Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 28 de janeiro de 2017

Poema "Eu luminoso não sou" publicado em "Provavelmente Alegria (1970)

"Eu luminoso não sou"

"Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem."

in, “Provavelmente Alegria” (1970)
Editorial Caminho, 1985 (3.ª Edição, Pagina 72)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Os Poemas Possíveis" a lista de poemas inseridos na compilação

Sinopse de apresentação da obra pode ser consultada na página da Fundação José Saramago aqui em http://www.josesaramago.org/os-poemas-possiveis-1966/

"A caligrafia da capa é da autoria do escritor Almeida Faria

«Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes.»

Na primeira obra poética de José Saramago descobre-se uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras. Pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. E no entanto, as convicções profundas de Saramago já são bem visíveis em poemas como «Criação»: «Deus não existe ainda, nem sei quando / Sequer o esboço, a cor se afirmará / No desenho confuso da passagem / De gerações inúmeras nesta esfera. / Nenhum gesto se perde, nenhum traço, / Que o sentido da vida é este só: / Fazer da Terra um Deus que nos mereça, / E dar ao Universo o Deus que espera.»

Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998"

ATÉ AO SABUGO
Até ao sabugo
Arte poética
Processo
Programa
«Se não tenho outra voz...»
Balança
«Recorto a minha sombra...»
Acidente de viação
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita
Signo do Escorpião
No coração, talvez
Dia não
Destino
Ritual
Epitáfio para Luís de Camões
Jogo das forças
Vertigem
Lugar-comum do quadragenário
Outro lugar-comum
Passado, presente, futuro 
Passeio
Psicanálise
Mais psicanálise
«Não diremos mortais palavras...»
Poema seco
Do como e do quando
Fábula do grifo
Meias-solas
Um zumbido, apenas
Ciclo
Circo
Obstinação
«Há-de haver...»
Sala de baile
Oceanografia
Hibernação
«As palavras são novas...»
Questão de palavras
Pequeno cosmos
«De mim à estrela...» 
Retrato do poeta quando jovem
O tanque
Science-fiction I
Science-fiction II
Carta de José a José
Aniversário
Testamento romântico
Premonição

POEMA A BOCA FECHADA
Poema a boca fechada
Os inquiridores
Mãos limpas
Salmo 136
Ouvindo Beethoven
Demissão
Fraternidade
Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

MITOLOGIA
Mitologia
Natal
Aprendamos o rito
Criação
Quando os homens morrerem
Aos deuses sem fiéis
«Não das águas do mar...»
A um Cristo velho
Judas
Sé Velha de Coimbra
Nave
«Barro direis que sou...»
Invenção de Marte
«Não há mais horizonte...»

O AMOR DOS OUTROS
Orgulho de D. João no inferno
Lamento de D. João no inferno
Sarcasmo de D. João no inferno
Até ao fim do mundo
Dulcineia
D. Quixote
Sancho
Julieta a Romeu
Romeu a Julieta
West Side Story

NESTA ESQUINA DO TEMPO
Contracanto
Fuzil e pederneira
Enigma
Negócio
Virgindade
Regra
Outono
Adivinha
Receita
«Não me peçam razões...»
«Nesta secreta guerra...»
Craveira
«A ti regresso, mar...»
«Água que à água torna...»
Medusas
História antiga
«Não escrevas poemas de amor»
«Nesta esquina do tempo...»
«De violetas se cobre...»
Labirinto
Espaço curvo e finito
Pesadelo
Afrodite
Estudo de nu
De paz e de guerra
Em violino fado
No silêncio dos olhos
Compensação
Declaração
«Uma só prece...»
Química
Física
Intimidade
Inventário
Praia
Arte de amar
Aspa
Corpo-mundo
Balada
Jogo do lenço
Lembrança de João Roiz de Castel’Branco
Prestidigitação
Analogia
Soneto atrasado
Exercício militar
Opção
Baralho
Exílio
Cantiga de sapo
Outra vez frutos, rosas outra vez
Re-iniciação
Fim e recomeço
Metáfora
Amanhecer
Aproximação
Poente
Integral
Eloquência
«Aprendamos, amor...»
Diz tu por mim, silêncio
«Num repente, não ando...»
Corpo
Caminho
«Ergo uma rosa...»
«Pois o tempo não pára...»
Ainda que seja
Canção

