Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Baltasar Garzón 2" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (12/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/16449.html

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

"Baltasar Garzón, 2"
"O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?
O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.
Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.
A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos."

domingo, 11 de dezembro de 2016

"Baltasar Garzón" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (11/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/16228.html

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

"Baltasar Garzón"
"Apesar do tempo agreste, com chuva a espaços e frio, o cinema estava cheio. Carmen Castillo temia que as duas horas e meia de projecção do seu documentário acabassem por fazer desanimar a assistência, mas não foi assim. Nem uma só pessoa se levantou para sair e, no final, com os espectadores rendidos à força das imagens e aos testemunhos estremecedores dos membros do M.I.R sobreviventes da ditadura, Carmen foi aplaudida de pé. Nós, os da Fundação, estávamos orgulhosos daquele público. Havia confiança, mas a realidade excedeu as previsões mais optimistas.À hora a que escrevo, mais de duzentos mil exemplares da Declaração Universal dos Direitos Humanos circulam nas mãos de outros tantos leitores dos jornais Diário de Notícias, de Lisboa, e Jornal de Notícias, do Porto. E hoje, dia 11, será a vez de Baltasar Garzón, que vem expressamente de Madrid para falar de direitos humanos, de Chile e de Guantánamo. Tal como a homenagem às Letras Portuguesas que se realizou ao fim da tarde com grande êxito, a conferência de Garzón será na Casa do Alentejo, às 18 horas. É uma boa ocasião para aprender. Sim, para aprender."

Documentário realizado pelo PCP em homenagem a José Saramago (2008)

Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

"Homenagem do Partido Comunista Português a José Saramago por ocasião do 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Literatura.
Com a presença de José Casanova, Louzã Henriques, Fernanda Lapa, José Santa-Bárbara, Baptista-Bastos, Joaquim Benite, José Sucena, Maria do Céu Guerra, Carmen Santos, Carlos do Carmo e Jerónimo de Sousa."
2.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,

3.ª Parte
Pode ser visualizado e recuperado aqui, via YouTube,



sábado, 10 de dezembro de 2016

Na data em que se assinalam os 18 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura (1998)

O momento da entrega do Diploma e Medalha, 
símbolos máximos e representativos da atribuição do Prémio Nobel

"Concert Hall" em Estocolmo - Suécia 
10 de Dezembro de 1998

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Recuperação do discurso de José Saramago, pode ser consultado aqui via FJS 

"Discurso pronunciado por José Saramago no dia 10 de dezembro de 1998 no banquete do Prémio Nobel

Há 16 anos José Saramago recebia o Prémio Nobel de Literatura em Estocolmo. Abaixo, o discurso proferido pelo escritor durante o banquete.

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto."



"Homenagem" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (10/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/15933.html

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

"Homenagem"
"Hoje, o encontro é na Casa do Alentejo, às 6 da tarde. Como se refere no título, trata-se de uma homenagem. Homenagem a quem? A ninguém em particular, pois que ela contemplará as próprias Letras Portuguesas na sua totalidade, por assim dizer de A a Z, celebradas num acto de canto e de leituras a cargo de vinte escritores, actores e jornalistas que, generosamente, puseram o seu tempo e o seu talento ao serviço de uma ideia nascida na Fundação. O dia escolhido, este 10 de Dezembro de 2008, rememora a entrega do Prémio Nobel a um escritor português que, no seu discurso de agradecimento, entendeu dever partilhar a distinção não só com todos os escritores seus contemporâneos, sem excepção, mas também com os que nos antecederam, aqueles que, no dizer de Camões, da lei da morte se libertaram. Serão lidos ou cantados textos dos seguintes autores: Antero de Quental, Padre António Vieira, Vitorino Nemésio, José Cardoso Pires, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, Pedro Homem de Mello, Miguel Torga, Eça de Queiroz, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Camilo Castelo Branco, Manuel da Fonseca, Almada Negreiros, José Gomes Ferreira, Teixeira de Pascoaes, Raul Brandão, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Aquilino Ribeiro, Almeida Garrett, Luís de Camões, Carlos de Oliveira e Fernando Namora. Um verdadeiro quadro de honra que a todos deve honrar-nos."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"A obra de José Saramago no cinema" análise de Pedro Fernandes no "Letras in.verso e re.verso" (02/08/2010)

O estudioso e académico brasileiro Pedro Fernandes, publicou uma interessante critica sobre as incursões cinematográficas a algumas obras de José Saramago. O documento embora datado do mês de Agosto de 2010 mantém a sua validade e actualidade.
Vale a pena recuperar e ler, como introdução ao visionamento dos filmes.   

O artigo pode ser recuperado e consultado aqui
em, http://letrasinversoreverso.blogspot.pt/2010/08/a-obra-de-jose-saramago-no-cinema.html?m=1#.V6ktdz-1FR8.flipboard

"A obra de José Saramago no cinema", de Pedro Fernandes (02/08/2010)

"Cena de Ensaio sobre a cegueira, a melhor adaptação 
de uma obra de José Saramago para o cinema."

"Perfazendo um caminho pelas sendas do plano virtual motivado por quatro textos de José Saramago que ganharam adaptação para as telas do cinema (A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, A maior flor do mundo e o recente O embargo), descubro o quanto o escritor português mantém uma relação sólida com outros meios artísticos. Sim, porque além das produções cinematográficas perdemos as contas sobre as adaptações de sua obra para o teatro, a dança, as artes plásticas e outras manifestações artísticas. No final desta post, deixo um link para deixá-lo a parte dessas adaptações ou maneiras outras de se aproximar de uma literatura rica e indispensável no currículo de qualquer leitor. E, agora apresento, um a um os filmes já produzidos a partir da literatura de Saramago. Convém dizer que esta lista é aberta e, enquanto este blog viver, e tão logo surjam outras adaptações, volto aqui para atualizá-la.

A jangada de pedra, de George Sluizer (2002): O título de destaque na carreira do cineasta foi O homem que queria saber, a adaptação do romance policial de Tim Krabbé sobre um homem que perde sua noiva numa viagem e, três anos depois, recebe o contato do raptor. Se deu certo com essa adaptação o mesmo não se pode dizer com a releitura do livro de Saramago; o diretor prende-se em transformar a obra num filme discreto e tentando seguir à risca o desenhado pelo romance. O resultado é, apesar de certo zelo com o texto original, um texto moroso que não consegue passar a tela a dimensão mágica da obra saramaguiana. De todo modo, foi a primeira adaptação de um texto de Saramago para o cinema; e, possivelmente, pelo fruto do resultado com Sluizer, o escritor sentiu-se impelido a que não o adaptasse mais para as telas, resistência que só será rompida quase dez mais tarde com a autorização para que Fernando Meirelles adaptasse Ensaio sobre a cegueira.

"Todas as características peculiares do conto infantil de 
José Saramago são perfeitamente desenhadas 
nesse primoroso curta-metragem de Juan Pablo Echeverry."

"A maior flor do mundo, de Juan Pablo Etcheverry (2007): Bem ao contrário, do filme de Sluizer, o cineasta soube desenhar e captar a dimensão desse conto escrito para crianças - o único do gênero na carreira literária de Saramago. No enredo, o próprio escritor transforma-se em personagem, como o escritor que conta a ideia que teve de um dia escrever uma história para crianças. A maior flor do mundo é como uma narrativa que foi inventada mas permanece irrealizada porque, no final, a personagem-escritor vê-se incapaz da escrita para os mais pequenos. Mas, é justamente sobre a impossibilidade de narrar completada pela possibilidade da figura desse menino de fazer algo que signifique para sua infância (este é já o plano do que seria inventado pelo narrador) que torna o texto numa obra singela pela sinceridade e marcada por um apelo moral dos mais necessários às crianças de um tempo já distanciadas do universo fabular dos contos clássicos. O curta-metragem feito com massa de modelar é o próprio texto de Saramago em movimento. E um detalhe especial da adaptação do espanhol foi preservar a figura do escritor que empresta a voz como um narrador em off. Um encanto! A peça já foi premiada em vários festivais ao redor do mundo.

Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles (2008): O filme nasceu de uma obsessão. O cineasta brasileiro, já premiado ao redor do mundo pela adaptação do romance Cidade de Deus, de Paulo Lins e do romance O jardineiro fiel, de John Le Carré, depois de ler o livro de José Saramago decidiu prontamente que gostaria de vê-lo na grande tela. O projeto levado ao escritor teve o rumo contrário de outras tentativas já ensaiadas por diretores sobre outras obras suas; Saramago autorizou a adaptação e, como figura honesta sobre as limitações com o gênero, deixou Meirelles livre na leitura. O filme abriu o Festival de Cannes no ano de lançamento e arrancou elogios e lágrimas do português. Também pudera! A leitura é, de todas as já feitas para o cinema até então, a mais original. O diretor não apenas imergiu na obra, como, assim fez Juan Pablo Etcheverry, conseguiu expor toda força da narrativa em forma de imagem. Produção fotográfica e de som são duas características à parte e, por vezes, até a voz do narrador tão característica de Saramago, não deixa de dar forma à obra.

O embargo, de António Ferreira (2010): O conto que deu morte para o diretor português foi publicado em 1973 pela Estúdios Cor com o mesmo título do filme. Depois, Saramago incluiu o texto na única coletânea de contos até então editada, Objecto quase. Pautado no inusitado (um dia um homem sai para o trabalho e descobre-se que ficou grudado no banco do carro e não consegue mais sair da posição de motorista, quando, na cidade vive-se um embargo para a venda de combustível), a elaboração do roteiro para um longa, tal como se propôs o António Ferreira, exigiu do roteirista a inserção de uma série de outras situações que não estão no texto original. Ainda que o cuidado em deixar passar para o telespectador aquilo que está expresso no conto seja muito visível, a sensação que fica é a de uma história que não consegue manter o ritmo e se sustentar até o fim com o mesmo fôlego com que começa. Tal como A jangada de pedra o título deixa a desejar pela morosidade onde não devia existir morosidade. Ainda assim, é um texto que tomou para si um desafio: alongar-se para dizer o que Saramago disse (muito melhor) em poucas páginas e conseguiu conclui-lo."

"Para transpor uma obra como a de José Saramago há que se ter, 
de tudo, sensibilidade. O filme de Denis Villeneuve despreza isso 
e se torna ao lado de outras produções somente uma leitura que não deu certo."

"O homem duplicado, de Denis Villeneuve (2014): Apesar de ser o autor de filmes sempre elogiados pela crítica (Os suspeitos ou Incêndios), o diretor canadense erra na mão ao transpor para a tela o romance de Saramago. Claro, constrói um enredo muito elaborado, não se descuida de preservar o centro da obra, mas não convence o telespectador de que tenha, tal como conseguiu Juan Pablo Etcheverry e Fernando Meirelles, captado a essência do texto do escritor português. Um exemplo? A inserção do tema da teia, materializado na forma da aranha que se transmuta na perfil da mulher fatal. Essa constatação, aliás, abre-se como uma discrepância gigantesca entre a representação criada por Villeneuve e a criada por José Saramago sobre o feminino. O próprio escritor reiteradas vezes disse repudiar qualquer artifício utilizado para designar a mulher seja como condição superior ou inferior ao homem, seja como fenômeno. Numa escala entre os títulos já transpostos para o cinema, a produção do canadense ficaria logo depois da de Sluizer. Não alcança sequer o António Ferreira, porque o texto de Villeneuve precisou de acréscimos para um texto que já tem a medida a certa, aliás, é um romance, não um conto. E a impressão que fica é que apenas a dorsal da obra foi aproveitada num texto que se intitulou ingenuamente do mesmo título de José Saramago."

Ligações a esta post:
Leia mais sobre o filme de George Sluize

Leia sobre o romance A jangada de pedra

Leia mais sobre o livro A maior flor do mundo e assista ao curta de Juan Pablo

Leia mais sobre o filme de Fernando Meirelles

Leia sobre o romance Ensaio sobre a cegueira

Leia mais sobre o filme de António Ferreira

Leia mais sobre o filme de Denis Villeneuve

Leia sobre o romance O homem duplicado

Assinalando os 30 anos da obra "A Jangada de Pedra" - Recuperação do filme baseado na obra

Capa da edição traduzida na Turquia


Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Sinopse da obra publicada na página da Fundação José Saramago, aqui
em http://www.josesaramago.org/jangada-de-pedra-1986/

«Em “A Jangada de Pedra” (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)

Imagem retirada do filme

"Calle Santa Fe" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (09/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/15618.html

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

"Calle Santa Fe"
"A rua existe, está em Santiago de Chile. Ali, os esbirros de Pinochet cercaram um casa térrea onde viviam (melhor será dizer que se refugiavam) Carmen Castillo e o seu companheiro de vida e de acção política Miguel Enríquez, dirigente principal do M.I.R, sigla do Movimiento de Izquierda Revolucionario que havia apoiado e colaborado com Salvador Allende e agora era objecto da perseguição do poder militar que havia traído a democracia e se preparava para estabelecer uma das mais ferozes ditaduras que a América do Sul teve a desgraça de conhecer. Miguel Enriquez foi morto, gravemente ferida Carmen Castillo, que estava grávida. Muitos anos depois, Carmen vem recordar e reconstituir esses dias num documentário de impressionante sinceridade e realismo que teremos o privilégio de ver esta noite no cinema King. Documentário que é, ao mesmo tempo, graças ao saber e à sensibilidade da sua realizadora, cinema da mais alta qualidade. Até logo, pois."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Já disponível a edição de "O conto da ilha desconhecida" em formato e-book com ilustração de Juergen Cannes


O post da Companhia das Letras pode ser consultado aqui para pesquisar as várias formas de acesso:

Os trabalhos do autor Juergen Cannes, aqui em https://www.facebook.com/sailor.juergen/

"Já está disponível o e-book de "O conto da ilha desconhecida", de José Saramago, uma edição especial ilustrada por Juergen Cannes.

Um homem vai ao rei e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas até que alguém desembarque nelas. Este pequeno conto de José Saramago pode ser lido como uma parábola do sonho realizado, isto é, como um canto de otimismo em que a vontade ou a obstinação fazem a fantasia ancorar em porto seguro."

Acto da doação do espólio de José Saramago - 10/12/2016, 16h30m na Biblioteca Nacional de Portugal



Comemorações do 15.º aniversário da Biblioteca Municipal José Saramago (Loures)

A notícia do evento pode ser recuperada e consultada aqui 
em http://www.cm-loures.pt/Conteudo.aspx?DisplayId=2515

"Dando início às comemorações do 15.º aniversário da BMJS, o vice-presidente da Câmara Municipal de Loures, Paulo Piteira, começou por ler uma carta de Fundação José Saramago, que se demonstrou reconhecida pelo nome do escritor estar associado a esta Biblioteca.
Paulo Piteira afirmou ser “um dia muito feliz para quem trabalha nesta casa da cultura que pertence à população” e “que tem prestado um grande serviço à comunidade”, sendo “um espaço de literacia” que “possibilita o acesso à cultura, ao lazer e ao saber”.
O vice-presidente destacou o trabalho desenvolvido ao longo de 15 anos, evidenciando a vertente social, com o “trabalho muito estreito com as crianças” e “em que temos procurado apoiar as atividades de outras bibliotecas e coletividades”.



