Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 18 de abril de 2020

"A humanidade não merece a vida" José Saramago ao Folha de São Paulo - Brasil (29/11/2008)

Pode ser recuperado aqui


"JOSÉ SARAMAGO
A humanidade não merece a vida

Prêmio Nobel português se define como um "comunista hormonal" e afirma que os instintos servem melhor aos animais do que a razão aos homens

O ESCRITOR português José Saramago, 86, disse ontem que "a história da humanidade é um desastre" e que "nós não merecemos a vida". O autor, vencedor do Nobel de Literatura em 1998, participou de sabatina da Folha em celebração dos 50 anos da Ilustrada. O debate, assistido por 300 pessoas em um Teatro Folha lotado, teve como mediador o secretário de Redação do jornal Vaguinaldo Marinheiro. Participaram também, como entrevistadores, o crítico Luiz Costa Lima, a repórter da Ilustrada Sylvia Colombo e Manuel da Costa Pinto, colunista do caderno.

DA REPORTAGEM LOCAL

HUMANIDADE
A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar... Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.

MARXISMO HORMONAL
Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.

CRISE ATUAL
Marx nunca teve tanta razão quanto agora. O trabalho constrói, e a privação dele é uma espécie de trauma. Vamos ver o que acontece agora com os milhões de pessoas que vão ficar sem emprego. A chamada classe média acabou. Ou melhor: está em processo de desagregação. Falava-se em dois anos [para a recuperação da economia depois da crise financeira]; agora já se fala em três. Veremos se Marx tem ou não razão.

DEUS E BÍBLIA
Por que eu teria de mudar [a concepção de Deus após a doença]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos...

RELAÇÃO COM PORTUGAL
Espalham por aí idéias sobre minha relação com meu país que não estão corretas. Saímos [Saramago e sua mulher, Pilar] de Lisboa [para a ilha de Lanzarote] em conseqüência de uma atitude do governo, não do país nem da população. Mas do governo, que não permitiu que meu livro ["O Evangelho Segundo Jesus Cristo"] fosse inscrito num prêmio da União Européia. Nunca tive problemas com o meu país, mas com o governo, que depois não foi capaz de pedir desculpas. Nisso, os governos são todos iguais, dificilmente pedem desculpas. Fomos para lá e continuamos pagando impostos em Portugal. Agora temos duas casas. Mudei de bairro, porque o vizinho me incomodava. E o vizinho era o governo português.

ACORDO ORTOGRÁFICO
Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontecem que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o "ph", não consta que tenha havido uma revolução.

LITERATURA BRASILEIRA
Houve um tempo em que os autores brasileiros estavam presentes em Portugal, e em alguns casos podíamos dizer que conhecíamos tão bem a literatura brasileira quanto a portuguesa. Graciliano Ramos, Jorge Amado, os poetas, como João Cabral [de Melo Neto], Manuel Bandeira, essa gente era lida com paixão. Para nós, aquilo representava a voz do Brasil. Agora, que eu saiba, não há nenhum escritor brasileiro que seja lido com paixão em Portugal. Culpo a mim, talvez, por não ter a curiosidade. Mas também não temos a obrigação de descobrir aquilo que nem sabemos se existe.

LEITOR
O leitor me importa só depois que escrevi. Enquanto escrevo, não importa, porque não se escreve para um leitor específico. Há dois tempos, o tempo em que o autor não tinha leitores e o tempo em que tem. Mas a responsabilidade é igual, é com o trabalho que se faz. Agora, eu penso nos leitores quando recebo cartas extraordinárias. É um fenômeno recente. Ninguém escreveu a Camões, mas hoje há essa comunicação, essa ansiedade do leitor.

"Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir", disse alto, ao final da sabatina, uma integrante da platéia, enquanto Saramago terminava de falar."



Ilustração constante da obra "Alabardas" de José Saramago


Ilustração constante da obra "Alabardas" de José Saramago


Carta Universal de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos

Carta Universal de Deveres e Obrigações dos Seres Humanos

(...) "Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reinvindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor." (...)
José Saramago
#ContinuarSaramago



Palavras expressas por Saramago aquando da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura coincidindo com o 50.° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos


sexta-feira, 17 de abril de 2020

UnBTV Entrevista: Pilar del Río fala sobre o legado de José Saramago

Pode ser recuperado e visualizado aqui

Sinopse
"A jornalista e tradutora Pilar del Río fala do legado do escritor português José Saramago. Ela foi companheira dele e traduziu várias de suas obras para o espanhol."

Crónica de Pedro Ivo Carvalho (Evasões) "Lanzarote: o caminho das pedras e dos catos" (15/09/2019)

A presente crónica pode ser consultada e recuperada aqui
"Lanzarote: o caminho das pedras e dos catos"
Pedro Ivo Carvalho (Evasões)


"Não é necessária uma orquestra de cores para nos deixarmos enredar. Esta ilha vulcânica consegue ser monocórdica, mas não há, nessa leveza de caráter, qualquer assomo de vulgaridade ou enfado."

"Por mais ínfima que seja, há alguma possibilidade de nos deixarmos arrebatar pela aridez em estado puro? E por aridez entendam a mais completa secura de paisagem. Rocha, rocha, rocha. Sim, há. Pedras negras encavalitadas, formando um intrincado puzzle natural, tão desalinhadas na geometria que parecem ter vida própria. De certeza que foram parar lá sozinhas, só podem ter ido parar lá sozinhas, hospedadas que jazem numa cama definitiva e secular.

Os castanhos dão lugar aos cinzentos, há fases em que o dourado desponta, o vento que sopra de todos os quadrantes assobia de fininho ao nosso ouvido. O vento fala. “Não te distraias, não tentes segurar-me com as mãos”. O caminho das pedras é também o caminho dos catos. Pedras e catos. Catos e pedras. Numa sinfonia agreste sem palco. E sem bichos. Esperem. Minto.

Ali há, rezam as vozes autorizadas da ilha, uma réstia de vida. Um mosquito microscópico que só os apaixonados por mosquitos microscópicos distinguem nas gravuras dos livros de lombada generosa. Não há flores, não há lobos, nem gatos. Não há gaivotas. Mas há mar. Eu não vi o mosquito. Eu não consigo acreditar que ele se multiplique ali. Aquele vale bíblico não é cenário para romance.

Sigo. Garganta seca e olhos escancarados, sempre escancarados. Os vulcões forram a linha do horizonte e garantem a pequenez necessária à nossa condição de invasor. Qual é mesmo o nosso lugar? Verde escuro, castanho claro, negro cerrado. De uma ponta à outra do território duro, cavalgando a pacatez do alcatrão imaculado que rasga as bases das montanhas, podemos repousar, serenamente, sem trânsito, sem barulho. Catos e pedras. Se fecharmos os olhos, quase escutamos o bater de asas do mosquito microscópico. Já alguém o viu fora das lâminas do laboratório? Fujam da estrada, vem aí um carro.

Saramago entregou-se àquela ilha por alguma razão. 
Não quero acreditar que tenha sido apenas por uma, não saberia escolher apenas uma.

O norte. Juram-nos que o vinhedo é um espetáculo à parte. Que não nos deixará os olhos humedecidos como a imponência do adormecido Timanfaya, mas que a peculiaridade dos berços ovalizados amparados da ventania por pedras gastas confere à vinha um estatuto cosmético próximo do bonsai. Posso confirmar: filigrana licorosa, meus amigos.

Não é necessária uma orquestra de cores para nos deixarmos enredar. Lanzarote consegue ser monocórdica, mas não há, nessa leveza de caráter, qualquer assomo de vulgaridade ou enfado. As águas são cálidas, mesmo no oceano revolto, a areia brilha, mesmo quando escura. Saltitamos de estádio mental para estádio mental. A paz seria absoluta se não fossem as hordas de camionetas e de turistas italianos com a mesma projeção vocal de um vulcão zangado. Lemos o que havia para ler dele.