"Nota da 2.ª edição
Aparece esta edição de Os Poemas Possíveis dezasseis anos depois da primeira. Não é assim tanto, comparando com os dezasseis séculos que sinto ter juntado à minha idade de então. Pode-se perguntar se estes versos (palavra hoje pouco usada, mas competente para o caso) merecem segunda oportunidade, ou se a não ficaram devendo a porventura mais cabais demonstrações do autor no território da ficção. Se, enfim, estaremos observando um simples e nada raro fenómeno de aproveitamento editorial, mera estratégia daquilo a que cos tuma chamar-se política de autores, ou se, pelo contrário, foi a constante poética do trabalho deste que legitimou a res suscitação do livro, porque nele teriam começado a definir-se nexos, temas e obsessões que viriam a ser a coluna vertebral, estruturalmente invariável, de um corpo literário em mudança. Aceitemos a última hipótese, única que poderá tornar plausível, primeiro, e justificar, depois, este regresso poético.
Poesia datada? Sem dúvida. Toda a criação cultural há-de ter logo a sua data, a que lhe é imposta pelo tempo que a produz. Mas outras datas leva sempre também, anteriores, as dos materiais herdados — quantas vezes importunamente dominantes —, e, de longe em longe, aquela impalpável data ainda pode vir, aquele sentir, aquele ver e experimentar só futuro ainda. Porém, essas entrevisões são coisa apenas para génios, e, obviamente, não é deles que se trata aqui.
Poesia do dia passado, da hora tarda, poesia não futurante. E contra isto não haveria remédio. Salvo tentar trazê-la até ao seu autor, hoje, por cima de dezasseis anos e dezasseis séculos. Assim foi feito, e esta edição aparece não só revista, mas emendada também. Quase tudo nela é dito de maneira diferente, diferente é muito do que por outra maneira se diz, e não faltaram ocasiões para contrariar radicalmente o que antes fora escrito. Mas nenhum poema foi retirado, nenhum acrescentado.
É então outro!"     


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

"Circo" poema de José Saramago cantado por Fernando Tordo (Os Poemas Possíveis)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"Fernando Tordo na Sociedad General de Autores y Editores aquando da edição do disco "Tributo aos Laureados Nobel - Tordo Canta". José Saramago assiste emocionado na plateia. Canção "Circo", poema de José Saramago, arranjos e direcção musical de Josep Mas (Kitflus). Canta Fernando Tordo"

"Circo"
"Poeta não é gente, é bicho coiso 
Que da jaula ou gaiola vadiou 
E anda pelo mundo às cambalhotas, 
Recordadas do circo que inventou. 

Estende no chão a capa que o destapa, 
Faz do peito tambor, e rufa, salta, 
É urso bailarino, mono sábio, 
Ave torta de bico e pernalta 

Ao fim toca a charanga do poema, 
Caixa, fagote, notas arranhadas, 
E porque bicho é, bicho lá fica, 
A cantar às estrelas apagadas."

JOSÉ SARAMAGO 
In, "Os Poemas Possíveis", 1.ª edição de 1966 
1.ª edição da Porto Editora de 2014


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Cantiga de Sapo" poema de José Saramago cantado por Luis Pastor

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

"Cantiga de Sapo"
Ya mastiqué soledad - Já mastiguei solidão
Tenía sabor de cobre - E tinha gosto de cobre
Y un regusto en la lengua - Ficou-me o travo na língua
Más amargo que el óxido - Mais amargo que o azebre

