Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 22 de julho de 2017

Quando as artes plásticas recuperam, recordam e perpetuam a essência do escritor José Saramago

Alguns links de referência dos autores indicados

Quadro baseado em "A Maior Flor do Mundo" 
pintura em aguarela de João Amaral (2017)


Quadro "A Existência da Memória" pintura acrílica de Minela Reis (2015)
Quadro baseado em "A Viagem do Elefante" pintura em aguarela de João Amaral (2016)
Quadro "Saramago" pintura acrílica de Isa Silva (réplica n.º 6, de 2013 - Projecto Square Faces)
10 fotografias de João Francisco Vilhena "Lanzarote A Janela de Saramago"


Quadro "A Existência da Memória" pintura acrílica de Minela Reis (2015)
Quadro baseado em "A Maior Flor do Mundo" pintura em aguarela de João Amaral (2017)


Quadro "Saramago" pintura acrílica de Isa Silva 
(réplica n.º 6, de 2013 - Projecto Square Faces)


Quadro baseado em "A Viagem do Elefante" 
pintura em aguarela de João Amaral (2016)

domingo, 6 de março de 2016

"A Viagem do Elefante" - o início em espanhol

«Siempre acabamos llegando a donde nos esperan». "Libro de los itinerarios"

"El viatge de l'elefant" - Col·lecció El Balancí - Catalunha
Tradução Nuria Prats Espar

"Por más incongruente que le pueda parecer a quien no ande al tanto de la importancia de las alcobas, sean éstas sacramentadas, laicas o irregulares, en el buen funcionamiento de las administraciones públicas, el primer paso del extraordinario viaje de un elefante a austria que nos proponemos narrar fue dado en los reales aposentos de la corte portuguesa, más o menos a la hora de irse a la cama. Quede ya registrado que no es obra de la simple casualidad que hayan sido aquí utilizadas estas imprecisas palabras, más o menos. De este modo, quedamos dispensados, con manifiesta elegancia, de entrar en pormenores de orden físico y fisiológico algo sórdidos, y casi siempre ridículos, que, puestos tal que así sobre el papel, ofenderían el catolicismo estricto de don Juan, el tercero, rey de Portugal y de los algarbes, y de doña catalina de Austria, su esposa y futura abuela de aquel don Sebastián que irá a pelear a alcácer-quivir y allí morirá en el primer envite, o en el segundo, aunque no falta quien afirme que feneció por enfermedad en la víspera de la batalla. Con ceñuda expresión, he aquí lo que el rey comenzó diciéndole a la reina, Estoy dudando, señora, Qué, mi señor, El regalo que le hicimos al primo Maximiliano, cuando su boda, hace cuatro años, siempre me ha parecido indigno de su linaje y méritos, y ahora que lo tenemos aquí tan cerca, en Valladolid, como regente de España, a un tiro de piedra por así decir, me gustaría ofrecerle algo más valioso, algo que llamara la atención, a vos qué os parece, señora, Una custodia estaría bien, señor, he observado que, tal vez por la virtud conjunta de su valor material con su significado espiritual, una custodia es siempre bien recibida por el obsequiado, Nuestra iglesia no apreciaría tal liberalidad, todavía tendrá presente en su infalible memoria las confesas simpatías del primo Maximiliano por la reforma de los protestantes luteranos, luteranos o calvinistas, nunca lo supe seguro, Vade retro, satanás, que en tal no había pensado, exclamó la reina, santiguándose, mañana tendré que confesarme a primera hora, Por qué mañana en particular, señora, si es vuestro hábito confesaros todos los días, preguntó el rey, Por la nefanda idea que el enemigo me ha puesto en las cuerdas de la voz, mirad que todavía siento la garganta quemada como si por ella hubiera rozado el vaho del infierno. Habituado a las exageraciones sensoriales de la reina, el rey se encogió de hombros y regresó a la espinosa tarea de descubrir un regalo capaz de satisfacer al archiduque Maximiliano de Austria. 