“Este ano é particularmente feliz porque inaugurámos a Biblioteca Municipal Ary dos Santos, que passou a servir toda a área oriental do concelho” e “hoje podemos sentir-nos orgulhosos do percurso que temos feito no Município”, afirmou Paulo Piteira, que realçou a “importância que o poder local tem no país, na altura em que festejamos 40 anos de democracia autárquica”.
Com a leitura de um excerto de Levantado do Chão, uma das obras fundamentais de José Saramago, Paulo Piteira, terminou a sua intervenção dedicada aos 15 anos de existência da BMJS.
Cerca de uma centena de pessoas assistiu à inauguração da exposição de artes plásticas Units of Order, de Mónica Capucho, que explicou ter optado “por materiais de construção que se integrassem no espaço da biblioteca” e na qual utilizou “jogos de linguagem”. A exposição está patente até 28 de janeiro de 2017, nos espaços da biblioteca.

Carlos Marques e o "Grupo Algures Colectivo de Criação"

"Seguiu-se, na sala Multiusos, o concerto-teatral Levantei-me do Chão, baseado nas obras de José Saramago, interpretado por Carlos Marques, do grupo Algures, Coletivo de Criação. As comemorações do aniversário terminaram com os elementos do Entrelinhas, comunidade que utiliza a biblioteca como espaço de convívio e trabalho, a lerem um poema e a cantarem os parabéns à BMJS."

"Um conto de fadas desencantado" de Bernardo Carvalho baseado no conto "O Lagarto"

O texto de análise de Bernardo Carvalho foi publicado no "Blog da Letrinhas" e pode ser recuperado e consultado aqui em http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Um-conto-de-fadas-desencantado

Mais informações sobre a editora que edita a obra de José Saramago no Brasil, pode ser acedida em http://www.blogdacompanhia.com.br/ e http://www.companhiadasletras.com.br/

"Um conto de fadas desencantado" por Bernardo Carvalho

"Desde criança, ouço dizer que a literatura de cordel é um vestígio da Idade Média. Daí que não podia imaginar outra coisa além de uma história medieval quando soube da edição de um conto de fadas escrito por José Saramago e ilustrado por J. Borges, mestre pernambucano da xilogravura e da literatura de cordel. Na verdade, o conto de Saramago não tem nada de fadas. O autor toma a precaução de deixar isso bem claro logo no primeiro parágrafo. Ninguém mais acredita em fadas.

O lagarto do título é o que nos resta do dragão. De imaginário e extraordinário na sua existência há apenas o fato de aparecer de repente numa rua de Lisboa. Saramago, homem da razão num tempo em que a razão dá sinais de fraquejar, tenta resistir como pode. Alerta que sua história é o que hoje cabe à nossa desilusão: um conto sem fadas. Até a metamorfose simbólica do lagarto, cercado de polícias nas ruas de Lisboa, estará limitada ao que pode haver de menos imaginário e menos mágico (o vermelho sangue) para terminar na imagem surrada de uma pomba, representação inverossímil da paz onde tudo a contradiz.

Imagem do trabalho em xilogravura de J. Borges 

"O lagarto é um oximoro: um conto de fadas desencantado. É o esforço de um sopro de utopia onde a imaginação já não se aguenta em pé, constrangida pelo lugar-comum. E é por isso que as ilustrações de J. Borges ganham aí um papel ainda mais encantador, porque continuam aludindo, sem pudor nem medo, a um universo mágico que já não pode existir. Como nos quadros de Bruegel, são vestígios do encanto possível, não de fadas, mas do homem comum, num tempo que insiste em nos impor o clichê medieval das trevas."

***

"Bernardo Carvalho nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Estreou com Aberração e desde então tem se destacado como um dos melhores escritores contemporâneos brasileiros, traduzido para diversos idiomas. É autor de Simpatia pelo demônio, Nove noites e Reprodução."

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

“Mantener la casa donde se escribió 'Ensayo sobre la ceguera' es para mí un proyecto moral” - Entrevista de Myriam Ybot ("Diario de Lanzarote" 03/12/2016)

Entrevista de Myriam Ybot, do "Diario de Lanzarote" (03/12/2016), pode ser consultada aqui 
em http://www.diariodelanzarote.com/noticia/"mantener-la-casa-donde-se-escribió-ensayo-sobre-la-ceguera-es-para-mí-un-proyecto-moral"

"Pilar del Río, en imágenes de archivo en A Casa. 
Fotos: Felipe de la Cruz."

Pilar del Río (Granada, 1950) recibió el pasado 16 de noviembre el Premio Luso-Español de las Artes en su sexta edición, un reconocimiento de los gobiernos de España y Portugal a personas o entidades que tienden puentes culturales entre ambos países. La ceremonia de entrega de la distinción se llevará a cabo en Lanzarote, donde la periodista y traductora mantiene abierta a la visita A Casa, sede de la Fundación José Saramago y mascarón de proa de la promoción del conocimiento y la obra del Nobel. Pilar del Río atiende a Diario de Lanzarote desde la Feria Internacional del Libro de Guadalajara (México).

- ¿Qué ha supuesto para usted la concesión del Premio Luso-Español de Arte y Cultura 2016? ¿Es un reconocimiento a su trayectoria personal o al trabajo desplegado por la Fundación José Saramago?
- En su declaración, el jurado del Premio dice que se entrega por haber servido de puente entre las culturas. Y los puentes están hechos de muchos materiales, todos necesarios. En este caso, la voluntad de quienes sabemos que vivir con otros es mejor que vivir separados. Personas, obras e instituciones. Entre ellas está la obra de José Saramago, portuguesa y siempre tan atenta a España, y la Fundación. Es decir, somos muchos juntando voluntades para conocernos mejor.

- El Ministerio de Cultura ha informado de que la ceremonia de entrega del Premio se llevará a cabo en Lanzarote. Nuevamente, el Nobel sitúa a la isla en el mapa cultural internacional. ¿Ha sido y es la sociedad conejera consciente de tal privilegio?
- No soy yo quien debe responder a esa pregunta, son otros. O nadie: Hay mucha gente en la isla y en otros lugares que sin duda responderían que a ellos les da igual que una persona singular haya elegido el sitio donde viven para establecerse y crear. He oído decir: “Qué gano yo con eso”. Y es verdad: ¿qué gana Isla Negra con Neruda o Cadaqués con Dali? José Saramago era hijo adoptivo de Lanzarote y de Tías; le nombraron y él aceptó, como aceptó formar parte del Patronato de Honor de la Fundación César Manrique, dejemos eso claro. Y punto.

- En declaraciones públicas, usted ha anunciado que destinará el montante económico del premio a activar la sede en Lanzarote de la Fundación José Saramago. ¿De qué manera piensa hacerlo?
- Mantener la casa donde se escribió “Ensayo sobre la ceguera” o “Las intermitencias de la muerte” es un proyecto moral mío. Mantener ese espacio como casa museo responde a una necesidad que se puede considerar antigua, pasada de moda, como es compartir con otros el mayor bien al que se ha asistido, el milagro de la creación. Mi casa, -y la de mi familia, dicho sea de paso, que aceptó mi decisión pese a la incomodidad que comporta-, está abierta a la visita pública porque se ha producido el don de la generosidad. Que no es necesario entender, basta constatar que existe, que hay quien comparte lo que tiene. Claro que este premio asegura algo más de vida a un proyecto que exige recursos y protección, así que estamos contentos por ese lado. Y por el reconocimiento de tanta gente de tantos lugares.

