Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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domingo, 12 de janeiro de 2020

11 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"José Manuel Mendes partiu hoje, levando umas cinco ou seis horas de gravações. Não lhe invejo a sorte, ter de desenredar de um discurso sempre digressivo e não raro caótico umas quantas ideias mais ou menos aproveitáveis que por lá se encontrem. (...) Chegou carta de Jorge Amado. O Instituto de Letras da Universidade da Bahia organiza em Maio em encontro de tradutores e um seminário de ensino e aprendizagem de tradução (...) Pilar e eu lemos a carta ao mesmo tempo, e quando chegámos ao fim ele perguntou-me: «Que viagens temos em Maio?» Ainda que não pareça decididamente explícito, foi uma maneira de dizer sim..."

#DiáriosDeSaramago
#ContinuarSaramago

Jorge Amado e José Saramago 
1990 Bahia - Brasil

quinta-feira, 8 de março de 2018

Entrevista de Pilar del Río à revista "marie claire" da Globo (02/09/2017)

Entrevista de Adriana Ferreira Silva da revista "marie claire" (Globo Brasil), publicada em 02/09/2017 e que pode ser consultada e recuperada aqui

Pilar del Rio: "Nunca fui 'esposa de José Saramago', muito menos seria 'viúva de'. 
É uma palavra horripilante"

Companheira do escritor português José Saramago, Pilar del Río fala sobre o dia a dia com o Nobel de Literatura em entrevista exclusiva à Marie Claire. Ela também conta detalhes da amizade entre ele e o brasileiro Jorge Amado, que resultou numa troca de correspondências reunida no livro "Com o Mar por Meio - A Amizade de Jorge Amado e José Saramago em Cartas"


Madrid / 2009 

Não há nada que ofenda mais a jornalista Pilar del Río do que ser chamada de “a viúva de Saramago”. “Nunca fui ‘esposa de’, muito menos seria a ‘viúva de’, diz à Marie Claire. “Além disso, é uma palavra horripilante.” A história de amor da espanhola de 67 anos com o único Prêmio Nobel em língua portuguesa, morto em 2010, é, por si só, digna de um livro. Ela conheceu Saramago quando tinha 36 e ele, 64. Procurou-o para dizer o quanto era apaixonada pela obra O Ano da Morte de Ricardo Reis – e, assim, ele se apaixonou por ela. Dois anos depois, estavam casados e nunca mais se desgrudaram. Faziam todas as turnês juntos e ela se tornou sua tradutora para o espanhol e a primeira leitora de todos os livros que vieram a seguir.

Em uma viagem à Alemanha, conheceram o casal Jorge Amado e Zélia Gattai. Começava ali uma amizade que seguiria até a morte do baiano, em 2001. Os detalhes dessa parceria surgem agora em Com o Mar por Meio – A Amizade de Jorge Amado e José Saramago em Cartas (Cia. das Letras, 120 págs., R$ 59,90), que reúne a correspondência trocada entre os dois (com interferências carinhosas de Pilar e Zélia). A obra traz preciosidades, como o texto que o português escreveu quando soube da partida do amigo. Nesta entrevista, Pilar, que preside a Fundação José Saramago, fala sobre a convivência entre os dois e também sobre seu relacionamento com o companheiro de vida. 

MC Como conheceram Jorge Amado?
PR O encontro pessoal foi tardio, na década de 80. O literário, muito anterior. Creio que a primeira vez que nos vimos foi na Alemanha: Jorge Amado estava rodeado de gente e houve um breve intercâmbio de cumprimentos. Depois, em Lisboa, começou o tratamento entre camaradas. Viajaram juntos por diversos países, partilharam iniciativas e conversas.

MC Como era o relacionamento com Jorge e Zélia?
PR Quando nos encontrávamos, era como se o tempo não passasse. Um continuar de uma conversa começada meses antes. Isso é amizade, não é? Sem cerimônias e protocolos.

MC Que boas lembranças tem dos encontros com o casal de amigos?
PR De histórias engraçadas e brincadeiras. Lembro dos sofás que Jorge tinha na casa de Paris: ele dizia que um era primeira classe e o outro, classe turística. Dormi uma siesta uma vez no business. Lembro também da definição que um menino fez de Jorge Amado uma vez, sem saber que ele estava no grupo que caminhava no Pelourinho, em direção à Fundação Jorge Amado. O garoto falou que, naquela casa, tinha vivido um escritor “muito famoso do século 15”, e Jorge disse que isso, sim, era a imortalidade.