A Capa da edição e detalhe de páginas interiores 

João Amaral o autor do álbum de banda desenhada baseada na obra de Saramago

La reina bisbiseaba una oración, comenzaba ya otra, cuando de repente se interrumpió y casi gritó, Tenemos a salomón, Qué, preguntó el rey, perplejo, sin entender la intempestiva invocación al rey de Judea, Sí, señor, salomón, el elefante, Y para qué quiero aquí al elefante, preguntó el rey algo enojado, Para el regalo, señor, para el regalo de bodas, respondió la reina, poniéndose de pie, eufórica, excitadísima, No es regalo de bodas, Da lo mismo. El rey aseveró lentamente con la cabeza tres veces seguidas, hizo una pausa y aseveró otras tres veces, al final de las cuales admitió, Me parece una idea interesante, Es más que interesante, es una buena idea, es una idea excelente, insistió la reina con un gesto de impaciencia, casi de insubordinación, que no fue capaz de reprimir, Hace más de dos años que ese animal llegó de la india, y desde entonces no ha hecho otra cosa que no sea comer y dormir, el abrevadero siempre lleno de agua, forraje a montones, es como si estuviéramos sustentando a una bestia que no tiene ni oficio ni beneficio, ni esperanza de provecho, El pobre animal no tiene la culpa, aquí no hay trabajo que sirva para él, a no ser que lo mande a los muelles del tajo para transportar tablas, pero el pobre sufriría, porque su especialidad profesional son los troncos, que se ajustan mejor a la trompa por la curvatura, Entonces que se vaya a Viena, Y cómo iría, preguntó el rey, Ah, eso no es cosa nuestra, si el primo Maximiliano se convierte en su dueño, que él lo resuelva, suponiendo que todavía siga en Valladolid, No tengo noticias de lo contrario, Claro que hasta Valladolid salomón tendrá que ir a pata, que buenas andaderas tiene, Y a Viena también, no habrá otro remedio, Un tirón, dijo la reina, Un tirón, asintió el rey gravemente, y añadió, Mañana le escribiré al primo Maximiliano, si él acepta habrá que concretar fechas y realizar algunos trámites, por ejemplo, (...) 

in, "A viajem do Elefante"
Edição portuguesa de 2008 - Caminho, páginas 13 a 16

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Álbum BD de João Amaral "A Viagem do Elefante" editado na Turquia - O Salomão e seu cornaca seguem viagem...

Capa da obra de João Amaral, edição turca da editora Kirmizi Kedi, 
o álbum de BD baseado na obra de José Saramago - "A Viagem do Elefante"

Aqui a primeira edição estrangeira desta obra, e que esperamos possa ser publicada em todas as "paragens" deste planeta. 


Aqui as palavras do anuncio através do autor,

"É com imensa satisfação que deixo aqui duas imagens da minha adaptação para banda desenhada de A Viagem do Elefante, baseado na obra homónima de José Saramago, na sua edição em turco. A Turquia torna-se assim o primeiro país estrangeiro a editar uma obra minha, o que obviamente me deixa bastante feliz. Quanto às imagens fazem parte da promoção da editora turca, Kirmizi Kedi."

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original - João Amaral e o álbum BD baseado em "A Viagem do Elefante"

No post anterior, dei destaque ao artista plástico José Santa-Bárbara pela criação e estilização das personagens do "Memorial do Convento"; agora sob o mesmo titulo "Quando o artista plástico acrescenta algo à obra original", trago João Amaral que publicou (2014) o álbum de Banda Desenhada baseado na obra "A Viagem do Elefante".
Quem leu o original de José Saramago (2008) e depois teve a feliz oportunidade de passar pela experiência de conhecer os traços, as pranchas, o volume das personagens e paisagens de enquadramento, por certo, sentirá uma fusão do que foi lido e depois percepcionado na Banda Desenhada. Está lá o espírito do autor, a sua (de ambos) ironia, a cumplicidade e as formas das palavras.
Esta obra está incluída no PNL Plano Nacional de Leitura, e pode ser adquirida através da Porto Editora (http://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/a-viagem-do-elefante-bd?id=16006645), ou da loja situada na Fundação José Saramago, e em qualquer boa livraria.
E assim o artista plástico acrescenta algo à obra original.

João Amaral apresentando a obra na Fundação José Saramago

Aqui entrevista de apresentação da obra, via "Casa das Artes e Conhecimentos"
Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Sinopse de apresentação da entrevista
"A propósito da adaptação da Viagem do Elefante da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira.
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos.
A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados.
A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas, é um tópico de destaque nesta conversa.
Uma conversa que irá revelar um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago.
Um apontamento realizado na Fundação José Saramago."

