Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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segunda-feira, 7 de março de 2016

Azinhada retratada na obra "As Pequenas Memórias" - (Caminho, 2006)

"Deixa-te levar pela criança que foste" - O Livro dos Conselhos

(...) "A terra é plana, lisa como a palma da mão, sem acidentes orográficos dignos de tal nome, um ou outro dique que por ali se tivesse levantado mais servia para guiar a corrente aonde causasse menos dano do que para conter o ímpeto poderoso das cheias. Desde tão distantes épocas a gente nascida e vivida na minha aldeia aprendeu a negociar com os dois rios que acabaram por lhe configurar o carácter, o Almonda, que a seus pés desliza, o Tejo, lá mais adiante, meio oculto por trás da muralha de choupos, freixos e salgueiros que lhe vai acompanhando o curso, e um e outro, por boas ou más razões, omnipresentes na memória e nas falas das famílias. Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer eu onde nasci tivesse sido consequência de um equívoco do acaso, de uma casual distracção do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com os seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia, sem consciência de que o sabia, que nos ilegíveis fólios do destino e nos cegos meandros do acaso havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer. Durante toda a infância, e também os primeiros anos da adolescência, essa pobre e rústica aldeia, com a sua fronteira rumorosa de água e de verdes, com as suas casas baixas rodeadas pelo cinzento prateado dos olivais, umas vezes requeimada pelos ardores do Verão, outras vezes transida pelas geadas assassinas do Inverno ou afogada pelas enchentes que lhe entravam pela porta dentro, foi o berço onde se completou a minha gestação, a bolsa onde o pequeno marsupial se recolheu para fazer da sua pessoa, em bem e talvez em mal, o que só por ela própria, calada, secreta, solitária, pode-ria ter sido feito. Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, as-zinaik, «rua estreita», o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância." (...)

in, "As Pequenas Memórias"
Caminho, páginas 12 e 13 - 2006

sábado, 25 de outubro de 2014

As origens e lugares de referência - Rio Almonda

O rio Almonda, vem mencionado na obra biográfica, "As Pequenas Memórias", onde José Saramago aborda as recordações de juventude, o contexto familiar e a vida social em Portugal, quer seja em Lisboa ou na Azinhaga.
Aqui, na terra dos seus avós maternos, corre o rio Almonda em direcção à sua junção com o rio Tejo.

Refêrência via Wikipédia em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Almonda

"O Almonda é um rio português que nasce na Serra de Aire a 5 km a noroeste de Torres Novas, na vertente da Serra de Aire, perto de Almonda, a que deu o nome, e de Casais Martanes. No seu percurso de 30 quilómetros atravessa os municípios de Torres Novas e da Golegã onde desagua na margem direita do Tejo

O rio Almonda segue o seu curso desde a nascente situada em Moinho da Fonte, depois entre a Ribeira Branca e a Ribeira Ruiva, banha a povoação de Lapas, serpenteia a cidade de Torres Novas e desagua no rio Tejo, no sítio da Igreja Grande, no concelho da Golegã. No total, o seu percurso é de cerca de 30 quilómetros.

O rio é atravessado por mais de duas dezenas de pontes e teve importância decisiva no desenvolvimento agrícola e industrial do concelho de Torres Novas. Prova disso é o facto de ainda existirem ao longo do seu percurso (pelas diversas aldeias e até mesmo dentro da cidade de Torres Novas) antigos moinhos movidos pelas suas águas, embora grande parte deles já se encontrem em ruínas. Existe também dentro de Torres Novas uma pequena central hidroeléctrica, onde se produzia electricidade a partir das suas águas."




Rio Almonda. Lugar. Margens de rio, exploração e travessias várias, de actividade piscatória e rega dos campos de cultivo.
A referência é bastante presente no livro "As Pequenas Memórias". Logo no início, Saramago apresenta a desenvoltura de uma criança que se aventura pelos campos e margens do rio almonda. Menciona que o medo dos cães não o impede de se aventurar pelos campos fora e à inexistência de outras possibilidades para ocupar o tempo, a comunhão com a natureza fica demonstrada desde a infância. Este espírito desassossegado, mas de paz com a mãe natureza, depreendo, o acompanhará em toda a vida. Da Azinhaga até Tias em Lanzarote, existe no homem uma paz permanente com a natureza pura, que não raras vezes se revolta contra a ocupação bruta da industrialização. Para mim, e como eu o poderei afirmar com esta leviandade de narrador, a paz e felicidade que Saramago viveu ao conseguir com  muito custo físico, subir a montanha de terra vulcânica em Lanzarote, no meio de uma paisagem quase inóspita, representa a fidelidade com que o espírito da criança (do meio rural) sempre transportou até ao fim dos seus dias.
Seria Saramago, um humanista descontente com o homem?, com as suas fraquezas de consciência para com o legado da natureza e sua necessidade de a preservar? 
Não o podendo afirmar, posso acreditar que esta preocupação sempre esteve presente.

Página 18 e 19 da 1.ª edição - Caminho

"Então digo à minha avó: «Avó, vou dar por aí uma volta.» Ela diz «Vai, vai», mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge, pego num pau para o caso de ter de me defender de um mau encontro canino, e saio para o campo. Não tenho muito por onde escolher: ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos de rio já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim na direcção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso.»