Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em 2003, Saramago perguntava sobre Portugal

Imaginar hoje o que Saramago se fosse vivo, poderia pensar sobre estes dias de Portugal.
Imaginar o seu pensamento, é recuar no tempo e procurar as suas perguntas, as suas questões.
Em 2003, perguntava "Onde está uma ideia de futuro para Portugal?"
Em 2014, estamos no futuro próximo, vivido, para responder à Saramago.
Cada vez mais, a ideia, o pensamento, o elementar princípio da ideia unificadora de Portugal - Não existe.



em, Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16/01/2003

(...) Estávamos (com Mário Saramago) na sala a conversar sobre tudo isto e perguntei-lhe se tinha a certeza de que Portugal daqui a 50 anos ainda existiria - e ele disse-me que não...

Por passar a estar integrado nos Estados Unidos da Europa?
Porque não temos um projecto de País, um futuro próprio. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. Não há um querer próprio, as pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto! Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência e nada por trás.
Onde estão as ideias? 
Onde está uma ideia de futuro para Portugal? 
Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa?
Parece que ninguém quer pensar nisto, os governos todos navegam à vista da costa. Falta ousar ir mais além. (...)

Carlos Vaz Marques entrevista Saramago - TSF "Pessoal... e Transmissível" - 03/11/2008

Via TSF
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?audio_id=1037821&content_id=917512

Programa:
Pessoal... e Transmissível

Autor:
Carlos Vaz Marques


Info via TSF
"Considera Barack Obama uma revolução na política americana. Poucos dias antes de ser posto à venda o novo livro de José Saramago, A Viagem do Elefante, o prémio Nobel português é o convidado de Carlos Vaz Marques."

3 de Novembro de 2008



Revista "Contraste" - Clara Ferreira Alves entrevista Saramago em Junho de 1986

Segundo consegui apurar, esta entrevista não está completa.
Procuro obter mais dados e elementos que completem esta inserção.

Aqui, o link: 


"Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!"

Citador #3 - Romancista Histórico! Sim ou não?

José Saramago, recusava rótulos, e este o de romancista histórico, era rapidamente afastado.
Aqui fica um pequeno exercício filosófico sobre esta temática.






(...) "Trata-se do rótulo gasto de que sou um romancista histórico, o que se confirmaria tanto por alguns livros que escrevi como pela minha relação com o tempo e posição perante a história. (...)
Imaginemos por um momento que estamos numa praia: o mar está ali, e continuamente aproxima-se em ondas sucessivas que chegam à costa. Pois bem, essas ondas, que avançam e não poderiam mover-se sem o mar que está por detrás delas, trazem uma pequena franja de espuma que avança em direcção à praia onde vão acabar. Penso, continuando a usar esta metáfora marítima, que somos nós a espuma que é transportada nessa onda, essa onda é impelida pelo mar que é o tempo, todo o tempo que ficou atrás, todo o tempo vivido que nos leva e empurra. (...)
E a história, onde fica? Sem dúvida a história preocupa-me, embora seja mais certo dizer que o que realmente me preocupa é o Passado, e sobretudo o destino da onda que se quebra na praia, a humanidade empurrada pelo tempo e que ao tempo regressa, levando consigo, no refluxo, uma partitura, um quadro, um livro ou uma revolução. Por isso prefiro falar mais de vida do que de literatura, sem esquecer que a literatura está na vida e que sempre teremos perante nós a ambição de fazer da literatura vida." (...)

em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago

Filme baseado na obra de José Saramago "A Jangada de Pedra"


Aqui via Fundação José Saramago, http://www.josesaramago.org/jangada-de-pedra-1986/

1986, «Em “A Jangada de Pedra” (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)


Filme baseado na obra "A Jangada de Pedra"



Omar Variño programa "Contracorriente" entrevista José Saramago


Entrevista realizada por Omar Variño - Programa "Contracorriente" - Cuba

Palestra Grande Teatro do Palácio das Artes - Belo Horizonte - Brasil




Programa especial em homenagem aos 90 anos de José Saramago. Palestra gravada em Belo Horizonte, em maio de 1999, no Grande Teatro do Palácio das Artes. 

domingo, 9 de novembro de 2014

José Saramago – É preciso recomeçar a viagem. Sempre. / Jornal Avante

Espaço dedicado a José Saramago na Festa do Avante - PCP

Análise que pode ser aqui consultada


José Saramago – É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
«-Vivemos entre os homens, ajudemos os homens. – E que faz o senhor para isso? – Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora.» In Claraboia1 

No mês em que se cumprem, e assinalam, 4 anos da morte de José Saramago; no mês em que se estreia mais um filme baseado na sua obra, O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, relembremos neste espaço alguns tópicos da obra do escritor, um dos maiores e mais fecundos autores da nossa Literatura, obra que, justamente, mereceu reconhecimento internacional e recebeu o maior prémio que é possível atribuir a uma Literatura, a uma Língua, a um Autor: o Prémio Nobel.

Saramago não é autor de fácil abordagem. Que o digam Maria Odete Santos Jubilado, Maria Alzira Seixo, Teresa Cristina Cerdeira da Silva, Clara Ferreira Alves, Maria Lúcia Lepecki, Helena Kaufman, Leyla Perrone-Moisés, Eula Pinheiro, Carlos Reis, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Dacosta, Harold Bloom, António José Borges, Baptista Bastos, Fernando Venâncio, só para referir alguns dos autores que se meteram em trabalhos sobre os códigos de uma escrita que rescreve os modos da abordagem romanesca, ao mesmo tempo que reinventa a própria linguagem em que esses códigos se plasmam – e julgo que o terão encetado com renovado prazer, dado não se haverem limitado aos estudos iniciais e terem, de forma recorrente, regressado ao «local do crime», ou seja, a esse vasto repositório das suas especulações ensaísticas. Há anos, numa homenagem a José Saramago realizada na festa do L´Humanité, assinalando a edição francesa de Levantado do Chão, homenagem em que tive a honra de participar, faziam-me uma pertinente pergunta: porquê, tantos e tão diversos autores, haviam percorrido os signos de uma escrita, a um tempo real e fantástica, do universo ficcional saramaguiano? Sem dados disponíveis, como agora, saiu-me de jorro uma, provavelmente, pouco científica resposta: esse facto deve-se, por certo, ao fluxo narrativo do autor, a esse estranho modo de contar, a uma fala que é moderna e clássica, sedutora e racional, inquietante e irónica, poética e sagaz, e a nossa cartesiana postura, perante o humano que a estrutura, nos convocar para abordagens diversas sobre tão complexo discurso na ânsia, vã, por certo, de plenamente a descodificar.

