Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
Mostrar mensagens com a etiqueta a bagagem do viajante. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a bagagem do viajante. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de outubro de 2016

FOLIO 2016 - “O Lagarto” de José Saramago e com ilustrações de J. Borges na Porto Editora


Via página da Fundação José Saramago, aqui

“O Lagarto” de José Saramago e com ilustrações de J. Borges na Porto Editora

"Este mês de setembro, a Porto Editora dá à estampa O Lagarto de José Saramago, conto inicialmente publicado em A Bagagem do Vaijante (1973).
Com ilustrações, originalmente em xilogravura, de J. Borges, este novo livro será lançado mundialmente a 22 de setembro no contexto do 
FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos."







Via página da Fundação José Saramago, aqui

"Na quinta-feira (22), pelas 18h30, no âmbito do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, será apresentado «O Lagarto», livro publicado pela Porto Editora e que une as palavras de José Saramago com o traço do artista popular brasileiro J. Borges.

A sessão, que acontece no Museu Abílio, em Óbidos, contará com a presença de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, Alejandro García Schnetzer, editor independente que concebeu o projeto, e Manuel Alberto Valente, editor responsável pela obra de José Saramago na Porto Editora. Pelas 17h45, o trio de música nordestina “Só Lapada” recepcionará os convidados à entrada da vila de Óbidos.

Também será inaugurada uma exposição com as xilogravuras feitas especialmente para o livro. A entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Para ver o programa completo do FOLIO aceda: www.foliofestival.com/

O Lagarto é um conto breve incluído em A Bagagem do Viajante (1973), volume que reuniu as crónicas escritas por José Saramago para o diário A Capital e para o semanário Jornal do Fundão. A história narra o aparecimento, no Chiado, de um misterioso lagarto, cuja presença surpreende os transeuntes e mobiliza os bombeiros, o exército e a aviação.

Quem é J.Borges:
Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."





A sala da exposição decorada com o texto do conto e das gravuras

O processo da impressão por Xilogravura



A sala da exposição decorada com o texto do conto e das gravuras

"Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco"



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Apresentação de «O Lagarto», de José Saramago e J. Borges – 22/09, no Festival Literário de Óbidos

A presente informação foi publicada pela Fundação José Saramago, e pode ser recuperada, aqui

Na quinta-feira (22), pelas 18h30, no âmbito do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, será apresentado «O Lagarto», livro publicado pela Porto Editora e que une as palavras de José Saramago com o traço do artista popular brasileiro J. Borges.



"A sessão, que acontece no Museu Abílio, em Óbidos, contará com a presença de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, Alejandro García Schnetzer, editor independente que concebeu o projeto, e Manuel Alberto Valente, editor responsável pela obra de José Saramago na Porto Editora. Pelas 17h45, o trio de música nordestina “Só Lapada” recepcionará os convidados à entrada da vila de Óbidos.

Também será inaugurada uma exposição com as xilogravuras feitas especialmente para o livro. A entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Para ver o programa completo do FOLIO aceda: www.foliofestival.com/ "



"O Lagarto é um conto breve incluído em A Bagagem do Viajante (1973), volume que reuniu as crónicas escritas por José Saramago para o diário A Capital e para o semanário Jornal do Fundão. A história narra o aparecimento, no Chiado, de um misterioso lagarto, cuja presença surpreende os transeuntes e mobiliza os bombeiros, o exército e a aviação.

Quem é J.Borges:

Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."

* Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco


domingo, 24 de julho de 2016

«O Lagarto» de José Saramago e J. Borges, chega em setembro (Fundação José Saramago)

Publicado na página da Fundação José Saramago, pode ser recuperado e consultado aqui
em http://www.josesaramago.org/lagarto-jose-saramago-j-borges/

"«O Lagarto», de José Saramago e J. Borges, chega em setembro"

"Em setembro chega às livrarias portuguesas O Lagarto, livro que une as palavras de José Saramago ao traço do artista brasileiro José Francisco Borges, conhecido como J. Borges. O projeto, que nasce da ideia original do editor argentino Alejandro García Schnetzer, será publicado pela Porto Editora em colaboração com a Fundação José Saramago, terá design da Silvadesigners, e propõe uma nova leitura da crónica com o mesmo título escrita por José Saramago em 1972.


