Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"O Conto da Ilha Desconhecida" adaptado e encenado por Rita Lello - em cena no Teatro A Barraca

"Uma ilha onde os adultos entram pela mão das crianças"

"Elenco renovado da peça com Tiago Assis, Samuel Moura, Nádia Yracema e Rita Soares
Fotografia de Jorge Amaral/Global Imagens"

Mais informações aqui - Teatro A Barraca (Lisboa)

A presente reportagem foi publicada, via Diário de Notícias por Marina Marques, e pode ser recuperada e consultada, aqui
em http://www.dn.pt/artes/interior/uma-ilha-onde-os-adultos-entram-pela-mao-das-criancas-5428201.html

"Um homem desce as escadas, por entre o público, chega ao palco, e apresentando-se à porta do rei diz: "Dá-me um barco." Assim, mesmo, sem mais rodeios. A narradora contextualiza dando um significado aos adereços em palco: "A casa do rei tinha muitas portas, mas aquela era a das petições." O mote está lançado e o espaço físico enquadrado. À ação junta-se um rei que também será mais tarde capitão do porto e uma mulher da limpeza. É em torno destas personagens que gira O Conto da Ilha Desconhecida, um espetáculo adaptado e encenado por Rita Lello, a partir do texto de José Saramago.

Uma escolha pouco óbvia para um espetáculo pensado para crianças a partir dos 4 anos, reconhece Rita Lello. "Queríamos adaptar um Saramago para miúdos porque, na verdade, é uma escrita muito visual. E este Conto da Ilha Desconhecida é particularmente visual", explica. A Maior Flor do Mundo foi a primeira escolha, mas, sendo "uma viagem que passa por vários espaços físicos concretos, tornava-se difícil levar a cena". A escolha acabou por recair neste O Conto da Ilha Desconhecida porque, "como se trata de uma viagem interior torna mais possível a construção e a adaptação cénica", conta Rita Lello.

Essa não foi, no entanto, a única razão: "Optámos por este [texto] também porque é muito mais abrangente: veicula conceitos universais com os quais nascemos. Enquanto a sociedade não nos estragar, nós queremos todos partilhar, encontrar um caminho, aprender, evoluir, queremos todos justiça. E é sobre isso que este texto fala: encontrar o caminho para um sonho, para uma sociedade melhor. Mais justa. Ora, as crianças já nascem com isso e portanto são conceitos que não são difíceis de elas entenderem. São mais difíceis de um adulto abraçar do que as crianças entenderem". Por isso, acrescenta: "Este acaba por ser um espetáculo em que os pais entram pela mão das crianças... esperemos."

Esta é, de resto, uma das marcas do trabalho de Rita Lello. "Se calhar não podemos considerar nem o texto nem o espetáculo como sendo para infância. É um texto ao qual as crianças também aderem, mas é um texto verdadeiramente para todos. Esse foi sempre o trabalho que a mim me interessou fazer e à Barraca. Espetáculos para todos. Prefiro muito mais um teatro em que se crie um espaço de transversalidade em termos geracionais do que aquela coisa de fazer os espetáculos só para as crianças."

Outro traço do trabalho de Rita Lello é usar exclusivamente as palavras do autor em cena. "Neste caso levei o desafio ao limite e está o conto integral em cena", adianta. E para resolver a oscilação entre narração e ação, "temos personagens que narram tudo, que metem o bedelho nas ações das outras, e temos personagens que só se narram a si próprias, ou seja, narram a sua própria componente emocional ao mesmo tempo que a vivem", explica.

Outra curiosidade do espetáculo é o facto de os mecanismos de mudança de cenários, de som e luz estarem todos no palco, à vista de todos. Esta componente pedagógica "tem a dupla graça de serem os mesmos mecanismos nos barcos e nos teatros", destaca.

