Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"A Casa José Saramago" em Tías - Lanzarote

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INFORMAÇÃO DA PÁGINA
Morada - Calle Los Topes, 3, 35572 Tías, Canarias, Spain
Horário Seg-Sáb: 10:00 – 14:30

Casa Museo José Saramago en la Isla de Lanzarote 

Telefone +34 928 83 30 53
E-mail acasajosesaramago@gmail.com



21 de septiembre de 1996
"Esta mañana, todavía en la cama, entre las nebulosas del primer despertar, tal y como si ante mí fuesen fluctuando piezas sueltas de un mecanismo que, por sí mismas, buscasen sus lugares y se encajasen unas en otras, comencé a distinguir, de un extremo a otro, el desarrollo del enredo de Todos los nombres, esa novela cuyo título nació, en enero, en un avión que aterrizaba en Brasilia, y que, para mostrarse (¿definitivamente?), necesitó que otro avión me trajera hasta Amherst. Estaba pensando, de un modo vago, soñoliento, en los esfuerzos que vengo realizando para encontrar la pista de mi hermano, y de repente, sin ninguna relación aparente, comenzaron a desfilar en mi cabeza los personajes, las situaciones, los motivos, los lugares de una historia que no llegaría a existir (suponiendo que la escriba) si el óbito de Francisco de Sousa hubiera sido registrado en la Conservaduría de Golegã, como debería...".
José Saramago, Cuadernos de Lanzarote II.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Conferência em Paris - "Academia Universal das Culturas" (Cadernos de Lanzarote Diário II - 20/12/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, páginas 254 a 259 (20/12/1994)

"Não sei se diga. Não sei se diga que vim a Paris, não sei se diga que participei pela primeira vez na assembleia da Academia Universal das Culturas e que nela botei fala crítica, tão protestativa quanto dorida-mente patriótica. Se digo, que dirão? Que não devia dizer, que deveria ter dito outra coisa, tudo menos que fui a Paris e que me receberam na Academia, aquela. Portanto não digo que infelizmente Jorge Amado não estava, mas que estavam, entre outros de que não tinha notícia anterior, Elie Wiesel, Umberto Eco, Wole Soyinka, Paul Ricoeur, Jacques Le Goff, Ismail Kadaré, Jorge Semprun. Também não digo que conheci com gosto e proveito o libanês Amin Maalouf, o tunisino Mohamed Talbi, o israelita Joseph Ciechanover, uns tantos outros de aqui e de além, de que não farei men-ção para não alongar mais o que não digo. Limitar-me-ei a dizer umas quantas palavras daquelas que não disse: 

«Quando se pede a um português uma definição breve do seu País, as explicações previsíveis, pondo de parte alguma diferença de pormenor, são, invariavelmente, duas: a primeira, ingénua, optimista, proclamará que jamais existiu, debaixo do Sol, outra terra tão notável e tão admirável gente; a segunda, pelo contrário, corrosiva e pessimista, nega essas sublimadas excelências e afirma que, últimos entre os últimos no continente europeu desde há quatro séculos, nessa situação ainda hoje nos comprazemos, mesmo quando protestamos dela querer sair. 
«Procuram os optimistas encontrar em tudo razões para que os Portugueses possam vangloriar-se duma identidade, duma cultura, duma história alegadamente superiores, como se História, Cultura e Identidade, qualquer que seja o grau de comparabilidade recíproca admissível, não fossem radicalmente inseparáveis, em causa e efeito, da própria relação social, conflitiva ou harmoniosa, dos seres humanos no tempo. 
«Já os pessimistas, propensos, em geral, a uma percepção relativizadora dos factos, afirmam que a História e a Cultura portuguesas, projectadas na época dos Descobrimentos em todas as direcções do globo, não foram, depois deles, e hoje, no limiar de integrações de todo o tipo que se anunciam arrasadoras, igualmente não parecem, essa História e essa Cultura, bastante sólidas para defender, preservar e intensificar a identidade de um povo que, com demasiada frequência, cai na simpleza de gabar-se de viver dentro das mais antigas fronteiras da Europa, como se o facto, inegável, se devesse exclusivamente a méritos próprios, e não, como a História ensina, aos acasos da geografia e à evidente insignificância estratégica da região.» 
Também não disse: 
«Ao longo de quatro séculos vivemos o que poderia denominar-se a expressão endémica duma subalternidade estrutural, atravessada por surtos agudos de intervenção estrangeira directa, como foi o caso do pró-consulado de William Beresford, o general inglês que foi para Portugal em 1809, com a missão de reorganizar o exército desmantelado em consequência da primeira invasão napoleónica, e que no país se manteve até 1820, exercendo um poder que foi, primeiro, rigoroso, depois abusivo, e finalmente ditatorial. Do mesmo nosso aliado britânico viria mais tarde, em 1890, a brutalidade e a humilhação do Ultimatum, sem dúvida um episódio menor no quadro mundial das disputas coloniais da época, mas que se configurou como ocasião para uma daquelas erupções de passionalidade patriótica com que, de longe em longe, procura equilibrar-se vitalmente a habitual passividade portuguesa. Chegou-se ao ponto de promover uma subscrição nacional para a compra de navios de guerra, a qual, sendo tão escassos os recursos do País, não deu para mais que a aquisição de um cruzador, construído em Itália, que entrou em Lisboa sete anos depois. Tinha razão Antero de Quental quando escreveu, no meio do mais indignado ardor das manifestações públicas, estas lúcidas e implacáveis palavras que deveriam ter-nos servido de lição para o futuro: "O nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos...".» 
Igualmente não disse: 
«Acabados de sair duma longa e traumatizante guerra colonial, teria sido desejável que os Portugueses tivessem podido pensar sobre si mesmos, examinando o seu passado e o seu presente, para depois, pelos caminhos de uma consciência criticamente nova, acertarem o passo com a Modernidade, sendo, porém, primeira condição desse ajuste novo o apuramento e desenvolvimento de mais amplas capacidades de auto-regeneração, e não a simples adopção, voluntária ou forçada, de modelos alheios que, no final das contas, já demasiado o sabemos, muito melhor servem a alheios interesses. 
«Porém, a História tinha pressa, a História não podia esperar que os Portugueses parassem para pensar em si mesmos, fazendo algo parecido com um exame do seu sentido histórico, num trabalho sério de reflexão colectiva que lhes permitisse identificar claramente as causas estruturais, mas também ideológicas e psicológicas, da sua tendência a aceitarem ser, como por uma espécie de determinismo congénito, um parceiro menor, e de certa maneira nisso se satisfazerem, talvez porque essa subordinação lhes permite, por um lado, exercitar a paixão da lamentação e do protesto contra as constantes incompreensões e injustiças dos poderosos, paixão essa acrescida de um fechar-se em si mesmos a que chamam orgulho nacional, e, por outro lado, persistir em interpretações messiânicas do destino português, actualizando-as e adaptando-as, melhor ou pior, às novas realidades exteriores. «Bastará recordar a Mensagem de Fernando Pessoa, agora retomada por novos visionários de todas as idades, porventura de uma maneira menos primariamente "patriótica", dificilmente adoptável por aqueles outros, os pragmáticos, que se preocupam, sobretudo, com decorar e repetir, como se seu fosse, o discurso europeu oficial, abandonando, por antiquados, os sonhos pessoanos de um império espiritual português, excepto nos casos em que tal discurso se mostre ainda ideologicamonte vantajoso para uso interno, ainda assim muito mais com o objectivo de ornamentar com citações literárias a banalidade da nova retórica política do que por convicta adesão a esses retardados messianismos.» 
O que vem a seguir também não foi dito: 
«Interessante, porém, será observar como uns e outros, os visionários e os pragmáticos, coincidem numa visão finalmente providencialista: enquanto os primeiros teimam em colocar num tempo sucessivamente adiado a Hora em que Portugal se achará a si mesmo, os outros, prosseguindo um percurso mental semelhante, colocam as suas esperanças nas benesses materiais da União Europeia, graças ao que, com mínimo esforço próprio e como por um efeito mecânico de «arrastamento», consequência do processo integrador geral, todos os problemas portugueses se acharão resolvidos, com as evidentes vantagens do dinheiro fácil, do curto prazo, das datas à vista, em lugar da infinita espera de um infinito futuro. 
«Tudo considerado, creio poder dizer-se, quanto aos primeiros, que lhes é bastante indiferente o que Portugal venha a ser, desde que seja (mesmo apresentando-se tão pouco nítido o ser que é possível deduzir das suas nebulosas especulações); quanto aos segundos, tão-pouco essa questão lhes parece importante, porque, não tendo uma ideia precisa do que Portugal poderia ser, estão decididos a transformá-lo noutra coisa o mais depressa possível, e, sendo tão faltos de imaginação criadora, não serão capazes de fazer melhor que pagar, por qualquer preço, o modelo europeu prêt-à-porter, onde o corpo português terá de entrar, com jeito ou à força, consoante as exigências de cada momento, reduzindo-o no que sobrar ou esticando-o até à completa ruptura social e cultural.» 
E finalmente não disse: 
«Portugal não foi capaz, até hoje, nem parece preparado para o fazer, de definir e executar um projecto nacional próprio, obviamente enquadrável, sendo as coisas o que são, na União Europeia, mas não exclusivamente tributário dela, porquanto uma definitiva dependência económica (ressalvando o que na palavra definitivo há de demasiado categórico) não deixará de acarretar uma dependência política e cultural não menos definitiva. O que, no decorrer dos tempos, foi começado por incipientes interesses dinásticos, depois continuado por razões imperiosas de estratégia militar, será inevitavelmente consolidado pela lógica de ferro dos condicionamentos políticos e culturais que resultarão duma organização planificada, não só da produção e da distribuição, mas também do consumo... 
«Não parecem estas evidências perturbar excessivamente os governantes europeus. Menos ainda, talvez, os governantes portugueses, se tenho em conta a resposta dada por um deles - hoje festejado comissário da União Europeia - ao serem-lhe apontados os perigos duma diminuição da soberania nacional por efeito da aplicação do Tratado de Maastricht: "Ainda no século passado, um governo português não chegou a tomar posse por a isso se ter oposto o almirante duma esquadra inglesa fundeada no Tejo..." E sorriu ao dizê-lo, provavelmente porque, a partir de agora, as ordens, ferindo ou não a legitimidade dos governos e a dignidade dos povos, vão passar a ser dadas por um civil - e de Bruxelas.» 
Realmente, não sei se diga. É que teria de dizer que vim a Paris, que vim à assembleia da Academia Universal das Culturas, e isso já se sabe que não pode ser dito. Não faltaria mais." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, páginas 254 a 259 (20/12/1994)