Ya canté con voz de sapo - Já cantei com voz de sapo
Las rosas del cielo más cercano - As rosas de céu mas perto
Con hilo cosieron mi boca - Coseram-me a fio a boca
En una vara torcida me clavaron - Espetaram-me em vara torta 

Volé con plumas de ceniza - Voei com penas de cinza
Sobre las aguas abiertas - Por sobre as águas abertas 
Sueño de ala poco firme - Sonho de asa mal firmada 
Con apariencia de viento - Numa aparência de vento

Volví al sapo que era - Voltei ao sapo que era
A mi boca callada - À minha boca calada
A la triaca a la mordedura - À triaga à mordedura
A la vara que me clavaba - À vara que me espetava 

Debajo de mí la tierra - Debaixo de mim a terra 
Por encima de mí el cielo - Por cima de mim o céu 
La noche va pasando - A noite que vai passando

El silencio la soledad - O silêncio a solidão
La mañana aún tan lejos - A manhã que vem tão longe
Las rosas que se marchitan - As rosas que vão murchando

in "Os Poemas Possíveis"








sábado, 3 de setembro de 2016

"Julieta a Romeu" e "Romeu a Julieta" Poemas de José Saramago - "Os Poemas Possíveis"

"Julieta a Romeu"
"É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 104

"Romeu a Julieta"
"Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna."
in, "Os Poemas Possíveis" 
Edição Porto Editora, página 105

sábado, 4 de junho de 2016

"Protopoema" de José Saramago - "Provavelmente Alegria"

Declamado por Frank Serrano Rodriguez, pode ser assistido via YouTube, aqui 

"Protopoema"

"Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos 
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto. 
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os 
dedos. 
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, 
e tem a macieza quente do lodo vivo. 
É um rio. 
Corre-me nas mãos, agora molhadas. 
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de 
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para 
mim fluem. 
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o 
próprio corpo do rio. 
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os 
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que 
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa 
dos olhos. 
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas 
águas como os apelos imprecisos da memória. 
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga. 
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e 
firme pulsar do coração. 
Agora o céu está mais perto e mudou de cor. 
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo 
acorda o canto das aves. 
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu 
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o 
esplendor maior que acende a superfície das águas. 
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas 
da memória e o vulto subitamente anunciado do 
futuro. 
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar 
calada sobre a proa rigorosa do barco. 
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que 
as aves digam nos ramos por que são altos os 
choupos e rumorosas as suas folhas. 
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, 
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas 
verticais circundam. 
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra 
viva. 
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se 
juntarem às mãos. 
Depois saberei tudo." 

José Saramago
in,  "Provavelmente Alegria" 
Caminho, 3.ª edição, páginas 54 e 55 - 1985

domingo, 8 de maio de 2016

"Tenho um irmão siamês" poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" - Publicado em Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

Pode ser recuperado e visualizado, via YouTube, aqui

"Tenho um irmão siamês"
 poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" 
Publicado em "Provavelmente Alegria" - Caminho (1987) da 1.ª edição, Livros Horizonte (1970)

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

in Provavelmente Alegria, 
Caminho, 1987, 3.ª edição - 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

sexta-feira, 6 de maio de 2016

"Manhã" Poema de José Saramago - "Provavelmente Alegria"

"Manhã"

"Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós descida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.

Confiança das tuas mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos."

in, "Provavelmente Alegria"
Caminho, página 39

Poema "Inventário" de José Saramago ("Os Poemas Possíveis") musicado por João Afonso para o CD "Nesta Esquina do Tempo"

Via YouTube, aqui

"Inventário"
"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

In, "Os Poemas Possíveis"

domingo, 3 de abril de 2016

Manuel Freire "Retrato do poeta quando jovem" poema de José Saramago


"Retrato do poeta quando jovem"

"Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Leves ondas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história."

in, "Os Poemas Possíveis"
Publicado em 1966 pela Portugália Editora
Porto Editora, página 57 (2014)

segunda-feira, 21 de março de 2016

"Inventário" a poesia de José Saramago cantada por João Afonso - Integra a obra "Nesta esquina do Tempo" (Disco/Livro)

O poema pode ser ouvido, via YouTube, aqui

"Inventário" 

De que sedas se fizeram os teus dedos,       - De qué sedas están hechos tus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,   - de qué marfil tus muslos lisos,
De que alturas chegou ao teu andar - de qué alturas llegó a tu andar
A graça da camurça com que pisas.        - la gracia de gamuza con que pisas.