Passados mais de 40 anos da publicação de O Lagarto no livro A Bagagem do Viajante, o texto ganha novas leituras trazidas pelas ilustrações do “génio da arte popular”, nas palavras do New York Times. O artista brasileiro, que ficou conhecido internacionalmente ao ilustrar em 1993 o livro Palavras Andantes, de Eduardo Galeano, produziu um conjunto de xilogravuras que dialogam com o texto do Prémio Nobel português.


A 22 de Setembro, o FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos inaugura uma exposição das matrizes das xilogravuras e das ilustrações que J. Borges fez para as palavras de José Saramago.

Saramago conhecia e gostava muito do trabalho de J.Borges (…) dizia que para ele J.Borges compreendia e explicava o mundo de forma aparentemente simples e ao mesmo tempo profunda. Este Borges aproximava-se, para Saramago, dos seus avós na forma de olhar o mundo. Além disso, Saramago tinha muito apreço pelos trabalhos de criação. Na sua mesa de trabalho, por exemplo, estava um crucifixo que um artesão lhe dera de presente após ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Para ele não era uma homenagem a um homem crucificado mas sim ao homem que fez aquela peça e que a compartilhou. Criar é compartilhar, e agora dois Josés presenteiam-nos com uma obra que deve ser compartilhada. Um grande presente.
(Palavras de Pilar del Río ao Jornal do Commercio, do Brasil, a propósito do livro)


Quem é J.Borges:

Nasceu em Bezerros (Pernambuco, Brasil) no ano de 1935. Aos 20 anos começou a vender cordéis nas feiras. Em 1964 assinou o seu primeiro trabalho autoral. Tornou-se gravurista para ilustrar os cordéis que produzia. Durante a vida escreveu algumas centenas de cordéis. Ilustrou o livro As palavras Andantes, de Eduardo Galeano, e expôs o seu trabalho em vários lugares do mundo, entre eles EUA, Suíça, França, Alemanha, Venezuela, Itália e Cuba. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Atualmente vive na sua cidade natal, num local que foi transformado num espaço artístico, o Memorial J.Borges, onde ensina a arte da xilogravura aos mais novos."


Crónica "O lagarto",
publicada na obra "A Bagagem do Viajante"

"De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será a minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará. 
A história é de fadas. Não que elas apareçam (nem eu o afirmei), mas que história há-de ser a deste lagarto que surdiu no Chiado? Sim, apareceu um lagarto no Chiado. Grande e verde, um sardão imponente, com uns olhos que pareciam de cristal negro, o corpo flexuoso coberto de escamas, o rabo longo e ágil, as patas rápidas. Ficou parado no meio da rua, com a boca entreaberta, disparando a língua bífida, enquanto a pele branca e fina do pescoço latejava compassadamente. 
Era um animal soberbo. Um pouco soerguido, como se fosse lançar-se numa súbita corrida, enfrentava as pessoas e os automóveis. O susto foi geral. Gentes e carros, tudo parou. Os transeuntes ficaram a olhar de longe, e alguns, mais nervosos, meteram pelas ruas transversais, disfarçando, dizendo consigo próprios, para não confessarem a cobardia, que a fadiga, lá diz o médico, causa alucinações. 
Claro que a situação era insustentável. Um lagarto parado, uma multidão pálida nos passeios, automóveis abandonados em ponto morto — e de repente uma velha aos gritos. Nem foi preciso mais nada. Num ápice a rua ficou deserta, os lojistas correram as portas onduladas, e uma rapariga que vendia violetas (era o tempo delas) largou o cesto, e as flores rolaram pelo chão, de tal maneira que fizeram em volta do lagarto um círculo perfeito, como uma grinalda de aromas. O animal não se mexeu. Agitava devagar a cauda e erguia a cabeça triangular, farejando. 
Alguém devia ter telefonado. Ouviram-se apitos, e as duas saídas da rua foram cortadas. De um lado, bombeiros com o material todo; do outro, forças armadas com todo a material. Havia quem dissesse que o lagarto era venenoso, quem afirmasse que as escamas resistiam à bala. A velha continuava a gritar, embora ninguém soubesse onde. A atmosfera carregava-se de pânico. Uma esquadrilha de aviões passou no céu, em observação, e do lado do Rossio começou a ouvir-se o chiar característico dos carros, de assalto. O lagarto deu alguns passos, rompendo a grinalda de violetas. A velha foi transportada de urgência para o hospital. 
A história está quase a acabar. Chegámos precisamente ao ponto em que as fadas intervêm, embora por manifestação indirecta. Reunidas todas as forças disponíveis, foi dado sinal de avançar. Agulhetas de um lado, baionetas do outro, e o trovejar dos carros roncando na subida — lançou-se o ataque geral. Das janelas, pessoas a seu salvo davam conselhos e opiniões. Mas tudo contra o lagarto. 
O qual lagarto, de repente (por intervenção das fadas, não esqueçam), se transformou numa rosa rubra, cor de sangue, pousada sobre o asfalta negro, como uma ferida na cidade. Desconfiados, os atacantes hesitaram. A rosa crescia, abria as pétalas, rescendia, lavava de perfume as fachadas encardidas dos prédios. A velha no hospital perguntava: que foi que aconteceu? E então a rosa moveu-se rapidamente, tornou-se branca, as pétalas mudaram-se em penas e asas — e uma pomba levantou voo para o céu azul. 
Uma história assim só podo acabar em verso: 