Integrou desde 1994 a Academia Universal das Culturas, com sede em Paris. França.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Reflexão sobre a sua obra e "actos de passagem" - Cadernos de Lanzarote Diário II (15/09/1994)

15 de Setembro (1994)
"Relendo ocasionalmente a conferência de Luciana Stegágno Picchio no Instituto de Cooperação Iberoamericana, em Madrid, em Maio do ano passado, quando da «Semana» dedicada a este autor, encontro a afirmação de que Levantado do Chão marcou uma «passagem» em toda a minha escrita, tanto em sentido temporal como estilístico e de género. Creio que de facto é assim, e eu próprio, sem esquecer a Viagem, o tenho designado por «livro de mudança», o que vem a dar mais ou menos no mesmo. Mas esta declaração de Luciana, agora refrescada pela leitura, leva-me a perguntar se os meus romances não serão, todos eles, afinal, não apenas «livros de passagem» como também autênticos «actos de passagem», que, implicando obviamente as respectivas personagens, talvez envolvam, mais do que pareça, o próprio autor. Não digo em todos os casos nem da mesma maneira. Por exemplo: de passagem a uma consciência se trata no Manual; da passagem de uma época a outra creio estar feito muito do Memorial; em passagens da vida à morte e da morte à vida passa Ricardo Reis o seu tempo; passagem, em sentido total, é a Jangada; passagem mais do que todas radical é a que quis deixar inscrita no Cerco; finalmente, se o Evangelho não é a passagem de todas as passagens, então perca eu o nome que tenho... Do que aí fica não tiro conclusões, nem para sim, nem para não. A primeira operação investigadora a cometer seria confrontar as sucessivas fases da minha vida com os livros que as prepararam ou delas foram consequência - e isso quem o fará? Não eu, porque de certeza me perderia no labirinto que inevitavelmente estaria a emaranhar no mesmo instante em que começasse a pôr a claro as primeiras relações de causa e efeito..."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, páginas 196 e 197

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Texto a propósito do Parlamento Internacional de Escritores - "Cadernos de Lanzarote Diário II" (05/09/1994) e da Jornalista Betty Milan

5 de Setembro de 1994
"Eduardo Prado Coelho pediu-me um texto para meter no suplemento que o Público vai publicar a propósito da reunião, no fim deste mês, em Lisboa, do Parlamento Internacional de Escritores. O arrazoado expedido foi este: 
«Imaginemos que alguém que não é escritor nem aspira a sê-lo faz a seguinte pergunta: "Para que vai servir o Parlamento Internacional de Escritores?" E insiste: "Para que tem servido o PEN Club Internacional (que é, por assim dizer, um parlamento mais antigo)?" Finalmente: "E os escritores, servem para quê?" 
«A última pergunta, provavelmente, é a que terá resposta mais fácil: os escritores servem para escrever. Escrevam bem ou escrevam mal, escrevam contra ou a favor, escrevam sós ou mal acompanhados - são escritores, e basta. O tempo vindouro, como é ideia feita, joeirará a obra produzida (embora não se entenda por que bulas há-de ter sempre o futuro melhor critério que o presente e o presente sempre melhor gosto que o passado, sobretudo se pensamos que todo o presente foi futuro de um passado e passado de um futuro). De escritores, como pessoas, tenho dito, por enquanto. Mas a eles voltarei. «As associações servem para fazer de conta que os escritores estão juntos. Não juntos por razões estéticas, ou políticas, ou ideológicas, ou editoriais. Simplesmente, juntos. A sua mais avançada eficácia prática seria de tipo corporativo, como suponho que sucede com os médicos e advogados. 
As associações de escritores, se não são correias de transmissão de poderes estabelecidos (por favor, falo das associações em geral, não da portuguesa em particular), vivem do que têm, e o que têm é quase nada. Delas se pode dizer que, como "ordens", não são ricas, e como "sindicatos", não são reconhecidas. As associações não têm força para defender os interesses materiais dos escritores e nem sempre estão atentas à defesa dos seus direitos morais. Ou então, quantas vezes, inoperantes elas e inoperantes eles no âmbito nacional, buscam modos de reaprumar a consciência cívica e a responsabilidade intelectual nas organizações internacionais correspondentes, diluindo assim numa agitação cosmopolita mais ou menos efectiva a sua incapacidade local. Não creio que seja ofensa dizer que no Pen Club Internacional vão desaguar muitas destas frustrações nacionais, tanto as de responsabilidade própria como as que são consequência de condições externas adversas (dos efeitos de tais condições está absolvido, por falta de culpa, o PEN Club Português). Conclusão de tudo quanto ficou dito antes: não faltam associações, mas os escritores estão isolados. «E agora chega aí o Parlamento Internacional de Escritores. (Que não teríamos em Lisboa se Lisboa não fosse, este ano, Capital Europeia da Cultura. Lá que o convite foi uma boa inspiração, não há que negar. Resta agora ver que outras iniciativas virá a tomar Lisboa quando o dia 31 de Dezembro puser termo ao seu febrão cultural.) Chega aí o Parlamento Internacional de Escritores, graças ao que nos vamos reunir, nós e os de fora. Pelo que se sabe, pretende-se "criar uma estrutura de intervenção e reflexão sobre o lugar da literatura e do pensamento num mundo ameaçado quotidianamente pela intolerância, opressão ou violência dos dogmatismos e fundamentalismos actuais", o que parece equivaler, mais ou menos, a uma ONU toda feita de intelectuais. (Atenção, a ironia é só aparente, eu próprio estou envolvido nisto desde o princípio.) «Ora, se se trata realmente de uma nova ONU, é prudente começar, desde já, a pensar no grau de eficácia que iremos ter, pois a lição da ONU propriamente dita aí está para tirar-nos as primeiras ilusões. Qualquer um sabe que a oportunidade e a intensidade de uma mostra de autoridade da ONU (a outra) depende exclusivamente do querer político de uns quantos países, não de todos. Aonde eu quero chegar é simplesmente à demonstração de uma evidência: a de que o poder real-mente interventivo do Parlamento Internacional de Escritores estará na razão directa do grau de intervenção cívica dos escritores como cidadãos: quanto mais eles intervierem, "quotidianamente", na vida social (e não apenas literária, e não apenas artística) do seu país e do mundo, mais probabilidades terá o Parlamento de fazer ouvir a sua voz e talvez ajudar a mudar os perigosos caminhos que, parece que às cegas, estamos percorrendo. «Como um dia escrevi, o melhor parlamento não é aquele onde se fala, mas aquele onde se ouve. O Par-lamento Internacional de Escritores terá de abrir-se aos gritos de dor e de protesto do mundo, tal como está obrigado a atender, já que essa é a sua primeira vocação, às dores e protestos de quem escreve. Não é a literatura que está doente, é a sociedade.» 


(José Saramago e a jornalista Betty Milan)

O presente texto pode ser consultado e lido, na página da jornalista Betty Milan, aqui
em http://www.bettymilan.com.br/artigos/publicados/90-53-parlamento.htm

"O Parlamento Internacional dos Escritores" 
de Betty Milan

(Este texto integra o livro A força da palavra e reúne os artigos "A multinacional crítica", Folha de S. Paulo, 9/10/1994; "Lisboa recebe o Parlamento dos Escritores", Folha de S. Paulo, 25/09/1994, e "Parlamento de escritores", Folha de S. Paulo, 25/12/1993)

"Boa parte das entrevistas aqui reunidas foi realizada no período em que surgiu e se estabeleceu o Parlamento Internacional dos Escritores (PIE). A instituição, criada em 1993, resultou da transformação de uma tradicional reunião internacional de escritores organizada por Christian Salmon na cidade francesa de Estrasburgo, o Carrefour de la Littérature (“Confluência da Literatura”), em uma associação destinada a defender a liberdade de expressão e também a garantir a segurança física de escritores em perigo de vida. Era a reação à fatwah, a condenação à morte, lançada contra o anglo-indiano Salmann Rushdie (1989) e ao chocante assassinato de Tahar Djaout na Argélia (1993). Sob a presidência do próprio Rushdie (1994-1997) inicialmente e depois do nigeriano Wole Soyinka (1997-2000) – o primeiro Prêmio Nobel da África negra – e do americano Russel Banks (2000-2003), a organização logo instituiu cidades-refúgios, dispostas a abrigar e proteger autores perseguidos em seus países, e desenvolveu pesquisas sobre as formas de censura. Foram criados dois órgãos de comunicação e difusão global: a revista Autodafé, publicada em oito línguas simultaneamente, e o site homônimo, para pôr em circulação as obras censuradas.