De que amoras maduras se espremeu    - De qué moras maduras se extrajo
O gosto acidulado do teu seio,         - el sabor acidulado de tu seno,
De que Índias o bambu da tua cinta,            - de qué Indias el bambú de tu cintura.
O oiro dos teus olhos, donde veio.         - el oro de tus ojos, de dónde vino.

A que balanço de onda vais buscar - A qué mecer de ola vas a buscar
A linha serpentina dos quadris,         - la línea serpentina de tus caderas,
Onde nasce a frescura dessa fonte              - de dónde nace la frescura de esa fuente
Que sai da tua boca quando ris.      - que sale de tu boca cuando ríes.

De que bosques marinhos se soltou - De qué bosques marinos se soltó
A folha de coral das tuas portas,  - la hoja de coral de tus puertas,
Que perfume te anuncia quando vens       - qué perfume te anuncia cuando vienes
Cercar-me de desejo a horas mortas.         - a rodearme de deseo las horas muertas.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" 
Reedição Porto Editora, página 143

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Texto de José Saramago "Intimidad" com música de Lucrecia Dalt e voz de Ainara Pardal (via RTVE

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Publicação original via página da RTVE, aqui em
http://www.rtve.es/m/alacarta/videos/palabra-voyeur/jose-saramago-intimidad/2865742/?media=tve

Sinopse
"Nuestro voyeur esta semana te quiere invitar a vivir y disfrutar de la poesía como nunca antes lo has hecho. Tarea que resulta sencilla cuando se escoge a uno de los más grandes autores de todos los tiempos, el escritor José Saramago. Viaja con nosotros a través de sus palabras y déjate llevar por el ritmo y la belleza que se esconde en cada verso de nuestra nueva entrega voyeur."

Título: "Intimidad"
Autor: José Saramago
Música: Lucrecia Dalt
Voz: Ainara Pardal

"Intimidad"

"En el corazón de la mina más secreta,
En el interior del fruto más distante,
En la vibración de la nota más discreta,
En la caracola espiral y resonante,
En la capa más densa de pintura,
En la vena que en el cuerpo más nos sonde,
En la palabra que diga más blandura,
En la raíz que más baje, más esconda,
En el silencio más hondo de esta pausa,
Donde la vida se hizo eternidad,
Busco tu mano y descifro la causa
De querer y no creer, final, intimidad."


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"Espuma das Palavras" de Rui Santos - Uma revisitação sobre alguns traços da obra de Saramago

(Capa da edição "Espuma das Palavras")

Género - Poesia

Capa e ilustrações de Diane Sbardelotto

Pode ser consultado e descarregado gratuitamente, aqui



Sobre o opúsculo
“Espuma das palavras traz a relevo o exercício da força imaginativa do escritor como produto da relação com os acontecimentos de sua própria vida, das leituras e da aproximação que mantém com os principais temas de seu tempo” (Pedro Fernandes)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Na ilha por vezes habitada" - José Saramago

Pode ser visualizado, via YouTube, aqui
(Voz de Soares Teixeira)

"Na ilha por vezes habitada" - José Saramago"

"Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste."

in, "Provavelmente Alegria"
Caminho, 3.ª edição, página 52



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Poema «Lugar-comum do quadragenário»

José Saramago recupera este poema, escrito por altura dos seus quarenta anos, isto a propósito da menção que faz a Javier e María, na sua nova casa.
Depois destas três décadas passadas, Saramago refere-se assim:

"Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: 
«Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...»"

