Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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sábado, 18 de junho de 2016

"6 anos sem José Saramago com o escritor presente, revisitando da sua obra" Texto enviado ao jornal Expresso para publicação na secção "Cartas"

Para o Expresso remeto esta carta e peço publicação

6 anos sem José Saramago com o escritor presente, revisitando da sua obra

Fará dia 18 de Junho seis anos em que se assinala a data da morte de José Saramago. Escritor genial e humanista sempre agitador da consciência mundial, criador de um estilo literário inconfundível que deixou marca na história de literatura escrita em língua portuguesa. 

Não é possível dissociar o criador de Blimunda e Baltasar (Memorial do Convento), da Mulher do Médico e do Cão das Lágrimas (Ensaio sobre a Cegueira), da família Mau-Tempo (Levantado do Chão) - entre tantas outras personagens -, do seu sentido de denunciador e activista social em diversas partes do mundo onde os direitos humanos e do meio ambiente estavam a ser atacados, e que ainda hoje se manifestam sob agressão constante. Assim foi, por exemplo conjuntamente com o fotógrafo Sebastião Salgado na defesa da causa do Movimento Sem Terra, na sua voz apelando à libertação do povo palestiniano ou no apoio à luta da activista Aminatou Haidar pela causa Saharaui.

Passam seis anos, e José Saramago é uma das principais figuras portuguesas que interessa fazer esquecer por parte das “cúpulas institucionais”; por ser incómodo nas verdades cruas e expostas nas suas metáforas que se perpetuam em centenas de reedições das suas obras por todo o mundo e em todas as línguas, e também porque foi (é) brilhante e genial na forma como investido de escritor não se demitiu de ser um valoroso agente de desassossego. 

Vivemos mergulhados num autêntico "Ensaio sobre a Cegueira", que se repete no "Ensaio sobre a Lucidez" a que muitos apetece partir numa "Jangada de Pedra", ou seguir na rota da "Viagem do Elefante", porque as coisas que vivemos não são "Deste Mundo e do Outro".
Quando chegará de novo "A Noite" para que "Os Poemas Possíveis" possam ser de novo musicados?
Às vezes, sinto-me acabado de ser "Levantado do Chão", extenuado depois de uma "Viagem a Portugal", onde "Os Apontamentos" recolhidos são peças soltas de uma passarola construída por um padre alucinado que vive num suposto estado de "Provavelmente Alegria".
"O Ano da Morte de Ricardo Reis" em que este, sendo "O Homem Duplicado" de Pessoa, viveu nas suas "Pequenas Memórias" as "Intermitências da Morte", dentro de uma obscura "Caverna" em que este país se tornou, desde a famosa "História do Cerco de Lisboa".
Os censores andam aí, com a cara destapada ou com uma simples capa vestida, gritam e bramem aos céus "In Nomine Dei", "In Nomine Dei"!!! Também estes, em busca de outra interpretação do "Evangelho Segundo Jesus Cristo" já estão alertados porque "Caim" foi marcado para sempre, e não dará outra oportunidade à "Segunda Vida de Francisco de Assis".
Nesta "Terra do Pecado", onde falta a bondade ao homem, procuramos uma nova luz de esperança e que essa possa chegar sob o signo da "Maior Flor do Mundo". "Que Farei com este Livro", onde constam todas as evangélicas atrocidades cometidas em nome de deuses, por homens raivosos cegos de razão, esses a quem lhes faltou sempre um "Manual de Pintura e Caligrafia" com os nobres valores inscritos para a humanidade.

Rui Mesquita dos Santos
(05/06/2016)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ana Sofia Antunes - A primeira governante cega afirma que vivemos uma ‘cegueira branca’ como a de Saramago



"Ana Sofia Antunes protagoniza uma nova era na política portuguesa em que a integração e a inclusão já não são como verbos de encher. Um mês depois de entrar no Governo como secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia já andava pelos corredores do ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sem fazer uso da bengala ou do braço de alguém. E se no início terá havido excesso de zelo por parte de alguns colegas, depressa todos perceberam que visão política, conhecimento, competência, autonomia e determinação são características que não lhe faltam. Ana Sofia tem andado pelo país a perceber o que deve ser alterado para que as pessoas deficientes tenham as mesmas oportunidades de todos os cidadãos, como o acesso ao trabalho - um dos seus cavalos de batalha. Adepta do rock de “Xutos e Pontapés”, quer fazer política à sua maneira como canta Tim, e revela um lado mais íntimo e pessoal neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Pode ser ouvido através da aplicação Soundcloud, aqui em 

"Logo no arranque deste episódio Ana Sofia Antunes, a primeira governante deficiente visual em Portugal, afirma que a nossa sociedade está contaminada por uma certa ‘cegueira branca’, como a descrita por José Saramago em “Ensaio Sobre a Cegueira”, uma maleita de vistas curtas que nos impede de perceber os outros [diferentes de nós]. Ana Sofia, de 34 anos, é adepta da expressão ‘nada sobre nós sem nós’ e esteve prestes a ser eleita deputada nas últimas legislativas. Colocada em 19º lugar nas listas do PS pelo círculo de Lisboa, foi por um triz que não entrou na Assembleia dado que foram apenas eleitos 18.

