Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" via "Tornado" (08/12/2019)

Via jornal "Tornado" aqui
em https://www.jornaltornado.pt/3-perguntas-a-anabela-mota-ribeiro/

"3 perguntas a… Anabela Mota Ribeiro" por J. A. Nunes Carneiro (Porto, 8/12/2019)

«Anabela Mota Ribeiro
Nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.
É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas. Também foi autora e apresentadora de programas de televisão na RTP. Publicou vários livros.» 


Como surgiu a ideia deste seu livro «Por Saramago»?
Como jornalista, o género a que mais me dediquei foi a entrevista. Gosto de perguntar, gosto de escutar, gosto do efeito de detonação que surge das palavras do entrevistado, da potencialidade que há no diálogo. Isso permite-me pensar com outra pessoa, e depois seguir os meus próprios caminhos, autonomamente, ajuda-me a compreender e a criar perplexidades. Não raro, entrevistei mais do que uma vez uma pessoa. Essa conversa continuada, em andamento, suscitada por um livro, pelo novo, e que normalmente acontece quando temos do outro lado um criador, permite um aprofundamento da relação. Então, não sei reconstituir o momento exacto em que pensei fazer “Por Saramago”, mas percebi que as várias viagens ao universo saramaguiano (as entrevistas a José e a Pilar, o texto sobre a casa de Lanzarote, a ida ao México ou ao Brasil “com” Saramago que me deixaram perceber uma devoção táctil pelo autor) constituíam um testemunho importante e eram uma forma de dizer o quanto o admiro.

Depois, eu já tinha feito “Paula Rego por Paula Rego”, também com entrevistas, com um apuro estético incrível e a mão segura da editora Guilhermina Gomes da Temas e Debates; e achei que fazia sentido replicar, de um ponto de vista formal, esse objecto tão conseguido. Por isso, além dos textos, há em “Por Saramago” uma colecção de fotografias que iluminam o texto. São cerca de 65, todas originais, todas feitas de propósito para o livro, da autoria da Estelle Valente. Os dois livros têm capa dura, uma sobrecapa, um papel que apetece cheirar, uma impressão excelente.

Ao escrever este livro, ainda se surpreendeu com alguma nova faceta de José Saramago?
Surpreendo-me sempre com os entrevistados, mesmo quando os entrevisto mais do que uma vez e mesmo quando parece que já disseram tudo. Há sempre uma cintilação nova. Cada encontro tem uma dinâmica própria que depende dos sujeitos, do momento em que estão, da sintonia, e também do que suscita a entrevista. Acho que me surpreendi, a primeira vez que o encontrei, por ser mais gentil do que sisudo, pela disponibilidade para pensar alto.

Neste livro foca a sua atenção em dois livros («As Pequenas Memórias» e «A Viagem do Elefante»): porquê?
Fernando Gómez Aguilera, biógrafo de Saramago, comissário da exposição A Consistência dos Sonhos, assina o posfácio do meu livro, a que chama O último fulgor de Saramago. De facto, são os últimos anos que estão representados no meu livro. As entrevistas a Saramago têm como pretexto os dois últimos livros (as “Pequenas Memórias” e “A Viagem do Elefante”), a entrevista a Pilar del Río aconteceu por altura de “Caim”. Mas estes livros são apenas o ponto de partida para o diálogo; entendo-os sempre como caminhos de onde partimos para chegar a outros lugares, esperados ou não, principais ou secundários. Por exemplo, a entrevista com Pilar ensinou-me muitas coisas sobre o que é crescer no franquismo (como aconteceu no caso dela), além de revelar aspectos importantes de Saramago e da relação que tinham. Esse é o lado bom de uma entrevista: sabemos como começamos, não sabemos onde vamos dar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

FOLIO Festival Literário 2018 - 27/09 - "Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel"

27 de Setembro - 19h00 \\\ FOLIO
Saramago – Os 20 anos da atribuição do prémio Nobel
Conversa com Anabela Mota Ribeiro e Pilar del Rio 
a propósito do lançamento do livro 
Último Caderno de Lanzarote,  (o último volume dos seus diários)
Edição Porto Editora
\\\ Casa José Saramago - Óbidos



Site Óbidos Vila Literária http://obidosvilaliteraria.com/

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

"José Saramago: o nobel, 10 anos depois" - por Anabela Mota Ribeiro

Aqui, fica o último texto da jornalista Anabela Mota Ribeiro, cujo site, onde estão compilados os seus trabalhos (entrevistas e crónicas, de e sobre personalidades relevantes; publicadas em diversos órgãos de comunicação social), aqui deixo a minha recomendação de visita e leitura.

Publicado originalmente, no Jornal de Negócios, em Outubro de 2008

Link, para consulta em, http://anabelamotaribeiro.pt/62964.html

"José Saramago: o Nobel"

"Um momento de glória. Quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”.
Outro momento. “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele. Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?”
A Glória. “Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer. Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha”.
José Saramago, 2006, em entrevista para o Jornal de Negócios a propósito da publicação do seu livro de memórias. Um livro em que recua até um tempo que deixou de existir. Mas que vive nele, porque ele fez-se nesse “fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. “E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.
Fez-se na Azinhaga, nos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa. Fez-se na aspereza dos dias. Na necessidade. Na humilhação. O que ficou desse tempo?
Um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?». A memória reconfortante do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. Citou-o no discurso do Nobel. A memória reconfortante da avó Josefa: “Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. (…) E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém”. Memória transformada em carta, publicada n’ A Capital em 1968 e publicada recentemente em postal.
Era um tempo em que José Saramago era Zezito. Que vive nele. Abeirou-se dessas memórias como quem abraça as árvores do seu quintal. “Terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”.
A morte rondou-o, há um ano. A gadanha pronta. Tê-lo-ia o inconsciente pressentido quando o parou nas memórias de infância? O consciente afirma que a ideia do livro existia há vinte anos. Mesmo assim. Foi um susto. Pilar agarrou-lhe pelos colarinhos e gritou-lhe que ele tinha de viver. Segurou-o. Novo milagre: o amor a prendê-lo à vida. O primeiro milagre é, segundo Eduardo Lourenço, toda a sua vida.
“Não tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966. O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro_ ele já estava ganho”.
Pilar, “mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte”. A jornalista espanhola que apareceu na sua vida em 1986. Na agenda pessoal do escritor, permanece a folha de uma árvore, dourada pelo tempo, que assinala esses dias. Era para ter sido no dia 11 de Junho, e ele pensava que ela era Pilar de los Rios. Mas o encontro deu-se, na verdade, dias mais tarde, a 14, e ele riscou sobre o nome e sublinhou numa cor fluorescente: Pilar del Río.
Tudo mudou. Saramago tinha passado os 60, e não podia supor que tinha ainda uma vida inteira para viver. Nunca desligada da criança que havia sido. Nunca desligada das convicções que fizeram dele o homem de convicções que é. “Quero ter tempo para escrevê-la [a obra], reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam”.
Pilar já estava quando a expectativa do Nobel existia. O amigo Jorge Amado escreve numa carta, em 1994: “Queridos Pilar e José, ainda não será desta que iremos os quatro, a Estocolmo, festejar o Nobel de José: um japonês nos atropelou. (…) PS: Para dizer toda a verdade, devo convir que os US$950,000 do Nobel cairiam muito bem no bolso de um romancista português ou brasileiro, pobres de marré marré”. Estava quando intelectuais como Susan Sontag os visitou em Lanzarote (1996). Ou quando se deram os encontros com Harold Bloom (2001) e George Steiner (2002).
Saramago estava no aeroporto de Frankfurt quando lhe comunicaram que “pela sua capacidade para tornar compreensível uma realidade fugidia, com parábolas suportadas pela imaginação, a compaixão e a ironia” lhe era atribuído o Prémio Nobel da Literatura. No dia 8 de Outubro de há dez anos. O escritor quer continuar a ser o cidadão comprometido que sempre foi: “O Nobel dá-me a oportunidade de ser mais eu”. Em 2004 dirá: “Sim, tenho o Nobel, e quê? Nada mudou”. E por isso não é estranho que durante o banquete, na Suécia, tenha denunciado o incumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Foi nomeado, agraciado, reconhecido. Filho adoptivo desta e daquela cidade, sócio honorário deste e daqueloutro clube, honoris causa de mil e uma universidades. Recebeu medalhas, condecorações, títulos. Uma imensidão. Quais o terão tocado? Alguns exemplos: Leitor Emérito da Biblioteca Nacional. O Grande Colar da Ordem de Santiago, até aí reservada apenas a chefes de Estado. “Ensaio sobre a Cegueira” foi adaptado por Fernando Meirelles e abriu o último Festival de Cannes. A exposição “A consistência dos sonhos” mostrou numa sequência cronológica a sua vida, primeiro em Lanzarote, depois em Lisboa. Reconciliou-se um pouco com o país. Sócrates disse-lhe: “Gostamos muito de si”. Ele respondeu um “obrigadinho” sentido.
Há uns meses, regressou à ilha. A casa. Escreveu um romance cuja ideia é antiga. “A Viagem do Elefante” é um livro que podia não existir. Há um ano, não se acreditaria que ele existisse. Mas está pronto a sair. Terceiro milagre."

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Anabela Mota Ribeiro entrevista Pilar del Río - Público (15/11/2009)

"Pilar del Río - A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes"

(fotografia de Enric Vives-Rubio)


Aqui, link via jornal Público, em http://www.publico.pt/sup-publica/jornal/pilar-del-rio-a-sorte-e-sermos-os-dois-tao-transgressores--tao-rebeldes-18147924

Aqui, link via site da entrevistadora, em http://anabelamotaribeiro.pt/pilar-del-rio-85027


"Pilar del Río"
"Mesmo depois de ser Pilar Saramago, ela continuou a ser Pilar del Río. Mesmo depois de ter abdicado em favor do talento dele, do projecto dele, continuou a ter identidade própria, vida própria. Aparentemente vive em função dele. Mas não.
É certo que abandonou o seu projecto pessoal, aquele que existia até José, para se tornar a tradutora dele, a assistente dele. Sem custo? “O Nobel complicou um pouco as coisas. Foi um período tão agitado que não era possível conciliar tudo. Eu acompanhava-o sempre. Ele não podia ir à América sozinho, ou a outros sítios”.
Mas o Nobel foi década e meia depois de ela ter chegado. Tanto tardou em chegar, escreveu ele. Entretanto ela já tinha percebido que é habilidosa para a escrita, mas não talentosa. Que o talento é dele. Com maiúscula. Era jornalista. É. Trabalha ainda para uma rádio espanhola, escreve artigos eventuais. “A terceira entrevista que cancelei, para um jornal de domingo em Espanha, (uma delas foi com a Graça Machel), deu-me tanta raiva que deixei de as fazer. Talvez tenha feito uma a Norman Mailler, mas sem continuidade”.
Gere a máquina. Ocupa-se da Fundação. Levou-o para Lanzarote. Organiza as casas de Lisboa e Madrid. Agarra-lhe pelos colarinhos e não o deixa morrer, escreveu ele. Sorri e faz o jantar. Faz telefonemas. Dá-lhe espaço para trabalhar. Tratam-se por cariño. Mas também pelo nome próprio, muitas vezes.
Fala-se muito da influência de Pilar em Saramago. Não apenas na evidente influência na vida pessoal, mas no curso da carreira do escritor. Ela recusa a sua importância, reage de forma virulenta. De certo modo, reage como ele. São muito parecidos.
Foi isso que perceberam quando se conheceram. Tarde na vida dele, escreveu ele, e tão a tempo. Como adiante se diz, ela não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Pilar tem quase 60 anos, tem ainda a vida pela frente. Há uma vida para trás. É dessa que se fala nesta entrevista. Com Caim por perto.


