Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Novas aquisições descobertas na mercearia/alfarrabista em Óbidos





Colóquio Letras #88 - Novembro de 1985 (edição Homenagem a Fernando Pessoa) - Texto de Luís de Sousa Rebelo "José Saramago: O Ano da Morte de Ricardo Reis", páginas 144 a 148

Colóquio Letras #120 - Abril/Junho de 1991 (História, Ficção, Tradução e outras Interpretações) - Texto de Helena kaufman "A metaficção historiográfica de José Saramago", páginas 124 a 136

Escrita e Combate -Textos de Escritores Comunistas - Edições Avante 1976
Conto de José Saramago "O Embargo", páginas 217 a 228




"Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos" intervenção de José Saramago (02/2003 - Fórum Social Mundial de Porto Alegre)

"Da Justiça à Democracia, passando pelos sinos" 
Intervenção de José Saramago (02/2003 - Fórum Social Mundial de Porto Alegre)

Menção para a académica Eula Carvalho Pinheiro que recuperou este discurso



"Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século 16) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aqueles trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes…

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor."

"A Viagem do Elefante" Álbum de BD criado por João Alves no Plano Nacional de Leitura



Salomão e o cornaca, seu companheiro de viagem


"É com imensa satisfação que declaro, a quem possa interessar, que descobri que o meu mais recente trabalho, a adaptação para banda desenhada de A Viagem do Elefante, de José Saramago, a exemplo do que já acontecia com o livro, também já faz parte da lista de obras do programa Ler +, integrado no Plano Nacional de Leitura."
Palavras de João Amaral no seu blog aqui, 



Todas as obras podem ser consultadas neste link, aqui

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"Los compromisos, todos" Entrevista de Débora Quiring (la diaria do Uruguai) a Pilar del Río e Miguel Gonçalves Mendes (23/08/2013)

A entrevista do "la diaria - Montevidéu - Uruguai, pode ser consultada e lida, aqui

Por Débora Quiring, em 23 de Agosto de 2013


Pilar del Rio y Miguel Gonçalves Mendes. / foto: Javier Calvelo

"Los compromisos, todos"

"Con Pilar del Río, viuda de José Saramago, y el cineasta Miguel Gonçalves Mendes.
Hace un par de años pudimos ver en la pantalla al mítico Premio Nobel de literatura José Saramago junto con su gran compañera y traductora, Pilar del Río, en una película documental llamada José y Pilar, del portugués Miguel Gonçalves Mendes (que se presentará mañana, a las 17.30, luego de una mesa redonda, en Cinemateca Pocitos). Actual presidenta de la Fundación José Saramago, Pilar del Río realizó junto con el cineasta una gira por Brasil, Argentina y Uruguay. Hoy será declarada Visitante Ilustre de la ciudad de Rocha. Además, se reunió con el presidente, José Mujica, y dio una charla abierta en la sede del Frente Amplio sobre los cruces entre cultura y política."


-Saramago dijo que se podría haber enamorado de la mujer del médico de Ensayo para la ceguera. Aunque, en otro tono, viendo el documental, Pilar podría tener algo de ella entre la agenda, los viajes, las traducciones.

Pilar del Río: -Saramago jamás en su vida se inspiró en situaciones personales para ir a su novela. Él hablaba de los conflictos del mundo que le parecían interesantes, de sus preocupaciones y obsesiones, y luego incluía personajes que le fueran útiles para ese fin. Pero nunca se basó en personajes concretos. 

Miguel Gonçalves Mendes: -Hay una escena en La balsa de piedra de la que José decía que era semejante a cuando vio a Pilar por primera vez: la sensación que tuvo cuando la vio y no sabía quién era. 

PDR: -Pero no está basado en eso. Él vivió una situación personal, y como en esa época estaba escribiendo La balsa de piedra, él reproduce el momento en que nos encontramos con otros personajes, otros momentos y otras situaciones, pero sin las sensaciones. 

MGM: -¿Y no cree que la fuerza de la mujer del médico puede estar un poco inspirada en usted? 

PDR: -Es que Saramago decía que sus personajes no eran reales, pero que quería que las mujeres nos pareciéramos a sus personajes. Él valoraba mucho el papel de la mujer, que ha sido doblemente ignorada a lo largo de la historia: por la historia en general y por los hombres en particular. De hecho, en sus libros las mujeres son los personajes fuertes, mientras que los hombres son melancólicos, solitarios, tienen dificultades de comunicación; las mujeres son mucho más lanzadas, más abiertas, hacen cosas por los demás, y son capaces de vivir la belleza, la armonía, aunque sea una empleada de hotel, como es el caso de Lidia [personaje de Claraboya].

-Se podría decir que tanto el compromiso social como la exigencia estética son constantes en su obra. Era el tipo de hombre íntegro que uno no imagina como un personaje. ¿Crees que ahora el mito empieza a primar sobre él?

PDR: -No. El Saramago que vivía era exactamente igual al hombre que escribía, como se puede ver en la película de Miguel. Y ahora se ha convertido en el escritor que ya no está, porque ha muerto, pero sus libros sí están y con ellos los lectores siguen teniendo una relación. Pero no es un hombre mito, es un hombre muy de carne. Y si alguna vez alguien tiene la tentación de convertirlo en un mito, que vea la película de Miguel Gonçalves Mendes. Es un hombre cercano, es como uno de nosotros, pero escribía maravillosamente bien. Su objetivo era hacer de la literatura vida, y lo consiguió. Su vida no es literatura, sino una vida muy cercana a la nuestra, y por lo tanto la podemos incorporar a nuestra propia vida. Por eso es maravilloso leerlo después de haber visto la película de Miguel.

-Cambia la percepción.

