Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Volume I da Saramaguinana - Revista de Estudos Saramaguianos (Edição em português e espanhol)



Volume I da Saramaguinana
Revista de Estudos Saramaguianos
(Edição em português e espanhol)

Todas as matérias, disponíveis para consulta
em http://www.estudossaramaguianos.com/2013/02/blog-post_8.html

"APRESENTAÇÃO"

"Em A jangada de pedra, de José Saramago, uma série de acontecimentos de ordem fabular aproximam pessoas de diversos pontos da Península Ibérica que cumprirão uma longa jornada de travessia terrestre enquanto sob seus pés é a terra que corre com um destino um tanto incerto. Há, nesses indivíduos, uma mesma força que os une e não é ver o fim do percurso ou o outro lado da barca de pedra, mas aquilo que se passa consigo e ao redor de si. Movem-se como exercício de conhecer a si e ao outro e constituem uma forma cara ao homem contemporâneo que, imerso numa individualidade cada vez mais cerrada, vê no outro uma ameaça secreta a si e a sua liberdade.

O sentimento que une os que compõem essa primeira edição da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS é o mesmo dos desbravadores desse romance. Vêm de várias partes do Brasil, unem-se a nomes de Portugal e Argentina e são já vozes em torno de uma mesma obsessão, um mesmo nome, uma mesma obra tornada sempre mais necessária ao exercício de compreensão de nós mesmos num mundo que se mostra sempre pela incoerência e pela incapacidade de reunir numa mesma unidade o sentido principal que nos irmana: a humanidade. Não é uma uniformização, evidentemente, o que queremos. É uma abertura a pontos de vista diferentes no intuito não da tolerância, que esta palavra é uma farsa cara à convivência, e sim, uma ampliação do universo de perspectivas desenhado pela obra de José Saramago.

A ideia não nasceu ao acaso e nem se construiu sozinha. É esforço de uma coletividade. E é preciso que se diga para evitar mais adiante falácias de que tudo se alcança a um passo de distância de nós mesmos. Trata-se de uma proposta que começou a ser costurada por Pedro Fernandes na noite de vigília quando lhe veio, de fato, a consciência da partida Saramago naquele 18 de junho de 2010. Foi quando o professor assumiu de si para com os livros do escritor português que estavam à sua frente naquela ocasião – quase uma profissão de fé, que a tarefa de todo crítico é dar a conhecer, pela via mais simples, o esforço de outros homens cujo desejo é sempre o de dizer sobre eles e o mundo onde estão. A tarefa de todo estudioso da literatura é irmanar-se com a obra não para catar louros de glória, mas para continuar a exercer as revisões sempre necessárias, hoje mais que sempre, de um extenso, ardoroso e mais complexo itinerário, o de humanização – esse que vimos construindo entre erros e acertos desde quando assumimos a consciência sobre o mundo e demos por inaugurado o império da razão. 

Depois, a ideia foi ter com Miguel Koleff, há muito um leitor e dedicado estudioso da obra de José Saramago, com organização de trabalhos de ampla significação para a fortuna crítica do escritor; encontrou com Pilar del Río, quem, desde que tomou contato mais concreto com a ideia, em novembro de 2013, se manteve atenta ao andamento da edição ora publicada e abriu-nos as portas da Fundação José Saramago para nos apoiar com tudo que estivesse ao seu alcance. E, claro, houve empecilhos, mas tudo se firmou no abraço prontamente dado por todos os nomes escritos ao longo destas páginas.   

É notável que desde o final dos anos oitenta a produção acadêmica em torno da obra de José Saramago, até então quase inexistente, tem se avolumado numa proporção sem limite calculável. Ao redor do mundo, não temos alcance sobre os números, mas sabemos pelas buscas breves cumpridas numa ou noutra entrada à grande Conservatória virtual, da leva de estudos desenvolvidos, de eventos realizados, de grupos de pesquisa dedicados tão somente ao exercício da leitura crítica e de perscrutar a infinita correnteza de sentidos que se desenha toda vez que decidimos entrar nesse mundo de palavras. Nunca pretenderíamos abarcar essa quantidade de trabalhos. Queremos, sim, irmanarmos com a mesma sede deles em manter viva a obra saramaguiana.

É esta uma revista acadêmica, mas sem a sisudez da academia. É resultada de uma parceria editorial entre investigadores da obra de José Saramago de Brasil (mentor da ideia), Argentina e Portugal. Sua proposta é a publicação de ensaios, documentos e recensões críticas que tenham como escopo a obra do escritor português. Seu intuito é dar a conhecer e o fortalecer as diversas correntes de estudos formadas ao redor do mundo, estabelecer intercâmbios de pesquisas e ser ponto de encontro entre os diversos leitores que se alimentam do interesse pela obra do escritor português.

Parte como a península no romance evocado à abertura dessas palavras à procura de seu próprio espaço. Quer ser um ambiente de rupturas com a calmaria dos estereótipos e propõe-se a estar sempre em trânsito frente à imobilidade das forças da consciência sobre o mundo, afinal uma literatura de desassossego como é a de José Saramago pede uma abordagem igualmente desassossegadora. Como o itinerário da jangada de pedra, é este um itinerário que, tomara, renda muitas movências e nele se produzam tantas significações sejam possíveis numa abertura de diálogo sincero com o texto literário. 

A edição aqui apresentada é organizada pelos editores da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS, os professores Miguel Koleff e Pedro Fernandes de O. Neto; reúne parte do material editado numa tiragem impressa e limitada com chancela da Editora Patuá e da Fundação José Saramago apresentada por ocasião das celebrações do 92° aniversário do escritor português, em 16 de novembro de 2014, Dia do Desassossego."

Equipe editorial


SUMÁRIO

O fatalismo da pobreza (?): o miúdo pormenor interessa à história 
(Levantado do chão, de José Saramago)
ANA PAULA ARNAUT

Do filosofar sobre a morte: uma leitura das ideias de suicídio e morte em José Saramago
FABIANA TAKAHASHI

Figuração da personagem: a ficção meta-historiográfica de José Saramago
CARLOS REIS

Querido diário...
LÍLIAN LOPONDO

O caminho da morte na narrativa de José Saramago
MARIA VICTORIA FERRARA

Duplos paródicos na obra saramaguiana
CONCEIÇÃO FLORES

Caim decreta a morte de Deus
SALMA FERRAZ

Temas, formas e obsessões em Claraboia, de José Saramago
PEDRO FERNANDES DE OLIVEIRA NETO

O poder, a gloria e a nua vida
MIGUEL ALBERTO KOLEFF

Os espaços concentracionários e as crises da utopia: Sartre e Saramago
TERESA CRISTINA CERDEIRA


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Festival Xalapa - México - Kim Manresa expõe obra (fotografias de prémios Nobel da Literatura) - 4/10/2014






"Ojo por ojo: Genio humano"

Aqui notícia, 

"El Hay Festival Xalapa presenta la obra de Kim Manresa, quien por años ha fotografiado a ganadores del Nobel de Literatura"

Ciudad de México, 4 de octubre 2014
Mostrar la parte más humana de un escritor que ha ganado el Premio Nobel de Literatura no es sencillo. Y si además hay que hacerlo con ingenio y astucia, parece imposible. Sin embargo, el fotógrafo español Kim Manresa consiguió lo que muy pocos: eternizar las huellas de la batalla que han librado frente a la página en blanco. Para lograrlo, Manresa ha visitado a 21 escritores que han obtenido el máximo galardón literario, y ha logrado captar los rasgos inéditos del olimpo literario. Éstas son algunas de las instantáneas que conforman las más de 400 imágenes, donde es posible observar desde la sonrisa tímida de Doris Lessing y la risa franca de Mario Vargas Llosa, los pasos de José Saramago sobre la piel de Lisboa, el encanto de Wislawa Szymborska o la inocencia de Wole Soyinka al sentarse sobre un pupitre en su vieja escuela de Abeokuta.