Lê-se em Caim: “Os tempos do jardim do éden (…) foram-se esfumando na memória até aparecerem como inventos não vividos, como algo que teria sido outra vida, outro ser, outro diferente destino”. No seu caso, há um destino anterior a Saramago.
Todos temos a sensação de experiências não vividas, de memórias que não são nossas, mas que fomos assumindo. Eu devo ter menos imaginação que isso... Não tenho a percepção de [ter tido] uma vida anterior. Creio que tudo se encaminhou para chegar a este ponto. Tenho um fio condutor, desde que nasci, em 1950.

Quem era essa que está para trás, e que não conhecemos, e que veio dar a esta que é agora, e que conhecemos?
A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior. Houve um momento em que o mais sublime que podia encontrar era a religião. Ser missionária, ajudar outras pessoas, outras civilizações, outras culturas. Depois cresci, descobri a literatura, percebi que o mundo tem presente, passado, futuro, e que tudo pode estar em nós. A ler, não tenho necessariamente que ir aos sítios, posso trazer outros mundos até mim. E sempre fui recusando a ideia da mamã burguesa, da dona de casa burguesa...

Porquê essa recusa tão veemente?
Entrei cedo para a política, para a militância, para o jornalismo, juntei-me à revolta estudantil. As razões da recusa: [a vida burguesa] parecia-me uma perspectiva curta. Sou a mais velha de 15 irmãos. Aprendi uma frase de Jesus Cristo: “Quem é a minha mãe? Quem são os meus irmãos?”. Nunca me atraíram os laços biológicos tanto como os laços humanos. Estar em contacto com as pessoas pelas afinidades.

Fale-me da relação com os seus 15 irmãos, com a sua família.
A minha mãe estava sempre grávida, e eu fui sempre uma segunda mãe. Ia à escola, apenas, fazer os exames, porque passava muito tempo em casa a ajudar. Mesmo durante a faculdade, tinha aulas à noite para poder estar de manhã em casa. A relação com a minha mãe era normal, cada uma com o seu espaço. Não éramos de mostrar carinho e afecto o tempo todo. Somos gente dura e asceta, mas com muita solidariedade. Quando alguém fica doente, tem 14 a cuidar de si. Quando a minha mãe morreu, fizemos-lhe uma festa enorme, com os melhores cantores, de rock, flamenco, tradicionais, Paço Ibañez... Todos vieram a essa festa-homenagem. Mantemos a casa tal como gostava. Sabemos que manter a casa é manter a união dos 15. Fazemo-lo para que a casa tenha vida permanente. Assim, a minha mãe, de alguma forma, continua viva.

Ela era verdadeiramente a matriarca? Ou o pai era a figura tutelar?
Ela era uma matriarca, mas era uma vítima. Vítima de maus-tratos. O meu pai era um fascista, um fanático religioso – tinha tudo de Franco. Era também uma vítima; apanhou o final da guerra, foi educado no nacional catolicismo. Era uma pessoa desprezível. Encheu-nos de medo do pecado, disto e daquilo. Com o meu pai não tínhamos relação nenhuma. Víamo-nos todos os dias, mas não tínhamos relação.

Existiu uma ambivalência de sentimentos? Houve um momento em que percebeu que ele era desprezível e simultaneamente digno de amor?
Eu não amava o meu pai. Um homem que faz 15 filhos a uma mulher não é respeitável! Ele respeitava Franco, respeitava o nacional catolicismo. Era respeitado pelo Franquismo, pela igreja. Tudo isto me parecia irracional, animalesco. A partir de determinado momento, deixámos de discutir. Se tinha que o ajudar em algum aspecto, económico ou outro, ajudava-o, mas nunca teve o meu carinho, nem o meu respeito.

Nem quando era pequena? Ele nunca foi para si o pai herói? O pai-Deus, bom, grande, omnisciente, omnipotente.
Nunca tive essa ideia. Pergunto-me como é possível que haja mulheres que continuam a sentir fascinação pela figura do pai. É a figura do impositor, do guerreiro, o depositário da autoridade divina e social. Eu rebelo-me contra isso, geneticamente e ideologicamente.

Quando se apaixonou por José, que deve ser mais ou menos da idade do seu pai...
É até um pouco mais velho! [risos]

…reconciliou-se um pouco com a figura paterna?
Não! Não procurei um pai. Não o procurei em José. Procurava, e encontrei, um homem.

Qual era o seu destino quando era pequena? Aquele que o seu pai e a sua mãe, ou a sociedade em que vivia, traçaram para si?
O meu pai e a minha mãe não tinham tempo. Isso é literatura barata de filho único – o que os pais querem [para nós]... O meu pai andava a ganhar a vida, e a minha mãe estava em casa a criar filhos. O meu pai fazia muitas coisas (até pilotar aviões), mas basicamente trabalhava em seguros. E nós estávamos loucos por ser maiores de idade e poder sair de casa. O meu destino de pequena era ser missionária. O que sempre quis foi partilhar.

Porque é que quis partilhar por essa via?
Porque era católica. Depois dei um salto do catolicismo e da caridade para a solidariedade. Sou comunista. Sou uma militante que põe a sua inteligência e a sua capacidade de trabalho em função de ideias, que julgo serem aquelas que favorecem quem mais necessita.

Chegou a ser freira?
Cheguei a fazer votos privados. A igreja tem institutos seculares e ordens religiosas; a diferença entre uns e outros é que uns têm votos públicos, como as ordens das carmelitas ou dos jesuítas, e outros têm votos privados; a instituição teresiana, de que fazia parte, tem votos privados.

Porque é que decidiu por esses e não pelos públicos?
Porque era a escola onde eu andava, as pessoas que conhecia. Eram extraordinariamente modernas, não eram nada mágicas. Não se podia ser teresiana sem curso universitário. Não era importante estar com hábito de freira, o importante era o contributo que se dava. Reconhecia-se uma pessoa como cristã por ser muito boa, sólida, amável, que servia os outros. Segui o Concílio do Vaticano II com paixão, porque nessa escola seguia-se a modernização, a mudança, a fraternidade universal, o encontro com as outras religiões. A reflexão sobre Deus não ocupava muito tempo, o importante era o que estávamos a fazer.

Era isso que a atraía?
Sim. Trabalhávamos em função do outro, sem beatice nenhuma. Deixámos de levar véu para ir à missa: púnhamo-nos diante de Deus, às claras, tal como somos, sem nos encobrirmos.

Porque é que, havendo essa rejeição do que se vivia em casa, desses valores, não recusou do catolicismo?
Distinguia claramente. Uma coisa era Franco... (bem, o meu pai e Franco eram a mesma coisa); a religião era outra coisa. Por muito que Franco fosse com pompa à missa, eu não vinculava a religião e a mensagem do evangelho a Franco. O meu pai era o poder, era Franco, não era Jesus Cristo.

Quando é que se distanciou da igreja católica, ou de Cristo?
Bem, eu próxima de Cristo não estive nunca, nunca tomei café com ele! Não houve uma ruptura. Li a certa altura no evangelho: “Amai o próximo, tal como Eu amei”. O que penso é que nos amamos uns aos outros porque sim, independentemente de que nos amem ou não. É uma evolução natural, como o crescer das unhas. Mas é um senhor com quem gostaria de conversar, e ele também gostaria de conversar comigo. Há coisas nele de que não gosto, e com certeza há coisas em mim de que não gosta. Parece-me ser uma pessoa interessante, mais interessante que Maomé, que São Tomás de Aquino, que o Papa. Tal como Santa Teresa me parece mais interessante do que o Papa.

Santa Teresa?
Uma mulher forte que enfrentou o mundo, que lutou com reis, com a autoridade. Que escrevia como escrevia. Eu sonhava com fazer coisas. E continuo a ter o mesmo sonho: continuo a acreditar que tenho a vida pela frente, mesmo com 60 anos. Surpreende-me pensar no que ainda posso fazer. Não tinha sonhos de grandeza nem de heroicidade, tinha sonhos de servir. Continuo a cumpri-los. É uma vida banal.

É uma heroicidade no dia-a-dia?
Não é heroicidade. Quando se é a mais velha de 15 irmãos, é preciso fazer comida e camas, aprender a descascar batatas muito rápido, cozinhar rápido, a pôr a mesa, a levantar a mesa... Um dos poucos caprichos que tive na vida foi fazer umas aulas de teatro na faculdade. Adorei poder representar e ser outra pessoa.

Era uma pessoa discreta? Estava tão ocupada a organizar a vida dos outros que achava que ninguém olhava para si?
Continuo a achar que ninguém repara em mim. Continuo a sentir que sou invisível. Somos um clã de invisíveis, e estou na vanguarda desse clã... Em miúda era reconhecida pela capacidade de organização, as pessoas depositavam confiança em mim, votavam em mim na faculdade e no trabalho, quando organizávamos os sindicatos. Somos o que fizemos de nós mesmos – “levantados do chão”, como diria Saramago. Nós próprios, com as nossas leituras, as nossas emoções, quando escolhemos uma vida em detrimento de outra, quando optamos por uma forma de comportar-nos, de vestir-nos, somos fruto de nós mesmos, não dos nossos pais.

Não tinha a noção de ser bonita?
Não. Às pessoas da minha geração, não nos interessava se éramos altas ou baixas, gordas ou magras. Não sou capaz de dizer que tamanho vestia quando era adolescente.

Isso era considerado frívolo? E havia o Franquismo para combater…
Não fazia parte das nossas conversas. Quando casei pela primeira vez, ou quando me divorciei, não queria ser observada por alguém que eu não observasse também. Não queria ser um objecto de desejo. Fui consciente disse na maturidade. Quando me divorciei, vesti-me como uma freira. Vivi muito tempo com roupas largas, compridas. As minhas amigas, hoje, dizem-me que estou irreconhecível, se visto umas calças mais justas... Se visse tudo o que tenho em Lanzarote…, é como roupa de freira, hábitos. Eu podia estar com quem quisesse, ter namorados, fazer o que quisesse, mas tinha que ser mútuo.

Olharem para si, cobiçarem-na sexualmente, sem a sua conivência, era sentido como uma usurpação?
Sim. Incomodava-me profundamente. Era uma agressão ir na rua e ouvir um piropo. Era um problema, porque ficava como uma fera, e respondia... Mas porque é que tenho que ir na rua e ouvir alguém dizer “guapa!” ou “tia buena”?

Fez votos privados. A que é que estava obrigada? Viveu em comunidade?
Vivi em apartamentos, com as teresianas. Antes de acabar o curso, saí. Não por vontade própria, mas porque elas me disseram que eu não era feliz. Respondi que não era feliz, mas que viria a ser – “Quem é feliz?, isso é uma concepção burguesa...”. Estava empenhada em viver uma vida que não era a minha.

