Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Arranjo de Soares Feitosa sobre excerto de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" - "Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!"

José Saramago "Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!"

Arranjo de Soares Feitosa

Link para consulta, 
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1saramago8.html


"Versificação", a partir do ritmo cardíaco e do batimento respiratório (uma "viagem", como se, entre os olhos e o ouvido médio) de um texto de Saramago, in O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Companhia das Letras, 31ª reimpressão, páginas 398/399, sem nenhuma alteração a mais ou a menos que a mera arrumação em versos e estrofes. Nem preciso mencionar que este texto em Saramago (aliás, o Evangelho inteiro) é um bloco compacto, com mínimas "cesuras" por vírgulas e nada mais.
Prosa e poesia seriam, assim sem mais nem menos, a 2001 mesma coisa? Sim e não, aliás, sim... desde quê. E por favor bote muitos desdes-quês nessa história. De fato, é possível "metrificar" Euclices da Cunha, Guimarães Rosa, José de Alencar, Clarice Lispector e não muito mais que uns cinco gatos pingados. Da mesma forma, excelente "prosa" em... Álvaro de Campos. É só tentar... desde quê."

Soares Feitosa
Fortaleza, CE, noite alta, 5.5.2003


"Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora!"

"Vem aqui, Tomé,
vem comigo até a borda da água,
vem ver-me fazer uns pássaros
com esta lama que colho...

Repara como é tão fácil,
formo e modelo o corpo
e as asas;
afeiçoo a forma da cabeça
e do bico; engasto estas pedrinhas
que são os olhos;
ajeito as penas compridas
da cauda;
equilibro-lhes as pernas e os dedos
e tendo feito
este, faço mais onze;
aqui os tens, um dois, três
quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, dez, onze, doze pássaros
de lama...

Imagina, até, se quiseres,
dar-lhes nomes: este é Simão,
este é Tiago, este é André, este é João, e este,
se não te importas, chamar-se-á
Tomé.

Quanto aos outros vamos esperar
que os nomes apareçam;
os nomes, muitas vezes, atrasam-se
no caminho, chegam
mais tarde...

E agora vê como faço — lanço esta rede
por cima das avezinhas
para que elas não possam fugir, os pássaros..., se
não temos cuidado.

Queres dizer-me que se esta rede
for levantada os pássaros fogem?
Esta é a prova com que querias
convencer-me?

Sim e não!

Como, sim e não?

A melhor prova, mas essa
não é de mim que depende, seria
não levantares tu a rede e acreditares
que os pássaros fugiriam se a levantasses.

São de barro, não podem fugir.

Experimenta! Também Adão,
nosso primeiro pai, foi de barro e tu
descendes dele.

A Adão deu-lhe vida Deus!

Não duvides mais, Tomé! Levanta a rede, eu sou
o Filho de Deus.

Assim o quiseste, assim o terás,
estes pássaros não voarão!

Com um movimento
rápido, Tomé levantou
a rede, e os pássaros,
livres, levantaram vôo, chilreando,
duas voltas
sobre a multidão maravilhada
e desapareceram no espaço.

Disse Jesus:
Olha, Tomé, o teu pássaro
foi-se embora.

E Tomé respondeu:
Não. Senhor, está aqui ajoelhado a teus pés,
sou eu." 



"O sagrado e o romance em O evangelho segundo Jesus Cristo" - Ensaio da autoria de João Vianney Cavalcanti Nuto

Este ensaio é mencionado por João Céu e Silva, em "Uma longa viagem com José Saramago" - Porto Editora, página 258, a propósito da temática constante na obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", onde o "belo" se entrecruza e caminha em paralelo com as "heresias".
O ensaio de João Vianney Nuto, é um interessante exercício sobre esta temática.

Albrecht Dürer, Crucifixion 
Imagem retratada em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"

Aqui, via Wikipédia, link para consulta do artista

"Albrecht Dürer (Nuremberga, 21 de Maio de 1471 — Nuremberga, 6 de Abril de 1528) foi um gravador, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão e, provavelmente, o mais famoso artista do Renascimento nórdico, tendo influenciado artistas do século XVI no seu país e nos Países Baixos. A sua maestria como pintor foi o resultado de um trabalho árduo e, no campo das artes gráficas, não tinha rival. As suas xilogravuras, consideradas revolucionárias são ainda marcadas pelo estilo gótico. É considerado como o primeiro grande mestre da técnica da aguarela, principalmente no que diz respeito à representação de paisagens. Os seus interesses, no espírito humanista do Renascimento, abrangiam ainda outros campos, como a geografia, a arquitectura, a geometria e a fortificação.
Conseguiu chamar a atenção do imperador Maximiliano I para o seu trabalho, tendo sido por ele nomeado pintor da corte em 1512. Viveu, provavelmente, duas vezes na Itália em adulto. Em 1520, depois da morte do imperador, partiu para os Países Baixos, visitou muitas das cidades do norte e conheceu pintores e homens de letras, como Erasmo de Roterdão. Nos seus últimos anos, em Nuremberga, partindo de estudos de teoria da Arte italianos de autores que o antecederam, ocupou-se principalmente com a elaboração de tratados sobre a medida e proporções humanas, perspectiva e geometria como elementos estruturantes da obra de arte.
Chegou até nós uma quantidade apreciável de documentos pessoais e autobiográficos, como cartas, textos e desenhos acompanhados de anotações minuciosas que permitem uma boa compreensão da sua obra. Esta documentação é ainda enriquecida por diversas fontes que derivam da fama conquistada por Dürer numa idade relativamente jovem."



Ensaio da autoria de João Vianney Cavalcanti Nuto

Aqui, link para consulta geral, em http://www.jornaldepoesia.jor.br/joaovianney2.html

O sagrado e o romance em "O evangelho segundo Jesus Cristo"

O evangelho segundo Jesus Cristo, ao contrário dos romances “históricos” de Saramago, não se baseia propriamente na historiografia, mas no texto bíblico. Contudo não se pode negar que a relação entre o texto bíblico e a obra de José Saramago aborda problemas semelhantes àqueles apresentados pelo texto historiográfico em Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa. Que semelhanças pode haver entre um texto historiográfico e um texto religioso, como é o caso da Bíblia? Outra questão diz respeito aos traços estilísticos-ideológicos próprios de um discurso épico, no sentido de heróico, que é parodiado tanto no Memorial do convento como em História do cerco de Lisboa. Também encontramos esse tipo de paródia de certa concepção de herói em O evangelho segundo Jesus Cristo. Pretendemos, neste ensaio, analisar as semelhanças entre a abordagem do texto bíblico e do texto historiográfico por Saramago – e também a paródia do discurso heróico. Para isto, verificaremos as possíveis relações entre a Bíblia, a História e a epopéia, para, então, analisarmos os processos de estilização e paródia contidos no romance.
A primeira questão diz respeito à noção de verdade e de como alcançá-la, sendo a obra de Saramago bastante crítica quanto à noção de verdade absoluta. Antes de tudo, é preciso distinguir a concepção a relação da História e da memória com a verdade. A Bíblia não é um texto historiográfico; mas, assim como a epopéia, é um texto que tem função de memória. Assim como a História, na concepção de Aristóteles, a Bíblia conta “o que aconteceu”[1] , a verdade, ou mais precisamente, aquilo que é aceito como verdade pelos fiéis. Aqui encontramos tanto a semelhança como a diferença em relação à História. Se a História pretende contar “o que aconteceu” – ou pelo menos a reconstituição, ou interpretação, possível –, essa verdade, no ofício do historiador, precisa ser investigada[2]. Já no mito, no texto sacro e na epopéia (pelo menos em seus primórdios) a verdade é revelada. No caso do texto religioso a verdade é tanto mais verdadeira porque sagrada.
Lembremos, a propósito, que a narrativa bíblica, por ser um texto religioso, incorpora diversos mitos, dentre eles, a criação do mundo e do homem, a origem do mal, da dor e da morte; e o mito, como diz Eliade, é uma historia verdadeira. Somente quando temos consciência da formação do cânone bíblico, com exclusão dos chamados evangelhos apócrifos[3] , somente quando conhecemos os trabalhos de tradução e exegese por parte dos teólogos da Igreja, é que a Bíblia adquire um sentido histórico: o sentido de uma pesquisa sobre o passado; ou seja: somente quando pesquisamos é que a Bíblia se torna histórica. Não é esta, porém, a leitura que se faz da Bíblia pelos crentes, que é uma leitura de fé. Vista desta maneira, a narrativa bíblica não é história no sentido estrito do termo, mas, assim como o relato do cerco de Lisboa, não deixa de ser fonte de uma verdade com a qual Saramago polemiza.
Em O evangelho segundo Jesus Cristo, a noção de verdade absoluta é constantemente questionada e criticada, desde a interpretação da gravura de Albrecht Dürer, descrita na abertura do romance: “Lá atrás no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. (...). Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava.”[4] O narrador faz questão de frisar que a Bíblia também não oferece os fatos “como eles foram”, mas versões, como naquela resposta ríspida de Jesus a Maria: “Um filho não trata desta maneira a mãe que lhe deu o ser, farão que o tempo, as distâncias e as vontades busquem para elas traduções, interpretações, versões, matizes que mitiguem a brutalidade e, se tal é possível, dêem o dito por não dito ou ponham a dizer o seu contrário, assim se escreverá no futuro que Jesus disse, (...) Deixa-me proceder, não é preciso que mo peças. (...).”[5] Mas, ao criticar as versões, tampouco se oferece o romance como um portador da verdade absoluta, pois, como acontece nos outros romances de Saramago, o próprio narrador questiona a fala que atribui ao personagem: “(...) razão por que, faltando o seu testemunho, seja lícito duvidar da autenticidade da filosófica reflexão, que quanto ao fundo quer quanto à forma, tendo em conta a mais do que óbvia contradição entre a notável propriedade dos conceitos e a ínfima condição social de quem os teria produzido”. [6]
Ora, questionar uma verdade sacra, mesmo sem querer substitui-la por outra verdade inquestionável, por si só já é uma heresia. E a heresia perpassa todo romance, ao oferecer versões que questionam, ou mesmo contrariam, certos dogmas da Igreja Católica como a virgindade de Maria, o papel do Diabo, a natureza de Deus e sua relação com Cristo. Neste processo tudo o que é sagrado é submetido à crítica, sendo, portanto, dessacralizado. Contudo essa dessacralização não resulta em uma sátira, pois não é intenção do romance zombar do sagrado, mas torná-lo mais humano. Exemplo disto é o questionamento da idealização de Maria. Em O evangelho segundo Jesus Cristo, Maria é uma mulher comum, oprimida como as demais da Judéia. Um pouco tola, não tem a aquela doce majestade de suas imagens nas igrejas. No entanto, sentimos por certa ternura por aquela mãe adolescente, perplexa com os acontecimentos estranhos relacionados com nascimento do primogênito; e pela mulher madura que custa a compreender e aceitar o destino do filho. Os sucessivos estados de gravidez de Maria subvertem aquela imagem de virgem imaculada, conforme negação explícita dessa pureza idealizada, no trecho que se segue: “Maria está outra vez limpa, de verdadeira pureza não se fala, evidentemente, que a tanto não poderão aspirar os seres humanos e as mulheres em particular (...)”.[7] Nem mesmo é dado a Maria o privilégio de ter sido a escolhida do Senhor: “Então, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor só ia a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda lembras de como estas necessidades manifestavam apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus.”[8] Encontramos aqui um efeito de ironia que advém não somente da informação, como também pelo estilo, completamente prosaico, com que o anjo informa a Maria o desígnio divino, em total desacordo com o tom solene do texto bíblico.
Outras heresias, em O evangelho segundo Jesus Cristo, são a natureza e função do Diabo e de Deus, bem como o conflito entre Deus e Jesus. No início, percebemos vagos indícios, que depois se confirmam, de que o anjo que veio anunciar a concepção de Maria é o próprio Diabo. Esta identificação não surpreende se atentarmos para a origem de uma das palavras usadas para identificar o Diabo: demônio. O termo vem do grego daimon, que, na mitologia pagã, era “um espírito mediador entre deuses e homens, muitas vezes o espírito de um herói morto”.[9] Informa Luther Link que “dáimon e daimônion também significavam um espírito perverso, dominador, tendo sido esta a única acepção desenvolvida no Novo Testamento e por muitos dos primeiros padres. Os apologistas alexandrinos helenizados dos séculos II e III, por exemplo, interpretaram os demônios platônicos – que não eram particularmente bons nem maus – como anjos caídos perversos”.[10] Como observa Luther Link, a caracterização maligna dos demônios era uma forma de combater o paganismo: “Assim fizeram com vistas a formar uma nova equação: deuses pagãos = demônios maus = diabos. Tal equação justificava condenar a adoração de deuses pagãos. ‘A coisas que os gentios sacrificam, é aos diabos que sacrificam’, escreveu Paulo”. [11]
Contudo, a maior heresia, em O evangelho segundo Jesus Cristo, consiste no papel ambíguo do Diabo, um dilema que muito preocupou a teologia cristã. Se o Diabo tem como papel supliciar os pecadores e os hereges, então o Diabo colabora com a ordem imposta por Deus: incube-se, no além, do mesmo serviço sujo dos torturadores da Inquisição aqui na terra.[12] Mas o Diabo é também o adversário de Deus. É exatamente este o significado da palavra satan, em hebraico.[13] A interpretação que prevaleceu é a de que o Diabo era inicialmente um anjo, Lúcifer, que, por seu orgulho, rebelou-se contra Deus e tenta arrastar a humanidade para o Inferno. Em O evangelho segundo Jesus Cristo, o Diabo é um colaborador, mas também é um adversário, pois colabora contrariado, já que é o próprio que Deus rejeita a proposta do Diabo de acabar com o Mal: “quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal (...) Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus.”[14] Assim, o narrador de O evangelho segundo Jesus Cristo, concordando com Orígenes e Santo Agostinho, entre outros teólogos, mostra que o Mal não existiu sempre: passou a existir com a revolta de Satã. Entretanto, o narrador discorda de toda da ortodoxia católica, ao mostrar que o Mal permanece não apenas porque Deus permite sua existência provisória, mas porque ele assim o exige. É ambíguo também o papel do Diabo, como tentador de Cristo, já que os anos que passa com Jesus no deserto são também anos de aprendizado, em que Jesus, tendo o Diabo como mestre, é confrontado com questões perturbadoras que contribuem para o seu amadurecimento. Este caráter ambíguo do Diabo torna-o menos terrível que a aquela figura criada pelo imaginário medieval. O Diabo de Saramago é uma entidade até mesmo simpática, que orienta Jesus nos seus anos de formação; e uma figura prometeica diante de um Deus despótico. Por isto é que o Diabo, que, segundo Dante, “já foi belo e hoje é feio”, não tem aparência grotesca consagrada pela iconografia medieval[15] : suas aparições, apesar de impressionantes, nada têm de pavorosas.
A imagem de Deus, por outro lado, assusta não pela sua aparência, que, aliás, é bastante convencional: “É um homem grande e velho, de barbas fluviais espalhadas sobre o peito, a cabeça descoberta, cabelo solto, a cara larga e forte, a boca espessa, que falará sem que os lábios pareçam mover-se”.[16] Mas Deus assusta por sua onipotência e despotismo. Como afirma Maria de Magdala, “Deus é medonho”[17] ; e Jesus recorda-se dos seus contatos com Deus: “Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é ouvi-lo em sonho, outra será vivê-lo em vida.”[18] Diante desse Deus, ambicioso e autoritário, que não hesita em sacrificar seu próprio filho para poder expandir o culto a sua pessoa, é que se revela o verdadeiro cálice amargo de Jesus: a lista de mártires do catolicismo, com seus respectivos suplícios, pois, assim como em Memorial do convento, encontramos, em O evangelho segundo Jesus Cristo, o traço épico do catálogo dos heróis, transformado em um catálogo de mártires[19] . Tão herético quanto surpreendente é o desfecho do romance, quando Jesus se rebela, decidindo enganar o pai, substituindo sua condição de filho de Deus, pela de um simples rebelde contra Roma: “(...) mas, se no lugar dele puséssemos um simples homem, já não poderia Deus sacrificar o Filho (...) Um simples homem, sim, mas um homem que se tivesse proclamado o mesmo rei dos Judeus, que andasse a levantar o povo para derrubar Herodes do trono e expulsar os romanos, isto é que vos peço, que corra um de vós ao Templo a dizer que eu sou esse homem”.[20] Nesse contexto, muda também o papel de Judas de Iscariote, que, de traidor, passa a ser colaborador de Jesus: “Foi então que se ouviu, clara, distinta, por cima do alvoroço, a voz de Judas de Iscariote, Eu vou, se assim o queres”.[21] Naturalmente toda esta versão implica questionamentos perturbadores para os crentes, que estão acostumados a somente repetir verdades tidas como absolutas, e, em sua maioria, ignoram os expurgos realizados na formação do cânone bíblico: o textos apócrifos, com suas versões alternativas. Há, portanto, certa afinidade entre os evangelhos apócrifos –banidos do cânone bíblico por serem considerados heréticos – e O evangelho segundo Jesus Cristo. Mas este, até mesmo por assumir sua condição de ficção, não pretende, de maneira alguma, substituir uma verdade inquestionável por outra.