MC Como Saramago recebeu a notícia da morte de Amado?
PR José tinha aceitado a ideia de viver num tempo em que Jorge não estivesse, pois ele esteve doente vários anos, e isso fez com que os amigos se habituassem à sua ausência. Mas a notícia foi um golpe. José escreveu sobre ele considerando-o vivo. Preferia pensar que, um dia, o fax, àquela altura pouco usado, voltaria a imprimir uma nota manuscrita com a festiva letra de Jorge Amado.

MC Você viveu mais de 20 anos com Saramago. Como foi recriar a rotina sem ele?
PR Não tenho rotina. Desde o momento em que começamos a vida em comum, sabíamos que, por lei natural, ele morreria antes. Vivemos sempre com a consciência de que cada dia era único. Insisto, sem rotina. Com o que aprendi vivendo assim continuo a viver depois de sua morte: são muitos anos de recordações acumuladas.

MC O que guarda da convivência com ele?
PR A naturalidade da vida sem preconceitos, sem normas que invariavelmente podam a liberdade e os melhores valores da gente.

MC Você não gosta de ser chamada de “a viúva de Saramago”. Acha que, se fosse a senhora a escritora famosa, ele seria “o viúvo de Pilar”? Ou isso é reflexo do machismo?
PR Obviamente é reflexo do machismo e do patriarcado asfixiante em que vivemos. Claro que os homens não são os “viúvos de...”. Mas, além disso, nunca fui “esposa de”, muito menos seria “viúva de”. É uma palavra horripilante. Cada um de nós é o que é, nos definimos por nossas opções, não pela pessoa com quem partilhamos a casa. Essa preguiça mental de reduzir as pessoas ou situá-las de maneira mais fácil é indigna e indignante.



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"Publicação inédita das cartas de amizade entre Saramago e Jorge Amado" via DN (28/11/2017)

"Jorge Amado José Saramago - Com o mar por meio Uma amizade em cartas" 

Destaque no DN, de 28/11/2017, pode ser recuperado aqui

«A troca de correspondência entre José Saramago e Jorge Amado, durante cinco anos, regista uma "bela amizade", nascida na velhice, e testemunha desabafos políticos, crises de saúde e anseios literários, entre os quais o Nobel por que ambos suspiravam.

A publicação inédita da troca epistolar que os dois escritores de língua portuguesa mantiveram regularmente, entre 1992 e 1997, acaba de chegar às livrarias, numa edição ilustrada com 'fac-símiles' e fotos raras, pela Companhia das Letras, intitulada "Com o mar por meio".

A amizade entre os dois teve início quando "já iam maduros nos anos e na carreira literária", o primeiro com 80 anos, e o segundo com menos dez anos, segundo a editora.

O vínculo tardio, porém, não impediu que os escritores criassem fortes laços de amizade e fraternidade, que se estenderam às suas companheiras de vida, Zélia Gattai e Pilar del Río.

Uma dessas cartas, entre muitas outras, dá nota dessa relação, quando José Saramago escreve a Jorge Amado, em 1993, por ocasião do seu aniversário: "Esta mensagem vai em letra gorda para que não se perca nos azares da transmissão nem um só sinal da nossa amizade, deste carinho tão bonito que veio enriquecer de um sentimento fraterno uma relação nascida tarde, mas que, em lealdade e generosidade, pede meças à melhor que por aí se encontre".

Este livro nasce de uma coincidência ocorrida quando a filha de Jorge Amado, Paloma, juntamente com a Fundação Casa Jorge Amado, estava a trabalhar as cartas trocadas com José Saramago -- no âmbito da organização do acervo do pai, iniciada em 2015 -- e, em troca de mensagens com Pilar del Río, tomou conhecimento de que a Fundação José Saramago planeava também fazer um livro.

A organização e seleção de cartas, feita por Paloma Jorge Amado e Ricardo Viel, da Fundação José Saramago, só foi possível por Jorge Amado ter sido um "homem muito disciplinado e organizado, qualidades exacerbadas pelos anos de militância comunista", que, com "o advento das copiadoras", passou a reproduzir as cartas enviadas, conta a filha do brasileiro, na introdução do livro.

São cartas, bilhetes, cartões, faxes e mensagens várias, enviados ao longo dos anos, com troca de ideias sobre questões, tanto da vida íntima, como da conjuntura contemporânea, social e política, sobre a qual partilhavam a mesma visão comunista.

Várias mensagens são reveladoras do afeto entre os dois casais, uma das quais assinada por José e Pilar, na qual se referem ao "manjar supremo que é a amizade".