O que é que elas perceberam que ainda não tinha percebido? O que era isso de “não ser feliz”?
Era demasiado insubmissa, no fundo era isso. Aceitava com a razão, mas saía-me sempre a rebeldia. Não sou uma pessoa cómoda numa comunidade que precisa de ter as suas regras de submissão. Aperceberam-se que existia um conflito que mais tarde ou mais cedo iria estalar. E por isso, com amizade, disseram-me que aquilo não era para mim.

Nesses anos da faculdade, chegou a pensar em ser escritora?
Eu escrevia muito, mas o destino fez com que perdesse tudo o que tinha escrito.

Era bom?
Era adolescente. Certas coisas não estavam mal, escrevia melhor nessa altura que agora (entretanto veio o jornalismo e estragou-me). Mas não pensava em escrever romances; escrevia porque gostava. Como quem escreve um diário, ou como quem escreve contos, poemas.

José nunca chegou a ler nada desse tempo?
Não, porque os perdi numa mudança. Tinha coisas interessantes, coisas que não eram minhas. Tinha um conto de Montalbán de que gostava muito, dedicado ao meu filho.

Apesar de recusar a vida burguesa, da mulher casada com dois ou três filhos, preferencialmente loiros, a verdade é que chegou a casar e a ter um filho.
Não éramos um casal burguês. O filho era loiro, a genética tratou disso. Fui cobarde; podia ter vivido a minha vida de acordo com as minhas regras, e não o fiz para não dar um desgosto à minha mãe. A minha mãe seria a vítima da conversa insidiosa do meu pai... “Vês? A viver em pecado!” Consegui convencer o meu companheiro a casar, inclusive pela igreja, baptizámos o nosso filho.

Como viveu, no fim da adolescência, com todo esse processo, a descoberta do corpo e da sexualidade?
Não fazia parte da minha vida. Falávamos do amor romântico, se um fulanito tinha olhado para nós, ou se tínhamos ido ao cinema com alguém que nos tinha dado a mão.

Quando é que se descobriu como mulher?
Que era uma mulher, sabia desde que tinha três ou quatro anos, e me punha num banquinho e engomava. A descoberta da sexualidade, foi tardíssima. Uma vez, falando com um amigo, estávamos a comentar as “primeiras vezes”; quando chegou a minha vez disse: “Filho da puta do Franco!”. Vivíamos numa sociedade tão opressiva... Nos dois primeiros anos da faculdade, que falasse de se ter deitado com alguém, havia em Granada, um rapaz. Em Sevilha, tive uma amiga que era casada e que teve um amante; pediu-me que a ajudasse, dizendo que estava comigo... Aquilo fascinava-me, parecia coisa de livros, não era vida real.

O sexo, o corpo, de que ainda não tínhamos falado, parecia estar ausente da sua vida de todos os dias, mas é uma coisa essencial.
Não naquele tempo. Naquele tempo que fazíamos? Saíamos ao fim-de-semana, passeávamos rua acima, rua abaixo, não fumávamos, não bebíamos, sentávamo-nos nas portas das casas, líamos fragmentos de livros, tínhamos conversas sobre política. Tinha 20 anos quando descobri uma pizzaria, e parecia-me uma coisa perniciosa. Era outra vida, vínhamos de uma guerra, de duas guerras (mundial e civil).

De uma guerra fratricida. Como se em cada família houvesse um Abel e um Caim.
Na minha família eram todos Abel. Comecei a saber dos horrores que aconteciam com a gente de esquerda somente quando cheguei à faculdade.

Lê-se na obra de Saramago: “É como se fossem duas pessoas, Ninguém é uma só pessoa, tu, Caim, és também Abel”. Quando é que descobriu o Caim que há em si?
Em mim não há nenhum Caim. Nunca vou matar um irmão. Não vou matar um ser humano tal como não vou matar uma formiga, ou mosca, ou barata. Creio que José tem muito [dessa ambivalência], e por isso escreveu O Homem Duplicado. Os escritores têm essa espécie de esquizofrenia, que os leva a criar tantos personagens e mundos distintos. Eu não sou nada criadora. Posso ser, rotundamente, o Sancho Pança.

Nunca identificou em si um lado mais odioso, mais maldoso...
Ai sim, posso ser muito má, mas não é Caim. Abel era explosivo. Não tenho a pulsão fratricida, da vingança, da culpa. Posso ter zangas, gente que desprezo profundamente (os imorais, gente que põe os seus interesses antes do bem comum, gente que vive a invejar).

Consegue imaginar como leria este livro aos 20 anos?
Se tivesse 20 anos isto parecer-me-ia terrível... Não o livro. A história de Caim. Porque lhe parece que tenho tanto ódio à figura paternal? Só pelo meu pai?, serei eu assim tão tonta? Eu vi os outros pais, e os outros pais da literatura. Acha que alguma vez, como cristã, entendi que um pai mandasse o Seu filho sacrificar-se por toda a Humanidade, até morrer, em tortura e sofrimento, na cruz? “Era um acto de amor.”? Mas porque não veio Ele, porque não veio o pai? “São todos um.” Mas quem sofria era Cristo, na sua humanidade! Mesmo sendo freira e cristã, a figura de Deus Pai nunca me pareceu nada, nada simpática.

A sua simpatia era pela Virgem Mãe?
Não, a história da virgem e de virgindade dá-me muito que pensar.

Então quem é a figura referencial?
Cristo.

Encarnava a bondade e os valores que perseguia, a solidariedade...
Exactamente, e a rebelião contra a hipocrisia, contra o mercado e os mercadores, contra as instituições.

A minha pergunta era se o livro não a revoltaria, como hoje revolta os católicos que o lêem.
Li algumas coisas nessa altura que eram consideradas heréticas, e não me revoltaria porque o entenderia como uma leitura de outro ser humano. Acha que fico ofendida por Marx dizer que “A religião é o ópio do povo”? Em muitas civilizações e muitas culturas, é. Noutras, não. Todas as generalizações são injustas. Eu teria lido este livro com muitíssimo prazer, porque está bem escrito. Tal como li com imenso prazer livros de autores cuja linha de pensamento não coincide com a minha.

Quando tinha 36 anos e se deu o encontro com Saramago, já estava distante do catolicismo?
Sim.

O afastamento do catolicismo teve que ver com a aproximação ao comunismo? Quando é que se deu?
Durante a faculdade, nos meus vinte anos. Quando morreu Franco, tinha vinte e cinco anos, era militante, estava na clandestinidade.

Comemorou?
Não. Foi dito publicamente que tinha estado numa reunião a brindar com champagne. Mas não brindei. Estava grávida e o cheiro do álcool causava-me umas náuseas insuportáveis. Fiquei contente, pareceu-me fantástico que tivesse morrido esse senhor, e sobretudo que tivesse morrido o regime.

Cerca de dez anos mais tarde, pôs-se a caminho de Lisboa para conhecer o autor de uns livros que a tinham impressionado. Havia dentro de si o desejo de ser admirada por aquele homem que tanto admirava?
Sabe, os jornalistas desmistificam muito a figura humana. Eu já tinha conhecido muita gente, gente admirável. (Durante muitos anos fiz informação política. No outro dia em Itália contei que conheci o Aldo Moro). A época da mistificação já tinha passado. Para nós, [jornalistas], as pessoas são material de trabalho.

O que isso quer dizer também é que era pouco carente. Não precisava que aquele que admirava a confirmasse, a estimasse, quisesse a sua opinião.
Não, não, não. Ponto número um: não vinha ver Saramago. Vinha seguir os passos de Ricardo Reis e a linguagem de Ricardo Reis.

Conte a história da viagem.
Éramos catorze, mas à última da hora, toda a gente foi caindo. Estava tão decepcionada que um deles disse: “Não te preocupes, eu levo-te!”. Para mim era importantíssimo, já estava divorciada, tinha deixado o meu filho num sítio para poder vir, e de repente, um “não”… Quisemos ficar no Hotel Bragança, vimos que era uma casa de putas, e fomos para o Hotel Mundial.

Foi do Pessoa que foi ter a Saramago. Realmente não lhe interessava Saramago?
O amigo com quem vim perguntou-me: “Se não te interessa o escritor, por que lhe telefonaste?” Porque gosto de agradecer aos escritores. Tenho essa norma: as cartas são para responder, assim como os emails, e os livros são para agradecer. Como tinha oportunidade de chegar a Saramago, disse que vinha e que gostaria de o cumprimentar. Não era tanto para o conhecer, mas sim para lhe agradecer o prazer que me tinha proporcionado. Nunca o tinha visto, foi tudo por telefone. Combinámos ver-nos, tomámos um café, fomos visitar a campa de Fernando Pessoa, eu vinha com o meu Livro do Desassossego, e pronto. Não havia nada de mitomania, havia maturidade profissional.

Quando é que percebeu que a sua vida tinha mudado por causa do encontro com José?
Quando nos encontrámos. No dia seguinte telefonou-me para pedir a minha morada. Na época tinha um meio-namorado, e quando cheguei a Espanha disse-lhe que já não o queria ver mais. Fiquei livre, sem relações, sem amante. Sabia que algo ia acontecer. E aconteceu. Uns meses depois, José chegou, sem que tivesse havido uma carta, uma comunicação, nada. Apareceu em Sevilha. Eu sabia que ia aparecer, mais tarde ou mais cedo.

Como é que sabia?
Sabia. E de Junho a Novembro, que foi quando chegou o José, não houve mais ninguém na minha vida. Ninguém se podia aproximar. Eu estava à espera dele.

Porque é que a impressionou tanto?
Não me impressionou. Éramos tão parecidos, partilhávamos tanta coisa que era impossível que não as compartilhássemos. Não o conhecia pelas duas horas que passei com ele, conhecia-o pelo que escrevia.

O que é que conhecia? Nesses meses, continuou a procurá-lo a partir do que ele escrevia?
Não podia. Em espanhol apenas estavam traduzidos dois livros, o Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando nos conhecemos ele estava a escrever A Jangada de Pedra. Está lá descrito o nosso encontro: de outra maneira, noutro sítio, mas há uma mulher, e de repente ele sabe que é aquela a mulher, que tem de ser. Ele sabe que algo se passou, e ela sabe, não se verbaliza, mas ambos preparam as suas vidas.

Não tem ainda a idade que ele tinha quando a conheceu. Saramago tinha 63, Pilar 36. Existe uma grande diferença de idade entre os dois; não sentiu isso nunca como uma dificuldade?
Não. A idade está no bilhete de identidade, em nenhum outro sítio. Ele tinha todas as idades, tal como eu tenho todas as idades. Num momento determinado podemos ser crianças e noutro momento dois adultos cansados.

No livro, Caim diz a Lilith que conheceu o futuro. “Era num presente que me encontrava, o que havia sido futuro tinha deixado de o ser, o amanhã era agora”. É uma espécie de ubiquidade: estar em diferentes idades, em diferentes tempos.
Pode ser outro presente, mas tudo é sempre presente. Caim está sempre com o seu burro, com a sua história, sempre na sua conversa com Deus, em distintos momentos.

