Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Egas Moniz - um Nobel esquecido? - Saramago questiona

A propósito do ano (1973) em que se preparavam, pelas instituições da altura, as comemorações dos 100 anos do nascimento de Egas Moniz, José Saramago lança umas farpas direccionados ao aspecto festivaleiro da sociedade - "Está-nos na massa do sangue o vício da efeméride, corremos ansiosamente ao consolo lisonjeador da sessão solene, aperfeiçoamos todos os dias a técnica do descerramento de lápides..."
Este aspecto, o do folclore para inglês, poderá dizer-se assim mesmo, foi algo que sempre inquietava Saramago - os beberetes, as festas para aparecer na fotografia, a pompa e circunstância do momento que contrariava o natura apoio e reconhecimento fora das festanças.

Esta crónica, de 13 de Agosto de 1973, publicada no Diário de Lisboa com o titulo "A Propósito de Egas Moniz", é compilada no livro "Os Apontamentos - Crónicas Políticas".
Qual a razão do espanto?
Qual o motivo para a menção?

(...) Mas nós falámos em surpresa, e ainda por cima demo-la como legítima. Importa pois que nos expliquemos. Merecidas e justificadas serão todas as homenagens que venham a prestar-se ao homem de ciência que foi o professor Egas Moniz, nosso único prémio Nobel até esta data. Não é por aqui que a surpresa se introduz. (...)
Mas onde a surpresa se legitima é quando vemos que a ideia da homenagem vem, senão das mesmas pessoas, de instâncias que, em rigor, respondem no espírito e na substância, a uma anterior recusa displicente em reconhecer os méritos do futuro homenageado, em nome e por causa de divergências de ordem política. (...) 
  


Este, o motivo da estranheza, os mesmos que não toleram e impõem um regime de pensamento único político, são os que se preparam para lançar vivas ao prémio. Ao prémio, porque é sempre disso que se trata.
E continua...

(...) Não custa nada agora dizer que Egas Moniz foi um cidadão exemplar além do sábio que também era: como sábio amesquinhou-o a sua própria terra, e como cidadão não mereceram respeito as suas opções políticas. Mesmo hoje uma pergunta se justifica: merecerão mais respeito essas opções, ou simplesmente se «perdoam» elas a Egas Moniz graças ao lugar que ele ocupa na ciência mundial? E como considera o país aqueles filhos que não juntem as suas convicções democráticas à descoberta da leucotomia pré-frontal?... (fim de crónica) 



20 anos depois, agora com José Saramago, encontra-se um paralelo. 
Um directório de pensamento único, em tempos de suposta democracia, já na década de 90, vai mais longe do que o "marcelismo" afrontou Egas Moniz.
José Saramago, que levava Portugal e os portugueses a todos os cantos do mundo, traduzido em muitas línguas; o homem que deu a conhecer a história de amor entre Baltazar e Blimunda, num lugar chamado Mafra, era carimbado com o carimbo vermelho e o lápis azul da censura. 
A tristeza deste paralelo, tratando-se de não compreender/aceitar a obra e a opção livre e democrática no pensamento de cada um, mesmo quando é diferente do vulgo sistema, foi mais vincada e agressiva com José Saramago.
Aquando da sua morte, em Portugal (e só por cá) onde as honras de estado eram mais do que obrigatórias, seriam unificadoras em redor de um símbolo nacional, apresentaram-se patéticas. O sistema colocou tentacularmente os seus braços invisíveis, mas assas cirúrgicos, de fora. 
Este sistema, que se escudou sempre atrás de subsecretários de estado ou de meros serviçais, nunca perdoou a Saramago a sua palavra persistente e desassossegada; o seu reconhecimento pelo mundo fora; a inveja de um suposto sucesso; o alinhamento por um pensamento democrático que se queriam em desuso.
Este o paralelo encontrado por Saramago em 1973, tem a devida distância - de o ser não sendo. Em 1973, Saramago não lhe apeteceria pensar no Nobel, mas o tempo verificou esta causalidade de circunstâncias e semelhanças com Egas Moniz - também este um Nobel algo proscrito.

Agora, em 2014, Egas Moniz é nome de escolas, ruas, centros de enfermagem - mas não passa de simples menções. Portugal, e aquilo que é a sua arquitectura do pensamento, pretende esquecer estes patrimónios. Mais do que uma estátua no Hospital Santa Maria, a ideia de que somos portadores de 2 prémios Nobel não faz parte do compêndio.     



"Em 1992, o subsecretário da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu, justificando tal decisão dizendo que a obra não representava Portugal mas, antes, desunia o povo português. Em consequência do que considerou ser um acto de censura por parte do governo português, Saramago mudou-se em 1993 para Espanha, passando a viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias."



Egas Moniz, dados via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/António_Egas_Moniz

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz GCSE • GCB (Estarreja, Avanca, 29 de novembro de 1874 — Lisboa, 13 de dezembro de 1955) foi um médico, neurologista, investigador, professor, político e escritor português.
Foi galardoado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1949, partilhado com Walter Rudolf Hess.
Nascido António Caetano de Abreu Freire de Resende no seio de uma família aristocrata rural, a dos Viscondes de Baçar, seu tio e padrinho, o padre, Caetano de Pina Resende Abreu e Sá Freire, insistiria para que ao apelido (sobrenome) fosse adicionado Egas Moniz, em virtude de a família de Resende descender em linha directa de Egas Moniz, o aio de Dom Afonso Henriques.
O Aio Egas Moniz (1080-1146) antepassado do neurologista português, apareceu com sua família antes de o rei de Leão. Mosaico na estação São Bento (Porto), por Jorge Colaço (1864-1942)
Formação e actividade académica[editar | editar código-fonte]
Completou a instrução primária na Escola do Padre José Ramos, em Pardilhó, e o Curso Liceal no Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Louriçal do Campo, concelho de Castelo Branco. Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, onde começou por ser lente substituto, leccionando anatomia e fisiologia. Em 1911 foi transferido para a recém-criada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa onde foi ocupar a cátedra de neurologia como professor catedrático. Reformou-se em Fevereiro de 1944.
Em 1950 é fundado, no Hospital Júlio de Matos, o Centro de Estudos Egas Moniz, do qual é presidente. O Centro de Estudos é, em 1957 transferido para o serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria onde existe ainda hoje compreendendo, entre outros, o Museu Egas Moniz (onde se encontra uma restituição do seu gabinete de trabalho com as peças originais, vários manuscritos, entre outros).
Egas Moniz contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da medicina ao conseguir pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro. A Angiografia Cerebral, que descobriu após longas experiências com raios X, tornou possível localizar neoplasias, aneurismas, hemorragias e outras mal-formações no cérebro humano e abriu novos caminhos para a cirurgia cerebral.
As suas descobertas clínicas foram reconhecidas pelos grandes neurologistas da época, que admiravam a acuidade das suas análises e observações.
A 5 de Outubro de 1928 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência e a 3 de Março de 1945 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.1
Egas Moniz teve também papel activo na vida política. Foi fundador do Partido Republicano Centrista, dissidência do Partido Evolucionista; apoiou o breve regime de Sidónio Pais, durante o qual exerceu as funções de Embaixador de Portugal em Madrid (1917) e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1918); viu entretanto o seu partido fundir-se com o Partido Sidonista. Foi ainda um notável escritor e autor de uma notável obra literária, de onde se destacam as obras "A nossa casa" e "Confidências de um investigador científico".
Faleceu em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1955.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Saramago e a temática do "voto em branco" 22 de Abril de 1975 até 2004


