Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta a semente e os frutos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a semente e os frutos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de dezembro de 2016

"A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal" - texto ensaístico de José Saramago

O presente texto, faz parte da exposição permanente da Fundação José Saramago e pode ser recuperada aqui em http://www.josesaramago.org/a-cronica-como-aprendizagem-uma-experiencia-pessoal/

Detalhe do texto emoldurado ladeado por duas fotografas de José Saramago


"A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal"

"Algumas vezes, nestes acasos da escrita e de reflexão sobre ela, me tenho interrogado sobre a relação que haja entre o saber e os seus repositórios enciclopédicos e dicionarísticos. Refiro-me àquilo a que costumamos chamar «saber comum», não aos grandes temas que, pela sua complexidade e extensão, reclamam um tipo de tratamento informativo que pressupõe, por sua vez, da parte do leitor, um conhecimento básico relativamente desenvolvido. Não se passam assim as coisas com o «saber comum», em geral recolhido nessas obras de consulta de um modo que diríamos indiferente, não crítico, ao ponto de se tornar legítimo duvidar, afinal, se é para informar segundo critérios científicos que certas enciclopédias existem ou para instalar opiniões e juízos sumários nos espíritos curiosos que a elas recorrem.
Estas palavras de abertura, que seguramente comportam algum exagero e não pouca injustiça, ocorrem-me com toda a naturalidade a propósito do tema que aqui nos reuniu; «A crónica como género literário». É que, a acreditar na informação recebida agora mesmo de uma das enciclopédias com que me tenho ajudado para orientar-me neste vasto mundo, a crónica de que aqui falamos não pode ser classificada de género, porquanto não passa de um subgénero, e muito menos terá cabimento na literatura, sendo, como se afirma também, mero jornalismo e mera quotidianidade. Exceptua-se da redutora definição, claro está, a outra crónica, aquela, antiga, dos reinados, das dinastias e das instituições, durante muito tempo simples registo de acontecimentos, em anais e décadas, e, no caso português, a partir do século xv, acedendo, com Fernão Lopes, a um nível literário superior. Porém, a realidade é sempre mais forte do que as definições com que pretendemos discipliná-la, e este Encontro, embora pecando por uma aparente adesão aos critérios judicativos da enciclopédia (a ninguém ocorreria, por exemplo, propor a debate o tema «O romance como género literário»), virá homologar, sem dúvida, o que a mesma realidade nos mostra todos os dias e em todos os lugares do mundo; que a crónica, não só tem o seu lugar na literatura como é, em muitos casos, uma das suas mais completas e acabadas expressões.
Buscando uma definição mais adequada e simultaneamente mais ampla e específica da crónica, diríamos que ela corresponde, em geral, a um texto curto, consequência quer de uma inspiração imediata e não necessariamente aprofundada quer de um diálogo deliberado com o quotidiano ocasional, mas sempre exigindo do escritor, num caso como no outro, capacidade de medida e de concentração, a par de sensibilidade a estímulos que à primeira impressão poderão parecer de pouca relevância, mas que virão a ser, porventura, os que mais fundo hão-de penetrar no espírito do leitor. Dentro de um molde tão flexível, escusado seria dizê-lo, cabem todos os diversos modos e tons pelos quais se expressam habitualmente os cronistas do nosso planeta, desde o lírico ao patético, desde o sério ao irónico, desde a mais rigorosa preocupação objectivista ao abandono às subjectividades mais íntimas. E, quiçá tanto quanto o poema, a crónica será o género literário em que mais produtivamente é possível criar uma atmosfera propícia ao que denominaríamos, na falta doutra expressão mais rigorosa, a sempre activa tentação confessional do autor.
Feitas estas considerações gerais, evidentemente desprovidas de qualquer pretensão de originalidade, porém necessárias como introdução à abordagem pessoal do tema, a que estamos obrigados pelo próprio título desta comunicação – A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal –, e não obstante a dificuldade intransponível que representa o facto de nos referirmos a textos desconhecidos de quem nos escuta, é a altura de declarar que a nossa prática da crónica, exercida grosso modo ao longo de cinco anos, entre 1968 e 1972, veio a demonstrar-se factor decisivo na definição de uma das nossas actividades subsequentes – a de romancista. Seria tentador, mas sem dúvida especioso, imaginar agora que romances poderíamos haver escrito se durante todo aquele tempo não tivéssemos, regularmente, às vezes em dias sucessivos, composto, nas poucas folhas de papel convencionadas, um pequeno enredo, um comentário, uma reflexão, reconstituindo memórias, procurando o sentido último de um acontecimento, ou, para tudo resumir em três acções concomitantes, fixando o tempo, situando o sujeito, recriando a palavra. Porém, já sabemos que o único itinerário permitido é aquele que parte do que foi para o que veio a ser: a viagem para o que poderia ter sido é impossível. Com excepções, como veremos adiante…
É pois verdade que, interrogados sobre o significado e a importância que essas crónicas tiveram no nosso trabalho de romancista, mais de uma vez respondemos: «Tudo o que está nos romances pode ser encontrado nas crónicas.» E à pergunta, ingénua mas inevitável, de se ao escrever aqueles textos breves nos estávamos preparando, conscientemente, para o romance, a única resposta honesta que podíamos dar, e temos dado, foi a de que, então, nos encontrávamos tão longe da simples ideia de um dia virmos a escrever histórias de trezentas ou quatrocentas páginas como longe da Terra está hoje a sonda Voyager. De todo o modo, os factos estão à vista: entre a primeira linha da primeira crónica e a última linha do último romance, parece ser discernível um fio contínuo ligando tudo, ao mesmo tempo que se identifica uma lógica condutora que em tudo reconhece um sentido.