“Estoy en la Feria del Libro de México y viendo 
tantas obras siento que no se puede decir que 
el pensamiento y la creación sean algo minoritario”

- ¿Qué es la Declaración Universal de Deberes Humanos? ¿Cómo surge ese concepto y cuáles son sus objetivos?
- José Saramago dijo en su discurso de recepción del Premio Nobel que a la Declaración Universal de Derechos le faltaba la simetría de la Declaración Universal de Deberes. En eso están trabajando especialistas de todo el mundo, juristas, activistas, filósofos, medioambientalistas y gente preocupada por el mundo y sus habitantes. Entre los deberes, el primero, es hacer que se cumplan los Derechos. Luego ya viene el deber de instruirse, de intervenir en la vida pública, de respetar la naturaleza, de procurar el bien común... En fin, es un articulado largo y concreto que nos podría salvar del caos en que vivimos, que más que ciudadanos parecemos consumidores.

"Pilar del Río, en imágenes de archivo en A Casa. 
Fotos: Felipe de la Cruz."


- La presencia de José Saramago en la Historia es incuestionable pero ¿se le recordará por su obra literaria o por su aportación al progreso social por la vía de la reflexión y la palabra?
- Saramago está en la Historia por su obra literaria, que es creación, pensamiento y reflexión. José no se vestía por las mañanas de intelectual y por las tardes de activista, era un ser humano que pensaba, que usaba la razón y la conciencia en todo lo que hacía y era.

“José Saramago dijo en su discurso 
de recepción del Premio Nobel que a la 
Declaración Universal de Derechos le faltaba 
la simetría de la Declaración Universal de Deberes”

- ¿Es suficiente el trabajo en las aulas para el fomento de la lectura? Da la sensación de que la consola gana al libro por goleada…
- Estoy en la Feria del Libro de México y viendo tantas obras siento que no se puede decir que el pensamiento y la creación sean algo minoritario. La consola existe y sirve para jugar, pero algún día, sobre todo cuando se restituya la Educación para la Ciudadanía y se vuelvan a contemplar las Humanidades en los planes de enseñanza, la gente se dará cuenta que solamente con la consola no se crece ni en bondad ni en sabiduría. Y para muchos, estos todavía son valores.

- Con respecto a su trabajo como traductora de la obra de Saramago, ¿no es hora ya de reivindicar el reconocimiento a la aportación de los traductores en la creación literaria?
- Creo que ese papel está ampliamente reivindicado. Podemos leer obras de autores universales gracias a los traductores. José Saramago decía que "las literaturas nacionales las hacen los escritores, la literatura universal la hacen los traductores”. Nada puede ser más hermoso ni más exacto.

"Saviano" - Revisitar "Outros Cadernos de Saramago" (04/12/2008)

Revisitar "Outros Cadernos de Saramago"
http://caderno.josesaramago.org/15602.html

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

"Saviano"
"Há muitos anos, em Nápoles, passando por uma daquelas ruas onde tudo pode acontecer, a curiosidade foi-me despertada por um café com todo o ar de ter aberto as suas portas havia poucos dias. As madeiras eram claras, os cromados brilhantes, o chão limpo, enfim, uma festa não só para os olhos, também para o olfacto e para o paladar, como veio demonstrá-lo o excelente café que me serviram. Perguntou-me o empregado donde era eu, respondi-lhe que de Portugal, e ele, com a naturalidade de quem oferece uma informação útil, disse: “Isto é da camorra”. Apanhado de surpresa, limitei-me a deixar sair da boca um “Ah, sim?” que não me comprometia em nada, mas que me serviu para tentar iludir a súbita inquietação que me roçou a boca do estômago. Tinha na frente alguém que podia ser visto como um simples contratado sem especiais responsabilidades na actividade criminosa dos patrões, mas que a lógica aconselhava a olhar com prudência e desconfiar de uma cordialidade fora de lugar, uma vez que eu não passava de um cliente de passagem que não conseguia compreender como uma revelação aparentemente incriminatória havia sido prestada com o mais amável dos sorrisos. Paguei, saí e, já na rua, estuguei o passo como se um bando de sicários armados até aos dentes se preparasse para me perseguir. Depois de virar três ou quatro esquinas, comecei a tranquilizar-me. O empregado do café podia ser um facínora, mas razão para querer-me mal, não a tinha. Estava claro que se contentara com dizer-me aquilo que eu, como habitante deste planeta, devia ter obrigação de saber, que Nápoles, toda ela, estava nas mãos da camorra, que a beleza da baía era um disfarce ilusório e a tarantela uma marcha fúnebre.
Os anos passaram, mas o episódio nunca se me apagou da memória. E agora regressa como algo vivido ontem, aquelas madeiras claras, o brilho dos cromados, o sorriso cúmplice do empregado, que empregado não seria, mas gerente, homem de confiança da camorra, camorrista ele próprio. Penso em Roberto Saviano, ameaçado de morte por ter escrito um livro de denúncia de uma organização criminosa capaz de sequestrar uma cidade inteira e quem lá vive, penso em Roberto Saviano que tem a cabeça não a prémio, mas a prazo, e pergunto-me se algum dia acordaremos do pesadelo que a vida é para tantos, perseguidos por dizerem a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Sinto-me humilde, quase insignificante, perante a dignidade e a coragem do escritor e jornalista Roberto Saviano, mestre de vida."

"Doação do espólio de José Saramago à Biblioteca Nacional de Portugal" - Comunicado da Fundação José Saramago


Comunicado oficial emitido pela Fundação José Saramago, e que pode ser recuperado aqui
em http://www.josesaramago.org/doacao-do-espolio-jose-saramago-biblioteca-nacional-portugal/

"No dia 10 de Dezembro, quando passam 18 anos da entrega do Prémio Nobel a José Saramago, terá lugar na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) um acto formal de entrega do Espólio de José Saramago à BNP. Desta forma, dá-se seguimento à vontade do escritor quando, antes e depois do Prémio Nobel, entregou à BNP alguns documentos, entre eles o original de O Ano da Morte de Ricardo Reis e o Diploma do Nobel.

«Para aqueles a quem cabe continuar José Saramago, família e fundação, esta era a sua 
vontade e será respeitada» – Pilar del Río, presidenta da FJS

Trata-se de uma doação sem contrapartidas financeiras. O espólio podia ter sido vendido a instituições privadas, mas fica em Portugal tornando os portugueses, de alguma forma, seus herdeiros.  A BNP assegurará o tratamento, conservação e disponibilização para investigadores e sempre em colaboração com a Fundação José Saramago.

Serão doados originais – manuscritos e datilografados – de romances do escritor, assim como correspondência trocada com amigos e outros escritores e cadernos de notas preparatórias para os livros, materiais que constituem a oficina de um escritor.

Por enquanto não há previsão de prazos para a conclusão da entrega dos materiais."