PDR: -¿Te gustó?

-Sí, me gustó mucho. Más allá de la fotografía y los cuadros, es una buena oportunidad de conocer la intimidad de un escritor. Sería distinto si tuviéramos más documentales así...

PDR: -Aquí los personajes se destruyen, y me parece estupendo. Imagínate si tuviéramos esto de Tolstoi, de Proust, de Kafka, de Joyce, de Onetti o de Borges. Habrá algunos escritores que digan que esto no es necesario, que lo importante es la obra. Pero si nosotros no queremos reducir la obra al nombre del escritor, tenemos que conocerlo de cuerpo entero. Hay muchos escritores que son muy citados y muy poco leídos. Entonces, hay que leer la obra. Pero una forma de vincularte a ella es conociendo al escritor; no mediante la interpretación de un actor maravilloso -como en el caso de Tolstoi en La última estación-, pues entrando en su vida de esa manera es muy difícil ver a ese escritor como un hombre. Va a ser un hombre completo que escribe libros, y que se leerá de otra manera.

-Y sobre todo sorprende el compromiso de Saramago...

MGM: -Sobre todo, el compromiso con el mundo, con nosotros, además de su grado de generosidad. Incluso en la película le preguntan cuál es la tarea de un escritor, y él dice que es escribir, como es obvio, pero agrega la de intervenir en la sociedad como ciudadano. Tanto José como Pilar intentaron transformar este mundo, que es una mierda, en algo un poco mejor. Hay mucha gente que dice -y yo concuerdo absolutamente- que, a través de sus libros y de su compromiso público con el mundo, José terminó siendo la voz de los que no la tienen.

-Saramago no sólo escribió sobre la muerte de Benedetti, sino que además mandó una carta a Julio María Sanguinetti en 1999 en la que le pedía que colaborara con Juan Gelman. Tuvo un fuerte compromiso con la realidad latinoamericana desde siempre...

PDR: -Saramago era muy de su tierra, de su pueblo; era de Portugal y escribía en portugués, pero era universal. Y uno de los lugares en los que mejor expresaba esta universalidad era en este continente, donde él se sentía como en casa. Él decía que llegó a México llamándose Saramago y que allí ganó un nombre, porque salió siendo José. Estaba muy vinculado a los escritores de nuestra América, a las universidades, a los lectores y a las situaciones políticas, que siempre denunció o aplaudió, dependiendo del caso. Por ejemplo, se tomó un avión para venir a la toma de posesión de [Ricardo] Lagos, cuando, después de mucho tiempo, un socialista ocupa el lugar de [Salvador] Allende. Había ido antes a Chile para denunciar los abusos contra los mapuches y los aymaras, a quienes estaban desalojando de sus tierras. También denunció el tráfico de drogas durante la creación de nuevas autopistas y la pena de muerte en Cuba. Y aplaudió las buenas iniciativas del continente.

-Dijiste que querías hacer un “retrato humano”, que pasó de ser un pequeño proyecto a un trabajo de cuatro años.

MGM: -Bueno, ya tenía en la cabeza que duraría un año, pero para que aceptaran... 

PDR: -Para engañarnos. Todo empezó como una mentira. 

MGM: -Más o menos. Les dije la verdad: quería hacer una película intimista y un retrato sobre la relación de la pareja. A todo esto José me contestó que no sería posible, que su intimidad era su intimidad, pero que si quería trabajar sobre su trabajo, estaba bien. A partir de ese momento acepté esta propuesta, y así fue como comenzó todo. Al final, no tardó ni una semana ni un año, sino cuatro años.

-¿Cómo se fue dando la convivencia?

PDR: -Fue muy buena. Al principio venían muy poco, después fueron aumentando la frecuencia, e incluso terminaron quedándose en casa. Por lo que cada vez tenían más confianza y comenzaban a dejar más ceniceros sucios y más cables por el suelo... Ahí, yo montaba en cólera, y por eso en algunas entrevistas se me ve tensa -además de estar sin maquillaje y fea porque no estaba cuidando el plano de la cámara-: yo estaba respondiendo y veía que José iba a pasar por el medio de todos los cables, que no los iba a ver, y que se podía caer. Eso fue dramático, pero nunca me hicieron caso. Lo cierto es que estuvieron muy bien y los fuimos integrando a la familia. 

MGM: -Yo siempre sostengo, en el trabajo en general, y sobre todo en el mío, que si tú quieres llegar al alma de la verdad es necesario el tiempo. Yo no puedo preguntarte ahora, en cinco minutos, cómo es tu relación con tu padre. Me darías una respuesta simpática y educada, pero que probablemente no sería cierta. Por eso yo creía que lo más bonito, lo que nos distingue de los demás, son las pequeñas cosas: nuestros gestos, nuestras pequeñas esquizofrenias. Para esto es necesario tiempo, y por eso mismo yo había pensado que la grabación de la película se extendería cerca de un año. Este tipo de retrato es como si se convirtiera en una relación de seducción: tú vas seduciendo a la otra persona -no en el sentido amoroso, sino en el relacional-. Por eso al inicio sólo grabábamos eventos públicos: para no resultar tan agobiantes. Y después ellos me vieron llorar en los aviones, porque le tengo pánico a volar, y cenábamos y viajábamos juntos por seis o siete meses. Al volver a Lanzarote, algo que ellos dos siempre habían dicho que no iba a ocurrir, grabar dentro de la casa, ocurrió. Por lo tanto, me quedé muy contento. Y de hecho, si esta relación no se hubiera creado entre nosotros... 

PDR: -No estaríamos aquí. 

