Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 9 de maio de 2020

"Uma pessoa da família" publicado em 1986 na revista "Status" e agora recuperada na edição #75 da revista "Blimunda" (Agosto de 2018)

O presente texto pode ser consultado e recuperado aqui

"Em 1986, a extinta revista brasileira Status publicou um texto de José Saramago sobre a relação de Portugal com a literatura brasileira e vice-versa. Naquela altura o escritor mantinha na mencionada publicação uma coluna intitulada Notas do Ultramar. Em 1998, dias após José Saramago ser proclamado Prémio Nobel de Literatura, a também brasileira revista Bravo! recuperou a citada crónica e publicou-a. Agora, 20 anos após essa segunda vida do texto cujo título é «Uma pessoa da família», chegou a vez da Blimunda divulgá-lo."

Revista Blimunda - Capa da edição # 75 - Agosto de 2018

"Dizia-me aquele português em São Paulo, ou, por maior rigor, de São Paulo, pois aí vive e trabalha e daí não pensar retirar-se, dizia-me ele sorrindo com a amizade que guarda e a ironia que ao acaso lhe parecia adequada. “Sabe você como já chama os brasileiro a Fernando Pessoa?”. Levantei um sobrolho perplexo e inquisitivo, esperei o fim da pausa retórica que, pelos vistos, o meu amigo queria prolongar, enfim acedi a entrar no jogo: “Chamam-lhe Fernando Pessoa, suponho”. O tom provocador que eu dera à resposta não lhe apagou o sorriso, e as palavras seguintes vieram tocadas por um certo ar de comiseração que ainda mais afiava a ironia: “Chamam-lhe grande poeta da língua portuguesa, pois então”. Compreendi onde ele queria chegar: “Não dizem grande poeta português?” E ele, empurrando a faquinha: “Cada vez se vai dizendo menos”.
Confesso que não gostei. O meu patriotismo literário ofendia-se com a ligeireza, a sem-cerimónia dos irmão brasis, ou primos, que, não pensando, obviamente, em discutir ou ignorar a grandeza do poeta, decidem escamotear-lhe a nacionalidade, tomando como fundamental, quem sabe, a própria sentença de Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Disse ao amigo que a atitude configurava forte abuso, que realmente o Brasil sofria de vertigem imperial e que, por esse andar, acabariam por levar-nos o próprio Luís de Camões, ou o Eça de Queiroz, e a Deus, graças por dos mais escritores portugueses conhecerem tão pouco. Exprimi um mau humor nacionalista porventura louvável, mas, logo o percebi, culturalmente pueril.
As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando sobretudo cair na tentação da avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa. Não estou a brincar com as palavras, pelo menos não mais do que o gosto de ordená-las ao longo de um pensamento para tentar exprimi-lo com a maior clareza possível. Se os brasileiros chamam a Fernando Pessoa de grande poeta da língua portuguesa é porque o admiram e respeitam, porque o desejariam seu. Bom proveito, então, lhes faça tanto mais que Fernando Pessoa é bastante grande para satisfazer dois países e povos, e ainda sobejar Pessoa. também eu desejaria que Manuel Bandeira fosse meu como igualmente desejaria que o fosse Antonio Machado, nascido aqui ao lado, em Espanha, e esse, provavelmente, é o único caso em que uma coisa dividida se tornará tanto maior quanto mais dividida estiver. Tomem pois os brasileiros, para si, a Fernando Pessoa, que não ficaremos mais pobres por isso. Pelo contrário. A cultura a que Fernando Pessoa pertence é a cultura da fala e da escrita portuguesa, aquela pátria única que ele, em palavras brevíssimas e lapidares, como convinha, definiu de uma vez para sempre.
Mas seria mais útil que nos entendêssemos quanto ao resto. Essa cultura de que a língua portuguesa é o veículo e o instrumento não principiou no dia 7 de setembro de 1822, quando a independência do Brasil foi proclamada. Para trás não ficavam o caos, o tempo das trevas, a brutalidade da ignorância. Para trás ficava, sim, um formigueiro cultural com quase 700 anos de trabalho miúdo e algumas grandes empresas. Usando a metáfora mais luminosa, de ar livre e céu aberto, a parte visível da cultura que diremos brasileira emerge e assenta, como parte visível de um iceberg, sobre a massa profunda da história e da cultura portuguesa. 
A cultura brasileira tem uma pré-história, e essa, dêem-lhe as voltas que entenderem é, e não pode deixar de ser, a cultura portuguesa. Levem-nos o Fernando Pessoa, mas não julguem que levam tudo com ele. Compete aos brasileiros, claro está, responder se proclamaram o nascimento de sua cultura na mesma data em que proclamaram a independência nacional, ou se reconhecem como também seu aquele remoto ano em que uma palavra se descobriu portuguesa, para, sendo história, começar a ser cultura.
Tranquilizai-vos, porém. Cuido saber dos fatos da vida o suficiente para não ceder à ingenuidade, senão à estupidez, de considerar as culturas brasileira e portuguesa como meramente e mutuamente complementares de um só corpo cultural, o que, por caminho tão vicioso, equivaleria a querer meter num saco de conflitos todas as culturas de língua portuguesa, a pretexto de uma história em parte comum, ainda que sombria e sangrenta, como tantas vezes o foi. Sou pouco de impérios, velhos ou novos. O Brasil e Portugal vão, cada um por seu pé, aonde tiverem de ir, chegarão onde puderem chegar, felizes ou apenas resignados. E não creio que, nas horas más, um possa ajudar o outro: hoje ninguém ajuda ninguém. Mas somos gente de uma imensa família, de uma mesma língua, de uma cultura que é, embora diferentemente, mesma. Se os brasileiros se recusam a aceitar essa evidência, se o dia 6 de setembro de 1822 é, para eles, anterior à criação do mundo, então façam o favor de nos devolver Fernando Pessoas."