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Entrevista e vídeo de homenagem emitido pelo Canal Sur

Entrevista via YouTube, aqui

"5 libros para conocer a José Saramago" - Publicado no "La Nacion" da Argentina em 19/10/2016

"5 libros para conocer a José Saramago
Una selección de títulos imprescindibles del autor portugués"

A lista foi publicada no "La Nacion" da Argentina e pode ser recuperada, aqui
em http://www.lanacion.com.ar/1948446-5-libros-para-conocer-a-jose-saramago

"Hijo de campesinos y autodidacta, luego de haber abandonado los estudios secundarios porque necesitaba trabajar, el premio Nobel portugués se consagró a la literatura después de los cincuenta años. Su obra celebra la belleza de su tierra y la sensualidad de su gente, pero también interroga de manera crítica la historia de Portugal en busca de las claves que explican la parábola de una nación que pasó de ser un imperio a quedar relegada dentro del propio continente europeo.

Memorial del convento
La publicó a los sesenta años, y es una de sus mejores novelas, junto con El año de la muerte de Ricardo Reis y El evangelio según Jesucristo. Protagonizada por el padre Bartolomeu, Baltasar y Blimunda, recrea en forma fantástica la monumental construcción de un convento, una basílica y un palacio en la ciudad de Mafra, en el siglo XVIII. Fue convertida en la ópera Blimunda por el compositor italiano Azio Corghi y, poco antes de morir, Federico Fellini confesó que era el único libro que le hubiera gustado filmar.

Todos los nombres
Narra la historia kafkiana de un don José sin apellido, gris empleado de la burocracia, que trabaja en la oficina donde se registran todos los nacimientos y defunciones. En la narración, los personajes se empeñan vanamente en eliminar de sus vidas cualquier indicio de la muerte que, marea suave y poderosa, vuelve una y otra vez a mezclarse con los asuntos de los vivos.

El año de la muerte de Ricardo Reis
Uno de los heterónimos de Fernando Pessoa dialoga con el fantasma del propio poeta portugués. Corre el año 1935, Pessoa acaba de morir y se avecinan meses que serán cruciales en la vida de Europa y, como reflejo, en el resto del mundo. Al tono melancólico que se espera de la conversación entre una tenue criatura de ficción y un espíritu, se suma la nostalgia de la despedida anticipada porque, como el título lo indica, no falta mucho para la partida definitiva de Reis.

Cuadernos de Lanzarote
Los diarios del escritor abundan en reflexiones y recuerdos, aun humorísticos, como el que explica su apellido: "Saramago no era el apellido de mi familia, sólo el apodo; yendo mi padre a declararen el registro civil el nacimiento de su hijo sucedió que el empleado estaba borracho, que por su propia iniciativa, y sin que mi padre se diese cuenta del fraude, añadió Saramago al simple nombre que yo debía llevar, que era José de Sousa. Suerte mía fue la de no haber nacido en cualquiera de las familias de Azinhaga que, por aquel tiempo y por muchos años más, ostentaban los arrasadores y obscenos apodos de Pichatada, Culorroto y Caralhana."

El evangelio según Jesucristo
Piedra de escándalo que determinó el exilio del escritor en España, cuando el gobierno de Portugal vetó la presentación del libro al premio Literario Europeo. En viaje a las raíces de la cultura occidental, Saramago da su punto de vista sobre los hechos narrados en los Evangelios. Sobre la fe, dijo: "Nunca recibí educación religiosa, en mi familia eran todos campesinos, muy descuidados de la idea de Dios. Soy lo que llamo un ateo tranquilo. Para mí, Dios sólo existe en la persona que cree en él y entonces tengo que aceptar su existencia en esa persona, peor no fuera de ella, ni que me impongan reglas de conducta que me resultan ajenas. Creo que en esto, como en el resto de las relaciones humanas, la clave es el respeto".

¿Qué otro título agregarías?"

"Pilar. além de Saramago" Entrevista a Pilar del Río (Revista Trip, Luiza Sahd - 28/04/2016)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://revistatrip.uol.com.br/tpm/entrevista-pilar-del-rio-esposa-jose-saramago

"Tpm foi às Ilhas Canarias encontrar a jornalista que mantém vivo o legado do Nobel de Literatura José Saramago. A seguir, ela fala de amor, literatura, ativismo, Hillary Clinton e Dilma" - Luiza Sahd (28/04/2016)

"A casa onde José Saramago viveu por 18 anos – e onde ele morreu tranquilamente, cercado por pessoas queridas em 2010 – está aberta ao público. Tudo permanece como estava enquanto vivia ali o único escritor de língua portuguesa a receber um Prêmio Nobel de Literatura. Torná-la um museu com biblioteca anexa foi a forma que ele e a esposa, a espanhola Pilar del Río, encontraram para dividir com os leitores a vida do artista. Ainda assim, o local funciona como casa fora do horário de visitas. Fui até a ilha de Lanzarote visitá-la e quando cheguei, apesar de serem 10 horas da manhã no horário oficial nas Ilhas Canárias (Espanha), todos os relógios do lugar marcavam 4 da tarde.

Foi neste mesmo horário, em 14 de junho de 1986, que Saramago conheceu Pilar, sua segunda esposa e, com palavras dele, “a mulher que o fez sentir a quarta dimensão do amor.” O primeiro encontro entre os dois aconteceu em Lisboa. Depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, a então apresentadora da TVE Sevilha terminou a leitura decidida a agradecer o autor pela experiência. Durante uma viagem a Portugal, Pilar telefonou para Saramago, que topou encontrá-la, supondo que a jornalista estava querendo cavar uma reportagem. O pragmático escritor contava que sentiu o chão tremer com a visão de Pilar (e descreve um encontro assim no livro que escrevia à época, Jangada de Pedra). O romance entre eles vingou após dois meses de conversas, quando Saramago propôs visitá-la em Sevilha. Em 1988, casaram-se; em 2010, a morte do autor os separou."

"Lanzarote, 2007. 
Pilar descansava no ombro de Saramago enquanto a equipe do 
documentário preparava a luz para as gravações do dia - FOTO: Javier Salas"

"Pilar del Río segue dedicada ao legado do marido. Ela é presidenta da Fundação Saramago, em Lisboa, e cuida de tudo o que envolve suas obras, além da apresentação da Declaração Universal dos Deveres Humanos. A espanhola nascida em Sevilha em 1950, primogênita de 15 irmãos, conquistou corações mundo afora com o documentário José e Pilar (2010). O filme retrata os 4 últimos anos de vida do escritor, a maratona de viagens e trabalhos que Saramago fez cumprir até o fim e, sobretudo, a história de amor impressionante do casal.

Viagem a Lanzarote
Cheguei à Casa em um sábado e fui recebida por Juan José, o Juanjo, filho de Pilar com seu primeiro marido. Juanjo mostrava detalhes do escritório onde o autor escreveu o Ensaio sobre a Cegueira quando uma porta que nem parecia existir, no meio da estante, se abriu. Era uma passagem quase secreta para o andar de cima, reservado à família. Dela, saiu uma mulher de 66 anos bem diferente do que esperávamos: muito mais bonita, moderna e menos viúva do que se poderia supor.

Pilar me cumprimenta rapidamente e pede que eu continue escutando o audioguía. “Presta atenção aí, depois nos falamos”. Ao fim do meu tour, ela volta explicando que está com a jornalista Anabela Mota Ribeiro, uma amiga de Portugal em seu último dia de visita à ilha, e me convida para acompanhá-las até o Parque Nacional de Timanfaya. Fazia 5 anos que Pilar não passava pelos vulcões que foram parte da locação do documentário. Essa era uma das paisagens favoritas do escritor. Sem entender muito bem a que horas nossa entrevista começaria, aceitei o convite. O passeio se estendeu: visitamos um restaurante típico do pueblo de Uga, a antiga capital da cidade e a praia de Famara. “Tudo muito cultural, mas se tiver alguma lojinha com promoções, entramos também!”, decretou Pilar. Dito e feito: saímos de lá, eu e Anabela, com um creme de aloe, cortesia da anfitriã. Passava das 6 da tarde quando Pilar começou a lavar louça e liguei o gravador.