Caminho
Os Apontamentos - Crónicas políticas
2.ª Edição - Abril 1990

O branco em discussão
22 de Abril de 1975

Este branco que se discute não é o vinho a que esse nome damos, nem é já (felizmente) o português que por terras coloniais andava como colonizador e opressor. O motivo da polémica que, em todos os tons, lavra de Norte a Sul do País é o denominado voto em branco. Dizem uns (di-lo também a Comissão Nacional de Eleições) que o voto em branco é a resposta cívica daqueles eleitores que, conscientes do seu dever de votar, estão igualmente conscientes de que o esclarecimento político colhido ao longo deste ano não foi, afinal, tão claro como todos desejaríamos. Replicam outros que aconselhar o voto em branco (naquele caso) é pouco menos que insultar o eleitor, e que os 365 dias decorridos foram bastantes e sobejantes para que um povo que nunca exerceu a política se transformasse em perspicaz aferidor destes nada menos que doze partidos concorrentes.
Se traçássemos um risco vertical na página e escrevêssemos de um lado e do outro, isto é, à esquerda e à direita, os partidos, grupos e movimentos que preconizam ou não o voto em branco para o eleitor indeciso, veríamos que, com pouquíssimas excepções, a distribuição se faria segundo (precisamente) a tradicional divisão entre direita e esquerda, englobando a primeira o centro, como na prática política é uso acontecer. Aliás, ao longo destas últimas semanas não houve quem não dissesse o que pensava sobre o assunto, com maior ou menor sobriedade e em alguns casos com tanta exaltação que faz pensar serem mais importantes, no  entendimento de alguns, os votos em branco do que os assinalados com a cruzinha recomendada.
Quanto a nós, toda esta questão assenta num equívoco propositado e que propositadamente se disfarça. Tudo se resume à contabilidade dos votos, à cegueira, à obsessão de querer ter mais votos do que o vizinho, parceiro ou inimigo, mesmo que isso se consiga à custa das angústias do eleitor inseguro, muitas centenas de milhares de vezes analfabeto, no interior da guarita e perante um papel impresso que é, para tanta gente, uma charada indecifrável. Em tudo se admite que uma pessoa interrogada responda «não sei», e isto é honesto e respeitável. Mas, quando se trata de votar, há quem pense que esta resposta não deveria ser permitida... Provavelmente, esse tão categórico cidadão ficaria indignado se, procurando orientar-se em lugar desconhecido, recebesse uma indicação de acaso da parte de alguém que não tivesse a coragem ou a simples honradez de dizer «não sei»... Não faltariam aí protestos contra a falta de civismo do mau encaminhador.
É preciso que fique esclarecido que o voto em branco ou inutilizado com um traço também é voto. É voto que deve merecer tanto respeito como aquele que se exprime firmemente por uma opção partidária. O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma. O voto em branco é uma forma de protestar contra quarenta e oito anos de fascismo que, eles sim, são os verdadeiros responsáveis por esta discussão tão pouco clara, em que se procura pescar votos como em águas turvas se pescam peixes cegos...


É deveras interessante, observar e interpretar o contexto em que uma crónica, realizada em condições num país em urgência civil, acabado de sair de meio século de fascismo, que dominou um povo pobre e com recursos de todas as ordens nada abundantes.
Este povo, saído da guerra colonial e do abismo fascista, acorda num outro abismo. Decidir autonomamente, por si e para os seus, com todas as vicissitudes que os supostos novos ventos de liberdade e democracia poderiam trazer.
Nesta crónica, realço a interpretação do que era aos olhos de Saramago o valor do voto em branco. Tão legitimo como o voto partidário ou o nulo, este será também a expressão de um sinal ou sentimento - «O voto em branco é o voto de quem não sabe e o afirma.» 
O "Ensaio sobre a Lucidez", aborda o mesmo voto em branco. 30 anos depois, da crónica publicada no Diário de Notícias, e compilada no livro de Crónicas Políticas - Os Apontamentos, o romance transmite uma outra perspectiva do acto - Ir, votar, mas de forma supostamente diferente, não previsível.
Aqui, colectivamente, o povo de uma capital decide votar maioritariamente em branco. Não é o "Eu", que pode querer votar como um acto de democracia e de direitos conquistados, mas o "Povo", como entidade colectiva que toma uma atitude contra o sistema instituído. 
Em "O Ensaio sobre a Lucidez", a história mostrará o acto colectivo (do povo), que o confirma em novo acto eleitoral, e um Governos com as suas estruturas de decisão que julgam, tal qual um tribunal de costumes, abandonar a capital e deixar a população à sua mercê.
Esta população que votou em consciência, abandona e liberta-se do sistema de poder instituído, ao permanecer na capital. A fuga dos governantes torna-se no momento épico das consequências do voto em branco.


Caminho - 2004 - 2.ª edição
Informação à obra, no sita da Fundação José Saramago - Bibliografia activa - aqui http://www.josesaramago.org/ensaio-sobre-lucidez-2004/

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%. Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de ruptura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar.Ensaio sobre a Lucidez, o romance mais recente de José Saramago, constitui uma representação realista e dramática da grande questão das democracias no mundo de hoje: serão elas verdadeiramente democráticas? Representarão nelas os cidadãos, os eleitores, um papel real, e não apenas meramente formal?

José Saramago e a temática da morte com uma referência a Célest Albaret "Monsieur Proust"



A morte.
O encontro com a morte.
O sentido da morte e como a enfrentar... sabendo que não é possível vencê-la.

Esta é uma pequena reflexão deixada, como legado para o futuro, para a interpretação da sua visão da morte.
"As Intermitências da Morte" é lançado por altura desta entrevista, de onde o fio da obra percorre a várias velocidades e tempos, circula desde... "e no dia seguinte ninguém morreu", até à morte que se deita e ama o Violoncelista...

Mas Saramago deixa a sua visão sobre este assunto (uma das...)

Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...) Não falo da energia ou rebeldia que esteja no livro, falo da que posso reconhecer em mim próprio. Dá-me muita alegria ter podido escrevê-lo já não com 81, mas quase 83 anos. O que exige um certo tipo de juventude (não digo juventude, essa não volta) e uma certa atitude mental perante a vida, já tão perto da morte...

Uma atitude diferente perante a vida e perante a morte.
Sim, sim. Eu passei pelo medo da morte entre os 17/18 anos, uma coisa terrível. Não talvez medo da morte, mas a consciência de poder morrer. Ia na rua e, de repente, parava como que fulminado por essa ideia: terás de morrer. Ficava frio.

O que é que te despertou? Estiveste numa daquelas situações de que se diz ter visto a morte à frente?
Não sei. Foi uma coisa da adolescência. Passou e nunca mais voltou. Tive situações complicadas, mas nunca, até hoje, vi a morte à frente.