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

"Natal" (Fernando Pessoa) - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (23/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/18167.html

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

"Natal... Na província neva."

"Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!"
Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"Sobre Fernando Pessoa" - 30 de Novembro, data em que se assinalam os 81 anos da morte de Fernando Pessoa

30 de Novembro, data em que se assinalam os 81 anos da morte de Fernando Pessoa

25 de Novembro (de 1995)
"Sobre Fernando Pessoa: 
«Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, isto é, arrumando palavras de uma certa maneira. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um Camões muito maior do que o antigo, mas, sendo uma criatura conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Ainda bem. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um Camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca antes visto em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Num movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E como estes, Fernando e a imagem que não era sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: "Chamo-me Ricardo Reis." O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para gozar. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: "Chamo-me Alberto Caeiro." O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há dois sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem do tipo daqueles que têm saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: "Chamo-me Álvaro de Campos", mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: "Chamo-me Bernardo Soares", e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e de poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro à sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar, pediu que lhe dessem os óculos: "Dá-me os óculos", foram as suas formais e finais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os quis ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente la´estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoas nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 204 a 206 (25/11/1995)

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

30 de Novembro, data em que se assinalam os 81 anos da morte de Fernando Pessoa

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"Camões, Pessoa, Saramago : trois géo-stratégies littéraires" Conferência de Diogo Sardinha - Festival L'Incertitude (Paris - 3/11 18h30m)


Via Twitter
@BiblioGulbenkian
"Bibliothèque en Sciences Humaines sur le Portugal et les pays de langue portugaise. Retrouvez-nous également sur Facebook"

https://www.facebook.com/BibGulbenkian/
http://bibliotheque.gulbenkian-paris.org/


[#Festivalincertitude] Conférence : Camões, Pessoa, Saramago : trois géo-stratégies littéraires, par Diogo Sardinha, le 3 novembre à 18h30

"Camões, Pessoa, Saramago : trois géo-stratégies littéraires"

"José Saramago a imaginé, dans son roman "Le Radeau de pierre", un phénomène géologique par lequel la péninsule Ibérique se détache du sud de la France et se met à naviguer sur l'océan Atlantique, traînant l’Espagne et le Portugal vers une nouvelle destinée maritime. Paru en 1986, le livre fait écho à l’œuvre de deux écrivains majeurs, Camões, auteur du poème épique "Les Lusiades" qui, au XVIe siècle, chante le voyage de Vasco de Gama ; et Fernando Pessoa qui, au début du XXe siècle, met en vers le Portugal de la fin d’empire. Trois moments historiques sont ainsi recréés, fictionnés et fixés par le génie de trois écrivains. Nous prendrons leurs textes comme des visions des mondes qui leurs sont contemporains et des propositions pour ce que ces mondes allaient devenir.

Diogo Sardinha, ancien président du Collège international de philosophie, formé dans les universités de Lisbonne et de Paris-Nanterre, a travaillé aux universités Catholique de São Paulo, Freie de Berlin et Columbia de New York. Il est l’auteur d’"Ordre et temps dans la philosophie de Foucault" (2011) et de "L’Émancipation de Kant à Deleuze" (2013).

Organisé en partenariat avec le Centre de philosophie des sciences de l'université de Lisbonne."

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Dias do Desassossego - 16 a 30 de Novembro - Pessoa e Saramago nas ruas de Lisboa


Aproxima-se o mês de Novembro. 
De 16 a 30 com inúmeras actividades à volta de José Saramago e Fernando Pessoa.
Da Casa dos Bicos sede da Fundação José Saramago 
até à Casa Fernando Pessoa em Campo de Ourique.


terça-feira, 15 de março de 2016

Discurso perante o presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso pela atribuição do Prémio Camões (Cadernos de Lanzarote Diário IV - 26/01/1996)

26 de Janeiro (de 1996)
"Mais uma obrigação cumprida à última hora, como em tantas outras ocasiões tem sucedido: desta vez, as palavras com que irei agradecer ao presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, a entrega do Prémio Luís de Camões. Em casos destes, as conveniências aconselham um discurso «politicamente correcto», sem surpresas, um discurso que cumpra o horário, pare em todas as estações, e sobretudo não descarrile. Pensei, contudo, que uma viagem tão longa e um acto previsivelmente tão solene mereciam um grãozinho de fantasia irreverente - e a oração saiu assim: 

