Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

"Os outros cristos" a visão de Jesus Cristo na óptica de 4 escritores - de Marino Boeira publicado pelo "Pravda" (18/03/2017)

Recuperação do artigo publicado pelo site "Pravda.ru", de autoria do jornalista e historiador Marino Boeira (18/03/2017) e que pode ser aqui recuperado e consultado,
em http://port.pravda.ru/news/cplp/18-03-2017/42896-a_vida-0/

A vida de um provável agitador social, que teria vivido na Palestina dominada pelos romanos, Jesus Cristo, tem a sua versão oficial contada em quatro evangelhos, e é considerada a única verdadeira pela Igreja Católica.
Outras, narradas por alguns dos mais importantes escritores do mundo moderno, que talvez sejam apenas fantasias, são muito mais interessantes e criativas.
Vamos falar sobre quatro delas e seus autores (Norman Mailler, Nikos Kazantzakis, José Saramago e Gore Vidal), aproveitando a chegada de mais uma Semana da Páscoa, quando novamente vai se falar muito sobre Jesus Cristo

Norman Mailler (1923/ 2007)

É talvez o mais polêmico dos modernos escritores americanos. Crítico do socialismo, do capitalismo americano e do feminismo especialmente, é autor de alguns dos principais romances americanos do século, em obras que misturou fatos reais com sua fértil imaginação, principalmente nas pretensas biografias de Marylin Monroe (73), Lee Oswald (96) e Hitler ( Uma Casa na Floresta/ 2007). Mailler será sempre lembrado pelos seus livros Os Nus e os Mortos, Um Sonho Americano, Os Degraus do Pentágono e a sua visão profana de Cristo em O Evangelho Segundo o Filho, além das suas frases pro vocativas, como estas de um machismo assumido:
"Porque há muito pouco de honra  na vida americana, há uma certa tendência construída para destruir a masculinidade nos homens americanos'.
'A revolução feminista transformou a mulher num tipo de homem que me aborrecia muito quando eu era jovem: alguém que tinha que trabalhar das nove até as cinco, de uma maneira monótona e sem ser dono do seu destino. Foi assim que terminou essa revolução e esse assalto ao poder".
O Evangelho Segundo o Filho é considerada uma obra menor na carreira de Norman Mailler, mas nem por isso destituída de interesse. A ironia do autor está sempre presente ao descrever um Jesus Cristo humano e atrapalhado, como no famoso episódio da transformação de água em vinho, quando é repreendido pelo anjo por gastar milagres à toa: "Assim como um barril transbordante de mel pode ser esvaziado, o Filho tolo desperdiça seu estoque de milagres".


Nikos Kazantzakis (1883/1957) 
É considerado o mais importante escritor grego moderno e se tornou famoso no mundo inteiro quando seu livro Zorba, o Grego, foi levado para o cinema, em 1964, por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, no papel de Zorba e com uma trilha musical de Mikis Theodorakis, quase tão lembrada quanto o fi lme. A versão de Kazantzakis para a história bíblica se chama O Cristo Recrucificado e tem um sentido intencionalmente político.
Na pequena aldeia grega de Licovrissi,dominada pelos turcos, a reconstituição do julgamento e condenação de Cristo durante a Semana Santa, realizada a cada sete anos, é uma oportunidade para denunciar os turcos usurpadores como os novos romanos e os sacerdotes ortodoxos gregos como traidores da causa nacionalista. Quem faz essa denúncia é Manolios, um agricultor inculto, que incorpora a figura do Cristo. O livro também foi levado ao cinema num filme memorável de Jules Dassin, chamado Aquele que Deve Morrer, com Pierre Vanneck (Manolios/Cristo), Melina Mercouri (Katerine/Maria Madalena) e Jean Ser vais (Pope/ o Padre).
Kazantzakis tem ainda outro livro onde aborda de uma maneira totalmente contrária aos evangelhos, a história de Cristo. O livro se chama A Última Tentação de Cristo e também virou filme em 1988, direção de Martin Scorsese, com Willen Dafoe (Cristo), Harwey Keitel (Judas) e David Bowe (Pôncio Pilatos).
Na história de Kazantzakis, aconselhado por um anjo, Jesus desce da cruz e reencontra Maria Madalena. Um tempo depois, após a morte de Maria Madalena, se casa com Marta, passando a viver como um homem comum, até o dia que encontra Paulo que pregava sobre o Messias e seu sacrifício. Jesus desmente essas afirmações, mas Paulo diz que seguirá pregando de qualquer maneira. No final, Jesus vive suas últimas horas, momento em q ue os antigos apóstolos voltam e o recriminam por não ter consumado sua paixão. Quando Jesus tenta explicar que foi um anjo que lhe deu esse conselho, os apóstolos reconhecem o diabo no suposto anjo. Jesus se levanta do leito e volta ao Calvário para consumar seu sacrifício.
Para Kazantzakis, "um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo que seja para Deus, quando isso é necessário".