Agora no Governo, é o rosto e a voz de todos os portugueses com deficiência em Portugal. Cidadãos que veem nela uma esperança de mudança. "O difícil é gerir as expectativas dos outros." Desde o iníco do ano tem andado pelo país a perceber o que deve ser alterado para que as pessoas deficientes tenham as mesmas oportunidades de todos os cidadãos, como o acesso ao trabalho - um dos seus cavalos de batalha.

O seu caminho enquanto ativista pelos direitos dos deficientes é já longo. Formada em advocacia, trabalhou durante seis anos como assessora jurídica na Câmara de Lisboa (assessorou o vereador da Mobilidade na autarquia, Nunes da Silva), e por dois anos foi Presidente da ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíoples) e provedora do cliente na EMEL (Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa).

Nesta conversa, Ana Sofia esclarece a razão por que detesta a expressão invisual. “É uma palavra que não significa absolutamente nada. É o contrário de visual. É uma expressão que fomos inventando porque achamos que é menos grosseira, menos seca. E eu não acho que haja nada de ofensivo ou duro em dizermos que uma pessoa é cega ou deficiente visual. Porque é essa a característica que marca aquela pessoa. Não temos que ter medo das palavras. As palavras dizem apenas aquilo que dizem.”

Sobre o título polémico que foi capa do Correio da Manhã onde se lia “Costa chama cega e cigano para o Governo” e que gerou 236 queixas à entidade reguladora para a comunicação social, Ana Sofia comentou: “Não lhe dei muita importância na altura. Embora me tenha agradado de alguma forma ver que havia um conjunto de população que estava atenta. Não é pelo facto de me chamarem cega, que é a palavra mais adequada. Lido perfeitamente bem com ela. Agora, enquanto pessoa que vem para o Governo assumir uma função, ser valorizada apenas por essa característica acho pouco... E fizeram [o mesmo] a outros colegas. O Carlos Miguel [Secretário de Estado das Autarquias Locais], daquilo que conheço, tem todo o orgulho em ter ascendência cigana. [Mas] ele não é apenas um cigano que vem para o governo. E digo o mesmo sobre o que disseram da ministra da Justiça [Francisca Van Dunem – a primeira mulher negra a chegar a ministra]. Acho uma palermice!”

Nos tempos de infância a secretária de Estado conta que era Maria rapaz, uma menina destemida e alegre que apesar de não ver, corria como as outras crianças, fazia tropelias e até andava de bicicleta. “Claro que caía muitas vezes de bicicleta, era uma condição da situação em concreto.”

Mas na escola era boa aluna. Com notas de excelência. “Não me lembro sequer de estudar em casa. Era daquelas alunas que apanhava no ar [a matéria]. Repare que quem tem uma deficiência visual está condicionado nos materiais que tem e nos livros que recebe em braille. Portanto muito do que eu ouvia ia retendo. Conseguia fazer asneiras na sala de aula e dar atenção [ao professor] ao mesmo tempo. Pelo menos as notas que eram muito boas diziam isso.”

Neste podcast poderá conhecer os gostos musicais de Ana Sofia, que vão de um fado mais moderno ao pop e ao rock. À pergunta se se imagina no futuro a aceitar ou concorrer a outros cargos com mais destaque no Governo responde: “Não sei. Talvez. Para já estou muito focada e condicionada por aquilo que estou a fazer e pelo muito que tenho que fazer neste mandato. Mas não digo que não. Nunca fui de virar costas a desafios. Portanto, porque não?”

Mas há muito mais para ouvir e descobrir neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues."

Ana Sofia Antunes - Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Inquéritos e dicas... Escolhas de Saramago para o Público e Expresso (05/04/1994)

in, "Cadernos de Lanzarote Diário II"
Caminho, páginas 85 e 86



5 de Abril de 1994

"Mal refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25 de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais marcantes do período que se seguiu, até finais de 1975», dei-lhe rigorosamente as palavras pedi-das, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número "livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio, nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MFA em Tancos, nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos Esperança.» 
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel." 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

28 de Dezembro de 1997 - Comentário às palavras do editorial do jornal Expresso

«Pior do que um mundo com guerras, com fome e com doenças só um mundo de homens todos iguais, pacíficos e saudáveis.» Este foi o pedacinho-de-ouro oferecido pelo Expresso no seu editorial de ontem, provavelmente para acautelar o futuro do negócio. Tem toda a razão: esses homens iguais, pacíficos e saudáveis não leriam certamente o Expresso...