Pode, como no romance, ter estado a teu lado sem dares por ela...
Isso sim. Nós viajamos com a nossa própria morte, se é que não a levamos dentro. E, curiosamente, quando estava a escrever este romance, li o livro de Céleste Albaret, Monsieur Proust, no qual refere que quando ele já estava muito doente dizia que tinha visto no quarto uma mulher gorda vestida de preto. E por falar em Proust, o meu título é muito proustiano, porque em À la recherche du temps perdu fala-se das «intermitências do amor». O título apareceu-me autonomamente, logo no princípio do livro, mas há uma ligação óbvia, através de um eco longínquo, embora quando ele me surgiu eu não tivesse consciência disso. (fim da entrevista)



Céleste Albaret, née sous le nom Augustine Célestine Gineste le 17 mai 1891 à Auxillac (Lozère) et décédée le 25 avril 1984 à Montfort-l'Amaury, était la servante dévouée de Marcel Proust.
Le 28 mars 1913, Céleste Gineste épouse Odilon Albaret, chauffeur de taxi dont Marcel Proust est un client régulier. En 1914, par l'entremise de son mari, elle devient la toute jeune servante de l'écrivain.
Accompagnant ses horaires étranges, ses lubies vestimentaires, alimentaires et sociales, son épuisement physique, elle lui reste fidèle jusqu'à sa mort, en 1922.
Dans l'après-guerre, Proust vit de plus en plus reclus. À sa manière, Céleste participe, en rédigeant sous sa dictée, en rassemblant et vérifiant ses informations, en assurant une part de ses contacts avec le monde extérieur ou en lui inspirant certains traits de caractère, à l'achèvement de son œuvre romanesque.
À la mort de Proust, Céleste ouvre avec son mari l'hôtel Alsace Lorraine, rebaptisé hôtel La Perle, situé 14, rue des Canettes, dans le VIe arrondissement de Paris, puis elle est chargée, de 1954 à 1970, de la garde du Belvédère, la maison de Maurice Ravel à Montfort-l'Amaury. Oubliée de tous, elle survit à la quasi-totalité des personnages célèbres qui, grâce à Proust, avaient entouré sa jeunesse. Elle est « redécouverte » dans les années 1960, notamment par Roger Stéphane, à l'occasion de l'émission Marcel Proust, portrait-souvenir (1962), et par le célèbre collectionneur et bibliophile Jacques Guérin. Sur les conseils de celui-ci, elle livre ses souvenirs, qui sont mis en forme dans Monsieur Proust1. À la même époque, elle vend à Jacques Guérin plusieurs ouvrages que Proust lui avait offerts et qui figurent aujourd'hui parmi les trésors les plus recherchés des bibliophiles français.
Par son dévouement à l'homme et par son respect pour le créateur, Céleste Albaret est considérée comme le modèle des auxiliaires de l'écrivain. Peu avant sa mort d'ailleurs, en hommage à une personnalité qui a participé intimement à l'histoire de la littérature et qui a grandement contribué à la préservation de ses textes, Céleste Albaret est faite commandeur de l'ordre des Arts et des Lettres.
Dans sa Recherche du temps perdu, Marcel Proust a immortalisé sa gouvernante sous le nom de Françoise. Dans Sodome et Gomorrhe, un personnage porte le nom de Céleste Albaret.



"Clarín" - entrevista a Presidenta Pilar del Río sobre a obra ‎Alabardas‬ Alabardas Espingardas Espingardas



Aqui link para o jornal argentino Clarín e para a respectiva entrevista
http://www.clarin.com/
http://www.revistaenie.clarin.com/ (Revista Cultura)
http://www.revistaenie.clarin.com/literatura/Jose_Saramago-armas-conciencia_0_1240675940.html

José Saramago: las armas de la conciencia
Entrevista. Pilar del Río, viuda del escritor, presenta “Alabardas”, la novela Sobre el poder, en la que Saramago trabajaba al morir, y que acaba de editarse.
Por Patricia Kolesnicov



Es posible, quién sabe, que quizá pueda escribir otro libro” escribe, en su casa, en su escritorio, en el lugar donde ya ha escrito tanto, un hombre que está grande y que es, que ya hace mucho que es José Saramago. Es el 15 de agosto de 2009.

“Una antigua preocupación (por qué nunca se ha producido una huelga en una fábrica de armas) ha dado paso a una idea complementaria que, precisamente, permitirá el tratamiento novelado del asunto”, dice. El libro trata de un empleado de una fábrica de armas y su mujer, que es pacifista y lo dejó por eso, porque no puede convivir con un hombre que presta mansamente su inteligencia a la industria de los fusiles y los cañones.

“El libro, si llega a ser escrito, se titulará Belona , que es el nombre de la diosa romana de la guerra”. El hombre, Saramago llegó a escribir tres capítulos pero sabemos –por las notas del escritor– cómo iba a terminar: “con un sonoro ‘vete a la mierda’ proferido por ella”. El libro, con esa novela inconclusa, sale en estos días. Se llama Alabardas : el 2 de febrero de 2010, el escritor había decidido que el título fuera– “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”. Alabardas y espingardas son armas antiguas. “Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas” es un verso de Gil Vicente, un dramaturgo portugués que vivió entre 1465 y 1536.

En realidad, Alabardas no trae sólo el texto de Saramago. Además están sus notas de trabajo, un artículo del ensayista Fernando Gómez Aguilera y otro, conmovedor, de Roberto Saviano, donde dice cosas como “Tocar un arma es una experiencia que todo el mundo debería vivir. Todos deberían recorrer sus estrías con los dedos, sopesar el cargador, vacío primero y después relleno de proyectiles. De lo contrario, sólo te queda la fascinación o la repugnancia. Lo que hace falta es el conocimiento. ¿Cuánto pesa la muerte?” .

Aunque deje gusto a poco, Alabardas es un Saramago auténtico, la respiración del portugués vibra en esas páginas inconclusas. Quien lo ha escuchado hablar hasta oirá su voz.

Quien quizá sepa algo más de este texto, de qué quería con él Saramago, de qué planes tenía es su mujer, Pilar del Río. Es ella quien responde.

–¿Saramago le había hablado antes de este libro?

–Habló mucho de ese libro, por ejemplo, en las sesiones de presentación de Caín tanto en Portugal como en España. También anunció que tras ese libro, que nunca sería muy extenso, no volvería a escribir. Si tenía vida, quería leer.

–¿Qué era lo que quería contar?

–La responsabilidad personal, la estúpida complicidad con el mal de quien viendo no ve, como ese honesto funcionario que es cómplice del mal absoluto que es la guerra aunque no haya disparado un solo tiro. Como lo somos tantas veces cuando miramos para otro lado como autómatas.

–¿Qué lo motivó?

–Era un escritor y su respuesta ante lo que lo motivaba era escribir. Haber leído que cayó una bomba en la Guerra Civil de España que al llegar al suelo simplemente se abrió en dos mitades y dentro había un papel que decía, en portugués, “Esta bomba no explotará” le causó una impresión enorme. Y le hizo pensar en la gente que trabaja en las fábricas de armas. Ahí nació la novela.

–¿Qué tuvo que ver con la realidad que se vivía en ese momento?

–Lo que hacemos siempre tiene que ver con el momento en que vivimos, lo que pasa es que la ceguera que José Saramago viene contándonos literariamente se empecina en ser cada vez más densa. Se dice que la literatura de José Saramago anticipa algunas situaciones que nos afligen, pero en el fondo parece que, como civilización, o civilizaciones, no queremos ser lúcidos.

–Como en “Ensayo sobre la lucidez”, aquí parece poner la confianza en el comportamiento individual. En aquel caso, votar en blanco. En este, el obrero que desactiva la bomba. ¿Ese era el planteo político? ¿Un planteo más ético que, por ejemplo, de clase?

–Saramago hacía literatura, no ensayo, aunque es verdad que decía que los libros tienen que ser como un mazazo en nuestras conciencias. En su obra hay una reflexión sobre el poder y sobre la responsabilidad. El no dice lo que hay que hacer, sólo escribe usando la razón y la ética, que son dos instrumentos que deberían definirnos a los humanos. No hay planteamientos de clase, hay sí un personaje como Blimunda que recoge voluntades para que una pasarola pueda volar. O hay gente que sin ponerse de acuerdo sale a votar una tarde de lluvia y vota en blanco, contrarrestando la ceguera blanca de Ensayo sobre la ceguera y demostrando que las malas praxis de gobierno no son inevitables, que hay formas de decir “No”, la palabra más necesaria, como tantas veces nos decía.

–¿Por qué decidió publicar un material tan corto e inconcluso?