Tpm: Como é sua rotina? Diz a lenda que você trabalha 18 horas por dia. 
Pilar: ¡Ay, no! Jamais. Gosto de ver amanhecer e amanheço antes do dia. Se precisar varar a noite, tudo bem. Mas os meus dias são ordinários e infinitamente mais suaves do que os da maioria dos trabalhadores, que têm muitíssimas responsabilidades. Partilho dessa responsabilidade porque levo adiante o legado de Saramago, mas não sou o Saramago, então é mais fácil."

"Sevilla, anos 80. 
Pilar está maquiada para apresentar o programa 
"Hoy Mismo", da TVE. - FOTO: Acervo pessoal"

"E encontra tempo para tuitar...
 Sim, mas o @delRioPilar é meu único perfil. Não encosto nos perfis da Fundação ou no da Casa porque sou um ser politicamente incorreto e nenhuma instituição precisa se responsabilizar por isso (risos).

No documentário José e Pilar (2010), há um monte de tomadas do Saramago cochilando em coletivas e eventos literários. Em uma delas, Gabriel García Marquez e ele estão em sono profundo. Depois, Saramago confessa que é um saco tirar fotos a cada saída. Você acha um saco ter que lidar com esse lado celebridade? O que é um saco no seu trabalho e qual é a melhor parte dele? 
A melhor parte é encontrar textos de José para enviar a projetos, e também trabalhar sobre as suas ideias. É uma trabalheira, uma honra, um prazer, uma responsabilidade muito maior que minha vida. Anos-luz mais importante do que minha própria vida. O pior é abrir correspondência, porque há uma pessoa por trás de cada carta ou e-mail esperando uma resposta, e não tenho capacidade emocional para responder tudo.

Não tem? 
Dá desespero. As pessoas se empenham, mandam originais, palavras de admiração, e mereceriam uma atenção especial, mas é impossível dar conta. Isso me deixa emocionalmente esgotada.

Já chegou alguma coisa muito absurda pelo correio? 
Do correio físico me protegem mais, na triagem. Mas lembro de uma muito maravilhosa, que era um retrato de José esculpido em pedra, com uma técnica magnífica, que chegou lá como presente de natal e só foi aberto quatro meses depois. Eu tropeçava no pacote e não abria, achando que era material da Fundação. Um dia, falei “mas não é possível, o que tem aqui?”. Por sorte, consegui localizar e agradecer o artista.

Como foi conviver com uma equipe de filmagem durante quatro anos dentro de casa, nas viagens, no hospital e no trabalho, para a produção do documentário? 
O diretor nos escreveu durante anos, tantas vezes e com tanta educação que topamos recebê-lo por 15 dias para uma grande reportagem. Chegou aqui, conheceu Lanzarote e ficou tão fascinado, com tantas ideias, que até José se deu conta de que tinha material ali para algo maior. Era uma produção discreta, com cinco pessoas na equipe. Só pedi que não deixassem cabos no meio do caminho e respeitassem nosso cotidiano e nossa intimidade. A gente nunca ensaiou nada para a câmera. Aliás, se eu soubesse que iria aparecer nesse documentário, teria me maquiado ao menos um dia, porque estou péssima em todas as tomadas!

Você foi criticada pela exposição da intimidade de vocês, em especial quando José ficou muito debilitado e quase morreu? 
Não sei como foi a crítica e nem me importa. Cada um tem direito à sua opinião e não tenho nada com isso. Para o espectador, fica o privilégio de entrar no cotidiano de José Saramago. Lamentavelmente, não tivemos essa oportunidade com um Proust ou um Tolstói. Esse ato de generosidade do José é incalculável. Ele não chegou a ver o filme editado, mas estava comigo aqui, assistindo uma versão ainda sem música e disse: “que bonito ato de amor.”

Como foi a reação das famílias quando vocês decidiram casar? Um cara 28 anos mais velho, e você já tinha o Juanjo e, ele, a Violante (filha do primeiro casamento de Saramago). Todos se entenderam de imediato? 
Primeiro: nós éramos livres e não pedimos autorização a ninguém. Se as pessoas gostariam ou não, tanto fazia. Aparentemente, todo mundo estava bem. Éramos livres para casar como éramos pra tudo o que fizemos juntos. Sabe por quê? Nossa liberdade foi conquistada. Ninguém nos outorgou. Oferecemos continentes um para o outro. Eu conheci o português, ele conheceu a cultura espanhola... Ele se tornou mais acessível e eu, mais prudente. Os portugueses são prudentes e eu sou imprudente por natureza. Tratei de me introverter um pouco."

"Saramago, Juanjo e Pilar no Castelo de São Jorge (Lisboa), 
em fins dos anos 80 - FOTO: Acervo pessoal"

"Pensaram em ter filhos juntos? 
Sim. Por sorte, desistimos.

E não tiveram...
Vamos lá: eu não quis.

Aliás, ser mãe aos 26 anos em 1976 era mais comum. Nesse sentido, mudamos bastante. Teria feito diferente se tivesse 26 anos hoje? Como a maternidade operou na sua vida? 
Ter filhos, naquela época e idade, foi uma consequência natural da vida. Antes, não era uma coisa tão planejada como é hoje. Se tivesse a visão de mundo que tenho agora, não teria sido mãe, porque o mundo vai de mal a pior. Mas a maternidade não afetou meu trabalho, até porque, como mulher tentando entrar num mercado tão masculinizado, não pude nunca me dar o luxo de ficar doente ou dizer “olha, não venho hoje porque tenho que levar meu filho ao médico”. Não tinha isso. E fiquei firme não só pela minha vida profissional, mas por todas as mulheres que estavam tentando conquistar esses postos de trabalho.

E a coisa não mudou tanto assim, ainda. 
Sim, ainda tem gente que não contrata mulheres porque elas podem ter filhos. Nos anos 70, o desafio era conquistar esses cargos. Agora, é conquistar o direito à família. Qualquer país que se orgulhe de dizer que tem 100 milhões de habitantes, ou, sei lá, 10 bilhões, precisa das mulheres para ter filhos. Nós temos esse "contrato" com o Estado. Qualquer família, com um pai e uma mãe, com dois pais e duas mães, qualquer uma, deveria contar com um tempo remunerado para cuidar das pessoas, com instuições próximas ao trabalho para deixar as crianças. Mas não só com creches perto do trabalhos das mães: isso deveria ser uma responsabilidade dividida de forma igualitária.

Você já contou que sua mãe tinha a “profissão” de parir e cuidar da casa, enquanto seu pai trabalhava como agente de seguros, sem se envolver muito com a vida doméstica. Sendo a mais velha de 15 irmãos, teve uma infância de verdade? Seu referencial de feminilidade era esse? Casar, ter um monte de filhos...? 
Não, que horror, que horror! Minha mãe teve 15 filhos e quase nenhum neto, porque vimos isso tudo como era. Não tive infância e isso não foi um trauma. Ajudávamos cuidando do lar, dos mais novos, somos maravilhosas na cozinha, sabemos fazer um jantar delicioso – mesmo quando não há rigorosamente nada na despensa... Aprendi a organizar o tempo, a vida. Não tinha nada de mágico ou literário como se acredita que deve ser uma infância. Fizemos o que fazem hoje 80% das mulheres e alguns homens. Nada de extraordinário. Os homens daquele tempo não faziam nada em casa. Eles trabalhavam fora e diziam que as mulheres não trabalhavam. Perdão, mas as mulheres não paravam um minuto! O que elas não recebiam era um salário.