MGM: -No estaríamos aquí. Y la película no sería la misma, ya que la película está hecha sobre un documental de la relación que se establece, que necesita ser grabado y alguien que lo haga. Hacia el final, incluso, José siempre decía: “Bueno, ahora que termina la película, no se qué vamos a hacer. Pilar te va a extrañar, porque tú eres nuestra sombra. Toda la familia te conoce y estás en todas las comidas y en todas las fiestas”. Aunque aún lo sigo estando, ¿no? 

PDR: -Sí, pero poco.

-¿Por qué decidiste acercarte a José y a Pilar? En 2004 habías filmado Autografía, sobre el pintor y poeta Mário Cesariny.

MGM: -Y muchos años antes había hecho un documental sobre las relaciones entre Portugal y Galicia, y la palabra ciudad y todo eso. En esa oportunidad, le pregunté a Saramago si podía grabar un pequeño off para el documental, en un pequeño convento rodeado por desierto. Cuando aceptó, me puse súper nervioso; no sabía si el micrófono funcionaba o no, y, bueno, cuando a los años decidí hacer el documental, me contacté con ellos. Entre el primer no y el sí final, pasaron alrededor de cuatro o cinco meses. Esa película a la que te referiste, Autografía, es un retrato intimista y humano de Mário Cesariny. Desde niño soy seguidor de José: leía sus libros en orden cronológico e, incluso, el otro día me acordaba de que de hecho mi formación humanista, y de alguna manera política, ha sido construida con base en José Saramago. Y creo que esto es muy importante, porque de alguna forma me cambió. Por esto mismo, yo tenía una gran curiosidad respecto del personaje, y en ese entonces surgieron variados reportajes y ensayos sobre su pensamiento literario y político, pero no desde una perspectiva personal, como puede ser su día a día o cómo veía el mundo. Ahí radicaba una cosa de la que muy poca gente hablaba, excepto él, que era la importancia de Pilar en su propia vida. Y esto es algo muy claro, no sólo en las dedicatorias de sus libros, sino también en la afirmación constante de su amor por ella. Hay una inclusión muy buena en el libro, en el que se dice que hay una especie de gratitud hacia Pilar, y Pilar responde: “Puedes poner todo: gratitud y amor”. Porque es verdad que hay un José antes y un José después de ella. De hecho, José decía que Pilar le había traído juventud y que lo había convertido en una persona más abierta. Y si bien no lo conocí antes de la relación con Pilar, realmente creo que era así. De ahí surge la necesidad de retratarlos a los dos. Y también porque en Portugal hay un refrán que dice que de España no viene ni buen viento ni buen casamiento, como si todo lo que viniera de ahí fuera malo; y esta pareja era la prueba contraria de ello.

-Siguiendo un poco con todo esto, ahora en San Sebastián se presenta una película sobre El hombre duplicado. Meirelles editó Blindness, y está en proceso El evangelio según Jesucristo. Saramago no quería que sus libros fueran al cine. ¿Cómo crees que viviría estos procesos?

PDR: -Saramago dijo eso hace 20 años...

-Y se terminó emocionando hasta las lágrimas con la película de Meirelles...

PDR: -Claro. Él respetaba mucho el cine y decía que había que escribir para el cine, que no se podía adaptar lo demás. Y cuando se llevaba era malo; por eso se negaba. Hasta que un día le dijeron que se podían extraer situaciones de un libro y con varias de ellas hacer una ópera; eso fue lo primero. Y cuando se realizó la ópera, le encantó. Luego, la Scala de Milán y varios alemanes realizaron cinco óperas más. Él pensaba que llevar situaciones de los libros a la ópera era lo bueno, no la reproducción de los libros mismos, ya que no se puede incluir la voz narradora y la imagen narra de otro modo. Después, indudablemente le gustó mucho la película de Meirelles, rodada aquí, en Montevideo, y también le gustaron otras, aun cuando le parecieron excesivamente fieles al libro. Él pedía que no fueran fieles al libro, sino que el libro fuera leído para intergrarlo y olvidarlo, y luego hacer la película basándose en lo que les quedara. A mí esto me parece muy generoso por parte de Saramago: nunca quiso participar de un proceso de adaptación porque creía que era entrometerse con la mirada de otro autor. Miguel va a hacer El evangelio según Jesucristo. 

MGM: -Decía que le costaba ver la cara de sus personajes. Y, de hecho, eso pasa... 

PDR: -Pero cuando a Blimunda [personaje de Memorial del convento] la interpretó en la Scala de Milán una sueca de dos metros -cuando todos nos imaginábamos a Blimunda buena y bajita-, esa cantante sueca, rubia y alta como una orquídea, representó a Blimunda en nuestros sueños para siempre. Ya no puedo ver a Blimunda de otra manera. Y para mí, la mujer del médico [en 
Blindness] es Julianne Moore, buscando por todos lados con su pelo rubio recogido. O sea que no importa verles las caras a los personajes, si los personajes son buenos.

-“Él escribe, yo traduzco. Él corrige, yo corrijo”. Pasaste de ser su traductora y compañera a presidenta de la Fundación. ¿Cómo viviste el cambio de roles, si es que ese cambio existió?

PDR: -Es que no cambié: sigo traduciendo y organizando agenda, ya no la de José Saramago, pero sí la mía y la de la Fundación. Se puede llevar todo para adelante. Sabes, además, que es un trabajo privilegiado. Aunque ocupe muchos días y genere mucha angustia -además de pensar que no se llega y de tener muchas incertidumbres, pues no sabes si lo harás bien o no-, nunca se debe bajar la mira. Y ése sí que es un trabajo duro.

-¿Cuáles han sido los cambios más significativos después de la muerte de José (no Saramago)?