Saramago entregou-se àquela ilha por alguma razão. Não quero acreditar que tenha sido apenas por uma, não saberia escolher apenas uma. Lanzarote são pedras e catos, mas é, sobretudo, uma via-sacra que vai dar a um lugar melhor dentro de nós. Fica uma cicatriz enorme no corpo encolhido. Deem-nos luxúria, sinfonias, o Olimpo, até. Mas poucas imagens serão tão plenas na função de nos humanizar como a aspereza deste ancoradouro vulcânico. Catos e pedras. Pedras e catos. Flores."

Edição especial sobre a obra de José Saramago pela "Santa Barbara Portuguese Studies"

Foi publicado no Facebook na página da I Cátedra Internacional José Saramago noticia da futura publicação de um trabalho sobre a obra de José Saramago.
Será uma edição especial a sair nesta primavera pela Santa Barbara Portuguese Studies

Santa Barbara Portuguese Studies
Department of Spanish and Portuguese
University of California Santa Barbara
Santa Barbara, CA 93106-4150


Informação em detalhe e que vamos seguir com enorme atenção.

 O draft do primeiro artigo já pode ser consultado aqui

"A SUA JANGADA AINDA FLUTUA SOBRE AS ÁGUAS — HOMENAGEM A JOSÉ SARAMAGO DEZ ANOS APÓS A SUA MORTE"
editado por Burghard Baltrusch e Antía Monteagudo Alonso, e que reunirá os seguintes estudos:

A sua jangada ainda flutua sobre as águas. Revisitando José Saramago dez anos após a sua morte — com Sena e Sartre ao fundo
Burghard Baltrusch (Universidade de Vigo)

Deitado no chão. O romance Claraboia no contexto de uma pré-história literária de José Saramago
Luís Ricardo Duarte (Jornal de Letras, Artes e Ideias)

A língua do Poder segundo Saramago
Rosaria de Marco (Università degli Studi Suor Orsola Benincasa)

Los mil y un relatos politológicos de Saramago en su Balsa de piedra
Enrique José Varela Álvarez (Universidade de Vigo)

A Jangada de Pedra e a súa localización política
Celso Cancela (Universidade de Vigo)

A Jangada de Pedra como personagem: da consciência de si à construção de um modelo alternativo à sociedade capitalista
Ana Cláudia Henriques (Universidade de Aveiro)

Literatura, política e amor em Último Caderno de Lanzarote (O diário do Nobel)
Manuel Frias Martins (Universidade de Lisboa)

Caim, um herói da post-modernidade
José Vieira (Universidade de Coimbra)

A cidade en O Ano de 1993
Antía Monteagudo Alonso (Universidade de Vigo)

Monumentos e espaço ficcional: ficções e realidades em O Ano da Morte de Ricardo Reis
Mirielly Ferraça (Unicamp/Brasil)
Stanis David Lacowicz (UFPR/Brasil)

A construção do Eu em Todos os nomes: uma visão a partir da psicologia narrativa
Raquel Sabino (Universidade de Évora)

No início era a palavra: a força da narrativa saramaguiana na construção cinematográfica, a partir de O Homem Duplicado
Maria de Lourdes Pereira (Universitat de les Illes Balears)

La Passarola. Proyectos de Animación a partir de una representación y adaptación libre de los pasajes originales del texto de José Saramago, Memorial del convento
Sol Alonso Romera (coord.), Andrea Alonso Casado, Gels Caletrío, Sarah Espinosa, Yvonne M. López Gaus, Alba Velázquez García (Facultade de Belas Artes, Universidade de Vigo)

Presentación de proyecto. Resultados alcanzados en la realización de un cortometraje de animación, basado en el texto de José Saramago el Cuento de la Isla Desconocida (Conto da Ilha Desconhecida)
Sol Alonso Romera (Facultade de Belas Artes, Universidade de Vigo)

Planificación de la animación de Desquite 
José Chavete Rodríguez (Facultade de Belas Artes, Universidade de Vigo)



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Entrevista de Clara Ferreira Alves a José Saramago - Programa Falatório RTP2 (6/11/1997)


A primeira parte do programa pode ser recuperada e visualizada aqui

"Primeira parte da entrevista conduzida por Clara Ferreira Alves ao escritor José Saramago, sobre a sua vida pessoal e a sua escrita, a propósito do novo romance "Todos Os Nomes"."



A segunda parte do programa pode ser recuperada e visualizada aqui

"Segunda parte da entrevista conduzida por Clara Ferreira Alves ao escritor José Saramago, sobre a sua vida pessoal e a sua escrita, a propósito do novo romance "Todos Os Nomes"."

Nome do Programa: José Saramago
Nome da série: Falatório
Locais: Lisboa
Personalidades: Clara Ferreira Alves, José Saramago
Temas: Artes e Cultura, Sociedade
Canal: RTP 2
Menções de responsabilidade: Autoria: Clara Ferreira Alves Produção: Maria Otília Ribeiro e Nuno Figueira Realização: Leonilde Rodrigues

Recuperação de três entrevistas a José Saramago no programa "Roda Viva" (1992, 1998 e 2003 - Brasil)

Programa Roda Viva 1992
Pode ser recuperado e visualizado, aqui

Sinopse
"O Roda Viva recebeu, em 1992, o escritor português contemporâneo e também conhecido por sua incansável militância política, José Saramago. Ele veio visitar o Brasil, onde abriu o Congresso Internacional promovido pela Universidade de São Paulo, a USP, sobre o tema “América 92: raízes e trajetórias” e discutiu, neste programa, alguns assuntos como literatura e política, dentre outros. 
Participaram da bancada de entrevistados Luiz Antonio Giron, repórter do jornal Folha de S. Paulo; Hamilton dos Santos, editor do suplemento Cultura, do jornal O Estado de S. Paulo; Edla Van Steen, escritora; Gilberto Mansur, jornalista e escritor; Roberto Pompeu de Toledo, editor-especial da revista Veja; Fábio Lucas, crítico e professor da Universidade de Brasília; Ivan Ângelo, editor-executivo do Jornal da Tarde; e Jayme Martins, jornalista da TV Cultura. 
O programa não contém edição e foi ao ar em 1992."

«««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««

Programa Roda Viva - 26 de Outubro de 1998
Pode ser recuperado e visualizado, aqui

Sinopse
"O escritor português contemporâneo mais famoso no Brasil e no mundo é reconhecido também pela incansável militância política."

««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««««

Programa Roda Viva - 23 de Outubro de 2003
Pode ser recuperado e visualizado, aqui

Sinopse
"Saramago reúne em sua obra o pensamento social e humanista que o caracteriza não só como um dos mais reconhecidos romancistas da língua portuguesa, mas também como um dos pensadores mais críticos da globalização, da lógica do mercado e do individualismo que marcam  homem no mundo atual"

Faleceu Luis Sepúlveda, escritor chileno aos 70 anos





Através do site da Porto Editora é possível ter uma pequena biografia do falecido autor.
Pode ser consultada aqui

"BIOGRAFIA
Luis Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, a 4 de outubro de 1949 e morreu a 16 de abril de 2020 em Oviedo, Espanha. O seu pai era militante do Partido Comunista e proprietário de um restaurante. A mãe era enfermeira e tinha origens mapuche. Cresceu no bairro San Miguel de Santiago e estudou no Instituto Nacional, onde começou a escrever por influência de uma professora de História.
Aos 15 anos ingressou na Juventude Comunista do Chile, da qual foi expulso em 1968. Depois disso, militou no Exército de Libertação Nacional do Partido Socialista. Após os estudos secundários, ingressou na Escola de Teatro da Universidade de Chile, da qual chegou a ser diretor. Anos mais tarde, licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha.
Da sua vasta obra – toda ela traduzida em Portugal –, destacam-se os romances O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar. Mas todos os seus livros conquistaram em todo o mundo a admiração de milhões de leitores.
Em 2016, recebeu o Prémio Eduardo Lourenço – que visa galardoar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica –, uma honra de definiu como «uma emoção muito especial».
Para além de romancista, foi realizador, roteirista, jornalista e ativista político. Em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, Crónicas de Pedro Nadie, e também uma bolsa de estudo de cinco anos na Universidade Lomonosov de Moscovo. No entanto, só ficaria cinco meses na capital soviética, uma vez que foi expulso da universidade por “atentado à moral proletária”. Membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, teve de abandonar o país após o golpe militar de Augusto Pinochet. Viajou e trabalhou no Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, participando numa missão de estudo da UNESCO. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, que lutava contra a ditadura de Anastácio Somoza. Depois da vitória da revolução sandinista, trabalhou como repórter.
Em 1982 rumou a Hamburgo, movido pela sua paixão pela literatura alemã. Nos 14 anos em que lá viveu, alinhou no movimento ecologista e, enquanto correspondente da Greenpeace, atravessou os mares do mundo, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez. Nesta cidade fundou e dirigiu o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos com os seus homólogos europeus.
Luís Sepúlveda vendeu mais de 18 milhões de exemplares em todo o mundo e as suas obras estão traduzidas em mais de 60 idiomas."