Em 1994, a reunião aconteceu em Lisboa, onde cobri o encontro como enviada especial do jornal Folha de S. Paulo. Na ocasião, entrevistei vários escritores sobre a importância do organismo que os congregava. Daí a inclusão, em anexo, dos artigos publicados no jornal sobre o Parlamento Internacional dos Escritores e sua reunião em Portugal.

Em 2003, no encontro de dez anos de seus membros, a organização foi autodissolvida. Em 2005, o PIE voltou a manifestar-se em favor da libertação da jornalista francesa Florence Aubenas, sequestrada em missão no Iraque. Desde então, Christian Salmon, ex-secretário-geral e depositário da documentação do PIE, faz manifestações pontuais com base na ideia fundadora da organização.

1. Em 1989, Salman Rushdie, já consagrado como escritor, publica Os versos satânicos. Sob o pretexto de que ele blasfemou contra o Islã, o aiatolá Khomeini o condena à morte. Quem leu o romance sabe que Rushdie trata a modernidade ocidental com o maior ceticismo e até mostra como os textos sagrados do Islã são aviltados pela televisão e pela publicidade.

Isso não o inocentou diante do espírito teocrático, para o qual abordar os textos sagrados num romance é pior do que qualquer ataque direto, precisamente porque, sendo contrário à afirmação de uma verdade única, o romance não permite àquele espírito se defender.

O caso do autor de Os versos satânicos evidencia que a arte do romance pode estar ameaçada, porque o direito à ambiguidade e ao enigma está em perigo.

Depois da condenação de Rushdie, que passou a viver na clandestinidade, em junho de 1993, vários escritores são assassinados na Argélia. Face a esses crimes, um grupo de cinquenta escritores e intelectuais europeus e americanos, apoiando-se numa ideia do sociólogo francês Pierre Bourdieu, propõe a fundação de um Parlamento Internacional dos Escritores.

O apelo é enviado a mais de duzentos escritores do mundo inteiro e aceito unanimemente.

Reivindicando a autonomia da literatura em relação aos diferentes poderes e insistindo na necessidade de uma estrutura capaz de organizar um movimento de solidariedade internacional, o grupo funda, ainda em novembro de 1993, o Parlamento Internacional dos Escritores.

O trabalho do Parlamento exige instâncias de deliberação e de execução. Isso resulta na criação de um Conselho, presidido por Salman Rushdie e composto por Adonis (poeta libanês), Breyten Breytenbach (escritor sul-africano), Carlos Fuentes (escritor mexicano), Édouard Glissant (escritor martinicano), Jacques Derrida (filósofo francês), Pierre Bourdieu (sociólogo francês) e Toni Morrison (escritora americana).

Salman Rushdie redige então uma Declaração de Independência, a carta de princípios do Parlamento:

Os escritores são os cidadãos de muitos países – o país limitado e ladeado pelas fronteiras da realidade observável e da vida cotidiana, o reino infinito da imaginação, a terra semiperdida da memória, as federações do coração simultaneamente incandescentes e geladas, os estados unidos do espírito (calmos e turbulentos, largos e estreitos, regulados e desregulados), as nações celestes e infernais do desejo e, talvez a mais importante das nossas moradas, a república sem entraves da língua.

São esses países que o nosso Parlamento dos Escritores pode, sinceramente, e com tanta humildade quanto orgulho, pretender representar. Em conjunto, eles englobam um território bem maior do que o jamais governado por qualquer potência terrestre; no entanto, as suas defesas contra esse poder podem parecer muito fracas.

A arte da literatura exige, como condição essencial, que o escritor possa circular entre aqueles numerosos países como bem entender, sem necesssidade de passaporte ou visto, fazendo o que quiser com eles e consigo mesmo. Nós somos mineiros, ourives, homens sinceros e mentirosos, bufões e chefes, mestiços e bastardos, pais e amantes, arquitetos e demolidores. O espírito criador, por natureza, não tem limites nem fronteiras, rejeita a autoridade dos censores e dos tabus. É por essa razão que ele é frequentemente tratado como inimigo por potentados fortes ou insignificantes, os quais atacam a arte por construir imagens do mundo que ferem ou sabotam as suas próprias representações, mais simples e menos francas.

No entanto, não é a arte que é fraca, os artistas é que são vulneráveis. A poesia de Ovídio sobreviveu; a vida de Ovídio foi miserável por causa dos poderosos. A poesia de Mandelstamm continua viva; o poeta foi assassinado pelo tirano que ele ousou nomear. Hoje, no mundo inteiro, a literatura continua a se opor à tirania – não de maneira polêmica, mas negando-lhe a autoridade, trilhando o seu próprio caminho, declarando a sua independência. O melhor da literatura ficará, mas nós não podemos esperar do futuro que ele a libere das cadeias da censura. Muitos autores perseguidos também sobreviverão, de uma ou de outra maneira, mas nós não podemos esperar em silêncio o fim de sua perseguição.

O nosso Parlamento dos Escritores existe para lutar pelos escritores oprimidos e contra todos os que os perseguem – a eles e a suas obras – e para renovar incessantemente a declaração de independência, sem a qual a escrita é impossível; e não somente a escrita, mas o sonho; e não somente o sonho, mas o pensamento; e não somente o pensamento, mas a própria liberdade.

Os membros do Parlamento Internacional dos Escritores têm como princípios de sua ação a independência em relação aos poderes políticos, econômicos, midiáticos e de todas as ortodoxias; o internacionalismo fundado no conhecimento e no reconhecimento da diversidade das tradições históricas; a dedicação às ações universais, concebidas e decididas em comum.

Os objetivos do Parlamento devem ser determinados por todos os seus membros. Face à multiplicação dos atentados à liberdade de criação, ele visa intensificar a consciência dos criadores e a defesa dos interesses comuns; proteger as línguas e as culturas minoritárias ou oprimidas (ensino, acesso à publicação etc.), a liberdade real de expressão (contra a censura), os instrumentos de produção e difusão (edição, revistas, política de tradução) e todas as instituições direta ou indiretamente ligadas aos produtores culturais e às suas condições de trabalho.

Para romper o isolamento dos escritores, o Parlamento se vale de uma rede-fax internacional, que funciona entre os membros e também pode convocar rapidamente conferências de imprensa e manter tribunas livres nos jornais do mundo inteiro.
Através de uma rede de cidades-refúgios, solidariza-se com os escritores ameaçados nos seus países ou condenados ao exílio.

2. Tendo em vista a discussão dos princípios, objetivos, formas de ação e organização, o Parlamento Internacional dos Escritores se reúnede 28 a 30 de setembro de 1994 em Lisboa. Entre os participantes estão Édouard Glissant, Eduardo Lourenço, Hélène Cixous, Jacques Derrida, Pierre Bourdieu e Toni Morrison.

A reunião ocorre na Fundação Gulbenkian, sem a presença esperada do Prêmio Nobel de Literatura de 1986, Wole Soyinka, nigeriano.

Apesar das pressões exercidas pelos presidentes de França e de Portugal, o governo da Nigéria se recusa a dar um passaporte para o escritor, cuja ausência no Parlamento é mais uma prova da necessidade deste.

A seguinte mensagem é enviada por Soyinka aos colegas reunidos em Lisboa: “Devemos continuar a luta contra os atentados à liberdade de expressão. O meu país, dirigido por uma ditadura militar que usurpou o poder, atravessa uma situação difícil. Entristece-me não estar com vocês e eu agradeço a solidariedade... Queiram transmitir a minha simpatia a Taslima Nasreen, cuja luta eu apoio inteiramente”.

Protegida por forte esquema de segurança, Taslima Nasreen, condenada à morte pelos fundamentalistas de Bangladesh, comparece ao Parlamento no segundo dia de reunião e faz um depoimento comovente. “Comparada aos grandes escritores, eu não sou ninguém. Só o que posso dizer é que sou diferente. Sou inteiramente eu mesma, uma viajante solitária... O adjetivo 'burra' é aplicado às mulheres de Bangladesh, independentemente da inteligência e da cultura que tenham, e eu resolvi falar pelas 'burras'... Na verdade, eu hoje sou um pretexto para que os fundamentalistas continuem a fazer das mulheres do meu país cidadãs de segunda categoria... Não sei o que a minha poesia vale, mas sei que as 'burras' do meu país sabem que eu escrevo para elas.”

Salman Rushdie, presidente do Parlamento, alega uma razão literária para não comparecer: a escrita de um novo livro. Conclui sua mensagem lembrando que os colegas reunidos em Lisboa não serão julgados pelas suas palavras, e sim por seus atos.

O Parlamento se encerra com um protesto oficial contra o governo nigeriano e uma série de resoluções.

Primeiramente, considerando que os povos de Ruanda são vítimas do crime de genocídio – no sentido expresso pela Convenção da ONU de 1948 –, exigir o estabelecimento imediato dos mecanismos jurídicos necessários ao julgamento dos autores desses crimes contra a humanidade.

