Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Métailié, a editora francesa que apostou em Agustina, Saramago e Lobo Antunes"

"A editora francesa Anne-Marie Métailié aposta há mais de 30 anos na publicação de autores lusófonos e foi pioneira na publicação de José Saramago e António Lobo Antunes em França."

O artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em http://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/metailie-a-editora-francesa-que-apostou-em-agustina-saramago-e-lobo-antunes?artigo-completo=sim

Foi "uma luta" publicar autores que a França praticamente desconhecia nos anos 1980, mas "valeu a pena", mesmo que Saramago e Lobo Antunes tenham, depois, ido para outras editoras.

"Não tinha muita gente, muitos jornalistas para falar da literatura portuguesa. Foi uma luta. Foi uma luta, mas valeu a pena (...) A editora era muito jovem. Foi fundada em 1979 para fazer ciências sociais e a literatura portuguesa foi logo no começo, depois da literatura brasileira. Num momento de dificuldades da editora, em 85, 86, os homens foram embora. Só ficaram no catálogo a Lídia Jorge e a Agustina Bessa-Luís. As mulheres foram fiéis", explicou, em português, a editora.

Apesar de os ter acompanhado na entrada do mundo editorial francês, Anne-Marie Métailié não ficou chateada com José Saramago nem com António Lobo Antunes quando a trocaram por editoras maiores e ficou amiga de Saramago, "charmoso, tão agradável, divertido, muito respeitoso do trabalho", com quem falava em português porque "ele aceitava" o seu "sotaque brasileiro", lembrou, com um sorriso.

"Com Lobo Antunes tudo era mais complicado, mas eu tinha uma admiração muito grande pela obra dele. A Lídia Jorge é outra coisa porque a gente ligou-se numa amizade muito forte (...) Os Memoráveis, o último livro que publicámos, é um livro muito importante, politicamente é importante, literariamente é importante. Je l’aime!", resumiu, entusiasticamente.

Quanto a Agustina Bessa-Luís, de quem publicou nove títulos, Anne-Marie Métailié fala em "génio" que escreveu "grandes clássicos da literatura mundial".

Fotografia da editora Anne-Marie Métailié

"Antes desse Nobel [de José Saramago], estava na Coupole almoçando com a Agustina. Um jornalista veio perguntar ‘Quem vai vencer o Nobel, o Lobo Antunes ou o Saramago?’ Ela olhou para ele e disse: ‘Eu. A única que merece o Nobel sou eu’", recordou.

Anne-Marie Métailié foi a primeira a publicar em França, em 1987, “Le Dieu Manchot” (“Memorial do Convento”) de José Saramago e, em 1998, quando o autor português venceu o Prémio Nobel da Literatura, a antiga editora estava na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, a passar no ‘stand’ de Portugal no instante em que se soube a notícia.

"Vi uma coisa tão linda, tão linda porque todos os autores estavam muito comovidos, estavam felizes de ver que um autor deles era consagrado assim. A Lídia Jorge estava a chorar de alegria. Toda a gente estava feliz. Era uma festa”, contou.

Ao lado de Pierre L’Église-Costa, diretor literário da coleção “Bibliotèque Portugaise” das Éditions Métailié, Anne-Marie publicou seis romances do angolano José Eduardo Agualusa e quatro do moçambicano Mia Couto, tendo ainda editado, no ano passado, “Os Transparentes” do angolano Ondjaki em nome do seu gosto pelas “variações em torno dos idiomas”.

"Acho que a língua portuguesa original é uma língua muito forte e o que se faz com a língua portuguesa nos países como Angola, Moçambique ou Brasil é muito interessante. O português vem com uma carga de imaginação, de imaginário, que é muito particular. Ler em português abre mais a minha imaginação que qualquer outro idioma”, explicou.

Anne Marie Métailié apaixonou-se pela língua portuguesa através do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, que descobriu na primeira aula de português que teve na Sorbonne e que publicou em 2015.

"O método de ensino de português do professor Boisvert era bem particular. A gente não estudava assim como se faz agora, as frases que você repete... A gente pegou o Machado de Assis, Dom Casmurro, na página 1. A gente ficou a ler, a destrinçar, a gente ficou avançando no romance e no final a gente falava português", contou.

A editora, que também publicou, em francês, obras de Valter Hugo Mãe, Jorge de Sena, Pedro Rosa Mendes, Rui Zink, Eduardo Lourenço, entre muitos outros, foi receber, a 27 de outubro, a Ordem do Infante Dom Henrique na Embaixada de Portugal em Paris.

Além de escritores lusófonos, Anne-Marie Métailié publica, ainda, nomes da literatura latino-americana, islandesa, escocesa, alemã, espanhola e italiana, excluindo autores norte-americanos porque quer "fazer conhecer outros modos de pensar, outros modos de sentir o mundo".

Em 2017, as Éditions Métailié vão publicar "A Rainha Ginga" de José Eduardo Agualusa e “As Mulheres de Cinza” de Mia Couto, esperando também editar em francês uma nova obra de Valter Hugo Mãe."

O catálogo da editora pode ser consultado aqui 

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