A saúde e a velhice também são amiúde referidas, e Jorge Amado escreve, em 1995, esperar que o trabalho ocupe os seus "dias de velhice -- velhice não é coisa que preste".

As cartas refletem também o anseio que os dois escritores partilhavam por receber prémios literários e a alegria que cada um deles sentia de saber que o outro o recebera.

Em julho de 1993, José Saramago escreve ao seu amigo, a propósito da atribuição do Prémio Camões a Rachel Queiroz, que não discute os méritos da premiada, mas não entende "como e porquê o júri ignora ostensivamente (quase apeteceria dizer: provocadoramente) a obra de Jorge Amado".

No ano seguinte, Jorge Amado receberia então o prémio, e José Saramago escreveria "finalmente o Camões para quem tão esplendidamente tem servido a língua dele!", acrescentando: "Será preciso dizer que nesta casa se sentiu como coisa nossa esse prémio?".

Mas a vez de Saramago chegou em 1995 e, em resposta às felicitações enviadas por Jorge Amado, o autor português confessou: "Em nenhum momento da vida, desde que o prémio existe, me passara pela cabeça que um dia poderiam dar-mo. Aí está ele, para alegria minha e dos meus amigos, e raiva de uns quantos 'colegas' que não querem admitir que eu existo...".

Também o Nobel era tema frequente e José Saramago chega a partilhar, numa missiva para Jorge Amado, em 1994, o desejo de que o prémio lhes fosse atribuído em conjunto, ideia que o escritor brasileiro recebeu com regozijo, considerando-a "magnífica", mas temendo que "os suecos da Academia" dividissem "o milhão entre Lobo Antunes e João Cabral".

No entanto, os anos passavam e o prémio não chegava para nenhum deles, levando José Saramago, em 1997, a escrever, em desabafo, a Jorge Amado, que os membros da Academia não gostam da língua portuguesa e que "não têm metro que chegue para medir a estatura de um escritor chamado Jorge Amado".

Nesse mesmo ano, a correspondência entre os dois cessou devido ao agravamento da saúde do coração e dos olhos de Jorge Amado, que foi perdendo a visão mais rapidamente do que se esperava, acabando por mergulhar numa profunda depressão, que o deixava dias inteiros deitado num cadeirão na sala, com os olhos fechados.

A 08 de outubro de 1998, Zélia sentou-se a seu lado e deu-lhe a notícia de que o "seu amigo José Saramago vinha de ganhar o Prémio Nobel", conta a filha.

"Como num passe de mágica, um milagre luso-sueco, Jorge pulou do cadeirão, chamou Paloma, pediu que se sentasse no computador, que ele iria ditar uma nota".

Foi a última carta. Brindou com champanhe, fez a festa com a mulher e a filha e "foi dormir contente". "No dia seguinte, não quis mais abrir os olhos".

Capa da edição "Companhia das Letras"

Apresentação da obra via Companhia das Letras (Brasil) aqui
"A amizade entre Jorge Amado e José Saramago teve início quando os dois já tinham idade mais avançada e consolidada carreira literária, porém o vínculo tardio não impediu que os escritores formassem um laço forte, estendido as suas companheiras, Zélia e Pilar. Este livro reúne a correspondência entre os dois mestres - e os dois casais, muitas vezes -, entre os anos de 1992 e 1998. São cartas, bilhetes, cartões e faxes com uma rica troca de ideias sobre questões tanto da vida íntima como da conjuntura contemporânea, sobretudo a cena literária. Eles debatem com humor sobre prêmios e associações de escritores, com especulações divertidas sobre quem seria, por exemplo, o próximo a ser contemplado com o Nobel ou o Camões. Com um projeto gráfico especial, ilustrado com facsímiles das missivas e belíssimas fotos do acervo pessoal dos autores, Com o mar por meio aproxima os leitores do universo particular dos dois amigos."







sexta-feira, 28 de julho de 2017

'Precisamos de ideias dos intelectuais para a sociedade', diz Pilar del Río na Flip (via Estadão 27/07/2017)

A notícia foi publicada por Guilherme Sobota - "O Estado de S. Paulo" em 27 Julho 2017 e pode ser recuperada aqui

"Pilar del Río em Paraty, nesta quinta-feira, 27 
Foto: Guilherme Sobota/Estadão"

"Jornalista espanhola e presidente da Fundação José Saramago ainda ironizou que os pensadores capazes não podem ficar especulando sobre o 'gerúndio'"

"PARATY - Conhecida também por sua postura firma na defesa dos direitos humanos frente à Fundação José Saramago, a jornalista espanhola Pilar del Río cobrou, em coletiva de imprensa na Flip, de pensadores e intelectuais ideias para que a sociedade global consiga sair das crises em que se meteu. “De quem virão as ideias? Dos partidos políticos? Não, precisamos das universidades, dos pensadores, criadores, intelectuais, dos aristocratas da sociedade, que não são os que têm dinheiro, mas o que têm ideias”, comentou. "Os intelectuais capazes disso não podem ficar pensando no 'gerúndio'", ironizou.