Outra das ideias centrais no livro é a do desentendimento com Deus. O episódio da Torre de Babel é elucidativo a esse respeito. Pode falar dos seus desentendimentos com Deus, com José, consigo própria?
O desentendimento entre Deus e Caim foi porque cada um tinha um projecto distinto. Deus queria uma coisa inumana, e os homens queriam coisas humanas. Com José não há desentendimento, porque queremos o mesmo. E comigo mesma, tenho muitos desentendimentos, mas aprendi a superá-los cada dia, a organizar as minhas contradições, a dar-lhes forma. Para isso, pode parecer infantil…, mas serviu-me escrever muito. Para clarificar.

Ainda Caim: “Faltam-nos ainda muitas palavras para que comecemos a tentar dizer quem somos, e nem sempre daremos com as que melhor o expliquem.” Foi uma bênção terem encontrado as palavras que dissessem quem são?
Encontrar as palavras, vamos encontrando todos os dias. A sorte é sermos os dois tão transgressores, tão rebeldes, e termos tanta força vital que não nos cansamos nunca de começar. E se no dia anterior houve uma história disparatada, ou chunga, ou feia, no dia seguinte começa-se de novo. Não há nem filhos, nem pátria, nem rei, nem partido, que nos obrigue a estar juntos. Alcançámos, em todos estes anos, 20 e tal, um nível de liberdade que nos permite dizer todas estas coisas, enfrentar o que seja, e estar juntos porque queremos começar juntos. Isso é que é ser livre, para ficar e para ir. Não há uma única convenção social que nos ate. Não temos uma “puta atadura” pequeno-burguesa. Quem tem uma mente pequena não entende a nossa história, banaliza-a.

Como assim?
“A jornalista!”, “o Nobel­!”, “a jovenzinha que faz reviver o senhor velhote!”, “o velho é seu pai...!”

Pelos anos fora, por que é que não quis escrever? Porque o escritor é ele, o seu marido?
O meu projecto não passa por escrever. A educação em pequena, como missionária, era no sentido de dar a conhecer, de ajudar. E continua a ser essa: dar a conhecer a outros. Quero ser uma ponte para outros, não quero escrever o meu livrito. Quero colaborar para que as grandes obras continuem por aí, se recuperem, tenham este presente.

Nunca teve inveja por não ter aquele talento?
Não, eu tenho o meu. Não tenho o talento da escrita. Tenho a habilidade. Tenho outras coisas: sei cozinhar, sei sintetizar...

Estou a ouvir a menina que percebeu que era mulher quando a puseram a passar a ferro com três ou quatro anos…
Mas é verdade, eu adoro cozinhar! Parece-me uma arte maravilhosa. Tenho outras habilidades, não podemos ter tudo.

Foi essencial para a conquista do Nobel?
Não!

É uma ideia enraizada: a de que sem o talento organizativo da mulher que primeiro difundiu Saramago em todo o mundo hispânico, e o pôs na rota certa, o génio criativo não seria suficiente. Como é que assiste a esta lenda?
Com vergonha da estupidez e da imbecilidade de quem a diz e repete até à exaustão. Sou uma jornalista espanhola, Espanha não influencia nada, não sou agente literária de Saramago. Posso ter sido importante na vida pessoal de Saramago, mas não na literária. Saramago recebeu o Nobel porque escreveu um livro que mereceu a aprovação dos 18 membros da academia sueca, que todos os anos valorizam a produção, que discutem, e não são sensíveis a pressões, a campanhas de marketing, e muito menos ao que diga uma jornalista, duas ou três ou cinco. Os membros da academia podem enganar-se, e já se enganaram algumas vezes, mas não é o caso de Saramago.

Como é que tem assistido à polémica que envolve Caim?
Estes colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte ter um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!”. Estou indignada, de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou um livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza nem de uma ponte nem de um ser humano. Têm uns óculos que lhes deve dar para verem o tamanho do seu pénis... pequenino.

Saramago faz-lhe constantes dedicatórias: “À Pilar, que não deixou que eu morresse.” “A Pilar, todos os dias.” “A Pilar, que não havia nascido, e tanto tardou em chegar.” “A Pilar, minha casa.” A de Caim diz: “A Pilar, como se dissesse água.” Que acha que quer dizer?
Parece-me que água é água. Uma coisa clara, e, quem sabe, necessária. Mas que sei eu?, fiquei tão perplexa, e tive um problema para traduzir... “A Pilar, como si diciera agua.” Ou “... como dice agua”.

Se escrevesse, que dedicatória faria para José?
Sou tão discreta, tão dura, tão arisca... Imagina em casa dos meus pais, 15, a beijarem-se todas as noites e todas as manhãs? “Eu já te dei um beijinho a ti? E a ti?!”

Já assisti a manifestações de carinho entre si e José. É uma relação ternurenta, há um toque de mão, um beijo na cara...
Sim, mas mais da parte do José que da minha. Se tivesse que fazer uma dedicatória, seria “Para José, meu amigo.” Porquê “meu amigo”? Porque me parece ser o maior valor, mais que amante. Os amantes vão e vêm das nossas vidas. Os pais, vão e vêm, e por vezes nem vêm. Os irmãos, são estupendos, mas cada um tem organizada a sua própria história. Os que ficam sempre são os amigos. A amizade é o que mais defendo, acima do amor."

(Publicada originalmente no Público em 2009)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante") - Entrevista de Anabela Mota Ribeiro

Aqui, o link da entrevista original, no site da autora,
em, http://anabelamotaribeiro.pt/jose-saramago-a-pretexto-de-a-viagem-do-122930

"José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante")

José Saramago num sábado à tarde. Sala aquecida, luz fria de um Inverno que ainda não é, chilreio de meninos que passam no bairro. Talvez de alguns pássaros, também. Ele parece ser maior do que a casa; melhor, as pernas parecem não caber no sofá, no espaço disponível. Troca-as, destroca-as, o joelho sempre erguido e pontiagudo. Tem ainda a imponência de um gigante. Mas agora seco, delgado – como o avô Jerónimo – o cabelo ralo, um fio de voz. De muitas palavras – ao contrário do avô Jerónimo. Nessa tarde, Saramago foi assim.
Ganhou peso, tem uma espécie de protuberânciazinha no lugar da barriga. Há um ano julgou que morria. Pensou que não avançaria nas 40 páginas já escritas. Avançou. Ganhou peso. Ou, como Saramago diria, porque é muito ordenado no pensamento, ganhou peso, avançou. Chegou ao seu destino. Escreveu “A Viagem do Elefante”.
Saramago empenhou na escrita do livro a sua palavra e a sua vida – como se pode ler. Por agora, o destino é esse. Depois, não pode ser outro senão a morte. Conversa com um homem lúcido.
O livro relata a viagem de um elefante, presente de casamento do rei Dom João III e Dona Catarina a Maximiliano de Áustria, de Lisboa a Viena. É uma “visita sentimental de um bruto paquiderme”, que passa por Valladolid, o mar, Génova, as montanhas; Viena, por fim. Passa por lobos e desfiladeiros, aldeias curiosas, em ambiente de campanha. Atravessa a Igreja Católica sedenta de um milagre e as lutas internas com o luteranismo. O condutor do elefante não é aquele que conduz a história – esse papel fica para o narrador. Tem um nome indiano que significa branco. E o elefante, quem é? E para onde vai, além de Viena?


Começamos pelo livro: “A ressurreição, afinal, estava sobretudo, dependente da livre vontade de lázaro e não dos poderes milagrosos, por muito sublimes que fossem, do nazareno. Se lázaro ressuscitou foi porque lhe falaram com bons modos, tão simples quanto isso”. Na sua doença, foi você que quis viver ou foi Pilar que lhe falou com bons modos?
Eu não lhe podia falar com maus modos. Nem tinha forças. E ela muito menos. Comunicávamos com as frases que eu conseguia arrumar na minha cabeça, entre o cá e o lá em que me encontrei numa fase – demasiado longa, para meu gosto. Salvar-me, transformou-se no objectivo e desejo de todos os meus amigos, e, no caso de Pilar, numa obsessão. Enfim, escapei. Dizer que lhe devo a vida… Devo-lhe a vida a ela, aos médicos, a toda a gente que me manteve à tona, e também devo a vida a mim mesmo.

Antes disso, estava entre a consciência e a inconsciência?
Tenho a memória de que qualquer coisa na minha cabeça entrava em deriva, e eu deixava-me ir. Não era ir atrás dos pensamentos, porque, em rigor, não posso dizer que estava pensando. No quarto, já com largos períodos de consciência total, ficava por vezes numa espécie de limbo. E eu via isso. Era como se fosse um ecrã. A comparação maior é o céu negro com quatro estrelas. Mas no meu caso não eram estrelas. Eram simplesmente quatro pontos brancos, dispostos em quadrilátero, não regular. Era para mim claríssimo, e defenderia essa ideia contra quem fosse, que eu era aquele quadrilátero.

Como se se visse de fora?
Sim. Esta complicadíssima experiência teve outro efeito: usamos uma linguagem que não é sempre a mesma, que vai variando consoante os tempos que vivemos. Somos um armazém de sedimentos, ou extractos linguísticos. São os que usámos e retivemos nos diferentes períodos da nossa vida. Claro que quando estava na aldeia, na minha adolescência, tinha uma linguagem, não só da época como do lugar. E ficou cá. Quando a minha vida mudou, em Lisboa, e aos 24 anos publico um livro, já era outra pessoa, outra linguagem, outro modo de entender as coisas.

No livro, dois personagens mudam de nome. O condutor do elefante passa de Subhro a Fritz e o elefante de Salomão a Solimão. Como se uma palavra diferente dissesse respeito a uma outra identidade.
Exacto. O que é que aconteceu durante a minha doença? É que a ordem destes sedimentos alterou-se. Encontro-me diante de uma evidência, que demonstraria com o próprio livro. Este livro está escrito de uma maneira que é simultaneamente moderna e quase arcaica. Algumas coisas que estavam lá no fundo, nessa revolução interior de extractos linguísticos, passaram à superfície. Na hora de escrever o livro apresentaram-se-me construções frásicas, certas utilizações de verbos, palavras que não recordava ter usado nos últimos 40 anos.

É pela palavra que nos fazemos, que nos criamos, que nos salvamos.
Não temos outra coisa. É que não temos outra coisa. Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso. Se eu digo: estou pensando, e me perguntar: “em quê?”, a minha resposta só pode ser com palavras. Não posso tirar o pensamento da cabeça e pô-lo em cima da mesa: aqui está o que eu estava pensando.

O livro anterior a este é um livro de memórias, em que se volta, sobretudo, para a infância – um sedimento muito antigo, onde as palavras eram outras. O inconsciente tê-lo-á guinado para aquele lado? Como é que passa de um livro ao outro?
O livro d’ “As Pequenas Memórias” é escrito com linguagem que uso hoje. No caso d’ “A Viagem do Elefante” é como se houvesse outra mão que me guiasse. Para que eu aceitasse, recebesse e utilizasse palavras e expressões. O que mais caracteriza este livro é o tom narrativo, o modo de narrar. O narrador é um personagem numa história que não é sua. Sempre defendi a ideia de que o narrador não existe. Neste livro resolvo a questão – pelo menos resolvo-a para mim, que é a única coisa que importa. Passando a considerar-me autor sim, mas autor-narrador, não dissociado. Assumo tudo.