Estreado em 2006, e em cena por duas temporadas, já têm uma ideia da reação do público. "Tivemos reações maravilhosas de pais com os filhos ao colo a chorar de felicidade, porque o espetáculo é muito emocional, é sobre uma utopia. Acho que as pessoas saem deste espetáculo com o sonho alimentado, com a abertura de uma possibilidade de amor, de beleza, de partilha, de construção de uma sociedade alternativa onde as pessoas possam esperar ser felizes. Este homem corre e sabe para onde corre e consegue construir realmente o seu mundo, a sua vida, o seu futuro. Acho que é isso que comove as pessoas." E o pequeno trecho do Homem do Leme, dos Xutos & Pontapés, dá uma ajuda.

Ficha de espetáculo

O Conto da ilha desconhecida

De José Saramago

Adaptação e encenação de Rita Lello Teatro Cinearte, Largo de Santos, 2, Lisboa

Sábados às 15.00 e domingos às 11.00

Para maiores de 4 anos"

quarta-feira, 20 de julho de 2016

"1936, o Ano da morte de Ricardo Reis" um espectáculo de Hélder Mateus da Costa baseado na obra de José Saramago


Mais informações via página A Barraca aqui,



"1936, o Ano da morte de Ricardo Reis"
a partir do romance de José Saramago um espectáculo de Hélder Mateus da Costa

Este belo e profundo romance convida a uma reflexão dramatúrgica muito entusiasmante.
Começa pela invenção do encontro entre Fernando Pessoa já falecido e o heterónimo Ricardo Reis, com casos reais de sexo e paixão, também de ambiente surdo, falso e pesado, e porque fala com humor da relação criador / “obra / figura/personagem”.
Além disso, define como protagonista principal da obra, o ANO em que a trama se desenvolve.

E que ANO!!??

1936! Alguns dados... Comemoração dos 10 anos do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que foi o pontapé de saída para o início do fascismo, especialização da polícia política com o apoio da Gestapo, fundação da Mocidade Portuguesa, Legião Portuguesa e campo de concentração do Tarrafal… Mussolini invade a Etiópia com o silêncio cúmplice das casas Reais Europeias, Hitler intensifica o ataque aos judeus, começo da guerra civil de Espanha…
Nos tempos de hoje, de frágil memória, menoridade cívica e ética, fundamentalismos, militarismos, imperialismo financeiro gerando miséria e horror Universais, renascendo a tenebrosa fénix nazi-fascista, aqui está uma obra que demonstra que as convulsões sociais nunca - infelizmente - , passaram a “coisa” datada e de dispensável interesse arqueológico.

Hélder Mateus da Costa

Em cena até 31 de Julho

Horário
De quinta a sábado às 21h30
Domingo às 17h00

Classificação Etária
M/12

Bilhetes
14€
10€ - Estudantes, Profissionais de Teatro, menores de 25 e maiores de 65 anos, Reformados e Grupos (+ 15 pessoas)
Quinta-feira - 7,50€ (preço único)

Informações e Reservas
Tel: 213965360 | 213965275 | 913341683 | 968792495 
e-mail: bilheteira@abarraca.com 

Duração Espectáculo
1h30 aprox.



quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Critica "O livro perdido de José Saramago chegou ao teatro 3 dias atrás" Por Ana Rita Caldeira - Via Ardinas

Texto de Ana Rita Caldeira, que pode ser consultado aqui, 
em http://www.ardinas.pt/index.php/2015/12/21/o-livro-perdido-de-jose-saramago-chega-ao-teatro/

"O livro perdido de José Saramago, publicado seis décadas depois de ter sido escrito, é agora adaptado pelo teatro A Barraca, de uma forma, no mínimo, brilhante.

Com destaque para o cenário, que se funde à personalidade de cada personagem, e para a interpretação rigorosa dos textos de Saramago, “Claraboia” é uma peça obrigatória, não só para quem leu o livro que a inspira, mas também para quem quer conhecer a origem da genialidade de Saramago. A adaptação está em cena pelo menos até Janeiro e não merece tantas cadeiras vazias.

