Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Aristóteles - do seu tratado sobre a Política

Na senda da explicação do valor original e substantivo da "palavra", Saramago nesta conferência caminha a passos largos para trazer a "política" e "democracia" à baila, num processo demonstrativo e metamorfoseado destes conceitos.
Talvez, e tomando por certa esta ideia, desde que o homem é um ser colectivo, também o é enquanto ser político, nas decisões do quotidiano, na gestão da sociedade em que se insere, isto, de forma mais ou menos organizada. Aqui entra a alusão à ideia de Aristóteles, no seu tratado "Política".
Sendo um aspecto que José Saramago, de forma mais implícita ou explícita, com palavras directas ou inserindo-as numa alegoria, o vinha demonstrando.

Na obra "Ensaio sobre a Lucidez", talvez o testemunho mais ético e político de Saramago, a "democracia" é colocada em vários patamares. A democracia de quem vota em branco. A democracia de quem não aceita os resultados do duplo sufrágio. A democracia dos "governantes" que abandonam a capital. A democracia da conspiração do qual resulta a detonação de uma bomba e consequências que daí advém. A democracia do insubordinado Presidente da Câmara perante a linha oficial do partido/governo. E por último, a democracia dos que abatem o "Cão das Lágrimas" e a "Mulher do Médico".
Estas "democracias", ou "A Democracia" em diferentes patamares, são o motivo da reflexão sobre o peso e significado das palavras. A política aristotélica, com mais de dois mil anos, sendo um elemento reflexivo, não tem a mesma repercussão na governação dos povos nos dias que correm. A representação dos povos pobres em Aristóteles, hoje é suplantada pela artificial implementação de um estado social, mínimo e exíguo, para comportar os mais desfavorecidos.
Atente-se, então na transcrição das palavras de José Saramago.


"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."

(...) Aristóteles - embora nunca tenha estudado na universidade, li Aristóteles - dizia no seu tratado de "Política" que um governo realmente democrático deveria necessariamente, por lógica matemática, por pura aritmética, integrar no seu seio mais pobres que ricos porque, dizia ele "os pobre são mais que os ricos", logo, se o governo da "polis" tem, por exemplo, vinte pessoas, dezassete teria de ser pobres e os três restantes ricos.
Acrescentava Aristóteles que não é que os ricos não devam estar representados no governo da "polis", claro que sim, mas em proporção justa. Esta ideia utópica, uma entre tantas, tem dois mil e tal anos, foi enunciada por um senhor que viveu na Grécia e que continuamos a considerar um mestre. E colocou, preto no branco, esta afirmação revolucionária, nunca realizada e que provavelmente jamais será levada a cabo. Claro que o que estava implícito, ainda que Aristóteles não o tenha dito, era que devia existir um partido de pobres, mas talvez não tenha falado disso porque se deu conta de que um partido de pobres não tem muito para prometer, e se não promete não ganha as eleições. (...)

em, "Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 27 e 28
Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005


"Abro com duas citações de Aristóteles, ambas extraídas da "Política". A primeira delas, curta, sintética, diz-nos que "em democracia, os pobre são soberanos, com exclusão dos ricos, porque são eles o maio número, e porque a vontade da maioria é lei". (...) Eis o que nos diz a citação segunda: "A igualdade (no estado) pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção do número existente de uns e outros. Este parece ser o meio de garantir ao Estado, eficazmente, a igualdade e liberdade". (...)
(...) Não resisto a recordar-vos, sofrendo com a minha própria ironia, que, para o discípulo de Platão, o Estado era a forma superior da moralidade... (...)

em, "Verdade e Ilusão Democrática
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 59 e 60
Conferência em Santiago do Chile, abril de 2003
"Las Conferencias de la moneda"
Aqui, link http://www.josesaramago.org/democracia-e-universidade-2010/