É o narrador-autor, aquele que conduz a viagem. Mas está também nas outras personagens? No cornaca (aquele que guia o elefante), no comandante (que se pode imaginar ser um alter-ego seu), no elefante.
Provavelmente estou em todas as personagens. Os dados históricos comprovados que se referem à viagem deste elefante cabem numa página, e ainda sobra. Portanto, este livro é um livro de invenção. As personagens históricas, o arquiduque, a arquiduquesa, D. João III, a Rainha Catarina, vejo-os mais como comparsas – embora estes últimos tenham um papel, o que têm para dizer tem importância no contexto do livro. O resto, o capitão de cavalaria, os austríacos, toda a gente que se vai encontrando pelo caminho, são produto da imaginação. Eu não seria o arquiduque, embora certas manifestações poderia aceitar como minhas. A arquiduquesa é uma sombra que passa, destinada a parir 16 vezes. E temos o elefante.

É fácil olhar para ele como metáfora da própria vida.
É. Não há nada que o elefante faça que possa ser interpretado como consequência de um pensamento seu.

Diz, aliás, ao longo do livro, que não se pode saber o que o elefante pensa.
Ele não tem palavras, não usa palavras. Se os elefantes pensam, eu não sei como é que pensam. Se nem sei muito bem como é que pensa o meu cérebro… O Torga, nos “Bichos”, que são uns contos magníficos, antropomorfizou tudo – aqueles bichos pensam. Eu não queria isso. Queria que o meu elefante fosse levado de Lisboa a Viena como um animal que não sabe onde o levam, que não tem nenhuma ideia de qual possa ser o seu destino e que vai andando, porque outros o levam, e também vão andando. Realmente, é um pouco como a vida. O que dá sentido a este livro é o final – o final da vida deste animal, Salomão. Como tinha que acontecer, esfolam-no. A pele é oferecida pelo arquiduque a um conde qualquer.

E há aquele detalhe medonho: de usarem as patas para pôr bengalas e bastões. As mesmas patas que poderiam ter produzido um milagre, no miolo do livro.
Sem isso, provavelmente o livro não existiria. A viagem do elefante, a autêntica viagem, é o que o leva a isso. As suas pernas andaram milhares de quilómetros, estiveram na Índia antes de o trazerem para Lisboa, serviram-no. E essas mesmas pernas são cortadas e transformadas irrisoriamente num recipiente para pôr as bengalas, os guarda-chuvas, as sombrinhas. Esse é o destino do elefante que faz essa viagem, com episódios épicos, e que acabou ali. A epígrafe do livro acompanha isto: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Claro que em termos latos, aquilo que nos espera é sempre a mesma coisa: a morte. Neste caso, não é só a morte, é o destino final. Caricato. Disseram-me que até há pouco tempo, essas patas ainda estavam no lugar onde tinham sido postas.

Escreve na primeira parte do livro: “É a lei da vida: triunfo e olvido”. Perguntam o que vai acontecer ao elefante, e a resposta é: vão dar-lhe umas palmadas – que nós diríamos nas costas - vai haver muita gente nas ruas, e depois esquecem-se dele. Consigo, também vai ser assim?
Inevitavelmente. Não vale a pena que tenhamos ilusões. Pode não acontecer em 50 anos, e talvez em 100 anos ainda haja quem me leia. Depois passo a ser um nome. Um nome que algum excêntrico vai ler e conhecerá. Quem é que, no momento em que estamos aqui a conversar, está a ler o Camões? – para além dos que tenham de lê-lo por obrigação. Quem é que está a ler o Gil Vicente, Dom Francisco Manuel de Melo, ou Padre António Vieira? Quem é que tem paciência para ler sermões, mesmo que eles sejam um esplendor?

Desde quando tem a noção de que a sua vida será também triunfo e olvido?
Desde sempre. Este pendor relativizante começou por mim mesmo. Depois do “Ensaio sobre a Cegueira”, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, que me recordassem como o criador do Cão das Lágrimas. Já vê que é pedir bastante pouco… Ninguém escreve para o futuro, ao contrário do que se julga. Somos pessoas do presente que escrevemos para o presente. Também pode acontecer que os livros deixem de ser livros e que o nome do autor continue como uma referência.

Abrimos uma chaveta para dizer: José Saramago, aquele que inventou o Cão das Lágrimas, escritor, comunista. Pensamos nas palavras cardeais do seu universo: ironia, compaixão, imaginação.
Acabamos por converter-nos em conceitos. Já não temos existência, mas continuamos a existir – naquilo que deixamos, nas ideias que as pessoas desse tempo, do futuro, têm sobre aquilo que deixamos, e que podem não coincidir com as nossas. Mas sobre isso não podemos nada, já não estamos cá. De qualquer forma, o olvido está garantido, mesmo que não seja total. Uma das coisas que me dá uma satisfação íntima… O meu avô morreu em 1948, a minha avó viveu ainda uns bons anos mais. Aí, o processo de esquecimento começava exactamente no momento em que cada um deles morreu. Dá-me uma satisfação que talvez nem saiba exprimir o facto de ter-lhes dado uma vida.

Ao recordá-los, ao nomeá-los.
Eu não deixei que morressem. O nome deles nunca mais seria citado, nunca mais se falaria nisso. A família está reduzida a quase nada: estou eu, a minha filha, um vago primo que talvez ainda os recorde. Estavam condenados a desaparecer já. Escrevi sobre eles. E em qualquer parte do mundo, alguém que se interesse por aquilo que faço, já sabe que tem que aguentar com os meus avós.

Citou o seu avô no discurso que fez na Academia Sueca e apontou-o como o homem mais sábio que conheceu.
Foi o princípio da minha conferência. E aí deixo o nome deles: Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Falar deles nestes termos pode levar a uma certa idealização. E sim, servindo-me deles como personagens literários, idealizei-os. Mas não imaginem que eram extraordinários: eram pessoas comuns.

Eram analfabetos. Porque é que ele era para si o homem mais sábio que conheceu?
Porque eu era garoto. Era um homem alto, seco, delgado, de poucas palavras. Olhava para ele, não como se fosse o super-homem, ou um anjo caído do céu, porque era um homem, um camponês, não conhecia uma letra; contudo, como não tinha outros mestres, além dos da escola primária, aquele, sem que alguma vez lhe tivesse chamado isso, foi um mestre de vida. O próprio não sabia que era mestre, eu próprio não sabia que era seu discípulo; simplesmente vivíamos juntos na mesma casa. É possível que haja aqui muita elaboração mental. Mesmo que assim seja, no centro da questão está…

O amor.
Também. Eles não eram muito carinhosos. Não tinham tempo nem tinham sido educados para a expressão do afecto. Já muito tinham em que pensar – tendo comido ao almoço, se tinham comida ao jantar. Chamemos-lhe o momento mágico da infância para resolver esta questão – que não fica nada resolvida, claro.

Um pouco como o narrador-Saramago que resolve no livro uma coisa por elipse, com um plof!
Imagine se eu tivesse que resolver o processo… assim não: plof, e já está!

Falei de imaginação, lucidez, ironia, compaixão, que comummente se dizem ser os pilares da sua narrativa. Quando recuperou da doença, temeu ter perdido alguma destas faculdades?
Não. No que tem que ver com ironia e humor, nos diálogos que mantinha com os médicos usava uma ironia por vezes agressiva. A Pilar olhava para mim com os olhos esbugalhados; não era a dizer como é que eu me atrevia – estávamos a falar de igual para igual; mas afinal de contas estava muito vivo na minha cabeça. O corpo, estava um desastre, os pulmões encharcados, a perder peso a cada hora que passava, até aos 51 quilos com que saí do hospital. A prova de que não devo ter perdido nada do que era meu antes está no próprio livro.

Mas isso só percebeu na escrita do livro? Quando partiu para ele, tinha uma insegurança de algum tipo?
O livro foi escrito em duas fases. A primeira desde Fevereiro do ano passado até ao Verão, em que escrevi umas 40 páginas. Depois o meu estado agravou-se e o estado em que me encontrava tirou-me o apetite de escrever. E nisto passaram-se meses. No fim de Outubro, fui quatro dias a Buenos Aires – um autêntico disparate. Praticamente não comi. A certa altura meteu-se-me na cabeça que queria maçãs assadas. Mas é impossível encontrar na Argentina maçãs para assar e alguém que as saiba assar. Vim de lá muito mal e fui para uma clínica em Madrid, onde me fizeram uns quantos exames. Não acertaram com o diagnóstico. Fomos para Lanzarote. Aí entro na rampa e começo a deslizar para o fundo. Não tive uma dor, não posso dizer que sofri, dá mesmo a impressão que não estava lá. O meu estado era de tal ordem que no hospital tiveram dúvidas em aceitar-me. Porque não queriam que morresse no hospital deles! [riso] Se eu queria morrer, que fosse morrer noutro sítio! Aí a Pilar armou-se em Joana D’Arc e convenceu-os de que não podiam fazer isso, e revelaram-se pessoas e médicos extraordinários.

Esteve três meses no hospital. Quando voltou a casa, de quanto tempo precisou até voltar a escrever?
Eu era uma sombra. As minhas pernas eram incapazes de suster-me, agora imagine andar… Vinte e quatro horas depois já estava sentado à mesa a trabalhar.

Porque é que escrever foi indispensável?
Aquele trabalho tinha sido interrompido. Durante o tempo em que estive doente cheguei a dizer à Pilar: “Não sei se vou conseguir acabar o livro”. A Pilar, falando com os médicos, chegou a dizer-lhes: “Garantam-lhe a vida por mais três meses para que ele possa terminar o livro”. Há que dizer que três meses não bastariam.

A Pilar sabe pedir… Sabe falar com bons modos…
Sabe, sabe. A Pilar, se quer alguma coisa, é irresistível! [riso] Essa dedicatória que pus, “a Pilar que me agarrou pela gola do casaco e não me deixou cair ao poço” [na verdade, o que está escrito no livro é: “A Pilar, que não deixou que eu morresse”], figuradamente é isso.

Curiosamente, a palavra pilar aparece no livro uma única vez, para dizer “pilar da fé”. Um pilar é algo que nos sustém. É o pilar da sua vida?
Foi, tem sido, e espero que continue a ser o meu pilar. Além de ser intimamente a minha Pilar, é também o meu pilar.

Voltemos à necessidade de 24 horas depois estar a trabalhar. Era uma forma de manter-se vivo?
Vivo estava eu. Não era o corpo que queria escrever, era a cabeça. Essa ideia – não sei se vou conseguir acabar o livro – continuava cá dentro. A primeira coisa que fiz foi rever tudo o que estava escrito. E corrigir. Se me pergunta: tinha cabeça para correcções? Tinha cabeça para o que fosse. Quando cheguei ao fim dessas correcções, engatei a história, e terminei o livro no dia 12 de Agosto.