Pilar falou a jornalistas na manhã desta quinta-feira, 27. Ela participa de uma mesa na programação oficial nesta sexta-feira, 28, às 17h15, com mediação do escritor Alexandre Vidal Porto.

Ela falou também sobre o trabalho da Fundação José Saramago. “Há milhões de seres humanos que são excluídos do presente e do futuro, e talvez tenha sido nós (pensadores e intelectuais) que permitimos que isso tenha acontecido. Talvez não tenhamos cumprido com nossa obrigação quanto ao futuro.” A Fundação tem um trabalho permanente de resgate da Declaração Universal de Deveres Humanos, proposta formulada por Saramago para o discurso do Prêmio Nobel, em 1998.

Pilar está em Paraty também por conta da parceria com a Fundação Casa de Jorge Amado. Um livro, Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar Por Meio, com a troca de cartas entre os dois foi lançado e uma Casa em Paraty foi montada para receber programação e celebrar a obra de ambos. “Fico muito feliz que esses dois autores, conhecidos por seu respeito à diversidade e às mulheres, tenham sido incluídos na programação institucional dessa Flip que relembra Lima Barreto”, comentou."


sábado, 22 de julho de 2017

"Com o mar por meio" A amizade de Jorge Amado e José Saramago em cartas - José Saramago e Jorge Amado (Companhia das Letras)


Apresentação do livro de correspondência trocada entre José Saramago e Jorge Amado
Fotografias e texto de apresentação via "Companhia das Letras" (Brasil)


"O livro, que será lançado na casa que homenageia os escritores durante a Flip 2017, apresenta a correspondência inédita entre os dois gigantes da literatura de língua portuguesa."


"Apresentação
A amizade entre Jorge Amado e José Saramago teve início quando os dois já tinham idade mais avançada e consolidada carreira literária, porém o vínculo tardio não impediu que os escritores formassem um laço forte, estendido as suas companheiras, Zélia e Pilar. Este livro reúne a correspondência entre os dois mestres - e os dois casais, muitas vezes -, entre os anos de 1992 e 1998. São cartas, bilhetes, cartões e faxes com uma rica troca de ideias sobre questões tanto da vida íntima como da conjuntura contemporânea, sobretudo a cena literária. Eles debatem com humor sobre prêmios e associações de escritores, com especulações divertidas sobre quem seria, por exemplo, o próximo a ser contemplado com o Nobel ou o Camões. Com um projeto gráfico especial, ilustrado com facsímiles das missivas e belíssimas fotos do acervo pessoal dos autores, Com o mar por meio aproxima os leitores do universo particular dos dois amigos."



"Ficha Técnica
Título original: COM O MAR POR MEIO
Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio 
Páginas: 120
Formato: 18.00 x 23.00 cm
Acabamento: Brochura
Lançamento: 24/07/2017
ISBN: 9788535929492
Selo: Companhia das Letras"


sábado, 14 de maio de 2016

Texto de José Saramago sobre Jorge Amado "Uma certa inocência" - Revista Blimunda #3 Agosto de 2014

Sinopse: "Porque Jorge Amado era dessa estirpe “graças a Deus”, 
como diria Zélia Gattai quando se definiu a si mesma como anarquista por influência divina."

Aqui para descarregar a edição #3 - Agosto de 2014, aqui


"Uma certa inocência

Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma par-te importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi urna surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural da sociedade brasileira. A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda de que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e actividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria. O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos selectivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos actuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros. 