Referências:
Pilar del Río (Presidenta da Fundação José Saramago): http://www.josesaramago.org
João Amaral (Autor do álbum): http://joaocamaral.blogspot.pt
João Caldeira Monsanto (Casa das Artes e Conhecimentos): http://www.arteseconhecimentos.com

(Capa da obra)


Alguma imagens da obra






domingo, 13 de dezembro de 2015

João Amaral, criador do álbum de BD baseado na obra "A Viagem do Elefante" em entrevista à "H-alt" (07/12/2015)

A entrevista pode ser consultada e lida, aqui
em http://h-alt.weebly.com/joatildeo-amaral.html

Apresentação e informação sobre o site http://h-alt.weebly.com/
"A H- alt é uma revista digital gratuita de BD (HQ) escrita em português e relacionada com as temáticas de ficção-cientifica, fantasia, realidade/história alternativa.
O objectivo desta publicação é divulgar e incentivar produção de pequenas histórias de BD. Existe também a preocupação que os vários participantes criem histórias em equipa (argumentistas/ roteiristas, desenhadores/quadrinistas, coloristas), com o propósito de incentivar o trabalho colaborativo.
Outro dos objectivos desta publicação é fomentar o surgimento de jovens talentos não ignorando em todo o caso autores mais experientes que desejem participar.
O projecto está em constante desenvolvimento tendo sempre em vista  a colaboração de vários autores lusófonos (Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, S. Tomé, Timor-Leste, Guiné-Bissau) em todo o caso a participação de autores de outra nacionalidade não está de algum modo excluída." 

Entrevista com João Amaral realizada por Sérgio Santos
João Amaral é um autor português com uma já longa carreira ligada à BD.
Para aceder a mais informação podem consultar o blogue do autor em http://joaocamaral.blogspot.pt/


Biografia
"João Carlos Saraiva Amaral, Lisboa, Novembro de 1966. Frequentou o 2ºano do Curso de Gestão de Empresas do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - ISCTE, e possui um curso de Design Gráfico assistido por computador.                              
A sua entrada na banda desenhada, em 1994, foi pela porta grande, como inferirá do título do seu primeiro álbum, A Voz dos Deuses, quem tiver lido o romance homónimo de João Aguiar, base para a adaptação literária realizada por Rui Carlos Cunha..
Cinco anos depois colabora na revista Selecções BD (2ª série) com a banda desenhada a preto e branco, Quid Novi in Imperium? - Que Há de Novo no Império?, dividida em dois capítulos, intitulando-se o primeiro O Fim Coroa a Obra, e Dias de Cólera o segundo, publicados naquela revista em Agosto de 1999 e Junho de 2000, respectivamente.
Meses mais tarde, nessa mesma 2ª série de Selecções BD, entre Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2001, foi publicada outra obra sua, tal como a anterior também a preto e branco, intitulada O Fim da Linha, para cujo argumento João Amaral se baseou num antigo filme, protagonizado por Gary Cooper e Grace Kelly, "O Comboio Apitou Três Vezes", um "western", mas localizando a acção da banda desenhada numa vila portuguesa .
Missão Quase Impossível é o título do episódio que realizou em sete pranchas, sob argumento de Jorge Magalhães, para a obra homenageante Vasco Granja - Uma Vida... 1000 Imagens, editada em Maio de 2003.
Em 2006 volta a ser editado em álbum, dessa vez com A História de Manteigas no Coração da Estrela.
Foi-lhe publicada mensalmente, a partir de Abril de 2006, a bd O Gui, a Nô... e os Outros, a preto e branco, no jornal paroquiano A Cruz Alta, da igreja de Sintra. João Amaral usou o pseudónimo "Joca", e a banda desenhada teve argumento de Isabel Afonso, que assinava como "Gui", tendo terminado em Outubro de 2008.
Posteriormente, já no seu blogue http://joaocamaral.blogspot.com  criou, desta vez "a solo", em tiras, a 24 de Dezembro de 2010, outra série aparentemente infantil, intitulada "Fred & Companhia", mas de vincado carácter crítico e satírico, que também está visível numa importante rede social, no endereço http://facebook.com/fredecompanhia
No seu blogue, o dinâmico autor tem reproduzido bandas desenhadas inicialmente publicadas na revista Selecções BD, que aparecem igualmente no jornal Alentejo Popular, na rubrica "Através da Banda Desenhada" (sob coordenação de Armando Corrêa/Luiz Beira), onde já foi reproduzida a bd Ok Corral (com argumento de Jorge Magalhães), em 2008.
Antes, em Fevereiro de 2007, realizara numa só prancha o episódio Sonhos para a obra colectiva "Príncipe Valente no século XXI", publicada no fanzine Efeméride (nº2). 
Quid Novi in Imperium? - Que Há de Novo no Império?, banda desenhada de grande fôlego, que teve início nas Selecções BD, com os dois primeiros episódios, e que ficou incompleta por desaparecimento daquela revista, tem tido continuidade na blogosfera, com o seguinte alinhamento: 
"Acabou a Representação", 3º episódio (10 pranchas), em 11 de Janeiro de 2010
"Ao Homem!" 4º episódio (12 pranchas), em 19 e 20 de Janeiro de 2010
"O Dente do Lobo" (9 pranchas), em 4, 5, 6 e 7 de Maio de 2010, sendo que este último episódio foi igualmente publicado no citado jornal Alentejo Popular em 2012.   
Ao nível mais elevado de edição da BD, ou seja, na publicação em álbum, este prolífico autor tem também as seguintes obras:Bernardo Santareno (2006), História de Fornos de Algodres (2008), Cinzas da Revolta(2012) e A Viagem do Elefante (2014).
Excepto Cinzas da Revolta, excepcionalmente assinada por um pseudónimo, Jhion, e feita sob argumento de Miguel Peres, todas as restantes obras publicadas em álbum são de sua completa autoria. 
João Amaral foi o Convidado Especial da Tertúlia BD de Lisboa em Maio de 1999."