Partindo da obra romanesca de José Saramago – a que podemos considerar dentro de um universo temático que estrutura uma reflexão demorada e estimulante, e profusamente informada, quer na forma quer na abordagem, sobre esse estranho e equívoco desígnio do ser português, ou seja, da singularidade histórica e cultural das gentes que, desde o século XII, habitam este rectângulo ibérico, e que na diversidade temporal que a obra de Saramago reflecte, inclui títulos que vão de Manual de Pintura e Caligrafia até A História do Cerco de Lisboa, considerando-se assim, em definição conjuntural, como a 1.ª fase da sua obra ficcional; a que se debruça sobre a ficcionalidade do real, mesmo quando o mágico a invade, e do histórico: Levantado do Chão, Viagem a Portugal, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e História do Cerco de Lisboa – recorrência a que Saramago só voltará, com rasante ironia, num dos seus títulos finais, A Viagem do Elefante e, já após a sua morte, com esse notabilíssimo romance que é Claraboia, tantos anos guardado e que nos mostra um autor que, aos 31 anos possuía já uma escrita seguríssima, uma capacidade de análise e de descrição invulgares. Neste romance o jovem Saramago inscreve, com desarmante clareza (nos métodos da abordagem, na agilização linguística) uma perspectiva lúcida e assertiva sobre o percurso das componentes sincrónicas, hipodiegéticas e intertextuais que estruturam o modo literário, como lhe chamou Maria Alzira Seixo, ou seja, os plurais acervos simbólicos, o poder de representação da natureza humana que configuram o discurso ficcional saramaguiano, cujos se explanarão em plenitude nos textos posteriores. Aos 31 anos, Saramago é já um autor de inegáveis capacidades inventivas, seguro e dextro nos recursos, estilísticos e narrativos, mesmo quando considera, em louvável autocrítica, ser Claraboia um livro também ingénuo, mas que (...) tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser. Nada mais exacto.

E aqui cabe referir, dado que novas edições da sua obra se perfilam nos escaparates, esse estranho objecto literário que é Manual de Pintura e Caligrafia. José Saramago, encena neste livro a utópica ambição, que todo o criador de génio persegue, de explicar, de tornar menos absurdo o volátil existencial, esse magma que nos cola, mente e vísceras, a este cósmico chão – a necessidade de tornar, através da arte, perene o que é efémero e dar algum sentido ao caos. Transportar na pele, nos ossos, esse semental de ideias, de que nos fala Luís Rebelo de Sousa e que este romance, ainda não inteiramente compreendido de Saramago, dado que percorre, com subtileza, alguns dos formulários do nouveau roman, sendo este um texto a um tempo denso, complexo e prospectivo; brilhante exercício que é sobre a linguagem, a arte misturando-se com os referentes memoriais e introspectivos, a desnudar-se num rarefeito autodiegético, num tempo ainda de incertezas mas já de balanço, fim de uma jornada e recomeço – o rigor e o domínios formais que Manual inaugura e se prolongará com uma respiração mais solta em Levantado do Chão, livro que contém já os sinais de uma escrita poderosa, um estilo de reconhecida identidade. É José Saramago que nos dirá numa passagem de Manual, em jeito expositivo, que a sua obra posterior glosará até que esse exercício vocativo se torne um programa, um modo, forma de abordagem do real e do histórico ficcionáveis, ou da realidade transmudada em modo de ficção: sei disto um pouco, porque o aprendi em tempos, porque tenho pintado, porque estou a escrever. Agora mesmo o mundo transforma-se lá fora. Nenhuma imagem o pode fixar: o instante não existe.

É a partir destes sinais, deste modo de inventar utopias, que o universo narrativo de Saramago se estrutura, dissecando os signos, dentro do realismo mágico, até ao osso. É no irónico, nos «sinais da vida» e no profundo humanismo, nessa «competência ideológica» de que nos fala Philipe Hamon, que a ficção de Saramago se definirá, dentro e fora de fronteiras (literárias e ideológicas), rasgando preconceitos e impondo-se como um dos mais geniais criadores literários contemporâneos, tornando universal uma Literatura que parecia condenada a ser periférica.

Na obra singular que nos legou, na sua pluralidade imagética, no humano que a edifica, encontramos o esplendor da linguagem, os significantes perenes que, diversamente, atravessam essa escrita e a tornam rara, absorvente e mágica: o desafio intertextual; a tradição oral; o jogo com as derivantes da sabedoria popular; as componentes metonímicas; a herança prosódica integrando os campos semânticos; o surreal e o fantástico; a certeza, como em Defoe, Rousseau e Yourcenar, de que «toda a verdade é ficção» ou ficcionável; a questão da verdade (a dualidade verdade/histórica vs. verdade/ficcional) – os teoremas de uma escrita poderosa e única, esse gosto/gozo de jogar no cerne das palavras, como acontece na evocação de O Lusíadas num dos seus mais brilhantes e lúcidos textos dramáticos, Que Farei com Este Livro?

Que faremos nós, hoje e aqui, com esse legado único, com esse monumento de palavras que os livros de José Saramago são? Partir com eles numa nova, exaltante viagem, dado que o fim duma viagem é apenas o começo doutra.

Respeitou-se, neste título, a grafia do autor

Domingos Lobo 

Jornal Avante - Edição Nº2117  -  26-6-2014

sábado, 8 de novembro de 2014

Saramago prefacia o livro "Terra" de Sebastião Salgado - 1997

O livro Terra, que foi lançado em 1997, conta com 109 fotografias a preto e branco tiradas por Salgado entre 1980 e 1996. Além do prefácio de Saramago, o trabalho também teve a participação de Chico Buarque, que compôs duas canções inspiradas nas imagens – o livro vinha acompanhado de um CD com quatro músicas do cantor brasileiro. Os direitos autorais da obra foram doados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra).

http://www.josesaramago.org/nos-70-anos-de-sebastiao-salgado/




Via Youtube - Chico Buarque canta para o livro de Sebastião Salgado - 3Terra"

Prefácio de José Saramago
Livro de Sebastião Salgado - "Terra"

"Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a ideia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.
Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríferas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar - as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.
Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de Si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea máxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido.
Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas.
Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão. Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.” E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito.” E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece." E Deus: "Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.” 
Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.” Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando às mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas.
No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras...), 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinquenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. Passados três meses sobre este sangrento acontecimento, a polícia do estado do Pará, arvorando-se a si mesma em juiz numa causa em que, obviamente, só poderia ser a parte acusada, veio a público declarar inocentes de qualquer culpa os seus 155 soldados, alegando que tinham agido em legítima defesa, e, como se isto lhe parecesse pouco, reclamou processamento judicial contra três dos camponeses, por desacato, lesões e detenção ilegal de armas.
O arsenal bélico dos manifestantes era constituído por três pistolas, pedras e instrumentos de lavoura mais ou menos manejáveis. Demasiado sabemos que, muito antes da invenção das primeiras armas de fogo, já as pedras, as foices e os chuços haviam sido considerados ilegais nas mãos daqueles que, obrigados pela necessidade a reclamar pão para comer e terra para trabalhar, encontraram pela frente a polícia militarizada do tempo, armada de espadas, lanças e alabardas. Ao contrário do que geralmente se pretende fazer acreditar, não há nada mais fácil de compreender que a história do mundo, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser complicada demais para o entendimento rude do povo.
Pelas três horas da madrugada do dia 9 de Agosto de 1995, em Corumbiara, no estado de Rondônia, 600 famílias de camponeses sem terra, que se encontravam acampadas na Fazenda Santa Elina, foram atacadas por tropas da polícia militarizada. Durante o cerco, que durou todo o resto da noite, os camponeses resistiram com espingardas de caça. Quando amanheceu, a polícia, fardada e encapuçada, de cara pintada de preto, e com o apoio de grupos de assassinos profissionais a soldo de um latifundiário da região, invadiu o acampamento. Varrendo-o a tiro, derrubando e incendiando as barracas onde os sem-terra viviam. Foram mortos 10 camponeses, entre eles uma menina de 7 anos, atingida pelas costas quando fugia. Dois polícias morreram também na luta.
A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, atualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva (que, ao contrário do que um primeiro e apressado exame possa levar a pensar, significam, na realidade, um aproveitamento insuficiente da terra), encontra-se em estado de improdutividade, de abandono, sem fruto.
Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e económica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4 800 000 famílias de rurais sem terras. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso, mas aquela gente (quantas pessoas ao todo? 15 milhões? mais ainda?) não pode lá entrar para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que primeiro haviam dito: “Esta terra é minha”, e encontraram semelhantes seus bastante ingénuos para acreditar que era 
suficiente tê-lo dito, esses rodearam a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar. Os 19 mortos de Eldorado dos Carajás e os 10 de Corumbiara foram apenas à última gota de sangue do longo calvário que tem sido a perseguição sofrida pelos trabalhadores do campo, uma perseguição contínua, sistemática, desapiedada, que, só entre 1964 e 1995, causou 1 635 vítimas mortais, cobrindo de luto a miséria dos camponeses de todos os estados do Brasil. com mais evidência para Bahia, Maranhão. Mato Grosso, Pará e Pernambuco, que contam só eles, mais de mil assassinados.
E a Reforma Agrária, a reforma da terra brasileira aproveitável, em laboriosa e acidentada gestação, alternando as esperanças e os desânimos, desde que a Constituição de 1946, na sequência do movimento de redemocratização que varreu o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, acolheu o preceito do interesse social como fundamento para a desapropriação de terras? Em que ponto se encontra hoje essa maravilha humanitária que haveria de assombrar o mundo, essa obra de taumaturgos tantas vezes prometida, essa bandeira de eleições, essa negaça de votos, esse engano de desesperados? Sem ir mais longe que as quatro últimas presidências da República, será suficiente relembrar que o presidente José Sarney prometeu assentar 1.400.000 famílias de trabalhadores rurais e que, decorridos os cinco anos do seu mandato, nem sequer 140.000 tinham sido instaladas; será suficiente recordar que o presidente Fernando Collor de Mello fez a promessa de assentar 500.000 famílias, e nem uma só o foi; será suficiente lembrar que o presidente Itamar Franco garantiu que faria assentar 100.000 famílias, e só ficou por 20.000; será suficiente dizer, enfim, que o actual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu que a Reforma Agrária irá contemplar 280.000 famílias em quatro anos, o que significará, se tão modesto objectivo for cumprido e o mesmo programa se repetir no futuro, que irão ser necessários, segundo uma operação aritmética elementar, setenta anos para assentar os quase 5.000.000 de famílias de trabalhadores rurais que precisam de terra e não a têm, terra que para eles é condição de vida, vida que já não poderá esperar mais. Entretanto, a polícia absolve-se a si mesma e condena aqueles a quem assassinou.
O Cristo do Corcovado desapareceu, levou-o Deus quando se retirou para a eternidade, porque não tinha servido de nada pô-lo ali. Agora, no lugar dele, fala-se em colocar quatro enormes painéis virados às quatro direcções do Brasil e do mundo, e todos em grandes letras, dizendo o mesmo: 
UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA.

JOSÉ SARAMAGO - 1997"

Aqui também para consulta, no portal do MPT 
http://www.mst.org.br/node/10125

25 Anos 25 Livros - "Ensaio sobre a Cegueira" Escolhido pelo World Literature Today

A publicação WLT World Literature Today, pediu que fossem nomeadas as obras mais influentes, escrita em qualquer língua, mas traduzida para o Inglês, publicadas desde Novembro de 1989.
Esta data é importante, porque serve de referência para a abertura do leste, fim da guerra fria com a queda do muro de Berlim. 
José Saramago, através do "Ensaio sobre a Cegueira", é reconhecido com esta nomeação.
O mundo que segue, ou considera a influência deste tipo de escolhas, tem mais uma janela aberta para a entrada no mundo Saramaguiano.



Aqui o Link do World Literature Today
http://www.worldliteraturetoday.org/

Link para as 25 obras escolhidas, em
- http://www.worldliteraturetoday.org/2014/november/results-25-books-inspired-world-1989-2014#.VF3lkfmsX4X

As part of World Literature Today magazine’s November 2014 cover feature focusing on central European literature since the fall of the Berlin Wall, the editors invited 25 writers to nominate one book that most influenced their own writing or ways of seeing the world. Nominations were open to any book-length work—written in any language and published since November 1989—as long as it could be read in English. The longlist was then published on WLT’s blog, and readers were invited to vote for their three favorites. Here are the top ten results, along with the nominating statements for the three winning titles:

José Saramago (Portugal)
Blindness, tr. Giovanni Pontiero, 1995/1998

Laila Lalami and Mahmoud Saeed on José Saramago:

“In Blindness, the people of an unnamed city lose their sight one after another. As the epidemic spreads, social order breaks down and people commit acts of unspeakable horror as well as occasional acts of kindness. Throughout the novel, Saramago makes readers see that, no matter what society we live in, we remain constrained by our cultural perceptions and prejudices and rarely question the state of the world around us.” [LL]

“What I love about literature in general and the novel in particular is the degree of human consciousness involved. Saramago’s Blindness talks about humanity’s struggle with savagery, which is a very old struggle. People have passed laws to rein in evil for thousands of years; however, if we find ourselves in a place where there are no laws, we revert to being primitives and beasts. The novel proposes no particular solution but rather leaves us to think about various personal, individual solutions.” [MS]

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Entrevista ao programa Roda Viva (Brasil - 13/10/2003)

Entrevista ao programa Roda Viva (Brasil) em 13/10/2003
Entrevista realizada pelo jornalista Paulo Markun, conjuntamente com um painel de 9 personalidades da cultura brasileira 


Aqui o link, via Youtube, em  http://www.youtube.com/watch?v=QCACUZly3DM

"O programa Roda-Viva, do canal Cultura, entrevista José Saramago - Escritor Português. Com mais de duas dúzias de livros já traduzidos para sete idiomas, o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, reúne em sua obra o pensamento social e humanista que o caracteriza como reconhecido romancista da língua portuguesa e como pensador crítico da globalização, da lógica do mercado e do individualismo que marcam o homem no mundo contemporâneo. José Saramago faleceu dia 18 de Junho de 2010, aos 87 anos."

E eis que os Sábios de Bizâncio foram "convocados" por José Saramago

(...) "Porém, esse não seria grande mal, e daria gosto ao intelecto, se os tempos corressem remansosos, entre o trabalho profícuo e o lazer legítimo. Não vamos invocar aqui os sábios de Bizâncio, os invocamos, sim senhores, mas sem acentuar demasiado, que tendo os invasores em frente das muralhas da cidade, discutiam aprazivelmente o problema do sexo dos anjos ou outros de parelha importância. No entanto, perante a facúndia verbal dos nossos militares, todos oradores, todos homens de caneta, todos escritores ou quase, e pelo menos todos melhores do que jornalistas - as assembleias de Bizâncio ocorrem-nos à lembrança, não tanto pelos sábios (cada Bizâncio e cada Lisboa têm os sábios que podem), mas por causa dos invasores...
É este, sem ofensa repetimos, o espectáculo que Portugal dá aos outros e a si próprio: os letrados, praticamente, não abrem a boca, os militares não mostram jeito de fechá-la, e os invasores, esses, não estão fora das muralhas, mas dentro da cidade, dentro do País, no próprio coração do Povo." (...)