É um livro muito luminoso. É surpreendente, sabendo de onde vem…
Embora a mim não me surpreenda. Tenho uma capacidade de distanciamento muito, muito grande. E neste caso, um distanciamento em relação ao doente que tinha sido, ao convalescente que continuava a ser. Não reflecti: posso ou não posso escrever. Já se veria se podia. Abri o computador, procurei o que estava há meses parado, numa certa palavra, e recomecei sem dramatismos. Detesto dramatismos. Detesto aquilo que os escritores cultivam muito: a relação dramática com a escrita.

Porque é que detesta esse dramatismo?
 Porque acho que é falso.

Fala como se o que faz fosse simplesmente um ofício.
Escrever é um trabalho. Da mesma maneira que um médico, o que faz, é um trabalho. Essas histórias em volta da página branca, o horror da página branca…

No seu passado de editor ou jornalista estava em contacto directo com as palavras; mas era para si um ofício diferente.
Não é a mesma coisa estar no Diário de Lisboa, e escrever o editorial, ou no Diário de Notícias, e escrever os meus apontamentos; mas não difere muito. Num caso e noutro estou a usar as palavras, e as palavras de um romance são as mesmas, vêm do mesmo depósito de palavras. Quando eu era um escritor que ninguém conhecia já pensava: isto é um trabalho. Eu poderia ter as melhores ideias para livros, as inspirações mais fulgurantes, mas tenho que as pôr no papel. Pode acontecer, e acontece, que aquilo que eu julgava fulgurante afinal não o é tanto.

Isso é trabalhar a forma.
Quem trabalha a forma trabalha o conteúdo, quem trabalha o conteúdo trabalha a forma. Comparo o trabalho ao computador com o trabalho do oleiro. O oleiro agarra num bocado de barro, põe-no no torno, o torno gira e ele começa a trabalhar o barro até chegar à forma que quer. Há qualquer coisa de artesanal com o trabalho no computador.

Não teve dificuldade em retomar o fio, em engatar, como disse?
Nenhuma. Não tem virtude nenhuma. É simplesmente uma maneira de ser. Você está a ver a excelente ocasião que perdi para fazer do reatamento do meu trabalho um drama, uma angústia, uma ânsia, e agora como é que vai ser?, vou ser capaz?

Nunca foi um angustiado, pois não?
Nunca, nunca, nunca, nunca. E ainda bem. Tive os meus momentos de abatimento, mas entrar em depressão, nunca entrei.

O que é que o segurou? O que é que fez com que nunca caísse em depressão?
Já não o pensava há muitíssimos anos, e é simplesmente uma frase, mas é como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali não entra nada. E que se traduz numa certa serenidade, que se acentuou com a doença. Se alguma coisa pude aproveitar dela foi este sentimento de extrema serenidade. Passei pelos momentos maus e bons que todas as vidas têm, mas nunca perdi esta…, não quero chamar-lhe segurança de mim mesmo... É um pouco como o olho do furacão: em redor é morte e destruição, mas ali o vento não sopra.

Essa noção, de ter essa parte intocada, tem-na desde quando?
Desde que é possível ter consciência de uma coisa como esta. Pode ter sido aos 30 anos – ponhamos assim. Mas quando tive consciência, percebi que já antes era assim.

Que auto-estima tinha esse homem que está para trás? O homem que foi na primeira parte da sua vida. Isso que descreve, parece ser uma coisa por sua conta, autónoma.
De certo modo. Eu tinha 18 ou 19 anos e tinha um grupo de amigos – como éramos cinco, chamávamo-nos Pentágono! E um dia conversando sobre umas quantas coisas sérias – o que é que era a vida? – disse esta frase que recordo tal qual e que me ficou para toda a vida: “Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter”. Na boca de um rapaz, nos anos 40, uma frase como esta parece reflectir um fatalismo radical. Fala-me de auto-estima: creio que sempre a tive e que esta frase pode ser interpretada nesse sentido. Como nunca fiz projecto de carreira, como nunca fui uma pessoa ambiciosa, como na minha vida não houve cálculo, realmente não fiz nada para que as coisas acontecessem. A não ser o trabalho que tinha de fazer a cada momento.

Fez todos os trabalhos com o mesmo empenho?
Fazia o melhor que sabia e podia, quer fosse na oficina de serralharia onde comecei, quer nas actividades que vieram depois. Vou contar-lhe uma coisa: o Nataniel Costa era o director editorial da Estúdios Cor. Encontrávamo-nos no Café Chiado. Eu não tinha quaisquer credenciais. Tinha os meus amigos, os tais do Pentágono – portanto, ficava numa mesa à parte. E ouvia os outros, os Abelairas, essa gente, ali reunida. Passado tempo, o Nataniel entra na carreira diplomática e falou comigo. Seguimos juntos pelo passeio, em direcção à Brasileira. “Queria perguntar-lhe se está disposto a ocupar o meu lugar na editora enquanto eu estiver ausente, e depois logo se verá”. Porque me dizia aquilo a mim? “Não faltam pessoas a quem poderia ter falado; mas não tenho a certeza de que não aproveitassem essa circunstância para me apunhalarem pelas costas”. Isto é dos momentos mais importantes da minha vida. Alguém que não tinha sido pago para isso nem tinha razões afectivas para o fazer, disse o que disse.

Além de confiarem na sua lealdade, foi o início de um período, em que foi editor.
É como se pudesse dizer-me: tenho razão em ter feito a minha vida como a fiz até hoje. Durante anos escrevíamo-nos, trocávamos ideias e sempre nos entendemos sem o mínimo atrito, nunca houve roçadura de pele.

A imaginação, a ironia, a compaixão estão para o autor como a moral, a coerência, o comunismo estão para o homem? Contaminam-se, e são do mesmo?
São, são. Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito. É isso. Mais recentemente converti isto na declaração: o comunismo é um estado de espírito. Dois camaradas atacaram isto, em nome do materialismo dialéctico. Não entenderam.

Voltando ao livro, há momentos de provação. Como quando a caravana enfrenta o desfiladeiro ou os lobos. O que há numa situação e noutra é o medo. Não sei da sua relação com o medo.
Nunca me encontrei em situações em que o medo se desencadeasse fora do meu domínio. Pondo esta salvaguarda, não me considero uma pessoa medrosa. Também não sou um exemplo de valentia – nunca fui posto à prova. Vamos à experiência mais recente, a doença. O medo da morte, que é um medo tão comum, nunca tive. A probabilidade de morrer era alta. Talvez não tenha tido medo por causa da costela fatalista que tenho – o que tiver de ser, será.

É evidente que o elefante não pode sucumbir aos lobos, ou cair no desfiladeiro – ou seja, nas partes menos boas.
Se transportar isso para a vida, é uma forma de optimismo. E que liga com aquela frase dos 19 anos.

Escreve para ser amado? Escrever é uma forma de ser amado?
Pode ser entendido assim. O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exacto dizer que a gente escreve porque não quer morrer. Ser amado pelo outro não está na nossa mão; podemos escrever para que isso aconteça, e depois acontecerá ou não. Já que temos que morrer, que alguma coisa fique. Não é imortalidade – isso seria um disparate; é um reconhecimento por algum tempo mais.


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Gosta do filme?
Gosto muito. Tinha gostado da primeira vez que o vi, mas de uma forma mitigada. Porque as condições de projecção do cinema S. Jorge eram más. Não vi o filme em Cannes; não estava em condições de fazer uma viagem dessas e andar por lá. Na antestreia, vi uma nova versão, com uma nova montagem. O Fernando [Meirelles] e eu tínhamos conversado, tinha-lhe dado a minha opinião. Na montagem que fez restituiu ao filme algo que lhe tinha retirado – violência. O filme é acusado de ser violento. A minha resposta é que não é mais violento do que as séries que nos entram diariamente em casa para consumo das famílias.

O livro é mais violento do que o filme.
Muito mais violento. A Julianne Moore é um portento, como todos os outros. Fiquei surpreendido pela escolha do Gael para chefe da camarata dos malvados; está um pouco histérico, mas faz um bom papel. A montagem é perfeita. A imagem é eloquente. Uma coerência dramática perfeitamente conseguida.

Tem uma cena preferida?
Há uma cena que me impressiona muitíssimo: quando as mulheres vão para a camarata dos outros cegos. Passam em fila indiana, uma atrás das outras, cabisbaixas, em direcção ao martírio. Pareceu-me que, no fundo, a história da mulher, no mundo, na História, estava ali.

Lembra-se quando começou a sua relação com o cinema?
Devia ter seis anos. Morávamos na Mouraria. Perto havia o Salão Lisboa, a que chamávamos O Piolho. Foi aí que comecei a ir ao cinema, com um rapaz mais velho do que eu que vivia na mesma casa, o Félix. (Era no tempo em que se alugavam partes de casa). Vi as coisas mais disparatadas, filmes de terror, um filme em que aparecia um leproso com um capuz… O outro cinema onde ia, mais tarde, era o Animatógrafo. Giríssimo, pequeno, com uma espécie de grade que separava uma plateia da outra. Foi aí que vi uma parelha de cómicos suecos, que eram conhecidos à francesa por Pat & Patachon. Garanto-lhe que se tenho conhecimento que aparecem aí os filmes do Pat & Patachon, vou a correr!"


Publicado originalmente no Público em 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

José Saramago (a pretexto de "As Pequenas Memórias") por Anabela Mota Ribeiro

Nos próximos tempos, deixarei aqui, uma compilação de textos e entrevistas, de Anabela Mota Ribeiro, a José Saramago, ou, referente ao autor.
Confesso, ao desconhecer estes trabalhos, e agora que por obra do acaso, me foram sugestionados para minha análise, não poderia deixar de aqui fazer menção.

Sua referência biográfica, aqui link, via http://anabelamotaribeiro.pt/14713.html
"Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.
Licenciou-se em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Neste momento prepara a tese de mestrado em Filosofia (variante Estética). 
É jornalista freelance. Colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles DNa (suplemento do Diário de Notícias), Selecções do Reader’s Digest, Elle, Máxima. Actualmente escreve para o Público e o Jornal de Negócios.
Foi autora e apresentadora de programas de televisão da RTP. Trabalhou em rádio e foi correspondente da Antena 1 em Londres entre 2007 e 2008.
Organiza e modera um debate mensal sobre livros na Bertrand do Chiado.
Conduziu o colóquio “Nós, a Cultura e eu” na Fundação de Serralves em 2003. Comissariou o ciclo de conferências "O que é a América hoje?", co-organizado pela FLAD e Casa da Música, em 2011, e o ciclo de cinema “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organização da Cinemateca com a Embaixada dos EUA, FLAD e Gulbenkian, em 2013.
O género a que mais se tem dedicado é a entrevista. Publicou um livro com 14 entrevistas, “O Sonho de um Curioso” (2003).
Desde Maio de 2013 disponibiliza o seu arquivo no blog http://anabelamotaribeiro.pt."