Em segundo lugar, tudo fazer para que os intelectuais argelinos perseguidos sejam recebidos nas universidades e nas instituições de ensino dos países democráticos.
Em terceiro, enviar uma missão ao Timor-Leste para saber qual a situação dos intelectuais no país.

Finalmente, ampliar a rede de cidades-refúgios de que já fazem parte Amsterdã (Holanda), Berlim (Alemanha), Estrasburgo (França) e Helsinki (Finlândia).

3. O único Parlamento ao qual o presidente não comparece alegando razões estritamente literárias é o dos escritores. Mas o Parlamento Internacional dos Escritoresnão é único apenas porque a escrita justifica a ausência. Também o é porque o presidente, Salman Rushdie, pôde dizer, na sua mensagem, que os membros, todos escritores, serão julgados pelas suas iniciativas, e que talvez seja salutar não serem julgados pelas palavras e, sim, pelos atos.

A unicidade daquele Parlamento, que se forma em nome da liberdade literária e contra o dogmatismo religioso ou ideológico, decorre do fato de que o paradoxo pode vigorar e a seriedade não exclui o riso, que é próprio do homem, como dizia Rabelais. A mensagem de Rushdie serve para situar o Parlamento no campo a que pertence – o da literatura – e justificar a existência de um “contrapoder” ou uma “multinacional crítica”, conforme definição do Parlamento por Pierre Bourdieu.

Trata-se de um contrapoder necessário num tempo em que a palavra “liberdade” se tornou um perigo e o escritor precisa se engajar para não ser vítima da tirania dos mestres do silêncio.

Apesar de um incidente que poderia ter sido evitado com a imprensa – injustamente afastada da assembleia no dia em que Taslima Nasreen comparece –, o encontro é um sucesso, porque, entre as suas resoluções, está a de fazer a ONU reconhecer que a palavra “genocídio”deve ser aplicada a Ruanda. Tal reconhecimento não apenas tornará obrigatório o julgamento dos responsáveis, como ainda imprescritíveis os crimes cometidos. Um sucesso, porque os escritores agiram como escritores, intervieram de modo eficaz na realidade, valendo-se da virulência das palavras.

Para saber o que pensavam os parlamentares reunidos em Lisboa sobre a contribuição possível do Parlamento e a questão da censura nos respectivos países, entrevistei vários membros presentes: Eduardo Lourenço, autor de O labirinto da saudade – Prêmio Europeu do Ensaio em 1988 —; o romancista José Saramago; Hélène Cixous, ensaísta e ficcionista, autora de A hora de Clarice Lispector; o filósofo Jacques Derrida; Édouard Glissant, poeta martinicano; Assia Djebar, romancista argelina exilada na França; Adonis, poeta libanês; Bei Dao, a grande voz da dissidência literária chinesa, exilado nos Estados Unidos. Segue o texto da entrevista.

BM: Qual pode ser, na sua opinião, a maior contribuição do Parlamento Internacional dos Escritores?

EDUARDO LOURENÇO: Não se deve esperar uma intervenção que tenha efeitos imediatos, como a dos políticos. Os escritores aqui reunidos pretendem alertar a comunidade internacional sobre os ataques sofridos pela liberdade de pensar e de escrever em vários países do mundo. Os exemplos mais célebres e trágicos são os de Rushdie e Nasreen. O nosso protesto é de ordem moral, temos a obrigação de defender uma das grandes tradições da nossa civilização, que é a da liberdade de expressão.

JOSÉ SARAMAGO: A contribuição vai depender do eco que o Parlamento possa ter na opinião pública. Podemos dizer coisas importantes, tomar grandes decisões, mas, se não houver repercussão... Tudo depende da capacidade que o Parlamento tiver de transmitir as suas ideias à imprensa, ao rádio e à televisão. Não sei se os jornalistas estão conscientes da grande responsabilidade que têm.

HÉLÈNE CIXOUS: O simples fato de conseguir reunir escritores em torno do tema da defesa da liberdade é extraordinário e já é uma contribuição. Isso nunca havia sido feito. Os grandes escritores, que vivem em países não-democráticos, são todos defensores da liberdade de pensamento e de expressão. O fato de o governo nigeriano ter impedido Wole Soyinka, Prêmio Nobel de Literatura, de vir a este Parlamento é um indício da importância do escritor na sociedade contemporânea. Mandelstamm, um dos grandes poetas russos, que foi deportado em 1938 e morreu num campo de concentração, dizia que o poeta é uma das pessoas mais importantes do mundo, porque pode ser preso por causa de um poema.

JACQUES DERRIDA: Contribuição? Já protestamos contra o que o governo nigeriano fez a Wole Soyinka. Ontem, escutamos Taslima Nasreen. Amanhã, vamos anunciar um certo número de resoluções e, entre as medidas concretas, o prosseguimento da política de cidades-refúgios. Daqui por diante, pretendemos informar à imprensa sobre um grande número de perseguições a intelectuais, de modo a poder agir sobre os Estados. Queremos nos organizar para descentralizar o Parlamento e ter reuniões em vários lugares do mundo. Ademais, vamos refletir sobre o que está acontecendo com a democracia, com os direitos do homem... Sem a reflexão filosófica, a nossa ação poderá se tornar repetitiva.

ÉDOUARD GLISSANT: A maior contribuição do Parlamento é a sua natureza, o fato de ser verdadeiramente internacional, e não apenas uma emanação das ideias europeias. Acontece que ele nasceu na França, depois do encontro do Carrefour des Littératures de Estrasburgo... O Parlamento deve corresponder à situação real do mundo, que é o objeto mais importante da literatura. O que se passa hoje, essa espécie de mistura extraordinária das culturas, muda as mentalidades. É preciso que tenhamos consciência de que cada comunidade deve preservar sua identidade, não deve se perder numa espécie de magma universal, mas tampouco se fechar sobre si mesma.

ASSIA DJEBAR: No quadro do Parlamento, já existe uma rede de cidades-refúgios, o que é uma contribuição. Nós, aqui, vamos escutar escritores que vêm de países onde há perseguições e depois, a partir de informações confiáveis, discutiremos o que fazer. Temos que ir em direção a coisas mais concretas.

ADONIS: O que faz a identidade de uma cultura é a criação. Se os criadores são oprimidos, a cultura e o povo são oprimidos. A contribuição do Parlamento é defender a liberdade de criação.

BEI DAO: A maior contribuição é a reunião de escritores do mundo inteiro, o encontro, independentemente do país de origem, da língua, da religião.

BM: Que temas poderiam implicar censura se fossem abordados no seu país?

EDUARDO LOURENÇO: Não temos aqui, em Portugal, conflitos de ordem religiosa, ética ou biológica suficientemente dramáticos para que a censura se exerça. Mas, no passado, já houve até caso de escritor condenado à morte. Durante a Inquisição, o nosso grande autor dramático, o Judeu, brasileiro de origem, acabou na fogueira. Durante a ditadura de Salazar, a criação esteve submetida ao olhar vigilante da censura.

JOSÉ SARAMAGO: O único caso que eu conheço de perto é o meu. O evangelho segundo Jesus Cristo havia sido selecionado para um prêmio europeu, mas o governo considerou que o meu livro ofendia o povo português nas suas crenças, na sua religião. Isso é completamente idiota, claro.

HÉLÈNE CIXOUS: Existe na França uma censura infinita no que diz respeito às mulheres. A misoginia está sempre presente. Todas as mulheres que escrevem sabem disso. São barradas nos jornais, malrecebidas. No que diz respeito ao lugar da mulher na nação, a França se encontra em décimo terceiro lugar e só há 5% de mulheres na universidade.

JACQUES DERRIDA: Na França, não existe censura explícita. A censura é mais sutil. O escritor corre o risco de não poder publicar, de não publicar na editora em que desejaria estar. Existem barreiras editoriais, grupos de pressão poderosos.

ÉDOUARD GLISSANT: A situação nas Antilhas francófonas é muito particular. Diria que não se trata de censura, porém de autocensura. A assimilação dos modos de vida franceses é tão profunda que o aparelho de Estado francês não precisa censurar.

ASSIA DJEBAR: Atualmente, a violência é tal na Argélia que qualquer intelectual, mesmo que não tenha se engajado no combate político, está ameaçado de uma ou de outra maneira. O que determina a censura não é o tema. Você é julgado pela língua na qual se exprime. Os que nos ameaçam são os que querem uma unicidade da língua. Eu posso ser perseguida só porque escrevo em francês; outro, por escrever em berbere; e, mesmo o que escreve em árabe, mas o faz no árabe do povo, também pode ser objeto da violência. Só está livre o que usa o árabe acadêmico. É um estado de pré-fascismo. O argelino Youssef Sebti, que escrevia em francês e no árabe da cultura popular, foi barbaramente assassinado.

ADONIS: A censura não é causada pelo tema. Na verdade, podemos abordar qualquer tema. O que conta é o como, como o tema é abordado.