Aristóteles, segundo Wikipédia, aqui em http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles
Aristóteles (em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Em 343 a.C. torna-se tutor de Alexandre da Macedónia, na época com treze anos de idade, que será o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em 335 a.C. Alexandre assume o trono e Aristóteles volta para Atenas, onde funda o Liceu.
Aristóteles era natural de Estagira, na Trácia, sendo filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.
Segundo a compilação bizantina Suda, Aristóteles era descendente de Nicômaco, filho de Macaão, filho de Esculápio.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela academia platônica e nela permaneceu vinte anos, até a morte de Platão, no primeiro ano da 108a olimpíada (348 a.C.).
Em 347 com a morte de Platão, a direção da Academia passa a Espeusipo que começou a dar ao estudo acadêmico da filosofia um viés matemático que Aristóteles (segundo opinião geral, um não-matemático) considerou inadequado, assim Aristóteles deixa Atenas e se dirige, provavelmente, primeiro a Atarneu convidado pelo tirano Hérmias e em seguida a Assos, cidade que fora doada pelo tirano aos platônicos Erasto e Corisco, pelas boas leis que lhe haviam preparado e que obtiveram grande sucesso.
Durante 347 a.C e 345 a.C, dirige uma escola em Assos, junto com Xenócrates, Erasto e Corisco e depois em 345/344 a.C. conhece Teofrasto e com sua colaboração dirige uma escola em Mitilene, na ilha de Lesbos e lá se casa com Pítias, neta de Hérmias , com quem teve uma filha, também chamada Pítias e Nicômaco. Em 343/342 a.C Filipe II escolhe Aristóteles como educador de seu filho Alexandre, então com treze anos, por intercessão de Hérmias.
Pouco se sabe sobre o período da vida de Aristóteles entre 341 a.C e 335 a.C, ainda que se questiona o período de tempo da tutela de Alexandre, alguns estimam em apenas dois ou três anos e outros em sete ou oito anos.
Em 335 a.C. Aristóteles funda sua própria escola em Atenas, em uma área de exercício público dedicado ao deus Apolo Lykeios, daí o nome Liceu. Os filiados da escola de Aristóteles mais tarde foram chamados de peripatéticos. Os membros do Liceu realizavam pesquisas em uma ampla gama de assuntos, os quais eram de interesse do próprio Aristóteles: botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Em todas essas áreas, o Liceu coletou manuscritos e assim, de acordo com alguns relatos antigos, se criou a primeira grande biblioteca da antiguidade.
Em 323 a.C, morre Alexandre e em Atenas começa uma forte reação antimacedônica, em 654 a.C. por causa de sua ligação com Alexandre, Aristóteles foge de Atenas e se dirige a Cálcides, onde sua mãe tinha uma casa, explicando, "Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia" uma referência ao julgamento de Sócrates em Atenas. Ele morreu em Cálcis, na ilha Eubeia de causas naturais naquele ano.1 Aristóteles nomeou como chefe executivo seu aluno Antípatro e deixou um testamento em que pediu para ser enterrado ao lado de sua esposa.
Política - A política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim último do estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. O estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política, de que acima se falou.
Em Ética a Nicômaco Aristóteles descreve o assunto como ciência política, que ele caracteriza como a ciência mais confiável. Ela prescreve quais as ciências são estudadas na cidade-estado, e os outros - como a ciência militar, gestão doméstica e retórica - caem sob a sua autoridade. Desde que rege as outras ciências práticas, suas extremidades servem como meios para o seu fim, que é nada mais nada menos do que o bem humano.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Talleyrand na alusão à palavra de sentido ilusório - Conferência "Democracia e Universidade" 2005


"Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa

Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005




A propósito do valor das palavras e da possibilidade de as mesmas poderem alterar, acrescentando ou diminuindo "peso" à substância do seu significado, Saramago aludia à "voz" politica, 

Referia:
(...) "E pode chegar-se à situação absurda e terrível de que um político, sem alterar a expressão, isto é, com a cara mais dura do mundo - não é piada, trata-se de um político do meu país que teve altíssimas responsabilidades no governo - diga o seguinte: "A política é a arte de não dizer a verdade". Disse-o e não aconteceu nada (...)"

Com este efeito prático, também da verdade ilusória da palavra ou do mimetismo que com a mesma podemos configurar um momento, ou até, uma vida de mentira, surge a menção a Talleyrand.

E prossegue:
(...) "Esta frase aproxima-se de outra de Talleyrand, que dizia que a palavra tinha sido dada ao homem para encobrir o que pensava, afirmação tremenda que, no entanto, atravessou séculos sem muita contestação; pior, com um não dissimulado e cínico aplauso. (...)"




Quem foi Talleyrand, aqui, via Wikipédia
em, http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles-Maurice_de_Talleyrand-Périgord

"Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, mais conhecido por Talleyrand GCNSC (Paris, 13 de fevereiro de 17541 — Paris, 17 de maio de 1838) foi um político e diplomata francês.
Talleyrand demonstrou admirável capacidade de sobrevivência política ao ocupar altos cargos no governo revolucionário francês, sob Napoleão, durante a restauração da monarquia dos Bourbons e sob o rei Luís Filipe. Embora de ascendência aristocrática, ele não pôde seguir a carreira militar por causa de um defeito físico, e, opcionalmente, foi preparado para a carreira religiosa e, como seminarista, estudou teologia e leu a obra dos filósofos progressistas contemporâneos.
Expulso do seminário (1775) por não seguir a regra do celibato, mesmo assim recebeu as ordens menores e o rei o nomeou abade de Saint-Denis, em Reims (1776). Ordenado (1779), foi nomeado vigário-geral pelo tio Alexandre, arcebispo de Reims e, um ano depois, tornou-se agente geral do clero junto ao governo da França. Defensor dos privilégios eclesiásticos, suas atividades o puseram em contato direto e frequente com os ministros da coroa, o que lhe permitiu adquirir experiência parlamentar e ser consagrado (1788) como bispo de Autun.
Durante o período pré-revolucionário, foi membro do Clube dos Trinta. Apoiou depois a nacionalização dos bens da igreja e conseguiu a adoção da constituição civil do clero que, sem o apoio papal, permitiu a reorganização completa da Igreja francesa ao serviço do Estado.
Excomungado pelo papa e, eleito administrador do departamento de Paris (1791), abandonou a Igreja Católica. Foi enviado pela Assembleia Geral à Grã-Bretanha (1792), para tentar convencer os ingleses a não se aliarem com a Áustria e a Prússia contra a França. O fracasso das negociações e a execução de Luís XVI obrigaram-no a fugir para os Estados Unidos (1794).
Após a queda de Robespierre e o fim do Terror (1796), regressou à França e no ano seguinte tornou-se ministro das Relações Exteriores. Acusado de corrupção (1799), foi demitido, mas após o golpe de estado de Napoleão e o estabelecimento do Consulado, recuperou o cargo.
Com o objetivo da pacificação da Europa, esforçou-se por articular uma política de alianças com as principais potências europeias e promoveu a reconciliação de Napoleão com o resto da Europa. No entanto, por discordar do projeto de conquistas do imperador, demitiu-se (1807). Apoiado pelo o czar Alexandre I da Rússia, organizou oposição a Napoleão e preparou a restauração dos Bourbons.
Com a entrada da liga antinapoleônica em Paris (1814), persuadiu o senado a estabelecer um governo provisório e a declarar Napoleão deposto. O novo governo imediatamente convocou Luís XVIII, que o nomeou ministro das Relações Exteriores. No Congresso de Viena (1814-1815), representou a França e expôs suas habilidades diplomáticas, mas prejudicou a França em termos territoriais, pois aceitou ceder à Prússia a maior parte da margem esquerda do rio Reno.
Após os cem dias napoleônicos, assumiu o cargo de presidente do Conselho de Estado, porém seu passado revolucionário levou-o a ser demitido em setembro do mesmo ano. Aliado aos liberais, participou de forma ativa na ascensão ao trono de Luís Filipe de Orleans (1830). Embaixador em Londres (1830-1834), teve participação fundamental nas negociações entre França e Reino Unido, como na criação do reino da Bélgica e na assinatura da aliança entre França, Reino Unido, Espanha e Portugal - a Quádrupla Aliança (1834).
Acusado em vida de cínico e imoral, alegava servir à França, e não aos regimes políticos. Foi, ao lado de Fouché, uma das figuras mais polêmicas da França."

domingo, 16 de novembro de 2014

Paradigma da temporalidade do significado da (ou de uma) palavra - Conferência de 2005

" Costumamos dizer que falando é que a gente se entende" (...)

Poderá uma palavra perder significado. 
Perder peso do seu significado. 
Transformar-se, evoluir, caracterizar-se de outra forma.
Até que ponto o contexto social, evolutivo ou regressivo numa sociedade pode exercer força sobre a dimensão caracterizadora da palavra.

José Saramago, na conferência realizada em 2005, na Universidade Complutense de Madri - "Democracia e Universidade", abordava a questão.


(...) "o significado das palavras não é eterno;  a semântica de uma palavra não é imutável, muda como nós mudamos, como mudam os usos e costumes, como mudam as estações. Esta mudança não tem que ver nem com sintaxe nem com morfologia, nem com lugar que ocupam na frase, ou com as palavras que acompanham as que queremos dizer e que colocadas à frente ou atrás incidem de uma maneira ou de outra, de modo que a acompanhante às vezes pode tornar-se a palavra definitiva. (...) há palavras, inclusive expressões, que caem em desuso porque reflectiam actividades já desaparecidas, e portanto está certo que apareçam outras para ocupar o lugar daquelas e assim falar de modo a que a gente se entenda. 
O mal, e era aqui que queria chegar com este preâmbulo, é quando a palavra permanece mesmo depois de mudar o seu conteúdo. (...)
Quem nos iluminou a todos de forma definitiva acerca do que afirmo, e com  que profundidade, foi Jorge Luis Borges num conto a que deu o título de "Pierre Menard, autor do Quixote".