PDR: -No ha habido cambios. Una persona acaba de publicar en Twitter que visitó la casa de Lanzarote esta mañana. La gente espera que aparezca Saramago en cualquier esquina. La Fundación está llena de la fuerza y el dinamismo de José Saramago. No está el hombre que nos ayudaba, que escribía libros, que tenía la última palabra sensata, pero la fuerza y las ideas que él defendía, la manera de estar en la vida que él tenía, es lo que mantenemos con un espíritu que no se rinde. Estamos levantados del suelo permanentemente.

-Miguel te dice que no sabe cómo logras trabajar tan duro... ¿Has bajado el ritmo?

MGM: -Yo siempre digo en broma que Pilar bebió la poción de Astérix, aquella que tenía una cuestión para la hiperactividad. Pilar no sólo la tomó cuando niña sino que además se cayó adentro. Por mi parte, lo que puedo decir es que la energía de Pilar es altamente contaminante. Creo que de alguna manera los dos han logrado eso en relación con el mundo que los rodeó. Decían que era muy estúpido, muy burgués y muy inmoral quedarnos llorando y pensando que nuestro país o que la vida es una mierda. Pues si es así, hay que comenzar a pensar cosas para cambiarlo. Después de la película, ésta ha sido una de las cosas que más me cambiaron. Yo tenía un problema, que probablemente es transnacional: tenía pena por mí mismo. Hay mucha gente peor que uno, por lo que si hay que hacer algo, hay que hacerlo ya. Pilar transfiere esa energía y uno se transforma. Si por mí fuera, Pilar sería presidenta.

-Esta gira que vienen haciendo se parece mucho a la agitada agenda que llevaban con Saramago, ¿cuál es el propósito?

MGM: -Pasarlo por la reserva, es un poco de rigor decirlo. Pero de alguna manera es eso. Yo no gano nada con la proyección de mi película acá, pero creo que es muy importante que en Uruguay se vea este trabajo, que tengan una hipótesis de lo que José y Pilar eran. Pasé cuatro años trabajando en algo que quiero que se vea. El otro día, en una entrevista, Pilar decía que se había muerto José, pero que Saramago seguía vivo. Y ahí está, en la película, en sus libros. Y lo que nosotros hacemos es continuar su memoria. 

PDR: -También se está presentando el libro José y Pilar, y vinimos a hablar de él, de la obra de Saramago y de nuestras experiencias. Hacemos esto porque vivimos en una sociedad de imágenes. A mí me parece bien que exista el Día del Libro, el día de Cervantes, el día de Camões. Saramago es un autor muy reciente y muy contemporáneo, muy necesario por todas las movilizaciones y cambios que se están dando en el mundo. En fin, nosotros venimos a presentar el libro de Miguel a la proyección de la película, a hablar sobre Saramago y a recordar que Ensayo sobre la ceguera está ahí. Y que Ensayo sobre la lucidez, que es el libro del empoderamiento de los ciudadanos, es una gran novela. Si en Memorial del convento las voluntades juntas hacían volar una máquina, en Ensayo sobre la lucidez las voluntades activas y juntas son capaces de vencer al enemigo, que condena a millones de seres humanos en el mundo a ser sujetos descartables. Pues eso lo podemos cambiar si queremos.

-Es interesante que en el documental digas que las personas que no se vinculan con alguna tarea práctica se van alejando de la vida...

PDR: -Bueno, alguien que no realiza tareas prácticas, que no sabe organizar una casa, que no escucha el llanto, el clamor de la sociedad, vive en una burbuja. Si cuando sales de tu casa para ir al trabajo pasas por un pasillo de seguridad, si te llevan en un helicóptero a un avión, y de ese avión a un helicóptero... Estoy hablando del poder, del presidente de Estados Unidos, por ejemplo. Qué saben los poderosos del sufrimiento, de la angustia del padre y la madre que tienen cuatro hijos y que han agotado a vecinos, amigos y familiares, y que por lo tanto no tienen nada para que les fíen. Qué saben de esa angustia de salir a ver si hay un cartón mientras los niños lloran. ¿Lo saben realmente? Pues yo te digo que un tío que no baja a la casa, que no les da de comer a esos niños, que no se encuentra con que no hay agua cuando los va a bañar, que no se encuentra con que hay agua fría o con que directamente no sale o con que le cortaron la luz, no sabrá gobernar. Mientras tanto, no sabrá gobernar, sea Clinton, Obama o el papa.

-¿Y José Mujica...?

PDR: -El presidente de Uruguay es un caso distinto. Afortunadamente no ha pasado todavía en el mundo que digan que es pura demagogia, quizá porque Uruguay está aquí y tiene pocos habitantes, y porque realmente el hombre se ha impuesto con seriedad y rigor. Pero vamos, que no rompa las barreras del sonido, porque si lo hace el sistema le caerá encima. Y es lo que a los buenos, a los nobles, a los trabajadores y a los santos -laicos- les dicen siempre.

-Con respecto a tu actitud de no rendirte y a tu profesión de periodista, ¿cómo ves el periodismo actual?

PDR: -Muy mal. Como la sociedad. Lo veo desmantelado, huído. Las empresas mandan demasiado, y muy pocas empresas controlan muchos medios, tienen mucho poder. Los periodistas tenemos una cosa que se llama conciencia y a la que nunca hemos renunciado, incluso en las dictaduras. O sea que también es verdad que los periodistas podíamos ser un poquito más militantes, no te digo políticos, pero sí del periodismo. Y escribir no con el criterio del patrón, sino con el criterio de uno mismo y de lo que tiene que defender, porque esa reputación es lo que le va a dar de comer o a quitar la comida. Yo creo que nos adaptamos y un poco nos volvemos serviles todos, ya sea en la sociedad o en el periodismo, como sociedades colectivas o como grupos pequeños, se trata de sobrevivir. En líneas generales, el periodismo le está haciendo daño a la sociedad, porque plantea asuntos distintos y porque justifica asuntos injustificables. Si esta profesión sirve para justificar y para decir que el neoliberalismo es la única salida y que el mercado regula la democracia y que fuera del mercado no hay nada, el periodismo no sólo está traicionando a la verdad sino que además le está haciendo un flaco servicio. No está informando, está adoctrinando.