«Senhor Presidente, permitir-me-á que reserve para o fim as palavras formais de agradecimento, não porque elas não sejam devidas já, mas porque terei de agradecer-lhe, nessa altura, por esperançosa antecipação, muitíssimo mais (imagine!) que a honra que nos deu, a minha Mulher e a mim, ao convidar-nos a vir ao Brasil, eu, para receber das suas mãos o Prémio Luís de Camões, ela, porque aonde vai um, vai o outro. 
«Desde que cheguei à idade do entendimento, ando a ouvir dizer, com encorajadora insistência, que Brasil e Portugal são dois países irmãos, de sangues cruzados e linfas misturadas, e muita história de ida e volta. Quando aqui há uns anos demos por que a pena inconstante e vária de Fernando Pessoa tinha escrito aquilo de ser a pátria dele a língua portuguesa, e, portanto, por extensão, a de todos nós, acredito que os mais idealistas desta costa e da outra, das africanas também, terão pensado que se encontrava ali a chave mágica, graças à qual acederíamos a possibilidades mais fraternas e frutuosas de encontro e de diálogo. Se a língua portuguesa era realmente pátria, então era a pátria de quantos pensavam, falavam e escreviam português, logo, afinidade de espírito e sensibilidade, bandeira e pregão de todos. Se algo faltasse ainda a essa nova pátria para ser pátria geral, que não desesperássemos, porque o tempo resolveria os problemas, e todo o mais nos havia de vir por acréscimo. Entretanto, trataríamos de convencer-nos, a nós próprios e às gerações, repetindo, até à náusea, que a nossa pátria é mesmo a língua portuguesa. Pobre e sofredora pátria essa, digo eu, tão mal ensinada, tão real aprendida, inçada grotescamente de estrangeirismos inúteis, instrumento que já parece em risco de perder a necessidade e a serventia! 
«Talvez que uma língua partilhada, a nossa ou outra qualquer, com Pessoa ou sem Pessoa para proclamá-lo, possa vir a constituir-se, de facto, em uma certa forma de pátria. Mas, então, aquilo que estivesse a faltar-lhe para ser pátria suficiente, não só nunca lhe viria por simples acréscimo como seria isso, precisamente, o que iria dar-lhe o verdadeiro sentido. Di-lo-ei em palavras directas e sem retórica: interesses comuns, objectivos comuns, trabalho em comum. Os nossos registos históricos de nascimento continuam a demonstrar que somos parentes, mas as páginas das respectivas biografias colectivas estão cheias de mal-entendidos, de indiferenças, de mútuas desqualificações, de mesquinhos egoísmos, de muita conversa e pouca obra. 
«Senhor Presidente, não creio que, ao convidar-me a vir ao Brasil receber o Prémio Luís de Camões, a sua intenção tenha sido apenas a de estabelecer, diplomaticamente, um princípio de alternância que, em verdade, já estava tardando. Quero antes pensar que este acto solene significa, no seu espírito, o primeiro movimento de uma mudança de estilo e de acção nas relações culturais entre os países a que chamamos de língua oficial portuguesa. Quero pensar que, num futuro próximo, já que não poderá ser imediato, todos esses países - Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Portugal -, consoante as disponibilidades humanas e financeiras de cada um, possam elaborar e pôr em funcionamento um plano de trabalho conjunto, atento, naturalmente, às circunstâncias e exigências nacionais, mas visando, com um espírito generoso e aberto, a preservação equilibrada e a difusão eficaz da língua portuguesa no mundo, mas também, e sobretudo, no próprio interior dos países que a falam, os nossos. 
«Era nisto que eu pensava, Senhor Presidente, quando comecei por dizer que teria de agradecer-lhe, por antecipação, muito mais que a honra de receber das suas mãos o Prémio Luís de Camões. Como escritor, como cidadão pedestre, peço-lhe que toque o alarme, e que ele se ouça por cima dos mares e das fronteiras. Afinal, talvez Fernando Pessoa tenha tido razão antes de tempo: foram tantas as coisas que ele anunciou para o futuro, que bem pode ser fosse esta uma delas. E não necessito lembrar que nós, os que falamos português, estamos a ser, neste momento, precisamente, um dos futuros de Pessoa... 
«Senhor Presidente, chegou a vez dos outros agradecimentos. Que vão resumir-se, por a mais não poder alcançar a minha eloquência, em cinco palavras: obriga-do, de todo o coração.» 

Não imagino como irá ser recebida em Brasília uma prosa assim. Mas desejaria que, conhecida ela, nunca mais os políticos de cá e de lá nos azoinassem os ouvidos com o nariz-de-cera pessoano de que a nossa pátria é a língua portuguesa... E se o que escrevi não merece tanta consideração, então que se dêem ao trabalho de ler o que realmente se encontra no Livro do Desassossego: 

«Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentido patriotico. Minha pátria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. 
«Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto regio, pela qual é senhora e rainha.» 

Se não me engano na interpretação, a única coisa de que daqui se poderá concluir é que Fernando Pessoa estaria hoje contra o acordo ortográfico... 

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário IV"
Caminho, páginas 31 a 34 (26/01/1996)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Sobre Fernando Pessoa" Texto publicado em "Cadernos de Lanzarote Diário III" (25/11/95)



25 de Novembro (de 1995)
"Sobre Fernando Pessoa: 
«Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, isto é, arrumando palavras de uma certa maneira. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um Camões muito maior do que o antigo, mas, sendo uma criatura conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Ainda bem. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um Camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca antes visto em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Num movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E como estes, Fernando e a imagem que não era sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: "Chamo-me Ricardo Reis." O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para gozar. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: "Chamo-me Alberto Caeiro." O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há dois sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem do tipo daqueles que têm saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: "Chamo-me Álvaro de Campos", mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: "Chamo-me Bernardo Soares", e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e de poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro à sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar, pediu que lhe dessem os óculos: "Dá-me os óculos", foram as suas formais e finais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os quis ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente la´estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoas nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos." 
in, "Cadernos de Lanzarote Diário III"
Caminho, páginas 204 a 206 (25/11/1995)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dias do Desassossego '15 | 16-30 Novembro


Dias do Desassossego – de 16 a 30 de Novembro

Via página da Fundação José Saramago, aqui

"A Fundação José Saramago e a Casa Fernando Pessoa escolheram duas semanas para celebrar a voz dos livros em diversos lugares da cidade e em boa companhia. De 16 a 30 de Novembro, são os livros que estão no centro das atenções: lançam perguntas, rebatem ideias, provocam, inquietam. As duas casas de autor, de Lisboa, apresentam para a 3.ª edição dos Dias do Desassossego um programa que cruza música, cinema, mesas-redondas, acções de animação e promoção da leitura, poesia dita, passeios na cidade –guiado sempre pela literatura.

