition with his Intavolature, which was performed at La Fenice in Venice. He taught at the Conservatory of Turin, then at the Conservatory of Milan. In 1973 the Fondazione Rossini of Pesaro and Casa Ricordi entrusted him with the preparation of the critical edition of Rossini’s L’italiana in Algeri. For the 1989-1990 season Blimunda, an opera with a libretto by the composer and José Saramago was staged at La Scala. A jury chaired by Goffredo Petrassi awarded him the “Omaggio a Massimo Mila” prize for his teaching activities. For the Rossini bicentenary he composed Suite dodo, after Rossini’s Péchés de vieillesse, while his ballet “un petit train de plaisir” was performed in Pesaro and broadcast live throughout the world. On 31 October 1993 Divara (“Wasser und Blut”), a music drama with a libretto by the composer and Saramago, was staged in Münster. He was appointed academician of Santa Cecilia, coordinator of the courses and professor of composition at the Accademia Petrassi. On the invitation of the 2nd “Umberto Micheli” International Piano Competition he composed the concerto study “...ça ira!”. For the Donizetti centenary celebrations he was commissioned to transcribe some ariettas from Nuits d’été à Pausilippe. Ona commission from La Scala, he composed Tat’jana, an opera based on Chekhov. In 2000, on a commission of the Rai Orchestra, he composed Amori incrociati, after the Decameron in a version by Aldo Busi. In 2001, for the Städtische Bühnen Münster he wrote Cruci-Verba, a reading and comment from Saramago’s Gospel according to  Jesus Christ on Liszt’s Via Crucis. For the Bellini centenary he composed “...malinconia, ninfa gentile” for the Teatro Massimo Bellini in Catania. The Accademia di Santa Cecilia chaired by Luciano Berio commissioned him to write De paz e de guerra, on a text by Saramago. On 8 July 2004, on a commission from the Accademia Chigiana, his ¿Pia?, a music-drama dialogue freely based on Marguerite Yourcenar’s Dialogue in the Swamp was produced at the Teatro dei Rozzi in Siena. In 2005 he wrote Il dissoluto assolto, a one-act piece of music theatre with a libretto by himself and Saramago, a co-production of the Teatro San Carlos of Lisbon and La Scala in Milan. On 29th January 2007 Filarmonica della Scala, conducted by Riccardo Chailly, world premiered Poema Sinfonico, a piece commissioned for the 25th anniversary of the orchestra. The Ensemble Punto It, to commemorate the 500th anniversary of the birth of Andrea Palladio, commissioned him Giocasta. The opera  is a reinterpretation (from a modern perspective in the libretto by Maddalena Mazzocut-Mis) of Sophocles’ Oedipus Rex, the tragedy that was performed in 1585 (with music by Andrea Gabrieli) to inaugurate the Teatro Olimpico and in this venue the opera took place on 19th June 2009."

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"Blimunda" a revista digital que também é nome de mulher



A revista digital "Blimunda", tem agora mais um canal de distribuição.
Pode ser encontrada nesta página do Facebook, em https://www.facebook.com/revistablimunda,
ou, através do seu local de origem, no site da Fundação José Saramago.
Ensaios e estudos, apresentações e novidades, de Saramago até onde a tinta de uma caneta nos pode transportar.



domingo, 21 de dezembro de 2014

"Memorial do Convento" - Era uma vez um rei, os homens que construíram o convento...

(ilustração da "passarola")


"Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra.
Era uma vez a gente que o construiu esse convento. 
Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes.
Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.
Era uma vez."

(Imagem aérea do Convento de Mafra)

"Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de Outubro do ano da graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram, ainda por acabar, é verdade, mas pela catadura se conhece o catacego. Não se descrevem tantas maravilhas, Álvaro Diogo não viu tudo, Inês Antónia tudo confundiu, Blimunda foi com eles, parecia mal não ir, mas não se sabe se sonha, se está acordada. Eram quatro da manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar no terreiro, às cinco formou a tropa, ardiam archotes por toda a parte, depois começou a amanhecer, bonito dia, sim senhores, Deus cuida bem da sua fazenda, agora se vê o magnífico trono patriarcal, ao lado esquerdo do pórtico, com as suas cadeiras e dossél de veludo carmesim, com guarnições de ouro,
o chão coberto de alcatifas, um primor, e numa credência a caldeirinha e o hissope, mais os restantes instrumentos, já se armou a procissão solene que dará a volta à igreja, el-rei vai nela, atrás os infantes e a fidalgaria, conforme as suas precedências, mas o principal da festa é o patriarca, benze o sal e a água, atira água benta às paredes, porventura não foi tanta quanta devia de ser, ou não cairia Álvaro Diogo de trinta metros daqui a poucos meses, e depois vai bater por três vezes com o báculo na porta grande do meio, que estava fechada, às três foi de vez, é a conta que Deus fez, abriu-se a porta e entrou a procissão, pena temos nós de que não entrem Álvaro Diogo e Inês Antónia, e também Blimunda, apesar do nenhum gosto, veriam as cerimónias, umas sublimes, outras tocantes, umas de derrubar-se prostradamente o corpo, outras de sublimar-se aceleradamente a alma, por exemplo, estar o patriarca escrevendo com a ponta do báculo, em montes de cinza dispostos no pavimento da igreja, os alfabetos grego e latino, parece mais obra de bruxedo, eu te talho e retalho, do que ritual canónico, como é também o caso de toda aquela maçonaria que além está, ouro moído, incenso, cinza outra vez,
sal, vinho branco numa garrafa de prata, cal e pó de pedra numa bandeja, uma colher de prata, uma concha dourada, sei lá que mais, não faltam hieroglifos, gatimanhos, passos e passes, para lá e para cá, óleos santos, benzimentos, relíquias dos doze apóstolos, doze, e nisto se passou a manhã e grande parte da tarde, eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de pontifical, que, claro está, levou o seu tempo, e não foi pouco, enfim chegou a termo, dali subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora, setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva, D. Tomás de Almeida recitando lá do alto as palavras da bênção, tendo boa vista percebe-se-lhe o mexer dos beiços, ouvidos é que não há que alcancem, havia de ser hoje, clamariam por todo o orbe, urbi et orbis, as trombetas electrónicas, voz verdadeira de Jeová que teve de esperar milénios para que enfim o ouvisse a terra, mas a maior sabedoria do homem ainda continua a ser contentar-se com o que tem, enquanto não inventa melhor, por isso é tão grande a felicidade da vila de Mafra e de quem lá está, bastam-lhe os gestos compassados da mão, de cima para baixo, da esquerda para a direita, o anel faiscante, os ouros e os carmesins resplandecentes,
as alvas cambraias, o retumbar do báculo sobre a pedra que veio de Pêro Pinheiro, lembram-se, vede como ela sangra, milagre, milagre, milagre, aquele foi o último gesto, tirar o calço, retirou-se o pastor com o séquito, as ovelhas já se levantaram, a festa continuará, oito são os dias da sagração e este é o primeiro."

"Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição
Páginas 350 a 352

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O feminino no universo de Saramago, pelas suas palavras



(imagem alusiva à personagem Blimunda, do "Memorial do Convento, alimentando-se e assim evitando, "ver por dentro" de Baltasar)


(...) O personagem central da história é outra vez uma mulher. Suponho que às minhas leitoras lhes agradará que isto seja uma constante, porque verdadeiramente, como personagens, quem sempre salva os meus livros são as mulheres. Não é que os homens não sejam pessoas boas, que o são e podem sê-lo, mas ao lado delas aparecem sempre como pequenos aprendizes. Quero clarificar algo que já assinalei antes, a propósito do facto de não se encontrarem heróis nos meus romances, apenas gente normal, que vive vidas normais, embora no caso de Baltasar e Blimunda eles assistam com naturalidade a certos prodígios. Reflicto e escrevo sobre pessoas comuns porque essa é a gente que conheço. É provável que as mulheres que invento não existam, talvez não sejam mais do que projectos, talvez me seja mais fácil imaginar um projecto de mulher que um projecto de homem. Em qualquer caso, e para não fugir à questão, acrescentarei o facto de ter sido criado por mulheres, de viver e crescer sempre entre mulheres, pressupôs, em definitivo, ter aprendido com elas o que efectivamente é benéfico, não no sentido utilitário, mas em profundidade e humanismo. Devo isto às mulheres e, por isso, assim fica reflectido nos meus livros. (...)

em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Página 35