Como foi o seu relacionamento na infância com o desenho e a BD?
Aos 4 ou 5 anos quando estava na mercearia do meu avô davam-me papeis para eu desenhar e eu passava tardes a fazer os meus rabiscos. Sempre tive duas paixões muito interligadas que surgiram na mesma altura (primária): A BD e o cinema. Na BD sempre achei fabuloso poder desenhar e contar uma história ao mesmo tempo. No momento em que eu descobri que o cinema e a BD utilizam o mesmo tipo de linguagem e planos fiquei encantado. A utilização de storyboards aliás é muito frequente no cinema.
Já quando andava na primária já dizia que quando fosse grande gostaria de ser desenhador de BD. Existe depois uma grande vantagem da BD em relação ao cinema, na 7º arte o trabalho é colectivo e exige um grande planeamento e muitas vezes orçamentos consideráveis. Na BD com poucos recursos e de forma mais autónoma e personalizada conseguimos criar projectos muito interessantes.

Por isso é que muitas vezes se diz que a BD é o cinema dos pobres?
Eh! Pois é um bocadinho assim. Mas eu também não a vejo assim porque apesar de tudo sempre vi a BD como uma arte adulta.

Ainda existe aquele estigma que a BD é para crianças, apesar de existir um grande público adulto que lê BD?
Depois do 25 de Abril vence-se o estigma de que a banda-desenhada era para as criancinhas. Na escola escutei muitos professores dizerem que a BD era para preguiçosos que não queriam ler. Na actualidade a situação já é muito diferente. Aliás hoje eu vou às escolas em acções de divulgação e noto que a BD já faz parte do programa das escolas. No pós 25 de Abril a situação mudou radicalmente, tivemos acesso a conteúdos que nunca tinham aparecido no mercado e existiu uma expansão para outros públicos. Depois dos anos 80 regressou um pouco o estigma  de que a BD era para crianças. Isso aborrece-me um pouco. Mas as coisas vão mudando aos pouco e o que eu gosto da actualidade é que existem cada vez mais artistas e uma maior diversidade de estilos.


Como vê a carreira de autor de BD em Portugal?
Mão-de-obra não falta em Portugal basta espreitar os vários fóruns na Internet para vermos que existe muito talento. O problema realmente é a nível da sustentabilidade do negócio. Costumo dizer por brincadeira que para se gostar de fazer uma carreira na BD é preciso ser-se completamente tarado! Não é garantidamente pelo dinheiro, aliás eu disse à minha mulher quando começamos a namorar que eu tinha uma amante chamada BD que me ocupava boa parte dos dias. Ela hoje percebe isso.