–El material no está inconcluso, esos capítulos están acabados, lo que no quedó acabada fue la novela. Pero los lectores tenían derecho a saber qué ocupaba a su autor cuando le llegó la muerte. Y con las notas que él siempre tenía.

–¿Qué aporta Saviano?

–Roberto Saviano conoce como pocos el horror de la violencia y de las armas, consideramos que estaba muy bien situado para entender la exigencia ética que es este libro. Y lo hizo con una enorme sensibilidad.

–¿Y Günter Grass? ¿Qué aporta?

–Quisimos que este libro fuera, además de los textos de José Saramago, un hecho moral. Y aquí Grass, con su antibelicismo militante, era fundamental.

–¿Saramago escribía este texto como un testamento?

–Saramago se sabía amenazado de muerte cuando se puso a escribir esta novela, pero, como dijo tantas veces, no se quería morir sin haberlo dicho todo. “Todo” eran sus dos útimos libros: Caín y el poder religioso, Alabardas y el poder de las armas, tantas veces usadas para imponer la religión... Y en medio, los seres humanos, pobres diablos sometidos a tantas coacciones, miedos, arbitrariedades y controles. La religión en la conciencia individual, el poder civil, con las armas, en la sociedad. ¿Y la libertad? Aquí los cínicos dan una carcajada. Y así seguimos, entre miserias de todo tipo, matando o muriendo de necesidad en un tiempo que está preparado para resolver conflictos y necesidades. En fin, José Saramago cumplió su parte, es lo mejor que se puede decir de una persona, ¿verdad?

Interesse pela Astrofísica - Referência a David Christian

No compêndio de entrevistas realizadas por José Carlos de Vasconcelos, tal como em outros bastantes exemplos, muitas questões são deixadas em aberto. O caminho e evolução da sociedade. O homem que influi na sociedade através das suas dúvidas e questões. As fantasias dos dogmas das religiões. E fundamentalmente, a pergunta que aqui deixo neste pequeno trecho da entrevista - Quem diabo somos nós?
Este gosto pela Astrofísica, em forma aqui de confidência, mais do que enquadrar-se nas constantes interrogações de José Saramago, é uma extensão de si próprio - procurar respostas para..., e mesmo que não sejam encontradas (as respostas), que o individuo possa através dos tempos procurá-las e acima de tudo sempre questionar.




Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Mas há outras perguntas... Alias, revelaste-me que te interessas cada vez mais pela Astrofísica.
Há desde logo outra pergunta: onde é que estamos no Universo? Já é possível desenhá-lo, sobretudo desenhar a nossa galáxia, já se sabe mais ou menos onde se encontra o centro de mil milhões de estrelas que a compõem e onde está o nosso sistema solar, a 20 milhões de anos-luz do centro da galáxia. Tenho aqui este livro do David Christian, Mapas do Tempo, que é uma obra notável (como a História de um Átomo), começamos a ter ideias, mas mesmo que amanhã encontremos uma explicação definitiva para a formação do Universo, enquanto tivermos um cérebro as certezas serão sempre poucas. E a pergunta manter-se-á: quem diabo somos nós? (...)




http://www.ted.com
Backed by stunning illustrations, David Christian narrates a complete history of the universe, from the Big Bang to the Internet, in a riveting 18 minutes. This is "Big History": an enlightening, wide-angle look at complexity, life and humanity, set against our slim share of the cosmic timeline.

http://www.ted.com/talks/david_christian_big_history


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Referência a Rainer Marie Rilke na génese de "As Intermitências da Morte"


Revista Visão
3 de Novembro de 2005
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Começando pelo principio, os teus livros têm «nascido» de uma ideia central, base de tudo que vai acontecer,  que te surge subitamente, sem razão aparente, como uma espécie de iluminação. Como foi desta vez?
Estava a ler, já não pela primeira vez, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Marie Rilke, que tem páginas extraordinárias em que ele descreve a morte do pai. A certa altura interrompi a leitura, virei o livro, li a contracapa. E foi a referência mínima à morte, no texto do editor, que fez saltar a ideia: a morte passa a anunciar às pessoas que elas vão morrer. Assim nasceu este livro. No dia 1 de Novembro, véspera do Dia de Finados, de 2004. (...)


(O violoncelista e a morte)

Quem foi Rainer Marie Rilke

Informação via Wikipédia, aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Rainer_Maria_Rilke

Rainer Maria Rilke, por vezes também Rainer Maria von Rilke (Praga, Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926) foi um poeta de língua alemã do século XX. Escreveu também poemas em francês.
Nasceu em Praga, na Boémia, (actual República Checa), então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e mudou seu nome, originalmente René, para Rainer.
Rilke fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894 fez sua primeira publicação, uma coleção de versos de amor, intitulados Vida e canções (Leben und Lieder). Não exerceu nenhuma profissão, tendo vivido, sempre, à custa de amigas nobres.
Alguns anos depois, em 1899, Rilke viajou para a Rússia a convite de Lou Andreas-Salomé, a escritora e depois psicanalista, filha de um general russo, e que foi sua amante por longos anos. Sua passagem pela Rússia imprimiu uma inspiração religiosa em seus poemas. Rilke passou a enxergar a natureza, dadas as dimensões e exuberância das paisagens russas, como manifestação divina presente em todas as coisas. Sobre este aspecto publicou em 1900 a coleção Histórias do bom Deus.
Em 1901 casou com Clara Westhoff, da qual logo se separou. O século XX trouxe para a poesia de Rilke um afastamento do lirismo e dos simbolistas franceses com os quais ele se identificara. Em 1905, publicou O Livro das Horas de grande repercussão à época. Nesta obra, seus poemas já apresentavam um estilo concreto, bem característico desta sua fase.
Em 1902 foi para Paris, onde trabalhou como secretário do escultor Auguste Rodin entre 1905 a 1906. Rodin exerceu grande influência sobre o poema de Rilke, que se reflete em suas publicações de 1907 a 1908.
Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke morava em Munique e lá permaneceu durante todo o conflito. Antes de se mudar para Munique, ele viveu na região do Trieste e publicou, em 1913, a A vida de Maria (Das Merien Leben) e iniciou a redação de Elegias de Duíno (Duineser Elegien), texto que só viria a ser publicado em 1923. Duíno era um castelo na região de Trieste, Itália, onde Rilke morou por dois anos antes da Guerra, a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis. Após o conflito na Europa, Rilke mudou-se para a Suíça, a última de suas pátrias de eleição, onde viveu seus últimos anos.
Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de "espaço cósmico interior".
Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX.
Sua obra foi influenciada pelo Expressionismo e influenciou muitos autores e intelectuais de diversas partes do mundo.


"Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar."
Fonte - Cadernos de Malte Laurids Brigge


Aurélio Gomes teve a surpresa de receber José Saramago no RCP - ano 2008


Aurélio Gomes e Teresa Gonçalves, no extinto RCP, receberam a visita surpresa de José Saramago. Durante a emissão do programa "Janela Aberta", os locutores estavam vendados. Conduziam o programa "às cegas", tentando recriar um momento de cegueira - abordavam a estreia do filme "Ensaio sobre a Cegueira". 

Deixo aqui, também a menção a Aurélio Gomes, excepcional entrevistador.
Conduz o programa "Baseado numa História Verídica" no Canal Q. 