 (Fotografia de Luis Rocha)

Ao longo das três horas da peça, que passam a voar, Pílar del Rio assiste compenetrada, sozinha, isolada numa das filas da plateia. O seu riso ouve-se mais do que o dos outros quando chegam a palco certas passagens do livro, certamente gravadas na memória de Pílar, que traduziu “Claraboia” para espanhol. Pílar sorri emocionada em vários momentos da peça, momentos que a transportam para um lugar no tempo em que ainda não conhecia José Saramago. O livro, que agora é adaptado ao teatro, foi escrito em 1953, quando Saramago tinha 31 anos. Ainda com a pontuação e parágrafos convencionais, “Claraboia” foi enviado para uma editora que nunca respondeu. Saramago não escreveu durante 20 anos, depois disso. 40 anos depois, quando já não era um jovem escritor desconhecido, acabado de publicar “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, o escritor foi convidado a publicar “Claraboia”, cujo manuscrito teria sido encontrado na editora. O futuro nobel da literatura não leu o livro e disse que nunca seria publicado enquanto vivesse. 60 anos depois de ter sido escrito e um ano depois da morte de Saramago, “Claraboia” foi editado e publicado, em 2011, com o consentimento de Pílar.


Agora, a ex-mulher do escritor reconhece neste romance pequenos fragmentos daquilo que viria a ser a identidade literária de Saramago. Há a valorização do ser humano, sem que entre nos textos a palavra política, há discussões em que participam poemas de Fernando Pessoa, há sinfonias de Beethoven, há a recusa da resignação (presente em “Levantado do Chão”) ou os debates sobre lucidez (mais tarde, presentes em “Ensaio sobre a Lucidez”). “Claraboia” é um marco fundamental na escrita de Saramago. Ainda que sem o estilo formal que lhe é associado, ainda que tenha diálogos paragrafados de forma convencional, marca a origem das preocupações de Saramago enquanto escritor, as preocupações que, anos depois, de uma forma mais madura, se transpuseram para outros romances, mais aclamados.

Quem lê o livro, e depois toma conhecimento da sua adaptação para o teatro, pensa imediatamente na dificuldade que terão tido os cenógrafos. A história do romance “Claraboia” passa-se num prédio da Lisboa dos anos 50, com 3 andares e seis apartamentos. O espaço é absolutamente essencial na leitura do livro, assim como as divisões dos apartamentos, descritas com a maior precisão. Surpreendentemente, José Costa Reis, responsável pela cenografia, conseguiu meter um prédio dentro da sala 1 d’A Barraca. O palco ganha três andares, divididos por dois lances de escada, e observados pela grande claraboia, que é azul ou amarela, para nos dizer quando é de noite e de dia. Também o som do amolador pela manhã e uma música clássica de embalar pela noite nos dizem em que altura do dia as personagens se encontram. O trabalho de sonoplastia, que se encarrega dos sons de portas a fechar ou das campainhas, é do mesmo modo irrepreensível. Mas é o desempenho dos atores, que debitam as palavras de Saramago, que dá brilho à adaptação. João Maria Pinto, que interpreta o papel do sapateiro Silvestre, ou Maria do Céu Guerra, que é Amélia e também a mãe de Lídia, deixariam José Saramago com um brilho nos olhos.

Ao todo, são 18 personagens que vivem num prédio tipicamente lisboeta dos anos 50, em pleno Estado Novo. No rés-do-chão vive o sapateiro Silvestre e a mulher Mariana, que alugam um dos quartos a um viajante misterioso, e, ainda, um casal problemático, que já é conhecido pelos vizinhos pelas discussões acesas. No primeiro direito mora Lídia, uma mulher sensual e promíscua, que recebe visitas de um gordo empresário todas as noites. Uma mulher atormentada pela morte da filha e pela indiferença do marido vive no primeiro esquerdo, passando grande parte dos dias a observar o retrato da menina. O último andar divide-se no apartamento de uma família de quatro mulheres costureiras e um casal com uma filha libertina.