As duas casas têm vindo a trabalhar conjuntamente, desde há um ano, na promoção da obra de Fernando Pessoa e de José Saramago, e no sentido de estimularem o gosto pelos livros e pela leitura."


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Dias do Desassossego '15 - Pessoa e Saramago nas ruas de Lisboa (16 a 30 de Novembro de 2015)

(Cartaz promocional do evento - 2015)

Pode ser consultado via página oficial da Fundação José Saramago, aqui

Consulte a programação completa dos Dias do Desassossego:

16 DE NOVEMBRO
93º ANIVERSÁRIO DE JOSÉ SARAMAGO
FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
SEGUNDA ÀS 11H30 E ÀS 18H30
ENTRADA LIVRE

A celebrar o aniversário de José Saramago, apresentam-se as bases da Declaração dos Deveres Humanos, a partir de proposta do autor aquando da atribuição do Prémio Nobel, em 1998, e que, desde Junho último, é objecto de debate e de construção no México por académicos e pensadores de várias partes do mundo. Nesta sessão estarão presentes os redactores ibéricos da Declaração.

A seguir, será inaugurada a exposição de fotografias de Alexandre Ermel, da rodagem do filme Blindness, de Fernando Meirelles, adaptação do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, nos 20 anos da sua publicação.

Mais tarde, às 18h30, no auditório da FJS, o grupo de teatro A Barraca apresenta um ensaio aberto de Clarabóia, o segundo romance de José Saramago. Clarabóia foi escrito em 1953 e publicado apenas após a morte do seu autor. No dia em que se cumpre mais um aniversário do nascimento de José Saramago, desvenda-se um pouco desta produção e primeira adaptação do romance.

Ao longo de todo o dia, as portas estão abertas e a entrada é livre na Fundação José Saramago.

DECLARAÇÃO DOS DEVERES HUMANOS
ÀS 11H30

EXPOSIÇÃO: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
DE ALEXANDRE ERMEL
ÀS 11H30

CLARABOIA – GRUPO DE TEATRO A BARRACA (ENSAIO ABERTO)
FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
ÀS 18H30

30 DE NOVEMBRO
80 ANOS DA MORTE DE FERNANDO PESSOA
TEATRO SÃO LUIZ E TEATRO DO BAIRRO ALTO (CORNUCÓPIA)
SEGUNDA ÀS 19H00 E ÀS 21H30
PREÇÁRIO €5 (CADA)

A 30 de Novembro de 1935 Pessoa morre em Lisboa, no Hospital de São Luís dos Franceses, com uma crise de pancreatite aguda. No dia anterior escrevera, mistério ou acaso, aquelas que foram as suas últimas palavras: “I know not what tomorrow will bring”. Passam 80 anos dessa data e, para recapitular e ouvir estas oito décadas, a Casa Fernando Pessoa apresenta um programa de memória e escrita, recriação e leitura. João Grosso retoma a sua elogiada interpretação de Ode Marítima de Álvaro de Campos, peça-chave na engrenagem da centenária Orpheu 2 – Teatro São Luiz, às 19 horas. De seguida, às 21h30, na Cornucópia, Luís Miguel Cintra chama três actores para com ele apresentarem A nossa natural angústia de pensar: Fernando Pessoa e as marcas que deixou na poesia portuguesa, um recital encenado por Luis Miguel Cintra com Guilherme Gomes, José Manuel Mendes e Luísa Cruz

Ao longo de todo o dia, a Casa Fernando Pessoa tem as portas abertas para entrada livre. Às 15 horas oferece uma visita guiada aos que vierem partilhar connosco esta data.

ODE MARÍTIMA
JOÃO GROSSO
SLTM
ÀS 19H00

Encenação e interpretação de João Grosso

A NOSSA NATURAL ANGÚSTIA DE PENSAR:
FERNANDO PESSOA E AS MARCAS QUE DEIXOU NA POESIA PORTUGUESA
TEATRO DO BAIRRO ALTO/TEATRO DA CORNUCÓPIA
ÀS 21H30

Encenação de Luis Miguel Cintra com Guilherme Gomes, José Manuel Mendes e Luísa Cruz

18 DE NOVEMBRO – CONCERTO
MÁRIO LAGINHA TRIO
A BIBLIOTECA DOS MÚSICOS
CENTRO CULTURAL DE BELÉM – PEQUENO AUDITÓRIO
QUARTA ÀS 21H00
PREÇÁRIO €7,5

Em A Biblioteca dos Músicos o Mário Laginha Trio revisita leituras para fazer um concerto de temas dedicados a grandes romances e autores, personagens que não se esquecem, poemas que se sabem de cor.
Nesta passagem das páginas à música, vamos conhecer as bibliotecas e as referências pessoais de Mário Laginha (piano), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria).

Em estreia, duas peças inéditas dedicadas a José Saramago e a Fernando Pessoa.