Calados, muitos recordam, 
Na prosa das suas casas, 
O lagarto que era rosa, 
Aquela rosa asas.

Há por aí quem não acredito? Eu bem dizia: isto de fadas já não é nada o que era."

in "A Bagagem do Viajante"
Caminho, 4.ª edição, páginas 95 a 97

domingo, 28 de junho de 2015

“E agora, José?”, crónica de José Saramago inspirada no poema homônimo de Drummond - Via "CONTI outra"


A presente crónica foi publicada através do site "CONTI outra", e que merece ser assiduamente seguido, não só pela diversidade de temas que aborda, como pelo profissionalismo que apresente.

O texto, pode ser consultado e lido aqui,

(Capa da Editorial Futura, 1973, 1.ª edição)

"Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: «E agora?» Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. «E agora, José?» Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente armar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: «E agora, José?»

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente — «E agora, José?»

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota — matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta — e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas.

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. «E agora, José?»

Cronica do livro “A bagagem do viajante”, de 1973.
Edição Caminho, 4.ª edição, página 35 a 37

sábado, 14 de fevereiro de 2015

"A Praça" Crónica publicada no "Jornal do Fundão" e compilada em "A Bagagem do Viajante" (3/10/1971)


Inserida no livro de crónicas "A Bagagem do Viajante" 
Caminho (4.ª edição) Páginas 131 a 133

 "A Praça"

"Juntavam-se na praça ao domingo; chovesse ou fizesse sol. Punham uma camisa lavada, as calças de cotim menos remendadas, as botas ensebadas de fresco, quando não os sapatos de tromba larga, que nenhuma pomada conseguia pôr a brilhar. O colete era indispensável, ou a jaqueta, quando as posses lá chegavam. Na cabeça, o chapéu preto, mole, ou o barrete de igual cor. Verde só para os campinos, o pessoal da praça era gente de pé e nas mãos de todos eles o pau, símbolo de virilidade e poder, instrumento de ataque e defesa, atravessado no caminho dos ombros, como o ramo horizontal duma cruz onde sobrepostos os braços descansavam. 
Reuniam-se em grupos enquanto os feitores não chegavam. Davam rápidos cachações nos garotos que brincavam ao bate-e-foge e assim cortavam os diálogos espaçados, as meias frases que transportavam os temas principais da conversa: o trabalho, o patrão que se esperava, o último desvirgamento, o provável preço da jorna. Os mais velhos encostavam-se ao pau, fazendo da mão esquerda um ninho que lhes protegia o sovaco, e assim ficavam horas numa conversa lenta, interrompida por intervalos na taberna. Os mais novos bebiam menos, floreavam o pau em jeito de corte, quando as raparigas, sempre aos grupos, de braço dado, atravessavam a praça numa provocação sorridente e um pouco sonsa. Nessas ocasiões se faziam grandes jogos de olhares mal disfarçados, que vinham firmar namoros incipientes, ou pôr ideias de casamento nos rapazes. 
Em épocas certas do ano, alguns moços deixavam a aldeia. Era a tropa. Só alguns não voltavam. Quase todos, passado o tempo do serviço, retomavam a enxada, a gadanha e a pá de valar – e continuavam a reunir-se na praça ao domingo, mais velhos, sacudindo os próprios filhos, enquanto esperavam que viesse propor-lhes a jorna, segundo a fórmula tradicional: tantos mil réis e um litro de vinho. Encorreavam-se-lhes os rostos, os cabelos embranqueciam e rareavam, ali na praça, debaixo dos plátanos e ao pé da bomba, rodeados pelas mesmas casas baixas. Nem sempre havia trabalho. E outras vezes havia, mas os homens não o queriam. Os feitores subiam a jorna até onde estavam autorizados: era uma guerra, ora ganha, ora perdida. Até hoje. 

