Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 26 de outubro de 2014

Johann Sebastian Bach - Suite n.º 6 - Opus 1012 em Ré Maior - O Violoncelista em "As Intermitências da Morte»



(...) "De súbito, a orquestra calou-se, apenas se ouve o som de um violoncelo, chama-se a isto um solo, um modesto solo que não chegará a durar nem dois minutos, é como se as das forças que o xamã havia invocado se tivesse erguido uma voz, falando porventura em nome de todos aqueles que agora estão silenciosos, o próprio maestro está imóvel, olha aquele músico que deixou aberto numa cadeira o caderno com a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach, a suite que ele nunca tocará neste teatro, porque é apenas um violoncelista de orquestra, ainda que principal do seu naipe, não um daqueles famosos concertistas que percorrem o mundo inteiro (...)"

As Intermitências da Morte
Edição de 2005 - Caminho
Página 174



Bach : Solo Cello Suite, No. 6, in D Major, BWV 1012 : Prelude

Robert Schumann - Fantasia Opus 73 - O Violoncelista em "As Intermitências da Morte»



As Intermitências da Morte
Edição de 2005 - Caminho
Página 155

(...) «A morte seguiu pois pelo corredor até à primeira porta à direita de quem entra e por aí passou à sala de música, que outro nome não se vê que deva ser dado à divisão de uma casa onde se encontra um piano aberto e um violoncelo, um atril com as três peças da fantasia opus setenta e três de robert schumann, conforme a morte pôde ler graças a um candeeiro de iluminação pública cuja esmaecida luz alanrajada entrava pelas duas janelas (...)» 


Schumann Fantasiestücke Op 73
Gautier Capuçon cello 
Martha Argerich piano
Verbier Festival 2011

sábado, 25 de outubro de 2014

As origens e lugares de referência - Rio Almonda

O rio Almonda, vem mencionado na obra biográfica, "As Pequenas Memórias", onde José Saramago aborda as recordações de juventude, o contexto familiar e a vida social em Portugal, quer seja em Lisboa ou na Azinhaga.
Aqui, na terra dos seus avós maternos, corre o rio Almonda em direcção à sua junção com o rio Tejo.

Refêrência via Wikipédia em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Almonda

"O Almonda é um rio português que nasce na Serra de Aire a 5 km a noroeste de Torres Novas, na vertente da Serra de Aire, perto de Almonda, a que deu o nome, e de Casais Martanes. No seu percurso de 30 quilómetros atravessa os municípios de Torres Novas e da Golegã onde desagua na margem direita do Tejo

O rio Almonda segue o seu curso desde a nascente situada em Moinho da Fonte, depois entre a Ribeira Branca e a Ribeira Ruiva, banha a povoação de Lapas, serpenteia a cidade de Torres Novas e desagua no rio Tejo, no sítio da Igreja Grande, no concelho da Golegã. No total, o seu percurso é de cerca de 30 quilómetros.

O rio é atravessado por mais de duas dezenas de pontes e teve importância decisiva no desenvolvimento agrícola e industrial do concelho de Torres Novas. Prova disso é o facto de ainda existirem ao longo do seu percurso (pelas diversas aldeias e até mesmo dentro da cidade de Torres Novas) antigos moinhos movidos pelas suas águas, embora grande parte deles já se encontrem em ruínas. Existe também dentro de Torres Novas uma pequena central hidroeléctrica, onde se produzia electricidade a partir das suas águas."




Rio Almonda. Lugar. Margens de rio, exploração e travessias várias, de actividade piscatória e rega dos campos de cultivo.
A referência é bastante presente no livro "As Pequenas Memórias". Logo no início, Saramago apresenta a desenvoltura de uma criança que se aventura pelos campos e margens do rio almonda. Menciona que o medo dos cães não o impede de se aventurar pelos campos fora e à inexistência de outras possibilidades para ocupar o tempo, a comunhão com a natureza fica demonstrada desde a infância. Este espírito desassossegado, mas de paz com a mãe natureza, depreendo, o acompanhará em toda a vida. Da Azinhaga até Tias em Lanzarote, existe no homem uma paz permanente com a natureza pura, que não raras vezes se revolta contra a ocupação bruta da industrialização. Para mim, e como eu o poderei afirmar com esta leviandade de narrador, a paz e felicidade que Saramago viveu ao conseguir com  muito custo físico, subir a montanha de terra vulcânica em Lanzarote, no meio de uma paisagem quase inóspita, representa a fidelidade com que o espírito da criança (do meio rural) sempre transportou até ao fim dos seus dias.
Seria Saramago, um humanista descontente com o homem?, com as suas fraquezas de consciência para com o legado da natureza e sua necessidade de a preservar? 
Não o podendo afirmar, posso acreditar que esta preocupação sempre esteve presente.

Página 18 e 19 da 1.ª edição - Caminho

"Então digo à minha avó: «Avó, vou dar por aí uma volta.» Ela diz «Vai, vai», mas não me recomenda que tenha cuidado, nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam. Meto um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge, pego num pau para o caso de ter de me defender de um mau encontro canino, e saio para o campo. Não tenho muito por onde escolher: ou o rio, e a quase inextricável vegetação que lhe protege as margens, ou os olivais e os duros restolhos de rio já ceifado, ou a densa mata de tramagueiras, faias, freixos e choupos que ladeia o Tejo para jusante, depois do ponto de confluência com o Almonda, ou, enfim na direcção do norte, a uns cinco ou seis quilómetros da aldeia, o Paul do Boquilobo, um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso.» 

Humberto Werneck entrevista José Saramago para a Playboy Brasil - 1995

O mundo literário e o outro, aquele que poderei chamar de civil, sempre demonstrou muita curiosidade e respeito pelo homem - José de Sousa Saramago - que escrevia e pensava na forma de José Saramago.
Aqui se transcreve na integra a entrevista de Humberto Werneck, editor chefe da Playboy Brasil, realizada em Lanzarote, datada de 1995



Entrevista Aqui
http://umcadernoparasaramago.blogspot.pt/2010/06/o-cidadao-portugues-jose-de-sousa.html?m=1

O cidadão português José de Sousa Saramago é um daqueles casos nada comuns de alguém que, já na idade madura, deu uma guinada radical na vida. Vinte anos atrás, estava ele, cinqüentão, solidamente estabelecido em Lisboa e num segundo casamento; vivia de traduções e tinha atrás de si uma breve experiência como jornalista. Nas horas vagas, administrava uma discreta carreira literária, iniciada na juventude com o romance Terra do Pecado, interrompida em seguida por quase duas décadas e desdobrada, a partir de 1966, numa dezena de livros que não chegaram a fazer barulho, a maioria deles coletâneas de poemas e de escritos jornalísticos. Nada permitia supor que José Saramago viria a se tornar quem hoje é: às vésperas de completar (no mês que vem) 76 anos de idade, um romancista lido e admirado em todo o mundo, traduzido para 21 idiomas e insistentemente apontado, desde 1994, como um dos favoritos para ganhar Prêmio Nobel de Literatura, tradicionalmente anunciado no mês de outubro e que seria o primeiro concedido a um autor de língua portuguesa.

Pois foi aí, já quase sexagenário, que a vida de José Saramago - menino pobre que não teve um livro antes dos 19 anos e que na juventude trabalhou como mecânico de automóveis (embora não saiba dirigir) - se pôs a trepidar, num benfazejo terremoto que em pouco mais de uma década haveria de redesenhar a sua paisagem existencial. Aos 57 anos, para começar, ele finalmente decolou como escritor ao publicar o romance Levantado do Chão. Aos 64, encontrou o que acredita ser o seu definitivo amor em alguém 28 anos mais jovem, a jornalista sevilhana María del Pilar del Río Sánchez. Aos 70, transplantou-se das margens do Tejo para uma ressequida ilha vulcânica espanhola onde não corre um ribeirão sequer e toda a água tem que ser tirada do mar, Lanzarote, a mais oriental das sete Canárias, com 50 000 habitantes e 805 quilômetros quadrados.

Ali, numa casa que vem a ser a primeira e até agora única propriedade desse persistente militante comunista, foram escritos seus livros mais recentes, Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes, além dos diários intitulados Cadernos de Lanzarote, encorpando uma obra na qual já se destacavam os romances Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. No Brasil, onde o melhor de Saramago já foi publicado, apenas este último título vendeu 85 000 exemplares.