19, 20 E 21 DE NOVEMBRO – FILMES
INADAPTAÇÕES: FILMES COM LIVROS
CINEMA MONUMENTAL, SALAS 3 E 4
PREÇÁRIO €5

Filmes com livros dentro, filmes sobre livros, filmes desassossegados pela literatura: um ciclo sobre os modos de inscrição da escrita e da leitura no cinema, e sobre os diálogos possíveis (além da adaptação) entre ideias de cinema e ideias de literatura, em colaboração com o projecto Falso Movimento: Estudos sobre Escrita e Cinema*, do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa.
Escolhas e apresentações de Pedro Mexia, Tiago Baptista, Osvaldo Silvestre e Mário Jorge Torres.

Por Pedro Mexia
A SERIOUS MAN / UM HOMEM SÉRIO
DE ETHAN COEN E JOEL COEN
QUINTA ÀS 21H30

Por Tiago Baptista
JUVENTUDE EM MARCHA
DE PEDRO COSTA
SEXTA ÀS 21H30

Por Osvaldo Silvestre
IN THE MOUTH OF MADNESS / A BÍBLIA DE SATANÁS
DE J. CARPENTER
SÁBADO ÀS 19H00

Por Mário Jorge Torres
ALL THAT HEAVEN ALLOWS / O QUE O CÉU PERMITE
DE DOUGLAS SIRK
SÁBADO ÀS 21H30

*O projecto Falso Movimento: Estudos sobre Escrita e Cinema (PTDC/CLE-LLI/120211/2010) é um projecto do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa.

20 E 27 DE NOVEMBRO – MESAS – REDONDAS
SE A LITERATURA SALVA?
PEDRO SANTOS GUERREIRO E LUÍS CAETANO

“Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.” Hélia Correia

Luís Caetano (Antena 2) e Pedro Santos Guerreiro (Expresso) convidam para uma conversa sobre literatura e experiências de leitura pessoas para quem os livros – seus autores, imaginários, poéticas, personagens – são parte importante, vasta e fundamental do seu trabalho ou pensamento. Que livros fizeram estes leitores?

TIAGO RODRIGUES E ANTÓNIO MEGA FERREIRA
COM PEDRO SANTOS GUERREIRO
DIA 20, SEXTA, NA FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
ÀS 18H30

LABORINHO LÚCIO E GABRIELA CANAVILHAS
COM LUÍS CAETANO
DIA 27, SEXTA, NA CASA FERNANDO PESSOA
ÀS 18H30

21 E 28 DE NOVEMBRO – NA CIDADE
PASSEIOS LITERÁRIOS
PERCURSOS ENTRE A FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO E A CASA FERNANDO PESSOA
DURAÇÃO 180’ APROX.
PREÇÁRIO 10€
MARCAÇÕES: geral@misslisbon.com (LOTAÇÃO LIMITADA)

Para os dois sábados propomos passeios por Lisboa à procura de sinais e vestígios deixados pelos escritores nos seus celebrados textos. Pessoa e Saramago motivam estes percursos que servem de ponte entre as duas casas de autor da cidade.

A LISBOA DE FERNANDO PESSOA
SÁBADO, DIA 21 ÀS 10H00
PONTO DE ENCONTRO: LARGO DO SÃO CARLOS

Neste percurso, convidamo-lo a conhecer a Lisboa de Fernando Pessoa, passando pelos locais da cidade que marcaram a sua vida e obra. Percorremos as ruas, os cafés, as paisagens e alguns locais onde habitou, ao som da sua poesia.

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS
SÁBADO, DIA 28 ÀS 14H00
PONTO DE ENCONTRO: FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, cruzam-se Ricardo Reis, Lídia e Fernando Pessoa. Neste passeio revisitamos os locais referidos na obra, pontuando-os com a leitura de excertos do romance.

27 DE NOVEMBRO – MÚSICA E POESIA
A VOZ DOS LIVROS
MUSICBOX
SEXTA
PREÇÁRIO €7,5

BRUTA / DOUTOR TRISTEZA
MIA SOAVE
ÀS 23H00

Lançamento do CD e livro Bruta/ Doutor Tristeza. Bruta/ Doutor Tristeza junta a antologia Doutor Tristeza (organizada e prefaciada por Henrique Manuel Bento Fialho) “do decadente poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884 – 1914), primo em doidice dos poetas interpretados por Ana Deus e Nicolas Tricot com Bruta (CD), canções feitas a partir de textos de poetas internados em hospitais psiquiátricos, e outros mais ou menos delirantes, como Ângelo de Lima, Stela do Patrocínio, António Gancho, Mário de Sá Carneiro, Sylvia Plath, António Joaquim Lança e António Maria Lisboa.”
Com Ana Deus voz e Nicolas Tricot voz, guitarra, baixo, banjo, flauta e manipulação de objectos

POLITICAMENTE SUSPEITO
RUI HERMENEGILDO E RICARDO HENRIQUES
ÀS 00H30

É do livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica, que nasce o projecto de curadoria musical de Rui Hermenegildo (DJ) e de Ricardo Henriques (autor) cujo ponto de partida é o confronto aí expresso: a música como alienação, a palavra como veículo para a sublimação.

Ao longo dos tempos, a música foi sendo incorporada em diferentes manifestações artísticas, algumas das quais também se apropriavam da literatura, de que a ópera e o cinema constituem, porventura, os exemplos mais significativos. Politicamente suspeito experimenta uma outra união entre a música e a literatura: o resultado será uma obra improvisada em que uma história é contada com recurso a uma selecção de músicas que convocam o sentido de um texto escrito em tempo real.