(À esquerda, Anabela Mota Ribeiro; ao centro, Richard Zimler; 
à direita, João Paulo Esteves da Silva)


Link, do seu site, em http://anabelamotaribeiro.pt/

Aqui, o link, da entrevista original, http://anabelamotaribeiro.pt/4805.html

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008

"José Saramago (a pretexto de "As Pequenas Memórias")"
"José Saramago tem 84 anos e volta “ao fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. Volta à Azinhaga, aos pais, “migrantes empurrados pela necessidade”, aos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa, ao primo José Dinis, à Domitília, aos tios, às baratas que passeavam pelo sono, às camas entre a palha dos animais, à violência doméstica, aos rapazes que lhe enfiaram um arame na uretra. Recupera o mais primitivo dos refrescos, de água, vinagre e açúcar, (que já tinha recuperado no “Evangelho” para matar a sede a Cristo), traz um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?».
José Saramago fala do começo do mundo, do primeiro dos seus mundos. Eduardo Lourenço resolve numa frase a imensa improbabilidade de o mesmo rapaz, que se descreve nestas memórias, ser o Nobel da Literatura português: «A tua vida é um milagre».
Quando a distinção da academia sueca lhe foi atribuída, José, Zé, Zezito, falou do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. É por ele, citado no livro, que começo a entrevista. Nela se fala de morte, de uma fúria de viver, da influência de que inequivocamente goza, do sentimento de ser amado como homem e autor, e de esse constituir o maior dos tesouros.
(Aviso aos amantes da polémica: a comida requentada é quase sempre estéril, desagradável, empobrecedora. Por isso não são trazidas questões antigas, secas, respondidas. Como Cuba e Fidel. A acusação de que perseguia não-comunistas quando era director do Diário de Lisboa. Sousa Lara e o veto do “Evangelho segundo Jesus Cristo. A razão porque foi viver para Lanzarote. Se quiserem abandonar aqui a leitura, lamento. O que se segue é muito mais fértil do que qualquer uma dessas linhas). Eis um homem a quem a vida deu muito e que se deu a ela completamente. 

Começo por uma longa frase, que parece uma despedida: “Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”. Este livro deve ser entendido como uma antecâmara de qualquer coisa?
Não diria isso. O tempo que tenho para viver já não é muito. Se tivesse que desejar uma maneira de terminar o meu trabalho, podia até considerar esta excelente. O fim volta ao princípio, o ciclo fecha-se. Há uma vida, há um trabalho, depois há um regresso às origens. Dentro de um ano ou dois já saberemos se é a antecâmara do silêncio ou se é simplesmente um livro de passagem para outro livro.

A ideia da morte perpassa estas “Pequenas Memórias”. Há uma parte em que diz que quando pensou em escrevê-las, achou que tinha de descrever a morte do seu irmão...
Não é isso, não comecem a complicar as coisas. Senão, depois, acabam por mas complicar a mim e tenho de começar a pensar que os meus motivos não tinham nada que ver e que são os vossos que justificam o livro. Está claríssimo que, se ia escrever esse livro, em que recordo a minha infância, não podia ignorar a morte do meu irmão, embora não tenha praticamente memória nenhuma dele. Falo de uma falsa memória, quando imagino que estamos numa cave, há uma janela, e há uma cómoda com uma gaveta aberta e outra aberta, como se eu quisesse subir pelas gavetas até chegar lá acima.

Quando o seu irmão morreu, tinha três anos e meio.
Fui testemunha directa do que aconteceu, mas testemunha não-consciente do que aconteceu. Do que falo aí é do que sei pelo que o meu pai contava, a minha mãe contava. Algumas suposições minhas, quanto ao modo de ser da minha mãe – um pouco seco –
, pode ter sido motivado pela morte do primeiro filho, e depois não querer demonstrar grandes sentimentos em relação ao segundo, não fosse dar-se o caso de eu também... Tudo isto é ao mesmo tempo muito simples e muito complicado, como todas as coisas. Mas gostava de saber: antecâmara de quê, na sua opinião?

Acho legítimo que uma pessoa da sua idade se pergunte quanto tempo mais vai viver, em que condições, e sinta um desejo de acertar coisas, dizer coisas.
Não tinha contas a ajustar com nada. Esse livro, de existência na minha cabeça, tem 20 anos, pelo menos. Foi um livro que comecei, depois interrompi, depois voltei a ele, depois interrompi. Porque sempre aparecia, felizmente para mim, uma ideia para um novo romance, e deixava as memórias. Até que este ano, não tinha outra ideia, e decidi acabar isto. Que eu tenho 84 anos e não posso viver mais 84, está claro. Não penso na morte. Ou melhor, todos pensamos na morte. A morte para mim não é tanto isso de morrer; é mais simples, e ao mesmo tempo mais duro. A pessoa estava e já não está – isso é que é o pior de tudo.

Significa já não poder experimentar o que quer que seja...
Não, não é isso. Daqui a duas ou três semanas, quando voltar a casa, posso chegar à varanda, olhar para o jardim e pensar: “Agora estou aqui, vejo os meus cães, a minha mulher e depois já cá não estou”. Mas é assim para todos, animais, vegetais. Tudo o que nasce morre.

É um livro muito sensorial. A descrição da infância está cheia de temperaturas, bichos, cheiros. Mas para um homem de palavras, volto à questão inicial: «Que palavra dirá então?». Há a muito célebre frase de Goethe, no leito da morte, fruto da invenção ou não, mas que chegou até nós: “Mais luz, mais luz”.
As últimas frases são uma coisa horrorosa. Não devia ser permitido falar nesse momento. Não quer dizer que não haja frases espontâneas... Mas temo muito que algumas delas sejam pensadas, com tempo.

A posar para a posteridade.
A posar para posteridade.

“Deixa-te levar pela criança que foste” serve de epígrafe ao livro. Sendo um bom ponto de partida para o ler, não sei se seria um bom ponto de partida para ler a sua vida. Que palavra, que aforismo, que epitáfio seria o certo para o evocar?
Está a pedir-me demasiadas coisas para as quais não vinha nada preparado, nem me vou preparar agora, evidentemente.

Mas podemos ir falando...
Você falou de epitáfio, e há um interessante: “Aqui jaz Fulano de Tal, indignado”. Indignado, porque é uma partida que nos fazem, estávamos cá tão bem, supondo que estávamos bem, e de repente levam-nos a outro lado, onde não há nada. Não me vai perguntar se acredito no Além?

Não, imagino que não acredite.
Faz muito bem em imaginar.

Mas há uma figura do Além que aparece no livro, uma “costureira ímpia condenada a coser roupa à máquina por toda a eternidade dentro das paredes das casas”.
Nessa época era tão natural, estava-se numa casa e uma pessoa vinha dizer: “Olha, lá está a costureira”... Ouvi-a em Lisboa e na aldeia. Punha-se o ouvido e era aquele ruído característico de quando se quer travar a máquina e se leva a mão à roda. Nunca ninguém achou que precisava de ser explicado. Que não era uma ilusão dos sentidos, alguém que disse e outro acreditou, não era. Curiosamente, a professora Maria Alzira Seixo, no artigo que escreveu no JL sobre este livro, diz que também ouviu a costureira.

Quando estava a ler o episódio da costureira, perguntei-me como é que as parábolas (de que se fazem os seus livros) surgem na sua vida. Como é que um racionalista, um marxista, encaixa esta dimensão mística? Até que ponto essa infância de necessidade, em que aconteciam coisas inexplicáveis, não lhe deixou uma marca de fantasmagoria que vai reaparecendo em toda a sua vida?
É difícil confirmar ou dizer que não. Claro que tudo o que nos acontece nos constrói ou nos destrói, e se as coisas andam cá dentro, não são muitas vezes conscientes. Quando chega a hora, podem manifestar-se de maneiras que não são directas. Para seguir o percurso seria necessário um trabalho muito atento de auto-reflexão ou de entrega às mãos de um psicanalista – coisa que não fiz nem farei nunca. Mas não creio. Repare, uma vida de necessidade é uma vida de necessidade: o que está por cima de tudo é a necessidade.

A marca da aldeia é poderosa.
As impressões mais fortes, aquelas que terão contribuído para fazer de mim a pessoa que sou, são da aldeia, e não da cidade. Mas não posso identificar que sou assim por causa daquilo que aconteceu, ou sou assado porque não aconteceu – como é o caso do cavalo do meu tio que nunca montei. Quando digo que fiquei com um trauma desde então, não é um trauma, mas a prova de que alguma coisa significa é que não me esqueci. E quando me lembro, faz-me raiva, porque eu também merecia andar montado naquela sela. Mas nada disto é muito importante.

Mas afinal, o que é que importa mesmo na vida de uma pessoa?
Ao contrário de muitas outras pessoas, sempre tive consciência da importância que a infância tinha tido para mim. Não me esqueci – está aí demonstrado –, nem quis esquecê-la. E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.

O que parece, a partir do livro, é que não foi especialmente amado, ou nunca se sentiu especialmente amado.
Posso ter dado essa ideia, mas não é assim. Em primeiro lugar, há que pôr as coisas num contexto. Especialmente amado..., realmente, talvez não. E por que é que tinha que ser especialmente amado? Tratava-se de uma classe que não era alheia aos sentimentos, mas que se tinha habituado a não expressar os sentimentos. Não caía bem, sobretudo tratando-se de homens.

Seria piegas?
Sim. Essa coisa que se consubstanciou na frase célebre “os homens não choram”. E portanto havia uma certa..., não era dureza, as pessoas não se davam mal, mas não andavam no dia-a-dia a derramar-se em sentimentos e em sentimentalismos. A vida fazia-se de palavras simples. A ninguém lhe ocorria dizer “gosto de ti”, “o teu sorriso é como um colar de pérolas”, tipo “Cântico dos Cânticos”. Era uma maneira de viver austera. Fui amado como qualquer outro dos componentes da família. Se estava doente, a minha mãe preocupava-se, o meu pai preocupava-se.

Lembrei-me daquela imagem que se tornou muito célebre, do reencontro com a sua mulher, depois de se saber que tinha ganho o Nobel. Foi um abraço altamente emotivo. Quando li a austeridade da sua infância, pensei nos passos que teve que dar para conseguir exprimir afecto daquela maneira. 
Sim, passos no sentido de adquirir o material expressivo para comunicar os sentimentos. Para isso, precisava de tempo, precisava de viver. Mas sempre fui uma criança muito sensível. E como a vida não me endureceu, não me tornou mais egoísta do que aquilo que cada um de nós naturalmente é... Tenho uma péssima fama, fama de sisudo, de carrancudo, de cara fechada. E depois passa-se a qualificativos de outro género: “Arrogante”, “orgulhoso”, “vaidoso”. Não me reconheço em nada disso, mas cada um olha para mim como quer. Claro que não me desmancho em sorrisos para toda a gente, não sou assim. Uma gargalhada para mim, é muito complicada. Pode sair alguma, no dia em que o rei faz anos...

O que é que lhe dá prazer? O que é que o faz sorrir? O que é que o faz ter vontade de expressar afecto?
Em primeiro lugar, senti-lo. E se o sentes, e não tens pudores do tipo “o homem não chora”, isso acontece naturalmente. Tenho chorado, como qualquer pessoa.

Chorou a escrever o livro?
Não, neste livro não.Já me aconteceu chorar ao terminar um livro. A descarga da tensão, o sentir que está feito, mais do que uma vez, já me provocou lágrimas.

Em circunstâncias normais, o que é que o comove?
Se for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não estou a falar do abraço erótico. O abraço, os braços que rodeiam o corpo do outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos, não é o meu caso.