Os Apontamentos
Crónica "A pena e a espada" 
Caminho, pag. 304/305
14 de agosto de 1975

Este era o sentimento, vivido e sentido por Saramago, nos idos anos de 75.
Muita gente falando, discutindo, e ao que parece os militares intelectuais dissertam como quais sábios de Bizâncio.



Informação recolhida via Wikipédia
Aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Império_Bizantino

"O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e Idade Média. Sua capital foi Constantinopla (moderna Istambul), originalmente conhecida com Bizâncio. Inicialmente parte oriental do Império Romano (frequentemente chamada de Império Romano do Oriente no contexto), sobreviveu à fragmentação e ao colapso do Império Romano do Ocidente no século V e continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até sua queda diante da expansão dos turcos otomanos em 1453. Foi conhecido simplesmente como Império Romano (em grego: Βασιλεία Ῥωμαίων; transl.: Basileia Rhōmaiōn; em latim: Imperium Romanum) ou România (em grego: Ῥωμανία; transl.: Rhōmanía) por seus habitantes e vizinhos.
Como a distinção entre o Império Romano e o Império Bizantino é em grande parte uma convenção moderna, não é possível atribuir uma data de separação. Vários eventos do século IV ao século VI marcaram o período de transição durante o qual as metades oriental e ocidental do Império Romano se dividiram. Em 285, o imperador Diocleciano (r. 284–305) dividiu a administração imperial em duas metades. Entre 324 e 330, Constantino (r. 306–337) transferiu a capital principal de Roma para Bizâncio, conhecida mais tarde como Constantinopla ("Cidade de Constantino") e Nova Roma.nt Sob Teodósio I (r. 379–395), o cristianismo tornou-se a religião oficial do império e, com sua morte, o Estado romano dividiu-se definitivamente em duas metades, cada qual controlada por um de seus filhos. E finalmente, sob o reinado de Heráclio (r. 610–641), a administração e as forças armadas do império foram reestruturadas e o grego foi adotado em lugar do latim. Em suma, Bizâncio se distingue da Roma Antiga na medida em que foi orientado para a cultura grega em vez da latina e caracterizou-se pelo cristianismo ortodoxo em lugar do politeísmo romano.
As fronteiras do império mudaram muito ao longo de sua existência, que passou por vários ciclos de declínio e recuperação. Durante o reinado de Justiniano (r. 527–565), alcançou sua maior extensão após reconquistar muito dos territórios mediterrâneos antes pertencentes à porção ocidental do Império Romano, incluindo o norte da África, península Itálica e parte da península Ibérica. Durante o reinado de Maurício (r. 582–602), as fronteiras orientais foram expandidas e o norte estabilizado. Contudo, seu assassinato causou um conflito de duas décadas com o Império Sassânida que exauriu os recursos do império e contribuiu para suas grandes perdas territoriais durante as invasões muçulmanas do século VII. Durante a dinastia macedônica (século X–XI), o império expandiu-se novamente e viveu um renascimento de dois séculos, que chegou ao fim com a perda de grande parte da Ásia Menor para os turcos seljúcidas após a derrota na batalha de Manziquerta (1071).
No século XII, durante a Restauração Comnena, o império recuperou parte do território perdido e restabeleceu sua dominância. No entanto, após a morte de Andrônico I Comneno (r. 1183–1185) e o fim da dinastia comnena no final do século XII, o império entrou em declínio novamente. Recebeu um golpe fatal em 1204, no contexto da Quarta Cruzada, quando foi dissolvido e dividido em reinos latinos e gregos concorrentes. Apesar de Constantinopla ter sido reconquistada e o império restabelecido em 1261, sob os imperadores paleólogos, o império teve que enfrentar diversos estados vizinhos rivais por mais 200 anos para sobreviver. Paradoxalmente, este período foi o mais produtivo culturalmente de sua história. Sucessivas guerras civis no século XIV minaram ainda mais a força do já enfraquecido império e mais territórios foram perdidos nas guerras bizantino-otomanas, que culminaram na Queda de Constantinopla e na conquista dos territórios remanescentes pelo Império Otomano no século XV."



Citador #2 - Final de acto

Citador #2
a ideia "final de acto"

Na obra "Terra do Pecado"

"Pois eu tenho ideias diferentes acerca disso a que se chama final de acto. Penso que a humanidade futura não terá meios, nem possibilidades, nem forças, para fugir ao seu destino de vencida. E então, o final do acto será a Terra continuando a girar no espaço levando no dorso um carregamento de cadáveres até que o empresário se resolva a tirar a peça de cena."

O relato do "nascimento" da obra "Ensaio sobre a Cegueira"

Como é o processo da criação de uma obra?
Nasce o título, a ideia, a personagem, o fim?
Neste caso, muitas das obras publicadas têm também a referência ao seu "nascimento". Aqui o relato.

(...) Já o "Ensaio sobre a Cegueira" nasceu num restaurante, na Varina da Madragoa, aonde durante anos eu ia muito. Estava a almoçar e a pensar em coisas vagas e de repente fiz esta pergunta: e se nós fôssemos todos cego? E imediatamente dei a resposta à pergunta: mas nós estamos todos cegos! A partir daqui avancei, e como no caso de O Homem Duplicado, a ideia é aquela coisinha que se diz em quatro palavras. Depois há que fazer a história. (fim de citação)

em,
Uma Longa Viagem com José Saramago
João Céu e Silva



"Se podes Olhar, Vê
Se poder Ver, Repara"

Esta obra, antes da simples alegoria, do romance contado, é um poderoso instrumento de reflexão social. 
O homem enquanto indivíduo, e o mesmo homem num colectivo. 
O primado do "Eu" sobre o "Nós"; o "Eu" poderoso e opressor. 
O conflito de uma sociedade, que quando afectada pelo "mal", resolve afastá-lo construindo uma sub-sociedade, esta, num patamar inferior, onde só os afectados pela maleita têm lugar. 
O mal que se apresenta como um elemento transversal, afectando todos sem distinção, como que de uma rede se tratasse e a todos pudesse chegar.
As lutas pela sobrevivência, o "Eu" que readquire a sua "animalidade" pré-histórica e vive/sobrevive pelo instinto.
A heroína. O Cão das Lágrimas.
A sobrevivência.



Informação constante na "Bibliografia Activa", do site da Fundação José Saramago
Aqui: http://www.josesaramago.org/ensaio-sobre-a-cegueira/

«Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como “um rastilho de pólvora”. Uma cegueira colectiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Portugal de 75 "À espera de Godot?" de Beckett - A analogia com a politica nacional

O momento político nacional, nos tempos do verão quente de 1975.
Os que fazem e concretizam o espírito da revolução, e os seus momentos de pausa e recuos.