Como foi a trilha até virar uma das primeiras jornalistas da sua comunidade durante a ditadura franquista (1939-1976)? 
Queria ser jornalista de rádio desde pequena. Comecei a escrever minhas coisas, arrumei alguns trabalhos e fui tocando a vida. Na ditadura, contávamos o que podíamos, que era pouco. A gente dizia uma coisa para insinuar outra. No rádio, falava correndo o que queria nos primeiros 15 segundos do programa porque, depois, a transmissão podia ser cortada. Fui mandada embora no dia em que Franco morreu, porque alguém disse ao editor que brindei com champanhe. Na verdade, não brindei porque estava grávida e o álcool me dava enjôo. No dia seguinte, ele telefonou se desculpando e me readmitiu.

Você já cravou que “se o mundo for justo, ainda vou conhecer Hillary Clinton.” Conheceu? Continua alinhada com as ideias dela? 
Ainda não, e pode ser que encontre com ela e com Angela Merkel na ONU. Não concordo com Hillary em tudo, mas sigo pensando que os EUA precisam ser liderados por uma mulher. Não é perfeita e, ideologicamente, sou mais simpática ao Sanders. Em quem eu votaria? Nela. Apesar de levar o sobrenome daquele marido. Não é uma mulher odiosa, então eu votaria nela porque acho que precisamos de mais visibilidade e cargos de liderança. E o Clinton... que se dane.

Como vê a atuação de Dilma Rousseff e a eclosão da crise política brasileira? Na posição dela, teria renunciado? 
Renunciar nunca. Não, não. É a presidenta eleita democraticamente, e, pelo que sei até agora, não há nenhuma condenação contra ela. Fui ao Brasil pela primeira vez há 25 anos e havia corrupção por toda parte. Agora, o que se diz é que a corrupção no país foi inventada pelo PT. Se cometeram atos ilícitos mesmo, vou achar uma pena. Mas acho uma pena também que Dilma tenha governado tão desamparada por Lula e pela própria chapa. Agora, essa oposição corrupta diz que o PT não pode roubar o Brasil... Logo eles? Tem algum santo ali? Me parece que não. Se o povo fosse às ruas para derrubar os corruptos de todos os partidos, a história seria outra.

Como seria? 
Se a Dilma cai agora, que boa opção vocês têm? Minha opinião é que deveria cair todo mundo, claro. O país precisa de uma liderança jovem, dinâmica, honesta, indignada. Precisaria de um Podemos [partido político espanhol de esquerda, fundado em 2014]. Mas para que vocês estão me metendo nessa guerra? Vou acabar tão achincalhada no Brasil quanto o Chico Buarque, que mal pode sair na rua em paz.

Falando nisso, o Brasil é conservador, de modo geral, e especialmente quando tratamos legislações sobre a mulher. Qual política pública, na sua opinião, é mais urgente para as brasileiras? 
Esse conservadorismo é um problema cultural, e problemas culturais se resolvem com cultura, educação, e leis que proponham a igualdade. Só assim a gente sai da posição de objetos ou escravas. Somos seres importantes, merecemos os mesmos direitos que os homens... somos metade do céu! As próprias mulheres têm que se dar conta disso. Que sejam o que quiserem, por si mesmas, não em relação ao olhar masculino. Respeitar o nosso corpo, nossa natureza, e nunca nos colocarmos como tapete para alguém pisar. O que vou dizer agora pode desagradar muita gente, mas todo mundo espera que sejamos dóceis, sorridentes, simpáticas, empáticas e tal, enquanto um homem pode ser autoritário, antipático, cruel. Então, de vez em quando é bom que surjam mulheres autoritárias. 

(Nesse momento, Pilar interrompe nosso papo porque precisa estar na biblioteca para a abertura de um sarau na Casa. Ali, fui convidada por uma senhora a ler uma poesia em espanhol. Meu papel era o de número 64 e, duas horas depois, quando saí da leitura, Pilar estava servindo azeitonas os convidados, guardando cadeiras, conversando com todo mundo e procurando um dos gatos da casa, o Peixe. Tudo ao mesmo tempo. Ela sugere que continuemos no dia seguinte e trata de arrumar uma carona para mim, já que não há muitas opções de locomoção na ilha à noite. No domingo, passa com uma amiga pela praia onde estou hospedada para me levar de volta à Casa. Continuamos:)

Saramago disse que tinha ideias para livros enquanto você tinha ideias para a vida. Qual foi a coisa mais importante que ele te ensinou? E você a ele? 
Compartilhávamos tudo: a vida, nosso dia a dia, nossos idiomas, e, o mais importante, uma forma de ver o mundo da perspectiva dos pobres. Sou muito grata por isso. Ele conhecia o Brasil, mas muito pouco da América Latina. Acredito que eu o tenha ensinado a olhar para todo esse continente e fazer parte dele, porque ali era um pouco a minha casa também. É o lugar do mundo onde sou mais feliz.

Pode parecer meio paradoxal que uma mulher tão forte e com uma carreira promissora na televisão tenha deixado o trabalho para cuidar da obra do marido. Em que momento e por que tomou essa decisão? 
Porque tem gente que passa a vida inteira estudando um único livro de um único autor, imagina? Eu tive a oportunidade de viver com o autor! Conseguir entrevistar fulano ou ciclano é extraordinário, mas viver com essa pessoa é duplamente extraordinário. Não sacrifiquei minha carreira. Fiz minha opção. Ele foi uma figura fundamental do século 20.

Acha, honestamente, que a voz de Saramago teria ganhado tanta amplitude sem o seu trabalho nos bastidores? 
Sinceramente, não tenho nada com isso. A obra dele é tão necessária que, mais cedo ou mais tarde, o reconhecimento chegaria. Só lamento é que não haja ainda mais repercussão [dos livros] dele em determinados países, porque é uma obra que empodera os seres humanos. Uma pessoa que encontra Blimunda [personagem de O Memorial do Convento] nunca mais vai ser a mesma. Alguém que deixe de ver a morte como uma desgraça depois de ler As Intermitências da Morte ou que reflita sobre a nossa insensibilidade lendo Ensaio sobre a Cegueira... essa pessoa se torna mais lúcida."

"Lanzarote, 2016 - FOTO: Anabela Mota Ribeiro"

Ele escrevia e você traduzia para o espanhol ainda durante a elaboração de cada livro. Você opinava sobre os rumos dos romances? Inspirou personagens, discutiu desfechos? 
Os escritores nunca pedem opinião, e seria idiotice ficar dando palpites. Aliás, o Jorge Amado, enquanto escrevia Dona Flor e Seus Dois Maridos, caiu na cilada de comentar os rumos do livro com amigos e todo mundo ficava opinando “isso não!”, “com quem ela fica?”, “e agora?”. No fim, contou que o livro não ficou como ele queria porque foi atrás das opiniões. O que eu tenho, sim, são duas intervenções pequenas na obra de Saramago. Em Todos os Nomes, quando acaba a luz, a secretária eletrônica continua funcionando. E eu falava “José, se não tem luz, não tem secretária eletrônica!”. Ele teimava comigo que o telefone funciona quando a luz acaba, mas insisti mil vezes que telefone funciona sem energia elétrica; secretária não. Ele teve que mudar isso em nome da lógica e depois de fazer a prova ao desligar a luz. A outra foi na última frase de A Caverna. Era  “Já pode comprar seu bilhete”, e eu traduzi “Já pode comprar sua entrada”. Ele disse “sabe de uma coisa? Gosto mais dessa palavra.” E colocou “entrada” no original.