Débora Quiring


Entrevista DN - João Marcelino, João Céu e Sil e Maria João Centeno entrevistam José Saramago

A entrevista pode ser consultada e lida, aqui
em http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1597499&page=1
Por João Marcelino, João Céu e Silva e Maria João Centeno

2007 - Data não conhecida ou indicada no site do DN, mas a entrevista remete para depois da última obra publicada ("As Intermitências da Morte" - 2005) e em vésperas de completar 85 anos

"Portugal acabará por integrar-se em Espanha"
"Sou de onde nasci, sou da terra que me criou" 
"Tu estavas e agora já não estás. Isso é a morte"

“Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, 
morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”


Dentro de dias vai completar 85 anos. Está a escrever um livro. Vai ser o último?
Não sei. Se a vida me der tempo, ou se a vida me dá tempo e não me tira as ideias da cabeça, pode ser que não seja o último. Mas, como alguma vez algum vai ter de ser um que foi o último, também pode acontecer que seja esse o último. A minha Viagem do Elefante pode realmente ser o último. E será publicado, se não acontecer nenhuma desgraça, no ano que vem.

Como está hoje o seu processo produtivo? Escreve menos?
Não, não escrevo menos. Até tenho uma boa tendência a escrever algo mais.

Pensa muitas vezes na morte nesta fase da vida?
É impossível não pensar. E de resto, muito recentemente, publiquei um livro chamado As Intermitências da Morte. É um livro divertidíssimo que pode levar até à gargalhada, o que parece um paradoxo total porque estou a falar da morte. E, repare, aquilo que me chateia - e vou usar esta palavra ,o ouvinte me perdoará - não é exactamente a morte. Aquilo que profundamente me dói, e não posso fazer nada contra isso, é porque eu penso que a morte autêntica não tem que ver com esse momento em que uma pessoa passa de um estado ao outro, está vivo e está morto. É outra coisa que se resume desta maneira: "Tu estavas e agora já não estás." Isso é a morte.

Nunca pensa que a morte pode não ser o fim da existência?
Ah, isso, oxalá seja mesmo. Imagine que tínhamos de aguentar qualquer outro tipo de existência depois de morrermos. Já não bastava...

Podia ser diferente, podia ser melhor...
E o que significa ser melhor? Também para ser melhor do que isto não era preciso muito. Para mim é uma convicção absoluta que com o fim da vida acaba tudo. Tudo.

Já escreveu o testamento?
Tenho o meu testamento feito. Mas tenho de revê-lo, actualizar certas coisas, até porque agora deixo responsabilidades muito grandes, como a criação da Fundação que leva o meu nome. É preciso definir as competências e as responsabilidades das pessoas que em princípio, como é o caso da Pilar [a mulher, que presidirá à Fundação], vão continuar o trabalho que não é uma espécie de instituição levantada à glória de fulano tal. É uma instituição que quer ser útil.

Vive num país [Espanha] que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?
Acho que é uma situação natural.

Qual o futuro de Portugal nesta península?
Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.

Seria, então, mais uma província de Espanha?
Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa?

E os portugueses aceitariam a integração?
Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentirem português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.

Costuma ler autores portugueses?
Alguns, aqueles de que gosto.

Em Portugal há dois autores que vendem muitos livros, Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, que aliás têm em comum consigo o trabalho na área da informação [José Saramago foi director adjunto do Diário de Notícias].

Ambos acabam de apresentar as suas mais recentes obras. Já leu algum livro deles? Considera-os como autores...
[Interrompendo] Como poderia não os considerar como autores se eles o são?

Como autores de uma literatura maior...
Bem, essa discussão sobre o que deveria ser ou poderia ser uma literatura maior também nos levaria longe. Mas como eu não li realmente nenhum deles não posso ser efectivo juiz nesta matéria. Em todo o caso, não diria nunca que esses livros não têm méritos literários. Como não os li não posso confirmá-lo.

Qual o livro [que escreveu] de que gosta mais?
É muito difícil. poderia dizer o Ano da Morte de Ricardo Reis ou o Memorial do Convento ou As intermitências da morte, que é um livro de que eu gosto muitíssimo.

Foi bom voltar a casa com Prémio Nobel?
É sempre bom voltar a casa. Tu sais daqui sem prémio, voltas com prémio, é outra coisa.

O que é que isto vai mudar na sua vida?
Na minha vida? Nada. (...) Conhecendo-me eu e conhecendo a Pilar, conhecendo-nos como somos, não acho que mude. Acontece que a nossa estabilidade económica aumenta, estamos mais defendidos, do ponto de vista material.

Mais do que o dinheiro, o importante será o reconhecimento do mundo...
O reconhecimento da Academia Sueca. Mas como o Prémio Nobel se transformou numa espécie de mito, é o único que todo o mundo, àquela hora, espera o anúncio para saber quem ganhou.

Todo o mundo menos o José Saramago...
Sim, eu ia embarcar para vir para aqui. Se em algum ano achei que havia motivos para pensar nisso, foi o ano passado e viu-se o que aconteceu: o prémio foi para o Dario Fo.

