Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Professores esses «Marcianos» numa sociedade deseducada (ou) Educar vs Instruir


(...) "Escolas que fecham... Eu tenho uma crónica escrita naqueles antigos anos do diário "A Capital", em 1968 ou 1969, na qual o narrador conta que tinha tido um sonho, que tinha vivido em Marte, não muito tempo  - mas o tempo em Marte é de outra maneira - e que havia coisas que ele não conseguia compreender na sociedade marciana. E uma coisa que estava lá escrito era o eu não compreender como havia uma escola num sítio qualquer que tinha dois ou três alunos e que tinha sete ou outro professores cada um com a sua matéria para ensinar aquelas crianças. É uma fábula que não tem grande importância, mas agora, em Portugal, encerra-se uma escola com uma serenidade tremenda e não satisfeitos diz-se logo «vão fechar mil e não sei quantas escolas», enquanto no século XIX se afirmava que a abertura de uma escola significava o encerramento de uma prisão. Aquela gente era realmente tonta e irrealista - o irrealismo significa tonto - porque julgavam que era certo o que faziam, mas o futuro até aos dias de hoje veio dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. (...)

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
Porto Editora, João Céu e Silva
Pág. 90




Saramago aborda o problema da educação versus instrução, e menciona uma participação num congresso de professores, em São Paulo - Brasil,. Aborda a temática da tutela do ensino, em que no antigamente eram criados ministérios da "instrução" e que nos tempos mais próximos, passaram a chamar de Ministério da Educação.
E leva-nos a esta, pertinente e musculada, observação. 

(...) " a questão, pelo menos tal como eu a entende, é bastante simples e reduz-se a duas perguntas: pode a escola educar? Ou deve a escola fazer o que lhe compete, que é instruir? Este problema parece um capricho sofista, de separa a educação da instrução, até pode parecer que estou a brincar com as palavras mas não, porque se pensarmos que noutros tempos de uma família de analfabetos podiam sair crianças educadas por esses pais, avós e tios que não conseguiam passar conhecimentos mas podiam transmitir, inconscientemente até, valores de convivência, de trabalho, de respeito e valores de identidade pessoal. (...) Actualmente, o que aconteceu foi que a partir de certa altura e, principalmente, nos tempos mais recentes, com a crise da família - com o desaparecimento da autoridade não imposta mas reconhecida - isso acabou. Espera-se que a escola eduque e a escola não o pode fazer porque não sabe e, mesmo sabendo, não tem os meios que seriam necessários. A educação é outra coisa! Fazia parte das obrigações da família, digamos assim, e de alguma forma também de uma sociedade educada que necessariamente produziria mais ou menos cidadãos educados. Agora, vivemos numa sociedade deseducada, vivemos num processo de deseducação integral - podemos falar noutras circunstâncias de um processo de educação integral - e não somos os únicos, pois todo o mundo está todo assim. Chega ao extremo, e isso deixa-me confuso, de os professores estarem sujeitos à agressão. Onde é que já se viu que o mestre, aquele que transmite, que abres as portas para o mundo e para o conhecimento das coisas, seja tratado como é hoje em dia em toda a parte. Agressões, desprezo e pontapés e essa pobre gente - refiro-me à grande maioria dos professores - são realmente os heróis do nosso tempo. Eles podiam bater com a porta e dizer «não volto mais!» e pergunto-me «porque é que não o fazem?» Porque precisam de viver e de ganhar o seu ordenado, mas era o que deviam fazer. Não é uma greve de um dia, é fechar as portas das escolas, sair e não voltar até que o assunto se resolva." (...)

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
Porto Editora, João Céu e Silva
Páginas. 90 e 91



Link, via Fundação José Saramago,
em http://caderno.josesaramago.org/67896.html
"Cada vez mais sós
Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro."Cada vez mais sós", in Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216(Selecção de Diego Mesa)"

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