Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 12 de março de 2016

Citador #46 - “José Saramago, la importancia del no” em entrevista a Christian Kupchik

"Embora soe algo paradoxal, diria que entre história e ficção a diferença não é grande demais. Ao escrever uma história - porque disso se trata -, o historiador faz um pouco o que faz o romancista: escolhe os fatos e os concatena, vale dizer, encontra relações entre eles em função de conseguir um discurso coerente. O mesmo se exige de um romance. Pode ser mágico, fantástico ou qualquer coisa, mas até a fantasia e a imaginação mais disparatadas precisam de uma coerência. Um livro de História apresenta algo predeterminado. Os fatos estão ali, e um fato traz como consequência outro, e outro, e outro. Há uma espécie de fatalidade histórica que faz que as coisas sejam como são e não de outra maneira. Então, ao dirigir os fatos, ao organizá-los, eu diria que o historiador se comporta como um romancista e o romancista como um historiador."
“José Saramago, la importancia del no”
Christian Kupchik entrevista José Saramago para o "El País" (Montevidéu, 09/1995)
Publicado posteriormente em "La Época" (Santiago do Chile, 15/10/1995) 


terça-feira, 8 de março de 2016

Citador #45 - Alusão a Jorge de Sena

"Esta grande admiração pessoal [por Jorge de Sena] tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele dita água gelada nas fervuras patrióticas [da Revolução de Abril] que se esperavam e que aconteceram realmente. Nessa comemoração disse: “Vocês estão a comemorar um país que não existe e eu venho aqui dizer-lhes que país temos, pelo menos em minha opinião”."

João Céu e Silva - "Uma longa viagem com José Saramago"
Porto Editora, 2009

sexta-feira, 4 de março de 2016

Citador #44 "A literatura precisa de leitores indomáveis" - Revista Turia n.º 57 (2001)

"A literatura precisa de leitores indomáveis, para que ela mesma o seja num futuro que trará uma civilização totalmente diferente, na qual pode ser que a escrita e a leitura não interessem."

Juan Domínguez Lasierra entrevista José Saramago
“Saramago, el pessimismo utópico”, Revista Turia n.º 57 (2001) 


(Juan Domínguez Lasierra, Saramago, el pesimista utópico, pp. 221-232)


quinta-feira, 3 de março de 2016

Citador #43 . Sobre as mulheres

"Não me agradam as grandes frases nem a retórica das acções. Mas é verdade que nos meus romances aparecem personagens, sobretudo mulheres, dotadas de um heroísmo discreto, natural, como uma emanação de sua personalidade. São mulheres, inclusive, dispostas ao sacrifício por compaixão, compadecer-se com o outro, um sentimento que tem que ver com a piedade, não com a grandiloquência. Nesse modelo de mulher, que se repete de livro em livro, com nomes diferentes e em épocas diferentes, se está a forjar uma nova forma de humanidade, uma forma distinta de “ser humano”.
“Las palabras ocultan la incapacidad de sentir”, ABC (Suplemento ABC Literario), Madri, 9 de agosto de 1996
[Entrevista a Juan Manuel de Prada].

terça-feira, 1 de março de 2016

Citador #41 - Os livros e as noites na Biblioteca do Palácio Galveias

Sala de estudo na Biblioteca do Palácio Galveias

(...) "Não tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive, os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a umas 250 pesetas [um euro e cinquenta centavos]. Com isso pude comprar alguns livros. Antes, eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países, nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui assimilando, cada um à sua maneira." (...)

Juan Arias
"José Saramago: O amor possível", Barcelona, Planeta, 1998

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Citador #41 - "A minha casa é Lanzarote" - Entrevista de Alexandra Lucas Coelho - Jornal "Público" (14/10/98)


"O futuro imediato e não só - a seguir ao imediato - é Lanzarote, onde eu sou muito querido. Eu podia estar a viver num lugar que fosse indiferente, em vários pontos da Terra, por algum motivo, a viver temporariamente. Neste caso não é assim. Nós [Saramago e a mulher, Pilar del Río] fizemos uma casa, a casa está ali, temos um jardim, temos árvores, temos uma vida feliz, uma vida tranquila, não podemos desejar nada melhor. Os amigos que vão a Lanzarote ficam encantados. Não é uma ilha para todos os gostos, há pessoas que chegam e não gostam, acham que a ilha é insuportável, que é árida, seca, que são só pedras, montanhas, vulcões, campos de lava… Quem vai à espera de árvores, de passarinhos a cantar e de regatinhos circulando por entre a erva, não encontra. Tem é uma beleza de outra natureza, uma beleza áspera, dura… aqueles basaltos, aqueles barrancos… Às vezes tenho pensando que se eu tivesse procurado uma paisagem que correspondesse a uma necessidade interior minha, creio que essa paisagem é Lanzarote."