Noutros tempos ser um autor de BD seria mais fácil?
Já tenho vinte anos de carreira e pelo que compreendi sempre foi difícil seguir uma carreira como autor de BD, aliás eu tenho a particularidade de ter falado com grandes mestres que me elucidaram como eram as coisas noutros tempos. E nunca foi fácil, nem sei se alguma vez o será.

É uma pena que na BD a realidade entre Portugal e Bélgica não seja parecida.
No mercado franco-belga existe uma industria e é uma realidade completamente diferente. Nunca me esqueço da 1º vez que fui a Angoulême na altura fiquei completamente espantado com os inúmeros eventos, tive então a noção que estava noutro mundo. Recomendo vivamente quem deseja seguir a carreira de autor de BD a ir ao festival de BD de Angoulême, não só para procurarem oportunidades de trabalhos mas também para poderem escutar uma série de dicas e conselhos de grande utilidade.

​A animação nunca foi uma tentação?
Tenho muito respeito pelo trabalho minucioso e dedicado dos animadores. Mesmo com o auxilio de computadores continua a ser uma trabalho muito moroso e que exige muito sacrifício e abnegação. Muitas vezes é um trabalho mais aliciante para uma equipa e que exige outros recursos, nesse aspecto sinto-me mais confortável no papel individual de autor de BD.


Presumo que prefere antes trabalhar a solo?
No meu caso já trabalhei em equipa e a solo. Depende muito das parcerias, desde que existe química o trabalho em equipa poderá ser muito proveitoso. No meu trabalho com o Miguel Peres nas "Cinzas da Revolta" por exemplo nunca me passaria pela cabeça fazer um álbum sobre a guerra colonial. Até porque existem poucas obras de ficção sobre esse período temporal e onde ainda existem muitas feridas por curar. Gostei muito da experiência e fiquei muito entusiasmo posteriormente no desenvolvimento do projecto.

Em relação ao seu trabalho mais recente a adaptação da obra de Saramago "A viagem do elefante", quanto tempo demorou a conceber o projecto desde o principio? Podia falar-nos um pouco desse projecto. 
Demorei aproximadamente dois anos e meio. Existem algumas diferenças entre "As cinzas da revolta" e a "Viagem do elefante", num álbum a acção passa-se numa área mais localizada, noutro ocorre em vários locais. Decidi que o próprio Saramago fosse transformado numa personagem, sendo o narrador da história. A narração dele no livro é tão irónica e pertinente que eu achei que ele merecia aparecer em destaque. O próprio conceito de viagem a Viena tem um conceito muito metafórico que permite várias leituras e que me seduziu muito.

O Saramago tem muitos livros onde existem várias metáforas intemporais.
O primeiro livro que eu quis adaptar para BD do Saramago foi o Ensaio sobre a cegueira, acabei por não seguir esse caminho quando tomei conhecimento que o Fernando Meirelles ia fazer um filme baseado nessa obra. Quando vi o filme fiquei contente por não ter feito a adaptação porque reparei que existiam muitas consonâncias e similaridades na forma como o Meirelles idealizou o filme. O facto de cegueira aparecer representada em branco e não em negro como seria habitual é algo que está presente no livro e que funciona muito bem no filme, eu identifico-me perfeitamente com essa opção criativa. Se eu algum dia fizer a adaptação da obra será um trabalho mais livre e irei procurar não estar tão preso ao romance. Mas isso é algo que pertence ao futuro, ainda não decidi nada.

E projectos futuros de adaptações literárias de autores portugueses ?
Não sei, neste momento não sei. Actualmente fiz duas adaptações "Voz dos Deuses de João Aguiar " e "A viagem do Elefante" de José Saramago. Nenhum desses projectos surgiu por encomenda ou sugestão, foram livros marcantes com as quais me identifiquei e onde consegui visualizar quase um "storyboard mental" da história. Já li vários livros que gostei muito mas nem em todos acontece o fenómeno referido anteriormente. Em todo o caso as duas adaptações que fiz deram-me muito trabalho por isso sinto que devo ser muito criterioso na escolha de um obra com a qual me identifique e onde sinta que poderei fazer um bom trabalho com o qual me orgulhe. Existe também um trabalho de pesquisa e análise dos cenários e ambientes que exige tempo e na medida do possível que possa existir uma deslocação ao local. Trabalhar só com fotografias e filmes acaba também por ser limitado, apesar de existir muita informação graças à Internet.