Se devemos suspeitar da música, chamemos também as palavras para nos libertarmos.

29 DE NOVEMBRO – LEITURAS
A ALMA INQUIETA
LARGO DE SÃO CARLOS
DOMINGO ÀS 17H00
DURAÇÃO 80’ APROX.

Uma viagem literária pelo desassossego, partindo d’O sentimento dum ocidental de Cesário Verde e convocando autores como Almeida Garrett, Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Antonio Tabucchi, Fernando Pessoa, José Saramago.

Leituras de Carla Bolito, Maria João Vicente, Marcello Urgeghe, Miguel Loureiro e Paulo Pinto, concepção de Carla Bolito, Marcello Urgeghe e António Mega Ferreira

O DESASSOSSEGO EM COLECTIVO: A LITERATURA NO ESPAÇO PÚBLICO

Dentro das duas semanas abrangidas pelos Dias do Desassossego, há três programas que irão desenvolver-se com uma dinâmica particular em termos de tempo e público. Têm outra temporalidade, são trabalhos em curso e em crescendo, e prevêem uma relação de maior proximidade com os grupos com os quais vão ser postos em prática: uma experiência de colectivo. Chegando ao final todos reivindicam o mesmo: que a literatura saia à rua.

OFICINA DO DESASSOSSEGO

Os Serviços Educativos da Casa Fernando Pessoa e da Fundação Saramago conceberam em conjunto uma nova oficina para alunos do 10º, 11º e 12º anos, que funcionará na Escola Secundária Pedro Nunes, na Escola Básica e Secundária Gil Vicente e na Escola Secundária com 3.º Ciclo do Ensino Básico Rainha Dona Amélia.

Na Oficina do Desassossego são trabalhados em aula textos de Pessoa e Saramago, através de excertos escolhidos a partir de temas como a identidade, a morte, o amor, a política e a contestação.

Saindo da escola, os alunos irão ler e dizer esses textos a quem passa, a quem se interroga e a quem se deixa desassossegar. Estrela, Santa Apolónia e Alto de Santo Amaro serão as zonas em desassossego.

DESASSOSSEGO SUSSURADO
MIGUEL HORTA COM HOSPITAL JÚLIO DE MATOS

Concretizando uma ideia de inclusão, o mediador de leitura Miguel Horta trabalhará durante três dias com um grupo de utentes do Hospital Júlio de Matos, numa oficina de construção poética. A Máquina da Poesia, metodologia de escrita imaginativa, vai culminar num momento de partilha com a cidade recorrendo a sofisticados sussurradores, para dizer baixinho e a quem passa os poemas que criaram.

No Sábado, dia 28, uma outra oficina será aberta a todos os que queiram viver os dois momentos, o da criação de textos (manhã) e o da saída para rua (tarde), momento de partilha entre os dois grupos e a cidade.

DESASSOSSEGO SUSSURADO
OFICINA ABERTA
FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
DIA 28, SÁBADO, DAS 10H00 ÀS 12H30
ENTRADA LIVRE MEDIANTE MARCAÇÃO (secretaria@josesaramago.org)

PESSOA E SARAMAGO NAS RUAS DE LISBOA
GAU – GALERIA DE ARTE URBANA

Fernando Pessoa e José Saramago fizeram de Lisboa cenário dos seus livros, pelas suas ruas passearam personagens, alimentando inquietações e construindo histórias. Para homenagear os dois escritores, e em parceria com a Galeria de Arte Urbana da CML, convidámos artistas para realizarem num local da cidade um trabalho que tem como ponto de partida os livros, Pessoa e Saramago. O processo de produção poderá ser acompanhado ao longo dos Dias do Desassossego, desvendando no final uma nova peça de arte urbana que, como todas, durará o tempo da efemeridade.

PARCEIROS DE PROGRAMAÇÃO:

A BARRACA
SLTM
TEATRO DO BAIRRO ALTO/CORNUCÓPIA
FALSO MOVIMENTO: ESTUDOS SOBRE ESCRITA E CINEMA
MEDEIA MONUMENTAL
MISS LISBON
MUSICBOX/CTLISBON
MIA SOAVE
TNSC
ABBC
GAU – GALERIA DE ARTE URBANA
CCB
HOSPITAL JÚLIO DE MATOS
PORTO EDITORA

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Do blog O Caderno, recuperação do post "Da impossibilidade deste retrato" em duas partes (22/23 de Abril 2009)



Pode ser consultado e lido, aqui em 
"Da impossibilidade deste retrato"
"Este texto foi prólogo do catálogo de uma exposição de retratos de Fernando Pessoa na Fundação Calouste Gulbenkian no princípio dos anos 80, creio que em 85. Por me parecer que não viria fazer má figura neste blogue, aqui o trago.Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas. Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia."
(fim da primeira parte)



"Da impossibilidade deste retrato (2)"
"Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o. A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam. É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: “Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é”. No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.

Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.

Mas os pintores vão continuar pintando."

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

67 razões para ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis"...