Lugar-comum ao quadragenário
"Quinze mil dias secos são passados,
Quinze mil ocasiões que se perderam,
Quinze mil sóis inúteis que nasceram,
Hora a hora contados
Neste solene, mas grotesco gesto
De dar corda a relógios inventados
Para buscar, nos anos que esqueceram,
A paciência de ir vivendo o resto."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário I"
página 144, 17 de Outubro de 1993


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

«Lugar-comum do quadragenário» Poema de José Saramago escrito nos seus quarenta anos

(Quadro de João Amaral, realizado em aguarela - 2015)


17 de Outubro (1993)

"Javier e María «inauguraram» ontem a sua casa, festejando ao mesmo tempo o recente aniversário de Javier, 41 anos, uma mocidade. (Ao escrever este número lembrei-me, subitamente, de que por essa mesma idade escrevi um poema, «Lugar-comum do quadragenário», que não resisto a transcrever aqui. Era assim: 

Quinze mil dias secos são passados, 
Quinze mil ocasiões que se perderam, 
Quinze mil sóis inúteis que nasceram, 
Hora a hora contados 
Neste solene, mas grotesco gesto 
De dar corda a relógios inventados 
Para buscar, nos anos que esqueceram, 
A paciência de ir vivendo o resto. 

Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: «Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...».) Fechado o parênteses, volto ao assunto. María e Javier resolveram convidar amigos para a festa e a casa encheu-se de gente, a maior parte da qual eu não conhecia nem de vista. Mas não é esta a questão. A questão foi ter eu confirmado a tremenda dificuldade que tenho em conviver com pessoas que ainda não tive tempo de conhecer, e mais quando o ambiente ferve de música alta e de palavras que têm de ser gritadas. Senti--me a pessoa mais sem graça, mais sem espírito, que é possível imaginar, e não me restou outra saída que desaparecer discretamente e ir fazer companhia ao cão que, na nossa casa, sofria de abandono como creio que só podem sofrer os cães."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, páginas 144 e 145

domingo, 11 de outubro de 2015

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

"Jogo do lenço" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor

Pode ser visualizado e ouvido, via YouTube

Jogo do Lenço

"Trago no bolso do peito 
Um lenço de seda fina, 
Dobrado de certo jeito. 
Não sei quem tanto lhe ensina 
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas, 
Quando a voz já lá não chega 
Por distâncias desmedidas. 
Depois, no bolso aconchega 
As saudades permitidas.

Também o suor salgado, 
Às vezes, enxugo a medo, 
Que o lenço é mal empregado. 
E quando me feri um dedo, 
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim 
Se as graças todas dissesse 
Deste meu lenço e de mim, 
Mas uma coisa acontece 
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados 
Pedem auxílio do lenço, 
São pedidos escusados. 
E é bem por isso que penso 
Que os meus olhos, se molhados, 
Só se enxugam no teu lenço."

José Saramago, In Os Poemas Possíveis

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Dispostos em cruz" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor


Musicado por Luis Pastor, do álbum "Nesta Esquina do Tempo"

Poema de José Saramago, em "Provavelmente Alegria"
Caminho, 3.ª Edição, páginas 90 e 91

«Dispostos em cruz»

Dispostos em cruz desfeitos em cruz
em cada caminho três portas fechadas
um vento de faca um resto de luz
o espanto da morte nas águas cortadas

Um corpo estendido um ramo de frutos
um travo na boca da boca do outro
o branco dos olhos o negro dos lutos
o grito o relincho e o dente do potro

As feridas do vento as portas abertas
os cantos da boda no ventre macio
as notas do canto nas linhas incertas
e o lago do sangue ao largo do rio

O céu descoberto da nuvem da chuva
e o grande arco-íris na gota de esperma
o espelho e a espada o dedo e a luva
e a rosa florida na borda na berma

E a luz que se expande no pino do Verão
e o corpo encontrado no corpo disperso
e a força do punho na palma da mão
e o espanto da vida na forma do verso