A atenuação da superioridade de Jesus: 
uma profanação delicada

Em Memorial do convento e O evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago incorpora elementos estilísticos-ideológicos próprios da epopéia, os quais critica através da polêmica e da paródia. Haveria também esses elementos na Bíblia? Assim como a epopéia, o texto religioso é narrado em tom solene – com pouco clima para a introdução do cômico – e tem função de memória, transmitindo uma verdade sagrada. Incorporando mitos, apresenta o maravilhoso (os milagres), tem como protagonistas pessoas superiores a nós (Deus, os anjos, os profetas, o messias), e também apresenta cenas bélicas, como a batalha de Jericó, ou de grande mobilização nacional, como a travessia do Mar Vermelho. Lembremos, contudo, que O evangelho segundo Jesus Cristo tem como principal fonte os evangelhos – o que não descarta a possibilidade de Saramago ter consultado outras fontes, como os evangelhos apócrifos, o Velho Testamento e livros sobre a história da Igreja Católica. E os evangelhos parecem bem mais afastados da epopéia que as narrativas do Velho Testamento.
A primeira é diferença é estilística: os versos heróicos na epopéia; os versículos nos evangelhos. Contudo, também os evangelhos apresentam o tom solene, próprio para falar de coisas grandiosas e divinas acontecidas “naquele tempo” (“in illo tempore”). Mas mesmo esse tempo não é tão recuado quanto o da epopéia, pois os apóstolos – a quem é atribuída a autoria dos evangelhos – teriam conhecido Jesus pessoalmente. Nem são bélicas as ações do messias. Vejamos, então, em o que os evangelhos teriam em comum com a epopéia, no que diz respeito ao critério aristotélico dos objetos de imitação. Diz Aristóteles que a epopéia tem como protagonistas pessoas superiores a nós. Ocorreria o mesmo nos evangelhos? A resposta só pode ser afirmativa se tivermos em mente uma outra concepção de superioridade, radicalmente diferente do heroísmo clássico, pois como afirma Harold Bloom “nenhum estudioso foi capaz de realizar uma comparação convincente do pensamento grego e da psicologia hebraica, no mínimo porque os dois modos parecem irreconciliáveis”.[22] Se Aquiles e Ulisses são guerreiros e de classe superior; Jesus é um messias, filho de um humilde carpinteiro. Mas tem Jesus muito em comum com os protagonistas da epopéia e da tragédia, por ser, assim como Aquiles e Édipo, aquele cujas decisões determinam o destino do seu povo; como Moisés, Jesus é um líder supremo, “o caminho, a verdade e a vida”.
Outro traço que Jesus tem em comum com os heróis clássicos é o fato de ter sido concebido pelo próprio Deus; portanto, Jesus continua a tradição clássica dos semideuses – embora o dogma da Santíssima Trindade o tenha feito confundir-se com o próprio Deus, o que não acontece com os heróis e outros seres da mitologia pagã. É o próprio Deus, no romance de Saramago, quem confirma essa tradição: “Como não tinha nenhum [filho] no céu, tive de arranjá-lo na terra, não é original, até em religiões com deuses e deusas que podiam fazer filhos uns com os outros, tem-se visto vir um deles à terra, para variar, suponho, de caminho melhorando um pouco uma parte do género humano pela criação de heróis e outros fenómenos (...)”.[23] Na epopéia clássica, o caráter semidivino dos heróis lhes confere qualidades extraordinárias, como força, coragem e inteligência excepcionais –havendo até mesmo uma espécie de superioridade do erro ou do defeito, a hybris, que, pelas conseqüências não apenas individuais como coletivas estaria na origem da noção de trágico. Nos evangelhos, Jesus, por ser filho de Deus, também tem qualidades excepcionais de inteligência e liderança, mas não empunha armas; comanda multidões, mas não exércitos[24] . Na epopéia clássica a epopéia clássica, os vencedores são premiados com as suas conquistas – embora o sentido do trágico dos gregos não permita que essas conquistas sejam fácil e longamente fruídas, sempre se enfatiza a fragilidade do ser humano, mesmo dos semideuses. Jesus, apesar de condenado e executado, apesar de não ser imperador na terra, também é recompensado, mas seu reino “não é deste mundo”. Seu maior heroísmo consiste em ser sacrificado na terra, para reinar ao lado de Deus.
“Nem sequer devia ser concebível uma santidade que não conhecesse a força dos homens e a fraqueza que às vezes nessa força há”, diz o narrador do Memorial do convento. A tensão dominante em O evangelho segundo Jesus Cristo, em relação à Bíblia, reside justamente na atenuação da superioridade de Jesus Cristo. Esta atenuação não chega a atingir rebaixamento grotesco – como o caracteriza Bakhtin –, que encontramos somente na descrição de Herodes, quando o narrador se refere aos “vermes que infestam os órgãos genitais da real pessoa e que, esses sim, a estão devorando em vida”.[25] E também ao mostrar Herodes “arrastando um corpo que fede de putrefacção, apesar dos perfumes de que leva embebidas as roupas e ungidos os cabelos pintados, a Herodes só o mantém vivo a fúria”.[26] Este tipo de rebaixamento jamais acontece na descrição de Jesus, nem da sagrada família, que não são, de maneira alguma, satirizados. Contudo, tampouco apresenta aquela aura veneranda própria de tudo que é sagrado: o Jesus de Saramago é dessacralizado, tornando-se, pela exposição de suas dúvidas e fraquezas, um homem mais próximo de nós. Podemos afirmar, parafraseando o título de um romance de Sérgio Sant’Anna [27], que Saramago realiza uma profanação delicada – embora muitos fiéis não concordem o adjetivo –, que atinge não somente a figura de Jesus, como também toda a sagrada família –(como já vimos a respeito de Maria). Isto torna o Jesus de Saramago mais humano que o Jesus da Bíblia, que é plenamente seguro de si e de sua missão. Como o costuma acontecer com os heróis clássicos, quase nada sabemos sobre a infância e adolescência do Jesus da Bíblia – exceto aquele episódio em que Jesus discute com os doutores. Mas, ao contrário do que acontece na epopéia, a Bíblia não faz a mínima referência à vida amorosa de Jesus, pois entre as virtudes do messias está a castidade – virtude que será preservada nos heróis das canções de gesta, guerreiros, porém castos.
A primeira diferença, em nível diegético, entre o Jesus da Bíblia e o de Saramago está no fato de que grande parte do romance abrange a adolescência de Jesus: o seu período de formação. O Jesus bebê é uma criança como as outras, sem nada que revele a sua origem divina: “Jesus, mas ele ainda não pode saber que é este o seu nome, por enquanto não passa de um pequeno ser natural, como o pinto duma galinha, o cachorro duma cadela, o cordeiro duma ovelha (...)”.[28] Inicialmente, Jesus, que ignora sua condição de filho de Deus, também é um adolescente como os outros, embora bem mais esperto, como comenta o narrador: “(...) a juventude é assim, egoísta, presunçosa, e Jesus, que ele saiba, não tem motivos para ser diferente dos da sua idade”.[29] Contudo, para a ortodoxia católica, com sua valorização da ascese, a profanação mais grave é a descrição da vida amorosa de Jesus, que, como faz questão de mostrar o narrador do romance, sente desejo sexual, como qualquer homem: “O corpo de Jesus deu um sinal, inchou no que tinha entre as pernas, como acontece a todos os homens e a todos os animais, o sangue correu veloz a um mesmo sítio, a ponto de se lhe secarem subitamente as feridas (...)”.[30] Mais adiante, Jesus é iniciado sexualmente pela prostituta Maria de Magdala, que se torna sua companheira. Não deixa de ser irônico que o erotismo, tão reprimido pela Igreja, seja descrito aqui, em belos termos do Velho Testamento, pela estilização das palavras do rei Salomão: “As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela (...)”.[31] Daí por diante, encontramos Jesus vivendo “em concubinato” assumido com Maria de Magdala. E é esse encontro com Maria de Magdala, assim como o primeiro encontro com Deus, que marca a passagem para a maioridade de Jesus. E nessa relação de Jesus com Maria de Magdala prossegue a celebração, já ocorrida nos romances anteriores, dos relacionamentos amorosos ilegítimos, porém autênticos e fortes. É a partir do encontro com Deus e com Maria Magdala que Jesus conhece não somente sua condição divina, como também as terríveis conseqüências desse privilégio. E é a partir daí que Jesus torna-se mais seguro de si. Mas essa segurança é resultado de um amadurecimento gradual, em que acompanhamos todas as dúvidas e hesitações, assim como o remorso, herdado do pai, José, que não avisara aos pais das outras crianças de Belém que seus filhos iriam ser assassinados.
Vemos, então, em O evangelho segundo Jesus Cristo, um José e um Jesus que não estão acima das fraquezas dos homens, mas dois homens, que, sendo santos, nem por isto são imaculados. Vemos também, no Jesus de Saramago, a sua inexperiência, que o narrador relata com leve ironia, primeiro no episódio da mulher adúltera, em que Jesus recomenda que só atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado: “Arriscou-se muito o nosso Jesus porque podia ter acontecido que um ou mais dos apedrejadores, por serem de coração endurecido e estarem empedernidos nas práticas do pecado em geral, dessem ouvidos de mercador à admoestação e prosseguissem no apedrejamento, sem medo, eles próprios, à lei que estavam aplicando, por ser destinada às mulheres”.[32] A ironia torna-se um humor mais explícito no episódio do exorcismo, em que os espíritos malignos são autorizados a ocuparem os porcos, cujo resultado foi inesperado: “Os porqueiros, furiosos, atiravam de longe pedras a Jesus e a quem estava com ele, e já vinham a correr aí com o propósito, justíssimo, de exigir responsabilidades ao causador do prejuízo, um x por cabeça, a multiplicar por dois mil, as contas são fáceis de se fazer. Mas não de pagar”.[33]
As inquietações de Jesus revelam, desde o início, pelo menos um traço de superioridade: sua inteligência e seu espírito indagador. Ironicamente é uma qualidade perturbadora, que torna o Jesus de Saramago também um herege, não só em relação à tradição bíblica mais antiga, como também em relação aos próprios evangelhos. E, para exercitar esse espírito questionador seja plenamente realizado por Jesus, o narrador lhe empresta estilemas do um gênero apropriado para destronar as verdades absolutas: o diálogo socrático[34] , pois Jesus discute com seus oponentes “como se na cartilha socrática tivesse aprendido as artes da maiêutica analítica”.[35] Contudo, ao contrário dos sofistas, Jesus não tem como objetivo somente convencer os adversários, mas conhecer melhor a si mesmo, a Deus e aos homens: “(...) O que quero saber é sobre a culpa, Falas de uma culpa tua, falo de culpa em geral, mas também da culpa que eu tenha mesmo não tendo pecado directamente (...)”.[36] Com ironia, Saramago apresenta o próprio Jesus como primeiro questionador da verdade absoluta dos evangelhos. Por este e outros procedimento O evangelho segundo Jesus Cristo confronta a verdade oficial da bíblia com as versões marginais: as heresias. 