1. Vapor Highland Brigade faz escala em Lisboa

2. 16 anos depois regressa do Rio de Janeiro - Hotel Bragança

3. Visita túmulo de FPessoa no cemitério dos Prazeres

4. Lídia ...
 
5. Lisboa debaixo de chuva e vento... uma constante

6. Passagem de ano 1/1/1936, meia noite e meia hora; Lídia sobe ao quarto; depois Fernando Pessoa sentado no sofá, abraçaram-se, fazem promessas de novos encontros para colocar o diálogo em dia

7. Lídia e Ricardo Reis dormem juntos

8. A forçada ida ao Dona Maria e as apresentações a Marcenda e seu pai Dr. Sampaio

9. Depois do teatro aparece de novo Fernando Pessoa e mais tarde Lídia

10. Ricardo Reis conversa longamente com Marcenda na ausência do Dr. Sampaio

11. Jantam os três na mesma mesa

12. Primeiros mixericos de "sunânbulismo" pelos corredores numa alusão às incursões de Lídia no quarto de Ricardo Reis

13. Leitura de "conspiração" de Tomé Vieira

14. Por curiosidade Ricardo Reis assiste ao cortejo fúnebre do "mouraria" assassinado por José Rola, tal ajuntamento é o exemplo das piores profissões em desfile

15. Encontros vários com Pessoa

16. As esquerdas ganham as eleições em Espanha vêm famílias fugidas

17. Estado febril e o aconchego e cuidados de Lídia

18. Ofício da PVDE e o boato corre depressa no hotel

19. Dr. Sampaio evita o contacto... Marcenda deixa bilhete por debaixo da porta do quarto de Ricardo Reis... encontro amanhã no Alto de Santa Catarina

20. Pessoa aparece, falam, Ricardo Reis pede-lhe que não esteja presente porque Marcenda estará a chegar... esta pede desculpa pelo pai, deixa morada para saber de novidades do interrogatório. .. afinal de contas Pessoa manteve-se invisível para Ricardo Reis

21. Interrogatório que não o era mas Ricardo Reis assim entendeu. O Doutor-Adjunto e o subalterno Victor (este amigo do gerente do hotel Bragança) deixaram passar em claro alguma ríspidez de Ricardo Reis. Entretanto descansado envia carta para Coimbra.

22. Pondera deixar o Bragança. Continua o mau tempo por Lisboa



23. Aluga casa no Alto de Santa Catarina perto do local onde se encontrou com Marcenda às escondidas

24. A despedida do hotel Bragança e a mudança para a casa nova.... os 2 velhos no jardim do Alto de Santa Catarina são uma constante

25. Lídia aparece de surpresa. Virá fazer a faxina. Marcenda estará para chegar. A melancolia de um homem sem nada para fazer.

26. A semana de ansiedade. O serviço de Lídia. A vizinhança alcoviteira. As novas rotinas.

27. Marcenda aparece de surpresa. O beijo apaixonado.

28. Ricardo Reis entra lentamente ao serviço... arranjou um lugar de médico em substituição

29. As estranhas ideologias fascistas na Europa e os "bodos" pela mediocridade nacional

30. Fernando Pessoa que não tem dado sinal


31. Troca de correspondência com Marcenda... recebe um subscrito violeta... relutância em abrir para saber as novas... paralelo no futuro com As Intermitências da Morte (a cor, coincidência??)

32. A visita de Fernando Pessoa

33. A PVDE através do agente Victor rondando a porta

34. Ricardo Reis lê a Fernando Pessoa as novidades do mundo e de Portugal... os mortos perdem a capacidade de ler, debatem a novidade de Portugal e Alemanha utilizarem o divino como avalista político

35. Episódio com Lídia que volta para a faxina semanal... a tentativa de um acto sexual falhado por incapacidade de Ricardo Reis lhe poder responder... a rispidez deste e a tristeza de Lídia

36. Ricardo Reis recebe a visita de Marcenda no consultório... há desejo reprimido. Um inesperado pedido de casamento prontamente recusado... e "um dia" na despedida

37. Outra carta violeta chegada de Coimbra.... esta matando e acabando o que não poderia ter começado.... "não responda"

38. Continuam os ecos perigosos das guerras... Addis-Abeba arde... 

39. Visitas de Lídia, teorização sobre a duplicidade da mulher a dias e da amante

40. Apanha no Rossio comboio a caminho de Fátima... por conversas com Marcenda, Fátima seria para o Dr. Sampaio uma última esperança para a maleita da filha

41. Os caminhos e as gentes a caminho de Fátima, os milagres que não aconteceram, a impressão que Ricardo Reis ganha pela inadaptação àquele lugar e ao que representa

42. O regresso a Lisboa, as visitas de Lídia e Fernando Pessoa... este apercebe-se que o hálito a cebola estará nas imediações da sua casa... sinónimo de contínua vigilância do agente Victor e da PVDE. Perde o lugar no consultório. Equaciona voltar ao Brasil

43. Fernando Pessoa e Ricardo Reis abordam o Estado e contestam Salazar. Episódio do anúncio de António Ferro e do simulacro de um "ataque aéreo ao Rossio por inimigo desconhecido"

44. As aparições de Fernando Pessoa cada vez mais espaçadas ... passam 6 meses da morte... o esquecimento... o medo de se perder

45. Ricardo Reis sem consultório e pouca vontade de exercer deixa-se levar pela preguiça dos dias... dorme ... dorme

46. Dia da Raça. Fernando Pessoa apercebe-se que sobre Camões não escreveu... inveja?


47. Lídia confessa a Ricardo Reis o atraso de 10 dias... Virá filho de pai incógnito? 

48. Ricardo Reis e Fernando Pessoa em nova visita abordam os vários heterónimos, a estátuas que são retiradas e a questão do filho indesejado

49. Espanha e as revoltas, Franco... abordagem à ingenuidade que paira sobre as ilusões criadas à volta da Mocidade Portuguesa e a Juventude Hitleriana