A virada na vida do escritor foi engatilhada de maneira acidental, em 1975, quando, demitido do cargo de diretor-adjunto do Diário de Notícias ele decidiu não procurar emprego, abrindo assim espaço para que a sua criação literária deslanchasse em regime de dedicação exclusiva.

José Saramago, que tem uma filha, Violante, bióloga, de seu primeiro casamento, e dois netos, Ana e Tiago, já era autor consagrado em 1992, quando o ateísmo contundente de O Evangelho Segundo Jesus Cristo desaguou num episódio de censura que acabou determinando a sua mudança para Lanzarote, onde se instalou em fevereiro de 1993. O editor sênior Humberto Werneck, de PLAYBOY, lá esteve para entrevistar o escritor e conta:

"Branca, com dois pavimentos, a casa de José Saramago se chama exatamente isso, 'A Casa', conforme se lê junto ao portão de entrada. Fica no número 3 da Rua Los Topes, numa esquina da minúscula cidade de Tías, mas pode ser que o visitante tenha dificuldade em encontrá-la, pois o dono de A Casa, tendo lido sobre a história do lugar, decidiu restabelecer a sua antiga denominação, hoje inteiramente esquecida, Las Tías de Fajardo.

"Os carteiros de Lanzarote já se conformaram com a esquisitice, e não é impossível que o mesmo acabe acontecendo com os demais lanzarotenhos, sobretudo se o ilustre forasteiro vier a ganhar o Prêmio Nobel. Já são provavelmente maioria os nativos capazes de reconhecer aquele senhor alto, desempenado e sobrancelhudo, com óculos grandes demais para o seu rosto e cabelos grisalhos que escasseiam no alto e abundam, um tanto alvoroçados, na parte de trás da cabeça. Saramago ganhou faz um ano o título de 'filho adotivo' da ilha e só não é 'o' escritor de Lanzarote porque lá vive o romancista espanhol Alberto Vásquez-Figueroa, com quem fez camaradagem.

"Reservado, porém afável, de pouco riso mas longe de merecer a fama de mal-humorado que o persegue, José Saramago acumula as características a princípio excludentes de homem a um tempo caseiro e viajador: duas vezes por mês, em média, ele abandona a paisagem lunar de Lanzarote para atender a compromissos profissionais, sempre em companhia de Pilar del Río, hoje a sua tradutora para o espanhol e revisora das antigas traduções.

"Quando está na ilha, o escritor pouco sai de sua casa, plantada num jardim atapetado de picón, cascalho fino de origem vulcânica de cor preta ou tijolo escuro. A vegetação esparsa inclui duas oliveiras que o escritor quis ter ali por serem as árvores de sua infância na Azinhaga, povoado da região portuguesa de Ribatejo onde nasceu, filho de pais camponeses muito pobres, e onde viveu até mudar-se para Lisboa, aos 2 anos de idade.

"Num dos cantos do jardim há uma piscina (coberta, por causa do vento forte) com 7 metros e meio de comprimento, que o escritor atravessa pelo menos trinta vezes todos os dias - uma das explicações para a excelente forma física em que se encontra a apenas quatro anos de tornar-se octogenário. O mesmo se diga, aliás, da bela e simpática Pilar del Río, que aos 47 anos, mãe de um rapaz de 21, Juan José, que mora com o pai em Sevilha, não aparenta mais que 35.

"Marido e mulher têm, cada qual, seu escritório, e o de Saramago, no segundo piso, deixa ver o mar. As edições portuguesas e estrangeiras de seus livros espremem-se numa estante com quatro prateleiras e bom metro e meio de comprimento. Numa fotografia, uma tabuleta em francês provoca o ateu empedernido: "Dieu te cherche" - Deus te procura. Nesse escritório (onde foram gravadas, em três rodadas, as 7 horas desta entrevista), usando um laptop Canon acoplado a um monitor Samsung, Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas, ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.

"Depois do almoço, já embarcado no hábito espanhol da siesta, ele cochila ou apenas relaxa na sala, no andar térreo. Nesses momentos nunca lhe falta a companhia da fauna canina doméstica: o cão d'água português (espécie de poodle) Camões, a yorkshire Greta e o poodle Pepe. À noite, na cozinha, vai repetir-se um ritual: sentam-se os três diante de seu dono, que, faca na mão, distribui rodelas de banana. Pepe foi batizado pelo escritor na esperança de que não sobrasse para ele próprio esse apelido a que, na Espanha, praticamente todos os Josés se acham condenados. Camões assim se chama porque apareceu na casa no dia de 1995 em que Saramago ganhou o Prêmio Camões, concedido anualmente pelos governos de Lisboa e Brasília a um escritor de língua portuguesa e que já distinguiu os brasileiros Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz e Antonio Candido. Camões adora livros: comeu duas biografias do presidente sul-africano Nelson Mandela, em diferentes línguas, e ultimamente se dedicava a roer as bordas de um grosso álbum de pinturas de Goya.

"Ao contrário de outros autores lusitanos, Saramago exige que seus livros sejam publicados no Brasil exatamente como saíram em Portugal, sem concessões destinadas a facilitar o entendimento do leitor brasileiro. Na transcrição desta entrevista, PLAYBOY não chega a adotar a ortografia vigente em Lisboa, mas busca não abrasileirar a fala do escritor. Como, ó pá, ninguém é de ferro, algumas palavras ganharam 'tradução' entre colchetes."

Aos 70 anos, o senhor veio parar nesta ilha, com outra língua, outra cultura. É um exílio?

A palavra é demasiado dramática. Se estou aqui, isso se deve a uma decisão absurda, estúpida do governo [português] de então [chefiado pelo ex-primeiro ministro António Cavaco Silva], em 1992, quando um subsecretário [António Sousa Lara] de Estado da Cultura - imagine, da Cultura... - decidiu que um livro meu, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, não podia ser apresentado como candidato ao Prêmio Literário Europeu, porque, segundo ele, ofendia as crenças religiosas do povo português. Fiquei bastante desgostoso, indignado - e foi nessa altura que a minha mulher me disse: "Por que nós não fazemos uma casa em Lanzarote?"

Por que Lanzarote?

Nós tínhamos estado aqui no ano anterior e gostamos muito. Mas quando minha mulher sugeriu fazermos a casa, reagi como seria natural: "Pilar, por favor..." Mas ao cabo de dois dias eu estava a dizer: "Essa idéia afinal de contas não é má..." São duas reações masculinas típicas. Quando a mulher diz ao marido: "E se nós fizéssemos isto assim, assim?", em geral ele responde: "Não, que idéia!" A segunda reação é dizer, 24 ou 48 horas depois, como quem condescende: "Olha que essa tua idéia afinal de contas não é tão má..."

Uma mudança como essa traz problemas de adaptação...

Sim, mas adapto-me muito facilmente a situações novas.

E é chegado a experiências tardias na vida, não?

Tenho que reconhecer que as coisas boas da minha vida aconteceram um pouco tarde. Quando publico o Memorial do Convento, em 1982, estou com 60 anos, e com 60 anos o escritor normalmente tem sua obra feita. Não é que não continue, mas a parte central da sua obra já está feita. Eu tinha alguns livros, mas é com o Memorial do Convento que tudo ganha outra força.

A sua estréia foi lá atrás, aos 25 anos.

Tenho um livro que foi reeditado agora - o meu editor teimou e a minha mulher ajudou nisso -, um romance que publiquei em 1947. Chama-se Terra do Pecado. Não está mal escrito, mas tem pouco a ver comigo hoje. Ainda escrevi um outro livrinho [o romance A Clarabóia], que está por aí, mas, enfim...

Não será publicado?

Em vida minha, não. Depois, se quiserem...

Do que se trata?

É a história de um prédio onde há seis inquilinos, e é como se por cima da escada houvesse uma clarabóia por onde o narrador vê o que se passa embaixo. Não está mal, mas não quero que publiquem.

Depois de Terra do Pecado o senhor ficou quase vinte anos sem escrever. O que houve?

Se eu tivesse tido êxito com aquele primeiro livro... Mas também seria difícil esperar que tivesse. Vivi sempre muito isolado, nunca pertenci a grupos literários, pelas próprias condições sociais em que vivia, sem grandes meios. Sou uma pessoa que não passou pela universidade, portanto não criou amigos nessa roda que se supõe ser de intelectuais. Vivi sempre assim, à margem.