“A minha casa é Lanzarote” 
Entrevista de Alexandra Lucas Coelho - Jornal "Público" (14/10/98)



A entrevista completa pode ser recuperada e lida, aqui

In jornal "Público" (14 de Outubro de 1998)
Entrevista com José Saramago, horas depois da chegada a Lisboa
"A minha casa é Lanzarote"
Por Alexandra Lucas Coelho

"Não pensa voltar a viver em Portugal. Não será mais candidato pelo PCP. Não falará mais sobre a regionalização. Continuará a escrever e a intervir, como até aqui, quando for "necessário". A sua autobiografia até aos 14 anos, "O Livro das Tentações" revelará um outro José Saramago: "O pai espiritual do homem que sou é a criança que fui". O homem que desde que é Nobel ainda não escreveu uma palavra. Nem no diário: "Era impossível".

Voou de casa, Lanzarote, para regressar ao sangue, que é Portugal. Não lhe peçam para voltar de vez. Seria uma "chantagem sentimental". Emocionado, viu ontem Lisboa de uma varanda. Depois dos abraços, das flores vermelhas e da conferência de imprensa, levaram-no para um jantar oficial. O seu editor anunciou que o próximo romance, "A Caverna", sairá em Novembro de 1999. "O compromisso é teu, não meu", respondeu-lhe Saramago, sorridente. À noite, o Nobel acolheu-se num hotel do centro de Lisboa, que é o que se faz quando se está longe de casa.

Pondera regressar a Portugal?
José Saramago - Vamos lá ver... Não pode ser entendido que a perfeição da minha relação com Portugal só será atingida se eu voltar a viver em Portugal. Não é razoável, e eu chamaria a isso, até, uma espécie de chantagem sentimental.

Não encara essa hipótese?
Não, não encaro de facto essa hipótese. Não é que não pudesse acontecer e não sei se não acontecerá um dia, enfim... No futuro imediato tenho ideias sobre o que poderá acontecer, mas num futuro remoto nunca se sabe.

E o futuro imediato é Lanzarote...
O futuro imediato e não só - a seguir ao imediato - é Lanzarote, onde eu sou muito querido. Eu podia estar a viver num lugar que fosse indiferente, em vários pontos da terra, por algum motivo, a viver temporariamente. Neste caso não é assim. Nós [Saramago e a mulher, Pilar del Rio] fizemos uma casa, a casa está ali, temos um jardim, temos árvores, temos uma vida feliz, uma vida tranquila, não podemos desejar nada melhor. Os amigos que vão a Lanzarote ficam encantados. Não é uma ilha para todos os gostos, há pessoas que chegam e não gostam, acham que a ilha é insuportável, que é árida, seca, que são só pedras, montanhas, vulcões, campos de lava... Quem vai à espera de árvores, de passarinhos a cantar e de regatinhos circulando por entre a erva, não encontra. Tem é uma beleza de outra natureza, uma beleza áspera, dura... aqueles basaltos, aqueles barrancos... Às vezes tenho pensado que se eu tivesse procurado uma paisagem que correspondesse a uma necessidade interior minha, creio que essa paisagem é Lanzarote.

A sua casa é Lanzarote...
A minha casa é Lanzarote, neste momento. Em Lisboa já nem sequer tenho casa. Durante um ano ainda a conservámos, mas agora já não. Teria todas as razões para voltar se me sentisse mal onde estou. A Pilar vivia em Sevilha e veio viver para Lisboa. Se, por acaso, ela não tivesse podido viajar para Lisboa, teria eu ido viver para Sevilha. Porque queríamos estar juntos, evidentemente. Afinal de contas, agora, nem Sevilha, nem Lisboa - estamos em Lanzarote, estamos muito bem e não penso voltar, de facto.

Mas também já não é porque está de mal com Portugal...
Não, não. Isto de dizer que não penso voltar, nem tem sentido, porque eu estou cá. Mesmo quando não estou, estou. Estou pela memória, estou pelos amigos, estou pelos leitores, estou pelas notícias. Eu hoje [ontem], no aeroporto, dizia: esquecer-me desta terra seria o mesmo que esquecer o meu próprio sangue, e isso não se pode.