Gosta portanto de fazer viagens exploratórias quando está a criar um trabalho de BD?
Não há nada como estar no local onde a acção da história se passa. Para mim foi excelente ter ido a Angola quando estava a trabalhar nas "Cinzas da revolta". Porque dessa maneira é possível captar pequenos pormenores ( cor da terra, pôr do sol...). Aliás já tinha conversado com um amigo angolano que me havia referido por exemplo a diferença em relação ao pôr do sol mas só quando estamos lá conseguimos perceber melhor. Claro que isso é muito relativo, porque uma coisa é irmos ao local e a acção da história passar-se noutro contexto histórico mas não há dúvida que é uma boa ajuda. Muitas vezes alguma ideias para a BD podem surgir dessas viagens e isso será uma mais-valia.

Poderia falar-nos melhor da sua colaboração na revistas das Selecções BD e da Rua Sésamo.
Entrei na Rua Sésamo por intermédio de um amigo e foi mais na fase final. Trabalhei como colaborador deles e ainda desenhei algumas histórias dos últimos números. 
Nas Selecções BD convidaram-me para entrar, o editor Jorge Magalhães gostou do meu trabalho na "Voz dos Deuses". As histórias teriam que ser a preto e branco por uma questão económica.

Nos seus últimos trabalhos trabalha com a coloração digital, sente-se confortável?
Sim. Um dos motivos porque me sinto confortável tem a ver com a similaridade de processos que existe na pintura analógica a óleo com a pintura digital. No principio senti algumas dificuldades mas com o tempo habituei-me. Algumas pessoas pensam que trabalhar em computador acelera o processo de trabalho, em algumas questões pode ser assim mas também existe uma maior exigência que obriga a que se perca mais tempo.


Pode-nos dizer de autores de BD que mais admira? Tem sido uma influência e porquê?
Se eu for falar de todos os autores que me influenciaram ficávamos aqui a conversar quase o dia inteiro. O Hermann influenciou-me muito, gostei muito de o ter conhecido pessoalmente no Festival de Beja. Ele é um dos meus grande ídolos, adorei o Bernard Prince , nunca gostei tanto da série Comanche. As Torres de Boy-Mouris marcou uma mudança, o Hermann revelou ser um óptimo argumentista e um aguarelista brilhante capaz de trabalhar a cor directamente de forma espantosa.  O William Vance foi também uma grande influência e tenho muita pena que ele esteja a sofrer com Parkinson o que o impede de trabalhar.


E o Hugo Pratt?
O Hugo Pratt foi complicado. Eu fui um daqueles jovens leitores que escreveu para a revista Tintim a protestara dizer que as histórias dele não deveriam aparecer porque o homem não sabia desenhar. Hoje eu reconheço o Hugo Pratt é para adultos e era sobretudo um argumentista fora de série. Existem álbuns dele que eu aprecio muito, nomeadamente as célticas. O traço dele apesar de estilizado é muito funcional e ele consegue com poucos traços ser muito eficaz. Aliás ele dizia uma coisa muito interessante : "Não sei se viajo para ter uma desculpa para contar histórias ou se conto histórias para ter uma desculpa para viajar".

E outros autores? 
Gosto do demolidor do Frank Miller, assim como 300. O X-man do Chris Claremont e do Jim Lee é também fantástico. Aprecio também o Akira do Otomo. Existem outros, sejam eles autores europeus, americanos ou japoneses. 




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"A Viagem do Elefante" Álbum de BD criado por João Alves no Plano Nacional de Leitura



Salomão e o cornaca, seu companheiro de viagem


"É com imensa satisfação que declaro, a quem possa interessar, que descobri que o meu mais recente trabalho, a adaptação para banda desenhada de A Viagem do Elefante, de José Saramago, a exemplo do que já acontecia com o livro, também já faz parte da lista de obras do programa Ler +, integrado no Plano Nacional de Leitura."
Palavras de João Amaral no seu blog aqui, 



Todas as obras podem ser consultadas neste link, aqui

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

«Lugar-comum do quadragenário» Poema de José Saramago escrito nos seus quarenta anos

(Quadro de João Amaral, realizado em aguarela - 2015)


17 de Outubro (1993)

"Javier e María «inauguraram» ontem a sua casa, festejando ao mesmo tempo o recente aniversário de Javier, 41 anos, uma mocidade. (Ao escrever este número lembrei-me, subitamente, de que por essa mesma idade escrevi um poema, «Lugar-comum do quadragenário», que não resisto a transcrever aqui. Era assim: 

Quinze mil dias secos são passados, 
Quinze mil ocasiões que se perderam, 
Quinze mil sóis inúteis que nasceram, 
Hora a hora contados 
Neste solene, mas grotesco gesto 
De dar corda a relógios inventados 
Para buscar, nos anos que esqueceram, 
A paciência de ir vivendo o resto. 

Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: «Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...».) Fechado o parênteses, volto ao assunto. María e Javier resolveram convidar amigos para a festa e a casa encheu-se de gente, a maior parte da qual eu não conhecia nem de vista. Mas não é esta a questão. A questão foi ter eu confirmado a tremenda dificuldade que tenho em conviver com pessoas que ainda não tive tempo de conhecer, e mais quando o ambiente ferve de música alta e de palavras que têm de ser gritadas. Senti--me a pessoa mais sem graça, mais sem espírito, que é possível imaginar, e não me restou outra saída que desaparecer discretamente e ir fazer companhia ao cão que, na nossa casa, sofria de abandono como creio que só podem sofrer os cães."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, páginas 144 e 145

terça-feira, 24 de novembro de 2015

"A Viagem do Elefante" em BD de João Amaral - Exposição em Viseu - Momentos














«Como referi anteriormente, estive no passado dia 14 em Viseu, na inauguração de uma exposição sobre A Viagem do Elefante, a adaptação que fiz para banda desenhada do romance de José Saramago. Foi um dia inesquecível com conversa, convívio e trabalho à mistura, sinais de momentos bem passados. A todos os que por lá passaram, pude falar um pouco sobre o making-of deste trabalho que, para mim também implicou uma grande viagem, quer a nível físico, quer psicológico. A própria exposição, constituída por vários núcleos, revela algumas pranchas do livro executadas em diferentes técnicas, mas também uma pequena mostra sobre como é que elas foram elaboradas, bem como esboços, desenhos e fotografias de alguns locais por onde passei, para me documentar.
Depois deste dia que foi de muitas e intensas emoções, fica mais uma vez expresso o meu agradecimento ao GICAV que montou a mostra, bem como à autarquia de Viseu, representada nas figuras do seu presidente da câmara e da vereadora da cultura por terem apoiado a iniciativa.
A todos os que se possam deslocar ainda à biblioteca D. Miguel da Silva, na rua Aquilino Ribeiro, em Viseu fica a nota de que esta exposição estará patente até ao próximo dia 30 de Novembro. Para já, deixo aqui algumas fotos, que falarão melhor do que eu. E quem quiser ver  ainda mais pormenores sobre este acontecimento, pode sempre consultar a minha página de facebook, o by João Amaral, cujo acesso se pode fazer directamente através do selo que poderão visualizar do lado direito deste blogue.»

O trabalho de João Amaral, pode ser acompanhado em diversas plataformas.



(Fotos: Cristina Costa Amaral)






sábado, 11 de abril de 2015

Pilar del Río e João Amaral à conversa com João Caldeira sobre a obra "Viagem do Elefante" (Banda Desenhada)






O testemunho de Pilar del Río e de João Amaral com a moderação de João Caldeira.


"A propósito da adaptação da Viagem do Elefante da obra de José Saramago, prémio Nobel da Literatura, para banda desenhada, aqui se reúnem em conversa Pilar del Río, João Amaral e João Caldeira.
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago, dispensa apresentações, João Amaral é o autor da BD e João Caldeira o fundador da Casa das Artes e Conhecimentos.
A Obra de Saramago e as suas múltiplas adaptações, bem como o valor dessas adaptações e o lugar que ocupam, é dos assuntos abordados.
A Viagem do Elefante e as suas mensagens profundas, é um tópico de destaque nesta conversa.
Uma conversa que irá revelar um pouco mais sobre esta obra inserida no mundo de Saramago.
Um apontamento realizado na Fundação José Saramago.
Referências:
João Caldeira Monsanto - Casa das Artes e Conhecimentos - http://www.arteseconhecimentos.com"


Link do trabalho do autor João Amaral - http://joaocamaral.blogspot.pt/