A sua formação literária foi um pouco errática, não é?

Nem sequer errática [ri]... Eu diria condicionada pela minha situação material. Depois da instituição primária, entrei no liceu [ginásio], onde estive só dois anos. A família não podia levar-me até o fim do curso. A partir daí estive numa escola industrial e tirei o curso de serralharia e mecânica. E aos 17, 18 anos fui trabalhar numa oficina de automóveis, onde estive por dois anos.

O que fazia lá?

Desmontava e consertava motores, regulava válvulas, condicionava, mudava juntas de motores. Agora, o que há talvez de importante aí é que nesse curso industrial havia uma disciplina de Literatura, coisa um pouco estranha, e que me abriu o mundo da literatura.

O seu primeiro livro foi mal recebido?

Não. Mas é um livro entre muitos, não tem muita importância. Naquele impulso ainda escrevi A Clarabóia. Não sei se naquela altura tive consciência de que não tinha grandes coisas para dizer e que, portanto, não valia a pena. O melhor que me aconteceu foi ter uma vida suficientemente larga para que aquilo que tinha que chegar chegasse.

Dá a impressão de que o escritor tem um manancial que pode ser explorado seja na juventude, seja na idade madura. Pode-se dizer que está jorrando agora uma coisa que ficou represada?

Se esse manancial existia, pelo menos eu não tinha consciência dele. Nunca fiz uma lista de assuntos e disse: "Vou fazer tudo isso". Cada vez que acabo um livro, fico sem saber o que vai acontecer depois. Cheguei ao ponto a que cheguei dando um passo de cada vez, e esses passos não estavam planeados. Agora, isso tem outra vantagem: me dá uma sensação de... não quero dizer de juventude, mas de...

... vitalidade.

Talvez de uma capacidade imaginativa que pode não ser muito comum quando se chega à idade que tenho. Provavelmente é isso que me leva a dizer: "Que sorte eu tive, de tudo o que tinha a fazer de mais importante estar a fazê-lo nesta fase da minha vida". Porque se tivesse feito aos 50 anos, provavelmente agora não tinha mais nada para dizer. Se nós tivéssemos a certeza de ter uma vida longa, talvez valesse a pena guardar para a parte final dela aquilo que temos realmente para fazer. É a circunstância em que nós nos achamos que nos obriga a decidir, e há dois momentos importantíssimos na minha vida. Um é o aparecimento da Pilar. Foi um mundo novo que se abriu. O outro foi em 1975, quando era diretor-adjunto do Diário de Notícias e, por causa de um movimento que se pode chamar de contragolpe [político], fui posto na rua.

O que foi que houve?

No dia 25 de novembro de 1975 há, de uma parte dos militares, uma intervenção que suspende o curso da revolução [a chamada "Revolução dos Cravos", que a 25 de abril de 1974 pôs fim a 48 anos de ditadura salazarista] tal como ela se vinha desenvolvendo e que põe um travão àquilo que estava a ser o movimento popular. Foi o primeiro sinal de que Portugal iria entrar na "normalidade". O jornal pertencia ao Estado e os responsáveis, então, demitem a redação e a administração. E aí é que tomo a decisão de não procurar trabalho. Tinha muitos inimigos e não era fácil que fosse encontrar trabalho. Mas nem sequer tentei.

Inimigos no mundo jornalístico ou no mundo das letras?

Inimigo nas letras eu tenho é agora. Naquela altura eu não era ninguém.

O senhor se considerava um jornalista ou um escritor?

Nunca me considerei um jornalista. Porque entrei nos jornais sempre pela porta da administração, nunca pela porta da redação. Nunca fiz uma entrevista, uma reportagem, nunca escrevi uma notícia. Também é certo que não me considerava tão escritor assim, porque aquilo que tinha feito não me dava um estatuto de escritor. No fundo, era apenas alguém que estava à espera de que as pedras do puzzle do destino - supondo-se que haja destino, não creio que haja - se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: "Não vou procurar trabalho". Tinha uma idéia vaga, queria escrever um livro sobre a vida dos camponeses. Comecei a pensar o que faria sobre o lugar onde nasci, mas as circunstâncias me levaram para o Alentejo [região a leste de Lisboa]. Fui para lá em 1976, fiquei semanas ouvindo pessoas, tomando notas, e isso veio a dar no livro Levantado do Chão, que se publicou em 1980.

O que pretendia quando começou a escrever? Fama? Dinheiro?

Eu não queria nada. Queria apenas escrever. E quanto a isso de querer ser rico, eu nem agora penso em ser rico.

O senhor não está rico?

Não. Ao olhar para estas paredes, diga: "Estão feitas com livros". Não tenho bens de outra natureza. Se quisesse ser rico, tinha permitido que se adaptasse o Memorial do Convento a uma novela brasileira.

Houve uma proposta?

A [falecida atriz] Dina Sfat, em Lisboa, disse-me: "Queremos fazer o Memorial do Convento". Eu disse nessa altura: "Não tenho qualquer razão para querer ser rico". Evidentemente que se dirá hoje: "Ah, mas você vive bem". Vivo relativamente bem. Mas isso não é como resultado de um projeto para enriquecer.

O senhor recusou a proposta de Dina Sfat mas aceitou outra, para adaptação cinematográfica de A Jangada de Pedra.

Esse foi um caso em que eu cedi. Mas não cedi a nada senão à simpatia da própria pessoa [a professora húngara Yvette Biró, da Universidade de Nova York]. Ela mostrou um interesse tão grande, de uma forma tão inteligente... O guião [roteiro] está feito, ela está à procura de um produtor, parece que está bastante adiantado - mas a verdade é que não dou seguimento a nada, como se no fundo quisesse que tudo isso abortasse. Há outras situações, como, por exemplo, a que se refere ao Ensaio sobre a Cegueira. Oito produtoras norte-americanas e uma inglesa estão a ler o livro. Já disse ao meu agente: "Deixa-os lá fazer propostas, mas não será adaptado o livro".

Nem se for uma proposta extremamente tentadora?

É preciso pensar sobre o que produtores norte-americanos fariam de um livro como esse.

O que eles fariam?

Aproveitariam o que no livro há de mais exterior, que é a violência e o sexo. E aquilo que é importante, a interrogação sobre como é que nós nos comportamos, que uso fazemos da nossa razão, que cegueira nossa é essa que não é dos olhos mas do espírito, que relações humanas são essas a que chamamos humanas e que de humanas têm tão pouco. A lição que o livro pretende dar desapareceria completamente.

Mesmo nas mãos de um cineasta sensível, um Antonioni?

Bom, há dois ou três nomes que provavelmente me fariam pensar duas vezes. A verdade é que os grandes realizadores [diretores] desapareceram. Os realizadores, hoje, são meros funcionários que fazem aquilo que os produtores mandam. Costumo resolver isso dizendo que não quero ver a cara das minhas personagens. Pois se nem eu as descrevo...

Mas o senhor deve ter imagens na cabeça quando escreve.

Não tenho ninguém na cabeça. Sento-me diante do computador com a idéia de uma história que quero contar, mas não necessito inspirar-me em figuras reais.

É verdade que todos os seus livros partiram de um título?

Foi assim praticamente com todos. Foram títulos dados, não sei por quem, não sei por quê. O Ano da Morte de Ricardo Reis nasceu em Berlim. Eu tinha ido aí com uns quantos escritores e num fim de tarde, cansado, deixo-me cair na cama - e nesse momento caem-me do teto, quase, estas palavras: "O ano da morte de Ricardo Reis".

E O Evangelho Segundo Jesus Cristo?

Esse nasceu de uma ilusão de óptica, em Sevilha. Atravessando uma rua na direção de um quiosque [banca] de jornais e revistas, naquele conjunto de títulos e manchetes pareceu-me ler "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Continuei a andar, depois parei e disse: "Isso não pode ser" - e voltei atrás. De fato, não havia nem evangelho, nem Jesus nem Cristo. Se eu tivesse uma boa visão, se não fosse míope, provavelmente esse livro não existiria. O Ensaio sobre a Cegueira nasce num restaurante. Estou sentado, à espera de que me sirvam, e nesse momento, a propósito de nada, penso: "E se fôssemos todos cegos?"

É verdade que Todos os Nomes nasceu no Brasil?