Saramago olhando Lisboa - Fotografia de Kim Manresa

(Saramago olhando Lisboa - Fotografia de Kim Manresa) 

"Otros autores que Manresa recuerda con aprecio, son José Saramago y Doris Lessing. “Saramago nos dijo que aceptaba las fotografías siempre y cuando él hiciera su vida normal y nosotros como si no existiéramos y  lo acompañamos a un reunión del Partido Comunista y a una reunión familiar”, expresó"

Citador #24 - Blimunda de Jesus, Blimunda mulher... Sete-Luas...

Citador #24
Blimunda
(desenho representativo de Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis)


(...) Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem, e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. (...)

Página 102

(Quadro de José Santa-Bárbara, da exposição "Vontades")


(...) Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo. (...)

Página 331

em, "Memorial do Convento
Caminho, 20.ª edição

Revista Digital "Bliminda" #32 Janeiro de 2015 - para descarregar


Link para descarregar a revista digital, de forma gratuita, 
tal como todos os anteriores números 


Apresentação do #32, via Fundação José Saramago
"O ano de 2015 será o oitavo de existência da Fundação José Saramago – o quinto sem o seu fundador – e o terceiro da Blimunda. Desde que em Junho de 2012 foi publicado o número 1, deparamo-nos todos os meses com o desafio de fazer uma revista de acesso gratuito com qualidade e relevância”, diz o editorial desta edição de janeiro da Blimunda, que começa o ano empenhada em dar voz e espaço a diversas manifestações culturais. Para isso, Sara Figueiredo Costa visita o Museu da Marioneta, em Lisboa, lugar que preserva a história – não só portuguesa, mas de boa parte do mundo – dessa antiga tradição teatral.

Ricardo Viel conversa com o escritor Mempo Giardinelli, cuja dívida de gratidão à Literatura culminou na criação de uma fundação em Resistencia, no Nordeste da Argentina, com o intuito de promover a leitura.

João Monteiro apresenta a segunda parte do seu ensaio “Saramago at the movies” sobre as várias adaptações para o cinema de obras de José Saramago.

Andreia Brites faz uma expedição ao passado e recupera uma análise publicada pelo jornal Expresso há 25 anos sobre literatura infantil e juvenil. Como era vista há um quarto de século a produção para os mais pequenos? O texto responde a essa e outras questões.

A Saramaguiana é ocupada por um texto da investigadora Fernanda Cunha intitulado “A beleza serve-se fria”, em que a autora faz uma análise de Levantado do Chão – romance de José Saramago que completa 35 anos em 2015.

A terminar, os desejos de boas leituras e de um lúcido 2015. Até fevereiro!"


José Saramago: “La paz es una militancia” - texto em homenagem a Ernest Lluch


Para ler e reflectir, via "Memórias" da página da Fundação José Saramago
em http://www.josesaramago.org/jose-saramago-la-paz-es-una-militancia/

"No dia 20 de novembro de 2001, primeiro aniversário da morte do professor e ex-ministro da Saúde espanhol Ernest Lluch, José Saramago participou em San Sebastián numa homenagem ao intelectual assassinado pela ETA. No Teatro Principal, o escritor leu um texto que tinha como título: “La paz es una militancia”. Aqui publicamos a sua intervenção na íntegra (texto em espanhol)."






"No centenário de Álvaro Cunhal" ... a serenidade crítica em tom elogioso

Para visita e consulta, aqui
em http://caderno.josesaramago.org/159992.html



"No centenário de Álvaro Cunhal"

"Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: «O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta."

em. O Caderno 2, 31 de Julho de 2009


"Este texto de José Saramago, por ocasião dos 90 anos de Álvaro Cunhal, foi publicado na revista “Pública” do “Público” de 9 de Novembro de 2003"

“Não é o santo que alguns louvam nem o demónio que outros aborrecem, é, mas não simplesmente, um homem. Chama-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a comer os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e a decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos prováveis e possíveis do partido de que foi, por muitos anos, contínua e quase solitária referência. Quer no plano nacional, quer no plano internacional, não duvido de que sejam de amargura as horas que vive o meu camarada Álvaro Cunhal. Não é o único, e ele o sabe. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele foi, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultado que se visse, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Álvaro Cunhal quando ele se retirou. Agora, quando cumpre os seus noventa anos, talvez já não precisemos dele. Mas o que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso.”





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Dom João V e o seu almoxarife... numa aula de economia e finanças - "Memorial do Convento"

El Rei Dom João V, sonha e a obra acontece. 
Custe o que custar. Alguém haverá de se lembrar de pagar.
Eis, com a devida ressalva do autor, uma suposta aula sobre a economia e finanças do reino.

"Retirou-se rasando vénias João Frederico Ludovice para ir reformar os desenhos, recolheu-se o provincial à província para ordenar os actos congratulatórios adequados e dar a boa nova, ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-Fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono nem o altar, põe um rei e um tesoureiro a falar como arrieiros em taberna, só faltava que os rodeassem inflamâncias de maritornes, seria um desbocamento completo, porém, isto que se leu é somente a tradução moderna do português de sempre, posto o que disse o rei, A partir de hoje, passas a receber vencimento dobrado para que te não custe tanto fazer força, Beijo as mãos de vossa majestade, respondeu o guarda-livros."

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição - página 283 e 284

(Iluminura de Dom João V em 1707, por Pompeo Batoni)

Breve informação biográfica, via Wikipédia

"Dom João V de Portugal, o Magnânimo (22 de Outubro de 1689—31 de Julho de 1750), foi o vigésimo-quarto Rei de Portugal desde 1 de Janeiro de 1707 até à sua morte.

O seu longo reinado de 43 anos foi o mais rico da História de Portugal, profundamente marcado pela descoberta de ouro no Brasil no final do século XVII, cuja produção atingiu o auge precisamente na última década do seu reinado.

A primeira e última década do reinado foram marcadas por guerras: 1) a Guerra da Sucessão Espanhola, que levara à tomada de Madrid em 1706, e levou à Batalha de Almansa no primeiro ano do seu reinado, e ainda a combates em África, na América, e na Ásia contra os franceses; 2) mais tarde as campanhas navais contra os turcos no Mediterrâneo, que levaram à vitória na Batalha de Matapão em 1717; e ainda 3) as guerras que Portugal ao mesmo tempo travava no Oriente, na Arábia e na Índia, contra estados asiáticos, nomeadamente contra o Império Marata e os árabes de Omã.