(Jorge Amado apresentando uma escultura a José Saramago. 
Porta de acesso à Fundação Jorge Amado)

Tomo como exemplo do que venho dizendo um pequeno e delicioso livro cujo título - A descoberta da América pelos turcos - é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Nlurad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar a América à conquista de dinheiro e mulheres. Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Ita-buna (Bahia), onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer. Esta picaresca brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo tina], para a condenação eterna. E contudo...E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, A descoberta do América pelos turcos, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como Jubiabá, A tenda dos milagres ou Terras do sem fim. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Ai está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado." 
José Saramago

domingo, 14 de dezembro de 2014

Sugestão de Leitura - Revista Digital "Blimunda" n.º 3 (08/2012) - com especial atenção a Jorge Amado

(Capa da revista)

Destaques
"Jorge Amado, cem anos de vida vivida"
"Diário de viagem de Pilar", dos Cadernos de Lanzarote, vol. IV
"Jorge Amado, Vivo", texto de José Saramago
"Livro infantil e promoção da leitura", sugestões
Dois textos sobre a personagem canina 
"O cão, personagem dor romances de José Saramago", por Helena Vaz Duarte
“Entra, chegaste à tua casa”, por Pilar del Río


Pode ser descarregada, gratuitamente para leitura e guardar, aqui

Sinopse
"Não se comemora o centenário de um escritor, celebram-se os cem anos de vida de um ser humano que a qualquer momento pode aparecer numa esquina, com uma camisa branca, ou talvez de flores, com um gesto tão aberto que nele podem continuar a refugiar-se gerações de pessoas, com uma incorruptível amizade, a mesma que o fez cruzar um século sempre acompanhado, tão confortável na sua pele como na sua relação com outros, sempre seus semelhantes. Porque Jorge Amado era dessa estirpe “graças a Deus”, como diria Zélia Gattai quando se definiu a si mesma como anarquista por influência divina.

Jorge Amado e José Saramago poderiam ter tido uma relação mais dilatada no tempo. Teria bastado que Saramago desse o pequeno passo que o aproximaria do grande escritor brasileiro num tempo em que o mundo era jovem, mas o sentido do respeito devido ao mestre levou a que o português seguisse o seu caminho e esperasse que um dia, talvez, acontecesse o que tivesse de acontecer. E assim foi. Saramago não se mostrou perante Jorge Amado de mãos vazias, quando chegou à sua presença e amizade levava – simbolicamente, claro – uns quantos livros que justificavam que ambos se encontrassem e se tratassem por tu. Puderam fazê-lo, fizeram-no e profundamente, porque se a relação entre o escritor da Bahía e o do Ribatejo não abarcou mais de uma década, foi suficientemente intensa para que se contassem medos e projetos, sonhos por realizar, aventuras que ficariam por viver e outras bebidas até à última gota. Os dois escritores conversaram sobre política e paixões, dificuldades e logros, por vezes com picardia, por vezes com uma seriedade quase doutoral que rematavam com uma gargalhada, e daquelas conversas ficam ecos que alguns amigos de vez em quando recompõem aos pedaços. Que pena que a grande Zelia Gattai não esteja aqui para documentar, com a sua prosa fresca e lúcida, aqueles encontros na Bahía, em Paris, Roma, Madrid e Lisboa, aquelas viagens pela Galiza ou pelo norte de Itália, aqueles projetos de contruir pontes sobre rios e mares, sobre oceanos, talvez entre planetas se ali existir o cheiro a canela, que é o cheiro da vida que eles tanto amaram, os três, Jorge e Zélia, José.

Começa agora o ano de Brasil-Portugal. A Fundação José Saramago entra em pleno nesta aproximação porque nasceu também para isso. Celebrar os anos de Jorge Amado no seu dia, no seu mês, é o primeiro passo. Depois virão outras atividades em que se irá contando que os seres humanos não passam, ficam, são imortais enquanto haja quem os recorde e festeje. Com dignidade, lucidez e emoção.

No enterro de José Saramago recordou-se Jorge Amado, o momento em que o avião em que o casal Amado-Gattai viajava teve de fazer uma aterragem de emergência. Então, Jorge, que tinha pânico de voar, pôs-se a pedir aos gritos o jornal, ante o espanto de Zelia: “Mas Jorge, vamos morrer e tu pões-te a pedir o jornal?” “Queres que morra sem saber o que passa no mundo?”, foi a resposta do marido. Pois se no enterro de José Saramago se recordou esse facto para dizer que no mundo, segundo os jornais, o que se havia passado era que tinha morrido um homem bom, um imprescindível, hoje pode acrescentar-se que os meios de comunicação, as livrarias, as bibliotecas contam nestes dias de agosto que um grande escritor está em festa de aniversário e nós com ele. Que não se foi, por isso, contrariando o jornal mexicano La Jornada que escrveu em manchete quando o escritor do Brasil morreu “Adiós, Amado”, hoje, na Fundação José Saramago o que dizemos, e connosco os que visitam a exposição e leem os seus livros é “Olá, Amado”."