Nasceu quando fui receber o Prêmio Camões [em janeiro de 1996]. O avião já estava descendo em direção ao aeroporto de Brasília - e de repente passa-me pela cabeça isto: "todos os nomes". Nada disso é definido, aparece como idéias vagas que passam, e algumas delas foram para mim tão claras, ou pelo menos tão insinuantes, que me permitiram dizer: "Isto significa qualquer coisa". Custa trabalho encontrar, depois, um caminho para chegar aonde eu quero. Todos os Nomes, por exemplo, foi bastante complicado e provavelmente não existiria se não tivesse coincidido com a procura dos dados da vida e da morte do meu irmão [Francisco de Sousa]. Eu queria saber as circunstâncias da breve vida desse meu irmão, tem que ver com um livro para o qual tenho já muito material recolhido, que é uma autobiografia...

O Livro das Tentações?

Sim. Uma autobiografia que vai só até os 14 anos.

Não é curioso o senhor ter começado pelo pecado ­ Terra do Pecado - para cinqüenta anos depois chegar à tentação?

Não, mas são outras tentações. Se é uma autobiografia que vai até os meus 14 anos, que tentações podem ser essas? Não as tentações da carne, nem as do poder, da glória, não. Nasce uma criança, e o mundo todo, que está aí para ser conhecido, é como uma tentação. Ora bem, esse irmão mais velho morreu com 4 anos quando eu tinha 2. Se vou escrever um livro sobre a minha vida, tenho que falar nele. Não sabia praticamente nada dele, então pedi um certificado de nascimento - e aí é que começam as surpresas: a data da morte não está lá. Do ponto de vista burocrático, meu irmão está vivo...

Para quem não acredita na vida eterna, hein?

Realmente, não acredito na vida eterna, embora vá inventando formas de dar-lhe alguma eternidade à vida. Quando invento [em Todos os Nomes] uma conservatória [arquivo do Registro Civil] onde estão todos os nomes e um cemitério onde estarão todos os mortos, no fundo é uma forma de dar eternidade àquilo que não é eterno, ou pelo menos dar-lhe permanência. Se não fosse essa história do meu irmão, talvez escrevesse um livro chamado Todos os Nomes, mas seria outro totalmente, porque a minha busca dos dados referentes a ele é que me leva, no romance, a dar numa conservatória. Parece haver uma espécie de predestinação em tudo aquilo que faço. Há coisas que acontecem e que suscitam outras idéias, portanto é tudo uma questão de estar com atenção ao modo como essas idéias se desenvolvem. Algumas delas não têm saída, mas há outras que encontram seu próprio caminho. Não escrevo livros para contar histórias, só. No fundo, provavelmente eu não seja um romancista. Sou um ensaísta, sou alguém que escreve ensaios com personagens. Creio que é assim: cada romance meu é o lugar de uma reflexão sobre determinado aspecto da vida que me preocupa. Invento histórias para exprimir preocupações, interrogações...

Exposição "José Saramago - A consistência dos Sonhos"

Exposição
Galeria D. Luis I
Palácio Nacional da Ajuda - Lisboa

Aconteceu de 24 de Abril até ao dia 27 de Julho de 2008

Desta exposição produzida pela Fundação César Manique, resulta a Cronobiografia de Fernando Gómez Aguilera


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

As Tentações de Santo Antão na obra "As Pequenas Memórias"




A referência de Hyeronimos Bosch surge n' "As Pequenas Memórias", 
página 36, ed. Outubro de 2006, Editorial Caminho.

(...) "A ambiciosa ideia inicial - do tempo em que trabalhava no Memorial do Convento, há quantos anos isso vai - havia sido mostrar que a santidade, essa manifestação «teratológica» do espírito humano capas de subverter a nossa permanente e pelos vistos indestrutível animalidade, perturba a natureza, confunde-a, desorienta-a. Pensava então que aquele alucinado Santo Antão que Hyeronimus Bosch pintou nas Tentações, pelo facto de ser santo, havia obrigado a que se levantassem das profundas todas as forças, as visíveis e as invisíveis, os monstros da mente e as sublimidades dela, a luxúria e os pesadelos, todos os desejos ocultos e todos os pecados manifestos. (...) 
De facto, se puséssemos uma criança qualquer, e logo um qualquer adolescente, e logo um qualquer adulto, no lugar de Santo Antão, em quê se expressariam as diferenças? Tal como ao santo assediaram os monstros da imaginação, à criança que eu fui perseguiram-na os mais horrendos pavores da noite, e as mulheres nuas que lascivamente continuam a dançar diante de todos os Antões do planeta não são diferente daquela prostituta gorda que, uma noite, ia eu a caminho do Cinema Salão Lisboa, sozinho como era meu hábito, me perguntou numa voz cansada e indiferente: «O menino quer vir para o quarto?»" (...)



Via Exposição Museu Nacional de Arte Antiga
http://www.museudearteantiga.pt/colecoes/pintura-europeia/tentacoes-de-santo-antao

Do Catalogo:

Assinado por Bosch, este tríptico integra os quatro elementos do Universo (céu, terra, água e fogo) tornando-os cenário de personagens horrendas.
Neste tríptico encontra-se a mais recorrente e central temática de Bosch: a tentação e a solidão do homem justo perante o mal e o diabólico que, de forma expressa no monstruoso e no híbrido ou sob uma falsa e provocadora beleza, domina o mundo terreno.

Nas faces internas, o tríptico mostra três passos da hagiografia de Santo Antão, tentado e seduzido pelos demónios até encontrar o caminho para a salvação através da experiência eremítica. Nas faces externas, visíveis com o tríptico fechado, situação em que normalmente se encontrava, são figuras populares e não demoníacas que acicatam e perturbam o caminho de Cristo da Prisão até ao Calvário; a sua monocromia ajuda a criar uma atmosfera estranha e luarenta, que sublinha a desolação da paisagem e acentua a inquietante certeza de um domínio generalizado do mal.

Andrea Mantegna Uma referência ética e estética para José Saramago



A referência ao pintor Andrea Mantegna é despertada de forma atenta, após a leitura da obra "Manual de Pintura e Caligrafia".
Confesso que foi uma obra difícil, ao contrário das investidas e incursões sobre a generalidade das obras, esta foi a que se me apresentou mais complexa.
O tempo e a cadência da linha escrita que o pintor frustrado impõe no desenrolar da obra, obrigou-me a reflectir de maneira intencionalmente interrompida. Momentos de ascensão referentes à descoberta da escrita em contraponto com o reconhecimento que o retratista da classe burguesa assume o seu fracasso.
No compasso em que decorre a obra, Saramago dá a conhecer a necessidade de uma nova ética social. A ruptura com a pintura (do retratista) consentida pela classe burguesa que suporta Salazar e Marcelo (com 2 ll como é referido) evolui para o experimentalismo da escrita com a estética comentada e questionada num pequeno roteiro por algumas cidades de Itália.
O retratista renasce como um homem novo, ao romper com a estética usada em mais de vinte anos de molduras pintadas, num momento em que a escrita, o amor e a chegada do 25 de abril abre as janelas para uma  nova esperança.

Referência Andrea Mantegna na Wikipédia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Andrea_Mantegna




Retirado via

Créditos:
http://josesaramago.blogs.sapo.pt/112126.html

"Mantegna: Uma ética, uma estética
Num romance publicado há quinze anos, com o título enigmático de Manual de Pintura e Caligrafia, e cuja história é narrada na primeira pessoa, imaginei que a minha personagem principal, um medíocre pintor de retratos, em viagem por Itália, entrou um dia na Capela Scrovegni, em Pádua, vindo depois a deixar constância do que viu nas páginas de um diário de que o narrador, por assim dizer, se apropriou, talvez para reforçar aquela ilusão de verosimilhança que os romancistas incansavelmente perseguem, mais do que a própria verdade. Depois de sugerir, com não pouca pretensão e complacência judicativa, que às pinturas de Pádua faltaria a frescura descritiva do ciclo da Vida de S. Francisco, em Assis, pintada pelo mesmo Giotto, a minha personagem, não tendo que demonstrar outras sabedorias, passa, simplesmente, ao que sentiu e ao que pensou, para tal se servindo, escusado seria dizê-lo, do que pensou e sentiu o autor do romance, este que vos fala, quando a Itália foi e em Pádua esteve. Escreve o meu pintor de retratos, designado no livro pela simples letra H: «As figuras mostram-se reservadas, algumas vezes hieráticas, pertencem a um mundo ideal, premonitório para Giotto. Num mundo assim descrito, o divino alastra serenamente sobre as coisas e as vicissitudes terrestres, como uma predestinação ou uma fatalidade. Ninguém sabe ali sorrir com os lábios talvez por incapacidade expressiva do pintor. Mas os olhos, fendidos, de pálpebras longas e pesadas, são muitas vezes rebrilhantes de espírito e há neles uma sageza calma e benigna que faz pairar as figuras acima e além dos dramas que os frescos relatam. Enquanto percorria uma vez, e outra, e outra ainda, a capela, seguindo pela ordem os três ciclos, surpreendi-me com um pensamento que ainda agora não consigo desdobrar e examinar. Mais ainda que um pensamento, foi um voto: poder dormir uma noite ali dentro, no meio da capela, acordar antes do amanhecer e ver surgirem da escuridão, pouco a pouco, como fantasmas, os grupos processionais, os gestos, os rostos, aquela cor azul de iluminura que é com certeza um segredo de Giotto, porque não existe noutro pintor. Ou não existe enquanto o olho a ele. Não se vá cuidar que haja em mim um apelo religioso que deste modo se denunciaria. Trata-se, antes, e muito terrenalmente, de querer saber como pode nascer um mundo.»