Aqui fica o link de diversos episódios: http://videos.sapo.pt/canalq/play/22

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst mencionadas em "Os Apontamentos"

José Saramago, no livro de crónicas políticas "Os Apontamentos", apresenta uma entrada a 8 de Março de 1972, sobre o Dia Internacional da Mulher.
Tece algumas considerações sobre a condição da mulher, os retrocessos que a civilização vai impondo. Interessantes as menções a Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst



(...) Com maior rigor diríamos que a mulher é mantida atrás do homem: muitas das suas conquistas são apenas aparência, e, quando se tornam reais, correm o risco de, com maior ou menor rapidez, perderem conteúdo e poder de aplicação prática. Na maior parte dos casos, o tempo e os interesses dos homens encarregam-se de neutralizar as conquistas alcançadas: a emancipação (no plano económico, através do trabalho remunerado, no plano intelectual, graças ao desenvolvimento da instrução, e no plano político, pela obtenção dos direitos de voto e de elegibilidade) encontra-se ainda hoje limitada por mil e uma pequenas teias. À volta da mulher continua a tecer-se o emaranhado casulo que a manteve isolada do mundo. Há excepções, bem sabemos, mas essas, ao que dizem, só existem para confirmar a regra...
Vai longe o ano de 1792 em que a Olympe de Gouges escrevia a sua «Declaração dos Direitos da Mulher e a Cidadã»; já vai igualmente longe a época de Mrs. Pankhurst, aquela inglesa que criou, no princípio do século, a União Feminina Social e Política, e que mereceu, com as suas companheiras de missão e de luta, o apoio displicente, senão desprezativo, de «sufragista». Mas é apenas de ontem, de 1952, para sermos mais exactos, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, aprovada, por maioria, pela Assembleia Geral das Nações Unidas... (...)
(...) O Dia Internacional da Mulher deveria ser, sobretudo, um dia de exame de consciência para os homens. (...)

Os Apontamentos
2.º Edição de 1990
Caminho

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Olympe_de_Gouges

Olympe de Gouges, pseudônimo de Marie Gouze (Montauban, 7 de maio de 1748 — Paris, 3 de novembro de 1793) foi uma feminista, revolucionária, historiadora jornalista, escritora e autora de peças de teatro francesa.
Os escritos feministas de sua autoria alcançaram enorme audiência. Foi uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Na sua obra "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" (em francês: Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne) de setembro de 1791, desafiou a conduta injusta da autoridade masculina e da relação homem-mulher que expressou-se na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão durante a Revolução Francesa. Devido aos escritos e atitudes pioneiras, foi executada.
Marie Gouze nasceu em uma família pequeno-burguesa em 1748 em Montauban, Tarn-et-Garonne, no sudoeste da França. Seu pai era açougueiro, sua mãe, lavadeira. Entretanto, ela acreditava ser filha legítima de Jean Jacques Lefranc; a rejeição no reconhecimento dessa paternidade influenciou sua defesa apaixonada dos direitos das crianças ilegítimas.
Casou-se jovem em 1765 com Luis Aubry de quem teve um filho, Pierre. Enviuvou logo depois e, em 1770, transferiu-se para Paris onde adotou o pseudônimo de Olympe des Gouges.
Pelas pinturas remanescentes, era uma mulher de notável beleza. Em torno de 1784 (ano da morte de seu suposto pai biológico), começou a escrever ensaios, manifestos e iniciou ações de cunho social.
Em 1774, escreveu uma peça de teatro anti-escravagista L'Esclavage des Nègres. Pelo fato de ser sido escrito por uma mulher e do assunto controvertido, tal obra somente foi publicada em 1789, no início da Revolução Francesa. Mesmo assim, Olympe demonstrou sua combatividade na luta incessante, porém, sem sucesso, pela encenação da peça. Ao mesmo tempo, escreveu obras feministas relacionadas aos temas dos direitos ao divórcio e às relações sexuais fora do casamento.
Como apaixonada advogada dos direitos humanos, Olympe de Gouges abraçou com destemor e alegria a deflagração da Revolução. Mas logo se desencantou com a constatação de que a fraternité da Revolução não incluía as mulheres no que se refere à igualdade de direitos.
Em 1791 ela ingressou no Cercle Social— uma associação cujo objetivo principal era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reunia-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres Sophie de Condorcet. Foi aí que Olympe expressou pela primeira vez sua famosa assertiva: "a mulher tem o direito de montar o seu palanque".
No mesmo ano, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ela escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã1 . Logo depois, escreveu o Contrato Social, nome inspirado na famosa obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo o casamento com relações de igualdade entre os parceiros.
Por se envolver ativamente nas questões que lhes pareciam injustas, como a condenação à morte de Luis XVI, por ser contra a pena de morte, e desapontada em suas expectativas, passou a escrever com mais e mais veemência. Em 2 de junho de 1793, os Jacobinos prenderam os Girondinos e seus aliados, enviando-os em seguida à guilhotina. Nesse mesmo ano, Olympe escreveu a peça Les trois urnes, ou le salut de la Patrie, par un voyageur aérien e, por causa dela, foi presa. A peça demandava a realização de um plebiscito para escolher uma das três formas potenciais de governo: República indivisível, Governo federalista e Monarquia constitucional. Os Jacobinos, que já haviam executado uma rainha, não estavam dispostos a tolerar a defesa dos direitos das mulheres: exilaram Sophie de Condorcet e, um mês depois, em 3 de novembro de 1793, guilhotinaram Olympe de Gouges.


Emmeline Pankhurst discursando

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Emmeline_Pankhurst

Emmeline Pankhurst, nascida Emmeline Goulden, (Manchester, 14 de julho de 1858 — Londres, 14 de junho de 1928) foi uma das fundadoras do movimento britânico do sufragismo. O nome da "Sra. Pankhurst", mais do que qualquer outro, está associado com a luta pelo direito de voto para mulheres no período imediatamente antes da primeira guerra mundial.
Em 1879 casou com Richard Marsden Pankhurst, um advogado. O Sr. Pankhurst era já um apoiante do movimento das sufragistas, e tinha sido o autor da legislação Married Women's Property Acts (Lei da propriedade da mulher casada), de 1870 e 1882. Em 1889, a Sra. Pankhurst fundou a Liga do Franchise das mulheres. A campanha não seria interrompida pela morte do marido em 1898. Em 1903 fundou a melhor conhecida união social e política da mulher (WSPU), um movimento militante cujos membros incluíramm a famosa Annie Kenney, a "mártir" do sufragismo; Emily Davison e a compositora Dame Ethel Smyth. Foi juntada no movimento por suas filhas, Christabel e Sylvia, ambas fariam uma contribuição substancial à campanha em maneiras diferentes.
As tácticas da Sra. Pankhurst para atrair a atenção ao movimento tiveram como resultado o emprisionamento por diversas vezes, mas por causa de seu perfil elevado, não passou as mesmos privações como outras colegas sufragistas (embora experimentasse alimentação forçada após greve de fome). A liderança da campanha não agradou a todos, e houve separatismo dentro do movimento em consequência. A autobiografia, Minha própria história, foi publicado em 1914. Morreu em 1928, tendo atingido a maior de seus objetivos: o direito de voto para as mulheres no Reino Unido.


Uma reflexão sobre o "homem" - o seu caminho provável


José Saramago tinha uma característica, muitas vezes considerada incómoda.
Pensar. Reflectir. Ir buscar ao passado de... recuperá-lo, para um presente, e alertar com algum pessimismo e muito cepticismo o futuro.


 Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

O ser humano... de forma global

(...)
Enfim, como é o retrato do poeta enquanto jovem, aos 80 anos?
(risos) Em primeiro lugar, acho que sou uma boa pessoa (aliás, estou casado com uma mulher que não me permitiria que não o fosse...). Em segundo lugar, creio que o trabalho que estou a fazer tem  uma qualidade, que não desmerece do que fiz antes: estou ainda com capacidade e O Homem Duplicado de alguma maneira o demonstra.
Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos e séculos, milénios até, de estudo, cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah!, tem gente maravilhosa, tem heróis, santos... Tem, mas como não são eles que governam o mundo... A bondade de hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa pelo mundo) dá-me um mal-estar todos os dias...
Por isso podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora... Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.