Este é um prémio português, mas muito celebrado aqui. Também é um prémio um pouco espanhol.
Não. O que há da parte dos espanhóis não é que eles queiram apropriar-se de mim, que isso ninguém o poderá fazer. Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da terra que me criou, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como se eu fosse um deles.

Continua a escrever com prazer?
Eu nunca escrevi com prazer. Ao contrário do que é uso dizer-se, eu não acredito muito no prazer da escrita. Acredito no prazer da leitura. Para mim a escrita é um trabalho e é muito difícil que um trabalho, entendido assim, dê prazer.

Apesar de estar feliz, continua triste com o mundo?
Não, o mundo nem quer saber nada da minha tristeza. O que acho é que este mundo não está bem e nós não temos a coragem para entender o que se está a passar e tirar daí as devidas conclusões. Mas não podemos limitar-nos a dizer que há coisas que não estão bem: é preciso fazer qualquer coisa.

Sente que o Nobel lhe dá mais responsabilidades, mais deveres nesse campo?
Penso que sim. Pelo menos, o prémio torna-me mais visível e as coisas que eu diga são mais audíveis. Como nunca fugi às responsabilidade que tive até hoje, espero não fugir às que vier a ter no futuro.


«Lugar-comum do quadragenário» Poema de José Saramago escrito nos seus quarenta anos

(Quadro de João Amaral, realizado em aguarela - 2015)


17 de Outubro (1993)

"Javier e María «inauguraram» ontem a sua casa, festejando ao mesmo tempo o recente aniversário de Javier, 41 anos, uma mocidade. (Ao escrever este número lembrei-me, subitamente, de que por essa mesma idade escrevi um poema, «Lugar-comum do quadragenário», que não resisto a transcrever aqui. Era assim: 

Quinze mil dias secos são passados, 
Quinze mil ocasiões que se perderam, 
Quinze mil sóis inúteis que nasceram, 
Hora a hora contados 
Neste solene, mas grotesco gesto 
De dar corda a relógios inventados 
Para buscar, nos anos que esqueceram, 
A paciência de ir vivendo o resto. 

Como vejo eu isto, trinta anos depois? Sorrio, encolho os ombros, e penso: «Que coisas nós dizemos aos quarenta anos...».) Fechado o parênteses, volto ao assunto. María e Javier resolveram convidar amigos para a festa e a casa encheu-se de gente, a maior parte da qual eu não conhecia nem de vista. Mas não é esta a questão. A questão foi ter eu confirmado a tremenda dificuldade que tenho em conviver com pessoas que ainda não tive tempo de conhecer, e mais quando o ambiente ferve de música alta e de palavras que têm de ser gritadas. Senti--me a pessoa mais sem graça, mais sem espírito, que é possível imaginar, e não me restou outra saída que desaparecer discretamente e ir fazer companhia ao cão que, na nossa casa, sofria de abandono como creio que só podem sofrer os cães."

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, páginas 144 e 145

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

"VIVER SARAMAGO" Continua na Azinhaga - Salas Esgotadas com palavras do Nobel (30/11/2015)

Via EOL EntroncamentoOnline, aqui
em http://www.entroncamentoonline.pt/portal/artigo/salas-esgotadas-com-palavras-do-nobel

(Imagem dos actores - Ver site EOL)


«Depois de duas salas esgotas com a presença de mais de duas centenas de pessoas, fazem com que a Junta de Freguesia de Azinhaga promova mais uma representação no dia 4 de Dezembro às 21H30.
Segundo O Presidente da Junta Vitor Guia, a grande adesão da população ao espetáculo VIVER SARAMAGO fez com que a Junta decidisse marcar mais uma sessão de forma a permitir que todos os interessados possam ver este espetáculo que coloca a Aldeia Nobel no caminho da Cultura na Região, tendo ultrapassado as expectativas criadas quando este projeto foi apresentado à casa da comédia.
VIVER SARAMAGO foi a única iniciativa regional integrada no mês do desassossego e que se juntou às iniciativas em Lisboa e Lanzarote, e dedicada ao único Nobel da Literatura da Língua Portuguesa o que vem demonstrar que uma pequena Aldeia pode integrar os grandes circuitos culturais quando se junta partilhas de sucesso, acreditando que a qualidade literária também pode ser popular.
Sob a direção de João Coutinho e um elenco alargado de atores da Aldeia, este projeto abre porta para uma intensa actividade cultural a desenvolver em 2016 fazendo da Aldeia um imenso palco artístico.
Recorde se que este espetáculo faz uma viagem por diversas obras de Saramago, e que tem sido recebido com enorme aplausos pelo publico.
As entradas para o espetáculo são gratuitas sendo no entanto necessário um contato com a Junta de Freguesia para reserva de bilhetes.»


(João Coutinho junto à estátua de José Saramago - Azinhaga) 


«Na Aldeia Nobel da Azinhaga...Saramago voltou a esgotar, provando que a Grande Cultura literária é possível quando as vontades são partilhadas. Sem facilitismo a Azinhaga assume-se como um enorme espaço cultural. Esgotar Saramago só é possível quando se têm atores, autarcas,e população sensível ao belo. Dia 4 e embora não estivesse previsto realiza se a 3ª sessão. Recordemos que a Azinhaga é a única localidade da região que ao mesmo tempo que Lisboa realiza actividades chamadas do desassossego dedicadas ao único Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Só assim é possível desenvolvimento e criação de circuitos culturais regionais.»
Palavras de João Coutinho

O Nobel... pensamentos sobre o Nobel, em 1993 - Cadernos de Lanzarote Diário I (7/8/93)