50. Fernando Pessoa que não tem aparecido. Ricardo Reis vai aos Prazeres. 4371 é onde se dirige

51. General Milan d'Astray a caminho da guerra em Espanha estará de passagem por a Lisboa, isto inquieta Ricardo Reis ao ponto de procurar Fernando Pessoa

52. O contínuo desleixo de Ricardo Reis. O pequeno rádio para ouvir as novas. Os espanhóis exilados no hotel Bragança e nos Estoris que retornam a uma Espanha com novos poderes e governos nacionalistas

53. Ricardo Reis e a voz dos jornais. Lídia e a voz do irmão comunista

54. Badajoz rendeu-se. A praça de touros será palco da vingança... o cheiro e imagem de sangue dos milicianos prisioneiros corre numa arena de outras lides

55. Franco tomará Madrid para erradicar o mal do comunismo e marxismo. Em Portugal organizam-se demonstrações de nacionalismo em comícios contra esses males dos vermelhos.

56. Ricardo Reis vai ao comício no Campo Pequeno por curiosidade e por alguma convicção. Estão lá os de Itália, Alemanha e Espanha. O comício apela à criação de uma legião cívica... terá camisa verde para não copiar os seus iguais da Europa.

57 . Lídia há muito que não aparece. Ricardo Reis está num contínuo estado de desleixo... passa os dias a dormir... escreveu uma carta a Marcenda que a rasgou ... mas seguiu um verso para a posta restante de forma anónima...

58. Lídia apareceu... desespero dela... o irmão irá no Afonso de Albuquerque e outros barcos para uma suposta revolta... tem medo... nem o peso de carregar um filho de homem que não o quererá como um pai quer a um filho lhe afronta tanto como a vida do irmão... desespero...

59. Ricardo Reis descerá à beira do rio... vê os hipotéticos futuros revoltosos barcos em hora de almoço... vê passar o zepellin Hindemburgo que vem largar correspondência para que algum navio a leve para a América do Sul... Victor aparece de surpresa e Ricardo Reis depois de dizer que "estava a observar os barcos e o rio", seguiu caminho como se fugisse do agente do cheiro a cebola

60. Tiros vindos dos barcos. A revolução? RR vem para a rua e afinal é o ataque vem Forte de Almada que disparam contra os barcos... e do Forte do Duque... o Afonso de Albuquerque e Dão são atingidos... rendem-se...


61. Ricardo Reis refugia-se em casa.... chora desalmadamente... "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo"...

62. Ricardo Reis levanta da cama e apronta-se... segue em direcção ao hotel Bragança... a Pimenta e ao gerente Salvador perguntará por Lídia... não estando só poderia estar em socorro ou de novidades do seu irmão revoltoso...

63. O jornal do dia seguinte dá notícia da morte de doze marinheiros, feridos e outros presos. Daniel Martins, irmão de Lídia morreu...

64. À noite Pessoa apareceu... sentaram-se e assim ficaram... o inevitável anúncio... os nove meses de transição que Fernando Pessoa tinha falado passaram... "não nos tornaremos a ver"

65. Ricardo Reis levanta-se, pega no livro que nunca conseguira ler, aquele que não devolveu da viagem de regresso no Highland... "the god of the labyrinth"... então vamos disse... não conseguirá ler é a primeira virtude que perde com a morte... deixo o mundo aliviado de um enigma

66. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis

67. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera.

Epígrafe "Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa" José Saramago

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Citador #27 ... Pessoa e Reis num hipotético diálogo envolto em inquietude...

Citador #27
em "O Ano da Morte de Ricardo Reis"
Caminho, 11.ª edição, página 144

(...) Se um morto se inquieta tanto, a morte não é um sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre, não de doença, e é por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte, Meu caro Fernando Pessoa, você treslê, Meu caro Ricardo Reis, eu já não leio. Duas vezes improvável, esta conversação fica registada como se tivesse acontecido, não havia outra maneira de torná-a plausível. (...)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"O Caderno" texto para o blog "Sobre Fernando Pessoa" (6/10/2008)

"Põe quanto És no Mínimo que Fazes"
"Para ser grande, sê inteiro: nada 
          Teu exagera ou exclui. 

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
          No mínimo que fazes. 

Assim em cada lago a lua toda 
          Brilha, porque alta vive" 

Ricardo Reis, in "Odes" 

Versos de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, com destaque na exposição "A Consistência dos Sonhos", realizada na Galeria de Pintura do Rei D. Luís, no Palácio da Ajuda.
(Ocorreu de 24 de Abril a 27 de Julho de 2008.)


No discurso que José Saramago proferiu, aquando da cerimónia de abertura da exposição, fez menção ao verso de Ricardo Reis: «Achei que o poema, quando o encontrei por acaso há muitíssimos anos, era um bom lema para a vida, mas não durou muito o esforço para se ser inteiro é de tal ordem que em poucos dias esquecemos que podemos ser inteiros. Nem o Fernando Pessoa o foi...».
Estas palavras são constantes do livro "Uma longa viagem com José Saramago", de João Céu e Silva (página 216 e 217, Porto Editora), quando retrata toda a azáfama que foi levar a exposição a diferentes cidades.

Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1964

Em "O Caderno", Saramago escreve um post para o blog, sobre Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Do super-Camões a Ricardo Reis, passando por Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, o detalhe deste texto é simplesmente magnífico. 

Link para a inserção do blog, 

"Sobre Fernando Pessoa", em 6 de Outubro de 2008 

"Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos."

Caminho
2.ª Edição
Páginas 51 a 54