O longo reinado de D. João V pode de certo modo dividir-se em dois períodos: uma primeira metade em que Portugal teve um papel activo e de algum relevo na política europeia e mundial, e uma segunda metade, a partir da década de 1730, em que a aliança estratégica com a Grã-Bretanha gradualmente assumiu maior importância, e o reino começou a sofrer uma certa estagnação.

Como rei, D. João V sempre tentou projectar Portugal como uma potência de primeira grandeza, principalmente nas primeiras décadas do reinado. Exemplos disso são as faustosas embaixadas que por motivos vários enviou a Leopoldo I, Sacro Imperador Romano-Germânico em 1708, a Luís XIV da França em 1715, ao Papa Clemente XI em 1716, ou ainda ao Imperador da China em 1725. Outro exemplo foi o litígio que manteve com a Santa Sé na década de 1720, sobre a questão do cardinalato a atribuir ao núncio apostólico na capital portuguesa.

D. João V foi um grande edificador, e dotou principalmente a capital portuguesa de numerosas construções. Fomentou o estudo da história e da língua portuguesa, mas falhou em melhorar de forma significativa as condições da manufactura em Portugal; e gastou a maior parte da sua riqueza nos edifícios que construiu. Por ironia do destino, a maior parte deles desapareceria pouco depois da sua morte, no grande Terramoto de 1755. Os principais testemunhos materiais do seu tempo hoje são, em Portugal, o Palácio Nacional de Mafra, a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, o Aqueduto das Águas Livres em Lisboa, e a principal parte da colecção do Museu Nacional dos Coches, talvez a mais importante a nível mundial, também na capital portuguesa. No campo imaterial, merece destaque a extinta Academia Real da História Portuguesa, precursora da actual Academia Portuguesa da História, e ainda a criação do Patriarcado de Lisboa, um dos três patriarcados do Ocidente da Igreja Católica.

O último feito diplomático do reinado de D. João V, o Tratado de Madrid de 1750, estabeleceu as fronteiras modernas do Brasil. Vestígios do seu tempo no Brasil são cidades como Ouro Preto, então a capital do distrito do ouro das Minas Gerais, São João del-Rei, assim nomeada em sua honra, Mariana, que recebeu o nome da rainha, São José, a que foi dada o nome do príncipe herdeiro (hoje Tiradentes), e numerosas outras cidades, igrejas e conventos da era colonial."

Notícia do El País - Sevilha recebe a exposição "A Janela de Saramago" de João Francisco Vilhena (16/01/2015)


José Saramago em Lanzarote (1998) / Fotografia de João Francisco Vilhena


"Saramago vuelve sobre sus pasos a los volcanes de Lanzarote"

"Sevilla acoge una muestra con fotografías del Premio Nobel portugués realizadas por João Francisco Vilhena" - Margot Molina (16/01/2015) 


"Llegado a este punto, una duda inquietante me asalta: ¿qué sentido tengo yo?". Quien esto se preguntaba, José Saramago, es quizá uno de los escritores que más ha cargado su obra de sentido, un sentido de la necesidad de contar las cosas tal y como son, de ser fiel reflejo de la realidad que le tocó vivir, de no esconderse, que sus lectores siempre le han agradecido. La frase, junto a otras sacadas de Cuadernos de Lanzarote (1993-1995), fortalece las instantáneas realizadas por João Francisco Vilhena que se exhiben en la muestra Lanzarote: La ventana de Saramago, inaugurada este viernes en la Casa de la Provincia de Sevilla.

"Dios, definitivamente, no existe", reza una de las frases cuidadosamente entrelazadas a las primeras instantáneas en blanco y negro de la muestra que ha inaugurado la presidenta de la Junta, Susana Díaz. Y tanto Díaz como el presidente de la Diputación, Fernando Rodríguez Villalobos, se han referido a los últimos atentados terroristas en Europa. "Estoy seguro de que Saramago no se habría callado en estos días y habría alzado la voz contra la mordaza que el fanatismo está intentando poner a la libertad de expresión", dijo el responsable de la Diputación. Mientras que Díaz se mostró convencida de que el autor de Ensayo sobre la ceguera "habría levantado la voz contra el fanatismo, porque ya en su obra está escrito que el fanatismo es una forma de ceguera".

Lanzarote, la ventana de Saramago incluye tres instantáneas en color y otras 26 en blanco y negro realizadas en 1998, con el escritor portugués como protagonista; y en 2014, cuando el fotógrafo vuelve a los mismos paisajes que recorrió el autor de La balsa de piedra tras recibir el Nobel de Literatura."

José Saramago em Lanzarote (1998) / Fotografia de João Francisco Vilhena

"Están las fotos que el Gobierno de Portugal me encargó en 1998, cuando Saramago recibió el Premio Nobel, que se mostraron entonces en el Gran Hotel de Estocolmo. Junto a esas imágenes, en las que retraté al escritor durante sus paseos por el paisaje volcánico de Lanzarote, he colgado otras tomadas en 2014 en los mismos escenarios que él tanto amaba, ahora vacíos. Está el paisaje, que recuerda a la persona que, lamentablemente, ya no está", explicó este viernes João Francisco Vilhena (Lisboa, 1965).

La periodista y viuda del escritor Pilar del Río desveló la importancia que Lanzarote ejerció en la obra de Saramago. "A partir de Ensayo sobre la ceguera (1995) cambió de estilo. Él lo explicaba con la metáfora de la estatua. Hasta que escribió El evangelio según Jesucristo (1991) había estado describiendo una estatua pero, a partir de El evangelio... le interesó más la piedra de la que esa escultura estaba hecha", recordó la presidenta de la Fundación José Saramago, con sedes en Lisboa y en la casa de Tías (Lanzarote) en la que el escritor pasó la mayor parte de sus últimos 18 años de vida.

La muestra, organizada por la Diputación de Sevilla y el Consulado de Portugal, estará abierta hasta el 1 de marzo e incluye algunos "tesoros" prestados por la Fundación Saramago como los originales del primer libro, Claraboya, y el último, Alabardas, que escribió el autor portugués. Junto a estos folios llenos de tachaduras se puede ver el paisaje de Lanzarote interpretado por otro artista: David de Almeida, en homenaje al hombre que nunca tuvo miedo a desnudar su pensamiento."

domingo, 18 de janeiro de 2015

Revista Blimunda abre espaço para os fotógrafos da comunidade Instagram


"Neste ano de 2015 a revista Blimunda abre espaço para os fotógrafos da comunidade Instagram. Esperamos imagens relacionadas com o universo vasto da revista, dos livros e da leitura à música, das artes à sociedade, da cultura ao meio ambiente. Com ou sem filtros, a cores ou a preto e branco, queremos partilhar nas nossas páginas o olhar de quem nos lê.
Serão elegíveis para publicação as fotos publicadas no Instagram com a hashtag ‪#‎revistablimunda‬ e depois enviadas para o e-mail blimunda@josesaramago.org.
Os autores das fotos seleccionadas serão informados por e-mail da inserção das suas imagens nas páginas da Blimunda."
#revistablimunda


"Reparar" - Inserção no blog/livro "Caderno" ... hoje tão actual

(a Mulher do Médico e o Cão das Lágrimas, a sombra do desespero e a esperança)

Para ler e consultar,
em http://caderno.josesaramago.org/29823.html

"Reparar"

"Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.