BEI DAO: Na China, só é censurado o que possa comprometer o governo ou o partido. No mais, tudo pode ser dito. São as questões de mercado que tornam a vida do escritor particularmente difícil na China hoje.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"Carta aberta à CIA" publicada originariamente no Diário de Lisboa e recuperada nos "Cadernos de Lanzarote Diário II" (28/07/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 160 a 165

28 de Julho de 1994
"Continua a escavação arqueológica. Agora foi o Público que, para a sua secção «20 anos depois», exumou do velho Diário de Lisboa um artigo que escrevi com o título pouco original de «Carta aberta à CIA». Sendo estes cadernos um diário, acho que tanto o podem ser do dia de hoje como do dia de ontem, em primeiro lugar porque o hoje está feito de todos os ontens, quer os próprios quer os alheios, e depois porque vinte anos não são nada e as coisas mudam muito menos do que cremos. Razões suficientes para que a estas páginas tenha decidido trasladar (palavra adequada, tratando-se de uma exumação) o corpo menos mal conservado dos meus protestos e indignações de então. Rezava assim o artigo: 

«Tenho visto que Vossa Excelência é habilíssima em conspiração, intrigas e golpes de Estado. Tenho-a visto de longe e não desejaria sabê-la de perto. Já me basta ter lido o que Vossa Excelência fez no Chile, a mortandade que por lá foi e vai, verificar todos os dias que governos promove e apoia Vossa Excelência, imagine se eu havia de gostar que Vossa Excelência mandasse para aqui os seus emissários e instalasse no meio da nossa roda o seu caldeirão de truques e bruxedos!... Ainda agora aí está o arcebispo Makários, de trastes às costas, só porque Vossa Excelência, de acordo com o governo que instalou na Grécia, entendeu que convinha acender no Mediterrâneo um novo foco de agitação (perdoe Vossa Excelência a fraca palavra), numa altura em que, se não interpreto mal, os povos da Europa andavam a perceber que mais bondade tirariam da paz do que das guerras... 
«Vossa Excelência sofre de vocação fascista. Não se ofenda, please. Em verdade, nunca dei por que Vossa Excelência tirasse de qualquer país um governo de direita para pôr um governo de esquerda... Vossa Excelência gaba-se (ou já não se gaba, sequer?) de muito estimar a democracia, mas estou em crer que padece de uma deformada visão política que a faz desejar ver o seu país cercado de fascismos por todos os lados, talvez para mais avultarem as qualidades democráticas, quando não republicanas, que exornam a Grande Nação Americana... Se bem entendo, Vossa Excelência, que vive ocupadíssima a instalar governos reaccionários por toda a parte e a defender os existentes, está satisfeita com o governo que tem. Que sorte a sua, poupada como a vejo ao trabalho de fazer golpes de Estado dentro de casa! 
«Não cuide Vossa Excelência que eu insulto. Como me atreveria? Sou um pobre cidadão português que ainda não ia à escola em 1926 e que viveu todo este tempo sob o regime fascista que Vossa Excelência tanto acarinhou e protegeu. A diferença é que, enquanto Vossa Excelência defendia Salazar e Caetano, não me protegia a mim. Nanja que eu lho pedisse ou desejasse, mas, se Vossa Excelência se desse a respeitar alguns dos seus avós que o merecem, teria escrúpulo em meter-se onde não é chamada ou aonde a chamam apenas aqueles que com Vossa Excelência costumam trocar serviços pouco limpos. Faço-lhe a justiça de supor que Vossa Excelência, até agora, não se ocupou muito com o povo português. Não precisava. Isto, por cá, ia andando com a prata da casa, uns dominando, outros dominados, mas era um insignificante quintal europeu onde só por ricochete aconteciam coisas. Bastava a Vossa Excelência estancar na origem as torrentes: para estas bandas tudo se resumia em águas estagnadas e numa desolação para que parecia não haver remédio. 
«Nós fazíamos o que podíamos para resistir. E resistimos muito, se não é confiado afirmá-lo a quem tem esmagado outras resistências. Se não tivéssemos resistido, não estaria agora Vossa Excelência tão perplexa e agitada a perguntar-se como foi possível dignificar-se de repente um povo para quem Vossa Excelência olhava com desprezo total, e, se calhar, com alguma repugnância. Permita Vossa Excelência que lhe revele um segredo pessoal: não me pesam nada estes quarenta e oito anos, sinto-me fresco e activo como um jovem, mais activo e fresco do que, quando jovem mesmo, me moíam o juízo com os louvores do Estado Novo. A diferença (outra diferença) é que nessa altura Vossa Excelência ainda não era viva, embora já por ai houvesse quem lhe antecipasse as vezes... Vossa Excelência (aproveito a oportunidade para lho recordar) é um simples elo de uma cadeia repressiva que tem, na sua terra, outras malhas: o Ku Klux Klan, por exemplo, e no confronto até sou capaz de preferir o Klan... Repare Vossa Excelência que eles usam uns capuchos ridículos, afantochados, coisa que já não se aguenta sem gargalhadas, ao passo que os emissários de Vossa Excelência são gente robusta, bem treinada, que toma banho regularmente, fala línguas estrangeiras, sempre de pistola pronta e karate de ponta-e-mola... E isto ainda é o menos. 
«O mais, ou o resto, está em ser Vossa Excelência polícia de alto coturno, armado de toda a sabença técnica e de uma falta de escrúpulos sem limites. Vossa Excelência, quando não pode eliminar, arruína, quando não pode fazer calar, faz barulho, e sempre que lhe é possível destrói a gente honesta para a substituir por celerados. Vossa Excelência sabe que assim é e nem sequer reage aos protestos que se levantam de todo o mundo a cada seu malefício, nem desmente as acusações que justamente lhe fazem... Tão segura está Vossa Excelência do seu poder! É das coisas que mais me intriga que, sendo Vossa Excelência ré de tantos crimes, não haja no seu país um tribunal que a julgue! Ignorante como só um português tem podido ser, muitas vezes me tenho interrogado sobre quem realmente mandará no país de Vossa Excelência. A resposta que encontrei é simples e vale o que vale: no meu fraco entendimento Vossa Excelência serve o capital dentro e fora da América (Estados Unidos), desde que ele seja americano ou, não o sendo, esteja ao seu serviço. Nunca Vossa Excelência teve outra regra de conduta. OK? 
«Vossa Excelência já deu fé (deu logo, pois claro!) de que temos em Portugal uma revolução. Digamos, uma revolução pequena. Tínhamos cá o fascismo que tão bem servia Vossa Excelência, até que veio o Movimento das Forças Armadas e deu nisto o safanão que se viu. Vossa Excelência espantou-se muito ao ver com que facilidade a coisa veio abaixo. Permita-me que lhe diga que é ingenuidade sua: o prédio parecia para durar algum tempo mais, mas estava todo esburacado, e tínhamos sido nós, os civis, que formigamente havíamos operado. Alguns morreram nesse trabalho, muitos sofreram na prisão, foram torturados. Tem Vossa Excelência sensibilidade? Boa pergunta. Que sabe Vossa Excelência disso, quando é capaz de olhar esse desgraçado Chile com a satisfação complacente de quem fez obra perfeita e nela se revê?... E não há, realmente, quem leve Vossa Excelência a tribunal? 
«Dizia eu que fizemos aqui uma revolução. E também digo que Vossa Excelência não está nada satisfeita com o andamento das coisas. Para Vossa Excelência só serve uma democracia que sirva obedientemente os interesses do capitalismo, e lá lhe está parecendo que os portugueses, afinal, aprenderam demasiado nestes cinquenta anos de fascismo. É verdade: aprenderam precisamente a saber, de todas as maneiras, o que o fascismo é. Há-de ser difícil convencer-nos Vossa Excelência a aceitar os fascismos que pela sua mão vêm ou querem vir. Eu até nem me iludo: Vossa Excelência tem, na minha terra, ainda muito quem a sirva nos seus desígnios: todos os fascistas que continuam a comer pão e a dar ordens, todos os que não o sendo vão de gorra com eles, alguns sem darem por tal, outros muito preconcebidamente. Vossa Excelência tem portanto amigos dentro da praça. Já se encontraram todos, pois não é verdade?, ora à mesa secreta das decisões, ora nas acções de rua, nas calúnias, nas intrigas, na bela conspiração, na compra e venda dos traidores... 
«Vossa Excelência talvez tente aqui a sua sorte. Já o fez tantas vezes, que uma mais não lhe faz diferença e decerto convém aos seus patrões. Mas consinta que lhe diga uma coisa. Vossa Excelência e o mundo espantaram-se de que esta nossa florida revolução não desse em banho de sangue, não foi? Levaria muito tempo a explicar as razões disso e Vossa Excelência nem sempre é, ao menos, medianamente inteligente. Mas tome nota de que haverá mesmo um banho de sangue se Vossa Excelência se atreve a intervir na nossa vida. Estes pobres portugueses viveram cinquenta anos de fascismo e não querem mais. Suponho que preferirão acabar com a vida lutando pelo que já têm, a voltarem ao domínio de governos como os que Vossa Excelência transporta no seu catálogo de caixeira-viajante da contra-revolução. Tenho a certeza. 
«Emprazo Vossa Excelência a que nos deixe em paz. Temos aqui muito que fazer, muito que trabalhar, muito que sonhar. Mas não vamos dormir, isso não. Se Vossa Excelência vier, terá de matar-nos com os olhos abertos.» 