O que é que perdeu? Não se fala taxativamente de inocência neste livro.
É um assunto a que sempre estamos a voltar: a inocência. A criança não sabe se é inocente ou não. É o adulto que fabrica esse estado imaginário da inocência. Eu podia dizer assim: a perda da inocência está na última página [do livro]. Na última página está a história de um homem e de uma mulher que vi; a mulher disse: “ai, ele conhece-me e vai avisar o meu marido”.

Essa história, e o livro, termina com: “Nunca mais tornei a ver o lagarto verde”.
Como se o lagarto verde fosse o símbolo da inocência. Gosto muito de lagartos [na verdade, JS diz: “mi gusta mucho os lagartos”], acho que é um animal bonito. Tenho-os no meu jardim.

Na sua infância, tinha um pesadelo recorrente com um quarto em forma de triângulo...
Era realmente angustiante. No canto havia uma coisa que ia crescendo, ocupando o espaço, aproximando-se de mim... Havia também uma música, que nunca consegui fixar. Aquilo nunca me asfixiou, nunca me fez nenhum mal, a não ser o medo. Quando o medo chegava ao paroxismo, fazia-me acordar.

Ao longo do livro, outros sentimentos são recorrentes: a humilhação e a vergonha. Kafka dizia que a vergonha é o mais estigmatizante dos sentimentos.
Eu li o Kafka.

Com certeza. Gostava era que me dissesse se concorda com o Kafka e se o sentimento da vergonha é nuclear em si.
Não sei se o será. Tem-se vergonha por alguma que se fez e não se devia ter feito. Ou por ter sido posto em causa, ridicularizado, por exemplo. Como os adultos nunca entenderam nada sobre as crianças, é possível que não imaginem quantas vezes terão humilhado os próprios filhos, sem se darem conta que estavam a humilhá-los. Não creio que em mim um factor influente, até mesmo determinante, tenha sido a vergonha. A humilhação, sim. Mas não era grave, eram situações correntes às quais estava a reagir a sensibilidade de uma criança, que não devia ter passado por aquela situação, mas que está a vivê-la. E isso deixa um rasto.

No lado oposto disto, há um momento de glória, quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”. Na página seguinte conta: “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele”.
Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?

O que quer dizer, para si?
Satisfação. Sentimento de que o trabalho foi reconhecido. Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Recordo nitidamente esse episódio da aula. Tinha sete anos. Claro que saí satisfeito quando ia em direcção ao meu lugar, mas um pouco aturdido. A professora: estúpida. Se queria distinguir-me pelo meu feito, havia outras maneiras. Agora, brutalmente, mandando sair de lá aquele que tinha ganho o seu lugar, não se faz. Não creio que tenha pensado nisto. O Nobel é outra coisa.

O Nobel é uma coisa que muda a vida?
Não mudou muito. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Claro que nos anos 60 não viajava aos Estados Unidos, ou à Austrália, ou à Islândia, mas participava na vida política, e isso levava-me a ter encontros e a falar às pessoas.

No fundo, só intensificou aquilo que já existia na sua vida?
Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer.

E intimamente, mudou alguma coisa? A confiança que tem em si, na sua escrita, no seu talento?
Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha.

Por que é que isso é tão gratificante? Não sabe mais daquelas pessoas, não sabe por que é que elas gostam de si, com que intuito se lhe dirigem...
É uma relação de conveniência, digamos assim. A mim convém-me que comprem os livros porque é disso que vivo, e às pessoas convém porque os apreciam. Não sei porquê, estabeleceu-se uma outra relação: tenho a sorte de ser estimado com escritor e como pessoa.

Como é que sente isso?
Podia dar como prova o tom com que me falam, como me fazem parar na rua. “O Homem Duplicado” foi apresentado no Teatro Colón, em Buenos Aires, e estava cheio. Tem quase quatro mil lugares e a fila das pessoas cá fora calcularam em cerca de mil. E como eu digo, não bailo nem canto, só falo. Sei que as pessoas gostam de mim. Nisso acredito. Gostam do que escrevo, mas mais importante é que gostam da pessoa que eu sou. Se há algum motivo de glória que tenho, nem é o dia na escola primária nem sequer é o Nobel: é o saber-me amado por muitíssimos milhares de pessoas no mundo. Pode isto parecer uma presunção, que estou aqui a inventar uma história bonita para os leitores do seu jornal, mas não. A história bonita é, mas não é inventada.

Estava a pensar no “Balas sobre a Broadway”, do Woody Allen, no momento em que um autor de sucesso pergunta à namorada: “Mas tu amas o homem ou amas o autor?”. Para si as duas...
... estão fundidas.

Muitos autores há em que tal não acontece. Lê Céline da mesma maneira, “esquecendo” que foi colaboracionista? Ou vê os filmes de Elia Kazan, que denunciou comunistas em Hollywood? Ou ouve Karajan, que era nazi?
Há coisas que não são completamente suportáveis, por muito extraordinária que seja a obra ou a acção da pessoa. Há essa mazela, que nem é sentida da mesma maneira em diversos momentos. “Aquele filho da mãe, que bem escreve, e imagina aquilo que fez, aquilo que era...”. Normalmente, esses autores não os leio. Mas tenho de confessar que ouvi muita música dirigida pelo Karajan; mas a música não é dele, é do Bach, do Beethoven.

Céline não é um autor que leia?
Nunca gostei dele, nem sequer por essas razões. Tem pontos de exclamação e reticências a mais. O Elia Kazan é um canalha. Um canalha pode produzir uma obra-prima.

«Esplendor na Relva» é um filme que consegue ver sem pensar que Kazan é um canalha?
Não sei como é que o veria hoje. Às vezes, a beleza das imagens pode fazer-nos pensar, em lugar de “aquele tipo era um canalha”, “que pena que aquele tipo tivesse tido aquela fraqueza”.

Conseguirá ler o Günter Grass sem se lembrar do episódio agora revelado?
Se vivemos com as nossas próprias vergonhas, por que é que não vamos viver com as vergonhas alheias? Tenho que pensar que o Grass entrou para as SS de cada vez que leio um livro dele? Que ao longo do livro possa recordar isso, uma vez ou outra... Não me pode levar a dizer: “Não te leio”. Aliás, o homem já disse o que foi. Demorou muito tempo, mas disse, acabou-se. E agora é deixá-lo viver e trabalhar.

Ainda não tinha aparecido nesta entrevista esse seu lado, polemista e político. Convictamente, assertivamente expressa-se sobre temas como o conflito israelo-paslestiano, Cuba...
E tudo aquilo que se passa em democracia...

[entra Pilar, a mulher, que lhe estende um papel para assinar “sobre o aborto”]

Foi um anjo que apareceu na sua vida.
Foi, mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte.

Mas estávamos a falar da sua dimensão política.
As coisas estão aí. Em primeiro lugar como pessoa e depois como escritor, não sou pessoa para contentar-se em cultivar o seu jardim. Considero isso muito respeitável, não estou a criticar ninguém pelo facto de dizer: “Não, a minha prioridade absoluta é a minha obra”.

A sua, não é?
Não. Pode ser uma prioridade, mas não é a prioridade absoluta. Se amanhã deixar de escrever, coisa que sempre pode acontecer e acontece muitas vezes, porque a pessoa reconhece que já não tem nada para dizer que valha a pena, a obra deixou de ser a prioridade. Não está preocupado que tem que escrever obras-primas até ao último instante da sua vida, ainda por cima obras-primas, sempre... A minha obra é prioritária sobre umas quantas coisas.

Nomeadamente? Que lugar, afinal, ocupa a sua obra na sua vida?
Quero ter tempo para escrevê-la, reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam. Ninguém me cala.

Ter conquistado esse direito é expressão de ser um homem poderoso, um homem influente.
Poderoso não.

O poder assume várias faces.
[Sou um homem] com alguma influência.

Que noção é que tem da sua influência, da importância daquilo que diz?
Agora, nestes felizes tempos da Internet, qualquer coisa que diga dá a volta ao mundo em três segundos, e o alerta do Google, que eu não tenho, mas que tem a minha mulher, sai-me sempre com uma enfiada de repercussões, aqui e ali, de declarações minhas. No outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.

Acha que o que está na génese dos conflitos é mais a religião e menos a economia?
Eu não disse isso.

É outra questão, bem sei.
Aqui há uns anos escrevi um artigo que deu um certo barulho, chamava-se “O factor Deus”. Tinha que ver com os conflitos religiosos. Dizia mais ou menos isto: Deus não tem nada que ver com isto, provavelmente nem sequer existe, o que existe é o factor Deus e esse tem vindo a ser usado desde sempre como uma arma. O teólogo Hans Kung que agora está zangado com o papa, dizia: “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros”, pelo contrário. No “Ensaio sobre a Cegueira”, lembra-se do momento em que a mulher do médico entra na igreja e os santos estão todos com os olhos tapados? Porquê aquilo? E a minha resposta é muito simples: Deus não merece ver o sofrimento humano.

Ou Deus devia ser obrigado a ver o sofrimento humano?
A Deus ninguém pode obrigá-lo.

Mas quando diz que não merece, é como se fosse um prémio. E o sofrimento não é uma coisa digna de ser vista.
Não. Mas exactamente, nem sequer isso merece.

O que quer dizer é que, a existir, Deus é iníquo por consentir...
Claro.

Se olho para este livro, se olho para este rapaz que foi, dou-me conta do quão improvável é o seu destino. Dinis Machado escreve em «O Que Diz Molero», “as flores nascem do estrume”. Como se as mais radiosas fossem as que vêm da pobreza. Consegue perceber o que é que fez da sua vida uma vida diferente?
Não sei, não consigo, não é fácil. Há um factor que levo em conta, o factor sorte. Não é o que seja o que sou hoje por uma questão de sorte. Mas também contam muito os momentos em que as coisas sucedem. Às vezes se sucedessem um pouco antes ou um pouco depois, já o efeito não seria o mesmo. Também não é fácil destrinçar numa vida que momentos são esses. Não há dúvida nenhuma de que não estava no caminho de chegar onde estou, a esta cadeira, na Editorial Caminho, em Lisboa, conversando consigo.

O que é que aconteceu pelo caminho?
Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Em 47 escrevi um romance, escrevi outro logo a seguir que ficou inédito, que se chama “Clarabóia”, e que ficará inédito enquanto eu viva.

Não gosta dele, é por isso?
Podia chamar-se oportunismo comercial, publicar agora esse livro escrito há 50 anos ou 60 anos. Aceitei que a “Terra do Pecado” fosse publicado porque a Pilar e o Zeferino [Coelho, editor] empenharam-se muito nisso. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966.

Era um homem maduro, tinha 44 anos nessa altura.
O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro – ele já estava ganho.

Não imagina as vezes que folheei esse livro quando era pequena.
Ah, sim? Que bom.

Nem eu ia imaginar, que um dia estaríamos aqui.
O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: “A tua vida é um milagre”. E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.

O que é que mais do que tudo justifica a sua vida? Como é que quer ser recordado?
Se calhar vou pedir o impossível: eu considero-me boa pessoa. Então, que nem a pessoa que sou apague o escritor que também sou, e que nem o escritor que sou apague a pessoa que sou. Se calhar é muita sorte alguma destas ficar. Que fiquem as duas, é capaz de ser impossível."

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008