Escrevi-o para Ensaio Sobre a Cegueira há já uns bons anos. Hoje, quando se estreia em Espanha o filme baseado nesse romance, encontrei-me com a frase nos sacos da livraria Ocho y medio e na contracapa do livro de Fernando Meirelles "Diario de Rodaje" que a mesma livraria-editora publicou com primor. Às vezes digo que com a leitura das epígrafes dos meus romances já se sabe tudo. Hoje, não sei porquê, vendo esta, eu mesmo tive uma súbita percepção, a da urgência de reparar, de combater a cegueira. Será por tê-lo visto escrito num livro distinto daquele a que corresponde? Ou será porque este nosso mundo necessita de combater as sombras? Não sei. Mas se podes ver, repara."

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição (4 de Março de 2009)

A família Mau-Tempo do "Memorial do Convento" ao "Levantado do Chão"

(...) O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo e vim trabalhar para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província, nem sei como resta gente viva, se não fosse termo-nos acostumado a comer ervas e bolota, estou que já teria morrido tudo, é um dó de alma ver uma terra tão grande, só pode saber quem alguma vez por lá passou... (...)

em, "Memorial do Convento"
Caminho, 20.ª edição, página 235

(Imagem encenação teatral de "Levantado do Chão")


A ler aqui, em http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/saramago/est_dis2.html
"Vieram depois os homens e as mulheres do Alentejo, aquela mesma irmandade de condenados da terra a que pertenceram o meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa, camponeses rudes obrigados a alugar a força dos braços a troco de um salário e de condições de trabalho que só mereceriam o nome de infames, cobrando por menos que nada a vida a que os seres cultos e civilizados que nos prezamos de ser apreciamos chamar, segundo as ocasiões, preciosa, sagrada ou sublime. Gente popular que conheci, enganada por uma Igreja tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado e dos terratenentes latifundistas, gente permanentemente vigiada pela policia, gente, quantas e quantas vezes, vítima inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa. Três gerações de uma família de camponeses, os Mau-Tempo, desde o começo do século até a Revolução de Abril de 1974 que derrubou a ditadura, passam nesse romance a que dei o título de Levantado do Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a lição recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o dirá."


Uma visão da obra "Alabardas Alabardas Espingardas Espingardas" por Emma Rodríguez - "El legado de José Saramago" (Nueva Tribuna)

"El legado de José Saramago" por Emma Rodríguez 

"El año que acaba de finalizar nos ha dejado literariamente un pequeño regalo que tal vez pasó desapercibido bajo el bosque de las novedades."

Via Nueva Tribuna, para ser consultado e visitado aqui 



"El año que acaba de finalizar nos ha dejado literariamente, entre otras muchas cosas, un pequeño regalo que tal vez pasó desapercibido bajo el bosque de las novedades y que vale la pena valorar. Se trata de Alabardas, la novela que no llegó a acabar Saramago y que llega hasta nosotros, lectores y lectoras, en forma de legado. Se trata de una entrega publicada por Alfaguasra y bellamente ilustrada con grabados de Günter Grass, en la que los tres capítulos que el autor logró culminar y que le mantuvieron ocupado hasta el final de sus días, se acompañan de sus anotaciones sobre el rumbo que habría de tomar ese trayecto literario y de dos textos muy esclarecedores: uno del escritor y periodista italiano Roberto Saviano y otro del poeta y ensayista español Fernando Gómez Aguilera, quien se interroga sobre la última puerta que deseaba abrir Saramago, sobre con qué última historia, reveladora de comportamientos y de encrucijadas, quería sacudir nuestras conciencias y obligarnos a abrir los ojos y a pensar.

El escritor, que supo vaticinar la deriva de las sociedades capitalistas y que siempre creyó, pese a su talante pesimista, que otro tipo de comunidades, más despiertas, solidarias, críticas y éticas, eran posibles, quería contarnos la historia de Artur Paz Semedo, un hombre que trabaja en una fábrica de armas y un día descubre que durante la Guerra Civil hubo empleados que llegaron a sabotear bombas para apoyar a los combatientes de la República, corriendo el riesgo de poner sus vidas y sus destinos en peligro. Este hecho le conmociona, le lleva preguntarse por qué no se conocen huelgas laborales en el ámbito de la industria armamentística, a reflexionar sobre el trasfondo de intereses que está detrás de las guerras y a iniciar una investigación, espoleado por su ex-mujer, Felícia, una pacifista convencida, sobre las ganancias de su empresa durante los convulsos años treinta del siglo XX.

Hasta ahí el relato, un relato contado con un  estilo depurado, con un cierto tono de ironía, que nos deja con la imagen del protagonista buscando documentos reveladores en los viejos cajones de un archivo donde el pasado permanece dormido, pero los márgenes de la ficción se amplían a través de los dos textos citados, textos que sitúan la novela inacabada del Nobel portugués en el contexto de su totalidad y le otorgan a la entrega un interesante tono ensayístico.

La obra de Saramago “se levanta como un monumental hito narrativo empeñado en meditar sobre el mal y el error contemporáneos, atento a las desviaciones del ser humano, concernido, en definitiva, por las múltiples variantes de inhumanidad que nos azotan…”, nos dice Fernando Gómez Aguilera, quien tuvo la oportunidad de escuchar al escritor hablar de las búsquedas que le animaban al final, de los planes para la que iba a ser, si le llegaba la vida, su última aportación a la literatura.

Quería Saramago que Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, que iba a ser el título de la historia, fuese, en palabras del ensayista, “una novela de ideas con un fuerte componente de reivindicación y provocación, un revulsivo de filosofía moral para la conciencia de sus lectores, tomando como referencia el inhóspito y lacerante mundo de la producción y el uso de armas”. Quería “diseccionar la paradoja moral del empleado ejemplar, capaz de abstraerse en su rutina de las consecuencias derivadas de su disciplinada eficiencia profesional”. Y, junto a él, como antagonista, dejó trazado el perfil de una mujer “que reúne incomodidad y verdad” y que participa del “brío y del empuje característico de las protagonistas femeninas reconocibles en su obra, portadoras de una llama de esperanza y grandeza”.

Seguimos leyendo a Gómez Aguilera, para quien, en última instancia, lo que pretendía el escritor era “construir su visión sobre la banalidad del mal, el controvertido asunto que Hannah Arendt pusiera encima del tapete intelectual”. “Por desgracia, el mal también es una costumbre superficial, fútil, además de una amenaza permanente para el orden social”, argumenta. “Una estructura comunitaria, si persigue alcanzar éxito, al menos relativo, requiere de seres responsables, coherentes, concernidos por la búsqueda del bien, dueños de una voluntad crítica, dispuestos, en fin, a reconocer y reconocerse en el nuevo derecho humano de objeción y desobediencia que propuso Einstein (…) el derecho o el deber que posee el ciudadano de no cooperar en actividades que considere erróneas o dañinas”.