A Fundação José Saramago através das suas várias plataformas de comunicação, divulgou o fax de José Saramago dirigido a Luis Sepúlveda, então à data tratando de assuntos relacionados com ataques que era alvo. Ficou a mensagem de solidariedade. 



quarta-feira, 15 de abril de 2020

"O despertar da palavra" por Horácio Costa na revista Cult (Brasil 14.11.1998)

O presente trabalho pode ser recuperado e consultado aqui
em https://revistacult.uol.com.br/home/o-despertar-da-palavra/




A entrevista que segue teve lugar em fevereiro passado, em Madri. O Instituto do México, na Espanha, organizou, no primeiro trimestre deste ano, um ciclo de conferências: Portugal desde México. A diretora do Instituto, Luz del Amo, que tivera a idéia de organizar o ciclo algo inédito, ou pelo menos pouco usual no mundo hispânico, onde via de regra Portugal, ainda mais do que o Brasil, sofre de uma espécie singular de obnubilação programada , tinha-me pedido que convidasse Saramago; ele aceitou, sem cobrar cachê. Pediu para ficar no mesmo hotel de sempre (o Suécia), a trezentos metros do Prado. Não é o primeiro favor que me faz e espero que não seja o último. Já anteriormente me brindara com muitas informações e respondera às muitíssimas questões que lhe apresentei, enquanto escrevia minha tese para Yale, José Saramago, o período formativo. A presente entrevista, portanto, não é, latu sensu, a primeira que me deu.

Há catorze anos, quando completei trinta, recebi de presente de minha amiga e ex-professora Renina Katz, uma leitora inveterada, o romance Memorial do convento. O entusiasmo com o qual Renina me recomendou a leitura, uma vez feita e já de volta aos Estados Unidos, transferi para Emir Rodríguez-Monegal. Naqueles meses, eu andava atrás de um tema de tese; numa tarde do verão de 1985, a caminho do teatro em Hartford, pude conversar longamente sobre Saramago com Emir, que recentemente estivera com ele durante um congresso de escritores, e que seria o meu orientador, se tudo desse certo (não deu: a Monegal sobravam poucos meses de vida).

Por meu lado, perguntava-lhe como era o homem em pessoa; pelo seu, e muito menos afoitamente, Emir me interrogava sobre a radicação de Saramago na literatura portuguesa contemporânea. Não é necessário dizer que ele soube responder às minhas perguntas, traçando-me o perfil de um cavalheiro lusitano de humor mordente, de viés irônico, que Emir comparava ao de Borges, a quem tinha conhecido tão bem; entretanto, à medida que o crítico uruguaio aumentava em agudeza as suas questões, crescentemente eu me dava conta do pouquíssimo que sabia, e que de fato era então conhecido, sobre o autor português. Eu já me dedicara, em Yale, a pesquisar sobre esse escritor que me chegara às mãos sem nenhum antecedente; ainda que a Biblioteca Sterling seja uma das maiores e melhores do mundo, eu me decepcionara com o pouco que nela havia sobre Saramago.

O que tínhamos em mãos era apenas o Memorial. Portanto, qualquer consideração crítica que podíamos fazer se limitava ao tipo de escritura que Saramago nele adotava. Diante dela, e assumindo como base o realismo maravilhoso em versão hispano-americana, concluímos que a qualidade do imaginário de Saramago dele diferia em um ponto básico: estava prenhe de lirismo e escapava dos padrões de alegorização mais óbvios e tão freqüentes neste. Havia pontos evidentes de contato para começar, o fascínio pelo barroco, que na narração reverberava temática e linguisticamente , mas o tônus geral do relato não apontava para as terras americanas.

Anos mais tarde, em Portugal, pesquisando sobre o Memorial, terminei por assegurar-me disto: se muito da postura de um Carpentier ou de um García Márquez se fazia notar (principalmente, no nível do anedótico, na pesquisa de fontes da época e por aí), a base era diferente. A velha cultura portuguesa, às vezes excepcional quando representada por um Fernão Lopes, um Camões ou um Vieira , mas frequentemente marginal à Europa dos grandes debates, ainda que muitas vezes ironizada pelo escritor, se impunha com uma clareza meridiana. Aí estava, e está, o quid de Saramago. Não só de estilemas individualizadores vive um grande escritor: nunca é demais lembrá-lo, ele ou ela via de regra (há exceções) pisam o terreno conhecido que lhe dá a sua própria cultura, a sua própria língua. Naquela tarde, disse a Emir que eu pesquisaria mais sobre o romancista e que, em função do que encontrasse, talvez escolhesse a sua obra como objeto da minha tese de doutorado. À época, muito pouca gente entendeu que eu escolhesse Saramago, então um escritor com alguma bagagem (o melhor viria depois), e menos ainda que me dedicasse a sua obra menor. Optei por estudar o período de formação do escritor por duas razões: primeiro, por jamais ter ele recebido atenção crítica (uma importante estudiosa italiana da literatura portuguesa não há muito me dizia que Saramago tinha nascido feito, assim como se um Gulliver qualquer); segundo, porque estudar um período não canonizável de um escritor em vias de canonização (agora já plena, depois do Nobel) pode colocar uma série de questões críticas de interesse, entre elas a de discutir como o cânone funciona para canonizar os seus eleitos, como a crítica procede para eleger os seus objetos de estudo.

Se Saramago, ao longo de suas décadas de experimentação ou deriva entre vários gêneros literários, apresentou uma notável distância, ou mesmo, defasagem, perante as estéticas dominantes à época no contexto português (apesar da dicção neorealista fundamental em sua produção política, afinada com uma vertente da poesia portuguesa dos anos 40 e 50 porém usada por ele vinte anos depois!), um discurso crítico que procurasse acercar essa obra de exceção (frente aos modismos, às oposições quase sempre conjunturais que caracterizam o processo literário) teria que, de alguma maneira, sê-lo também, abandonando as interpretações mais circunstanciais de análise. Ir até uma obra que se divide entre fraca e forte, ignorada e estudada (e in e out , boa e ruim), foi o que eu tentei, centrando sempre as minhas interpretações no sinuoso processo de trabalho de José Saramago, antes que em seu melhor resultado, aparentemente para sempre canonizado.

A entrevista que segue constantemente refere-se a essa injunção e a essa preferência crítica minha. Pensei que valesse a pena alertar o leitor sobre a razão das perguntas que nela fiz. Agora, definir o que possam as respostas a elas esclarecê-lo sobre a obra e o indivíduo José Saramago é coisa sua.

Horácio Costa – Eu queria que você dissesse o que ficou da experiência dos gêneros que você praticou ao longo de várias décadas crônica, poesia, ensaio, teatro antes da publicação do Manual de pintura e caligrafia. Por que você acha que demorou vinte anos para escrever um segundo romance? Há um primeiro, uma tentativa pouco madura nos anos 40, mas a sua primeira obra em prosa de ficção sólida é esse Manual.

José Saramago- Em primeiro lugar, quando se pergunta o que ficou de uma obra, que supostamente pertence a um tempo passado, pressupõe-se uma dúvida, se alguma coisa terá ficado. Porque, se não existisse essa dúvida, então a pergunta não teria sentido. Quando se começa a escrever muito jovem, corre-se o risco e, afinal, isso me aconteceu, porque aos 25 anos publiquei um romance. Romance que ficou por aí, que foi reeditado apenas em 1997 porque o editor achou que se o romance fazia 50 anos, desde a primeira publicação, tinha que ser novamente publicado e então temos uma edição nova de um romance que se chama, perdoem, Terra do pecado. Eu não tenho culpa de o romance ter esse título, a culpa é do editor. O romance se chamava A viúva. Um jovem de 25 anos, que era o que eu tinha, não sabia muito de pecados, e menos de viúvas… Mas eu percebi que não tinha tanta coisa para dizer, nada importante. E me calei, me calei por vinte anos praticamente.