Vai comprar a sua casa da aldeia da Azinhaga?
Não sei, não sei, pode acontecer que sim. Mas a memória que eu quero é a memória que eu guardo dentro da minha cabeça. Há uma questão aqui: a casa que teria significado para mim, real significado, já não existe. Era a casa dos meus avós maternos, o meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa. A casa onde eu nasci, vivi lá dois anos, apenas. Em casa dos meus avós é que eu vivi as minhas experiências.

Era a casa aonde regressava nas férias...
Sim, a casa dos avós de que falarei no "Livro das Tentações", como falarei de tanta gente, de tios meus, dos rios que passam na minha aldeia, o rio Alonda e um pouco mais abaixo, o rio Tejo, onde se vai à pesca... tudo isso que é a vida dum rapazinho. A partir daí, não me interessa nada. Quero é recuperar, saber, reinventar a criança que eu fui. Pode parecer uma coisa um pouco tonta, um senhor nesta idade estar a pensar na criança que foi. Mas é porque eu acho que o pai da pessoa que eu sou é essa criança que eu fui. Há o pai biológico, e a mãe biológica, mas eu diria que o pai espiritual do homem que eu sou é a criança que eu fui.

Quando já esperávamos "O Livro das Tentações", anunciou que outro romance se tinha interposto, "A Caverna". Em que fase está?
Já está a ser escrito mas, enfim, está muito no principio. Todos os meus romances nascem de imagens que de repente me ferem a atenção, que me atraem. Normalmente, desencadeiam-se logo três ou quatro passos no caminho que ainda falta percorrer, e que vai ser longo, evidentemente. "A Caverna" nasceu aqui há uns tantos meses, numa situação que eu depois descreverei. O livro que se devia ter seguido (até antes, ao "Ensaio sobre a Cegueira"), seria "O Livro das Tentações", o tal que é a minha autobiografia até aos 14 anos, que é um livro cuja ideia - e algum trabalho - me acompanha desde há uma quantidade de anos.

E que foi adiando...
Eu não o adio, o que acontece é que ele vai sendo adiado por outros trabalhos que me aparecem. Depois, é um livro que eu acho que posso escrever em qualquer altura, precisamente porque tem a ver com um período da minha vida, portanto ela está lá, a memória funciona... Se me aparece uma ideia para um romance, eu tenho que tratar dela imediatamente, não por medo de que ela desapareça, mas pela própria urgência com que ela se impõe: "aqui estou, tens que tratar de mim".

Entretanto, como vai ser a sua acção política? Vai intervir de alguma forma na campanha da regionalização? É possível que volte a ser candidato do Partido Comunista, num lugar não elegível? 
Embora eu seja eleitor aqui, eu vivo lá fora, portanto, participação em campanhas não tem sentido nenhum. Além disso, eu sei perfeitamente que, se se apresentasse essa hipótese, o meu partido tem suficiente bom gosto para não me pedir - agora que eu sou prémio Nobel - que eu participe numa campanha. Porque aos olhos de toda a gente isso seria interpretado como um aproveitamento político de algo que não tem nada que ver com a política, que é o prémio. Portanto, quer o meu partido quer eu, somos dotados de suficiente bom gosto para que isso não aconteça. E há outra razão: no que se refere à regionalização não estamos de acordo.

Exactamente. Não podemos então esperar intervenções suas, adversas à posição do seu partido?
Não, de modo nenhum. Eu tornei pública a minha posição em relação a isso, e a partir daí ponto final, não tenho mais que dizer. Aliás, já fui convidado três ou quatro vezes para participar em debates, para escrever depoimentos para jornais, e digo que não, porque não entro nisso. Também não quero que me transformem numa espécie de bola de pingue-pongue que é usada quando convém.