Notas:

[1] ARISTÓTELES. Poética. Tradução, prefácio, introdução, comentário e apêndices de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, s.d. p. 115.

[2] Segundo Huizinga, storia, no dialeto jônico de Heródoto, significa “aquilo que se consegue saber através de inquérito”. Opõe-se, portanto, à noção de revelação divina. Cf. HUIZINGA, J. Über eine Definition des Begriffs Geschichte. In: ______ . Geschichte und Kultur: gesammelte Aufsätze. Tradução de Werner Kaegi. Stuttgart: Alfred Kröner Verlag, 1954. p. 6.

[3] Salma Ferraz observa que “[alguns dos evangelhos apócrifos (Proto-evangelho de Tiago, Evangelho pseudo-Tomé, Evangelho árabe da infância, Evangelho apócrifo segundo Felipe, Evangelho apócrifo de Nicodemus) são citados em diversas vezes para preencherem os chamados ‘vazios’ da narrativa bíblica, ou seja, aqueles momentos em que o texto bíblico se cala sobre determinado período de tempo, como, por exemplo, o que teria acontecido com Cristo dos doze aos trinta anos.” FERRAZ, S. O quinto evangelista: o (des)evangelho segundo José Saramago. Brasília: Editora da UnB, 1998. p. 35.

[4] SARAMAGO, J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.18.

[5] Ibid. p. 346. 

[6] Ibid. p. 108.

[7] Ibid. p. 101.

[8] Ibid. p. 311-312.

[9] LINK, L. O Diabo: a máscara sem rosto. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 25.

[10] Id. 

[11] Id. 

[12] Mas, no mosaico de Torcello, esse trabalho é realizado pelos próprios anjos (cf. LINK, Op. cit. p. 123). Luther Link observa também que os instrumentos utilizados pelos diabos, na iconografia medieval, são os mesmos utilizados pela Inquisição. 

[13] LINK, L. Op. cit. p. 24.

[14] SARAMAGO, J. Op. cit. p. 392-393.

[15] Exceto naquele momento em que nada em direção a Jesus e Deus, quando por um breve vislumbre de Jesus, lembra um porco resfolegando. Mas aqui parece que a intenção é mostrar que o Diabo não tem a mesma onipotência do Senhor: “(...) à distância era outra vez como um porco com as orelhas espetadas, ouviam-se resfolgos bestiais, mas um ouvido fino não teria dificuldade de perceber que havia também ali um som de medo, não de afogar-se, que ideia, o Diabo, acabámos de sabê-lo mesmo agora, não acaba, mas de ter de existir para sempre. (O Evangelho segundo Jesus Cristo. p. 393.) 

[16] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 364.

[17] Ibid. p. 309.

[18] Id.

[19] Ibid. p. 381-385.

[20] Ibid. p. 436.

[21] Ibid. p. 437.

[22] BLOOM, H. Abaixo as verdades sagradas: poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução: Alípio Correa de Franca Neto, Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 41.

[23] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 366.

[24] Posteriormente, já na Europa cristã da Idade Média, os heróis reúnem as qualidades do guerreiro e do santo (ex: Rolando, Joana D’Arc).

[25] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 86. 

[26] Id. 

[27] Um crime delicado.

[28] Ibid. p. 89.

[29] Ibid. p. 222.

[30] Ibid. p. 270.

[31] Ibid. p. 282.

[32] Ibid. p. 352

[33] Ibid. p. 356.

[34] Lembremos que o diálogo socrático, segundo Bakhtin, é um dos gêneros que originaram o romance. (Cf. Bakhtin, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Editora UNESP/HUCITEC, 1990. passim).

[35] SARAMAGO, J. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 231.

[36] Ibid. p. 211.


Bibliografia:

BLOOM, H. Abaixo as verdades sagradas: poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Tradução: Alípio Correa de Franca Neto, Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
FERRAZ, S. O quinto evangelista: o (des)evangelho segundo José Saramago. Brasília: Editora da UnB, 1998.
LINK, L. O Diabo: a máscara sem rosto. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BRIDI, M. V. O evangelho de Saramago: a Paixão de Cristo em perspectiva. In: LOPONDO, L. (org.). Saramago segundo terceiros. São Paulo: Humanitas/FFLHCH/USP, 1998. p. 111-130.
SARAMAGO, J. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
SEGOLIN, F. O evangelho às avessas de Saramago ou o divino demasiado humano ou o Deus que não sabe o que faz. CADERNOS CESPUC DE PESQUISA. José Saramago: um nobel para as literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: CESPUC, 1999. p. 13-19.
SILVA, T. C. C. O evangelho segundo Jesus Cristo ou a consagração do sacrilégio. CADERNOS CESPUC DE PESQUISA. José Saramago: um nobel para as literaturas de língua portuguesa. Belo Horizonte: CESPUC, 1999. p. 50-60."

