Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos
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quarta-feira, 21 de março de 2018

"Abraço, Carinho, Saudade Dedicatórias para Saramago" por Ricardo Viel (revista Piauí, edição #88 de Janeiro de 2014)

O presento artigo pode ser recuperado e consultado aqui

"Abraço, Carinho, Saudade Dedicatórias para Saramago" 
por Ricardo Viel 
revista "Piauí" edição #88 de Janeiro de 2014



Ilustração: Andrés Sandoval (2013)

"Rubem Braga mandou um abraço num exemplar da Traição da Elegantes, autografado em 1983. O poeta Lêdo Ivo manifestou saudades ao presenteá-lo com A Morte do Brasil. Caetano Veloso, pelo sim e pelo não, anunciou um retrato “distorcido, mas sincero” de sua geração em Verdade Tropical. O econômico Chico Buarque manifestou apenas “carinho” na folha de rosto de Budapeste. José Sarney foi quem mais se derramou. “Ao Saramago, mestre da língua e da ficção, esta história de pescadores do Maranhão, onde não faltam marinheiros das Descobertas, que vagam por todos os mares com as lendas e os encantos do mundo português”, demorou-se em O Dono do Mar.

O visitante curioso – e bairrista – encontra as dedicatórias na seção brasileira da biblioteca que José Saramago, o único Nobel de Literatura da língua portuguesa, mandou construir na ilha espanhola de Lanzarote, onde morou de 1993 até morrer, em 2010. Se Jorge Luis Borges tinha razão e o paraíso for mesmo uma espécie de biblioteca, o ateu Saramago pôde em vida se gabar de ter erguido um aconchegante Éden com vista para o mar.

Levantado no terreno ao lado de sua casa, o edifício pintado de branco tem 100 metros quadrados e a altura de um prédio de dois andares. É cercado por um muro de pedras vulcânicas e enfeitado com uma oliveira portuguesa. Aqui estão guardados 15 mil livros de Saramago, parte da biblioteca que juntou ao longo da vida (milhares de outros volumes foram doados à fundação lisboeta que cuida de seu legado). Um grande feito para quem, como ele, é neto de camponeses analfabetos e só conseguiu comprar seu primeiro livro aos 18 anos.

A construção da biblioteca era um desejo antigo, que se tornou factível depois do Nobel de 985 mil dólares, em 1998. Antes, os livros do português e de sua mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, estiveram por décadas encaixotados no porão da casa. Quando precisavam fazer uma consulta, era mais fácil correr à livraria do que tentar encontrar o título desejado.

Embora houvesse dinheiro, terreno e disposição, a biblioteca demorou a ficar pronta por causa do boom imobiliário na Espanha no começo deste século. Era impossível conseguir pedreiros na ilha do arquipélago das Canárias, a cerca de 130 quilômetros da costa da África e a mil da Península Ibérica. Só em 2006 o prédio ficou pronto.

O processo de catalogação do acervo durou dois anos mais. Os livros estão organizados a partir de critérios definidos por Saramago e Pilar. Ensaio, filosofia, religião, história, jornalismo, política e fotografia têm suas próprias seções. Romance, poesia e conto estão separados por países ou região. Por imposição de Pilar, escritoras ganharam suas próprias estantes para não dividirem espaço com aqueles que não as consideravam suas iguais. “Contra a vontade do Saramago, nesta biblioteca as mulheres estão separadas: são únicas, admiráveis, levadas em conta e queridas”, decretou.

No paraíso do autor do Evangelho Segundo Jesus Cristo e do Ensaio Sobre a Cegueira, há muitos livros sobre religião e ensaios. “Ele comprava muito mais ensaio que romance”, contou Norberto Ruiz Gallego, o livreiro local do escritor. Gallego, o primeiro a abrir uma livraria na ilha de 140 mil habitantes, virou personagem dos Cadernos de Lanzarote, os diários de Saramago. “Finalmente uma livraria em Lanzarote. O livreiro é um homem novo que fala do seu trabalho com entusiasmo”, comemorou o português em 23 de abril de 1994.

“Lembro-me perfeitamente do dia em que ele veio aqui pela primeira vez. Estava com o Pepe, o cachorro, e de cabeça levantada entrou olhando tudo, como se quisesse se assegurar que isso aqui era mesmo uma livraria, não mais um desses lugares que fazem fotocópias, vendem cadernos, canetas e algum ou outro livro”, relatou Gallego. Saramago fez sessões de autógrafo na livraria El Puente, e, sem querer, virou garoto-propaganda do lugar. Logo depois do Nobel, foi fotografado na porta do estabelecimento falando em um pré-histórico telefone celular.