Quer dizer que hoje não és um homem de esperança, pelo menos com esperança?
Não. Não tenho nenhum motivo para ter esperança. No plano estritamente pessoal, podemos ter razões para isso. Mas se falarmos numa esperança que nos envolva a todos, ela não é possível num mundo como este. Como será daqui a 50 ou cem anos? Estamos no fim de uma civilização e não temos ideia nenhuma do que vem aí.
Nem sabemos se no futuro o ser humano terá alguma coisa a ver com o actual, ou se será outra coisa que deva passar a chamar-se de forma diferente. (...)

domingo, 2 de novembro de 2014

José Saramago - Levantado do Chão - Documentário da RTP

Documentário inédito sobre a vida e obra do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. No dia em que se assinalam os dez anos da atribuição do primeiro Prêmio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, a RTP exibe um documentário que retrata o percurso singular do escritor José Saramago, que se afirma "pessimista pela razão, otimista pela vontade". Durante quase um ano, uma equipe da RTP reconstitui os pontos cardeais em que a vida e obra de Saramago se fundem, num trabalho que aborda a história do escritor português mais lido e conhecido do mundo. Mais do que uma biografia, este documentário pretende dar a conhecer ao grande público os momentos decisivos da vida de um homem que aos cinquenta e três anos não era ainda escritor. Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago imigrou para Lisboa com dois anos.

Grande parte da sua vida decorreu na capital, que serve de cenário a alguns dos seus romances. Mas durante a adolescência, foram muitas e prolongadas as suas estadias na aldeia natal, Azinhaga, Golegã, que o marcou para toda a vida. Ficou célebre, o discurso que Saramago proferiu há dez anos na entrega do prémio Nobel, evocando com emoção os avós Jerómino e Josefa, que dormiam com porcos na cama, única forma de sobreviverem todos. José Saramago frequentou o liceu e a escola industrial mas, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir os estudos. É um homem "Levantado do Chão", título de uma das suas obras, e título escolhido também, para este documentário. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico e neste trabalho reeencontramos a oficina dessa época assim como ex-colegas de ofício.

Primeira Parte
Segunda Parte

Terceira Parte

Saramago e a "censura" - entrevista ao Público (Maio de 1992)


Imagens da peça de teatro "A Noite"
Obra baseada na história de um jornal na véspera do 25 de Abril de 1974




In PÚBLICO de 10 de Maio de 1992
José Saramago critica responsáveis da Cultura
"É a terceira vez que sou censurado por Sousa Lara"
Por Torcato Sepúlveda

Em entrevista ao PÚBLICO, o romancista José Saramago não poupa o Governo português. O responsável é ele e não o regulamento do prémio. "A CE não podia esperar que isto acontecesse". E defende a Frente Nacional para a Defesa da Cultura.

... a velhinha máquina de escrever...

Como se sente na pele de um escritor censurado, dezoito anos depois da Revolução de Abril? Por que antes do 25 de Abril, era normal para si ser censurado...
Sim era normal. Não tanto como escritor - porque os livros que publiquei antes do 25 de Abril nunca foram objecto de censura - mas como jornalista. Em 1972 e 1973 trabalhei no "Diário de Lisboa" com funções de editorialista e todos os dias se guerreava com a censura.
Não esperava que, depois do 25 de Abril, se repetissem comportamentos desses, nessa altura institucionalizados. Embora a exclusão do meu romance "Evangelho Segundo Jesus Cristo" tenha também um carácter institucional, porque não foi uma medida extemporânea. É uma decisão tomada por uma instância do Governo e foi no exercício de uma autoridade governamental que a decisão foi tomada. Quanto ao meu estado de espírito: estou triste e indignado. Sinto-me também estupefacto: nos primeiros dias após a decisão governamental, perguntava-me se isto estava de facto a acontecer.
Mas Governo, secretário de Estado da Cultura e subsecretário de Estado da Cultura tiveram a resposta que mereciam: repúdio. O que não diminui a indignação, contaminada por um sentimento de tristeza profunda. Mais: tendo acontecido, como é possível que primeiro-ministro, secretário de Estado e partido do Governo procurem ladear isto, tentando encontrar uma solução para o que não tem solução. O facto é brutal e não pode ser diminuído, sejam quais forem os artifícios de retórica ou de baixa dialéctica política, ou de cabotinismo.

Considera este caso apenas português? Não se tratará de um precedente que amanhã pode permitir a um governo qualquer da CE tomar uma medida semelhante? Este caso não se tornou já europeu?
As Comunidades não esperavam que isto acontecesse no interior delas. Estou certo que na comunidade europeia, no seu conjunto ou nas instâncias onde o regulamento foi inventado e o prémio foi criado, não passou pela cabeça de ninguém que isto pudesse acontecer, e por isso não elaboraram normas preventivas.
Eu não estou tão contra o facto de os governos apresentarem os seus candidatos, desde que funcionem como simples caixa de correio. Instituições responsáveis e competentes, designadas para fazer uma escolha, apresentam aos governos, por uma questão de mero funcionamento administrativo, os candidatos. E os governos deveriam limitar-se - e nos anos anteriores assim sucedeu - a pôr o carimbo: "Siga". Eu próprio já fui candidato a este prémio, e o Governo de então era chefiado por este primeiro-ministro. Quem dirigia na Secretaria de Estado da Cultura teve o bom senso de não intervir. O absurdo deste caso é que houve também a intervenção do chamado factor pessoal. Há pessoas no PSD que não cometeriam a asneira do senhor Sousa Lara. Poderiam pensar que era um horror que o meu livro representasse Portugal, mas não se atreveriam a intervir, por mero respeito democrático. Este senhor não. Demais, com o seu ar tão elegante, bem educado... Se o físico das pessoas diz alguma coisa, o rosto de Sousa Lara, o seu modo tão suave parecem incompatíveis com tal atitude. Lembro-me, porém, que nas galerias de pintura, quer aqui, quer em Espanha, os retratos de inquisidores apresentam semelhanças, uma espécie de ar de família, entre o senhor Sousa Lara e os seus antepassados do Santo Ofício.

Insisto. Não terão sido as Comunidades Europeias demasiado optimistas em relação a si próprias?
Foram, claro que foram...

...amanhã, um governo chefiado pelo senhor Le Pen pode fazer o mesmo com Thar ben Jelloun, porque é de origem árabe. As Comunidades devem saber que os monstros vivem nelas.
Sim, sim. Mas mais do que a CE somos nós que temos de saber que os monstros vivem dentro de nós. E vivem aqui, vivem em Espanha, vivem na Alemanha, vivem em toda a parte. E estão a levantar a cabeça. E se é certo que a CE pode, perante casos como este e outros de natureza diversa, tomar medidas, também é certo que as medidas devem ser tomadas no interior de cada país, de cada sociedade, nas relações internas de toda a ordem e nas relações com os outros. Não devemos esperar que a a CE decida comportamentos, regras, métodos para evitar que coisas destas aconteçam, mas criar aqui os anticorpos contra o mal. Quando o senhor Sousa Lara diz no Parlamento que este caso não deveria ter sido tornado público, defende o triunfo da hipocrisia.