Domenico Scarlatti - Sonata in G - K108 ...Il maestro e as lições de musica


(...) por nascer uma criança em Lisboa levanta-se em Mafra um montanhão de pedra e vem de Londres contratado Domenico Scarlatti. À lição assistem as majestades, em pequeno estado, umas trinta pessoas, se tanto, contando os camaristas de semana dele e dela, aias, açafatas várias, mais o padre Bartolomeu de Gusmão, lá para trás, e outros eclesiásticos. Il maestro vai corrigindo a digitação fá lá dó, fá dó lá, sua alteza apura-se muito, morde o beicinho, nisto não se distingue de qualquer criança, em paço nascida, ou noutras passagens, a mãe disfarça uma certa impaciência, o pai está real e severo, só as mulheres, tenros corações, se deixam embalar pela música, e pela menina, mesmo tocando ela tão mal, nem admira, que esperaria D. Maria Ana, milagres, ainda agora está no princípio, il signor Scarlatti só chegou há poucos meses, e por que hão-de estes estrangeiros tornar os nomes difíceis, se tão pouco custa descobrir que é Escarlate o nome deste, e bem lhe fica, homem de completa figura, rosto comprido, boca larga e firme, olhos afastados, não sei que têm os italianos, e então este, em Nápoles nascido há trinta e cinco anos, É a força da vida, mana. Terminou a lição, desfez-se a companhia, rei para um lado, rainha para outro, infanta não sei para onde, todos observando precedências e preceitos, cometendo plurais vénias, enfim, afastou-se a restolhada dos guarda-infantes e dos calções de fitas, e no salão de música apenas ficaram Domenico Scarlatti e o padre Bartolomeu de Gusmão. O italiano dedilhou o cravo, primeiro sem destino, depois como se estivesse à procura de um tema ou quisesse emendar os ecos, e de repente pareceu fechado dentro da música que tocava, corriam-lhe as mãos sobre o teclado como uma barca florida na corrente, demorada aqui e além pelos ramos que das margens se inclinam, logo velocíssima, depois pairando nas águas agitadas de um lago profundo, baía luminosa de Nápoles, secretos e sonoros canais de Veneza, luz refulgente e nova do Tejo, já lá vai el-rei, resguardou-se a rainha na sua câmara, a infanta debruça-se para o bastidor, de pequenina se aprende, e a música é um rosário profano de sons, mãe nossa que na terra estais. Senhor Scarlatti, disse o padre quando o improviso terminou e todos os ecos ficaram corrigidos, senhor Scarlatti, não me gabo de saber dessa arte, mas estou que até um índio da minha terra, que dela sabe ainda menos do que eu, haveria de sentir-se arrebatado por essas harmonias celestes, Porventura não, respondeu o músico, porque bem sabido é que há-de o ouvido ser educado se quer estimar os sons musicais, como os olhos têm de aprender a orientar-se no valor das letras e sua conjunção de leitura, e os próprios ouvidos no entendimento da fala, São palavras ponderadas, essas, que emendam as levianas minhas, é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente de conhecer os erros, E praticá-los, Não saberei responder à pergunta com um simples sim ou um simples não, mas acredito na necessidade do erro." (...)  

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição
Páginas 160 a 162

Blimunda "Nunca te olharei por dentro"...

"Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltazar, sobre o coração..."



(...) "Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, E disse, Nunca te olharei por dentro. (...)

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 57

Terramoto no Haiti - 4 anos - "Uma Jangada de Pedra - A Caminho do Haiti"

Passam 4 anos, do terramoto no Haiti.
Os números são assustadores. Todos os números.
Evoco as palavras de José Saramago e Pilar del Río, e a iniciativa realizada com a reedição de "Uma Jangada de Pedra - A Caminho do Haiti"


"El 12 de enero de 2010, a las 16:53:09 hora local, Haití se vio sacudido por un terremoto de 7,2 grados." - El Diario





"El papel del intelectual en las crisis"

"José Saramago no podía permanecer al margen de la tragedia que sufrían miles de personas que, siendo tan humanas como él, estaban condenadas a sufrir los mayores rigores de la vida y, en tantos casos, acabar en la muerte más atroz. No podía hacer, desde su casa de Lanzarote, nada más que poner en evidencia las contradicciones de un mundo que manda aparatos a Marte a la vez que ignora el estado de pobreza e indefensión en que viven millones de personas. O sí podía intervenir más: pensó, e inmediatamente se dirigió a sus editores, proponiéndoles realizar algo más concreto que unas palabras de solidaridad, les sugirió la reedición de un libro -La basa de piedra- con un un subtitulo bien claro: "Camino de Haití" y ceder todos los derechos de ese libro para, tal vez, reconstruir una escuela y hacerlo con los cimientos suficientes para que en el próximo terremoto no se desplome aplastando a los alumnos, los niños que estén dentro tratando de aprender o refutar lo que los mayores enseñamos, tan poco ejemplar a veces. La iniciativa tuvo una acogida mediana, porque es en la medianía donde estamos instalados. En cualquier caso, José Saramago dio el paso adelante y tal vez al hacerlo nos demostró que nuestra sensibilidad dura lo que duran las imágenes de un telediario, eso cuando no apartamos la cabeza para no verlas... Somos ciegos que viendo no vemos, escribió José Saramago. Así nos va."

Pilar del Río

(13 de enero de 2010. 
Se estima que el sismo afectó a más de tres millones de personas y más de 300.000 fallecimientos. 
Escuela Nacional de Cité Soleil, Puerto Príncipe. 
Fotografía: Stefano Zannini)

Mensagem de José Saramago, publicada em "O Caderno II"
Post inserido em 8 de Fevereiro de 2010
Aqui, para consulta em http://caderno.josesaramago.org/62662.html

"Quantos Haitis?"
"No Dia de Todos os Santos de 1755 Lisboa foi Haiti. A terra tremeu quando faltavam poucos minutos para as dez da manhã. As igrejas estavam repletas de fiéis, os sermões e as missas no auge… Depois do primeiro abalo, cuja magnitude os geólogos calculam hoje ter atingido o grau 9 na escala de Richter, as réplicas, também elas de grande potência destrutiva, prolongaram-se pela eternidade de duas horas e meia, deixando 85% das construções da cidade reduzidas a escombros. Segundo testemunhos da época, a altura da vaga do tsunami resultante do sismo foi de vinte metros, causando 600 vítimas mortais entre a multidão que havia sido atraída pelo insólito espectáculo do fundo do rio juncado de destroços dos navios ali afundados ao longo do tempo. Os incêndios durariam cinco dias. Os grandes edifícios, palácios, conventos, recheados de riquezas artísticas, bibliotecas, galerias de pinturas, o teatro da ópera recentemente inaugurado, que, melhor ou pior, haviam aguentado os primeiros embates do terramoto, foram devorados pelo fogo. Dos 275 mil habitantes que Lisboa tinha então, crê-se que morreram 90 mil. Conta-se que à pergunta inevitável “E agora, que fazer?”, o secretário de Estrangeiros Sebastião José de Carvalho e Melo, que mais tarde viria a ser nomeado primeiro-ministro, teria respondido “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Estas palavras, que logo entraram na História, foram efectivamente pronunciadas, mas não por ele. Disse-as um oficial superior do exército, desta maneira espoliado do seu haver, como tantas vezes acontece, em favor de alguém mais poderoso.

A enterrar os seus cento e vinte mil ou mais mortos anda agora o Haiti, enquanto a comunidade internacional se esforça por acudir aos vivos, no meio do caos e da desorganização múltipla de um país que mesmo antes do sismo, desde gerações, já se encontrava em estado de catástrofe lenta, de calamidade permanente. Lisboa foi reconstruída, o Haiti também o será. A questão, no que toca ao Haiti, reside em como se há-de reconstruir eficazmente a comunidade do seu povo, reduzido não só à mais extrema das pobrezas como historicamente alheio a um sentimento de consciência nacional que lhe permitisse alcançar por si mesmo, com tempo e com trabalho, um grau razoável de homogeneidade social. De todo o mundo, de distintas proveniências, milhões e milhões de euros e de dólares estão sendo encaminhados para o Haiti. Os abastecimentos começaram a chegar a uma ilha onde tudo faltava, fosse porque se perdeu no terramoto, fosse porque nunca lá existiu. Como por acção de uma divindade particular, os bairros ricos, em comparação com o resto da cidade de Porto Príncipe, foram pouco afectados pelo sismo. Diz-se, e à vista do que aconteceu no Haiti parece certo, que os desígnios de Deus são inescrutáveis. Em Lisboa as orações dos fiéis não puderam impedir que o tecto e e os muros das igrejas lhes caíssem em cima e os esmagassem. No Haiti, nem mesmo a simples gratidão por haverem salvo vidas e bens sem nada terem feito para isso, moveu os corações dos ricos a acudir à desgraça de milhões de homens e mulheres que não podem sequer presumir do nome unificador de compatriotas porque pertencem ao mais ínfimo da escala social, aos não-ser, aos vivos que sempre estiveram mortos porque a vida plena lhes foi negada, escravos que foram de senhores, escravos que são da necessidade. Não há notícia de que um único haitiano rico tenha aberto os cordões ou aliviado as suas contas bancárias para socorrer os sinistrados. O coração do rico é a chave do seu cofre-forte.

Haverá outros terramotos, outras inundações, outras catástrofes dessas a que chamamos naturais. Temos aí o aquecimento global com as suas secas e as suas inundações, as emissões de CO2 que só forçados pela opinião pública os governos se resignarão a reduzir, e talvez tenhamos já no horizonte algo em que parece ninguém querer pensar, a possibilidade de uma coincidência dos fenómenos causados pelo aquecimento com a aproximação de uma nova era glacial que cobriria de gelo metade da Europa e agora estaria dando os primeiros e ainda benignos sinais. Não será para amanhã, podemos viver e morrer tranquilos. Mas, di-lo quem sabe, as sete eras glaciais por que o planeta passou até hoje não foram as únicas, outras haverá. Entretanto, olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar. O antigo colonialismo não desapareceu, multiplicou-se numa diversidade de versões locais, e não são poucos os casos em que os seus herdeiros imediatos foram as próprias elites locais, antigos guerrilheiros transformados em novos exploradores do seu povo, a mesma cobiça, a crueldade de sempre. Esses são os Haitis que há que salvar. Há quem diga que a crise económica veio corrigir o rumo suicida da humanidade. Não estou muito certo disso, mas ao menos que a lição do Haiti possa aproveitar-nos a todos. Os mortos de Porto Príncipe foram fazer companhia aos mortos de Lisboa. Já não podemos fazer nada por eles. Agora, como sempre, a nossa obrigação é cuidar dos vivos."

José Saramago

sábado, 10 de janeiro de 2015

O Caderno - "Quê?" ... José Saramago questiona

O mundo está em guerra.
Os homens contra as liberdades dos outros.
As lutas em nomes de deuses e seus afins.
Fanatismos e outros tantos "ismos" que tornam o ar deste mundo irrespirável.
Será este mundo pequeno para os homens de bem?

Miguel de Azevedo


"Um dos líderes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), Harith bin Ghazi al-Nadhari, congratulou-se pelo ataque levado a cabo pelos irmãos Chérif e Saïd Kouachi contra o Charlie Hebdo, na quarta-feira, através de um vídeo difundido esta sexta-feira na página de internet do SITE, um site de monitorização da ameaça jihadista.
Segundo aquele site, no vídeo intitulado "The Faces Succeeded" (Os rostos triunfaram) com a duração de 5 minutos e 37 segundos, al-Nadhari volta a colocar a França sob a ameaça de novos atentados caso não pare de "combater" o Islão e os seus símbolos e os próprios muçulmanos. O vídeo foi partilhado algumas horas depois dos dois irmãos terem sido mortos pela polícia francesa.
"Alguns dos filhos da França desrespeitaram os profetas de Alá, por isso um grupo de soldados de Alá marchou contra eles, ensinando-os a respeitar e os limites da liberdade de expressão. Soldados que amam Alá e os seus mensageiros foram até vós, e eles não temem a morte e adoram a ideia de serem mártires em nome de Alá", pode ler-se na página do SITE."

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/video-da-al-qaeda-ameaca-franca-com-novos-ataques=f905762#ixzz3OPjptgY7






Link para consulta
em, http://caderno.josesaramago.org/23054.html

"Quê?
As perguntas: “Quem és?” ou “Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja."

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2009

em, "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição
Página 174

Luis Pastor em homenagem a José Saramago - "En balsa de piedra"


Luis Pastor, Pedro Pastor e Lourdes Guerra
Orquestra Athanor
Homenagem a José Saramago
Rivas - Auditório Pilar Bardem

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Saramago ... transportava gente dentro dos seus livros ... e as gentes que o transportava

José Saramago
Homem Universal


Sem territórios ou fronteiras, porque as imagens e as palavras são de todo o mundo.
Traduzido em dezenas de línguas, sentiu-se espantado quando as suas obras tinha vendido mais de 1.000.000 de livros nos Estados Unidos da América. 
Sentiu-se reconhecido quando por diversas paragens, em apresentações das suas obras, em conferências, em entrevistas, em teatros, anfiteatros e outros locais, onde acontecia centenas ou milhares de pessoas o esperavam para o ouvir. E ele sabia o que dizer.