Os Apontamentos
Caminho - 2.ª edição / 1990

À espera de Godot? - 17 de Junho de 1975



Godot, quem é? Na peça de Beckett, todo o tempo se passava na espera e na esperança dessa entidade invisível que resolveria todos os problemas, quando chegasse. Quando chegasse, e se chegasse... Quem conhece a peça, sabe que nenhuma diferença há entre o princípio dela e o fim, que a mesma árvore seca cobre ou agride o mesmo esperar e o mesmo desespero. Continuaremos a literatizar? Um pouco mais, apenas, para satisfazer o gosto... Aqueles personagens discutem, ferem-no, alternam o ódio e reconciliação, tudo de acordo com a chamada natureza humana, para Beckett idêntica e transmissível de todos os tempos para todos os tempos: tudo se resumiria a um eterno esperar, a um projecto contínuo, só projecto, sem começo sequer de realização, porque sem Godot nada se pode fazer e Godot não vem...
E nós, em Portugal? Godot chegou a 25 de Abril, e tornou outras vezes: Junho, Setembro, Março recente, não por predestinação ou favor especial dos deuses, mas porque aqui nos esforçámos todos os que querem a Revolução e a estão fazendo. Este Godot de carne, osso e vontade não precisa das artes da dramaturgia,  mas depende da vitalidade de um processo que muitas mãos empurram (bem ou mal) e outras procuram travar. (...)
(...) E aqui voltaríamos à peça de Beckett: pela primeira vez, em momento de crise, se passam tão poucas coisas à luz do dia e às claras, e tantas tão secretas, nos bastidores. É como se o Poder (onde esteja) desconfiasse do peso das massas populares e da sua distribuição, e, desconfiando, prefira deliberar, apresentar e praticar sozinho. (...)

Referência na Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperando_Godot

En attendant Godot ou Waiting for Godot, em inglês (À Espera de Godot em Portugal; Esperando Godot no Brasil) foi a primeira peça de teatro escrita pelo dramaturgo Irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Escrita originalmente em francês, foi publicada pela primeira vez em 1952 e apresentada no pequeno Théâtre Babylone em Paris, com direção de Roger Blin (1907-1984). O Brasil foi o segundo país a ter uma montagem deste texto, com a direção de Alfredo Mesquita, em 1955. É considerado um das principais textos do teatro do absurdo e a principal obra de Samuel Beckett.
A Criação - Beckett escreveu a peça em 1949 e só veio a publicá-la no ano de 1952, em francês. Em 1955 Beckett realizou sua versão inglesa. Personagens da peça:
Vladimir
Estragon
Pozzo
Lucky
Um garoto
A peça é dividida em dois atos. Nos dois atos, inicialmente contracenam dois personagens: Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo). Durante cada um dos atos, que são bem semelhantes, surgem dois novos personagens: Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena no final de cada ato um garoto.
O Enredo - A rubrica inicial define: Estrada, árvore, à noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir). Em cena Estragon e Vladimir. Aparentemente esperam um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam longo diálogo, só interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. Lucky carrega uma pesada mala que não larga um só instante. O segundo ato desenvolve a mesma dinâmica. O cenário é o mesmo, apenas a árvore está um pouco diferente, agora com algumas folhas. Estragon e Vladimir iniciam sua jornada na espera de Godot. Surgem novamente Pozzo e Lucky. Pozzo está cego e Lucky surdo. Após a partida destes, aparece novamente um garoto anunciando novamente que Godot não virá, talvez amanhã. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.) (Yes, let's go.)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) (They do not move.)

José Saramago "The Unexpected Fantasist" Fernanda Eberstadt - The New York Times - 26/08/2007

Aqui o perfil de Saramago segundo o The New York Times

Aqui o link da entrevista




The Unexpected Fantasist
By Fernanda Eberstadt
Published: August 26, 2007

One evening in June, the Portuguese novelist Jos?aramago was addressing a small gathering at a book party in Lisbon. The occasion was the reissue of a volume of his poems originally published in 1975. Saramago, who is 84, is an austere man, extremely tall and so lean that he is practically concave. The night was hot, but he was wearing, as usual, a dark suit and tie. An outspoken atheist, Saramago maintains that religion is to blame for most of the world's violence. Yet in his old age he resembles nothing so much as a steely churchman from a Renaissance altarpiece, a St. Jerome in the desert.

Saramago first won fame in the English-speaking world two decades ago with the publication of his novel ''Baltasar and Blimunda,'' a picaresque love story set during the Portuguese Inquisition and written in a fantastical vein that drew him comparisons with Gabriel Garcia Marquez. His subsequent novels earned him a reputation for profound versatility. In his 1995 political parable, ''Blindness,'' a city is reduced to savagery by a mysterious plague of sightlessness. The Brazilian filmmaker Fernando Meirelles, who directed ''City of God'' and ''The Constant Gardener,'' is currently making a film of the book.

For many years, Saramago was mentioned as a candidate for the Nobel Prize in Literature, but there were other Portuguese-language writers, like the Brazilian Jorge Amado, who seemed likelier bets. In October 1998, Saramago was preparing to fly out of Germany after the Frankfurt Book Fair when he was told not to board the plane, because he had just won the prize. He was a little stunned.

''He returned to the Frankfurt Book Fair, which was like Grand Central Station at rush hour,'' recalls Christopher MacLehose, the legendary former publisher of Harvill Press in England who helped introduce Saramago's novels to English-language readers. ''The place went mad.''

Zeferino Coelho, Saramago's Portuguese editor, remembers Saramago's subdued reaction: ''When he won the Nobel, Saramago said to me, 'I was not born for all this glory.' I told him, 'You may not have been made for this glory, but I was!' ''

It's not much of a stretch to say that Saramago has since regarded his literary fame chiefly as a means of spreading his political convictions. A member since 1969 of Portugal's notoriously hard-line Communist Party, Saramago spends much of his time at international forums, where he tends to deliver rather dull, pedantic speeches denouncing the European Union or the International Monetary Fund. Five years ago, however, he managed to create a worldwide scandal when, on a tour of the West Bank, he compared the situation in the Palestinian territories with ''Auschwitz.''

To the literary critic Harold Bloom, the comparison with Auschwitz was ''an unforgivable failure of imagination and humanity'' on the part of a novelist he considers ''second only to Philip Roth'' among living writers. ''Saramago's novels are endlessly inventive, endlessly good-natured, endlessly skillful,'' Bloom told me, ''but it baffles me why the man can't grow up politically. In 2007, to be a Portuguese Stalinist means you're simply not living in the real world.''

At the book party in Lisbon, Saramago was in a more lyrical mood. His unscripted half-hour speech ranged widely in subject matter, from his own ''blackness'' of feeling when the leftist Portuguese Revolution of 1974 took a social-democratic turn, to how neorealism in 20th-century painting was unjustly eclipsed by Surrealism, to the staircase Michelangelo designed for the Laurentian Library in one cloister of San Lorenzo in Florence. ''When I first saw this work, 30 years ago,'' he said, ''I trembled.''

Saramago concluded his talk: ''Every man has his own patch of earth to cultivate. What's important is that he dig deep.''

To one side of the lectern where Saramago spoke, a lushly beautiful dark-haired woman stood in a white suit. This was his wife, Pilar del Rio. From time to time, del Rio, struggling to catch her husband's eye, raised her hand to her mouth, indicating in insistent pantomime that he should drink from the bottle of water at his side. To me, she rolled her eyes at the absurdity of an old man too stubborn to hydrate himself on a hot summer night. Saramago seemed quite pleased to gaze at del Rio, but he wouldn't drink.