Estes casos estão a tornar-se frequentes. O embaixador de Marrocos achou que o filme de João César Monteiro, "Recordações da Casa Amarela", poderia chocar a mentalidade muçulmana. Já não é um ministro ou um secretário de Estado a emitir julgamentos restritivos sobre uma obra de arte. É um simples funcionário... Dentro de cada um de nós habitará um Intendente Pina Manique?
Bom, essas pulsões são inseparáveis da natureza humana. Mas não foi por acaso que a sabedoria popular criou este dito: "Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão". O grande mal que pode acontecer às democracias - e penso que todas elas sofrem em maior ou menor grau dessa doença - é viverem da aparência. Isto é, desde que que funcionem os partidos, a liberdade de expressão, no seu sentido mais directo e imediato, o Governo, os tribunais, a chefia do Estado, desde que tudo isto pareça funcionar harmonicamente, e haja eleições e toda a gente vote, as pessoas preocupam-se pouco com procedimentos gravemente antidemocráticos.
Na relação do senhor Sousa Lara comigo, este não é o primeiro episódio. Já este ano, o que me leva a crer que tudo isto tem origem no "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Foi enviado, penso que em Fevereiro, um pedido de subsídio para que eu me deslocasse a Paris, à Expolangues, e o senhor subsecretário de Estado, não fez censura porque não tomou decisão alguma: exerceu o veto de gaveta. Mais grave porém: recentemente, em Abril, a Universidade francesa de Clermont-Ferrand convidou-me para lá ir. E mais uma vez foi feito, através do Instituto Português do Livro e da Leitura [IPLL], o pedido de apoio para a viagem. O IPLL limitou-se a passar o pedido a quem tem o poder de decidir, mais uma vez ao senhor Sousa Lara. Que respondeu que não haveria subsídio para mim e que ele sugeria outro escritor. Sei o nome do escritor alternativo, que não tem nada que ver com o assunto com certeza. Mas a Universidade de Clermont-Ferrand respondeu: "Está muito bem, mas quem nós queremos cá é o senhor Saramago. E eu lá fui, o Estado português não gastou um tostão. Portanto, o veto para o Prémio Literário Europeu é o terceiro caso de censura que sofro este ano.

Em declarações ao "Expresso" sugeria, com tristeza e melancolia, a hipótese de abandonar Portugal. Saramago será mais um vencido da vida? Um vencido do reino da estupidez?
Há uma coincidência que eu não busquei. Acontece que dentro de alguns meses, mas isto estava já decidido antes, vou viver alternadamente aqui e fora de Portugal. Por razões que não tenho que explicar, mas que se prendem com desejo de tranquilidade. A vida está a tornar-se-me cada vez mais difícil e tenho que encontrar calma para fazer o que tenho ainda a fazer, porque não cheguei ao fim com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Nessa conversa com Clara Ferreira Alves, do "Expresso", dadas as circunstâncias em que ocorreu, era inevitável que eu exprimisse indignação, protesto, dizendo: "Qualquer dia vou embora". Mas as alterações na minha vida estavam previstas. Não abandonarei a minha terra, a não ser que este ou outro Governo cometesse a asneira de me transformar em ovelha negra, coisa para a qual não vejo grandes razões.

Até certa altura, os intelectuais exerciam uma espécie de poder moral sobre a sociedade. Mas com a crise do comunismo, os "clercs" - talvez com medo de serem acusados de comunismo - refugiaram-se na luta puramente cultural. Ramalho Ortigão até sobre a poda das árvores falou em "As Farpas". Aqui parece residir o grande defeito da Frente Nacional para a Defesa da Cultura. Falaram do IVA nos livros mas não se importaram com o IVA no pão e no leite. E metade da população portuguesa não vive tão bem como isso... Parece que os intelectuais se têm afastado afectivamente do resto da população.
Os escritores, as pessoas a quem chamamos intelectuais, eram gente de ideias gerais. E sobretudo havia uma diferença, que para mim é radical, profundíssima, quanto à situação da comunicação social no tempo e à comunicação social hoje. Os escritores de então, um Fialho, com "Os Gatos", para falarmos apenas dos nossos, um Ramalho e um Eça, com "As Farpas", toda essa gente que intervinha socialmente pela pena, supria as deficiências da comunicação. No caso concreto, da imprensa. Hoje, a situação está invertida. O que levava os escritores no século passado a fazerem jornalismo e nas suas próprias obras literárias a fazerem qualquer coisa que tinha que ver com o jornalismo no sentido da informação, da edificação do leitor, da construção da sua mentalidade, do seu sentido crítico, tudo isso passou, ou tudo isso deveria ter passado, para a comunicação social de massa. O escritor achou-se fora desse processo. É a própria evolução tecnológica, o desenvolvimento das comunicações de massa que exclui o escritor dessa tarefa. Não significa que um ou outro não o faça, mas não é dele que a população de um país espera isso. Procura-o na imprensa, na rádio e na televisão. E nós sabemos como o faz. A televisão, por exemplo, asfixia-nos com imagens, imagens não tratadas, que nos submergem, mas no fim de um telejornal, informação, nenhuma.
É preciso não tomar a reacção ao IVA, e tudo o que levou à criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura como defesa de interesses corporativos, pânico de gente que vai vender menos livros. Uma visão mesquinha. O que se deveria ter visto neste movimento, a que se chamou Frente, o que parece ter chocado muita gente, e Nacional, o que parece ter chocado ainda mais - a comparação era fácil, em França há o Front National; jogar assim com as palavras é lamentável - é o mal estar que o IVA despoletou. Porque não surgiram apenas ataques à Frente, descobriu-se uma preocupação, que já não pode ser mantida em silêncio, sobre o estado da cultura em Portugal. A Frente aparece por causa disso, mas não é isso que lhe dá o sentido verdadeiro. Como também não é a famosa reestruturação dos serviços da Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Sobre a qual reestruturação não sei se é boa se é má. Tirando a questão da Biblioteca Nacional e a do IPLL, o resto, a redução das direcções gerias, não sei se é bom se é mau. Não estudei o assunto. E há que dizer que não me interessa muito. Pode até provar-se amanhã que, de um ponto de vista meramente estrutural, se está perante uma boa solução ou uma solução aceitável.
A questão é saber se a política cultural do Governo está orientada no sentido de corrigir os profundos males, que não são apenas de estrutura de serviços. São males enraizados na nossa educação e na nossa mentalidade. Não se pede que o Estado seja o médico que vai tratar de tudo, mas pede-se que o Estado cumpra a sua obrigação. Porque o resto não é com ele, é com os cidadãos todos e, neste caso, com os chamados intelectuais.
O que não faz sentido é que se diga que a frente não apresentou soluções. Peço um minuto de reflexão: reúnem-se mais de setenta associações de diversa índole - que vão das desportivas, às ecológicas, às culturais em geral, às profissionais - que até então não tinham estabelecido qualquer contacto umas com as outras (e não estabeleceram ainda, porque a Frente não está estruturada para reunir em plenário com toda esta gente para tomar decisões, não há sede, não há secretaria, não há fundos) e quer-se que ela apresente propostas... É impossível que a Frente apresente propostas e sobretudo que as apresente imediatamente, como se as já tivesse no bolso, como se antes de ser Frente já andasse a estudar tudo isto. E na hora de se declarar Frente dissesse: "Aqui estão". Há a ideia - que espero vá para diante - de fazer um exame objectivo da cultura em Portugal. Relatores, apoiados por comissões, analisarão dez, ou doze, ou quinze áreas culturais. Que serão estudadas profundamente. As comunicações serão depois debatidas durante dois ou três dias, não sei bem, porque tudo isto está ainda verde. Este levantamento permitirá depois a formulação de propostas. Mas por favor dêem-nos tempo...
No fim disto, em meu entender- mas aqui há diferenças de opinião - a Frente acaba. Porque depois serão as setenta associações que fazem parte dela que devem continuar o trabalho.