Ao contrário do que se esperava, há ação a decorrer em todos os andares, em quase todos os momentos da peça. A intensidade das luzes guia-nos para o diálogo que merece destaque, para o apartamento em que se desenrola uma ação importante. Enquanto isso, nos outros andares, as famílias jantam, deitam-se, conversam, o sapateiro trabalha. O trabalho de encenação e dramaturgia, a cargo da atriz Maria do Céu Guerra, conseguiu dar movimento às personagens de “Claraboia”, que têm tanto de fantásticas como de corriqueiras. São pessoas atormentadas pela censura dos pensamentos, e não só das ações, pelas dificuldades financeiras, pelas consequências que os seus atos podem ter no julgamento dos outros, neste caso, dos vizinhos. Nenhuma delas ganha protagonismo na peça, ainda que os diálogos entre o sapateiro Silvestre e o seu hóspede, Abel, sejam o fio condutor do romance. Naqueles apartamentos, decorados com tempo, enfeitados com pratos de porcelana trabalhada, molduras com fotografias esbatidas e cómodas sem espaço livre, os dias daquelas pessoas esgotam-se na relação com os vizinhos.

Pílar del Rio vê nesta adaptação de “Claraboia” um milagre, o milagre de conseguir reproduzir a simultaneidade das cenas, a passagem das conversas entre as irmãs Isaura e Adriana para as discussões entre Carmen e Emílio, por exemplo. Através da variação da intensidade das luzes, que não saem de projetores sóbrios, mas sim de candeeiros protegidos por abajures de todos os feitios. Estes pormenores, como o som do fechar e abrir de portas, fundem todas as histórias que se passam dentro do prédio. “La Barraca le ha puesto cuerpo” foi o elogio final de Pílar a toda a equipa que pôs em cena “Claraboia”. Trata-se de uma adaptação genial, que não se esgota no desempenho dos atores, e que merece ficar n’ A Barraca depois de Janeiro. É um trabalho que honra o nascimento da genialidade de José Saramago, e também o nascimento das suas preocupações e prioridades enquanto escritor e enquanto homem. A peça está em cena de quinta a sábado às 21h30 e às 16h30 de sábado e domingo."


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Clarabóia em cena na A Barraca - "Neste prédio imaginado por Saramago está Portugal inteiro"

O artigo de Maria João Caetano, pode ser visualizado e lido, na página do Diário de Notícias, aquiem http://www.dn.pt/artes/interior/neste-predio-imaginado-por-saramago-esta-portugal-inteiro-4920882.html

(Imagem do manuscrito original)


"A Barraca adaptou "Claraboia", romance que nos coloca num prédio lisboeta em pleno Estado Novo"
"No 1º esquerdo mora uma mulher infeliz, que perdeu a filha para a doença e atura um marido marialva e um pouco violento. No rés-do-chão direito mora um casal com problemas de comunicação, e não tem nada a ver com o facto de ele ser português e ela espanhola. Há uma família quase feliz no 2º direito, mesmo se a jovem Claudinha provoca cabelos brancos nos pais. No 2º esquerdo quatro mulheres entre tias, irmãs e sobrinhas, dedicam-se à costura e gostam de ouvir música clássica. No 1º direito, Lídia é uma mulher que dá nas vistas e que recebe muitas visitas do senhor Paulino. No rés-do-chão esquerdo é a oficina do sapateiro Silvestre, com porta para a rua, e que, um dia, em conversa com a mulher Mariana decide alugar um dos quartos para fazer frente às dificuldades financeiras. É assim que aparece Abel, o hóspede. Todas as casas dão para o patamar das escadas e é aí que fica a claraboia.
O prédio lisboeta é o cenário do romance de José Saramago, Claraboia, e é também o cenário da peça com o mesmo nome que o Teatro Barraca estreia amanhã. E é no prédio que reparamos assim que entramos na sala e o espetáculo ainda não começou. Nas mobílias que podiam ser dos nossos avós, nas louças, nas panelas, nos naperons, nas molduras douradas, na máquina de costura Singer com pedal.
Lisboa, 1952
"Assim que li o romance achei que seria delicioso criar esta história dentro de um prédio verdadeiro", conta a encenadora e atriz Maria do Céu Guerra. "Andei por Lisboa a ver prédios que pudessem ser usados, vi várias casas desabitadas mas depois caí na realidade e percebi que nunca nos iriam dar autorização, por razões de segurança, para fazer uma coisa dessas. Então, o cenógrafo José Manuel Costa Reis disse-me: a Barraca tem um teatro, tens que fazer isto no teatro, eu arranjo uma maneira." E arranjou. "Consegue dar-nos realmente a vida de um prédio, do qual vemos partes, vemos um prédio cortado e somos voyeurs, somos espias de um prédio de Lisboa de 1952. Conseguimos ver a vida de seus casas, seis famílias completamente distintas mas que nos dão aquela realidade que era a vida no Estado Novo."
O jornalista João Paulo Guerra, que fez a adaptação do romance de Saramago para teatro, explica que apesar de o autor não dizer exatamente onde ficava aquele prédio, é fácil imaginá-lo na zona de Santos, onde fica o teatro da Barraca:"Diz que da janela vê-se o rio e ouvem-se barcos. Além disso, sabemos que o José Saramago viveu na rua da Esperança, aqui na Madragoa". Mas seja em que bairro for, este é "um prédio classe baixa ou média-baixa, como, aliás, era a esmagadora maioria da população de Lisboa."