Vários pontos, nessas crónicas, poderão ser retidos se se quiser caracterizar, no seu autor, tanto uma forma de escrever como um modo de sentir: em primeiro lugar, certa coincidência de atitude entre a crónica e o poema lírico (articulação com o momento presente, brevidade do texto, possibilidade de captação das ressonâncias evocativas do seu sentido); em segundo lugar, a prática constante de uma prosa medida, susceptível de criar no escritor um treino dos recursos estilísticos em função da densidade e da economia expressivas; em terceiro lugar, o hábito de colocar em conjunção de interesses a dinâmica do tempo que se vive, a sensibilidade do sujeito que o vive e as potencialidades verbais susceptíveis de definirem essa mesma expressão.
É a partir destes pontos, por assim dizer fundadores, que se vão orientar as manifestações mais explícitas da actividade do cronista, não só no que diz respeito à temática: a relação identidade/alteridade, a articulação entre o homem e a terra, o projecto humano e a sua transposição ou transcendência, a concepção do homo viatora e a sua incidência temporal; não só também no que diz respeito à constelação de motivos preferenciais ou tendenciais que preenchem essa temática: a água, a embarcação, a estreia, o silêncio, a pedra, o rumor – mas também nas atitudes dominantes: um cepticismo radical, no limite do desengano, mas apesar de tudo permeável à esperança; uma frase que se quer tensa, mas que não se fecha à irrupção lírica; uma mordacidade que não exclui a ternura, uma ironia quase sempre cúmplice dessa outra que o cronista dirige contra si mesmo.
Diversíssimas foram as áreas cobertas por estas crónicas, dependentes das naturais sugestões do quotidiano e da vida interior, mas também, não o esqueçamos, condicionadas na sua comunicação essencial e formal por uma situação de censura, de diminuição da liberdade de expressão. É a partir dessa múltipla teia de factores, ora restritivos ora estimulantes, que se articulam, adicionam e potencializam as áreas de observação e de evocação que, numa derradeira análise, definem esses textos. Neles tem lugar a actualidade (parte-se por vezes duma notícia de jornal), a memória (regressa-se à infância, suas marcas, suas recordações, suas nostalgias), o ambiente (evoca-se a cidade, outras cidades conhecidas, o campo, os vários tipos de ruralidade), a tipologia humana (o amola-tesouras, o sapateiro, o cego do harmónio, os frequentadores de café, etc.), a sugestão frásica e vocabular (um verso, uma frase), a cultura (domínios da arte, vultos de escritores, leituras, etc.), e, finalmente, certas efabulações de tipo onírico, maravilhoso ou fantástico que mais tarde virão a concretizar-se na obra ficcional do cronista.
Do ponto de vista estrutural, parece possível identificar quase sempre nestes textos a presença de duas partes distintas: uma primeira parte de tratamento genérico do tema, sucedendo-se a sua especificação parcelar – sendo esta divisão submetida a variantes, que podem revestir as seguintes formas: enunciado de um tema/derivação para um tema afim; enunciado de um tema/derivação para um tema contrário ou contraditório; narração de um caso, ou fábula, ou história/considerações moralizantes (ou por ordem inversa); e outras. Quase sempre a arquitectura discursiva se bipolariza, mantendo como resultado uma tensão ideológica, ou a sua conversão através da ironia ou da conclusão (ou abertura) claramente moralizante. Esta construção dual do texto aponta igualmente para uma oscilação de soluções, para um compromisso incómodo, para a necessidade de escolha, e outras atitudes humanas definidas pela tensão, pela incerteza, ou mesmo pela incompatibilidade.
Chegado a esta altura da nossa exposição, eis que nos enfrentamos com a já mencionada dificuldade (se impossibilidade não é a palavra mais exacta) de falar de obras que são desconhecidas da grande maioria dos que nos escutam. Referimo-nos, precisamente, a esses romances para os quais a crónica foi insciente aprendizagem, que sem ela não teriam existido, ou teriam existido de outra maneira, para nós inimaginável. No entanto, cremos ser possível tornar evidente a todos vós essa espécie de indirecta relação de causa e efeito, se pusermos em paralelo o que antes apontámos (oscilação de soluções, compromisso incómodo, necessidade de escolha, tensão, incerteza, incompatibilidade) e os temas de dois ou três dos nossos romances, escritos nos anos mais recentes.
Vejamos, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis, cujo protagonista é aquele heterónimo de Fernando Pessoa que tem o mesmo nome, e que fomos buscar ao imaginário exílio no Rio de Janeiro para o fazer regressar a Portugal depois da morte do seu criador, em 1935, e mostrar-lhe, a ele que um dia escrevera; «Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo» – mostrar-lhe esse mundo nas vésperas dos anos trágicos, ao mesmo tempo que fazíamos ressuscitar, não em fantasma, mas em corpo carnal e em espírito lúcido, o próprio Fernando Pessoa, para um impossível diálogo entre o que já não existe (Fernando Pessoa) e o que não existira nunca (Ricardo Reis).
Vejamos igualmente História do Cerco de Lisboa, um falso romance histórico, situado duplamente nos nossos dias e no século xii, e no qual simultaneamente se reconstituem e negam as circunstâncias de uma batalha e de uma conquista – a de Lisboa, no ano de 1147, quando, com o auxílio de cruzados que navegavam para a Terra Santa, os portugueses tomaram a cidade, depois de um assédio de cinco meses. O protagonista, um revisor de imprensa, ao fazer a correcção tipográfica de um livro que igualmente se intitula História do Cerco de Lisboa e que é obra de um historiador, introduz uma palavra no texto, a palavra «não», invertendo assim a verdade histórica e passando o livro a dizer que os cruzados não ajudaram os portugueses a cercar e tomar Lisboa. No lugar do sim o não, no lugar do não o talvez.
E finalmente A Jangada de Pedra, essa Península Ibérica que se separa da Europa e sobre as águas do Atlântico voga para o Sul, a caminho do sonho ainda possível, de um novo encontro com a história, de uma esperança e de um projecto para um humanismo recuperado. Sim, não, talvez…
Deveria terminar pedindo desculpa de ter ocupado tanto do vosso tempo, e mais ainda por havê-lo ocupado tão egoistamente, falando de mim e do que tenho escrito. Mas o aviso estava feito desde o princípio; uma experiência pessoal. Deixo-vo-la por aquilo que valha: sim, não, talvez…"
José Saramago