O que parece é que o José Saramago, tal como alguns críticos da Frente, tem a preocupação do real, do concreto...
Se os bibliotecários se juntaram à Frente é por razões da sua própria actividade. Isso é que deveria ter sido investigado, e foi isso que grande parte da comunicação social não fez. Compreendo os articulistas e os cronistas que se pronunciaram contra a Frente. Mas uma coisa me deixou magoado: há pessoas que pelo seu passado e pela sua própria responsabilidade não têm o direito de formular a sua opinião de qualquer maneira. Não perdoo que Joaquim Vieira, director adjunto do "Expresso", na sua coluna "Quente e Frio", diga coisas como "pela média etária, a Frente parece-se muito com o bureau político do PCUS". Não sei a que média etária se refere, a das organizações que formam a Frente? De qualquer maneira disse-o. E isto reflecte duas coisas: desprezo pela velhice e anticomunismo primário.

Santana Lopes, em entrevista à revista "Grande Reportagem", de Maio, afirma que Saramago já o elogiou duas vezes: na Semana de Bordéus e numa sessão da Mundial Confiança, aquando da estreia da "Blimunda", no São Carlos. É verdade?
É mentira. O senhor secretário de Estado utiliza alguns factos para construir um discurso que só a ele interessa. Estive em Bordéus e falei com ele, de facto: para lhe dizer que ele tinha de defender em Bruxelas a nossa identidade, se não "eles" comiam-nos. Estive presente na sessão da Mundial Confiança, mas não lhe disse nada. O senhor secretário de Estado é que não apareceu na estreia de "Blimunda". Não o vi lá. Se ele disser que esteve, convém que apresente testemunhas.

Censura e Inquisição - Opinião e pensamento de José Saramago


A arte que transporta a Liberdade... os povos se que se exprimem através da arte.

José Saramago foi polémico, considera uns.
José Saramago foi incómodo. muitos o sentem.
José Saramago foi desassossegado, sempre inquieto.

Via Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura_em_Portugal)
"Em 1992, o subsecretário da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu, justificando tal decisão dizendo que a obra não representava Portugal mas, antes, desunia o povo português. Em consequência do que considerou ser um acto de censura por parte do governo português, Saramago mudou-se em 1993 para Espanha, passando a viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias."

Este episódio poderá ser marcante, na e da cultura portuguesa, um entre muitos exemplos.
A censura em democracia, circula sem lápis azul... por certo e de certo que quem sente a censura, ela lhe aparece sob a forma mais subtil - o lápis transparente.

O pensamento primeiro, ou dos primeiros que me surge, transporta o peso de uma ideia - Portugal país milenar, de invasões e descobertas, nação una à volta da mesma língua, percorreu meio mundo divido através de uma negociada (tratado de Tordesilhas), onde a cultura há muito que não merece um ministério. Um edifício estatal que proteja e promova as diferente artes e língua.

Nas entrevistas que José Saramago concedeu, muitas vezes aflorou o tema da censura e suas formas de se manifestar, como um sensor das mentalidades e públicas virtudes.
O homem, o democrata, deu por diversas vezes o corpo às balas... demasiadas vezes sozinho.

Um dia, este homem, que amava o seu país - deverá ter pensado... estou farto do lápis azul...



Jornal de Letras
5 de Novembro de 1991
José Carlos de Vasconcelos

"Evangelho Segundo Jesus Cristo" é apresentado

A ideia que Saramago alimentava sobre alguma polémica com a Igreja

(...)
Então ainda pode ser excomungado...
Posso. Mas não penso que a Igreja me tome tanto a sério ao ponto de excomungar...

O tome tanto a sério ou tome tanto a sério o romance?
Acho que a Igreja vai fazer de conta que o livro não existe. O que não significa que não surjam por aí alguns ataques, mas não será a Igreja directamente como instituição que vai produzir uma nota ou um comunicado.

É capaz de dar um editorial da Rádio Renascença...
Sim, um editorial da Rádio Renascença é capaz de dar (risos)...

Isso diverte-o ou preocupa-o?
Nem me diverte nem me preocupa. Cumpri uma espécie de dever: tinha de escrever um livro, está escrito. O que possa acontecer depois atingir-me-á, de uma maneira ou de outra, mas de certa maneira as questões que se vierem a pôr não são comigo. São com o livro. Sou o seu autor e único responsável, não o podem retirar de circulação.

Já não há inquisição...
Não há inquisição, não há censura. (...)

Nesta entrevista, transparece o sentimento da liberdade do autor. É um romance, uma obra, o homem não concebe por estes dias a inquisição e a censura. Não redondo.


Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

Passados anos... a censura sempre existiu... no tempo e à distância, atenta-se nestas palavras

(...) ... que aliás é (o «senso comum») uma personagem importante do teu último romance...
... um pouco de senso comum: em 1992 era governo o PSD, que pela pena ou a palavra de um subsecretário de estado da Cultura cometeu contra mim um acto de censura que não foi desautorizado pelo secretário de estado, nem pelo primeiro-ministro, nem por ninguém. Protestei, falou-se muito, inclusive na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, saí de Portugal e vim para aqui para Lanzarote. A seguir, veio um governo do PS, com quem tive relações normais, cordiais - para além de as ter, antigas, com alguns dos seus membros. Depois, regressou o PSD ao Governo. E o que eu disse é que não colaboraria com um Governo que cometeu um acto de censura do mais descarado e insultuoso da inteligência e do qual nunca pediu desculpa. E não tenho que colaborar, como se não tivesse acontecido nada, com instituições oficiais que dependem desse Governo. Que me peçam desculpas públicas (não através de uma cartinha confidencial), e a questão resolve-se. Ninguém deste Governo, a que pertencia o actual primeiro-ministro, se insurgiu contra o que se passou. Pelo contrário, chegou a haver um jantar de homenagem ao Sousa Lara! Então que queres que faça? Que não tenha vergonha na cara? O que lhes falta a eles, sobra-me a mim. Ah!, mas o prejudicado é o País... Por muito que me prejudique o País, nunca será tanto como eles o prejudicaram cometendo, com a divulgação internacional que se sabe, um acto de censura contra um escritor português que por acaso, uns anos mais tarde, veio a receber o Prémio Nóbel. (...)


Passado um ano, em Março de 2004, o assunto volta à baila. Talvez mais incisivo e decidido.

Revista Visão
25 de Março de 2004
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Como vai o «mal de amor» pela Pátria de Saramago?
O mal de amor de José Saramago pela Pátria é conhecido. Pago todos os impostos em Portugal e voto em Portugal. Se não vivo em Portugal é porque fui maltratado, publicamente ofendido pelo Governo de Cavaco Silva, de que era secretário de Estado da Cultura Santana Lopes e subsecretário de Estado Sousa Lara. E no Governo, a que pertencia Durão Barroso, não se levantou uma única voz dizendo «isto é um disparate, isto não se faz»! Outro dia, alguém falou no caso ao primeiro-ministro (Durão Barroso), que disse querer arrumar o assunto: vinha a Espanha e teria muito gosto em almoçar comigo. Assim, durante o almoço, provavelmente entre a fruta e o queijo, ele diria «vamos pôr uma pedra sobre o assunto, não se fala mais nisso»; e eu diria, «sim senhor, vamos pôr». Só que comigo as coisas não são assim. Ofensa pública, desculpas públicas. (...)



sábado, 1 de novembro de 2014

Rogério Ribeiro ilustrador da obra "O Ano de 1993"



A menção anteriormente aqui colocada, a propósito da influência estética, reconhecimento da pessoa e da sua obra, é agora realçada com à referência das belíssimas ilustrações da obra "O Ano de 1993".
O contexto corrido do livro poema é apoiado pelas ilustrações.