Citar-se a si próprio é um acto narcísico de que os autores sempre tentam desculpar-se, ora alegando uma suposta ou manifesta impossibilidade momentânea de dizer melhor ora insinuando que a citação contém tudo o que sobre o tema poderia ser dito, sem necessidade, portanto, de ir procurar, mais longe, mais exactidão. Neste caso de agora os objectivos são outros. Em primeiro lugar, situar-me logo de entrada, graças a um recurso literário elementar, na mesma cidade de Pádua aonde terei de levar-vos. Em segundo lugar, deixar no vosso espírito uma ideia propiciadora e benévola: a de que, tendo eu escrito há quinze anos um romance em que pintura e pintores vivem e se mostram abundantemente em todas as páginas, talvez seja hoje capaz, aqui, de falar-vos da vida de um desses pintores – Andrea Mantegna –, falando-vos também um pouco da obra dessa vida, não com a autoridade que me falta, mas, se tal palavra tem cabimento aqui, com o amor que me sobra. Que idade tinha Andrea Mantegna quando viu, também ele, pela primeira vez, os frescos de Giotto? Criança era, pois sabemos que ainda não completara onze anos quando foi trabalhar para a oficina do pintor Francesco Squarcione, em Pádua. Antes disso, a sua vida fora a de pastor, guardando carneiros por conta, provavelmente, de algum senhor ou proprietário rural da aldeia onde vivia com a família – Isola di Carturo –, então pertencente ao território de Vincenza, e onde teria nascido, em 1431. Como é que Francesco Squarcione, pintor, empreiteiro de obras, coleccionador e negociante de objectos de arte clássica, com uma loja frequentada pelos humanistas da Universidade de Pádua, conheceu o pequeno Andrea, filho do carpinteiro Biggio Mantegna, não se sabe, como também não se sabe que surpreendentes sinais de vocação e precocidade artística foram os manifestados pelo rapazinho para que Squarcione resolvesse levá-lo consigo. Outro mistério é o dos motivos que fizeram com que o pai de Andrea, ou por sua própria iniciativa, ou por proposta de Squarcione, renunciasse expressamente à paternidade, pois é como filho adoptivo de Squarcione que Andrea deixa a aldeia natal e vai viver, até aos dezassete anos, em casa daquele que será o seu pai e o seu mestre. O aclaramento destes pontos obscuros da biografia de Mantegna talvez não viesse a ter especial importância para o estudo da obra do pintor, mas ajudar-nos-ia, certamente, a compreender melhor o homem que ele foi. Sabemos hoje, em todo o caso, que a entrada de uma criança de tão pouca idade numa oficina de pintura nada tinha de excepcional, e era, até, naquele tempo, prática comum. Assim como no século XIX viriam a investir-se tantos e tão vultuosos capitais na investigação científica e tecnológica, algo de muito semelhante, ponderadas todas as diferenças de objectivos e de métodos, foi feito no século XV no domínio da actividade artística. A procura de pintores, escultores, arquitectos, gravadores, atraiu para a carreira das artes muita gente que, em outras circunstâncias, nunca em tal teria pensado. Um filho de camponeses ou mesteirais que mostrasse algum talento tinha muitas possibilidades de ser notado e estimulado por um senhor ou por um mercador rico da vizinhança. Claro está que o recrutamento se tornava muito mais fácil entre as famílias de artesãos – ourives, joalheiros, pintores, decoradores, ferreiros – que possuíam já as suas tradições profissionais e ofereciam aos filhos a vantagem duma aprendizagem precoce. Até essa época, só a Igreja fora buscar os seus artistas às mais diversas camadas sociais, só ela fora capaz de reunir no seu seio uma variedade tão grande de tipos humanos. O facto de esta prática se ampliar agora à sociedade civil, em particular ao mundo dos nobres e dos grandes senhores do comércio, teria de ter, como realmente teve, um fecundo efeito na expressão artística.

Acompanhando seu pai (os carpinteiros daquele tempo tinham, certamente, uma costela de artista), ou por ocasião daquilo a que hoje chamaríamos uma visita guiada (Squarcione dando lição magistral aos aprendizes da sua oficina), Andrea entrou um dia na Capela Scrovegni e viu os frescos de Giotto. Ao vê-los, permita-se-me a repetição da hipérbole, viu o mundo que o pintor do meu romance queria ver nascer, e a mim apraz-me agora imaginar que, antes que o viesse a proferir Rafael diante da Santa Cecília de Correggio, o nosso pequeno pastor, ainda cheirando ao fartum das ovelhas que apascentara, disse baixinho à sua alma: Anchio sonpittore. Sê-lo-á, bem o sabemos, mas terá ainda de passar, durante sete anos, pela minuciosa e dura experiência da aprendizagem do ofício, que irá desde o domínio total do desenho e da perspectiva à preparação das tintas e ao conhecimento íntimo, por meio de calcos e cópias, da escultura e da pintura da antiguidade clássica, que, como já vimos, constituía a maior parte do recheio da oficina de Francesco Squarcione. Este Squarcione, cuja obra praticamente se perdeu (somente se conhecem dele, assinados, uma Madona no Museu de Berlim e um quadro de altar no Museu de Pádua), ocupa, apesar disso, um lugar de excepcional importância na história da pintura do quattrocento, pois formou mais de cento e trinta pintores na sua oficina, nessa oficina onde se considera, com toda a plausibilidade, ter nascido o estilo dito paduano, que irá culminar em Mantegna e se espalhará pelo Norte da Itália. Anos depois, já depois do rompimento entre o mestre e o discípulo, ainda Squarcione dizia aos seus alunos mais rebeldes: frio fatto un uomo de Andrea Mantegna come faró di te. Ora, se é verdade que foi com Squarcione que Mantegna se fez homem, o mínimo que se pode observar é que Squarcione, tendo em conta as diferenças de carácter, não fez dele o homem que provavelmente quereria ter feito. E, quanto ao pintor, bastar-nos-á acrescentar que a Mantegna o fez o seu próprio génio.

O génio, sim, mas também a Itália. Quando o filho do carpinteiro Biggio nasceu, viviam na terra italiana artistas que se chamavam Brunelleschi, Ghiberti, Donatello, Fra Angelico, Alberti, Piero della Francesca, e quase se poderá incluir também, entre eles, Masaccio, que morrera apenas três anos antes. A Itália é então um estaleiro imenso e uma imensa oficina onde todas as artes florescem com um vigor talvez irrepetido, porque este foi por excelência o tempo da invenção do novo a partir de fragmentos e reminiscências do antigo, quando o próprio reencontro com a arte clássica e o seu estudo provocavam a ruptura que iria conduzir à modernidade. Aos ombros daqueles homens, de Andrea Mantegna e da sua geração é que subirão, chegada a sua hora, os Leonardos, os Rafaéis e os Buonarrotis do futuro.