Todos esos asuntos, a los que tantas vueltas daba Saramago, laten en el fondo de las páginas que ahora llegan hasta nosotros. No sabemos qué destino hubiera sido el de esos personajes ni qué derroteros habría seguido la acción, pero bastan los tres capítulos que dejó escritos para, como hace Roberto Saviano, imaginar posibilidades y continuaciones. El escritor italiano, perseguido por la Camorra por investigar y contar en sus reportajes y libros las tramas del crimen organizado, recuerda una frase de Ensayo sobre la ceguera en la que se dice que en la vida “siempre llega un momento en que no hay más remedio que arriesgarse” y, a partir de ahí, rinde homenaje a quienes no han dudado en hacerlo, aún jugándose la vida..."


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Texto de Gerana Damulakis - "Saramago, sempre Saramago" (1997)

(Fotografia de José Saramago aclamado de pé, pelos seus leitores)


Texto de Gerana Damulakis
Pode ser encontrado e consultado, aqui
em http://www.jornaldepoesia.jor.br/1gerana3c.html

"Saramago, sempre Saramago"

"Quem já leu os romances de José Saramago está acostumado com a alta qualidade literária de livros como Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira; daí que esse leitor pode pegar as crônicas do mesmo autor, pensando, claro!, em encontrar textos de muito boa qualidade também, mas sendo crônicas, pode ser que espere desde logo aquele “desleixo” — digamos assim — inerente à pressa com que se escreve o gênero dito menor da literatura. Ledo engano, vã espera. Saramago é sempre Saramago, seja qual o gênero que escreva. Não se lhe nota queda de qualidade, não se lhe aponta um texto aquém dele mesmo.
Mestre no relato de curto fôlego, José Saramago expressa-se com concisão nas suas crônicas, mantendo, durante todo o tempo da leitura, o interesse, como se estivesse conversando com os leitores de jornais. A crônica é uma prosa, nos dois sentidos; no sentido de gênero e no sentido de quem conversa —e aqui estamos diante, então, daquela faceta da crônica que fez o nosso Adroaldo Ribeiro Costa, cronista por 25 anos diariamente no jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, intitular sua reunião de crônicas como Conversa de Esquina.
A ironia, um dos tropos da retórica, vê-se presente, como de resto em todo aficionado do gênero, para olhar o mundo de forma a redimir todos os leitores. Afinal, “crônicas, que são? Pretextos ou testemunhas?”, pergunta-nos Saramago. A resposta pode ser o que cada um espera que seja: o lugar onde o escritor pode falar por nós, quando usa um timbre que reivindica; o espaço da perplexidade ou da constatação; o momento de reflexão filosófica ao alcance de todos ou, enfim, um exemplo de uma tomada poética tirado agora, oportunamente, da coletânea de textos publicados no diário A Capital (1969) e no semanário Jornal do Fundão (1971-72), intitulado A Bagagem do Viajante ( Companhia das Letras, São Paulo,1996, 205 pp.):
Por causa de tudo isto me veio uma grande vontade de chorar. Ninguém me via, e eu via o mundo todo. Foi então que jurei a mim mesmo não morrer nunca.
Portanto, parece ser simples preconceito o rótulo de gênero menor; o que há é o escritor menor ou o escritor maior diante de determinados gêneros. Assim, o que coloco aqui é a capacidade de Saramago frente à crônica, sem queda, repito, da qualidade literária que lhe é freqüente no romance.
Outro ponto a considerar diz respeito a nacionalidade desse texto que nós — incluo-me no que hoje vejo como um julgamento apressado — estamos acostumados a rotular como “um gênero brasileiro”, quando mais não fosse, “carioca”, o que é mais localista ainda. Cabe refletir: mas se se acha a crônica nos jornais do mundo inteiro, se existem esses espaços para que os jornalistas desenvolvam um texto parecido com a nossa crônica, como considerá-la apenas nossa? O que difere o texto jornalístico das colunas de opinião dos periódicos mundo afora em relação aos nossos textos, talvez seja o humor sempre presente na crônica brasileira; e é com este argumento que vem a aquisição da crônica para a cultura nacional.
Em outros países, essas pessoas que ocupam esse tipo de espaço no jornal são chamados de colunistas, o que, entre nós, não tem o mesmo sentido de cronista. Inserindo a tomada de posição acima na avaliação dos textos de Saramago, motivo do enfoque, constatamos que o escritor português faz crônica no estilo brasileiro. Por outra, não poderíamos olhar a questão sem xenofobia, e avaliar com mais profundidade a colocação e concluir que, independente da nacionalidade, a crônica adquire esse jeito de ser quando escrita por pessoas que a ela se moldam com facilidade, tal como se para escrevê-la tivessem determinado quociente de sensibilidade?
Com o jeito de ser da crônica, José Saramago registra a vida contemporânea, olhando o mundo ao redor para fazer uma primeira leitura, e, deitando no papel o texto para a segunda leitura do mundo. A observação atual pode levá-lo à uma lembrança de infância, ao estarrecimento ou à notificação apenas de um ocorrido que , se agora é irrelevante, depois pode ter importância dentro da recriação de uma época.
E, a propósito de um outro ponto levantado aqui, sobre a crônica ser uma conversa, sabe-se que conversar é uma arte, haja vista Sherazade. Imagine, então, quando tudo é um monólogo, quando a resposta pertence a um interlocutor que você não escuta, não vê, não conhece. Manter a conversa dentro dessas condições é como falar sozinho, contudo, espera-se que ocorra o eco. E isso se dá, seja nos comentários da turma reunida, seja através de uma manifestação do leitor explícita em carta ou, quando possível, por telefone, ou, quem sabe, ao encontrar o cronista na esquina. Afinal, estamos mesmo tratando de uma “conversa de esquina”.
Analisando esse gênero, para o qual ando me debruçando com especial interesse, notei que não escapa aos cronistas em geral o tom de confissão. Por tal veio, intitulei um capítulo de um pretenso livro da seguinte maneira: Hoje estou triste! Saramago não foge à regra, e, na crônica “Natalmente crónica”, acaba confessando-se:
Acontece porém que tenho fortes razões para não estar de bons humores, o que me permite esquivar-me desta vez, se alguma outra caí em tão ingénua fraqueza, ao jogo cúmplice do amplexo universal... Mas o leitor também lá tem a sua vida, quem sabe se dura e difícil, e não há-de aceitar que eu lhe agrave as amarguras. Desculpe o desabafo.
Constate-se o “desabafo”, a confissão e a inclusão, com segurança, deste cronista no rol dos que lá um dia resolvem “repartir” suas “amarguras” com o leitor. E é aí que acontece a cumplicidade, terminando por viciar, porque criamos o hábito de ler “o que diz hoje” o nosso amigo: a pessoa abre o jornal e vai direto procurar aquele canto onde sabe que encontra outro ritmo verbal, outro ritmo de pensamento diferentemente do restante do jornal.
No século que consagrou a crônica, o ganho foi da literatura, enriquecida com o texto mais verdadeiro: o texto que traz o “eu” que fala por todos. Sim, porque a crônica tem um “eu” muito rico, pois se poético quiser sê-lo, pode; se meramente narrativo de um caso esdrúxulo, idem; enfim, se ali se coloca, diz por todo um grupo de opinião; ademais de tudo isto, o “eu” do cronista está livre das amarras que a qualquer outro gênero são impostas em nome da arte. Reunindo todos esses “eus” no seu “eu” de cronista, José Saramago desfila pelo gênero com beleza e poeticidade, com mão firme do prosador que é e com o tom de grande conversador que a crônica requer.
Ampla como gênero, na hora de passar do jornal para o livro, são as características literárias de cada texto que contam pontos para a escolha da seleção. Independente das circunstâncias em que foram escritas, as crônicas ficam submetidas a um crivo, onde não importa a carga brilhante de humor e ironia frente às colocações do autor porque o que ressalta é o aspecto literário.
No total, o cronista português, motivo desse texto, transforma os fatos e os sentimentos do cotidiano em situações e sensações que merecem “não morrer” com o jornal do dia, entrando, assim, para fazer parte do que é perenal, ou, por outra, fazendo literatura."