José Saramago (1922/2010)
O grande escritor português, José Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e será sempre lembrado por ter escrito, em seu estilo inconfundível, obras primas da literatura portuguesa como Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez, Todos os Nomes, o Homem Duplicado e a Caverna, mas foi com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que ele recebeu os maiores elogios dos seus admiradores e as críticas mais pesadas da tradicional igreja católica portuguesa,ao recriar um Cristo humano e preocupado com as questões sociais dos trabalhadores historicamente injustiçados.
Fiel às suas posições políticas de esquerda, Saramago viveu longe de Portugal, nas Ilhas Canárias, seus últimos anos de vida.
No seu Evangelho, Saramago não poupa críticas à religião estabelecida: "No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade", ao mesmo tempo em que faz uma releitura dos valores do mau ladrão da versão bíblica: "um homem muito reto, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza".   

Gore Vidal (1925/2012)
Gore Vidal foi um dos maiores escritores americanos. Filho da nobreza política da Costa Leste dos Estados Unidos, escandalizou o mundo literário americano com seu livro A Cidade e o Pilar, de 1948, quando abordou abertamente a questão da homossexualidade.
Sua obra, no final da vida, se concentrou na história da antiguidade greco-romana (Criação e Juliano) e na história americana (Burn. Washington DC, O Império e Lincoln) contadas em forma de grandes romances. 
Gore Vidal era um apaixonado pelo cinema, o que levou a ser o roteirista de alguns filmes, inclusive do célebre Ben Hur, de Willian Wyller, no qual ele disse ter inserido um subtexto gay nas relações de Ben Hur com o legionário Massala. O engraçado é que Charlton Heston (Bem Hur) que sempre defendeu posições conservadoras, sendo inclusive presidente da National Rifle Association, disse que nunca percebeu a intenção de Gore Vidal.
Numa obra menor, Ao Vivo, do Calvário, ele usou toda sua ironia para modernizar a história da crucificação do Cristo.
Num determinado momento, a tecnologia para viajar ao passado está sob o domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV dos Estados Unidos. 
Uma delas consegue os direitos de transmitir ao vivo a crucificação de Cristo. 
A novela relata o desenrolar desse programa levado ao ar diretamente para milhões de lares americanos. 
Sobre religião, disse uma vez Gore Vidal: "A idéia de uma boa sociedade é algo que não precisa ser sustentado com religião e punição eterna. Você só precisa de religião se tiver medo de morrer."

Mailler, Kazantzakis, Saramago e Gore Vidal, com suas visões sobre o Cristo podem ser assuntos interessantes para se discutir agora que se aproxima outra Semana Santa.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS"

sábado, 19 de setembro de 2015

Todos os nomes ou a ordem alfabética que Deus refere a Jesus em "O Evangelho segundo Jesus Cristo"


(...) "Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, 
Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, 
Afra de Ausburgo, morta na fogueira, 
Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, 
Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, 
Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, 
Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, 
Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, 
Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, 
Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, 
Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, 
António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, 
Apolinário de Ravena, morto a golpes de maça, 
Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, 
Augusta de Treviso, morta por decapitação e queimada, 
Aura de Óstia, morta por afogamento com uma mó ao pescoço, 
Áurea de Síria, morta por dessangramento, sentada numa cadeira forrada de cravos, 
Auta, morta à frechada, 