 Maria do Céu também interpreta uma das personagens
(Sara Matos/Global Imagens)

"Meia dúzia depois da Segunda Guerra Mundial, estamos em pleno Estado Novo", acrescenta Maria do Céu Guerra. "O Saramago, como José Cardoso Pires ou Lobo Antunes, escrevem sobre o fascismo branco. Não aparece a polícia, não aparece diretamente a repressão, nada que acuse o Estado Novo ou algum processo político, mas a gente sente que é insuportável viver aqui, é sufocante, e é isso que eu acho que o José Saramago nos dá muito bem."
João Maria Pinto, o ator que interpreta o sapateiro Silvestre, era um miúdo de seis anos em 1952 mas lembra-se bem desse modo de vida: "O livro é extremamente elucidativo sobre a época, dá-nos as famílias endurecidas pelo fascismo, cinzentas, partas, sem horizontes de vida. Estão espartilhadas. Vão uma vez ao cinema, quando há algumas economias, fazem uma refeição melhor ao domingo, dão um passeio e não fazem mais nada. Era assim que vivíamos."
Contrariar a crise
Apesar de haver quem possa ver semelhanças entre o mundo de Claraboia e o de filmes como O Pátio das Cantigas, Maria do Céu Guerra diz que as diferenças são muitas. Esta será uma "comédia negra": "Não tem nada a ver com a chamada comédia portuguesa, que era uma coisa demasiado apologética, simpática e ao mesmo tempo nostálgica de um tempo que não foi assim tão festivo. O que o Saramago nos dá é uma espécie de avesso da pueril e feliz comédia portuguesa. Aqui, todas as famílias tem a sua infelicidade e a sua luta pela vida, que era algo muito real."
Abel (Rúben Garcia) e o sapateiro Silvestre (João Maria Pinto)
(Sara Matos/Global Imagens)

"A vida no prédio é perturbada pela chegada do hóspede, um jovem que tem uma vida errante e pensamentos libertários. O papel de Abel é interpretado por Rúben Garcia e no vasto elenco encontramos ainda Paula Guedes, Lucinda Loureiro, Hélder Costa, Paula Sousa, Rita Lello, Carolina Parreira, Paula Bárcia, Adérito Lopes, entre outros. Trata-se, assume, a encenadora (que interpreta dois papéis), de uma "aposta muito grande" para a companhia. "Passámos os últimos anos numa situação muito difícil na barraca, quando começou a austeridade e se acentuaram os cortes e nós ficámos reduzidos a não poder fazer nada do que queríamos. Desta vez decidimos arriscar. Vamos fazer mesmo que a gente sofra as consequências disto. Não vamos continuar nesta apagada e vil tristeza de fazer peças com dois personagens e sem cenário. Vamos dar um pontapé na lua."

domingo, 6 de dezembro de 2015

"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro


Informação via página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/claraboia-a-barraca-estreia-no-dia-10-de-dezembro-obra-a-partir-do-romance-de-jose-saramago/