Isso não é verdade, porque escrevi um outro romance que se chama Clarabóia, que permaneceu inédito e, esse sim, permanecerá inédito. Não o destruí porque não devo destruir as coisas que faço; se não posso destruir todas, por que vou destruir algumas? Se eu pudesse apagar todas as coisas ruins e agora não estou falando do livro, estou falando de coisas ruins que a gente faz na vida , eu as apagaria. Mas como Terra do pecado, apesar de tudo, não é a pior coisa que eu fiz na vida, então que fique aí; e Clarabóia ficará, mas com a condição de não ser publicado enquanto eu viver.

Até 1966, quando eu tinha 44 anos, não escrevi nada. Salvo no período imediatamente anterior a 1966, que foi quando escrevi um livro de poesia chamado Os poemas possíveis. E por que eu o escrevi? Bom, a resposta é sempre a mesma, ou quase sempre: porque me apaixonei. E eu já havia feito uns quantos sonetos e coisas assim no tempo que fazíamos sonetos, aos dezoito anos. Acho que os jovens de hoje já não sabem o que é escrever sonetos e as meninas não têm a felicidade de receber um soneto dos garotos. Isso acabou, que pena! Bom, então eu me apaixonei nessa época e daí saiu o livro. Confesso que, quatro anos depois, me apaixonei de novo e saiu outro livro de poemas que se chama. Provavelmente alegria. E então acabou-se a história de publicar pelo fato de me apaixonar [risos].

A partir de 1966, por circunstâncias da vida, me encontrei mais próximo do mundo literário porque trabalhava numa editora desde os anos 50 e durante quase 15 anos. Eu tive uma vida que não tinha nada a ver com a literatura. Eu fui várias coisas na vida: trabalhei numa oficina mecânica, fui desenhista, funcionário da saúde pública, depois não sei o quê, depois editor, e era assim. Então, eu não me preparei para ser escritor. Sou escritor por um acaso. E que acaso é esse? É que chegou um momento em que eu, além de me apaixonar e por isso pôr sobre a mesa livros de poesia, comecei a colaborar em jornais, escrevendo crônicas. De 1966 até 1977, houve onze anos de publicação: publiquei três livros de poesia e o terceiro não tem nada a ver com minhas paixões, crônicas, ensaios políticos, que no fundo eram editoriais de jornal, de um jornal que já não existe, chamado Diário de Notícias, e acho que tudo começa aí. Quando, em novembro de 1975, ocorreu a contra-revolução, o que se chamava o processo contra-revolucionário e talvez algumas pessoas não estejam de acordo com a qualificação ou com a classificação , eu fiquei na rua, sem emprego, sem salário, sem trabalho e sem possibilidade de encontrar outro facilmente, porque o jornal estava com a revolução.

Aí eu tomei a decisão definitiva da minha vida, que era a de não procurar trabalho, e me dizia: você tem sete ou oito livros escritos, que são dignos, sérios, honestos, mas por aí você não vai chegar a lugar nenhum. Se você está pensando na história da literatura, então, resigne-se a que digam (se disserem) que o senhor fulano nasceu nessa data, morreu numa outra, publicou alguns livros e ponto. Uma linha, duas linhas e nada mais. Não que eu aspirasse a um capítulo completo da história da literatura, não é isso. A decisão de não procurar trabalho era enfrentar essa idéia de que, talvez, eu seria um escritor, mas faltava uma prova, porque aqueles livros não eram na minha opinião suficientes para tal. Isso foi o que depois levou a toda essa série de livros, romances, obras de teatro, diários que caracterizam esses últimos 20 anos. Isso é o que me leva a dizer que eu sou um jovem escritor, que eu sou um velho escritor da nova geração porque a verdade é que eu estou escrevendo obras mais sólidas não há cinqüenta, mas há vinte anos; portanto, supondo que se começa, talvez, a escrever e publicar aos 20, 23 anos, então, agora, literariamente, eu não tenho mais do que 45 anos. Sou um menino… [risos]

O que ficou do que ficou para trás? Eu diria que ficou tudo. E ficou tudo em que sentido? Eu muitas vezes digo que se alguém quiser entender bem o que eu estou dizendo nos romances que estou escrevendo é preciso ir às crônicas que escrevi nos jornais e que estão em dois livros: Deste mundo e do outro e A bagagem do viajante. Quase todos os temas que estão agora nos romances, certos pontos de vista, visão de mundo, obsessões e preocupações de ordem não apenas literária, preocupações de ordem política, de ordem civil, tudo isso se encontra nesses pequenos textos publicados em jornais, e quem se interesse pelo que eu faço além dos romances que têm maior reputação, dos quais se fala, que saem na crítica, que estão nas livrarias e tudo isso tem que ir a esses pequenos textos porque eu mesmo, quando por algum motivo tenho que voltar a esses textos, me reencontro.

Nessas crônicas há muito de ficção, e sobretudo há o trabalho sobre a memória, a memória da infância, da adolescência, a memória dos adultos, dos avós, das coisas vistas e esse, se eu chegar a escrevê-lo, será o conteúdo de um livro que já tem título, mas que ainda não está escrito e que se chamará O livro das tentações. Já estou me antecipando, mas uma coisa chama a outra. É uma autobiografia minha. Eu sou tão vaidoso que inclusive vou escrever a minha biografia. Mas é uma autobiografia um pouco estranha, porque termina aos catorze anos de idade. O que eu quero fazer é isso, recordar o menino que eu fui. Tentar saber quem era esse menino. Porque a verdade é que nós pensamos que toda a nossa vida está aí para que nos tornemos adultos. E, quando somos adultos, nos comportamos como se olhássemos para nós como algo que saiu do estado de crisálida, imaginando que a infância e a primeira adolescência é a crisálida, e que depois da crisálida saiu o inseto adulto com todo o seu esplendor, as suas cores, com toda a sua beleza. Nos casos em que têm esplendor e que são belos, claro; há insetos que deveriam ter ficado na crisálida e não sair.

Eu não penso assim. Para dar-lhes uma ideia do que eu penso nesse sentido: não sei se o meu leitor percebeu que eu ponho sempre epígrafes; a epígrafe de Todos os nomes, para falar do último romance publicado, é Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens, é uma citação de um livro chamado Livro das evidências, que não existe, como em outro romance, História do cerco de Lisboa, há uma outra epígrafe que foi tirada do Livro dos conselhos, que também não existe. E isso é um pouco borgeano, e se isso continuar, não terei mais remédio do que escrever o Livro das evidências e o Livro dos conselhos. E, então, a epígrafe que terá o Livro das tentações e com isso, acho que terei explicado tudo o que tentei explicar até agora é a seguinte: Deixa-te levar pelo menino que foste. Porque, na verdade, de nada eu gostaria mais ou de poucas coisas eu gostaria tanto do que poder passear pela rua, não levando pela mão o menino que fui, mas sendo levado pela mão desse menino. Se eu pudesse recuperá-lo, tê-lo agora mesmo, quanto eu gostaria. Vocês podem pensar: mas que ideia estranha essa, você é ele e ele é você. Não, eu sou ele, mas ele não sou eu. Um deles não conhece o outro; e o fato de que um deles não conheça o outro me perturba. E por isso eu digo: deixa-te levar pelo menino que foste. Talvez o menino, supondo que os meninos não são maus alguns são péssimos, claro , fosse capaz de, na hora que vamos fazer uma coisa errada, de puxar pela nossa roupa e dizer: não faça isso.