Na biblioteca de Saramago não há exemplares valiosos nem muito antigos. Em frente à mesa onde trabalhava, ficam três sofás de couro que usava para cochilos reparadores. Nas paredes, há retratos de referências literárias (Camões, Drummond e Fernando Pessoa). Sobre os móveis, fotos com amigos e parentes, bonequinhos de Pessoa e Jorge Amado, e uma coleção de miniaturas de elefantes – protagonista de A Viagem do Elefante.

Embora privada, a biblioteca é aberta ao público das dez da manhã às duas da tarde, exceto aos domingos. Com tempo e paciência, encontram-se nas estantes peças de um relicário afetivo. Afora um ou outro item incongruente que melhor caberia na coleção de um Ionesco – exemplo: um exame de sangue de Pilar do ano de 1998 (colesterol e açúcar controlados) –, das primeiras páginas dos livros o que salta mesmo à vista são as dezenas de dedicatórias.

Na seção feminina, mandaram suas saudações Nélida Piñon, Lya Luft e uma animada Bruna Lombardi (“pelo privilégio do encontro”). Os latino-americanos incluem Carlos Fuentes (“arquipélago de amizade”), Mario Vargas Llosa (“sem a pretensão de ensinar nada”), Ernesto Sabato (“com o amor de um irmão”), o nicaraguense Sergio Ramírez (“que tanto quer a José”) e Gabriel García Márquez (que se identifica como “outro que também escreve”). Numa página do romance De Amor e de Sombras, de Isabel Allende, ficou preservada uma declaração de amor de Pilar, em que ela celebra os 24 anos de “amizade e compreensão” entre os dois.

Na seção dos livros escritos por Saramago ou sobre ele, um exemplar em espanhol de Caim, seu último romance, aparece “cordialmente” firmado pelo autor em março de 2010. Era um agrado à família Barede Ramírez, que deixou o livro para ser autografado e nunca passou para recuperá-lo. Foi uma das últimas dedicatórias que Saramago escreveu.

Ricardo Viel"

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

No dia Internacional da Tradução - Revista Blimunda #37 «Pilar tens um trabalho» Entrevista de Ricardo Viel a Pilar del Río

No dia Internacional da Tradução (30/09) destaque à edição #37 da Revista Blimunda, com a entrevista de Ricardo Viel a Pilar del Río - «Pilar tens um trabalho»

Via página do Facebook da Fundação José Saramago (30/09)

"José Saramago dizia que os escritores construíam a literatura nacional e os tradutores eram os responsáveis por fazerem a literatura internacional. 
Neste Dia Internacional da Tradução, a Blimunda recupera as palavras de vários tradutores da obra de José Saramago publicadas no número 37 da revista. 



Conheceram-se em 1986, em Lisboa, graças aos livros. Alguns meses depois a espanhola Pilar del Río, leitora de José Saramago, transformar-se-ia em sua companheira. E passados dez anos seria
«promovida» a tradutora, o que lhe trouxe, além de muito trabalho, a possibilidade de acompanhar ainda mais de perto o processo de criação do autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis – livro que, como costuma contar, a levou a Lisboa para conhecer os lugares do romance e o homem que o havia escrito.
Pilar del Río, jornalista, tradutora e presidenta da Fundação José Saramago, conversou com a Blimunda sobre essa difícil e bela tarefa que é a tradução. «Gosto muito de traduzir, é partilhar amores», dirá no final da entrevista que pode ser lida a seguir:



O seu primeiro contato com o idioma português foi a partir de José Saramago ou não? Lembra-se do primeiro livro que leu?
Os primeiros livros que li em português, por recomendação de José, foram Agosto, de Rubem Fonseca, e Uma Família Inglesa, de Júlio Dinis.

E o primeiro livro de Saramago?
Foi o Levantado do Chão, que na altura em que li ainda não estava traduzido para espanhol.

A primeira tradução que fez foi a de Todos os Nomes, não? Como e por que se decidiu que Pilar del Río seria a tradutora de José Saramago?
Porque Basílio Losada, que era quem o traduzia para o castelhano, anunciou na apresentação de Ensaio sobre a Cegueira que estava a ficar cego e que não voltaria a traduzir. Foi nesse momento que José me disse: «Pilar, tens um trabalho.» Antes, já havia traduzido conferências, artigos e correspondências suas.