"A adaptação de Claraboia, pelo grupo A Barraca, estreia a 10 de dezembro

Nos anos 50, José Saramago escreveu um romance. Enviou-o a uma editora e nunca obteve qualquer resposta. Muitos anos depois, resgatado do esquecimento, o manuscrito foi entregue ao autor, que decidiu que o livro a ser publicado, o deveria ser apenas a sua morte.
Em 2011, Claraboia finalmente chegou aos leitores.
Agora, a história de seis famílias que habitam um prédio de Lisboa e vivem sob a nuvem do Salazarismo, ganha uma adaptação pelas mãos do grupo de teatro A Barraca. Num trabalho de adaptação de Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra, 17 atores sobem ao palco para encenar essa peça.

A obra estreia no dia 10 de dezembro, data em que se comemora o 17.º aniversário da entrega do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago.  Para informações sobre horários e preçário aceda a:" http://www.abarraca.com

Imagem da apresentação e ensaio da peça na Fundação José Saramago, 
enquadrado no programa "Dias do Desassossego"

Pode ser consultada informação, na página do teatro A Barraca, aqui 

"A Barraca tem no seu historial inúmeras obras de ficção transformadas em escrita dramática, a partir das quais se produziram inesquecíveis espectáculos. É aliás esta uma das suas principais vocações. Viagens de Gulliver, de Swifft, O Diabinho da mão furada, de António José da Silva, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, A Relíquia, de Eça de Queiroz, Gente da Terceira Classe, de José Rodrigues Miguéis, Os Emigrantes, de Ferreira de Castro, A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, são apenas algumas dessas obras.

Neste sentido, A Claraboia, de José Saramago, constitui para A Barraca um desafio enorme. São dezassete personagens distribuídas em seis apartamentos num bairro de gente "remediada" na Lisboa dos anos 50. As suas necessidades, aspirações, quezílias, transgressões, mentiras são a principal matéria/desafio para um grande espectáculo de Teatro a acontecer. Tudo encerrado num espaço onde a ausência de amor é a parede mestra de cada casa e onde o fascismo à portuguesa, é vivido até ao mínimo pormenor com a policia à espreita dentro de cada um.

O entusiasmo de A Barraca e a  anuência da Fundação José Saramago levaram-nos a tentar dar cumprimento ao nosso sonho e programarmos este espectáculo para o segundo semestre de 2015.

Temos a certeza que este espectáculo honrará as instituições culturais envolvidas e não menos o seu autor." - Maria do Céu Guerra

Sinopse
"A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?"


Ficha Artística e Técnica
Texto - José Saramago
Adaptação do Texto - João Paulo Guerra
Dramaturgia - Maria do Céu Guerra e João Paulo Guerra
Encenação - Maria do Céu Guerra
Cenografia e Corrdenação de Guarda Roupa - José Manuel Costa Reis
Banda sonora - João Paulo Guerra
Assistência Geral do Espectáculo - Adérito Lopes e Sérgio Moras
Apoio à Direcção de Actores - Lucinda Loureiro
Elenco
Adérito Lopes - Carolina Parreira - Carlos Sebastião - Fernando Belo - Guilherme Lopes - Hélder Costa - Henrique Abrantes - João Maria Pinto - Lucinda Loureiro - Maria do Céu Guerra - Paula Bárcia - Paula Guedes - Paula Sousa - Rita Lello - Rita Soares - Rúben Garcia - Sérgio Moras - Sónia Barradas - Teresa Sampaio
Sonoplastia - Ricardo Santos
Iluminação - Paulo Vargues
Relações Públicas e Produção - Paula Coelho, Inês Costa
Cartaz/ Design Gráfico - Arnaldo Costeira
Fotografias - Movimento de Expressão Fotográfica:
Luis Rocha, Amélia Monteiro, Isabel Correia, Janica Nunes, José Fontinha Vieira, José Guerreiro, Ricardo Amoedo e Rui Viegas
Agradecimentos
EPC, Fundação Saramago, Pilar del Rio