Saramago has a mixed reputation in his native land. When he won the Nobel Prize, Portuguese readers evidently felt vindicated that one of their countrymen had at last received this high honor. Coelho, his editor, told me that from October to November 1998, ''we printed 400,000 copies of his latest book. Overall, we have sold 2 million copies of Saramago's works -- this, in a country of 10 million people, is a lot.''

Yet Saramago also often appears to be disliked. In part this is the resentment of a country that has long been dominated by a small elite. In part, it is a matter of Saramago's own unaccommodating personality. Everywhere I went in Lisbon in June, people described him as ''cold,'' ''arrogant,'' ''unsympathetic.'' When my interpreter inquired at a DVD store if a documentary about Saramago was in stock, the young salesman, startled by the request, replied, laughing, ''I hope not!''

Abroad, even Saramago's champions concede that he is a somewhat prickly character. ''Jos?aramago is one of the most graceful men I've ever met,'' MacLehose told me, ''but he is pretty obdurate. He arrived at international recognition relatively late in life, after having long been a substantial thorn in the side of the Portuguese government, and he is very much his own man.''

Saramago himself appears undismayed by his reputation. ''I am not a bad person,'' he said at the book party. ''I hurt only with my tongue!''

the following day, I went to visit Saramago at his home in Lisbon. His permanent residence is in the Spanish Canary Islands, where he has been living in symbolic exile since 1992, when the Portuguese government, apparently under pressure from the Catholic Church, blocked his supposedly heretical novel, ''The Gospel According to Jesus Christ,'' from being nominated for a European literary prize.

He nonetheless keeps a pied-?erre in a modern middle-class neighborhood of Lisbon. Inside, the house, shuttered dark against the encroaching sunlight, is as impersonal as a hotel suite. Virtually the only books on the living-room shelves are those by the author himself. (His compound in the Canary Islands, by contrast, has a university-size library, which he makes available to students.)

Pilar del Rio served coffee in demitasses. Del Rio is an elegant, voluble journalist from Seville. She is Saramago's second wife -- they married in 1988 -- and is nearly 30 years younger than he. They met in the mid-'80s, when she was lecturing in Lisbon, she told me. Their marriage appears to be warmly symbiotic. Del Rio answers her husband's correspondence under the e-mail alias of ''Blimunda'' and serves as his Spanish-language translator.

Eventually Saramago descended from an upstairs study and, upright as a soldier, took his place in an armchair. We talked for four hours. I asked questions, my interpreter translated, Saramago answered. Most of his replies began, ''No, that is not true ... ,'' and briskly devolved into lectures on working conditions in China, or how the late Soviet Union was in fact a capitalist economy ''in disguise.'' His tone was dry, professorial: it seemed as if he could continue for another day or two without breaking a sweat or cracking a smile.

¶ The unyielding coolness is, admittedly, hard-won. There are few literary stars who have risen from as impoverished a background. Born in 1922, Saramago grew up in a small village about 60 miles northeast of Lisbon. His maternal grandparents were landless peasants who raised pigs, and Saramago's early years were spent hoeing, chopping wood and hauling water from the pump. In his Nobel lecture, Saramago described his grandfather Jerä(3$)nimo as ''the wisest man I ever knew.'' On summer nights when Saramago was a child, he recalled, his grandfather would take him to sleep outside under a fig tree and regale him with ''legends, apparitions, terrors.'' It was ''an untiring rumor of memories'' that later fueled his own literary imagination. ''If my grandfather had been a rich landowner and not an illiterate pig breeder, I wouldn't be the man I am today,'' Saramago told me. ''If I could choose my own background -- even with the cold of the winters, the heat of the summers, sometimes going hungry -- I wouldn't change a thing.''

When Saramago was 2, his parents, searching for work, moved the family to Lisbon. For the young Jos?the transplant didn't take. In ''As Pequenas Memä(3$)rias,'' his childhood memoirs, which were recently published in Portugal, he portrays his native village, to which he returned from Lisbon for long stretches every year, as ''the pouch into which this small marsupial -- quiet, secret, solitary -- retreated in order to create himself.''

The mark that the old village made on Saramago extended to his name itself. ''When I showed up, aged 7, for my first day of school in Lisbon, I had to present my identity papers,'' he told me. It was only then his parents discovered that the last name printed on his birth certificate was not their family name, de Sousa. The village clerk had instead registered the baby as ''Saramago,'' or ''wild radish.''

''It was an insulting nickname villagers gave my father,'' Saramago explained. ''The clerk wrote it perhaps because he was drunk, perhaps as a prank. My father wasn't very happy, but if that was his son's official name, well, then, he had to take it, too. I think never before in history has a son named his father.''

From his peasant roots, Saramago acknowledged, he has derived a certain fatalistic pragmatism. The narrative sensibility that runs through his fiction was described by the critic Irving Howe as ''caustic and shrewd.'' In one book, a character whose viewpoint the reader suspects lies close to the author's says, ''Unless I can see things with these eyes of mine that the earth will one day devour, I don't believe in them.''

Yet coexisting with this flinty skepticism is a taste for the fantastical. The joke implicit in Saramago's fiction is that he has placed his sober, mistrustful protagonists in a world of magic, where countries detach themselves from the mainland and float out to sea, cities are struck by epidemics of blindness and an 18th-century renegade priest escapes the Inquisition in a flying machine whose means of locomotion is the human will.

This folk-tale sensibility is what differentiates Saramago's novels from the middle-class, urban mainstream of American and Western European literature. If his literary sensibility seems closer to the absurdism of Soviet-era novelists like Mikhail Bulgakov or the fabulist realism of South American masters like Julio Cortázar and Adolfo Bioy Casares, it is perhaps because fantasy and allegory are natural outlets for writers raised under political dictatorship.

In 1926, when Saramago was 3, a military coup overthrew the Portuguese republic. For the following 48 years, Portugal was ruled by a fascist regime whose slogan was ''God, Fatherland, Family.'' In the so-called New State of the dictator Antä(3$)nio Salazar, independent political parties and labor unions were outlawed, the press was ruthlessly censored and the economy was controlled by a few state-favored oligarchs. Salazar's secret police, supposedly modeled on the Gestapo, sent suspected dissidents to the infamous Tarrafal prison in the Cape Verde Islands.

Coelho, Saramago's editor and a fellow Communist, spent the last years of Salazar's regime in hiding. ''Except for our brief moment of glorious exploration in the 16th century,'' he told me, ''Portugal has always been a conservative, inward-looking place. We were ruled by the Jesuits and the Inquisition; we had no Enlightenment, no Industrial Revolution. It was not a difficult country to control. Salazar hated modernity. His ideal Portuguese was a small poor farmer, very Catholic, very submissive. Everything coming from the outside world was a menace, a potential source of contagion. We lived behind a curtain of silence.''

Saramago grew up in a household thoroughly anchored in the Salazarist system: his father was a policeman who over the years rose to be chief. ''He was not secret police,'' Saramago sought to clarify. ''He was just a street cop, directing traffic, a profession that many uneducated people chose. It was not very nice for him when I later developed quite different political convictions, but there was never any conflict between us.''

Yet in his memoirs, Saramago recounts an episode that suggests the startling violence with which his father could address ''conflict.'' One day, the young Jos?nd his father were playing table football. Saramago Senior was winning mercilessly. Their neighbor, a policeman with the criminal-investigation unit whom Saramago describes as being trained in exerting psychological pressure on prisoners, stood behind the young Jos?hitting him with his foot and taunting him, ''You're losing, you're losing.'' At last, Jos?feeling unbearably humiliated by these two men, jabbed the neighbor's foot and told him to shut up.