Afinal, não valíamos tanto. A esses e outros senhores do mundo bastou-lhes facilitar uma mãozinha embaladora à nossa natural inclinação para o sono, e agora aqui estamos, vinte anos depois, meio sonâmbulos, só atentos ao tinir dos écus que ainda vão caindo das frondosas ramas europeias. De facto, dos portugueses nunca se esperou muito, aos portugueses nunca se lhes pediu nada. O despertar vai ser atroz. Ou talvez não. A gente habitua-se a tudo, até a não existir..." 
 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A "Jangada de Pedra" numa conferência em Las Palmas (Centro Insular de Cultura) - Cadernos de Lanzarote Diário II (30/09/1994)



30 de Novembro (de 1994)
"Palavras iniciais da conferência que fui dar em Las Palmas, no Centro Insular de Cultura: «Vivemos, nós os que habitamos nas Canárias, em sete jangadas de pedra erguidas pelo fogo e agora ancoradas no mar, se não contarmos uns quantos ilhéus que são como barcas orgulhosas que não tivessem querido recolher-se ao porto. Embora não creia no destino, pergunto-me se ao escrever a minha Jangada de Pedra, a outra, não estaria já buscando, sem o saber, a rota que sete anos depois me havia de levar a Lanzarote. 
«Porém, a "jangada de pedra" não é só o original e particular meio de transporte de que me sirvo para as grandes ocasiões: ela é também essa parte do mundo que nos leva e traz desde antes que pudéssemos chamar-nos a nós próprios portugueses e espanhóis, a velha península carregada de história e de cultura que cometeu o prodígio de fazer-se inteira ao mar para levar a Europa aonde ela não parecia capaz de ir pelas suas próprias artes e indústria. E se, cinco séculos depois, um discreto escritor português se atreveu a romper as amarras que nos prendem ao cais europeu, foi ainda para tentar persuadir a Europa, e em primeiro lugar a portugueses e espanhóis, de que já é tempo de olhar para o Sul, de respeitar o Sul, de pensar no Sul, de trabalhar com o Sul, e de que a possibilidade de um efectivo papel histórico dos povos da Península Ibérica no futuro depende da sua compreensão de que são, de um lado e do outro da fronteira, continentais, sim, mas também atlânticos e ultramarinos.» E acrescentei, rematando assim a introdução: «Talvez possam entendê-lo melhor que ninguém estes sete "adiantados" da Ibéria que são as ilhas Canárias, estas sete jangadas caldeadas por dois fogos, o do céu e o da terra. Não falo aqui dos Açores portugueses, que quase só olham para os Estados Unidos, nem da Madeira, que não consegue saber para onde há-de olhar...»" 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, páginas 240 e 241



sábado, 23 de janeiro de 2016

Reflexão "Estar sentado frente ao mar" (Cadernos de Lanzarote Diário II - 08/09/1994)

 
"Estar sentado frente ao mar. 

Pensar que já não restam muitos anos de vida. 

Compreender que a felicidade é apenas uma questão pessoal, que o mundo, esse, não será feliz nunca. Recordar o que se fez e achá-lo tão pouco. 

Dizer: «Se eu tivesse mais tempo...» - e encolher os ombros 
com ironia porque são palavras insensatas. 

Olhar a pedra vulcânica que está no meio do jardim, 
bruta, áspera e negra, e pensar que é um bom sítio para não pensar em mais nada. 

Debaixo dela, claro."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II
Caminho, página 193 - (08/09/1994)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Reflexão sobre os caminhos que a vida toma - "Cadernos de Lanzarote Diário II" (22/06/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 140 e 141

22 de Junho de 1994
"Todos tivemos alguma vez a percepção súbita de estarmos a viver algo que já havia sido vivido antes, um lugar, um cheiro, uma palavra, o perpassar de uma sombra, uma sequência de gestos. A impressão não se demora, esfuma-se no instante seguinte, mas a lembrança desse momento mantém-se, como um animal caçador à espreita de que se repita a ocasião. Os que acreditam na metempsicose dizem que são recordações de vidas anteriores, nossas ou alheias. No segundo caso suponho que se aposta na hipótese de que as almas, não podendo ser infinitas em número, vão sucessivamente tomando posse de corpos diferentes, e, embora, em princípio, no fim de cada vida se tranque a respectiva conta-corrente, levando-se o saldo à rubrica dos ganhos e perdas gerais, não é de todo impossível que uma factura extraviada no tempo venha meter-se na contabilidade do dia em que nos encontramos... Os leitores de ficção científica estão muito habituados a estas cambalhotas temporais. 
O que já deve ser muito raro é a sensação de estar a viver uma vida que não é nossa. Entendamo-nos: somos quem éramos, reconhecemo-nos no espelho, reconhecem-nos os outros, e contudo, sem saber porquê, de repente surpreendemo-nos a pensar que a vida que vivemos, sendo a nossa vida, não deveria sê-lo à pura luz da lógica conjunta dos factos passados. Estou a falar de mim, claro está. Quando aos 64 anos a minha vida virou os pés pela cabeça (permita-se-me uma imagem tão pouco respeitadora da eminente dignidade da pessoa humana, como antes se dizia), não podia eu imaginar aonde me levaria o que então pensava ser uma simples bifurcação e afinal veio a ser estrada real (será preciso explicar aos meus virtuosos inimigos que não estou a falar de êxitos literários ou sociais?). Os dias já vividos não poderiam, pela lógica, ter-me trazido a isto, e no entanto eis-me a viver uma vida que difere tanto daquela que me tinha acostumado a chamar minha, que de duas uma: ou esta vida estava destinada a outro, ou sou eu esse outro. Conclusão: tenho aqui um seriíssimo problema ontológico para resolver." 

"Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?" Conferência referida em "Cadernos de Lanzarote Diário II" (15/08/1994)

15 de Agosto de 1994
"Edmonton, no estado canadiano de Alberta, XIV Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, que nos últimos três anos tem sido presidida pela Maria Alzira Seixo. Encontra-se aqui reunida, a par de uma multidão de caras desconhecidas - os congressistas passam de quinhentos -, a fina flor dos especialistas destas matérias em todo o mundo. O tema promete: «Literatura e diversidade: línguas, culturas, sociedades.» Ao princípio, havia sido também prevista a participação da escritora canadiana Margaret Atwood, mas afinal sou o único escritor presente. Tinham-me informado de que falaria amanhã, porém, o programa definitivo arrumou-me para hoje, na segunda sessão plenária. Li a minha conferência - Entre o narrado omnisciente e o monólogo interior: será necessário regressar ao autor? -, desenvolvimento de um ensaio que há tempos publiquei na revista francesa "Quai Voltaire". Não me engano nem engano se disser que saiu bastante bem. Os aplausos foram generosos, mas mais importantes do que eles foram as perguntas no fim: para concordar ou para discordar, os académicos decidiram tomar a sério a exposição simples de umas quantas opiniões produzidas por um escritor em domínio habitualmente reservado a «técnicos». Foi durante esse período de perguntas, já esgotado o primeiro efeito da sempre providencial adrenalina, que, bruscamente, me caiu em cima todo o cansaço dá viagem. Lá consegui aguentar-me. A apresentação, feita por Wladimir Krysinski, da Universidade de Montréal, que conheci em Viterbo, foi-o em tais termos que me fizeram pensar enquanto ele ia falando: «Ah, se o que tu dizes fosse verdade!...»" 
in, Cadernos de Lanzarote Diário II
Caminho, páginas 176 e 177



A conferência a que José Saramago faz referência nesta entrada para o seu "caderno", pode ser lida e consultada, aqui via página da Fundação José Saramago, 
em http://www.josesaramago.org/entre-o-narrador-omnisciente-e-o-monologo-interior-deveremos-voltar-ao-autor/

"Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?"

"Frequentemente, quando se fala das causas do êxito brilhante ou do fracasso estrepitoso de um homem, há logo alguém que repete uma frase irritante, que o uso acabou por tornar clássica: «Cherchez la femme». O que com ela se quer dizer, provavelmente, é que o homem, tanto no melhor como no pior, não é nada sem uma mulher – a mulher. Deste ponto de vista, entregue a si próprio, o homem seria, pois, a imagem da mais perfeita inocência.

(Entre parênteses, não recordo ter ouvido alguma vez as palavras que fariam contraponto a estas quando fosse preciso procurar as causas do fracasso ou do êxito de uma mulher: não se diz nunca «cherchez  l’homme». Significa isto, talvez, que as mulheres conseguem governar-se sempre  melhor que os homens para chegar ao triunfo, ou, pelo contrário, para lamber e curar sozinhas as suas feridas, as feridas do corpo e da alma que a vida vai prodigalizando à esquerda e à direita. Parêntese fechado. Prossigo).

Certamente porque sempre necessito ir buscar o que se encontre a montante, e na fonte, se possível, para compreender o rio que me corre diante dos olhos, e sobretudo, confesso-o, para poder encontrar o meu pequeno caminho na floresta (para mim absolutamente virgem…) dos temas propostos ao Congresso, esmiucei, palavra por palavra, por assim dizer, os enunciados das diferentes áreas de trabalho que vos esperam aqui: literatura e identidade; influências estrangeiras e internas; géneros literários, língua, e cultura; literatura e outras formas de expressão cultural; estudos regionais; métodos e paradigmas da literatura comparada e da diversidade cultural.

Em parte alguma encontrei eu a palavra autor . Estranho caso, pensei. Então disse comigo mesmo: «Eles (vós) que falem do que os autores, muito ou pouco conhecidos, tornados em literatura, fizeram. Quanto a mim, talvez me seja possível encontrar alguma coisa para dizer sobre o que o autor  é.» Eis-me aqui, portanto, sozinho com o meu tema, em rigor sozinho comigo mesmo.