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Exposição permanente na Fundação José Saramago - "José Saramago. A semente e os frutos"

Flyer de apresentação da Fundação José Saramago

Toda a informação disponível através da página da Fundação José Saramago, aqui 

"Na obra literária de José Saramago (Azinhaga, 1922) conjuga-se a literatura mais exigente e pessoal com as interrogações mais fecundas. Autor tardio, mas de formação caldeada no calor de letras escritas e de leituras, soube construir, a partir da década de oitenta, uma literatura renovadora e original, que lhe conferiu, em 1998, o primeiro Prémio Nobel concedido a um escritor de língua portuguesa. Denso e irónico, inteligente e cético, terno e sarcástico, demolidor e pertinaz nas suas críticas, praticou, ao longo da sua produção narrativa, tanto a desmitificação da História convencional como a censura ativa dos desvios contemporâneos, tomando sempre como referência a essência humana da vida, a solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro e a relatividade do ponto de vista. Armado por um autor-narrador forte, que invade o espetro da sua narrativa, defendia que a obra é o romancista, ao mesmo tempo que marcou uma literatura construída a partir de ideias fortes, de audazes metáforas visionárias e ilustradas, de uma deslumbrante fabulação e de uma consciência incómoda que quis e soube ligar o seu destino ao pulsar turbulento do coração do mundo contemporâneo, permanentemente posto a nu e questionado. 