[Nota do JP: Este ensaio foi escrito 1 anos antes do Nobel!]

José Saramago recorda Ann Nixon Cooper, citada por Barack Obama no discurso de vitória (06/11/2008)

Aqui link para consulta e pesquisa, 
em http://caderno.josesaramago.org/10042.html

"106 anos"
"Essa mulher de cento e seis anos, Ann Nixon Cooper, que Obama citou no seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos, talvez venha a ocupar um lugar na galeria das personagens literárias favoritas dos leitores norte-americanos, ao lado daquela outra que, viajando num auto-carro, se recusou a levantar-se para dar o lugar a um branco. Não se tem escrito muito sobre o heroísmo das mulheres. Entre o que Obama nos contou sobre Anne Nixon Cooper não havia actos heróicos, salvo os do viver quotidiano, mas as lições do silêncio podem não ser menos poderosas que as da palavra. Cento e seis anos a ver passar o mundo, com as suas convulsões, os seus logros e os seus fracassos, a falta de piedade ou a alegria de estar vivo, apesar de tudo. Na noite passada essa mulher viu a imagem de um dos seus em mil cartazes e compreendeu, não podia deixar de compreendê-lo, que algo novo estava acontecendo. Ou então guardou simplesmente no coração a imagem repetida, à espera de que a sua alegria recebesse justificação e confirmação. Os velhos têm destas coisas, de repente abandonam os lugares-comuns e avançam contra a corrente, fazendo perguntas impertinentes e mantendo silêncios obstinados que arrefecem a festa. Ann Nixon Cooper sofreu escravidões várias, por negra, por mulher, por pobre. Viveu submetida, as leis teriam mudado no exterior, mas não nos seus diversos medos, porque olhava à sua volta e via mulheres maltratadas, usadas, humilhadas, assassinadas, sempre por homens. Via que cobravam menos que eles pelos mesmos trabalhos, que tinham de assumir responsabilidades domésticas que iam ficar na sombra, apesar de necessárias, via como lhes travavam os passos decididos, e não obstante continuam a caminhar, ou não se levantando num autocarro, contemo-lo uma vez mais, como aquela outra mulher negra, Rose Banks, que fez história, também

Cento e seis anos a ver passar o mundo. Talvez o veja bonito, como a minha avó, pouco antes de morrer, velha e formosa, pobre. Talvez a mulher de quem Obama nos falou ontem sentisse a serenidade da alegria perfeita, talvez o saibamos um dia. Entretanto felicitemos o presidente eleito por tê-la tirado da sua casa, por ter-lhe prestado uma homenagem que ela provavelmente não necessitaria, mas nós, sim. À medida que Obama ia falando de Ann Nixon Copper, percebemos que a cada palavra o exemplo nos tornava melhores, mais humanos, à beira de uma fraternidade total. De nós depende fazer durar este sentimento."

6 de Novembro de 2008

em "O Caderno"
Caminho, 2.ª edição

"This election had many firsts and many stories that will be told for generations. But one that's on my mind tonight's about a woman who cast her ballot in Atlanta. She's a lot like the millions of others who stood in line to make their voice heard in this election except for one thing: Ann Nixon Cooper is 106 years old."
Barack Obama, excerto do discurso de vitória (06/11/2008)



Informação biográfica, via Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/Ann_Nixon_Cooper
"Ann Louise Nixon Cooper (January 9, 1902 – December 21, 2009) was a centenarian mentioned in United States President-elect Barack Obama's November 2008 election speech as a representative of the change in status African Americans had undergone during the past century and more in America. Before that, she was a noted member of the Atlanta African-American community and an activist for civil rights.
Cooper was born in Shelbyville, Tennessee, on January 9, 1902, and raised in Nashville. She moved to Atlanta, Georgia, in her early twenties with her husband, Albert Berry Cooper, a dentist, and they had four children together.[2] During that time, she served more than fifty years in public work on the board of Gate City Nursery Association and also helped found the Girls Club for African American Youth. Because there were no integrated Boy Scout troops in 1930's Atlanta, she wrote to the Boy Scouts in New York for help in starting Troop 95, Atlanta's first Boy Scout troop for African Americans.[4] When her husband died, Martin Luther King, Jr. sent Cooper a telegram; she also met with Coretta Scott King and saved photographs of the occasion.[5] Cooper first registered to vote on September 1, 1941. Though she was friends with elite black Atlantans like W. E. B. Du Bois, John Hope Franklin and Benjamin Mays, she didn't exercise her right to vote for years, because of her status as a black woman in a segregated and sexist society.
During the 1970s, she served as a tutor to non-readers at Ebenezer Baptist Church. She also served on the Friends of the Library Board, serving at one time as vice president of the board. In 1980 she received a Community Service Award from Channel 11 for being one of the organizers of the black Cub Scouts and serving as the first den mother for four years.
She was also awarded the Annie L. McPheeters Medallion for community service from the Auburn Avenue Research Library on African American Culture and History in 2002."

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exposição “Lanzarote, a janela de Saramago” em Sevilha



Informação e detalhes, via página da Fundação José Saramago, 
em http://www.josesaramago.org/exposicao-lanzarote-janela-de-saramago-em-sevilha/

"Após ser exibida em Lanzarote, Lisboa e Barcelona, a exposição “Lanzarote, a janela de Saramago”, do fotógrafo português João Francisco Vilhena, chega a Sevilha. As imagens de José Saramago e da ilha onde viveu por quase 20 anos, acompanhadas de textos do Prémio Nobel português, poderão ser vistas na Casa de la Província a partir da sexta-feira, 16. A exposição estará patente em Sevilha até ao dia 1 de março.

A inauguração da exposição acontece na sexta-feira, dia 16, pelas 13h30, e contará com as presenças de Susana Díaz Pacheco, presidenta da Junta de Andaluzia, de Fernando Rodríguez Villalobos, presidente de la Diputación de Sevilha, de Jorge Monteiro, cônsul geral de Portugal em Sevilha, e de Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago."