Essa ilha é de uma beleza alucinante. Qual era o melhor momento na rotina de vocês aqui em Lanzarote? 
Era uma vida normal. Tenho até pena quando chega um jornalista em busca de grandes histórias e grandes acontecimentos porque isso aqui era uma casa comum, em que a gente vivia e trabalhava. Tomávamos o café da manhã nesta mesa em que estamos sentadas, lá pelas seis da tarde Saramago nadava na piscina, passávamos um tempo conversando no jardim. A única coisa que rompia esse cotidiano eram as visitas. Mas a gente incorporava as pessoas nos nossos compromissos, para que todo mundo se sentisse livre e José pudesse seguir sua rotina. A liberdade é a única norma desta casa.

E vocês recebiam muitas... 
Quando chegava aqui Sebastião Salgado espalhando seu material nesta mesa, ou Bernardo Bertolucci, Pedro Almodóvar, Carlos Fuentes, Eduardo Galeano, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag... Vinham, passeavam pela ilha, algumas vezes a gente podia acompanhar, outras vezes não. Sentávamos aqui, comíamos, e seguíamos trabalhando. Nosso maior privilégio, nosso grande luxo era que eles estivessem aqui. Seria maravilhoso se essas paredes pudessem contar histórias.

Mudou muito desde que Saramago partiu? Você deve ter precisado ajustar o mindset para sair da casa em que viveram por 18 anos e estabelecer um novo ritmo em Lisboa… Ficou um buraco na sua rotina? 
Nada. De novo, lamento desmistificar tudo isso. Fizemos o luto juntos. José sabia que estava morrendo e fomos nos acostumando à ideia de viver separados, falamos sobre o destino das cinzas [que estão sob uma oliveira em frente à Fundação Saramago, em Lisboa]. Ponto final. Ele ia morrer e eu viveria o tempo que fosse, sem desabar. E, olha, estou em pé, cumprindo meu compromisso com o legado dele.  

Você acaba de dizer “viver separados”. Acha que, em algum lugar, ele vive? [No documentário, a primeira frase de Saramago é “Pilar, nos vemos em outro sítio”, apesar de o escritor ter sido ateu até o fim da vida] 
Não. Talvez na minha memória. Ele se acabou. Passou ao mesmo lugar que estava antes de nascer: ao nada, ao silêncio. Mas as recordações me habitam, é lógico [quando Saramago morreu, a Fundação fez uma celebração por mês durante nove meses, como se a morte fosse o exato revés de uma gestação].  

Ele pediu que você “o continuasse” depois da morte, e é isso o que você faz, presidindo a Fundação, cuidando das adaptações e traduções da obra dele. E a Pilar, como continua, com esse marido onipresente e os relógios da casa parados às 16h? 
Olha, não sou uma viúva desolada de jeito nenhum. Não sou nem viúva e muito menos desolada. Não choro pelos cantos, tenho meus amigos e, quando me visto de preto, é porque gosto de roupa preta. Não estou de luto nem de corpo e nem de alma. Se você quer perguntar sobre namorados... escuta, é que eu tenho 66 anos e a cronologia é o que é. Evidentemente, não tô no mercado do amor.

Mas poderia. Durante esses seis anos sem ele, já pensou em namorar? As pessoas te dão palpites nesse sentido? 
Nunca ninguém me deu esse palpite.

Provavelmente porque ninguém é louco de se arriscar a opinar sobre a sua vida.[Rindo] 
Não, eu teria achado bom receber um palpite assim, mas jamais recebi, acredita?

Acho que já sei a resposta para essa pergunta depois de dois dias de entrevista mas lá vai: será que a opinião pública te crucificaria caso voltasse a se apaixonar?
Ficaria escrava da opinião pública e me manteria em castidade [risos]. Vamos lá: aparece um senhor, eu gosto dele, ele gosta de mim… Ué, nenhum problema! Eu anunciaria feliz. E seguiria tentando fazer da maneira mais digna o meu trabalho.

[Nesse momento, me emociono. A essa altura, já torcia para que Pilar, secretamente, tivesse um namorado. Ela pergunta por que estou chorando]. Ops, desculpe pela descompostura! 
Não precisa se desculpar! Me encanta! Mas por que você está chorando?

É que a vida é pode ser muito brutal de vez em quando, não? Assim como você, tenho pavor de aviões. Antes de cada viagem sozinha, digo ao meu marido que, se aquela geringonça cair, arrume logo um amor e siga a vida. 
[Pilar arranca um pedaço de papel toalha, me estende e faz uma cara marota]. Não se preocupe. Mesmo que a gente não peça, é isso mesmo que eles fazem! Se fosse eu que tivesse morrido, quantos meses você acha que José ia esperar? [voltamos a gargalhar].

Vocês chegaram a conversar sobre essas coisas? Ele pediu que você voltasse a se casar? 
Vamos ver. Nenhum homem é tão generoso. Não… Ele me disse que seguisse a vida, e entendo que é seguir a vida com tudo o que isso implica. Não ficar paralisada me lamentando. A maioria dos homens não entra em detalhes amorosos assim, com todas as letras.

Verdade! Meu marido pega avião e nunca me diz pra arrumar outro em caso de desastre! 
Então. Lembro de quando propus que viéssemos morar em Lanzarote e ouvi a típica resposta masculina: “que loucura, Pilar! Lanzarote?” No dia seguinte, quando levantamos, veio a segunda reação típica de homem: “Ei, Pilar… Sabe que essa ideia de ir a Lanzarote não é tão má assim?” Só faltou a terceira atitude tipicamente masculina, de chegar dizendo: “Pilar, sabe que estive pensando aqui e poderíamos nos mudar para Lanzarote?”. Só faltou essa! José se alegrava de não ter caído nela.

Como mulher, quais foram – e quais são – seus maiores desafios? Ainda há muita coisa que queira conquistar? 
Quero fazer a Declaração Universal dos Deveres Humanos, e morro tranquila se fizer isso. Também preciso terminar de organizar o legado e os papéis de Saramago, que ainda não estão completamente em ordem. Fora isso, tenho projetos de que gostaria de participar mais, colóquios, parcerias com Universidades. Não faço muita distinção entre vida e trabalho. É tudo a mesma coisa! Sou jornalista, sou ativista e cuido do legado Saramago 24 horas por dia.

O que diria, se pudesse, para todas as mulheres do mundo? 
Sabe, eu adoraria ser Secretária Geral das Nações Unidas (ONU). Acontece que ninguém se deu o trabalho de me convidar. Se, em algum momento, eles se animarem a fazer o convite, diria a todas as mulheres que não aceitem com resignação o papel que a sociedade patriarcal nos impõe. Que não nos conformemos e que não tenhamos medo. Que escrevamos nossa história, e tenho certeza de que podemos escrever uma bela história, com todas as contradições que ainda existam.


É hora de escolher fotos. Sentada no chão, com perna de índio, Pilar mostra álbuns de família e folheia com atenção uma entrevista antiga de Saramago. Depois, solta uma gargalhada: “¡Por Diós! Fui eu que o entrevistei e não me lembrava. Vou pedir para republicarem na Blimunda!” [revista digital da Fundação Saramago].

Ela também posa para retratos e conversa alegremente, fazendo um catwalk para a câmera no último instante, como quem diz “agora chega!”. A entrevista que não começava de jeito nenhum dá muita pena de terminar, mas Pilar me tranquiliza: vamos falando!