7 de Agosto de 1993

«Parabéns de Jorge Amado e Zélia pelos prémios. Que outros virão, ainda maiores, acrescentam, aludindo ao que consta ter sido dito por Torrente Ballester - que um dia destes me chega aí um telefonema de Estocolmo... Se esta gente acredita no que diz, por que tenho eu tanta dificuldade em acreditar? Alguma vez se viu, um Nobel depois de outro Nobel? Viver com Pilar e telefonarem-me de Estocolmo? Será o impossível possível?»

in, "Cadernos de Lanzarote - Diário I"
Caminho, página 94


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

"O Homem Que Queria Um Barco" de Aline Frazão, baseada em "O Conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago

O álbum "Insular" de Aline Frazão
e a música "O Homem Que Queria Um Barco", 
baseada em "O Conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago




Via Facebook da Fundação José Saramago, aqui
em https://www.facebook.com/fjsaramago/?fref=ts

"Sobre «Insular», o novo disco de Aline Frazão, que partiu de «O Conto da Ilha Desconhecida» para compor um destes novos temas: «Mas, como canta em O homem que queria um barco, letra sua baseada no Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, era um passo “p’ra descobrir quem sou quando chegar”.»


Publicado a 21/11/2015 - Provided to YouTube by Universal Music Group International
"O Homem Que Queria Um Barco" de Aline Frazão, do álbum "Insular"
℗ 2015 Edições Valentim de Carvalho S.A. - Released on: 2015-11-20

Notícia via jornal Público, para leitura completa e consulta, aqui

"Aline partiu à procura do seu Norte" de Gonçalo Frota (28/11/2015)

"Para agitar a sua música, Aline Frazão rodeou-se de electricidade, de um homem dos Linda Martini e de um produtor com um estúdio numa remota ilha escocesa. Insular é o magnífico e corajoso registo de uma cantora empenhada em redescobrir-se no risco.
(...)
Ajudou que o destino fosse uma ilha selvagem, pouco paradisíaca, em que uma viagem até ao único pub de Craighouse não alterava a sensação de isolamento. E assim Aline aceitou lançar-se a “um jogo de confiança, em que tudo era muito arriscado”. Durante os meses que precederam a partida para Jura, quando lutava para terminar as composições que iria gravar, foi assaltada milhentas vezes por uma sensação de que aquilo que a esperava era “um pouco louco”. Não era certamente a cartada certinha de se juntar a um produtor de créditos inabaláveis ou sequer a estratégia de mudar sem correr o risco de uma desestabilização real. Mas, como canta em O homem que queria um barco, letra sua baseada no Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, era um passo “p’ra descobrir quem sou quando chegar”.



Texto de Mário Cláudio no DN - "Saramago" (27/11/2015)

O texto de Mário Cláudio, pode ser consultado e lido, aqui
em http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/mario-claudio/interior/saramago-4904544.html

Os texto do autor, podem ser consultados, no DN, aqui
em http://www.dn.pt/tag/mario_claudio.html

"Saramago" por Mário Cláudio

«A notoriedade de José Saramago nas letras pátrias, e sobretudo nas europeias, dispensa-me do esforço de procurar a habitual perífrase, a servir de título a esta crónica, e capaz de tornar mais nítida, ou mais cativante, a personalidade--tema que desejo tratar aqui. "Saramago" sem mais, desligado da graça de baptismo, e de qualquer adereço que a acompanhe, bastará de facto para identificar quem com Fernando Pessoa representa a literatura portuguesa, e em termos idênticos àqueles em que Cristiano Ronaldo simboliza o futebol internacional. O ficcionista de Todos os Nomes foi de resto brindado por um apelido que regista tanto de bravio como de truculento, sublinhando dois dos traços mais genuínos do seu carácter.

Aquando da vinda a lume de Levantado do Chão, e com base nas fotografias que circulavam nos jornais, reconhecê-lo-ia eu, a almoçar num pequeno restaurante do Bairro Alto, a Primavera. O romancista encontrava-se sozinho, e ia comendo nessa civilizada lentidão dos camponeses que aproveitam a ceia para congeminar longa e serenamente sobre os trabalhos e os dias. Vestia uma camisa aos quadrados, e usava uma boina que julgo ter retirado antes de se sentar à mesa, indumentária em tudo correspondente ao período pós-revolucionário que se atravessava, e que talhava o estilo a que um amigo meu, classista e selectivo, chamava "vinho e petiscos". Achava-se distante ainda a época em que o vestuário do proletariado cederia lugar ao uniforme mais recente, impossibilitando a destrinça entre letrado, político e homem de negócios, e ao qual José Saramago, consagrado entretanto, acabaria por aderir.

Em 1985 um júri nomeado pela Associação Portuguesa de Escritores atribuir-me-ia o Grande Prémio de Romance e Novela, instituído pela mesma, e distinguindo o meu livro Amadeo, quando me apaixonara já, e perdidamente, por Memorial do Convento. Saramago era na altura o principal favorito ao galardão com O Ano da Morte de Ricardo Reis, e sem demora o caldo ficaria entornado. Não faltaria quem logo equiparasse o meu texto ao volumezinho de versos, crismado de Romaria, e de que era autor um no-name boy, que décadas antes alcançara o primeiro lugar num concurso do Secretariado de Propaganda Nacional, preterindo escandalosamente a Mensagem, de Fernando Pessoa. No calor da defesa do que não vencera principiei então a receber arreliantes telefonemas anónimos, e às três ou quatro da manhã, insultando-me de variadas coisas, e acusando-me antecipadamente de desvergonha, se acaso me atrevesse a receber o troféu, e o cheque que lhe estaria apenso. Fui porém a Tróia, empunhei a estatueta, empochei o dinheiro, e confessei publicamente que muito gostaria de poder contar com José Saramago ali, e a meu lado. Impõe--se todavia aduzir que ele próprio, o ilustre novelista, me enviaria de imediato uma generosa e magnânima carta, verberando o comportamento de quantos a horas pouco cristãs me haviam desfeiteado pelo auscultador.