Babilas de Antioquia, morto por decapitação, 
Bárbara de Nicomedia, morta por decapitação, 
Barnabé de Chipre, morto por lapidação e queimado, 
Beatriz de Roma, morta por estrangulamento, 
Benigno de Dijon, morto à lançada, 
Blandina de Lião, morta a cornadas de um touro bravo, 
Brás de Sebaste, morto por cardas de ferro, 
Calisto, morto com uma mó ao pescoço, 
Cassiano de Ímola, morto pelos seus alunos com um estilete, 
Castulo, morto por enterramento em vida, 
Catarina de Alexandria, morta por decapitação, 
Cecília de Roma, morta por degolamento, 
Cipriano de Cartago, morto por decapitação, 
Ciro de Tarso, morto, ainda criança, por um juiz que lhe bateu com a cabeça nas escadas do tribunal, Claro de Nantes, morto por decapitação, 
Claro de Viena, morto por decapitação, 
Clemente, morto por afogamento com uma âncora ao pescoço, 
Crispim e Crispiniano de Soissons, mortos por decapitação, 
Cristina de Bolsano, morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes, flechas e serpentes, Cucufate de Barcelona, morto por esventramento, 

chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as de pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui, Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, 

Donato de Arezzo, decapitado, 
Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, 
Emérita, queimada, 
Emílio de Trevi, decapitado, 



Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, 
Engrácia de Saragoça, decapitada, 
Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabrestante, 
Escubículo, decapitado, 
Ésquilo da Suécia, lapidado, 
Estêvão, lapidado, 
Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, 
Eulália de Mérida, decapitada, 
Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, 
Fabião, espada e cardas de ferro, 
Fé de Agen, degolada, 
Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, 
Félix e seu irmão Adaucto, idem, 
Ferreolo de Besançon, decapitado, 
Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, 
Filomena, flechas e âncora, 
Firmin de Pamplona, decapitado, 
Flávia Domitília, idem, 
Fortunato de Évora, talvez idem, 
Frutuoso de Tarragona, queimado, 
Gaudêncio de França, decapitado, 
Gelásio, idem mais cardas de ferro, 
Gengoulph de Borgonha, corno, assassinado pelo amante da mulher, 
Gerardo Sagredo de Budapeste, lança, 
Gereão de Colónia, decapitado, 
Gervásio e Protásio, gémeos, idem, 
Godeliva de Ghistelles, estrangulada, 
Goretti Maria, idem, 
Grato de Aosta, decapitado, 
Hermenegildo, machado, 
Hierão, espada, 
Hipólito, arrastado por um cavalo, 
Inácio de Azevedo, morto pelos calvinistas, estes não são católicos, 
Inês de Roma, esventrada, 
Januário de Nápoles, decapitado depois de ter sido lançado às feras e atirado para dentro de um forno, Joana d'Arc, queimada viva, 
João de Brito, degolado, 
João Fisher, decapitado, 


João Nepomuceno de Praga, afogado, 
Juan de Prado, apunhalado na cabeça, 
Júlia de Córsega, cortaram-lhe os seios e depois crucificaram-na, 
Juliana de Nicomedia, decapitada, 
Justa e Rufina de Sevilha, uma na roda, outra estrangulada, 
Justina de Antioquia, queimada com pez a ferver e decapitada, 
Justo e Pastor, mas não este que aqui temos, de Alcalá dë Henares, decapitados, 
Killian de Würzburg, decapitado, 
Léger d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua, 
Leocádia de Toledo, fraguada do alto de um rochedo, 
Liévin de Gand, arrancaram-lhe a língua e decapitaram-no, 
Longuinhos, decapitado, 
Lourenço, queimado numa grelha, 
Ludmila de Praga, estrangulada, 
Luzia de Siracusa, degolada depois de lhe arrancarem os olhos, 
Magino de Tarragona, decapitado com uma foice serrilhada, 
Mamede de Capadócia, estripado, 
Manuel, Sabel e Ismael, o Manuel com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, todos degolados, 
Margarida de Antioquia, tocha e pente de ferro, 
Mário da Pérsia, espada, amputação das mãos, 
Martinha de Roma, decapitada, 
os mártires de Marrocos, Berardo de Cobio, Pedro de Gemianino, Otão, Adjuto e Acúrsio, degolados, os do Japão, vinte e seis crucificados, alanceados e queimados, 
Maurício de Agaune, espada, 
Meinrad de Einsiedeln, maça, 
Menas de Alexandria, espada, 
Mercúrio da Capadócia, decapitado, 