Saramago — que nunca ocultou a sua militância comunista — projetou mundialmente o seu trabalho e a sua figura pública, acentuando o seu perfil de intervenção cívica em defesa da liberdade, dos direitos humanos e da inclusão social, imbuído de valores e ideais suscetíveis de construir outra realidade mais justa, mais humana. Esta atitude engagée serviu-lhe para recuperar, com energia e credibilidade, o papel do intelectual inconformista, envolvido nas questões palpitantes e nos debates do seu tempo, trazendo ângulos de visão heterodoxos, refutando a ordem aceite maioritariamente e reclamando uma ética individual e coletiva que contemplasse como prioridade o ser humano, a sua dignidade, acima de qualquer outra hierarquia discriminatória ou qualquer outro interesse de poder ou económico. José Saramago desenvolveu, pois, com intensidade as suas responsabilidades cívicas, com o desejo de colocar o cidadão ao mesmo nível do escritor, tal e como ele mesmo expressaria: «Tenho muito cuidado em não transformar os meus romances em panfletos, apesar de ser marxista e comunista com cartão. Tenho umas ideias e não separo o escritor do cidadão das minhas preocupações. Acho que nós, os escritores, devemos voltar à rua, e ocupar de novo o espaço que antes tínhamos e agora é ocupado pela rádio, pela imprensa ou pela televisão. É preciso, além disso, fomentar o humanismo, o conhecimento de que milhares e milhares de pessoas não podem aproximar-se do desenvolvimento.» (1994) 

Polémico, pessimista confesso, brilhante, ativista e incómodo, a perspetiva da sua vida caldeada oferece o balanço de um trabalho literário amplo e pertinaz, em que o cultivo do romance conviveu com o teatro, a poesia, as crónicas jornalísticas e as memórias. A exposição José Saramago. A semente e os frutos dá conta, em síntese, dessa dedicação, mostrando como o príncipe da literatura que foi José Saramago funde as suas raízes no operário das letras que, com o seu minucioso e metódico trabalho, em momentos difíceis da sua vida - os árduos e obscuros anos quarenta, cinquenta e sessenta em Portugal - sedimentou as bases do brilho futuro. A mostra, que aglutina numerosos manuscritos, documentos, primeiras edições e centenas de traduções em mais de quarenta línguas, propõe um percurso tanto pela produção literária de José Saramago como pelos seus contextos ideológicos e sociais. 

A conceção expositiva de José Saramago. A semente e os frutos incorpora recursos audiovisuais postos ao serviço de conteúdos específicos que abrem as portas ao denso e rico mundo saramaguiano. O discurso expositivo oferece a possibilidade de aproximação à génese do escritor através de inúmeras portas de entrada, propocionando a cada visitante a oportunidade de construir o seu próprio percurso, em função dos seus interesses no momento de penetrar num universo literário e intelectual tão amplo e sugestivo como polifacetado." 
Fernando Gómez Aguilera 

sábado, 19 de setembro de 2015

Fundação José Saramago – Exposição permanente "José Saramago A Semente e os Frutos"

Fundação José Saramago – Exposição permanente "José Saramago A Semente e os Frutos"


A presente informação pode ser consultada, através do site da FJS, aqui
em, http://www.josesaramago.org/folha-de-sala-da-exposicao-a-semente-e-os-frutos/

"Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o
espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante.Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.
Canarias7, Las Palmas, 20 de fevereiro de 1994
[Entrevista de Esperanza Pamplona]