Fosse o tema da conferência esse, e para tanto dessem os dados biográficos de que dispomos actualmente, confesso que ocuparia de bom grado todo o tempo que aqui me é concedido na descrição dos sete anos de aprendizagem de Mantegna. Devo notar, no entanto, que sobejam motivos para crer que esse largo período não foi de todo pacífico no que toca à relação entre aluno e mestre: não precisaríamos melhores provas que a frase já citada de Squarcione. Muitas e duras batalhas, surdas ou declaradas, se terão travado naquela oficina habitada por tão nobres vestígios da antiguidade, ao princípio causadas pelo choque natural entre um carácter autoritário, o de Squarcione, e uma personalidade orgulhosa, a do jovem Andrea. Porém, não é abusivo imaginar que o amadurecimento artístico e criativo de Mantegna, servido por uma intuição verdadeiramente extraordinária, depressa tivesse vindo a constituir-se como novo factor de contradição, não apenas na sua relação como homens, mas no seu confronto como pintores. O adolescente que aos dezasseis anos acompanha a Veneza o seu mestre, é já um pintor completo que se prepara para assumir o seu destino pessoal, sem servidões nem dependências, salvo as que resultam do estatuto social de um artista naqueles tempos, estatuto esse, aliás, em curso de transformação, e que ele não se resignará nunca a aceitar de cabeça baixa. E é no princípio do ano seguinte, 1448, que Mantegna dá o primeiro dos passos que o farão entrar numa vida adulta e responsável: deixa a casa de Squarcione e vai morar para outro bairro de Pádua, a contrada de Santa Lúcia, assinando com Squarcione um acordo segundo o qual, tendo-se tornado independente, podia guardar para si todo o dinheiro que viesse a ganhar. O primeiro desse dinheiro terá sido, provavelmente, o que lhe pagaram pelo políptico, hoje perdido, que, por essa mesma altura, pintava para a Igreja de Santa Sofia.

Chegados a este ponto, e para louvor e honra da instituição familiar, e também pela graça da sempre prestável imaginação, deveríamos introduzir aqui um episódio edificante: a visita dos pais de Andrea à nova casa do seu filho, durante a qual o carpinteiro Biggio não deixaria de congratular-se com os resultados da sua renúncia ao poder pessoal. Talvez então conhecêssemos algo mais dos sentimentos de Andrea, o balanço que ele próprio faria de sete anos passados a servir e a aprender. Nada saberemos, contudo. Quando Andrea, sozinho em casa, porque vem ainda longe o tempo de ter oficina e discípulos seus, der por terminada a tarefa de hoje, pode ser que vá visitar essa outra sua família que são os frescos de Giotto, antepassados de há século e meio, ou ir bater à porta de um homem de quase sessenta anos, chamado Donatello, em Pádua há cinco anos e que ali permanecerá por mais cinco, para vê-lo trabalhar no altar da Basílica de Santo António em que são representados milagres do santo, se é que, enfim, não acabará Andrea por aproveitar esta última luz da tarde para ir olhar uma vez mais a estátua equestre do Qattamelata, recentemente assentada. A visão de Mantegna é a de um mundo de relevos, que os olhos palpam e rodeiam como se fossem mãos e que as mãos reconhecem e identificam como se fossem olhos. O desenho e o modelado do claro-escuro ensinaram-no a criar na superfície dum muro ou duma tábua a impressão visual do volume, mas Mantegna parecerá perseguir sempre aquilo a que poderíamos chamar um grau supremo da ilusão, uma imagem plana que as mãos se negassem a tocar, com medo de atravessarem a superfície que a razão ainda afirma estar ali, mas que os olhos já romperam para seguir adiante: é nosso o olhar que nos contempla do fundo duma perspectiva ou desse outro muro, intangível e irrefragável, que está por trás das estátuas que a pintura fingiu. A lição de Squarcione havia imposto aos seus alunos, como modelos a seguir, os restos notáveis duma antiguidade clássica ressuscitada, mas eu penso que não forçarei demasiado a verosimilhança imaginando que a personalidade e a obra de Donatello, chegado a Pádua dois anos depois de Andrea ter começado a trabalhar com Squarcione, se terão constituído como um poderosíssimo foco de atracção para o jovem aprendiz.

Ora, no momento preciso em que Andrea, já sábio de ofício e livre de tutela, se apresenta ao mercado de trabalho, aconteceu que uma ilustre dama paduana, Imperatrice Ovetari, decidiu mandar construir para si uma capela na igreja dos Eremitani, que está a pouca distância da capela Scrovegni. Já se sabe que, naquele tempo, quem dizia capela, dizia pintura, por isso, tendo acabada os pedreiros a sua parte da obra, entraram os pintores. Foram eles, com o encargo de decorarem metade da capela, Antonio Vivarini e o seu sócio Giovanni d’Allemagna, venezianos, que em Veneza possuíam uma oficina, não menos conhecida que a dos Bellini. Para se ocuparem da outra metade da capela foram contratados os dois melhores discípulos de Squarcione, isto é, Andrea Mantegna e Niccolò Pizzolo, este dez anos mais velho que o colega. (Cabe aqui, de passagem, uma reflexão que, de algum modo, relativizará aquilo que tem vindo a ser dito sobre as más relações, por outro lado abundantemente documentadas, entre Mantegna e Squarcione. É que, sendo pouco crível que, por si mesma, tivesse Imperatrice Ovetari um conhecimento tão completo do trabalho de Mantegna que a levasse, confiada, a entregar à responsabilidade de um pintor jovem uma parte tão importante da decoração da sua capela, o mais provável é que tenha sido o próprio Squarcione, para o efeito consultado, a indicar os seus dois alunos mais capazes. Não esqueçamos que a importância de Squarcione na Pádua do tempo não se limitava ao domínio das artes, era também social.) O que o século XV fez, desfê-lo o século XX. No dia 11 de Março de 1944 vieram os aviões lançar bombas sobre Pádua, a igreja dos Eremitani foi atingida, parte dos frescos de Mantegna ficou destruída e sepultada nos escombros. Eis como o meu pintor do Manual registou a sua impressão de visitante: «A igreja dos Eremitani ficou destruída quase por completo; assim desapareceram ou foram danificados os frescos de Mantegna sobre a história de Santiago (o pintor tinha dezassete anos quando se achou, com as suas tintas e os seus pincéis, diante da superfície nua da parede). Olho o que resta do mundo pictórico de Mantegna, as arquitecturas monumentais, as figuras amplas e robustas como paisagens rochosas. Estou sozinho na igreja. Ouço os rumores da cidade que esqueceu a guerra, o zumbido dos aviões, o estrondo das bombas. Quando me decido a sair, entra um casal de velhos ingleses, altos, secos, enrugados, iguais. Como quem está em casa conhecida, dirigem-se à capela Ovetari, a de Mantegna, e ficam a olhar.» Pergunto-me, agora, que é que me terá levado a escrever que os ingleses, homem e mulher, se dirigiram à capela Ovetari «como quem está em casa conhecida». A razão lógica seria a de que já ali tinham estado antes, pertencerem, por exemplo, àquela categoria de viajantes ilustrados que voltam sempre ao que já conhecem porque mantêm viva a esperança de virem a conhecê-lo melhor. Mas uma outra explicação me ocorre hoje, decerto mais romanesca, sobretudo mais reconfortante, porque admite a possibilidade de arrepender-se uma pessoa do mal que fez e ser capaz de ir reconhecer a sua falta ao lugar da ofensa: fora aquele inglês velho quem tripulara, trinta anos antes, o bombardeiro destruidor, e que, com o polegar da sua mão direita, premira o botão para descarregar as bombas. Dir-me-eis que é demasiada a coincidência, e eu responderei que a vida é, toda ela, uma pura coincidência. Terei, contudo, de admitir que estou errado, se os aviões que naquele dia bombardearam Pádua não foram, afinal, ingleses, mas americanos...