Há uma continuidade de pensamento e inclusive uma continuidade de sensibilidade no que estou fazendo agora e que vêm dos textos mais antigos. Como os textos não nascem do nada, nascem de alguém que está vivendo, mesmo que não esteja escrevendo, então tudo é uma relação que vai pelo interior da vida e que une tudo a tudo. O que eu posso dizer, claro, é que há algumas coisas que fiz antes e que, se eu as fizesse agora, tentaria fazê-las melhor. Mas não se trata aqui de mais qualidade literária ou de menos qualidade literária, trata-se do que se está dizendo aqui.

A forma como se desenvolve sua carreira é bastante atípica, especialmente em relação ao que cada vez mais acontece no mundo literário, afetado por uma série de problemas externos, a questão do mercado, os prêmios literários etc… Num texto crítico dos anos 60, parte das suas colaborações para a Seara Nova, você escreveu: A literatura não é uma carreira. Aquele momento era especialmente significativo, porque então você era conhecido em Portugal como poeta. Você estava publicando o seu segundo livro de poesia, ou prestes a publicá-lo, e entrava na literatura ou na vida cultural lisboeta por meio da atividade poética. E você começa a escrever essas notas críticas numa publicação importante da literatura portuguesa contemporânea, a Seara Nova. Então, eu gostaria de que você desenvolvesse essa ideia de autor, naquele momento biologicamente já não muito jovem, nos anos 60, que tem consciência de que a literatura não é uma carreira; e como você vê isso agora, não só com relação ao mundo contemporâneo, mas também à luz da sua produção posterior.

Quando me convidaram para fazer crítica nessa revista, eu só havia publicado esse livro de poesia chamado Os poemas possíveis. Inclusive impus uma condição, a de que não faria crítica de livros de poesia. Porque me parecia que isso não teria muito sentido para mim, um jovem poeta, com apenas um livro, e que não era Rimbaud nem Fernando Pessoa. Pode-se perguntar: você não quis fazer crítica sobre livro de poesia, mas estava disposto a fazer sobre romances? Sim, do ponto de vista do leitor, como se eu fosse um leitor, já que no fundo o crítico é um leitor. No entanto, é um leitor que tem o direito de publicar a sua opinião. Essa é, suponho, a diferença mais visível que há entre um e outro.

E é verdade que numa dessas críticas eu escrevi que a literatura não é uma carreira. Depois de 30 anos, e com tudo o que aconteceu na minha vida, parece que há uma contradição entre a minha vida e essa afirmação, porque eu vivo do que escrevo. Mas não tenho os tipos de obrigações de um trabalho, não tenho ações, não tenho bens, não tenho nada senão o que pode ser posto sobre a mesa, o que escrevo. Eu nunca me lancei a isso que chamamos uma carreira de escritor. Entendo que uma pessoa se lance a uma carreira de advogado, médico, engenheiro ou algo parecido porque isso significa que se preparou para exercer uma atividade profissional e, portanto, está nisso e vai trabalhar nisso. Os médicos precisam de doentes, mas estão certos de que doentes sempre existirão, não? E, portanto, estão certos de que podem abrir o seu consultório para recebê-los. Esses, sim, podem falar de uma carreira.

De repente, amanhã pode ser que eu não tenha nenhuma ideia para um livro e se isso acontecer eu deixarei de escrever. E o fato de que eu esteja vivendo da literatura, porque é verdade, não significa que eu não escreva nada de que eu necessite escrever como homem. Isto é, eu não posso viver sendo duas pessoas em uma a pessoa corrente e normal, que, afinal, sou, e uma entidade, um pouco estranha, que se chama escritor. Esses dois não vivem lado a lado, são um apenas, estão fundidos um no outro. E se o homem não tem nada para dizer como homem, também não terá nada para dizer como escritor. Se isso acontecer, e eu já disse isso, me calarei. E poderia ter acontecido de eu me calar depois do Memorial do convento, do Ano da morte de Ricardo Reis, da História do cerco de Lisboa, ou do Evangelho segundo Jesus Cristo. Poderia não ter tido mais nenhuma ideia, e fim. E é verdade que, cada vez que eu termino um romance, não tenho nenhuma outra ideia e fico esperando para ver o que acontece. Pode levar um mês, dois, três, seis meses, até me ocorrer uma ideia. Eu acho que os que me leem perceberam que os meus livros não se repetem. Eles percebem que o autor é este pela forma de narrar, pelas preocupações que expressa, mas cada livro contém alguma coisa que aí se acaba. E isso tudo é o contrário do que se necessitaria para uma carreira. Para uma carreira, o conveniente seria explorar os filões encontrados para que ela pudesse se desenvolver, não? Mas eu fico assim, sem enredo, esperando para ver o que acontece.

Você disse que não teve uma educação formal em literatura, que foi um leitor. Mas eu lhe peço que comente a importância que tiveram a atividade crítica que você exerceu e a atividade de tradutor nesse período de formação, de autoaprendizagem.

É preciso dizer algo que ainda não foi dito e que deve ser considerado. Se eu, aos 20 e poucos anos, escrevi um romance, foi porque alguma coisa eu tinha lido. E tinha lido muitíssimo. Onde? Nas bibliotecas públicas. Entre 16 e 22 anos, eu fui um leitor noturno, porque tinha que trabalhar de dia, ia a uma biblioteca pública de uma cidade pequena e lia tudo o que encontrava. Às vezes, não entendia nada, ou quase nada, de alguns livros que lia; não tinha ninguém que me dissesse: esse agora não convém, é melhor que você leia esse outro. Mas, de qualquer modo, com todos disparates, erros e incompreensões, creio que pude ler uma gama bastante ampla de autores. Eu diria que Terra do pecado, por um lado, funcionou como uma sedimentação de leituras; pode-se dizer que não há nada de original ali, mas, se não somos Rimbaud, o que entendemos por original aos 20 e poucos anos?

Você pergunta se o fato de fazer traduções influiu em alguma coisa. Não, em nada, nada, nada… É muito diferente sentar-se para traduzir uma obra pelo desejo de traduzi-la, por vontade própria e, então, desfrutar do trabalho de tradução, buscando as funções mais adequadas e tudo isso… Mas eu não traduzi por gosto, por prazer; eu traduzi para ganhar a vida e traduzi de tudo: livros de política, de economia, de arte, romances, coisas tontas como uns livros de um senhor chamado Jivkov, que era búlgaro, secretário-geral do Partido Comunista da Bulgária e ao mesmo tempo presidente, e eu tive que traduzir coisas dessas. Com isso não aprendi nada. Mas claro que há outro tipo de aprendizagem. Quando tive que traduzir Bonnard, aprendi muito. Mas não aprendi a escrever e acho que quem tem que traduzir nas mesmas condições e circunstâncias que eu corre o risco de ter a sua escrita prejudicada pela variedade de estilos, de modos de narrar dos diferentes autores que tem que traduzir.

Então, posso dizer que não aprendi nada. Agora, acho que aprendi a escrever porque li muito. Sempre li muito, desde menino, desde adolescente, ia à biblioteca pública para ler, para ler e nada mais, e no dia seguinte tinha que me levantar cedíssimo para ir à oficina onde estava trabalhando. Não estou idealizando a minha vida, não estou fazendo romantismo barato e falso, estou falando de fatos e nada mais; sem cair na tentação de exagerar para uma vida extraordinária, senão o contrário. Eu comecei por esse romance, depois a poesia, depois a crônica, depois fiz um pouco de teatro. Mas o teatro não foi por uma iniciativa minha. Eu tenho quatro obras de teatro, todas elas foram representadas, e aparentemente eu poderia dizer: sou dramaturgo. Não, não sou, eu não me vejo como dramaturgo. Romancista, sim; mas depois de todas essas experiências e de tudo isso. Mas talvez o romancista que sou deva algo a uma circunstância que a que ver com uma obra da qual não se fala muito, e é uma pena que não se fale muito dela, que é esse romance que publiquei em 1980 e que se chama Levantado do chão. Em 1975, como disse, fiquei sem trabalho. Em 1976, eu estava no Alentejo, no sul de Portugal. Eu venho de uma família de camponeses pobres, sem terra, do norte de Lisboa, a uns 100 km, mais precisamente do nordeste; e, nessas alturas, quando eu estava com essas dúvida o que vou fazer da minha vida? escrevo, não escrevo? como? o quê? para quem? e com que meios? , veio-me a ideia de escrever algo sobre a minha gente avós, pais , que viveu no campo nas condições que os mais velhos aqui podem imaginar, se viveram no campo há 40, 50, 60, 70, 100 anos: saberão o que é isso. E eu soube, não muito profundamente, mas, de qualquer forma, soube. O estranho é que eu deveria ir diretamente aos meus lugares, à minha cidade, e ficar ali, mas, talvez porque eu conhecesse muito bem tudo isso, não queria escrever sobre isso. Então, fui ao Alentejo em 1976 e fiquei lá dois meses, falando com as pessoas, indo ao campo onde trabalhavam, comendo com eles, dormindo com eles. E voltei, depois, por mais algumas semanas. Portanto, juntei um quantidade de idéias, informações, histórias e tudo isso. E esse livro foi escrito em 1979 e publicado em 1980. Quer dizer, foram precisos três anos para que eu pudesse escrever esse romance.