Fachada da sede da FJS - Casa dos Bicos

Na obra literária de José Saramago (Azinhaga, 1922) conjuga-se a literatura mais exigente e pessoal com as interrogações mais fecundas.Autor tardio, mas de formação caldeada no calor de letras escritas e de leituras, soube construir, a partir da década de oitenta, uma literatura renovadora e original, que lhe conferiu, em 1998, o primeiro Prémio Nobel concedido a um escritor de língua portuguesa. Denso e irónico, inteligente e cético, terno e sarcástico, demolidor e pertinaz nas suas críticas, praticou, ao longo da sua produção narrativa, tanto a desmitificação da História convencional como a censura ativa dos desvios contemporâneos, tomando sempre como referência a essência humana da vida, a solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro e a relatividade do ponto de vista.Armado por um autor-narrador forte, que invade o espectro da sua narrativa, defendia que a obra é o romancista, ao mesmo tempo que marcou uma literatura construída a partir de ideias fortes, de audazes metáforas visionárias e ilustradas, de uma deslumbrante fabulação e de uma consciência incómoda que quis e soube ligar o seu destino ao pulsar turbulento do coração do mundo contemporâneo, permanentemente posto a nu e questionado.


Saramago – que nunca ocultou a sua militância comunista – projetou mundialmente o seu trabalho e a sua figura pública, acentuando o seu perfil de intervenção cívica em defesa da liberdade, dos direitos humanos e da inclusão social, imbuído de valores e ideais suscetíveis de construir outra realidade mais justa, mais humana. Esta atitude engagée serviu-lhe para recuperar, com energia e credibilidade, o papel do intelectual inconformista, envolvido nas questões palpitantes e nos debates do seu tempo, trazendo ângulos de visão heterodoxos, refutando a ordem aceite maioritariamente e reclamando uma ética individual e coletiva que contemplasse como prioridade o ser humano, a sua dignidade, acima de qualquer outra hierarquia discriminatória ou qualquer outro interesse de poder ou económico. José Saramago desenvolveu, pois, com intensidade as suas responsabilidades cívicas, com o desejo de colocar o cidadão ao mesmo nível do escritor, tal e como ele mesmo expressaria: «Tenho muito cuidado em não transformar os meus romances em panfletos, apesar de ser marxista e comunista com cartão.Tenho umas ideias e não separo o escritor do cidadão das minhas preocupações. Acho que nós, os escritores, devemos voltar à rua, e ocupar de novo o espaço que antes tínhamos e agora é ocupado pela rádio, pela imprensa ou pela televisão. É preciso, além disso, fomentar o humanismo, o conhecimento de que milhares e milhares de pessoas não podem aproximar-se do desenvolvimento.»
La Provincia, Las Palmas, 3 de março de 1994
[Entrevista de Javier Duran]

Polémico, pessimista confesso, brilhante, ativista e incómodo, a perspetiva da sua vida caldeada oferece o balanço de um trabalho literário amplo e pertinaz, em que o cultivo do romance conviveu com o teatro, a poesia, as crónicas jornalísticas e as memórias. A exposição José Saramago. A semente e os frutos dá conta, em síntese, dessa dedicação, mostrando como o príncipe da literatura que foi José Saramago funde as suas raízes no operário das letras que, com o seu minucioso e metódico trabalho, em momentos difíceis da sua vida – os árduos e obscuros anos quarenta, cinquenta e sessenta em Portugal – sedimentou as bases do brilho futuro. A mostra, que aglutina numerosos manuscritos, documentos, primeiras edições e centenas de traduções em mais de quarenta línguas, propõe um percurso tanto pela produção literária de José Saramago como pelos seus contextos ideológicos e sociais.

A conceção expositiva de José Saramago. A semente e os frutos incorpora recursos audiovisuais postos ao serviço de conteúdos específicos que abrem as portas ao denso e rico mundo saramaguiano. O discurso expositivo oferece a possibilidade de aproximação à génese do escritor através de inúmeras portas de entrada, propocionando a cada visitante a oportunidade de construir o seu próprio percurso, em função dos seus interesses no momento de penetrar num universo literário e intelectual tão amplo e sugestivo como polifacetado.

A nossa grande tarefa está em conseguirmo-nos tornar mais humanos. Marx e Engels, num livro intitulado A Sagrada Família, têm uma frase que é essencial pôr em prática: «Se o homem é formado pelas circunstâncias, então é preciso formar as circunstâncias humanamente.»
José Saramago, 1999

Fernando Gómez Aguilera
 Fundação José Saramago – Exposição permanente
josesaramago.org"