Como vai viver o seu tempo de prémio Nobel da Literatura? Imagina-se que tenha recebido uma imensidão de convites... vamos vê-lo viajar ainda mais? Vai ter tempo para escrever?
Sim, sim, vou arranjar tempo para escrever. Se o papel do prémio Nobel é ser passeado pelo mundo, ser exibido, é evidente que eu não farei isso. Este prémio Nobel vai continuar a ser quem é, participando como até aqui, com intervenções como até aqui, naquilo que considerar útil, indispensável e necessário. Não assumirei o prémio Nobel como uma "miss" de beleza que tem de ser exibida em toda a parte... não aspiro a esses tronos, nem poderia, claro...! 
Mas, se o que tenho vindo a fazer até agora tem tido alguma utilidade para alguém, como voz, como crítica, como análise das circunstâncias, dos factos, da vida política, da vida social, da situação em que o mundo está, então assim continuará a ser. Pode surpreender algumas pessoas que o prémio Nobel não se limite a desfrutar das satisfações imediatas de quem ganhou, mas o que eu quero dizer é que a única coisa que muda é isso, é que antes não tinha o prémio e agora o tenho. O homem é o mesmo e continuará a escrever. Também não me deitarei à sombra do prémio.

Escreveu alguma coisa desde quinta-feira, o dia do anúncio?
Você escreveria?

Escreveu?
Já imagina que era impossível. Claro que não. Nem uma palavra."

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Citador #40 Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - Caminho, 11.ª edição Página 407

Citador #40
Pessoa e Ricardo Reis no final da obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição
Página 407

Frame do registo filmado da apresentação do livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis",
 no café Martinho da Arcada - Lisboa, produzido e realizado pela 
Direcção Geral de Acção Cultural / Divisão de Audiovisuais.
José Saramago em 1987



"Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor da que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis. O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera."



domingo, 14 de junho de 2015

Citador #39 ... os conflitos e irregularidades do Sr. José da Conservatória Geral em "Todos os Nomes"

Citador #39
... os conflitos e irregularidades do Sr. José da Conservatória Geral
"Todos os Nomes"
Caminho, página 34



(...) "Não se mexeria do seu canto, não entraria na Conservatória nem que lhe viessem prometer a fortuna inaudita de descobrir o documento que mais procurado tem sido desde que o mundo é mundo, nem mais nem menos que o registo oficial do nascimento de Deus. O sábio é sábio consoante o grau de prudência que o exorne, diz-se, e, ainda que desoladoramente imprecisa e indefinível, há que reconhecer no Sr. José, não obstante as irregularidades que vem cometendo nos últimos tempos, a existência de uma espécie de sabedoria involuntária, daquelas que parecem ter entrado no corpo por via respiratória ou por dar o sol na cabeça, e por isso não são consideradas dignas de particular aplauso." (...)

domingo, 24 de maio de 2015

Citador #38 ... do tempo do Sr. José, em "Todos os Nomes"

Citador #38
... do tempo do Sr. José
"Todos os Nomes"
Caminho, páginas 46 e 47

(Capa da edição italiana de 1997)

(...) «O tempo pusera-se a contar os dias desde o princípio, agora usando a tábua da multiplicação para recuperar o atraso, e com tanto acerto o fez que o Sr. José já tinha outra vez cinquenta anos quando chegou a casa. Quanto à criança lacrimosa, essa só estava uma hora mais velha, o que demonstra que o tempo, ainda que os relógios queira convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente.» (...)

domingo, 19 de abril de 2015

Citador #37 ... da estrutura e coerência do romance, em "Diálogos com José Saramago" de Carlos Reis

Citador #37
... da estrutura e coerência do romance
em "Diálogos com José Saramago"
Carlos Reis - Porto Editora
Página 134

(...) "O que me preocupa é a arquitectura do livro, a sua solidez, um sistema de vigas que suportam, de modo a que nada trema, mesmo que a história seja delirante e avance pelo fantástico de velas erguidas." (...)
José Saramago

sexta-feira, 27 de março de 2015

Citador #36 ... Oh, Meu Amor... um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória

Citador #36
... Oh, Meu Amor...
"História do Cerco de Lisboa
Caminho, 2.ª edição
Página 295

Um Revisor que mudando a "história" acrescentou algo à sua estória.

(...) quando todas as comportas do dilúvio se abriram sobre a terra e as águas da terra, e depois a calma, o largo estuário do Tejo, dois corpos lado a lado vogando, de mãos dadas, um diz Oh, meu amor, o outro, Que nada no futuro seja menos do que isto, e de repente ambos tiveram medo do que disseram e abraçaram-se, o quarto estava escuro, Acende a luz, disse ela, quero sabes se isto é verdade. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Citador #35 ... queres fiado? Paga o que deves... (dos 35 anos do "Levantado do Chão")

Citador #35
... queres fiado? Paga o que deves...
em "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição, página 84

(...) ", Se eu fiar a toda a gente e não me pagarem, como é que eu vivo. 
Todos temos razão, quem é o meu inimigo." (...)