Começo por um esclarecimento que considero importante. Pelo menos do que posso alcançar ser minha intenção consciente, suponho que não existe outra, a interrogação posta no começo desta breve conferência – «Entre o narrador omnisciente e o monólogo interior: deveremos voltar ao autor?» – não é gratuita nem quer ser polémica.

Em primeiro lugar não é gratuita porque pretende enfrentar-se, sem virar a cara e sem qualquer precaução retórica prévia, com as minhas próprias dúvidas e perplexidades acerca da verdadeira identidade da minha voz narrativa, essa voz que, nos livros que tenho escrito, veicula o que eu creio ser, finalmente, e em todos os casos e circunstâncias, o simples ensamento do autor que sou, desta pessoa que sou, do seu pensamento próprio ou, ai de mim, o pensamento de tantas outras, por mim tomado para satisfação das minhas necessidades de narrador.

Não é polémica também essa liminar interrogação – apesar de conter já, na sua própria formulação, um reconhecimento implícito de mais ou menos evidentes debilidades conceptuais – porque não tenciona, com aquela falsa distracção de quem simula pensar noutra coisa, escapar às dificuldades do assunto, segundo o conhecido método de deslocar o debate para um terreno mais favorável.

Se proponho esta alternativa, que coloca frente a frente, por um lado, as técnicas mais ou menos elaboradas e já correntemente usadas do «monólogo interior» e, por outro lado, as técnicas do «narrador omnisciente», muito mais ingénuas, universalmente e desde sempre utilizadas, é porque penso, no fim de contas, que todos os processos narrativos, já inventados ou futuros, não têm e não terão nunca senão um objectivo: constituírem-se, cada um deles e todos juntos, como meios de pesquisa e de expressão que aspiram à globalidade. E que estes processos não são mais do que instrumentos que o autor vai usar, sucessivamente ou de modo complexo, com um único objectivo também, o de exprimir o  seu próprio pensamento. Escusado seria dizer que quando digo «pensamento» estou  a considerar também as impressões, as sensações, as emoções, os sonhos, que tudo isto são «visões» de um mundo exterior e de um mundo interior sem as quais o que chamamos «pensamento» se tornaria, pelo menos assim o creio, inoperante. O «narrador omnisciente», o autêntico, comporta-se, em minha opinião, como um deus que não se contentasse com saber tudo quanto se passou e vai passando: ele conhece, desde o primeiro facto, desde a primeira sensação, desde a primeira ideia, tudo o que a ideia, o facto ou a sensação irão ter como consequências próximas e distantes, espaciais ou temporais. Ele organizará o seu discurso, se posso permitir-me tal comparação, como o condutor duma quadriga que deverá não só segurar as rédeas e vigiar as reacções dos cavalos aos seus estímulos como também manter-se atento às eventuais irregularidades do caminho, ao itinerário que deverá seguir e aos sinais reveladores que lhe vão sendo transmitidos por uma máquina ainda mais frágil do que parece. Essa máquina, será preciso dizê-lo?, é a máquina do relato, jamais estável, jamais percorrendo uma linha recta, a todo o momento em risco de desviar-se, de tornar-se noutra coisa.

Qualquer, querendo, poderá adornar estas coisas a seu gosto, mas, na verdade, o que nós fazemos, em geral, nós os que  escrevemos, é resumível em duas simples palavras: contar histórias. Também é possível dizer – seguramente alguém o disse já – que os romancistas, os dramaturgos, e mesmo os poetas, existem para contar a história daqueles que não são nem virão a ser poetas, dramaturgos, ou romancistas. Talvez isto seja certo, quem sou eu para refutar, embora não consiga deixar de pensar que há nessa presunção alguma vaidade intelectual em demasia. Indo um pouco mais longe, o que verdadeiramente creio é que o romancista, o dramaturgo, o poeta, contam, não unicamente, claro está, mas sobretudo, a sua própria história pessoal, o que, em todo o caso, não é o mesmo que afirmar que um dia decidiram ser escritores somente para nos contar, de caso pensado e com o indispensável impudor, as suas pequenas vidas…

Em meu parecer, cada palavra é, em si mesma, uma história. As palavras que pronunciamos, entre o momento em que deixamos a cama, de manhã, e aquele em que a ela regressamos quando a noite chega, e também as palavras dos sonhos, ou aquelas que os sonhos tentaram descrever – constituem uma história, ao mesmo tempo racional e louca, contínua ou fragmentária, e podem, como tal e em todo o momento, ser organizadas e articuladas em história, escrita ou não. Porque, ainda que não escrevamos, vivemos todo o tempo como uma personagem, sim, como uma personagem, a história que estamos a ser.

Tudo isto, não o esqueçamos, será contado pelo escritor com uma dupla intenção, que é ora clara ora oculta: evidente e visível, em primeiro lugar, porque é preciso que a história que conta seja «reconhecida» como tal, passo a passo, pelo leitor, mas também, em segundo lugar, como se  ela estivesse dissimulada por trás da imediatidade do que chamamos consciência, com vista a ampliar e acentuar os efeitos de ressonância que dessa dissimulação possam resultar.

Esse contador de histórias é, não o esqueçamos também, em todas as  circunstâncias, um mistificador, um mistificador impenitente, de alguma maneira sem desculpa, salvo a do seu génio, se teve  essa extraordinária sorte no momento da repartição cósmica das graças… Conta sempre as mesmas histórias, sabendo bem que elas não são mais do que umas quantas palavras postas umas atrás das outras, suspensas em equilíbrio instável, frágeis, sempre sob a vertigem do não-sentido que as atrai, já livres ou conservando ainda um  resto de organização, para esse fantasma imundo que sempre está à espreita, o caos que ameaça constantemente todos os nossos códigos, cuja chave, a cada momento, corre o risco de perder-se.

Contudo, devemos ter presente que,  do mesmo modo que as verdades puras não existem, também não existem as puras mentiras. Porque se toda a verdade leva consigo inevitavelmente uma parte de mentira, nenhuma mentira é tão mentirosa que não veicule, ela também, uma parte de verdade. A mentira conterá pois duas verdades: a sua própria, elementar, digamos, a verdade da sua própria contradição («Se eu sou mentiroso e o digo, estou a dizer uma verdade»), e a outra verdade de que ela acabará, voluntariamente ou involuntariamente, por tornar-se veículo, comporte ou não esta verdade, por sua vez, uma parte de mentira. Cada uma destas forças faz mover sucessivamente, como numa engrenagem,  a força que é sua negação. Não conheço outro movimento perpétuo…

Ora projectando uma aparência de verdade ora torcendo sobre a verdade duma aparência, vamos pela vida contando histórias. No entanto, e aqui entro finalmente no cerne do meu tema, a história que, segundo creio, deveria interessar mais ao leitor, e ao contrário do que parece ser a própria evidência material do texto, não deveria ser aquela que aparentemente lhe está a ser proposta pelo relato que ele se prepara para ler. Como é possível? Que quero dizer com isto? Passarei a explicar-me. Um livro não está feito somente de personagens, de acontecimentos, de peripécias, de surpresas, de efeitos de estilo, de demonstrações ginásticas duma técnica. Um livro é, acima de tudo, aquilo que nele possa ser encontrado e nele possa ser identificado como sendo o autor, o seu autor. Pergunto-me mesmo se o que determina o leitor a ler não será uma secreta e inconfessada esperança de descobrir no interior do livro – mais do que a história que lhe vai ser contada e que ele normalmente espera num estado de espírito similar à obediência –, a pessoa invisível, omnipresente também, diga-se o que se disser, do autor. Tal como o entendo, o romance é uma máscara que esconde e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. O leitor não lê o romance, lê o romancista. O que não equivale a dizer que o leitor deva entregar-se a uma operação de detective ou de geólogo, procurando pistas ou sondando camadas tectónicas, ao fundo das quais, como um culpado ou uma vítima, ou como um fóssil, se encontraria 
escondido o autor…  

Muito pelo contrário: o autor está ali no livro, o autor é o livro, mesmo quando o livro não consegue ser todo o autor. Mão foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece-me, até, que ele não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem faltar ao respeito que é devido ao autor de Bouvard et Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert 
acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de  todas as condições e idades, nela viviam, porque a imagem e o espírito, o sangue e a  carne de tudo isto tiveram de passar, inteiros, por um só homem: Gustave Flaubert, isto é, o autor. Emma Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria coisa nenhuma. E se me é permitida agora a presunção de pronunciar outro nome depois de ter mencionado o do autor de  L’éducation sentimentale, diria que também eu, ainda que tão pouca coisa, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e que em  O Evangelho segundo Jesus Cristo  não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão.

O que nós sempre contamos, afinal, é a nossa própria história, não a história da nossa vida, aquela a que chamamos biográfica, mas essa outra que dificilmente saberíamos contar em nosso próprio nome, não tanto porque nos desse demasiada vergonha ou nos trouxesse demasiado orgulho, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para poder ser  dito em palavras, fossem elas milhares, e porque o que faz de nós geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que por aí não encontraríamos nada de novo que pudesse comover esse outro grande e pequeno ser que o leitor é.