Apelou à "Bondade" e à "Justiça", e que se estes se cumprissem a "Caridade" não teria lugar.

Tocava a mente das pessoas.
Tocou os corações daqueles que o ansiavam receber com suas imagens e metáforas.

A Blimunda, o Tertuliano Máximo Afonso, Cipriano Algor, o Sr. José,
a Mulher do Médico, o H, o Constante e o Achado,
Salomão, o Domingos Mau-Tempo, o Presidente da Câmara,
Jesus, o Pedro Orce, o irmão de Caim,
Raimundo Silva, os tipógrafos da Noite
o Homem que pediu um barco ao rei e o Menino da Flor...

Eles, estes e tantos outros, são a voz que nos alerta...
Mantenham-se em alerta...

Uma inquietação constante
Um desassossego permanente
Uma pergunta em vez de uma resposta




José Saramago durante o lançamento de A viagem do elefante, no SESC Pinheiros. 
(Fotos por Renato Parada)



Entrevista de Luís Antônio Giron a José Saramago - lançamento da obra "As Intermitências da Morte" (31/10/2005) - Revista Época

Luiz Schwarcz e José Saramago durante a última passagem do escritor pelo Brasil, 
para o lançamento mundial de "A viagem do elefante", em 2008.


"Desventuras em série" - José Saramago critica a corrupção no governo Lula, teme pelas esquerdas, pela Amazônia e fala da morte em seu novo livro

Entrevista de Luís Antônio Giron a José Saramago (31/10/2005) - Revista Época

"José Saramago está lançando mundialmente, no Brasil, seu novo romance, As Intermitências da Morte (Companhia das Letras, 208 págs.). Na semana passada e no início desta, ele fez palestras de apresentação e leu trechos do livro. Pretende fazer o mesmo em Portugal a partir de 11 de novembro.

A nova ficção do premiado autor aborda um tema tabu - que, como tal, faz parte da vida de todos, mas cada vez mais as pessoas anseiam ocultar: a morte. Tanto a morte de cada indivíduo como a do planeta Terra, ameaçado por desastres climáticos e pela destruição humana dos recursos naturais. É tanto uma parábola sobre a condição mortal como uma alegoria malthusiana. De repente em certo país, conta o livro, ninguém morre mais. As conseqüências são as mais destrutivas: as empresas funerárias e a Igreja Católica entram em colapso (afinal, a morte é o motor de suas atividades), as pessoas são condenadas a viver eternamente, cada vez mais velhas e alquebradas, o planeta cai no caos. Como veio, a morte se vai. Encarna em uma linda mulher para se dedicar a um violoncelista, condenado a morrer aos 49 anos. Mas já haviam passado alguns meses do prazo. O envolvimento da morte com o músico leva a um desfecho inesperado. Mais uma vez, Saramago utiliza a ficção para discutir suas idéias sobre o homem, a sociedade e o futuro do planeta.

Com ótimo humor, ele concedeu uma longa entrevista a ÉPOCA no jardim da casa em que estava hospedado em São Paulo. Saramago comentou sua nova narrativa, criticou Lula (que havia apoiado) e os escândalos de corrupção que paralisaram o governo brasileiro e avaliou o deserto ético que a esquerda atravessa. Apesar de tudo, continua a se denominar 'comunista'.

ÉPOCA - O Nobel alterou sua vida?
José Saramago - Sou a mesma pessoa. Mas é claro que os convites e solicitações aumentaram. Sempre fui um sujeito ativo que gosta de fazer intervenções públicas. O que faço hoje é aproveitar a situação para me manifestar mais. O que não quer dizer que outros intelectuais ou ganhadores do Nobel não possam agir a sua maneira. Desde o Nobel escrevi quatro romances e continuo a fazer o que fazia. Portanto está bem, pois não mudei.

ÉPOCA - Sua atuação não aumentou?
Saramago - Tenho viajado. Continuo a revezar estadas em Lanzarote (ilha espanhola) e em Lisboa, eventualmente Paris. Estou por toda parte. Mas continuo a pagar meus impostos com regularidade em Portugal. Ninguém pode me acusar de evasão de divisas!

ÉPOCA - Há um futuro comum entre países de língua portuguesa?
Saramago - Antigamente falávamos muito nas línguas de Portugal e Brasil. Hoje é preciso considerar as culturas do Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Angola etc. Cada uma dessas nações utilizou a língua portuguesa a seu modo, expressando sua realidade e seus sentimentos. Hoje Lisboa não tem mais condições de ditar regras para o português. Os portugueses já não são mais os donos da língua. Seria necessário que discutíssemos algumas formas de unificação da língua, como a ortografia, por exemplo. Mas qualquer uniformização ortográfica me parece hoje muito tardia. A tendência num futuro próximo é de que os vários ramos do mesmo tronco do português se afastem cada vez mais. Acontecerá mais ou menos como o baixo-latim, que gerou o português, o italiano, o espanhol, o romeno, o francês.

ÉPOCA - Como é seu envolvimento com os movimentos ecológicos?
Saramago - Naturalmente me preocupo com a destruição da natureza, mas não tenho sido muito ativo nisso. O Greenpeace me convidou a adotar papel reciclável controlado para a edição de meus livros e isso me pareceu uma atitude válida para ajudar a preservar as florestas. Em boa parte do mundo, inclusive no Brasil, meu novo livro será impresso em papel controlado. É uma medida pequena, mas achei válida.

ÉPOCA - O espectro da destruição que ronda o mundo é tema do romance. Pela primeira vez, a morte é tema e personagem. Por que a morte agora?
Saramago - O fato é que a morte sempre esteve aí, faz parte da vida de todo mundo. Ela percorre meus outros livros. Mas antes o personagem morria e ponto final, não havia uma reflexão sobre o assunto. Agora tomei a morte como tema de uma reflexão mais profunda. No livro, uso primeiro uma grande-angular e crio uma fantasia em torno de uma suposição: como a ausência da morte afetaria uma sociedade inteira? Depois, fecho a objetiva para um caso específico: a morte se materializa em personagem e tenta carregar para o além um violoncelista que insiste em não morrer. Procuro demonstrar que a morte é fundamental para o equilíbrio da natureza. A expectativa de vida está cada vez mais alta - e isso não é natural nem desejável para um mundo que necessita de renovação das gerações e evitar o esgotamento de seus recursos. Por uma dessas formas naturais de equilibrar a situação, o mundo está ingressando num período de contenção dos níveis de natalidade.

ÉPOCA - A população idosa representa um entrave para o progresso?
Saramago - Sim, porque, por exemplo, nos países europeus os governos têm encargos enormes com a população de aposentados que precisam ser mantidos pela Previdência Social. Daqui a pouco, com as pessoas tendo velhices cada vez mais longas, será impossível para os governos sustentar as pensões de aposentados.

ÉPOCA - A frase marcante do livro é 'Não existe nudez maior do que a do esqueleto'. O senhor teme a morte?
Saramago - Todos somos esqueletos. Apenas não notamos isso. Todos teremos de morrer cedo ou tarde, e a morte pode causar sofrimentos terríveis. Estamos aqui falando do assunto, e não consigo temer a morte. A questão não é pensar na morte, mas no 'outro lado', no momento em que passaremos de estado. Viraremos esqueletos e tudo acabará. O esqueleto se torna, então, a forma mais radical da nudez.

ÉPOCA - Em seu livro, a nudez da morte não está banhada em sensualidade e lirismo?
Saramago - Sim, porque a morte-mulher acaba se apaixonando por um homem, fazendo-a suspender a morte das pessoas, num recomeço do ciclo que atormenta o ser humano. Há passagens sensuais e líricas como em muitos outros livros.

ÉPOCA - A música é outra marca forte. Ela influencia sua escrita.
Saramago - Sou melômano. Gosto de ouvir música ao escrever, embora eu saiba que escrever e ouvir música causa interferências, uma ação deve ser separada da outra. Em As Intermitências... utilizei a música porque trata-se do encontro do músico com a morte. E isso acontece em um concerto. As suítes de (Johann Sebastian) Bach estão presentes e fazem a morte ajoelhar-se e chorar diante de sua beleza. Usei o violoncelo porque me parece apropriado para estabelecer o contato do homem com a dimensão da morte. A morte, na Idade Média, é representada como um esqueleto tocando rabeca. Mas o personagem só poderia se encontrar com a morte tocando violoncelo, por se parecer demais com a voz humana.

ÉPOCA - A morte tornou-se tabu nos dias de hoje?
Saramago - Sim. Hoje as pessoas querem evitar o assunto e esconder as mortes que acontecem a sua volta. É como se o mundo fosse um hotel onde os mortos costumam desaparecer na calada da noite, sem que nenhum ä hóspede possa notar sua presença. Embora os filmes e a televisão abordem a morte, não tocam no ponto fundamental da finitude. As mortes são falsas, os mocinhos levam tiros e voltam a viver. É outra forma de tratar a morte como irreal. No passado, ela era vista com maior drama. Talvez as pessoas exagerassem, mas sabiam conviver com a tragédia.

ÉPOCA - O senhor faz no livro uma descrição apocalíptica do planeta, com seus recursos naturais esgotados. O mundo está condenado à destruição?
Saramago - O planeta está sofrendo um saque de seus recursos materiais. Como não temos outra despensa do que a própria Terra, essa exploração tende a esgotar nossas reservas naturais. O homem se encarrega de destruir a si próprio. E veja o caso da Amazônia, com uma seca assombrosa e a devastação das árvores. Essa floresta é essencial para a saúde da humanidade, é o pulmão do mundo, e já perdeu 17% de todo o seu território. Daqui a pouco, caso o governo não tome medidas efetivas, a Amazônia deixará simplesmente de existir. E esse é um assunto do Brasil, de ninguém mais. O Brasil tem uma responsabilidade mundial nesse caso.

ÉPOCA - Por falar em Brasil, o senhor apoiou o governo Lula no início. Qual a sua opinião hoje?
Saramago - Prefiro não falar nisso, vamos esperar para ver no que dá. Mas é brutal. O desgaste que o governo Lula sofreu é muito forte. Depois de tantas esperanças, não imaginávamos que escândalos de corrupção tomassem o governo Lula, que representava uma luz nova para um mundo cada vez mais mergulhado em interesses mesquinhos. Ele não poderia ter admitido a corrupção, e não consegue mais combatê-la. Vamos aguardar as investigações.

ÉPOCA - O senhor acha que Lula ajudou a projetar o Brasil?
Saramago - No começo, sim. Mas, na situação atual, Lula está amarrado: sua liberdade de ação é limitada. Ora, esse fato é muito sério para o Brasil, que tem um regime presidencialista. Lula está de pés e mãos atados e parece que não vai mais conseguir fazer as grandes medidas que prometeu no plano social. Foi uma decepção para o mundo.

ÉPOCA - Na nova ordem mundial, e não apenas no Brasil, a esquerda está vivendo uma crise ética. O senhor ainda crê nela?
Saramago - A esquerda atravessa um deserto e não consegue chegar a um oásis. Ela tem se fragmentado por toda parte. Em países como a Argentina, os partidos de esquerda perderam toda a representatividade no Congresso. Em Portugal, apóio a candidatura de Mário Soares (do Partido Socialista Português). Pode ser que não seja um milagre, um novo Sebastião, mas pode fazer alguma coisa pelo país, a reboque dos interesses do capital econômico.