quinta-feira, 5 de março de 2015

Citador #34 ... as guerras que sempre tiram do mesmo lado... (dos 35 anos do "Levantado do Chão")

Citador #34
...as guerras que sempre tiram do mesmo lado...
em "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição, página 57

(...) "Os outros, se viam subir os preços ou faltarem até os géneros grosseiros da sua alimentação, se perguntavam porquê, É por causa da guerra, respondiam os entendidos. Muito comia a guerra, muito a guerra enriquecia. É a guerra aquele monstro que primeiro que devore os homens lhes despeja os bolsos, um por um, moeda atrás de moeda, para que nada se perca e tudo se transforme, como é a lei primária da natureza, que só mais tarde se aprende. E quando saciada de manjares, quando já regurgita de farta, continua no jeito repetido de dedos hábeis, tirando sempre do mesmo lado, metendo sempre no mesmo bolso. É um hábito que, enfim, lhe vem da paz." (...)

quarta-feira, 4 de março de 2015

Citador #33 ... tu que lutas contra ti próprio... (dos 35 anos da publicação da obra "Levantado do Chão")

Citador #33
 ... tu que lutas contra ti próprio...
(dos 35 anos da publicação da obra "Levantado do Chão")

em "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição, página 36

(...) Hoje sabemos que dia é o nosso, amanhã quem o dirá, Emprestam-te uma espingarda mas nunca te disseram que a apontasses ao latifúndio, Toda a tua instrução de mira e fogo está virada contra o teu lado, é para o teu próprio e enganado coração que olha o buraco do cano da tua arma, não percebes nada do que fazes e um dia dão-te voz de atirar e matas-te (...)

(Ilustração do assassinato de Catarina Eufémia)

terça-feira, 3 de março de 2015

Citador #32 ... a paisagem e as sortes das gentes... (Levantado do Chão)

Citador #32
... a paisagem e as sortes das gentes...
in "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição, página 12

(...) Tanta paisagem. 
Em homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido. (...)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Citador #31 em "As Intermitências da Morte" ... sem morte não há razão para haver igreja...

Citador #31
em "As Intermitências da Morte"
Caminho, página 20

"É a todos os respeitos deplorável que,  ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave da abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Citador #30 - filosofias e incongruências que o "Viajante" deixa alertado - "Viagem a Portugal"

Citador #30
... filosofias e incongruências que o "Viajante" deixa alertado
Caminho, 11.ª edição
Página 195

(...) "Há aqui basta matéria para dissertar sobre incongruências, e, quando já o dedo vai em riste para apontar a primeira, descobre o viajante que deve começar por si mesmo: mau mundo é esse para quem o poeta é poeta só, e cada um de nós nada mais do que pareça. (...)

Citador #29 ... o "Viajante" e os traços da futura epígrafe do "Ensaio sobre a Cegueira"

Citador #29
O "Viajante"
Caminho, 11.ª edição
Página 152

(...) "os livros de pergaminho iluminados, as pratas, e se todas estas coisas vão assim mencionadas ao acaso, sem critério nem juízo formulado, é porque o viajante tem clara consciência de que só vendo se vê, embora não esqueça que mesmo para ver se requer aprendizagem. Aliás, é isso que o viajante tem andado a tentar: aprender a ver, aprender a ouvir, aprender a dizer." (...)

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” - epígrafe da obra "Ensaio sobre a Cegueira"

As formas várias de olhar, as formas de ver, o que se observa e o que se repara.
Intuir, absorver informação, interpretar e desenvolver a capacidade de interagir com o mundo que nos rodeia. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Citador #28 sobre os silêncios da natureza... "Viagem a Portugal"

Citador #28
... sobre os silêncios da natureza...
em "Viagem a Portugal"
Caminho, 11.ª edição, página 53 e 54


(Serra do Marão, ou a "Casa Grande")

(...) "Não há limites para o silêncio. Debaixo destas pedras, o viajante retira-se do mundo. Vai ali à Pré-História e volta já, cinco mil anos lá para trás, que homens terão levantado à força de braço esta pesadíssima laje, desbastada e aperfeiçoada como uma calote, e que falas se falaram deixado dela, que mortos aqui foram deitados. O viajante senta-se no chão arenoso, colhe entre dois dedos em tenro caule que nasceu junto de um esteio, e, curvando a cabeça, ouvem enfim o seu próprio coração. " (...)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)