Talvez seja por estas razões e outras semelhantes que certos autores, entre os quais julgo poder incluir-me, privilegiam nas histórias que contam, não a história que vivem ou viveram, mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser mentiras.  Essa é a única história que poderemos honestamente contar porque, em verdade, não conhecemos outra.

E então? Deveremos realmente regressar ao autor? Sim, em minha opinião, sim, mas atenção, não ao autor, como tal, desligado, como hoje demasiado o vemos, do seu ser social e ético. Receio bem que as  palavras que vou dizer vos soem como antiguidades fora de moda, mas o que proponho aqui é uma espécie de reconciliação, é o regresso apaixonado à concreta figura de homem ou de mulher que está por trás dos livros, e sem a qual, sem essa figura concreta, a literatura simplesmente não existiria. São essa mulher e esse homem que sobretudo me interessam, não para que me digam como foi que escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais provável é não o saberem eles próprios), não para que aperfeiçoem a minha educação e me guiem com as suas lições (eles são, quase sempre, os primeiros a não segui-las), mas muito simplesmente para que me digam  quem são nesta sociedade que  nós somos, eles, eu, todos nós. O que peço é que eles estejam aí todos os dias, visíveis, sobretudo audíveis, como cidadãos deste presente que é o nosso, mesmo se, como escritores, crêem estar trabalhando para o futuro.

O problema, se verdadeiramente existe, se não é mais do que um fruto tardio e pouco atraente da minha imaginação, não reside no suposto facto da extinção das causas de teor social, ideológico ou político que, com resultados estéticos tão variáveis como foram as intenções, conduziram a literatura, num determinado momento, àquilo a que se chamou, com evidente espírito redutor, o comprometimento. O problema, se quereis que me exprima duma maneira mais directa e sem rodeios, é que o escritor, 
hoje, em geral, recusa qualquer comprometimento, salvo evidentemente o que ele chama, se é bastante franco para declará-lo, o comprometimento pessoal e exclusivo com a sua obra. Atrever-me-ei mesmo a dizer que muitas teorizações que nos rodeiam, quantas delas belas e inteligentes, acabam, mesmo não sendo esse o seu objectivo, por se constituir como escapatórias intelectuais, maneiras diversas de esconder, aos nossos próprios olhos, a má consciência e o mal-estar profundo de um grupo de pessoas – nós, os escritores – que depois de terem presumido, durante muito tempo, de serem o farol da humanidade, acrescentam agora, à irredutível escuridão do acto criador (sabíeis que escrevemos no escuro?), as trevas da renúncia e da abdicação cívica. Entendemos como normal que, depois da sua morte, o escritor seja julgado segundo aquilo que fez. Mas, enquanto ele aí está, presente, vivo, permiti que vos diga que temos também o direito de julgá-lo segundo o que é."

José Saramago 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Reflexão sobre o mundo e sua paz podre - "Cadernos de Lanzarote Diário II" (3 de Julho de 1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, página 148

3 de Julho de 1994
"Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade do Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do campeonato do mundo... Se dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: «Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer» Sem dúvida, mas não desta maneira." 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Revista Espacio/Espaço Escrito, #9/10 - Texto de Saramago sobre Goytisolo (Cadernos de Lanzarote Diário II) 27/05/1994

(Capa da edição)


27 de Maio
"Com mais de um ano de atraso, saiu finalmente o número 9/10 da revista Espacio/Espaço Escrito, de Badajoz, que Ángel Campos Pámpano, seu director, resolveu dedicar a Juan Goytisolo, e, generosamente, também a mim. Por ideia de Angel Campos, cada um dos agraciados escreveu um texto de apresentação do outro, o que, com outra gente, poderia descambar numa hipócrita e ridícula troca de galhardetes. Eis o que escrevi sobre Goytisolo: 

Carlos Fuentes, José Saramago e Juan Goytisolo 
em Santillana del Mar / EFE (12/06/2007)

«Foi há quase trinta anos, precisamente em Novembro de 1964, que Juan Goytisolo se deu a conhecer aos leitores portugueses, em especial aqueles que só pela facilidade relativa de uma tradução podiam aceder à literatura espanhola de então. Numa colecção - a "Contemporânea" - que já levava cinquenta e nove volumes publicados, de autores portugueses e estrangeiros, aparecia, pela primeira vez, o nome de um romancista espanhol, que o editor apresentava como pertencente "à notável geração realista dos 50, substancialmente crítica, antifascista e liquidadora de mitos". Era o livro "Duelo en el paraíso", traduzido, adequadamente, para "Luto no Paraíso". Não me recordo agora, nem tenho ao meu alcance maneira de o confirmar, se mais livros de Juan Goytisolo foram depois publicados por esse ou outros editores. O que, sim, sei, é que, após a leitura de Luto no Paraíso, perdi durante muitos anos o rasto literário de Goytisolo. Quando, mais tarde, em virtude de razões que não vêm ao caso, fui levado a conhecer de perto a actualidade cultural espanhola, reencontrei, inevitavelmente, o autor que havia perdido, o qual, entretanto, tinha vindo a construir uma obra ampla e poderosa, caracterizada por sucessivas rupturas, tanto temáticas como estilísticas, e eticamente marcada por uma implacável revisão axiológica. Não foi pequeno nem fácil o trabalho de colocar-me mais ou menos em dia com a obra do recuperado autor: apenas posso dizer que estou perfeitamente inteirado da diversidade de níveis de percepção que tal obra em si mesma, impõe e logo exige do leitor. 

Carlos Fuentes, José Saramago e Juan Goytisolo 
em Santillana del Mar (12/06/2007)

«Um dia, não recordo quando nem onde, coincidi com Juan Goytisolo em um desses encontros ou congressos, aonde, e talvez com demasiada frequência, por mal dos nossos pecados, nos deixamos levar. Alguém nos apresentou, uma dessas apresentações fugidias, formais, que para nada servem. A verdadeira apresentação foi por nossa própria conta que a fizemos, de cada vez que circunstâncias semelhantes voltaram a reunir-nos. Não temos conversado muito, Juan Goytisolo e eu, mas mantemos desde há alguns anos, ora falando do estrado ora ouvindo na plateia, um diálogo que só aparentemente se interrompe, reconhecendo-nos mutuamente, nessa peculiar conversa nossa, a par de diferenças e divergências acaso irresolúveis, uma comunhão de sentimentos e ideias dificilmente traduzível por palavras (digo a comunhão, não os sentimentos e ideias, que para esses sempre palavras se achariam), mas que eu designaria, sem nenhuma pretensão de rigor, por uma consciência muito clara, e não raro dolorosa, da responsabilidade de cada ser humano perante si próprio e perante a sociedade, tomada esta, não como uma abstracção cómoda, mas na sua realidade concreta de conjunto de indivíduos e de pessoas. Por isto, e o muito que ficará por explicar, direi que vim a reencontrar Juan Goytisolo quando mais precisava dele, quando mais precisava de sentir-me acompanhado, mesmo de longe, mesmo com longos intervalos, por uma voz fraterna e justa.» 

in, "Cadernos de Lazarote - Diário II"
Caminho, Páginas 127 a 129 (27/05/1994)




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre a tese de doutoramento de Horácio Costa - "Cadernos de Lanzarote - Diário II" (22 de Abril de 1994)

"Cadernos de Lanzarote - Diário II"
22 de Abril de 1994

"Todo o dia a ler a tese de doutoramento de Horácio Costa, da Universidade de Yale: José Saramago: o período formativo. Notável, simplesmente. Pela primeira vez alguém deixa de lado a relativa facilidade de análise dos livros que publiquei a partir de Levantado do Chão para atrever-se a penetrar no quase indevassado pequeno bosque do que escrevi antes, não esquecendo mesmo Terra do Pecado, esse primeiro e cândido romance que teria saído a público com o título A Viúva se não fosse o malogrado Manuel Rodrigues, editor da Minerva, que benevolamente me acolhera na sua casa, ter decidido que tal título não era suficientemente comercial... Lendo hoje o estudo minucioso e perspicaz de Horácio Costa, foi todo o passado que se desenhou e reergueu diante de mim. Senti-me de repente muito velho (atenção, velho de tempo, não de vida) e pensei sem nenhuma originalidade: «Quanto caminho andado.» "

in, Caminho
Página 96 


(Capa da edição ESGOTADA - Caminho)

domingo, 10 de janeiro de 2016

"O leitor não lê o romance, lê o romancista" - Cadernos de Lanzarote Diário II (27/02/1994)


"Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor. O romance é uma mascara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 60 (27 de Fevereiro de 1994)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O «eu lógico» e o «eu intuitivo» (24/02/1994)

"O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela História, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se. A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 
Parece haver em mim como uma balança interior, um padrão aferidor que me tem permitido vigiar, de uma maneira a que chamaria intuitiva, a «economia» dos por-menores narrativos. Em princípio, o «eu lógico» não recusa nenhuma possibilidade, mas o «eu intuitivo» rege-se por umas leis próprias que o outro aprendeu a respeitar, mesmo quando tem relutância em obedecer-lhes. Evidentemente, não há aqui nenhuma ciência, salvo se este aspecto tão particular do meu trabalho se nutre de uma outra espécie de ciência, involuntária, infusa, inlocalizável, que, mero prático que sou, me limito a seguir, como quem se vai apercebendo da mudança das estações sem nada saber de equinócios e solstícios." 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário II"
Caminho, página 57 (24/02/1994)