O homem, felizmente, inventou primeiro a fotografia, e só depois os bombardeamentos aéreos. Graças a essa previsão, as imagens desaparecidas deixaram as suas sombras entre nós, agora que, quase cinquenta anos depois, a sua memória real se vai esfumando na memória dos sobreviventes, antes de se apagar, definitivamente, com o último. Todo o Mantegna está já aqui, um estilo de solenidade teatral mas austera, o sentido da mineralidade intrínseca do mundo, a necessidade de equilibrar esta irredutível dureza pelo apelo aos frutos e às flores, às grinaldas, às graças duma natureza ocasionalmente dadivosa. Sumiram-se em estrondo e em furor, em pó e em fogo, os enormes frescos de Santiago (quase três metros e meio de base cada um deles) que descreviam passos da vida do santo, a vocação, a pregação aos demónios, o baptismo de Hermógenes, o julgamento, o caminho do martírio, a morte por lapidação. Além de Mantegna e Pizoio, de Vivarini e D’Allemagna, trabalharam na capela Ovetari outros pintores, como Ansuíno da Forlì e Sono da Ferrara: tantos e tantos metros quadrados de paredes não podiam estar nas mãos de um só pintor, ou então a piedosa alma de imperatrice Ovetari não chegaria a experimentar a alegria arrebatada e consoladora de orar na sua capela, toda envolvida pelas cores e representações das vidas dos seus santos predilectos, Santiago e S. Cristóvão, este último pintado mais tarde, já depois do breve período veneziano de Mantegna, e que teve bem melhor sorte, pois veio a escapar ao bombardeamento. Mais, talvez, que os frescos de Santiago, o Martírio e Enterro de São Cristóvão exibe de uma maneira soberba toda a ciência perspectiva de Mantegna, e pode, neste particular aspecto, ser colocado a par da Flagelação de Cristo, de Piero della Francesca, pintado por esta mesma altura.

Apesar de todas as participações e ajudas, o trabalho dos Eremitani levará sete anos a chegar ao seu termo. Este Andrea que passeia os olhos pelos frescos enfim acabados da Capela Ovetari é agora a principal figura da pintura paduana e uma das mais importantes de todo o Norte da Itália. A última pincelada tê-la-á dado certamente ele: em 1451, falecido no ano anterior Giovanni d’Allemagna, Antonio Vivarini conclui a pintura do arco com os evangelistas e regressa a Veneza; em 1453 é a vez de desaparecer Niccoló Pizzolo, assassinado quando regressava, à noite, do seu trabalho na capela. Vasari diz que ele foi «afrontato e morto a tradimento», mas é mais provável ter-se tratado duma briga de espadas e punhais, como tantas outras em que o mesmo Pizzolo se envolveu na sua vida, pois era de temperamento colérico e assomadiço. Em brigas como esta, com a mesma violência e o mesmo ardor, entrou e entrará também não poucas vezes Mantegna, que não ficava atrás de Niccoló em questões de honra e precedência. Pouco dotados da virtude cristã da paciência, estes artistas do Renascimento punham facilmente em risco as suas obras-primas futuras: a cutilada que lhes cortasse o fio da vida, mataria também as cores e formas que estavam por nascer. A mão que, manchada ainda das tintas duma crucificação, ia lançar a estocada assassina, podia, por sua vez, não voltar mais a segurar num pincel: eles sabiam-no, e apesar disso não viravam a cara à morte, roubadora da vida e verdugo da arte.

É já para o fim do trabalho nos Eremitani que, para escapar à guerra que lhe declarara um Squarcione a quem os triunfos do antigo discípulo já faziam sombra, Mantegna resolve afastar-se de Pádua, indo viver para Veneza, onde os Bellini, grandes pintores, no dizer de Vasari, e homens de cultura, o acolhem como um igual. Os dois filhos de Jacopo Bellini, Giovanni e Gentile, fazem pouca diferença de Andrea na idade, mas é Andrea, mais novo, quem virá a deixar sinais de fortíssima influência na pintura dos irmãos Bellini, em particular, e por muitos anos, na de Giovanni: o quadro Jesus Orando no Horto, pintado por Giovanni Bellini em 1465 e que se encontra na National Gallery de Londres, evoca, irresistivelmente, a pintura de Mantegna, sobre idêntico tema, que no mesmo museu se encontra.

Foi também na família Bellini que Mantegna encontrou aquela que seria sua mulher, a filha de Jacopo, Nicolosa, de quem virá a ter cinco filhos, todos eles pintores, porém medíocres, um dos quais, Francesco, lhe dará, lá para o fim da vida, graves desgostos, pois será expulso de Mântua em consequência do seu indesejável comportamento. Esses dias de amarga tristeza ainda vêm longe, agora Andrea trabalha na oficina dos seus novos parentes, o sogro que o estima, os cunhados que o admiram, e, soltando-nos um pouco as travas à imaginação, poderemos ver daqui Nicolosa que se aproxima por trás do noivo para vê-lo pintar, enquanto não vão dar o passeio pelas ruas e pelos canais de Veneza que ele lhe prometeu e em que ela será o guia.

O casamento de Mantegna com a filha de Jacopo Bellini agravou ainda mais a inimizade que o opunha a Squarcione. Despeitado, o velho mestre passou a desprezar o que, de alguma maneira, era também obra sua: o estilo do discípulo. Eis, por exemplo, o comentário que fez aos frescos da Capela Ovetari: «As suas figuras têm sempre a dureza das pedras e nunca a tenra suavidade e macieza que têm as carnes e as coisas naturais. Teria feito melhor se pintasse mármores, que isto de vivo nada tem.» Mantegna, cujo carácter era tão duro como as pedras que assim lhe eram imputadas e que não suportava facilmente as críticas, decide demonstrar a sua capacidade de pintar figuras verdadeiras e povoa uma das cenas da Capela Ovetari com vivíssimos retratos das personagens da elite cultural paduana, atribuindo-lhes funções diversas como protagonistas do martírio de S. Cristóvão. Vingativo, representa também Squarcione, mas na figura do miserável, gordo e estúpido guerreiro que se encontra por trás do Santo: não se trata, porém, de um retrato, mas de uma caricatura. Mantegna voltará a ridicularizar outras vezes o velho mestre, em gravuras como Bacanal com Sileno e, sobretudo, na atroz alegoria que é Mercúrio e a Ignorância. Estas más relações explicam que no final de 1455 Mantegna tenha apresentado queixa no tribunal de Pádua para que lhe fossem pagas por Squarcione as pinturas executadas durante os anos em que com ele trabalhou. Durante o período de Veneza, Mantegna pintara um cartão sobre a Morte da Virgem para o mosaico da Capela Mascoli, na Basílica de São Marcos. Em Pádua, simultaneamente com o Martírio de S. Cristóvão, executou, para a Igreja de São Zeno, em Verona, onde ainda se encontra, um políptico com A Virgem e o Menino e Santos, que, sendo a sua primeira grande afirmação pictórica fora da prática do fresco, denota ainda a pertinaz influência de Donatello, neste caso o altar de Santo António, em Pádua, do qual Mantegna recebeu, e ali aplicou, a lição donatelliana sobre o modo de dispor e articular, plasticamente, as massas e as figuras.

Já antes, em 1456, Ludovico III de Gonzaga, marquês de Mântua, havia convidado Mantegna a trabalhar na sua corte, mas é só três anos depois, em 1459, a uma nova instância do senhor mantuano, que o pintor se decide a aceitar o convite. Oferecem-lhe os Gonzagas «quinze ducados de provisão por mês, alojamento para ele e para a família, cereal para seis pessoas, além de toda a lenha de que precise, e mais ainda». As condições económicas são favoráveis, e o ambiente afectivo e cultural que vai rodear Mantegna será a causa de ele não voltar mais a Pádua, salvo por um breve período em 1461. Em Mântua, com os Gonzagas, Mantegna será admirado e respeitado muito mais como um amigo do que como um pintor de corte, e esses sentimentos, de que Ludovico de Gonzaga é primeira expressão, serão igualmente partilhados e demonstrados tanto pela marquesa, Bárbara de Brandeburgo, como pelos dez filhos do casal. O encontro entre este príncipe e este pintor constitui, sem dúvida, um dos acontecimentos artísticos e humanos mais extraordinários e comovedores do Renascimento italiano.

Com a mudança para Mântua inicia Mantegna um novo e fecundo período do trabalho criador. O tríptico, hoje nos Uffizzi, que representa a Adoração dos Magos, a Ascensão e a Circuncisão, foi executado nesta primeira fase da actividade mantuana. Também desta época o Cristo no Horto, que tão claramente exemplifica o interesse do artista por uma representação de tipo cenográfico, em diversos níveis narrativos, com uma evidente preocupação de historicidade. É a Morte de Maria, que o Prado se orgulha de ter à sua guarda, provavelmente também deste período, embora não falte quem afirme que Mantegna só a pintou em 1492, no regresso da viagem que por essa altura fez a Roma. Seja como for, é Mântua que está representada ao fundo do quadro, com as suas torres e as suas muralhas, os lagos, a Ponte de São Jorge, uma das que Ludovico de Gonzaga fez construir sobre os pântanos que então rodeavam a cidade.