ÉPOCA - O senhor continua a professar o comunismo?
Saramago - Claro! Acredito que a única maneira de resolver os problemas da humanidade está na distribuição de renda e na igualdade entre as pessoas. Curiosamente, hoje você pode dizer que seu vizinho é comunista ou eu posso afirmar que sou um comunista. Mas ninguém se declara capitalista. Capitalistas são eles lá, os chefes das grandes corporações, os donos do dinheiro.

ÉPOCA - O senhor acha que o mundo hoje se reduz a um império mundial liderado pelos Estados Unidos?
Saramago - Agora vivemos o império do petróleo e do dinheiro - o resto é disfarce. Até mesmo George W. Bush está submetido aos desígnios do Grande Capital. Ele governa para as grandes corporações. O capitalismo neoliberal não passa do governo dos grandes conglomerados econômicos.

ÉPOCA - As guerras assimétricas atuais, empreendidas pelos Estados Unidos, revelam um choque de civilizações entre Ocidente e Oriente?
Saramago - Depende. A Arábia Saudita, aliada dos EUA e maior produtora de petróleo, possui um regime fundamentalista. Foi o petróleo que moveu a invasão do Iraque. Existe, sim, um conflito religioso entre o cristianismo e o Islã, que só seria resolvido com um acordo comum entre os dois blocos. Afinal, se Deus existe, ele é só um. Para que brigar?

ÉPOCA - Bento XVI teria algum papel nesse pacto?
Saramago - Não acho que ele terá qualquer atuação no sentido conciliatório. Mesmo João Paulo II não estava preparado para isso, nem interessado.

ÉPOCA - Por que no romance Ensaio sobre a Lucidez o senhor critica o regime democrático?
Saramago - Porque o fato é um só: a democracia funciona apenas no plano institucional, na organização e derrubada de governos pelo voto. Na prática, quem manda são organismos como a Organização Mundial do Comércio e o FMI, que não são eleitos democraticamente, são instituições imperiais. Na falsa democracia mundial, o cidadão está à deriva, sem a oportunidade de intervir politicamente e mudar o mundo. Atualmente somos seres impotentes diante de instituições democráticas das quais não conseguimos nem chegar perto.

ÉPOCA - Pelo jeito, o senhor continua sendo pessimista.
Saramago - Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo. Como podemos ser otimistas diante de um planeta onde as pessoas vivem tão mal, a natureza está sendo destruída e o império dominante é o do dinheiro?"

"Memorial do Convento" e o seu momento inicial e decisivo...

“A Passarola” do Memorial do Convento

Via página da Fundação José Saramago
"Num dos seus romances mais conhecidos, José Saramago imagina uma máquina que voa movida por vontades. Quando escrevia Memorial do Convento, o escritor fez um esboço desse engenho, baseado na invenção de Bartolomeu de Gusmão. O desenho pode ser visto na exposição permanente patente no primeiro andar da Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, em Lisboa."

Imagem alusiva à construção do Convento de Mafra

O momento inicial e decisivo... 

"Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha."

em Memorial do Convento
Caminho, 20.ª edição
Página 14

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

"Uma conversa com José Saramago" - Folhas de Cibrão - Pedro Casteleiro e Antom Malde entrevistaram José Saramago (1990)

"Em 1990, Pedro Casteleiro e Antom Malde entrevistaram José Saramago para Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica, com motivo duma estadia do escritor na Galiza. A entrevista saíu publicada no número II, Maio 1990, pp. 9-26."

(Estatueta agora presente na sede da Fundação José Saramago)


Link para consulta da entrevista e demais informação,
em http://www.udc.gal/dep/lx/cac/sopirrait/sr067.htm

"Uma conversa com José Saramago"

FOLHAS DE CIBRÃO: Onde nasceu você, não só para a vida como pessoa, mas também para a vida literária?

JOSÉ SARAMAGO: Bom, onde nasci como pessoa é o mais fácil de dizer, e se diz que nasci em Novembro de 1922, dia 16, embora a certidão de nascimento diga que nasci no 18, mas não é verdade, nasci no 16, numa aldeia do distrito de Santarém, numa aldeia chamada Azinhaga. Eu vivi ali pouco tempo, os meus pais viajaram para Lisboa.

Portanto eu saí da minha aldeia aos dez anos. Desde então eu vivo em Lisboa, embora até aos meus dezasseis-dezassete anos tivesse alternado entre uma vida em Lisboa e a vida lá na aldeia, porque todas as férias ia passá-las lá, durante a Páscoa, Natal, etc... De forma que continuei muito ligado às coisas do campo e dos trabalhos agrícolas até muito tarde.

Desde então é que realmente a vida mudou. Quanto à altura que se pode dizer que nasci para escritor... O que se pode dizer é que meus pais não eram ricos; ao contrário, eram bastante pobres e claro, meu pai sabia ler, sabia escrever, sabia contar, e minha mãe era analfabeta e ficou analfabeta até ao fim. Isto significava que a vida cultural na minha casa era nula, não havia livros. Eu lembro que o primeiro livro que tive, aos doze anos, deu-mo minha mãe porque eu lho pedira e depois, mais tarde, lembro também de ter estado lendo uma vez, e como na casa não havia livros, e eu gostava de ler, a minha mãe andava por casa das vizinhas a pedir livros.

E bom, pela altura dos meus dezasseis-dezassete anos, à conta disso, comecei a frequentar muito as bibliotecas públicas de leitura nocturna e foi aí que eu fiz a minha, por assim dizer, a minha aprendizagem literária no sentido de leitor, daquele que quer ler, o que quer saber o que é que se escreveu. Desordenadamente, claro, porque não tinha quem me orientasse, por isso fiz leituras que não devia ter feito; e quando digo que não as devia ter feito era porque não as entendia, estavam fora das minhas possibilidades de compreensão. E claro, depois chega a adolescência e como todos os adolescentes, começa-se a escrever os versos naquela altura eram sonetos. Enfim, disso claro que não resta nada porque essas coisas ou se racham ou se perdem. Mas eu creio que teria os meus dezoito anos e lembro-me que estando um dias com os amigos que tinha da minha idade, aquele jogo que se faz: Então, que é o que tu gostarias de ser um dia? E eu, sem saber muito bem porquê, disse: AAh, eu gostaria de ser escritor!

A verdade é que aos vinte e poucos anos comecei a escrever um romance que veio ser publicado depois em Março do quarenta e sete tinha eu vinte e cinco anos. Foi publicado até!

E depois passei vinte anos, não sem escrever, mas sem publicar. Ia escrevendo algumas coisas, uns contos, coisas assim...

Portanto, a minha vida literária propriamente dita com consistência e continuidade começa em 1966 quando já tinha quarenta e quatro anos, na altura em que já não se fazem as coisas, ou se tinham que ser feitas, já são feitas. O problema muitas vezes é dizer que nunca é tarde para fazer qualquer coisa. Desde o quarenta e quatro até agora Bem vinte e dois anos, estão escritos dezoito ou dezanove livros. Enfim, que enquanto se está vivo...

Eu lembro que havia um filósofo não lembro quem que dizia que se aos quarenta anos não se tinha elaborado um sistema filosófico, já não se elaboraria nunca.

Bom, eu não sei se isso é verdade quanto à filosofia; quanto à literatura, pode não se ter elaborado nada e pode-se a partir dos quarenta e quatro anos fazer aquilo que podia ser feito ao longo de uma vida inteira. Repito, eu de filosofia não sei nada...

Talvez os argumentos de muitos romances posteriores tinha-os pensado antes?

Não, não, ninguém tem argumentos aos dezoito anos para os realizar aos cinquenta. Cada coisa vem ao seu tempo.

Bom, existir, existem; eu penso que a gente aos vinte anos tem argumentos para realizar, ainda que nunca os realizam.

Sim, ou então dá-se que depois compreende que esses argumentos eram apenas ilusórios, e quando chegam à altura de fazer-se já são outra coisa, e quando olhamos para aquilo que temos pensado atrás, da ideia aquela que eu tinha e o que realmente foi realizado há muito tempo...

Qual é a obra sua que considera você que tem maior valor literário e qual considera que tem um maior valor sentimental?

Bom, sobre o valor literário os autores nunca são bons para dar uma resposta. Normalmente fugimos à questão dizendo que a melhor é a última, que é para dar a ideia aos outros que se escreve cada vez melhor o que não é verdade, claro. E a última agora nem sequer é a última publicada, porque vai ser publicado um outro romance. Aquilo que eu posso dizer... É muito difícil, porque a fim de contas são livros diferentes. Cada livro abre e fecha qualquer coisa, eu não escrevo sempre o mesmo livro, no sentido de ter um tema só, que se vai repetindo, que se vai muitas vezes aprofundando, como acontece com alguns autores que têm um tema determinado e que eles vão explorando e explorando e explorando...

Mas não é assim que as coisas passam comigo. Há um livro, fecha esse livro, e é como uma porta; abro uma porta, fechou a porta, e agora abro outra porta, e entro noutra sala. Então, é difícil comparar livros que são diferentes uns dos outros para perceber qual é realmente o melhor. Mas como de qualquer jeito tenho que dar uma resposta, o livro ao que sentimentalmente me sinto mais ligado talvez seja o Levantado do chão, porque é o livro que começa esta fase da minha vida de escritor, esta última fase. E é o livro que tenha sentido talvez mais dentro de mim pelas circunstâncias. Não só pelo próprio tema, porque de uma certa maneira, embora noutra região, recuperei o mundo da minha infância, da adolescência, dos camponeses e tudo isto, como também pela proximidade que estava, à altura que eu estive no Alentejo para recolher materiais, no 25 de Abril, no 25 de Novembro e tudo isso. Portanto a questão do latifúndio no Alentejo, a luta dos trabalhadores... Fiquei muito, no plano sentimental, muito ligado a esse livro.

Depois, o livro que eu talvez estime num certo plano de mais substância, e até aquilo que me deu mais trabalho, será O ano da morte de Ricardo Reis. Claro, isto não significa que coincida com as opiniões gerais, porque há pessoas que dizem : O Memorial do convento é que é; outras dizem: Não, não, é a Jangada de pedra... Enfim, como vocês fizeram a pergunta, eu tinha que dar uma resposta.

Por exemplo, a obra que você gostaria de escrever, uma obra que seria como vértice de toda a sua produção, tem-na pensado?

Não sei, isso, isso é difícil. Claro que neste momento tenho dois ou três..., em rigor tenho dois projectos, dois livros, que um deles quero começar espero dentro de poucas semanas, poucas semanas ou poucos meses, que será aquele que pudera ser, mas que de qualquer jeito não creio que se apresente como o vértice. De todos jeitos, nunca sabemos o que é o vértice de uma obra, não é necessariamente a última. Basta lembrar, enfim, o caso de Tolstoi, cuja obra cume é Guerra e paz, e depois de Guerra e paz escreveu tanta coisa. Apenas sei que tenho dois ou três temas, uns mais claros que os outros... E o livro que eu vou começar a escrever é também um romance claro que é, e que é neste momento o meu campo de trabalho. Já tem título, porque normalmente os meus livros têm sempre título; ainda não está escrita uma linha e já tem título.

E não muda nunca?

Não, não... Normalmente a primeira regra que eu tenho para um livro já traz o título. É um livro que se chamará O Evangelho segundo Jesus Cristo. Como sabem, Jesus Cristo não escreveu a sua vida, que se saiba. Então há um Evangelho segundo S. Marcos, S. Mateus, S. Lucas, S. João, mas testemunhos autobiográficos não existem. De maneira que é o projecto que eu tenho há tempo para intentar.