Encontrava-me eu com ele mais tarde na Feira de Frankfurt, integrados numa dessas levas de lusófonos, e subsidiados pelo Estado no período das vacas gordas, quando anunciaram que o Nobel lhe fora concedido. Acorremos a abraçá-lo, e apesar do muro de colegas e leitores que o saudavam, consegui entregar--lhe uma rosa vermelha, isto porque cravos revolucionários dificilmente se compram na cidade--escritório da Europa. E nessa noite, reunindo alguns do nosso ofício num jantarzinho alemão, Agustina Bessa-Luís teve o gesto lindíssimo de mandar abrir uma garrafa de Don Perignon, homenageando assim o triunfador que porventura haverá morrido sem que esta nobre delicadeza lhe chegasse ao conhecimento.

Ao passar agora defronte da Casa dos Bicos, reparo na oliveirinha que protege as cinzas do inesquecível prosador, e felicito-o em silêncio por ter escapado tão habilmente aos monumentais esplendores do Panteão Nacional. Rezo pois para que a terra lhe seja leve, suspeitando de que o será por certo, e muito mais do que os mármores dos sarcófagos da Igreja de Santa Engrácia.»

domingo, 29 de novembro de 2015

Roteiro Literário - O Percurso Pedestre baseado na obra de José Saramago "O Ano da Morte de Ricardo Reis" - Dias do Desassossego 2015





Roteiro Literário - O Percurso Pedestre baseado na obra de José Saramago 
"O Ano da Morte de Ricardo Reis"

«"O Ano da Morte de Ricardo Reis" é um dos mais interessantes romances do Prémio Nobel, onde se cruzam personagens como Ricardo Reis, Lídia e até Fernando Pessoa. Neste passeio percorremos os locais referidos na obra e, em cada um desses locais, para alé da explicação da obra, é lido, como de costume, um excerto do romance.»

Mais informação, 
ou na página do Facebook, em https://www.facebook.com/MissLisb/?fref=ts

Contactos Directos 
Mail - geral@misslisbon.com
Morada - Praça Infante D. Duarte, n.º8, 3ºD - Infantado - 2670 - 386 Loures
Telefone - 965 458 919 / 964 601 916

Início da visita - Fundação José Saramago

 A sede da FJS - Casa dos Bicos - As janelas com a arte de José Santa-Bárbara


O Cais das Colunas
"Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheias nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Higland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara"


Praça Duque da Terceira  - Cais do Sodré - Rua Nova do Carvalho (Hotel Bragança)













"tornou o hóspede a entrar na recepção, um pouco ofegante do esforço, pega na caneta, e escreve no livro das entradas, a respeito de si mesmo, o que é necessário para que fique a saber-se quem diz ser (...) Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, ultima residência Rio de Janeiro, Brasil, donde precede, viajou pelo Highland Brigade"







Rua do Comércio
"Ricardo Reis saiu cedo do hotel, foi ao Banco Comercial cambiam algum do seu dinheiro inglês pelo escudos da pátria, pagaram-lhe por cada libra cento e dez mil réis"


Rua do Crucifixo
"Afasta-se Ricardo Reis em direcção à Rua do Crucifixo, atura a insistência de um cauteleiro que lhe quer vender um décimo para a próxima extracção da lotaria, É o mil trezentos e quarenta e nove, amanhã é que anda à roda"

Rossio (Restaurante Irmão Unidos)
"Fez um gesto na direcção da praça de táxis, tinha fome e pressa, se ainda encontraria a esta hora restaurante ou casa de pasto que lhe desse de almoço, Leve-me ao Rossio, se faz favor"

Nota Informativa (Miss Lisbon): "Os Irmãos Unidos, no Rossio, era um restaurante que pertencia ao pai de Alfredo Guisado (detalhe da placa). Aqui se reunia a geração do Orpheu, e encomendado para ele, Almada Negreiros pintou o retrato de Fernando Pessoa, em 1954, que presentemente se encontra na Casa Fernando Pessoa. Dez anos mais tarde, pintou uma réplica para a Fundação Gulbenkian. O restaurante encerrou em 1970, tendo a sua área sido ocupada pela Camisaria Moderna."

 Rua dos Sapateiros / Rua de Santa Justa
"Vai Ricardo Reis a descer a Rua dos Sapateiros quando vê Fernando Pessoa. Está parado à esquina da Rua de Santa Justa, a olhá-lo como quem espera, mas não impaciente."

A estátua de Fernando Pessoa


Praça Luís de Camões 
"Tivesse Ricardo Reis saído nessa noite e encontraria Fernando Pessoa na Praça Luís de Camões, sentado num daqueles bancos como quem vem apanhar a brisa"


Alto de Santa Catarina
 
"Ainda não são três da tarde quando chega ao Alto de Santa Catarina. As palmeiras parecem transidas pela aragem que vem do largo, mas as rígidas lanças das palmas mal se mexem. Não consegue Ricardo Reis lembrar-se se já aqui estavam estas árvores há dezasseis anos, quando partiu para o Brasil."

Estátua do Adamastor
"Foi dar a volta à estátua, ver quem era o autor, quando foi feita, a data lá está, mil novecentos e vinte e sete, Ricardo Reis tem um espírito que sempre procura encontrar simetrias irregulares do mundo, oito anos depois da minha partida para o exílio foi aqui posto o Adamastor, oito anos depois de aqui estar Adamastor regresso eu à pátria, ó pátria, chamou-me a voz dos teus egrégios avó"