Na verdade, durante esse tempo escrevi um livro de relatos curtos, Objeto quase, e publiquei o Manual de pintura e caligrafia. Portanto, estive fazendo algumas coisas. Mas não estava fazendo o que tinha de fazer agora sei disso, mas naquela época eu não sabia. Porque eu não sabia de uma coisa, muito mais importante do que às vezes se imagina: eu tinha uma história para contar, a história dessa gente, de três gerações de uma família de camponeses do Alentejo, com tudo: a fome, o desemprego, o latifúndio, a polícia, a igreja, tudo. Mas me faltava alguma coisa, me faltava saber como contar isso. Então eu descobri que o como tem tanta importância quanto o quê. Não se pode contar como se não há o que contar, mas pode acontecer de você ter o que e ficar paralisado porque não tem o como. O tema que eu tinha estava claríssimo, era um romance neo-realista, bastavam camponeses, fome, desemprego, luta, tudo isso. E modelos do romance neo-realista português, nós os temos, e grandes romances. Portanto, o molde eu já tinha e só precisava colocar nele a minha própria matéria e, então, já teria o romance. Mas, não, algo dentro de mim dizia: não, não e não; enquanto você não encontrar a sua própria forma, não poderá escrever. Claro que isso eu estou dizendo agora, com certeza vocês não estarão imaginando que naquela época eu conversasse dessa forma comigo mesmo: não, eu não conversava. Mas eu tinha uma barreira que me impedia de ir adiante. Quando eu voltava ao Alentejo e encontrava os amigos que eu tinha feito lá, gente de uma qualidade humana impressionante, eles me perguntavam: e o romance, quando você vai publicá-lo? Eu dizia: é que estou ocupado agora com outros assuntos e tal. Não, na verdade eu estava em pânico [risos]. Em pânico porque eu não tinha o como. Até que, em desespero de causa, pensei: isso não pode ficar assim e tenho de começar a escrever esse romance e comecei a escrevê-lo como um romance normalzinho. E quando eu digo romance normalzinho, e há grandíssimos romances normaizinhos, não estou dizendo nada contra, ao contrário: surpreende-me que numa forma quase canônica possam ser escritos romances magníficos, sem rupturas… Claro que há outros romances magníficos que o são por vários motivos, entre eles porque romperam com convenções e com tudo isso. E comecei a escrever com cada coisa no seu lugar: roteiro e tal… Mas eu não estava gostando nada do que estava fazendo.

Então, o que aconteceu? Na altura da página 24, 25, estava indo bem e por isso eu não estava gostando. E sem perceber, sem parar para pensar, comecei a escrever como todos os meus leitores hoje sabem que eu escrevo: sem pontuação. Sem nenhuma, sem essa parafernália de todos os sinais, de todos os sinais que vamos pondo aí. O que aconteceu? Não sei explicar. Ou, então, tenho uma explicação: se eu estivesse escrevendo um romance urbano, um romance com um tema qualquer de Lisboa, com personagens de Lisboa, isso não aconteceria. E tenho certeza de que hoje estaria escrevendo esses romances como todo mundo talvez bons, talvez não tão bons, mas estaria acatando respeitosamente toda a convenção do que se chama escritura. Mas alguma coisa aconteceu aí: eu havia estado com essa gente, ouvindo, escutando-os, estavam contando-me as suas vidas, o que tinha acontecido com eles. Então, eu acho que isso aconteceu porque, sem que eu percebesse, é como se, na hora de escrever, eu subitamente me encontrasse no lugar deles, só que agora narrando a eles o que eles me haviam narrado. Eu estava devolvendo pelo mesmo processo, pela oralidade, o que, pela oralidade, eu havia recebido deles. A minha maneira tão peculiar de narrar, se tiver uma raiz, penso que está aqui. Não estou certo de que seja a única, mas com certeza, essa conta. Quando esse romance foi publicado em Portugal, houve um reboliço porque as pessoas não entendiam nada, inclusive um amigo meu me chamou para dizer: olha, eu sou seu amigo, mas a verdade é que leio três páginas e me perco, eu não entendo o que você diz. E eu disse: você tem em casa um corredor comprido, não? Pois então, acenda a luz à noite e comece a andar de um lado para o outro no corredor, lendo em voz alta. Se você ler em voz alta, vai ver o que acontece. Da mesma forma que, quando nos comunicamos oralmente, não necessitamos nem de travessões, nem de pontinhos, nem nada do que parece necessário usar quando escrevemos, pois então, você, como leitor, colocará aí, não o que falta, porque não falta nada… A palavra

terça-feira, 14 de abril de 2020

Programa "Falatório" do Canal 2 da RTP - 12/12/1996

Disponível através do site da RTP em duas partes

"Primeira parte do programa apresentado por Clara Ferreira Alves, sobre escritores e literatura, os romances e as adaptações para cinema, teatro ou ópera, com a participação dos seguintes convidados: Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Luísa Costa Gomes e Miguel Esteves Cardoso."









Nome do Programa: Escritores
Nome da série: Falatório
Locais: Lisboa
Personalidades: Clara Ferreira Alves, Agustina Bessa-Luís, José Saramago, Luísa Costa Gomes, Miguel Esteves Cardoso
Temas: Artes e Cultura, Sociedade
Canal: RTP 2
Menções de responsabilidade:
Autoria: Clara Ferreira Alves e Nuno Artur Silva Produção: Maria Otília Ribeiro Realização: Carlos Barradas

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Manchete do DN - 12 de Abril de 1975

Pode ser recuperado e consultado via site do DN, aqui
em https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-abr-2020/o-pacto-mfa-partidos-12060280.html

"Aconteceu em 1975 - O pacto MFA-partidos
PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE estiveram em Belém 
para assinar o acordo que abriria o "verão quente".

Edição de 12 de Abril de 1975

"No Palácio de Belém é assinada a Plataforma de Acordo Constitucional, mais conhecida por pacto MFA-partidos. O Presidente da República, Costa Gomes, falou perante os dirigentes dos maiores partidos - PS, PPD, PCP, CDS, FSP e MDP/CDE -, que compareceram à cerimónia. "Largos estratos do nosso povo não sentiram ainda a força criadora do uso das liberdades democráticas", é a frase do Presidente que a direção do DN - Luís de Barros e José Saramago - escolheu para a manchete do dia 12.

O objetivo do pacto foi o de "estabelecer uma plataforma política comum, que possibilite a continuação da revolução política, económica e social iniciada em 25 de abril de 1974, dentro do pluralismo político e da via socializante que permita levar a cabo, em liberdade, mas sem lutas partidárias estéreis e desagregadoras, um projeto comum de reconstrução nacional".