Poderia falar-nos da sua obra escrita e ainda sem publicar?

Não, não, disso não falo nada... Não, disso não direi nada. E por uma razão simples; esse livro chama-se História do cerco de Lisboa. Se tivesse havido apenas um cerco em Lisboa, já se sabia evidentemente qual era... Simplesmente, é que houve dois. E eu não quero dizer qual, porque a partir do momento em que se saiba, as pessoas começam a falar...

E claro, não vem com o vosso caso, porque... Quando é que sai a revista?

A revista sai em Maio.

Em Maio... Ora bem, como o livro será publicado em Lisboa em Abril, em 20 de Abril... Se vocês me prometem que reservam a informação...

Sim, sim, prometido.

Bom, não é que tenha muita importância, não tem muita importância, só que o autor tem os seus caprichos...

Bom, nós asseguramos-lhe que esperamos a que se publique a obra...

Bom, isso está perfeitamente claro. O livro é lançado em Lisboa no dia 20 de Abril... Já tem data marcada e tudo. Então, houve realmente dois cercos, até houve três, mas um deles, enfim, que não teve nenhuma importância. Houve um cerco em 1147, quando o primeiro rei português conquistou Lisboa aos mouros com o auxílio de uns corsários que passavam por Lisboa, e tudo o demais... Enfim, um cerco que durou quatro ou cinco meses... E depois houve um outro cerco em 1383, quando os castelhanos Bessa sombra negra da nossa história, da nossa vida, enfim invadiram Portugal, cercaram Lisboa e depois acabaram por ter que se ir embora sem conquistar Lisboa. Portanto, a história do cerco de Lisboa, qual delas é? Então, eu direi que é a de 1147.

Normalmente os meus amigos próximos é que o sabem. Outras pessoas com quem tenho relação de amizade, mas não costumo fazer confidências, apostam que é o de 1383...

Conhece você um relato breve de Eça de Queiroz que está incluído em O Conde de Abranhos chamado A Catástrofe, no que emprega justamente esse termo que você acaba de empregar quando a sentinela passa uma e outra vez: a sombra negra...?

Ah, olha, é natural que sim porque, aliás, lembro que li esse texto... Mas havia uns anos. Sombra negra, é realmente uma sombra negra e foi-o durante séculos.

Você sabe que há um poema de Rosália de Castro que nuns versos diz:

Fum a Castela por pão
e saramagos me derom,
derom-me fel por bebida,
peninhas por alimento.

Sim, o saramago é uma planta que nos tempos da minha infância e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crises, digamos, comiam saramagos.

E o saramago é um alcume de família. Eu fui o primeiro Saramago da família, porque o empregado do registo civil, quando meu pai foi dizer: Nasceu um rapaz! Como é que o rapaz se chama? E ele diz: O seu nome é José de Sousa, pois Sousa era o nome da minha família paterna, e foi ele o que acrescentou, pela sua conta e risco, Saramago.

E ninguém se apercebeu disso até à altura em que eu fui para a escola, e então foi preciso tirar documentos e meu pai ficou a saber que tinha um filho que tinha um nome que não era o dele. E tem graça, porque meu pai, julgo eu isto é o que penso hoje, como ele tinha deixado a aldeia e tinha ido para a cidade, então de uma certa maneira ele não gostava da alcunha de Saramago. E lembro e eu tenho recordação disso a pesares de tantos anos terem passado que meu pai reagiu, não ficou satisfeito com a ideia de que o seu filho... Mas foi obrigado a fazer um registo adicional, porque então não se compreendia como é que de um Sousa tinha saído um Saramago. Então ele teve de fazer um registo adicional para ficar com o nome que o filho tinha.

Como conjuga você, ou como pensa você que se pode conjugar forma, conteúdo e compromisso social?

Essas são velhas questões que acho que no fundo não têm... Vamos lá ver, se começamos com a forma e o conteúdo, eu não separo a forma e o conteúdo. Acho que quaisquer tentativas para separar a forma do conteúdo são tentativas artificiais, são inúteis, perde-se o tempo e às vezes as pessoas zangam-se umas com as outras nessas questões entre a forma e o conteúdo. Porque se é verdade que não há uma forma em si, a forma é forma porque é forma do conteúdo, e assim como não há um conteúdo em si, porque o conteúdo necessita de uma forma. O que é um conteúdo sem uma forma, o que é uma forma sem um conteúdo? Há uma contradição completa quando se opõem estes dois termos, está-se a apor o que isoladamente não existe: não há forma e não há conteúdo. Para que existam têm que estar juntas. E se se altera a forma o conteúdo altera-se também.

Porque vamos ver, se eu tivesse uma informação a dar, seja qual for, por exemplo: Está Sol, tem um conteúdo que é o de informação, tem uma forma que são as palavras que eu uso para dar essa informação, e agora aqui, como é que se vai separar uma coisa da outra? Ora, se eu dizer doutra maneira, alterando a forma de o dizer, eu torno também diferente o próprio conteúdo, que já não é apenas o estar Sol, mas é todo um desenvolvimento afectivo, sentimento plástico, lírico se se quiser, tudo o que quiserem à volta desta ideia de estar o dia, como é um dia de sol, altera-se com o modo de nós dizermos, altera-se até com o próprio tom das palavras. Se eu dizer a alguém: Gosto de ti!, este gosto de ti pode ser dito de mil e uma maneiras, desde perceber a pessoa que a fim de contas eu não gosto nada dela, ou perceber até que de facto eu gosto muito dessa pessoa.

Quanto ao compromisso social, para mim está claro: se o escritor como pessoa tem um compromisso social, se o tem, passa à obra mais ou menos acentuadamente, apresenta-se de uma maneira mais directa ou não. Se esse autor tem compromisso social isso também se nota na obra, porque nós percebemos ao ler se esse senhor não quer saber nada.

Mas deve provocar-se a propósito na obra o compromisso social, quer dizer, eu vou fazer tal coisa, mas quero que nessa obra se note de que lado estou, ou se note que estou denunciando. Quer dizer, pode provocar-se, é lícito?

Eu acho que se pode provocar. O que me parece é que talvez não valha muito a pena. Eu penso que é preferível que essa expressão saia naturalmente e que não resulte de uma predeterminação...

O processo de chegar ao leitor é um processo de insinuação, quer dizer, temos que chegar insinuando. Não vale a pena entrar pelo leitor dentro e partir as portas e entrar por aí. Não, é um processo de insinuação, de captação.

Muitas vezes tem-se recorrido ao mito de chegar ao povo. Na Galiza, por exemplo, também com a língua. A língua na sua correcta ortografia, por assim dizê-lo, não chega ao povo, porque o povo está alfabetizado em castelhano. Dum ponto de vista literário pensa você que se pode chegar ao povo partindo dele, ou culturizando-o?

O problema é que chegar ao povo... O que é chegar ao povo? O que é o povo, e o modo como poderíamos chegar a ele, e a que povo iríamos chegando cada vez? Porque se eu escrevesse um livro menos complexo do que naturalmente faço, ainda que não faço livros difíceis por uma questão de querer fazer propositadamente um livro difícil, podem dizer: Não, você faz os livros muito complicados, o povo não entende! Bom, eu vou então, imaginemos, escrever um livro menos complexo. Inevitavelmente virão dizer: Bom, algumas pessoas já entenderam, mas você sabe que há ainda uma quantidade de pessoas que não entenderam. E eu torno a escrever outro livro, e vou conquistando... E logo se põe a questão de se essas pessoas compraram de facto o livro, e se tinham dinheiro para fazê-lo; e se tendo dinheiro para comprá-lo, entenderam efectivamente.

O problema não é ir ao povo, o problema é que a educação, a instrução, a cultura que o autor possa adquirir para si e com os quais escreve depois os seus livros, tem que estar ao alcance desse mesmo povo, para que eventualmente pessoas vindas desse mesmo povo também venham a escrever livros, e se não os escrevessem, que possam entendê-los. O problema não está em levar os livros ao povo; está em que cada um de nós tem de fazer da melhor maneira possível aquilo que sabe. O crime, o erro, é fazê-lo pior podendo-o fazer melhor.

E como isto se aplica a toda a gente? Verticalmente e horizontalmente, então, cada um de nós tem que ter as condições para poder fazer melhor aquilo que num certo momento, por falta de condições, ainda não pôde fazer. Não é o eu escrever uma história que pudesse ser entendida pela pessoa, que certamente mais abaixo está, que é um analfabeto, e que não valia apenas entregar livros, porque não podia lê-los, e ao que eu teria que contar oralmente a história que queria contar.

Mas este não é o caminho, o caminho é a alfabetização geral, a cultura ao alcance de todos, a cultura feita por todos como contribuição de cada um na sua área própria. E como há livros meus aos que há pessoas que não podem chegar, eu tenho que declarar, muito humildemente, que há livros que também não entendo, que também não estão ao meu alcance. Eu não posso dizer aos autores desses livros que escrevam os livros para que eu os entenda; o mal, o defeito, a carência, está em mim, não está neles. E se eu quiser realmente entendê-los, tenho que me esforçar, tenho que chegar lá.

Tem você algum contacto com a literatura feita na Galiza?

Não, quer dizer, a literatura feita na Galiza é para nós uma grande desconhecida. Se tiramos os nomes conhecidíssimos mas mesmo assim com altas e baixas a respeito da divulgação deles, se tiramos um Castelão, uma Rosália, um Cunqueiro, um Blanco-Amor e alguns poetas como Manuel-Maria... A regra é o grande desconhecimento. E é um desconhecimento que não sei como é que se pode resolver.

É muito fácil dizer: Temos que correr, ir por um lado, ir pelo outro... Isso é muito fácil dizer, mas como é que isso se faz é muito mais difícil, porque isso passa por uma coisa que se chama distribuição do livro, venda do livro, colocação do livro nas livrarias, interesse do público de um lado e doutro e isso já sabemos que está muito mal.

Claro que o problema é que em Portugal quando se fala da literatura dos nossos dias, o que nós vemos é a literatura espanhola. E não pensamos se é de Catalunha ou da Galiza ou de Andaluzia. É literatura que vem da Espanha. Há uma atitude involuntária reducionista que apaga as nacionalidades, que apaga as expressões literárias nacionais e que as reduz a uma linha única que é a Espanha. Pode acontecer que um autor galego, se for traduzido em Portugal, provavelmente dirão que é um autor galego; dirão que é um autor espanhol. E tudo isto acaba por confundir. Claro que, nalguns casos, quando são literaturas com expressão mais forte, relativamente mais forte em termos de divulgação, como é o caso da catalã...

Mas da Galiza é realmente difícil termos uma ideia clara do que aqui se passa. Certos jornais em Portugal dão alguns excertos, mas são tão poucos que melhor é dizer que é um ou dois. Dão, de facto, alguma atenção, mesmo assim bastante reduzida acerca do que é que se passa aqui. Mas eu acho que a culpa talvez seja vossa... Se vocês querem sair desta penumbra em que a Galiza vive porque a Galiza tem vivido em penumbra até do ponto de vista do resto da Espanha... Como é que não há-de viver em penumbra do ponto de vista de Portugal?

Mas isso é estranho teoricamente, porque nós não falamos a mesma língua que os espanhóis, mas sim a mesma língua que você?

É evidente, mas falta fazer não sei quê se me perguntarem, o que é que é preciso fazer para que tenhamos todos a consciência de que praticamente falamos a mesma língua, porque falamos a mesma língua, e por que é que então não...