Saramago Senior responded to this show of disrespect by hitting his son so hard that he sprawled flat on the concrete floor. ''Neither the father nor the neighbor, both police agents and guardians of public order,'' Saramago writes, ''were conscious that they themselves were lacking in respect for someone who would have to become much older before he could finally tell this sad story. His own story and theirs.''

In the end, the Saramagos' move to Lisbon did not do much to improve the family finances. His mother's spring cleaning consisted of taking their blankets to the pawnbroker; with luck they could be redeemed the following winter. And despite Jos? academic promise, his parents could not afford to keep him in grammar school. At 13, Saramago was shunted into a vocational school, where he trained to be a car mechanic. There, in the school library, he discovered the poems of a man named Ricardo Reis, supposedly a doctor living in Brazil. What the teenager didn't know was that ''Ricardo Reis'' was one of the invented pseudonyms of Portugal's great modernist poet, the fantastically eccentric Fernando Pessoa.

Much as the young Saramago admired Reis's classical restraint, there was one line -- ''Wise is he who is satisfied with the spectacle of the world'' -- that stung him with its cynicism. This line, he explained in his Nobel lecture, eventually inspired the novel that is widely considered his masterpiece, ''The Year of the Death of Ricardo Reis.''

''ricardo reis,'' which was published in 1984, is a work of richly layered ambiguity. It is also the book in which Saramago deals most directly with the dictatorship under which he spent most of his life. The novel opens in the gloomy, flood-beset winter of 1935. The protagonist Reis, hearing of his friend Pessoa's death, returns to Lisbon from Brazilian exile to visit the poet's grave. Saramago's Reis is a kind of absurdist ''man without qualities,'' and the book's action is minimal: Reis installs himself in a hotel; goes for aimless walks about the city; sits on a park bench, reading the newspaper; exchanges pleasantries with his fellow hotel guests, among them a contingent of rich Spaniards fleeing the ''Reds''; has an affair with a chambermaid; and receives the occasional visit from the ghost of Fernando Pessoa.

In the foreground, stultifyingly polite trivialities. In the background, world-historical disaster: Franco's crushing of Spain's Republican government; Mussolini's murderous conquest of Abyssinia; Hitler's invasion of Czechoslovakia. Reis, who is a conservative monarchist, proves an unconsciously comic transmitter of the day's news: ''Thank heaven there are still voices in this continent, and powerful voices at that, who are prepared to speak out in the name of peace and harmony, we are referring to Hitler. . . . Let the world know that Germany will pursue and cherish peace as no other nation has ever cherished it before.'' Yet what makes the novel so affecting is the restraint with which Saramago portrays his hero's dimly dawning consciousness that his own preconceptions are no longer adequate to an understanding of the world's horrors.

Like all Saramago's fiction, ''Ricardo Reis'' plays on notions of reality and nonreality, being and nonbeing, contrasting Reis, who for all his stubborn particularity is a figment of another writer's imagination, with the mass dissolution of individuality required by Europe's rising totalitarian parties (''We are nothing'' is the slogan recorded in a hotel guest book by a visiting mission of Hitler youth). The novel ends with an image of Pessoa leading an all-too-willing Reis to the realm of the dead.

As a young man Saramago may have been inspired by Reis, but he had none of the sophistication of that cultivated expatriate. ''For my first two years out of school, I was a mechanic at a garage,'' he told me. Over the next three decades, he worked ''in a welfare agency, as a locksmith, at a metal company, as a production manager at a publishing house.'' And also as a translator, magazine critic and newspaper columnist and editorialist. At 22, he married a secretary at the state railway company, who later gained renown as an engraver. In 1947 -- the same year as the birth of his only child, Violante, now a biologist living in Madeira -- Saramago published a first novel that has never been translated into English. It would be 30 years before his next work of fiction (also untranslated) saw the light of day. ''I had nothing to say, so I said nothing,'' is Saramago's characteristically phlegmatic explanation. ''Was I unhappy? Not at all.''

During this time, his marriage fell apart, and he was fired from various jobs for political reasons. ''Did I suffer?'' he asked me. ''No more than the millions of my compatriots living under a regime without freedom.'' In 1969, he made the transition from what he describes as ''critical citizen'' to Communist Party member.

It's not hard to see why Saramago was tempted by Communism. Following the dictates of cold-war realpolitik, the Western democracies were happy to welcome fascist Portugal into Atlanticist institutions like NATO. For decades, the strongest opposition to Salazar's dictatorship came from the Portuguese Communist Party, and its members suffered accordingly. ''I was lucky,'' Saramago told me. ''I was never arrested. Many times it could have happened, but my comrades in prison had the courage and dignity not to betray me.''

Salazar died in 1970, and his successor, Marcelo Caetano, proved incapable of liberalizing a regime that was preposterously obsolete. Portugal was the poorest nation in Western Europe -- a nation whose chief exports were cork, sardines and cheap labor. Yet for 13 years, it was mired in three simultaneous wars halfway around the world. These wars, waged against independence movements in its African colonies of Angola, Mozambique and Guinea-Bissau, consumed more than 40 percent of the national budget. The conflicts were nasty, bloody and increasingly unpopular at home.

On April 25, 1974, rebel leftist armed forces led a successful revolt. By evening, troops occupied Portugal's two major cities, Lisbon and Porto, the government's leaders were under arrest and people were celebrating in the streets. ''I was working at a newspaper,'' Saramago recalled. ''People knew something was about to happen: the regime just needed a little shake to topple it.'' In the euphoric pandemonium that followed, workers occupied factories, landowners' estates were seized by peasants, homeless people took over empty apartment buildings and tram conductors declined to collect passengers' fares. It was a 20th-century anomaly: a successful left-leaning revolution in Western Europe. Within the revolution's first year and a half, three-quarters of the economy was nationalized, and Portugal's African colonies gained independence.

Saramago was appointed deputy director of the formerly fascist Diário de Noticias, a newly nationalized and Communist-dominated newspaper. Under his sway, people claim, it became an unofficial organ of the Communist Party. Many Portuguese intellectuals' dislike of Saramago stems from this period. Jorge de Azevedo, who runs a large book distributor, put it to me this way: ''For Saramago, black is black; there were no different viewpoints, no debate. He was hard on people working at the newspaper who were not party members; he made life extremely difficult for them. Because of this, he has a tough image that remains.''

By the following year, the revolution was unraveling. The country was crippled by strikes. A series of quarrelsome coalition governments collapsed. The military, called in to crush political protests, sometimes obliged, sometimes sided with the protesters. In November 1975, there was a failed coup by leftist factions, after which the country gradually moved into the social-democratic, market-oriented mainstream.

Saramago was promptly fired from his newspaper job. From having been briefly in a position of relative power and influence, he was once again unemployable. ''It was a dark time for him,'' Coelho told me.

Saramago does not agree. ''Being fired was the best luck of my life,'' he told me. ''It made me stop and reflect. It was the birth of my life as a writer.''

ot many great novelists begin in their late 50s. By that age, Saramago, it is true, had long been publishing op-ed columns or the odd collection of poetry. But there was nothing to prepare readers for the ripely inventive fiction that began pouring out of this late-middle-age ex-newspaper director.