O documento previa um "período de transição" de três a cinco anos, durante o qual o Conselho da Revolução e a Assembleia do MFA se manteriam como órgãos de soberania. Caber-lhes-ia defender as "conquistas legitimamente obtidas ao longo do processo, bem como os desenvolvimentos ao programa impostos pela dinâmica revolucionária que, aberta e irreversivelmente, empenhou o País na via original para um Socialismo Português".

sexta-feira, 10 de abril de 2020

José Saramago no programa do Jô Soares



Nunca é demais recordar a entrevista de José Saramago no programa de Jô Soares. Isto por altura do lançamento de A Caverna, pela Companhia das Letras no Brasil


Pode ser recuperado e visualizado via YouTube, aqui

terça-feira, 7 de abril de 2020

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

O presente trabalho pode ser consultado e acompanhado aqui

"Saramago: a personagem como mestre" do Professor Carlos Reis 
publicado no seu blog "Figuras da Ficção" (04/04/2020)

"O “material socialmente tido por histórico” a que alude o narrador d’A viagem do elefante projeta-se sobretudo em personagens – e José Saramago, com licença pela banalidade da afirmação, foi um grande criador de personagens. Menos evidente, mas também irrefutável: no universo ficcional saramaguiano convivem personagens de natureza, de configuração e de condição muito diversas. Na multidão de figuras que povoam aquele universo distingo, então, figuras provindas da História, outras com origem mítico-bíblica, personagens sem referência extraficcional conhecida (ou nativas na ficção), animais diversos (sobretudo cães) e mesmo, pelo menos, uma personagem alegórica stricto sensu (a morte n’As intermitências da morte).

Foto: Pedro Soares

Inevitavelmente, José Saramago problematizou a personagem, a sua génese e a sua relação com o romancista que as criou e com alguns dos narradores que falam delas. Primeira abordagem: a personagem sai da cabeça do escritor: “Nenhuma personagem minha é inspirada por pessoas reais. Em caso nenhum” (C. Reis, Diálogos com José Saramago, p. 137). A firmeza da asserção dá que pensar, sobretudo quando temos presente a longa tradição de construção mimética da personagem, em especial no romance de costumes oitocentista e numa subcategoria – presente na ficção de Saramago, para que conste – a que chamamos tipo social. O vigor daquelas palavras obriga o escritor a recuar: afinal, há personagens com origem na vida real (Marcenda foi vista num restaurante, confessa Saramago; cf. Diálogos com José Saramago, p. 138) e outras (D. João V, por exemplo) vêm da História.

Outra coisa e mais pertinente, a meu ver, é atribuir à personagem uma dinâmica própria: “As minhas personagens nascem em cada momento, são impelidas pela necessidade e não são cópias, não são versões” (Diálogos com José Saramago, p. 138), declara José Saramago. Daqui à questão da autonomia e da sobrevida da personagem vai uma linha que não é reta, mas que lá conduz. Uma etapa desse trajeto cumpre-se na História do cerco de Lisboa, quando Maria Sara questiona Raimundo Silva acerca das “pessoas de livro” que o revisor de imprensa está a compor, sem saber ainda se elas são personagens, na plena aceção do termo: “Quem é esta Ouroana, este Mogueime quem é, estavam os nomes, e pouco mais, como sabíamos. Raimundo Silva deu dois passos breves na direção da mesa, parou, Ainda não sei bem, disse, e calou-se, afinal deveria ter adivinhado, as primeiras palavras de Maria Sara teriam de ser para indagar quem eles eram, estes, aqueles, outros quaisquer, em suma, nós. Maria Sara pareceu contentar-se com a resposta, tinha experiência suficiente de leitora para saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram, mesmo assim não tudo, e pouquíssimo do que virão a ser (História do cerco de Lisboa, ed. Caminho, pp. 263-264).

Não é, evidentemente, de José Saramago a voz que aqui escutamos, nem mesmo a do narrador por ele instituído. E contudo, do diálogo entre o escritor incipiente e em aprendizagem (Raimundo Silva, claro) e a sua leitora de circunstância emerge um princípio de doutrina: o escritor não sabe tudo sobre as suas personagens e o futuro que elas hão de viver é incerto. Um futuro que se desenrola dentro e fora da ficção (ou durante e depois dela, se se preferir), porque a personagem pode sobreviver ao ficcionista, de modo às vezes bem singular.

Curiosamente, colocando-se perante esta questão, José Saramago resiste, mas depois transige. Resiste a aceitar a autonomia da personagem, mas acaba por reconhecer a sua capacidade de autodeterminação. De forma mais explícita: por um lado, “as personagens não são autónomas” (Diálogos com José Saramago, p. 140), mas por outro lado reconhece-se o dinamismo das figuras que interagem com a história e com quem a rege: “É a história que necessita que aquela personagem se determine desta ou daquela forma” (ibid. p. 140). Se Maria Sara estava certa, ao “saber que o autor só conhece das personagens o que elas foram”, então posso bem dizer que as conclusões a que chegou dão razão ao título de um dos discursos de Estocolmo: “De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz.”

(Extrato de “José Saramago e a poética da narrativa: uma ordem por decifrar”, in Teresa Cerdeira  et alii (org.), E agora, José(s)? José Saramago e José Cardoso Pires 20 anos depois. Belo Horizonte: Moinhos, 2019, pp. 20-22)."


segunda-feira, 6 de abril de 2020

Revista Blimunda #92 Fevereiro de 2020 "Entrevista a José Saramago por Ernesto Sampaio - Diário de Lisboa / Março de 1980

Publicado na edição #92 de Fevereiro 2020
"José Saramago e o Alentejo: Um livro “levantado do chão”
Entrevista por Ernesto Sampaio"


A edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-92-fevereiro-de-2020/

Levantado do chão, assim se chama o último livro de José Saramago, recentemente lançado pela Editorial Caminho. «Do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira» — explica o autor, que também nos diz que «um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando o terminasse: Isto é o Alentejo». José Saramago, escritor, poeta, jornalista: aí o temos na nossa frente, simples, claro, frontal, para quem escrever é aproximar-se da vida, evocar-lhe as suas altas situações, e para quem a literatura é sempre conhecimento, transformação, libertação.

Diário de Lisboa — O seu livro baseia-se na história de vida de três gerações de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo. Como nasceu essa ideia?
Se o 25 de Novembro não fosse o padrasto que é, eu diria que este livro tem no 25 de Novembro a sua paternidade. A situação em que então me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir, pôs diante de mim a grande questão: que é que eu vou fazer? Claro que a exigência imediata era o estômago e a conservação do tecto. Deitei mão ao costumado recurso dos intelectuais desempregados: a tradução. Fique dito, de passagem, que até hoje já lá vão cerca de dez mil páginas traduzidas. Mas você falava do livro, perguntava como me veio a ideia... Se o pai é o 25 de Novembro, a mãe é o acaso. O meu primeiro movimento, isto no que toca a perspectivas de produção literária, tinha sido transportar-me para as terras ribatejanas onde nasci, levar a traduçãozinho em estaleiro (por sinal um volumoso tratado de psicologia) e tentar o livro campestre que eu andava a sentir necessidade de escrever. Motivos vários impediram a realização do projecto por aquelas bandas. Além disso, parecia-me errado ir cometer uma espécie de regresso ao ovo natal. Foi então que me ocorreu o contacto que estabelecera, em meados de 1975, com a UCP «Boa Esperança», de Lavre, por causa de uma entrega de livros para a biblioteca que eles andavam a organizar. Escrevi, perguntei se podia ir, como seria isso de comer e dormir, e se havia lugar onde trabalhar, um espaço para a máquina de escrever. Eles responderam: «Venha». E eu fui. Estive em Lavre, da primeira vez, dois meses, depois, por intervalos, umas tantas semanas mais, e quando de lá voltei trazia cerca de duas centenas de páginas com notas, casos, histórias, também alguma História, imagens e imaginações, episódios trágicos e burlescos, ou apenas do quotidiano banal, acontecimentos diversos, enfim, a safra que é sempre possível recolher quando nos pomos a perguntar e nos dispomos a ouvir, sobretudo se não há pressa. Andei por Lavre, Montemor-o-Novo, Escoural, por lugares de gente e descampados, passei dias inteiros ao ar livre, sozinho ou acompanhado de amigos, conversei com novos e velhos, sempre na mesma cisma: perguntar e ouvir.