Costumava traduzir a obra enquanto Saramago a escrevia, o que penso que não é algum muito habitual entre os tradutores. O que ganhava e o que perdia nesse processo?
Ganhava sempre. Tinha a sorte de assistir de dentro ao processo criativo. Era emocionante.

E quais eram as vantagens de ter o autor tão perto no momento de traduzi-lo?
A vantagem era essa: ter o autor ao lado. É claro, isso intimidava-me e tirava-me liberdade. Eu ouvia a voz do autor e a música do texto, e diante dessa sinfonia sentia-me pobre e pequena. Por sorte também era o suficientemente ousada para não ter um bloqueio de pânico.



E medo, nunca teve?
Sim, sempre me acompanha a sensação de não estar à altura do autor. É o drama, a tragédia dos tradutores.

Não teve nunca vontade de fazer como o revisor da História do Cerco de Lisboa e mudar o rumo de um relato?
Não! Já disse que sou ousada, mas não a este ponto. Quando José escreveu a  História do Cerco de Lisboa ele estava efabulando com a liberdade do escritor e partia de uma ideia tão forte como a separação da Península Ibérica da Europa. Que um revisor ou tradutor modifique um texto até ao ponto de colocar um não onde há um sim é a situação impossível que  José Saramago necessitava para escrever as suas ficções. Tive vontade, como imagino que todos os leitores têm, de dar um empurrão numa personagem, ou puxar-lhe as orelhas, gritar-lhe, mas isso é experiência de leitora, não de tradutora.

Nunca sequer sugeriu mudanças enquanto acompanhava a evolução do livro?
O melhor tradutor é o mais invisível, mas tive duas intervenções na obra de José Saramago que conto com muito orgulho. A primeira foi convencê-lo, quando escrevia Todos os Nomes, que sem luz elétrica um atendedor de chamadas não funciona. Para isso tive que demonstrar-lhe na prática, cortando a luz da casa, e assim evitei que fosse publicado um erro no romance. A outra intervenção foi na última palavra do livro A Caverna. José havia escrito «bilhete». Quando viu que, ao traduzir, eu havia colocado «entrada», ele trocou a palavra e ficou com a minha. E pronto, assim acaba minha influência na obra literária de José Saramago.


As dedicatórias, José Saramago colocava-as no final ou no começo da escrita do livro? E emocionava-se enquanto as traduzia?
Ele colocava-as ao final. E sim, sentia pudor ao traduzi-las, mas jamais lhe pedi que fosse mais ou menos discreto, sim-plesmente agradecia, com a mesma emoção que ele mas entregava. Vinha sempre até ao meu escritório, aproximava-se por trás enquanto eu traduzia o que me havia entregado antes, esperava em silêncio o meu próprio silêncio e... enfim, não digo mais. Duas pessoas diante de uma obra e uma vida compartilhadas.

Dos livros que traduziu algum foi especialmente difícil? Porquê?
Todos os Nomes foi o mais difícil, talvez por ser o primeiro e porque perdi um ficheiro com cerca de 80 páginas traduzidas e que me tinha dado muito trabalho fazer. Fiquei tão deprimida que preferi fazer uma pausa, e viajei para visitar a minha mãe. Desfrutei de uns dias a seu lado, as últimas férias que tivemos juntas. Precisei afastar-me do texto para não desistir. No regresso, decidi deixar para o final as páginas que havia perdido e continuei a tradução. E confesso que encontrei as mesmas dificuldades e dúvidas de quando me propus traduzir aquelas páginas perdidas. Não tinha aprendido nada.

Não teve vontade de traduzir os livros anteriores a Todos os Nomes? E os poemas, arriscar-se-ia?
Não, nunca quis nem quero traduzir obras já traduzidas, ainda que esteja consciente de que serão feitas outras tradu-ções, começando pelos títulos de que me ocupei. E quanto a poesia, jamais me arriscaria, o meu atrevimento tem limites. Para traduzir poesia é preciso ser poeta, acho.

É a tradutora de um só autor?
Quis traduzir o Chico Buarque, mas ainda não era o seu momento em Espanha. E agora estou com um livro do José Luís Peixoto. E sim, já traduzi outros autores e autoras. Gosto muito de traduzir, é partilhar amores.