"Adivinha" a poesia de José Saramago cantada por Luis Pastor (disco/livro "Nesta esquina do Tempo")



"Adivinha" a poesia de José Saramago 
Cantada por Luis Pastor 
(disco/livro) - "Nesta esquina do Tempo"

"Adivinha"

"Quem se dá quem se recusa 
Quem procura quem alcança 
Quem defende quem acusa 
Quem se gasta quem descansa 

Quem faz nós quem os desata 
Quem morre quem ressuscita 
Quem dá a vida quem mata 
Quem duvida e acredita 

Quem afirma quem desdiz 
Quem se arrepende quem não 
Quem é feliz infeliz 
Quem é quem é coração"

em, "Os Poemas Possíveis" / 1966

Bartolomeu Lourenço de Gusmão... o padre "Voador" doutorado em recolha de vontades

Pequenos episódios identificativos da personagem

Em "Memorial do Convento" (Caminho, 20.ª edição)

(...) "Diz o padre Bartolomeu Lourenço, No mundo tenho-te a ti, Blimunda, a ti, Baltasar, estão no Brasil os meus pais, em Portugal meus irmãos, portanto pais e irmãos tenho, mas para isto não servem irmãos e pais, amigos se requerem, ouçam então, na Holanda soube o que é o éter, não é aquilo que geralmente se julga e ensina, e não se pode alcançar pelas artes da alquimia, para ir buscá-lo lá onde ele está, no céu, teríamos nós de voar e ainda não voamos, mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres, Nesse caso, é a alma, concluiu Baltasar, Não é, também eu, primeiro, pensei que fosse a alma, também pensei que o éter, afinal, fosse formado pelas almas que a morte liberta do corpo, antes de serem julgadas no fim dos tempos e do universo, mas o éter não se compõe das almas dos mortos, compõe-se, sim, ouçam bem, das vontades dos vivos." (...)

Páginas 123 e 124
(Iluminura de Bartolomeu Lourenço de Gusmão)

(...) "Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de Coimbra, já é doutor em cânones, confirmado de Gusmão por apelativo onomástico e firma escrita, e nós, quem somos nós para nos atrevermos a taxá-lo do pecado de orgulho, maior bem nos faria à alma perdoar-lhe a falta de humildade em nome das razões que deu, assim possam ser-nos perdoados os nossos próprios pecados, esse e outros, que ainda o pior de tudo não será mudar de nome, mas de cara, ou de palavra. De palavra e cara não parece ele que tenha mudado, para Baltasar e Blimunda de nome também não, e se el-rei o fez fidalgo capelão de sua casa e académico da sua academia, são de tirar e pôr essas caras e palavras, que, com o nome adoptado, ficam ao portão da quinta do duque de Aveiro, e não entram, embora se adivinhe o que fariam os três se chegassem à vista da máquina, diria o fidalgo que são trabalhos mecânicos, esconjuraria o capelão a obra diabólica ali manifesta, por ser isto coisa do futuro se retiraria o académico, para só voltar quando fosse coisa passada." (...)

Página 159


(Imagem da ilustração da Passarola)


Via Wikipédia, alguma informação sobre a vida e obra de Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o padre "Voador", em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu_de_Gusmão

"Bartolomeu Lourenço de Gusmão, SJ (Santos, dezembro de 16851 — Toledo, 18 de novembro de 1724), cognominado o padre voador, foi um sacerdote secular, cientista e inventor luso-brasileiro nascido na capitania de São Vicente, em Santos, na colónia portuguesa do Brasil, famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, a que chamou de "passarola".
Primeiros anos[editar | editar código-fonte]
Foi baptizado simplesmente com o nome de Bartolomeu Lourenço, em 19 de Dezembro de 1685, na Igreja Paroquial da vila de Santos pelo padre António Correia Peres. Era o quarto filho de Francisco Lourenço Rodrigues e Maria Álvares. Será mais tarde, em 1718, que adopta a si o apelido de Gusmão em homenagem ao preceptor e protector jesuíta Alexandre de Gusmão2 .
O casal teria tido ao todo doze descendentes, seis homens e seis mulheres, um dos quais, Alexandre de Gusmão, viria a se tornar importante diplomata no reinado de D. João V. Já a maioria dos seus irmãos optou ou foi orientada pelos pais a devotar-se à vida eclesiástica, dentre esses, Bartolomeu.
O menino cursou as primeiras letras provavelmente na própria Capitania de São Vicente, no Colégio São Miguel, então o único estabelecimento educacional da região. Prosseguiu os estudos na Capitania da Baía de Todos os Santos. Aí ingressou no Seminário de Belém, em Cachoeira, onde teria início a sua profícua carreira de inventor.
A edificação, situada sobre um monte de cem metros de altura, possuía precário abastecimento de água, que tinha que ser captada e transportada em vasos a partir de um brejo subjacente. Percebendo o problema, Bartolomeu inteligentemente planejou e construiu um maquinismo para levar a água do brejo até o seminário por meio de um cano longo. O invento, testado com absoluto sucesso, foi considerado admirável e de grande utilidade, inclusive pelo próprio reitor e fundador do seminário, o renomado sacerdote Alexandre de Gusmão.
Terminado o curso no Seminário de Belém em 1699, Bartolomeu transferiu-se para Salvador, capital do Brasil à época, e ingressou na Companhia de Jesus, de onde saiu antes de ser ordenado, em 1701.
Viajou para Portugal, onde chegou já famoso pela memória extraordinária, ficando hospedado em Lisboa, na casa do 3º Marquês de Fontes, que se impressionara com os dotes intelectuais do jovem. Contava ele então com apenas dezesseis anos.
Em 1702, Bartolomeu retornou ao Brasil e deu início ao processo de sua ordenação sacerdotal. Três anos depois ele requereu à Câmara da Bahia a patente para o seu aparelho inventado anos antes - o invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar. A patente foi expedida em 23 de março de 1707 pelo rei Dom João V. Foi essa a primeira patente de invenção outorgada a um brasileiro.
Em 1708, já ordenado padre, Bartolomeu embarcou mais uma vez para Portugal. Logo após sua chegada, em 1º de Dezembro matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Passados alguns meses, contudo, abandonou a faculdade para instalar-se em Lisboa, aonde foi recebido com sumo agrado pelo Rei Dom João V e pela Rainha Maria Ana de Áustria, apresentado que fora aos soberanos por um dos maiores fidalgos da Corte, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes. Esse homem era ninguém menos que o 3º Marquês de Fontes, o mesmo que o havia recolhido à sua casa aquando da sua primeira estada em Portugal.
Na capital portuguesa o padre Bartolomeu Lourenço pediu patente ou "petição de privilégio3 " para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria ser, mais tarde, o que hoje se conhece por aeróstato ou balão –, a qual foi concedida no dia 19 de Abril de 17094 . O fato causou celeuma na cidade e a notícia rapidamente se espalhou para alguns reinos europeus. O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas que, em geral, o retratavam como uma barca com formato de pássaro, ficou conhecido como “Passarola”.
Não só no além-fronteiras que o seu prestígio pelo seu saber deve ter aumentado imenso pois, em 1722, é nomeado fidalgo-capelão da casa real portuguesa.