Moro Tomás, idem, 
Nicásio de Reims, idem, 
Odflia de Huy, flechas, 
Pafnúcio, crucificado, 
Paio, esquartejado, 
Pancrácio, decapitado, 
Pantaleão de Nicomedia, idem, 
Pátrocles de Troyes e de Soest, idem, 
Paulo de Tarso, a quem deverás a tua primeira Igreja, idem, 
Pedro de Rates, espada, 
Pedro de Verona, cutelo na cabeça e punhal no peito, 
Perpétua e Felicidade de Cartago, a Felicidade era escrava da Perpétua, escorneadas por uma vaca furiosa, 
Piat de Tournai, cortaram-lhe o crânio, 
Policarpo, apunhalado e queimado, 
Prisca de Roma, comida pelos leões, 
Processo e Martiniano, a mesma morte, julgo eu, 
Quintino, pregos na cabeça e outras partes, 
Quirino de Ruão, crânio cortado em cima, 
Quitéria de Coimbra, decapitada pelo próprio pai, um horror, 
Renaud de Dortmund, maço de pedreiro, 
Reine de Alise, gládio, 
Restituta de Nápoles, fogueira, 
Rolando, espada, 
Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, 

ainda não estás farto, perguntou Deus a Jesus, e Jesus respondeu, Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio, continua, e Deus continuou, 

Sabiniano de Sens, degolado, 
Sabino de Assis, lapidado, 
Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, 
Sebastião, flechas, 
Segismundo rei dos Burgúndios, atirado a um poço, 
Segundo de Asti, decapitado, 
Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, 
Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, 
Sidwel de Exeter, decapitado, 
Sinforiano de Autun, idem, 
Sisto, idem, 
Tarcísio, lapidado, 
Tecla de Icónio, amputada e queimada, 
Teodoro, fogueira, 
Tibúrcio, decapitado, 
Timóteo de Éfeso, lapidado, 
Tirso, serrado, 
Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, 
Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, 
Tropez de Pisa, decapitado, 
Urbano, idem, 
Valéria de Limoges, idem, 
Valeriano, idem, 
Venâncio de Carnerino, degolado, 
Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, 
Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, 
Vital de Ravena, lança, 
Vítor, decapitado, 
Vítor de Marselha, degolado, 
Vitória de Roma, morta depois de ter a língua arrancada, 
Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, virgem, barbuda, crucificada, 

e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta. Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Achas que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demónio, e que para as vencerem tiveram de mortificar o corpo pelo jejum e pela oração, há até um caso interessante, um tal John Schorn, que passou tanto tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos, evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo" (...) 

in, "O Evangelho segundo Jesus Cristo"
Páginas 381 a 385

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Maria, personagem de "O Evangelho segundo Jesus Cristo" e a menção à gestação do filho


A mulher, mãe, Maria, que do seu ventre gera seu filho...

"Debaixo do arco que abrigava o pessoal de Nazaré, todos dormiam. Todos, à excepção de Maria. Não podendo deitar-se por causa da desconformidade do ventre, que à vista mais parecia conter um gigante, reclinava-se nuns alforges da equipagem, buscando amparo para os martirizados rins. Como os outros, escutara o debate entre José e o velho Simeão, e alegrara-se com a vitória do marido, como é obrigação de toda a mulher, mesmo em se tratando de pelejas incruentas, como esta foi. Mas já se lhe varrera da lembrança o que tinham discutido, ou a memória do debate se submergira nas sensações que por dentro do seu corpo iam e vinham, iguais às marés do oceano que nunca vira, mas de que alguma vez ouvira falar, fluindo e refluindo, entre o ansioso choque das ondas que eram o filho movendo-se, porém de um modo singular, como se, estando dentro dela, a quisesse levantar, em peso, nos seus ombros. Só os olhos de Maria estavam abertos, brilhando na penumbra, e continuaram a brilhar mesmo depois de o lume se apagar de todo, mas isto não é nenhuma admiração, sucede a todas as mães desde o princípio do mundo, contudo ficámos a sabê-lo definitivamente quando à mulher do carpinteiro José apareceu um anjo, que o era, segundo declaração do próprio, apesar de vir em figura de mendigo itinerante."
Caminho, 1991
Página 61

"O paralelo entre O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago, 
e a iluminura de Albrecht Dürer (Grande Calvário) no início deste romance."