É claro que do ponto de vista do poder central espanhol, qualquer aproximação entre a Galiza e Portugal, mesmo no plano linguístico, no plano cultural e tudo isto, eu acho que é vista com maus olhos. Madrid não gostaria que por cima do rio Minho se lancem todas as pontes possíveis e imagináveis, e que a Galiza seja uma espécie de prolongamento natural de Portugal... Mas também não vejo que tal e como as coisas estão, que Madrid... Eu não me apercebo de que haja acções do governo de Madrid no sentido de serem contrárias a isto, também não as há no sentido de favorecer...

Sim, têm talvez que jogar ao iberismo, têm que jogar ao europeísmo, têm que jogar com isso.

Não, olha, eu acho que a situação se pode modificar radicalmente...

Talvez no 92, que é a abertura das fronteiras na Europa...

Não, não, a Europa não. A Europa iria acabar com a Galiza, com as Astúrias... Não espero nada de bom da Europa. Aquilo que eu acho é que a situação pode modificar-se muito a partir do momento em que ache uma Espanha federativa, em que a Espanha não seria mais já esta coisa híbrida que não se sabe se é um país só, se é um conjunto de nacionalidades, e em que as autonomias se vão conquistando muito lentamente, e pouco a pouco. A solução para a Espanha é chegar à figura de uma federação. Então as relações entre Portugal e a Espanha deixariam de ser, como são, predominantemente relações bilaterais, entre Estado e Estado, para se tornarem relações multilaterais, relação entre Portugal e Catalunha, entre Portugal e Andaluzia, entre Portugal e a Galiza. Neste processo, sobretudo do ponto de vista cultural, neste processo circular em tudo comunica com tudo, então penso que a situação aí se modificará.

Agora também, com tudo isto, além de passar pelo marketing, passa também por uma vontade política. A questão que se põe é esta, é saber que é o que a autonomia galega pensa... (bom, quando digo a autonomia galega, digo os seus representantes políticos superiores), o que é que pensam de uma aproximação com Portugal. Embora por outro lado, eu acho que se devia reflectir sobre coisas tão significativas como esta:

Há alguns anos eu estava em Madrid, entrei numa livraria e havia um livro de Castelão. Comprei o livro de Castelão, cheguei ao hotel, abri o livro, olhei-no e comecei a ler... E disse: que é o que estou lendo...? Estava lendo uma tradução espanhola, uma tradução castelhana do galego, da língua galega que o Castelão tinha usado. E então interroguei-me... Como é que é possível isto? Então é que a Espanha precisa certa Espanha, a Espanha castelhana, precisa de traduzir um livro de Castelão para que...

Ora bem, entre Portugal e a Galiza isso não é necessário; um livro de Castelão pode ser lido, embora não seja lido por qualquer pessoa, mas mesmo assim há a dificuldade de entrar numa língua, que sendo a mesma, não a escrevem igual...

Bom, para nós..., quer dizer, se eu tomo um livro de Castelão há muitas coisas que não entendo, porque são dialectalismos...

Pois são questões de dialectalismos, são questões de regionalismos muito estreitos, e isto está bem. Isso também acontece comigo, por exemplo, se leio um livro de Aquilino Ribeiro, algumas vezes tenho que ir a um dicionário muito bom, muito rico, para encontrar lá termos que ele usou.

Mas de facto acontece isto que é extraordinário: chegar aqui um escritor de Portugal para fazer um colóquio, tem trezentas pessoas que o recebem e o ouvem... Mas à inversa não se daria. Se fosse um escritor galego a Lisboa, isso não aconteceria. Iriam não sei quantas, mas muito poucas pessoas. Quer dizer, nós não vos vemos a vocês. A Espanha, a ideia da Espanha está antes. Antes de que nós consigamos ver à Galiza temos que ver antes à Espanha, que se levanta ocultando a Galiza. E isto, esta relação é que é preciso inverter. Não é esquecer ou apartar a Espanha, é tornar a Galiza mais visível.

Havia uma frase de Castelão quando na Segunda República Espanhola se falara tanto do iberismo e da futura confederação, e que não entenderam bem os castelhanos: Bom, falam vocês muito de iberismo e demais, mas esquecem que única chave para abrir Portugal é a Galiza.

Ora bem, nessa altura seria, mas agora não há chaves, há gazuas...., que se chamam a invasão económica dos espanhóis, a compra de empresas pelos espanhóis, e tudo isso. Mas isto não é nada que não tivesse acontecido já antes. Porque toda a gente se surpreende agora com a invasão dos espanhóis, mas ninguém se surpreendeu até agora com a invasão dos norte-americanos, que têm as empresas, que vendem Coca-Cola, que vendem camisetas com Universidade de Boston, e que são vestidas por pessoas que nunca irão à Universidade de Boston, e que nem sequer sabem onde é que fica Boston. Esse é sim um domínio, e a única coisa que temos que pedir nós próprios é capacidade para invadirmos nós a Espanha.

Há talvez um certo complexo de inferioridade em Portugal a respeito da Europa, e a respeito do mundo? Um complexo que para os galegos nos parece muito estranho, porque o argumento que nós temos sempre é Portugal.

Eu não diria exactamente um complexo de inferioridade. Cada um tem de ter consciência daquilo que vale, e nós temos consciência que somos um pequeno país; não vale a pena de entrar em delírios de megalomania. Nos séculos XV e XVI de facto Espanha e Portugal possuíam uma tecnologia que nenhum país da Europa tinha. E foi essa tecnologia a que nos permitiu termos uns barcos e irmos por aí fora. Eu não falo já de espírito de aventura, não tem que ver com isso; a tecnologia ninguém tinha, e nós a tínhamos e fomos. E agora não temos.

O que acontece é isto; enquanto a Espanha sempre teve, mais ou menos, uma ideias imperiais que ficaram do Império, a verdade é que para nós essa história do Império nunca teve um grande significado, nunca no povo português, e também não nas classes sociais mais altas se criou a ideia, nem nos intelectuais nem em nada disso, que nós tínhamos o Império. Então nós vivemos sempre na própria dimensão, conscientes da nossa debilidade, da nossa perspectiva, evidentemente, sabendo que militarmente não somos nada, sabendo que economicamente somos muito pouco, e não o chamaria complexo de inferioridade, mas consciência do que de facto somos.

Em relação à Espanha, enfim, são velhas histórias, são velhas histórias que assentam em preconceitos, evidentemente, mas também é verdade que até isto tem que ser entendido. Porque quando nós olhamos para o mapa da Espanha e está ali um, eu penso que os espanhóis não gostam de ver a Península Ibérica, não gostam de olhar para o mapa da Península Ibérica, porque de duas uma: ou a reproduzem inteira nos seus mapas, e então aquele bocado que está ali não é Espanha; ou então, como às vezes fazem, retiram Portugal de ali, e então a Espanha fica toda desarrumada... Há uma falta ali acima...

Temos que entender que a presença de Portugal aqui criou nos espanhóis ao longo do tempo uma certa instabilidade, que superou ou substituiu por um sentimento de indiferença: o que está ali não existe!

Portanto, para além dos conflitos que houver, os conflitos militares, os problemas dinásticos que evidentemente se resolvem, agora estamos em vias de não pensar mais nessas histórias de Aljubarrota, e Filipes e tudo isso. O que é necessário é que pelo nosso lado se perca esse sentimento de desconfiança em relação à Espanha, onde até nós temos um refrão que diz: De Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Eu tento de desmentir isso, porque é que estou casado com uma espanhola e, portanto, nós temos que perder esse sentimento de temor, esse sentimento histórico de temor... E a Espanha tem que perceber que dez milhões de pessoas aqui ao lado, com uma cultura e uma história, e uma identidade e uma personalidade próprias, têm que ser reconhecidas e respeitadas, e que se perca essa ideia de que o português é...

Você que tem como matéria prima de trabalho a Língua Portuguesa, que pensa do estado actual desta em toda a Lusofonia, e em concreto na Galiza e Portugal?

Bom, eu conheço mal a questão; sei que o problema aqui, a questão não é pacífica, isso já o sei. Que há lusistas muito determinados, há outros grupos que tendem, pelo contrário, para a continuação da castelhanização do galego...

Julgo que, ao contrário do que é acostumo dizer, nestes casos eu estou de acordo com o radicalismo. Porque uma atitude de meias tintas, de meias águas, acabará com certeza por prejudicar a própria identidade do galego, não já no que se refere apenas à língua, mas também à sua própria identidade cultural. E penso que essa tentativa de aproximação da norma portuguesa, que muitos defendem com muita força, pode não ser alcançável, quer dizer, pode até eventualmente não ser útil, completamente útil. Mas penso que os que defendem essa aproximação tão radical, aquilo que no fundo estão a fazer é a querer defender-se do castelhano. E a verdade é que o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português.

Então, essa atitude tão radical que em si mesma pode, e acredito que sim, criar tensões aqui na Galiza, polémicas entre gente que não se fala uns com os outros, que se começou uma guerra. Isso eu julgo que é legítimo, que é natural, e que é mesmo desejável. Porque é justamente, na medida que essa tensão em cada um esteja muito consciente, daquilo que defende e daquilo que quer, só daí é que poderá resultar um encontro para uma solução, que defenda o galego do castelhano.

Agora em toda a Lusofonia, não só na Galiza, está a haver uma luta com os acordos ortográficas, que vão para adiante, que não vão...

Tivemos aí há dois anos uma espécie de guerra santa em que se levantaram os puristas todos dizendo: Vamos perder o português! O português, nós é que falamos a língua, os outros não! Nós é que somos os proprietários da língua!... É um completo absurdo, ninguém é proprietário da língua, ou são proprietários de uma língua todos aqueles que a falam. E agora vai, de aqui a pouco tempo, vai ser apresentada outra proposta de acordo, que neste momento é muito mais consensuada, e julgo que não vai levantar nenhuns problemas mais, e vamos ter aquilo que é de facto necessário, e indispensável, uma norma única, embora sobre essa norma se articulem todas as pronúncias que são próprias de cada país. Cada país falará com o sotaque com o que fala, mas a norma escrita será igual para todos, com a grande vantagem de poder ser informatizado e poderem entrar no circuito internacional das línguas, e sabemos que os organismos internacionais... Uma coisa é uma língua que é falada por dez milhões de pessoas, ou escrita com uma certa norma por dez milhões de pessoa, que embora falando diferentemente usam uma norma escrita igual; a situação muda completamente.

Se você fizesse hoje uma outra viagem por Portugal, seria a mesma que a que você contemplou numas páginas anos atrás?

Não, e não seria a mesma porque provavelmente eu iria escolher um outro itinerário, não iria repetir. Eu cheguei, numa certa altura em debates sobre a história, e sobre a característica do romance histórico ou não, e eu apresentei como exemplo o caso desse livro. No fundo, viajar no espaço pode parecer-se muito com o viajar no tempo. Porque se eu viajasse no espaço, por exemplo, em Portugal, e depois fizesse outra viagem nesse mesmo espaço, tendo cuidado de não passar por nenhum dos lugares pelos que tinha passado antes, e escrevesse outro livro, e escrevesse um terceiro, e um quarto, e um quinto, e um sexto..., e um décimo livro, sempre com a mesma preocupação de não passar pelos lugares pelos que já tinha passado antes, no décimo livro estarei ainda a falar de Portugal, embora Portugal seja já irreconhecível naquele livro, e contudo ainda estou a falar de Portugal. E na viagem no tempo ou na história, pode passar-se exactamente da mesma maneira. Evitando os nomes dos reis e das batalhas e os tratados, e fazendo sucessivas viagens na história até ficar limitado ao essencial da vida quotidiana, já não se fala de batalhas e está-se a falar ainda da história e das gentes de Portugal."