Juntam-se na praça ao domingo pela manhã e ali ficam durante algumas horas. Falam baixinho, como quem não quer incomodar nem sequer as pedras. Têm uma linguagem incompreensível, em que de vez em quando parece aflorar uma palavra conhecida, que logo se perde numa cascata dispersa de sons raros. Em todo o circuito da praça, as lojas mostram as portas fechadas, e a estátua que está ao meio, aquela que representa o poeta, parece uma ruína morta, alheia aos homens que a rodeiam. Estes vestem quase todos de escuro. Alguns são belos. Altos, delgados, têm feições finas e melancólicas. Outros parecem contrafeitos, torcidos como plantas do deserto que muito tivessem procurado a água. 
A placa central da praça pertence-lhes. Os habitantes da cidade passam de longe, a fingir que não reparam, olhando para o lado, como quem não pode ser natural ou não se habituou ainda a sê-lo. Olham gulosamente e à socapa as raras mulheres dos homens da praça. O cheiro do trópico, o segredo das ilhas, perturba um pouco o cinismo inábil do branco. E elas, as mulheres, quase todas novíssimas raparigas, são belas sem exceção, de olhos alagados e veludosos, e quando conversam com os homens da sua raça sorriem muito. Talvez não sejam alegres, mas sabem o que é alegria. Os companheiros são mais graves: andam lentamente de um modo ondulante, como quem ainda sente nos quadris o roçar do capim e das plantações. 
Durante horas, a praça fica coalhada de homens estranhos. Para ali se transportou o largo de terra calcada pelos pés de gerações, uma espécie de porto de salvamento onde se colhem notícias da ilha e dos companheiros. Dali irão ao trabalho da semana seguinte com o contentamento de se saberem juntos. 

Um largo da província, uma praça de Lisboa: a mesma necessidade de espaço livre e aberto, onde os homens possam falar e reconhecerem-se uns aos outros. Onde possam contar-se, saber quantos são e quanto valem, onde os nomes não sejam palavras mortas mas antes se colem em rostos vivos. Onde as mãos fraternalmente pousem nos ombros dos amigos, ou afaguem devagar o rosto da mulher escolhida e que nos escolheu, sejam eles do outro lado do rio ou do outro lado do mar."

Esta é uma crónica de José Saramago publicada no Jornal do Fundão, a 3 de Outubro de 1971, e republicada a 1 de Agosto de 2013. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Imagem cénica de "A Bagagem do Viajante" Livro de Crónicas

O mapa do Brasil, segundo destino a visitar, isto, depois de concretizar o sonho de visitar a Ilha de Lanzarote; o puzzle com o desenho do território da Europa (montagem do Ódin); e, a obra "A bagagem do Viajante", que resulta da compilação de crónicas publicadas, entre 1969, no jornal "A Capital", e 1972, no "Jornal do Fundão".


"Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas"

"Uma viagem pela selva da vida contemporânea é o que José Saramago propõe ao leitor com estas crónicas, que partem dos mais variados assuntos - uma cena de rua ou uma notícia de jornal - para apresentar uma surpreendente releitura do mundo. Das mentiras da política e da publicidade à poesia dos pequenos gestos quotidianos, da vida secreta das cidades aos mistérios que se escondem na criação artística, nada escapa ao olhar arguto do escritor. Armado com o humor, a ironia e uma constante atenção às armadilhas da linguagem, Saramago revela neste livro uma outra faceta de sua expressão concentrada: eleva assim a crónica à altura dos grandes romances que o consagraram."

Sinopse da obra, mencionada no site da "Companhia das Letras", editora de José Saramago, do Brasil.