Pintor da corte de Mântua, Mantegna é solicitado a viajar para outros lugares. Com o consentimento dos Gonzagas, vai a Florença dar conselhos acerca do coro da Santissima Annunziata, a Pisa pintar uma parede no Camposanto, irá mais tarde a Roma, mas, onde quer que esteja, sempre estará suspirando por voltar à sua cidade de Mântua, onde o estimam e indulgentemente desculpam as exigências e excentricidades do seu carácter, que o correr dos anos tem vindo a acentuar. Nada o enfurece mais do que o apropriamento indevido dos frutos do seu trabalho. Ao descobrir que o gravador Zoan Andrea, que trabalhava na sua oficina, gravava e vendia, sem autorização, desenhos seus, expulsou-o e obrigou-o, parece que por violência, a entregar-lhe as «estampas e as chapas». Mais tarde, ao ter conhecimento de que o mesmo Zoan Andrea passara a utilizar, com idêntico fim, os serviços de um outro gravador, Simone Ardizzonni, de Heggio Emilia, a sua ira voltou-se contra este, ao princípio com ameaças, depois com perseguições, ao ponto de o dito Simone ter escrito ao marquês Ludovico de Gonzaga uma carta em que dizia: «Como o endemoninhado Andrea Mantegna soube que eu andava a refazer as estampas, mandou ameaçar-me por um florentino, jurando que eu havia de pagar-lhas. E, como se não bastasse, fui assaltado uma noite pelo sobrinho de Carlo de Moltone e mais dez homens armados, Zoan Andrea e eu, para nos matarem...» Mortes não chegou a haver, que se saiba, mas as violências só terminaram quando o abuso cessou. E a resposta que Ludovico de Gonzaga mandou dar a este Simone Ardizzoni foi a mesma, mais palavra menos palavra, que dera, tempos atrás, a um hortelão que lhe fora fazer queixa de pretensas prepotências de Mantegna: «Quero mais à ponta do pé desse Andrea do que a mil poltrões como tu.» Porém, não se pense que só em casos que envolvessem gente de pouco é que o marquês Ludovico de Gonzaga tomava a defesa de Mantegna: não foi mais receptivo às denúncias de súbditos importantes que iam protestar junto dele contra o áspero carácter do mestre.

Como homem e como artista, Andrea está na sua plena maturidade no dia em que Ludovico de Gonzaga o encarrega de executar, no andar nobre do torreão norte do Castelo de São Jorge, as grandes decorações murais a que chamamos Camera degli Sposi. Outras decorações realizadas por Mantegna nessa mesma altura desapareceram, mas aquilo que chegou aos nossos dias, de uma tarefa que facilmente podemos imaginar imensa, constitui uma das obras mais belas e perfeitas de toda a história da pintura, sem distinção de tempo e de lugar. Discute-se ainda hoje a data do início do trabalho, que, de qualquer modo, se crê ter sido entre 1465 e 1473, mas sobre o que parece não haver dúvidas, a fazer fé na dedicatória pintada sobre a porta de saída da Camera, é sobre a data da sua conclusão, que terá sido 1474, ainda que alguns estudiosos afirmem terem-se prolongado os trabalhos até 1484, e mesmo 1488.

Pode-se compreender melhor, diante dos frescos da Camera degli Sposi, como diz Giovanni Paccagnini, «o significado interno que teria para Mantegna a sistemática busca de perfeição formal sempre presente em cada uma da suas obras, busca essa que não respondia a um formalismo exterior, mas a uma severa concepção ética da expressão como conquista que só a virtude industriosa pode alcançar mediante um assíduo e fatigante exercício». O poderoso retrato histórico que Mantegna figurou na Camera degli Sposi é o fruto mais alto dessa assídua e ardente busca de valores universais, que refuta a temporalidade dos sentimentos pela ansiosa aspiração, em nós nunca inteiramente desvanecida, a uma expressão fixada em relações imutáveis, subtraída ao perene fluir do tempo. Não são muitas as figuras, quer pintadas quer esculpidas, povoadoras da História da Arte, que tão irresistivelmente convoquem no nosso espírito a designação de eternas.

Ludovico III morre em 1478, mas as relações entre Mantegna e os Gonzagas não sofrem qualquer modificação. Mantegna encontra junto do sucessor da casa dos Gonzagas, Federico, um favor igual ao que gozara até aí. É quando um filho do pintor, em 1480, adoece gravemente, o novo marquês recomenda-o a um médico então célebre, Gerardo da Verona, que, contudo, não o pôde salvar. É depois deste acontecimento, e quem sabe se por causa dele, que Mantegna pinta o S. Sebastião que se encontra hoje no Louvre e que, na altura, foi levado por Chiara Gonzaga, filha de Ludovico III, para Aigueperse, na sequência do casamento com o conde Montpensier. Por duas vezes ainda, Mantegna retomará o tema sebástico: logo pouco tempo depois, na pequena tábua que se pode ver no Museu de Viena, e, perto do fim da vida, no dramático painel, actualmente no Ca’ d’Oro, em Veneza, exemplo, segundo Fiocco, «da mais abstracta metafísica linear».

Ainda as tintas da Camera degli Sposi mal tinham secado e já Andrea Mantegna se lançava, satisfazendo o pedido de Federico de Gonzaga, à gigantesca tarefa de pintar sobre tela o Triunfo de César, um conjunto de cinco quadros de grandes dimensões (no total 27 metros por 5), destinados a decorar uma sala onde se faziam representações teatrais. Estas telas, para além do seu evidente mérito artístico e decorativo, podem também ser olhadas como um esplendoroso inventário dos múltiplos saberes de Mantegna acerca das antiguidades romanas, desde o vestuário e insígnias às armas e objectos, mas sobretudo é possível captar nelas algo a que, sem excessivo erro de generalização, poderíamos chamar espírito da romanidade. Em 1489, de Roma, para onde tinha ido, a pedido do papa Inocêncio VIII, com a missão de pintar os frescos duma capela no Belvedere do Vaticano, Mantegna escreve ao marquês Gonzaga a recomendar-lhe a conservação das telas terminadas do Triunfo, ao mesmo tempo que exprime a esperança de continuar e completar a obra. Mas em Dezembro desse mesmo ano é Francesco de Gonzaga, neto de Ludovico III, quem, estando próximo o seu casamento com Isabella dEste, escreve ao papa a pedir-lhe que autorize o regresso de Mantegna a Mântua, para os preparativos da boda. Muito doente, Mantegna não poderá fazer a viagem, e só regressará a Mântua quase um ano depois, sendo certo que, nesse meio tempo, concluiu a decoração da capela do Belvedere, que veio a ser destruída em 1780. Em Abril de 1492 ainda faltarão dois elementos do Triunfo de César, mas Mantegna não terminará a obra.

Da representação do triunfo autêntico de um imperador, Mantegna vai passar, em 1495, à comemoração do triunfo de Francesco de Gonzaga contra Carlos VIII de França na batalha de Fornovo – vitória aliás bastante contestável, pois Carlos VIII pôde retirar-se com quase todo o seu exército, menos numeroso, de resto, que o do vencedor, e sofreu menos perdas do que este. No ano seguinte, a Madonna della Vittoria, hoje no Museu do Louvre, é exposta, em Mântua, com grande solenidade, numa capela de propósito construída para esse fim.

A vida de Mantegna vai chegando ao seu termo. Conhecido, amado e respeitado por todos, visitam-no em sua casa as personagens mais importantes do tempo, como Ercole d’Este, duque de Ferrara, e o próprio Lorenzo de Medici, il Magnifico. Doente, amargurado pelos desgostos, Mantegna continuará a pintar até se lhe acabarem as forças. Quando, finalmente, no dia 13 de Setembro de 1506 fecha os olhos para não mais os abrir, tem em sua casa o S. Sebastião (Ca’ d’Oro, Veneza) e o Cristo Morto (Brera, Milão), duas trágicas figurações dos intermináveis sofrimentos da humanidade, duas representações, também, da superior dignidade do ser humano.

Élie Faure disse um dia que os pintores primitivos punham sempre nas suas obras tudo quanto sabiam. Na sua pintura, Mantegna não pôs só tudo quanto sabia, pôs também o que definitivamente era: um homem inteiro na sua dureza e na sua sensibilidade, como uma pedra que fosse capaz de chorar.

José Saramago"