"Pierre Menard, Autor de Quixote (“Pierre Menard, Autor Del Quixote” no original em Espanhol) é um conto do escritor argentino Jorge Luiz Borges inserido no livro Ficções.
Originalmente foi lançada na revista Sur em Maio de 1939. O lançamento oficial, em língua espanhola, foi na publicação do livro O Jardins de Veredas que se Bifurcam que posteriormente foi incluído na obra Ficções em 1944.
O Conto é escrito como se fosse uma revisão ou uma crítica literária sobre Pierre Menard, um escritor de ficções do século XX e de nacionalidade francesa. Ele começa com a breve introdução e uma lista do trabalho de Menard.
Borges enfoca os esforços de Menard em ir além de uma mera tradução releitura ou revisão do Dom Quixote, de Cervantes, mergulhando profundamente no trabalho de se tornar hábil a recriar o livro, linha por linha, de maneira igual ao modelo do século XVII. Assim Pierre Menard é frequentemente usado para levantar questões e discussões sobre a natureza da autoria, apropriação e interpretação.
O conto é escrito em forma de critica literária, mas por meio da fantasia, ironia e humor. Seu narrador/revisor considera o “Quixote de Mernard” (linha por linha idêntico ao original) muito mais rico em ficção do que o “Quixote de Cervantes” original dado que Mernard esta a luz de conhecimentos posteriores a 1602. Cervantes, afirma o crítico, se entrega à critica aos toscos contos de cavalaria e a parca realidade e provincial do país. Enquanto Menard escreve distante do passado, em Cervantes há a proximidade com os Bandos de Ciganos, conquistadores e dos autos de fé. Neste conto, Borges antecipa a teoria pós-moderna que da centralidade para a resposta do escritor. Seu nome aparece na questão de Jaques Derrida e responde em seu ensaio de 1966 para o congresso internacional de Sociologia e Filosofia da língua francesa “Na Biblioteca de Babel, Borges contempla um efeito oposto: a melhoria de um texto através de sua reprodução. No padrão análogo do teorema dos infinitos macacos , todos os textos se passam em uma vasta livraria apenas porque completam a possibilidade aleatória e eventual da combinação de todas as letras.
Ambas as histórias lidam com grande dificuldade de criação de significado ou, talvez achar ou determinar o sentido. No caso do Quixote o sentido esta sobre a resposta do escritor e ou o contexto do trabalho em que o livro é escrito. Na Biblioteca de Babel é difícil se encontrar algum trabalho coerente pois a Biblioteca possui todos os trabalhos possíveis. Contudo qualquer trabalho com sentido é aleatório e não produzido pela ação humana e portanto, drenado de sentido. No caso de Quixote a ação humana de escrever e ler o trabalho conferem sentido.
Borges escreveu a história enquanto se reestabelecia de um ferimento na cabeça. Se o conto é considerado como uma obra de ficção, então foi o primeiro publicado sob seu próprio nome ( o ”Homem da Esquina Rosada” foi publicado pelo pseudônimo de H. Bustos). Como é comum em sua escrita, o conto é rico em ricas referencias e piadas sutis. Seu narrador/revisor é um Católico ortodoxo que destaca que os leitores de uma revista rival são “uns poucos Calvinistas, se não maçons e circuncisos”. De acordo com Emir Rodríguez Monegal e Alastair Reid, Menard é em parte “uma caricatura de Stéphane Mallarmé e Paul Valéry, ou de Miguel de Inamuno e Enrique Larreta”.


Seguindo o conferencista José Saramago

(...) Em todo o caso, há que ler o conto de Borges. (...)
(...) sobretudo, recomendo que se detenham a pensar o que quer dizer o conto, o que Borges quis dizer quando escreveu esta história fabulosa. Porque em dado momento aparece a palavra "justiça" e Borges chama a atenção para o facto de, mesmo que a palavra seja a mesma, não ter o mesmo significado num tempo e noutro; isto é, justiça no século XVII não significava o que significa hoje, no século XXI. (...)
Há no entanto uma armadilha a que devemos escapar: quando uma palavra tem um significado concreto e por razões várias, ou sem-razões, se transforma praticamente no seu contrário. Um exemplo do que digo sucede com a palavra "bondade". O conceito de bondade, com o tempo e as mudanças de mentalidade e costumes, não só se usa pouquíssimo na comunicação quotidiana como adquiriu outro sentido, exactamente esse em que vós estareis pensando, quase pejorativo, porque agora se relaciona a expressão com a falta de inteligência.(...)
(...) As palavras que quero trazer aqui ao falar de democracia e universidade não são apenas as que mudaram com o uso, ou as que são equívocas, mas as que equivocam conscientemente, as que enganam, as palavras que mentem porque quem as diz está a manipular para alcançar objectivos que de uma forma não poderia conseguir.