A Passarola
As primeiras ilustrações da Passarola haviam sido na verdade elaboradas pelo filho primogênito do 3º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses, com a conivência de Bartolomeu. O 8º Conde de Penaguião e futuro 2º Marquês de Abrantes contava 14 anos em 1709 e era, então, aluno de matemática do padre, sendo a única pessoa à qual ele permitia livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado. Como o rapaz vivesse assediado por curiosos, que constantemente lhe faziam indagações acerca da invenção, resolveu ele, para deixar de ser importunado, elaborar o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes –, atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, que era então a resposta para quase todos os mistérios científicos. Esperava dessa maneira melhor proteger o segredo confiado à sua guarda e ludibriar os bisbilhoteiros. Comunicou o plano a Bartolomeu, que o aprovou, e fingiu deixar o desenho escapar por descuido. A Passarola, inspirada ao que parece na fauna fabulosa de algumas lendas do Brasil, acabou sendo rapidamente copiada, logo se espalhando pela Europa em várias versões, para grande riso dos dois embusteiros.
Toda essa trama seria descoberta anos depois por um poeta italiano, Pier Jacopo Martello (1625 – 1727), e revelada por ele na edição de 1723 do livro Versi e prose, em que fazia um longo e meticuloso histórico das tentativas do homem para voar, das mais antigas às mais recentes daquele tempo.

As experiências com balões
Bartolomeu de Gusmão apresenta os seus protótipos à corte de D. João V.
Em Agosto, finalmente, Bartolomeu Lourenço fez perante a corte portuguesa cinco experiências com balões de pequenas dimensões construídos por ele: na primeira, realizada no dia 3 na Casa do Forte (Palácio Real), o protótipo utilizado pegou fogo antes de subir; na segunda, feita no dia 5 noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato, provido no fundo duma tigela com álcool em combustão, se elevou a 4 metros, quando começou a arder ainda no ar, sendo imediatamente derrubado por dois serviçais armados de paus, receosos dum incêndio aos cortinados do recinto; na terceira, feita no dia 6 novamente na Casa do Forte, o balão, contendo no interior uma vela acesa, logrou fazer um voo curto, mas se queimou no pouso; na quarta, feita no dia 7 no Terreiro do Paço (hoje Praça do Comércio), o balão elevou-se a grande altura, pousando lentamente minutos depois; na quinta, feita no dia 8 na Sala das Audiências, no interior do Palácio Real, o globo subiu até o tecto do aposento, aí se demorando, quando enfim desceu com suavidade.

Em 3 de Outubro de 1709, na ponte da Casa da Índia, o padre fez nova demonstração do invento. O aparelho utilizado era maior que os anteriores, mas ainda incapaz de carregar um homem. A experiência teve êxito absoluto: o aeróstato subiu alto, flutuou por um tempo não medido e pousou sem estrépito.

Cinco testemunhas registraram essas experiências: o cardeal italiano Miquelângelo Conti, eleito papa em 1721 sob o nome de Inocêncio XIII, os escritores Francisco Leitão Ferreira e José Soares da Silva, nomeados membros da Academia Real de História Portuguesa em 1720, o diplomata José da Cunha Brochado e o cronista Salvador Antônio Ferreira, portugueses.

Em 1843 o escritor Francisco Freire de Carvalho disse haver tomado conhecimento, por intermédio de um ancião chamado Timóteo Lecussan Verdier, de uma outra experiência aerostática, assistida pelo diplomata português Bernardo Simões Pessoa, em que o balão partiu da Torre de São Roque e caiu junto à costa da Cotovia por detrás de S. Pedro d’Alcântara. Segundo Carvalho, Verdier, por sua vez, assegurava que o relato da ascensão lhe fora transmitido pelo próprio Pessoa em tempos muito anteriores ao ano de 1783, quando dos primeiros voos de balões na França.

Lamentavelmente, todas essas experiências, embora assistidas por ilustres personalidades da sociedade portuguesa da época, não foram suficientes para a popularização do invento. Os pequenos balões exibidos, além de não haverem sido encarados como inovação importante ou útil, por serem desprovidos de qualquer tipo de controle - eram levados pelo vento -, foram considerados perigosos, pois podiam, como se vira, provocar incêndios. Esses factores desestimularam a construção de um modelo grande, tripulável.

Bartolomeu Gusmão e a Inquisição
Neste templo de São Romão mártir repousam os restos de Dom Bartolomeu Lourenço de Gusmão presbítero português nascido na cidade de Santos - Brasil - no ano de 1685, primeiro inventor do aérostato.
Faleceu nesta capital a 19 de Novembro de 1724. A cidade de Toledo dedica-lhe esta lembrança. epitáfio no átrio da igreja de São Romão em Toledo
Entre 1713 e 1716 viajou pela Europa. Em 1713 registrou na Holanda o invento de uma “máquina para a drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar” (patente que só veio a público em 2004 graças a pesquisas realizadas pelo arquivista e escritor brasileiro Rodrigo Moura Visoni).5 Viveu em Paris, trabalhando como ervanário para se sustentar, até que encontrou seu irmão Alexandre, secretário do embaixador de Portugal na França.
O padre Bartolomeu de Gusmão voltou a Portugal, mas foi vítima de insidiosa campanha de difamação. Acusado pela Inquisição de simpatizar com cristãos-novos, foi obrigado a fugir para a Espanha, no final de Setembro de 1724, com um seu irmão mais novo, Frei João Álvares, pretendendo chegar à Inglaterra.
Segundo o testemunho que, mais tarde, João Álvares daria à Inquisição espanhola, Bartolomeu de Gusmão ter-se-ia convertido ao judaísmo, em 1722, depois de atravessar uma crise religiosa. O relato de João Álvares ao Santo Ofício, ainda que deva ser considerado com cautela, mostra, segundo Joaquim Fernandes, aspectos místicos, messiânicos e megalómanos do "padre voador".
Em Toledo (Espanha), Bartolomeu adoece gravemente, recolhendo-se ao Hospital da Misericórdia daquela cidade, onde veio a falecer em 18 de Novembro de 1724, aos 38 anos. Antes de morrer, porém, confessou-se e recebeu a comunhão, conforme o rito católico, e assim foi sepultado na Igreja de São Romão, em Toledo. Foram feitas, ao longo de décadas, várias tentativas para localizar a sua tumba, o que só ocorreu em 1856. Parte dos restos mortais foi transportada para o Brasil e se encontra, desde 2004, na Catedral Metropolitana de São Paulo.


“Saramago según Saramago”, Revista Tres - Montevideu (18 de Setembro de 1998)

(Imagem de mensagem colocada na Fundação José Saramago - fotografia pessoal)


"Embora não sejamos possuidores da verdade, porque isto não existe, somos os que dizemos a palavra não. O sim é rotineiro, está sempre ali. Há que introduzir um não para enfrentar o sim, que é o consenso hipócrita em que mais ou menos estamos a viver."

“Saramago según Saramago”, Revista Tres, Montevideo, 18 de Setembro de 1998