His first big success was ''Balthasar and Blimunda'' in 1987. Set in 18th-century Portugal, Saramago's novel tells the story of a trio of misfits caught up in the Inquisition: a priest bent on constructing a flying machine and the two lovers who serve him -- a one-handed ex-soldier named Balthasar, and Blimunda, a sorceress's daughter. The novel is eccentric, rambling, humorous, touching. In it you see already crystallized the author's enduring habits and preoccupations: his love of lists; his ex-mechanic's fascination with how things are made, whether it be a bellows or a prosthetic hand; his at-once rudimentary and impossibly romantic conception of male-female relations. (In Saramago's novels, a man and a woman fall in love and are forever fused in a lifetime's ecstatic, round-the-clock coupling, a perpetual readiness to rut aided by the fact that in his world there are no children to get in the way.)

Saramago's most distinctive trademark is his punctuation, or rather the lack of it. His fictions are constructed in run-on sentences disrupted by only commas, a flood of prose in which narrative observation, individuals' thoughts and dialogue go unmarked. In addition, many of his books refer to one another, and all the characters talk exactly alike, giving their conversations the feel of an internal monologue. It is as if a continuous reel of a silent film were being projected in a movie theater that is empty save for one extremely garrulous spectator.

That spectator is Saramago's narrator, an unidentified personality who presides over all the novels. The literary critic James Wood has described this narrator's voice as that of ''a sly old Portuguese peasant, who knows everything and nothing.'' The narrator is slightly split, as if, like Saramago's Ricardo Reis, he were always just on the verge of realizing he is the figment of someone else's imagination. His tone is jocular, grumpy, laboriously facetious; he is fond of truisms and of faux-na?theological speculation (does God have one eye or two? Can the Devil fly?). Yet he is also a postmodernist by inclination, fascinated by semantics and the art of grammar. Occasionally, these dual modes -- village gossip and literary theoretician -- converge in such beguiling throwaways as: ''The objectivity of the narrator is a modern invention, we need only reflect that our Lord God didn't want it in his book.''

If Saramago and his narrator are not quite the same person, they do, however, share a fundamental pessimism. ''I'm not delivering any news if I tell you the world is a piece of hell for millions of people,'' Saramago said to me. ''There are always a few who manage to find a way out, humans are capable of the best as well as the worst, but you can't change human destiny. We live in a dark age, when freedoms are diminishing, when there is no space for criticism, when totalitarianism -- the totalitarianism of multinational corporations, of the marketplace -- no longer even needs an ideology, and religious intolerance is on the rise. Orwell's '1984' is already here.''

Can fiction make the world a better place? ''An ethical novel can perhaps influence a reader temporarily,'' he went on, ''but no more. I write as well as I can, but when my readers say, 'Your book has changed my life,' I don't believe it. Maybe like a New Year's resolution -- for a week you try to be good, then you forget.''

Nonetheless, for all his pessimism, in Saramago's most powerful novels there remains a stubborn sprig of utopianism, flickers of ''what if?'' and ''why not?'' In ''The History of the Siege of Lisbon,'' published in 1989, Saramago redevises the past. His hero, Raimundo Silva, is a lonely, impoverished proofreader who, like Melville's Bartleby, finds himself inexplicably driven to an act of quiet sabotage. Correcting a manuscript on the Reconquista of Lisbon in the 12th century, Silva inserts one word in the text that he imagines will change the course of history. In the original text, an army of crusaders on their way to the Holy Land are asked to join King Alfonso's attack on Lisbon: after Silva's amendment, they decide ''not'' to help. The Iberian Peninsula thus presumably remains Muslim, and the world is spared the Inquisition, as well as the discovery of America.

''The Gospel According to Jesus Christ,'' published in 1991, is Saramago's most tetchily subversive work. Saramago is the kind of old-fashioned atheist who is hopping mad at a God who he believes does not exist. His novel's starting point is the Massacre of the Innocents, when Herod, the Roman king of Judea, learns that the future king of the Jews has just been born in Bethlehem and orders that all the baby boys in that village be slaughtered. In Saramago's telling, Joseph, husband of Mary, overhears the collective death sentence by chance and manages to hide his own son while leaving the others to perish. It is therefore in atonement for his earthly father's sin in indirectly colluding with Herod's iniquity, as well as for God's in allowing the massacre to occur, that Jesus is later forced to give his life. (The amateur Freudian may wonder if there isn't an echo here of a Communist son's guilt at his father's serving as a policeman under Salazar.) On the cross, Saramago's Jesus asks humankind to forgive God his sins.

''The Gospel'' polarized readers, both in Portugal and abroad, and led to Saramago's self-imposed symbolic exile in the Canary Islands. The effect on Saramago's work has been stark. His Canary Island novels are denuded of all the aching particularity, the clamor, reek and clutter of his Portugal works: austere and monitory parables, they often take place in an allegorical urban landscape as stylized as a computer game. In a book like ''Las Intermitencias de la Muerte,'' which will be published in the United States in the spring, his subject is nothing less than the folly of man's search for eternal life.

To some observers, Saramago's exile has made him less relevant than other contemporary Portuguese greats like Antonio Lobo Antunes, who, using the polyphonic techniques of high modernism, continues to explore the psychic wounds left by Portugal's recent political history. To others, Saramago has taken on the role of a more universal conscience, giving his literary fables about the failures of democracy or the tyranny of corporations a broader reach.

For the director Fernando Meirelles, who is making the film of ''Blindness,'' this universalism was the great achievement of that work. ''It's an allegory about the fragility of civilization,'' Meirelles told me. ''Ten years ago, I wanted to make my first feature film from the book -- I was attracted by the paradox of making something visual about sightlessness -- but Saramago said no. Whoopi Goldberg and Gael Garcá Bernal both tried to buy the rights; he refused. Finally, my producer and screenwriter came to the Canary Islands and spent two days with Saramago and talked him into it.''

Saramago acknowledged to me that many people approached him about filming ''Blindness.'' ''I always resisted,'' he said, ''because it's a violent book about social degradation, rape, and I didn't want it to fall into the wrong hands.''

today saramago is planning his next novel. ''Maybe it's my last book,'' he ventured during our conversation in Lisbon. ''When I finish a book, I wait for the next idea, and sometimes it takes a long time, and I get worried. When I finished 'Pequenas Memä(3$)rias,' I wondered if the cycle was now complete. I had for the first time in my life a sense of finitude, and it was not a pleasant feeling. Everything seemed little, insignificant. I'm 84. I could live perhaps another three, four years. The worst that death has is that you were here, and now you're not.''

He glanced over at his wife with almost a twinkle in his eyes and said to her: ''If I'd died before I met you, Pilar, I'd have died feeling much older.'' He continued: ''At 63, my second life began. I can't complain. The things you think are a big deal are not so big. I've won the Nobel Prize. And so?''

Saramago's novels seem, like the flying machine in ''Baltasar and Blimunda,'' to be propelled by the sheer force of human will. Sometimes their author's mulishness leaves him, in his public life, stuck up a tree, with his unswerving allegiance to a political ideology that has buttressed many of the world's most murderous tyrannies. But long after Saramago's dusty jeremiads are forgotten, readers will still relish his sly tales of one-handed soldiers and sorceresses' daughters, of proofreaders with the power to overturn history with an inserted ''not.''