Quando um alentejano se decide a falar ninguém o cala
Por fim, já nem fazia perguntas. Quando um alentejano decide falar, ninguém o cala. Além disso, também há alentejanos que escrevem. Não serão muitos? Eu tive a sorte de encontrar um. Você pode imaginar o que é estar em conversa com um velho rural de 70 anos, digo eu, dizes tu, e de repente ele abre ali uma gaveta, tira uns poucos cadernos de papel almaço, escritos em letra garrafal e firme, creia que até os erros de ortografia eram firmes: «Está aqui a história da minha vida.» Foi isto que me aconteceu. Levei para ao meu buraco a história de João Domingos Serra contada pelo próprio, li-a nessa mesma noite, a tremer de comoção e frio (era Março), e quando acabei tinha, finalmente, a trave mestra do que viria a ser o Levantado do Chão. Aquela vida verdadeira era como uma fiada de pedras postas a atravessar a corrente torrencial de dados em que já me ia submergindo. Por cima de tal podia agora circular a minha vontade. Mas a vida, se reparamos bem, só é o que vidas forem. A esta de João Serra juntaram-se outras, a do Machado, do Abelha, do Badalinho, do Catarro, do Cabecinha,da Mariana Amália, a de outro João, o João Basuga, meu amigo do coração, e tantos, tantos mais. Quem lhes quiser conhecer os nomes, falo dos que mais perto estiveram de mim, encontra-os na dedicatória do livro. também lá estão os nomes de dois mortos. Não há inconvenientes. Estes vivos e estes mortos fazem boa companhia uns aos outros. Enfim, se eu não tivesse, num dia daquele ardente Verão de 1975, levado livros a Lavre, não existiria este livro. Um espírito malicioso e facilmente hábil dirá que não há certeza de se ter ganho alguma coisa com isso. Ouso crer que não se perdeu.

Estão aí muitos livros por escrever
Pelo menos uma certeza eu ganhei: a de que estão aí muitos livros por escrever, de Norte a Sul, à espera. Eu fui a Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, e escrevi um. Não inventei nada, claro está, ao viajar até ao Alentejo. O que eu fiz, outros o fizeram antes de mim, nesse e outros lugares. Honra lhes seja feita. O meu receio é que poucos estejam dispostos a fazê-lo agora, quando mais necessário é.

Levantado do chão fala de gente real, utiliza testemunhos vivos, mas não é propriamente jornalismo. É literatura de elevada expressão poética. Fala-me dos problemas formais que teve de enfrentar para transformar a vida, que é o suporta da sua narrativa, no objecto estético em que o livro acaba por se transformar.
Boa pergunta, já lhe disse que quando regressei de Lavre trazia comigo uma montanha de apontamentos, notas, registos vários, gravações, documentos. Bastaria arrumar um pouco, sistematizar um pouco, limpar o supérfluo, acrescentar o comentário, aliteratar onde fosse conveniente, afinar o tom. Porém, não foi assim. Quando decidi instalar-me em Lavre, não era essa a intenção que levava. O que eu queria era escrever um romance, não uma reportagem, por mais útil e exemplar que ela pudesse ser, como tantas que felizmente têm vindo a ser escritas, algumas delas excelentes materiais para futuras obras. Mas a decisão de escrever um romance também não era pacífica. Um romance, sim senhor, mas que romance? Modelos, se eu os quisesse tomar, não me faltavam, e ilustres. Muita gente escreveu sobre o Alentejo, alguns escreveram certo e bem. E ainda escrevem. Para mim, poderia ser fácil e fazer-me beneficiar de uma certa e bem humorada condescendência. Assentar os pés nas pegadas marcadas pelos colegas e já aprovadas pela critica, seguir o itinerário, deixar-me ir. Ficava a história contada, o livro rematado, a obrigação cumprida sem excessivos riscos. Também isso não quis fazer. Mas, se sabia claramente o que não queria, tive de esperar que viesse a mim o que fosse meu. Estive em Lavre em 1976, o livro aparece em 1980, quatro anos depois. É certo que entretanto concluí outro romance, escrevi um livro de contos e uma peça de teatro, mas essencialmente, o que eu estive foi à espera de que terminasse o trabalho de germinação que sabia estar a fazer-se. Posso garantir-lhe, com toda a simplicidade e sem disso me gabar, que não tive de resolver quaisquer problemas formais, no sentido que a palavra «resolver» contenha de esforço, tentativa, rectificação, ajuste, pesquisa. Limitei-me a ter paciência, a não forçar o tempo. O livro foi escrito, por assim dizer, em dois períodos: o primeiro de dois dias, para as quatro páginas iniciais; o segundo de alguns meses, para o resto. Entre esses dois períodos tão desiguais, decorreu muito tempo.

«Só poderia escrever o livro se o contasse» 
Até que um dia compreendi (foi uma coisa súbita de que mal tenho memória) que só poderia escrever o livro se o contasse, isto é, transformando-me eu me narrador multiplicado, de fora de dentro, próximo e distanciado, grave e irónico, terno e brutal, ingénuo e experiente, um narrador que ao dizer a realidade, e para a dizer, fosse capaz de a inventar em cada momento. Percebi que isto só poderia ser feito se reconstituísse a oralidade na escrita, se fizesse da escrita discurso no sentido próprio, mas rejeitando sem piedade qualquer tentação de transcrição fonética, que é a pior das armadilhas. Sacrifiquei sem nenhum remorso o pitoresco, a cor local, o folclore. Com isto tudo, não tive de empurrar nenhuma porta, foi ela que se abriu quando me aproximei pelo caminho certo. A partir daí foi fácil. Diria que escrevi este livro com espírito liberto, com a espontaneidade do narrador que se abandona à imaginação e às arcas da memória para tornar diferente as histórias que ouviu, por saber, ou ser sua pessoal convicção, que a diferença é justamente o melhor que a história contém, ou virá a conter, se alguma vez mais vier a ser contada, por mim, por você, pelo leitor. Quer saber como eu me imagino? Imagino-me a contar este «Levantado do Chão» a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando me apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados, alusões directas ou indirectas a casos marginais, questões de famílias, boas ou más vizinhanças, e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova, é maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar, contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.

Obra aberta

Aqui há anos falou-se muito em obra aberta. 
Hoje vai-se dizendo o mesmo, mas com outro vocabulário. Ora, eu, que sou partidário da obra conclusa, no sentido inteiro levado ao extremo (mas existirá tal obra?), descubro-me hoje a reivindicar para este «Levantado do Chão» um estatuto de obra aberta. Aberta ao leitor e também constantemente aberta pelo leitor, solicitado pelo próprio discurso ou decurso do texto a introduzir nele a sua própria memoria e a sua própria imaginação. Tanto mais que eu o preveni logo no princípio: «Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira». Aqui tem o que o autor pensa, não de problemas formais que não teve, mas de questões formais que crê serem suscitadas por este livro. Fico curioso de saber o que pensa a critica. E mais curioso ainda de saber o que pensam os leitores. Mas onde está a comunicação entre o escritor e o leitor?

DL — O que foi, é e será para si o Alentejo, o homem alentejano?
Do que o Alentejo foi, creio que o meu livro dará uma ideia. Do que ele é, também este livro saberá dizer alguma coisa. Por exemplo, a repressão violenta, que em nada se distingue dos tempo do fascismo: exprime o mesmo ódio ao trabalhador agrícola. Quanto ao que o Alentejo será, não tenho dúvidas. Será uma terra de mulheres e de homens donos da sua vida. Quando? Isso não se dizer. Mas sei que gostaria de ainda poder ver no nosso País a fraternidade de trabalhadores que encontrei junto dos meus amigos do Alentejo. O que ali está em gestação é, em sentido literal, um homem português novo.

E a reacção sabe-o. Sabe e teme. Por isso é que são os insultos, os vexames, as agressões e as mortes. É o mundo velho a querer estrangular o mundo novo. No meio de tudo isto, que vem fazer o meu livro?
Hoje é um testemunho. Amanhã, faço votos por que seja um simples artefacto arqueológico, fora de uso, ou, quando muito, e não será pouco, um registo para a memória colectiva. Há-de ser possível dizer um dia: «Pensarmos nós que a vida no Alentejo foi assim...». É claro que não posso deixar de exprimir, um outro voto, mais egoísta: que mesmo nessa altura, graças a algum valor literário que hoje tenha e então conserve, ainda o Levantado do Chão seja lido. 


Ilustrações Manuel Ribeiro de Paiva
(algumas das que constam na publicação)