Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Revista Blimunda #92 Fevereiro de 2020 "Entrevista a José Saramago por Ernesto Sampaio - Diário de Lisboa / Março de 1980

Publicado na edição #92 de Fevereiro 2020
"José Saramago e o Alentejo: Um livro “levantado do chão”
Entrevista por Ernesto Sampaio"


A edição pode ser consultada e descarregada gratuitamente aqui
em https://www.josesaramago.org/blimunda-92-fevereiro-de-2020/

Levantado do chão, assim se chama o último livro de José Saramago, recentemente lançado pela Editorial Caminho. «Do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira» — explica o autor, que também nos diz que «um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando o terminasse: Isto é o Alentejo». José Saramago, escritor, poeta, jornalista: aí o temos na nossa frente, simples, claro, frontal, para quem escrever é aproximar-se da vida, evocar-lhe as suas altas situações, e para quem a literatura é sempre conhecimento, transformação, libertação.

Diário de Lisboa — O seu livro baseia-se na história de vida de três gerações de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo. Como nasceu essa ideia?
Se o 25 de Novembro não fosse o padrasto que é, eu diria que este livro tem no 25 de Novembro a sua paternidade. A situação em que então me achei, sem emprego nem esperança de o conseguir, pôs diante de mim a grande questão: que é que eu vou fazer? Claro que a exigência imediata era o estômago e a conservação do tecto. Deitei mão ao costumado recurso dos intelectuais desempregados: a tradução. Fique dito, de passagem, que até hoje já lá vão cerca de dez mil páginas traduzidas. Mas você falava do livro, perguntava como me veio a ideia... Se o pai é o 25 de Novembro, a mãe é o acaso. O meu primeiro movimento, isto no que toca a perspectivas de produção literária, tinha sido transportar-me para as terras ribatejanas onde nasci, levar a traduçãozinho em estaleiro (por sinal um volumoso tratado de psicologia) e tentar o livro campestre que eu andava a sentir necessidade de escrever. Motivos vários impediram a realização do projecto por aquelas bandas. Além disso, parecia-me errado ir cometer uma espécie de regresso ao ovo natal. Foi então que me ocorreu o contacto que estabelecera, em meados de 1975, com a UCP «Boa Esperança», de Lavre, por causa de uma entrega de livros para a biblioteca que eles andavam a organizar. Escrevi, perguntei se podia ir, como seria isso de comer e dormir, e se havia lugar onde trabalhar, um espaço para a máquina de escrever. Eles responderam: «Venha». E eu fui. Estive em Lavre, da primeira vez, dois meses, depois, por intervalos, umas tantas semanas mais, e quando de lá voltei trazia cerca de duas centenas de páginas com notas, casos, histórias, também alguma História, imagens e imaginações, episódios trágicos e burlescos, ou apenas do quotidiano banal, acontecimentos diversos, enfim, a safra que é sempre possível recolher quando nos pomos a perguntar e nos dispomos a ouvir, sobretudo se não há pressa. Andei por Lavre, Montemor-o-Novo, Escoural, por lugares de gente e descampados, passei dias inteiros ao ar livre, sozinho ou acompanhado de amigos, conversei com novos e velhos, sempre na mesma cisma: perguntar e ouvir.

Quando um alentejano se decide a falar ninguém o cala
Por fim, já nem fazia perguntas. Quando um alentejano decide falar, ninguém o cala. Além disso, também há alentejanos que escrevem. Não serão muitos? Eu tive a sorte de encontrar um. Você pode imaginar o que é estar em conversa com um velho rural de 70 anos, digo eu, dizes tu, e de repente ele abre ali uma gaveta, tira uns poucos cadernos de papel almaço, escritos em letra garrafal e firme, creia que até os erros de ortografia eram firmes: «Está aqui a história da minha vida.» Foi isto que me aconteceu. Levei para ao meu buraco a história de João Domingos Serra contada pelo próprio, li-a nessa mesma noite, a tremer de comoção e frio (era Março), e quando acabei tinha, finalmente, a trave mestra do que viria a ser o Levantado do Chão. Aquela vida verdadeira era como uma fiada de pedras postas a atravessar a corrente torrencial de dados em que já me ia submergindo. Por cima de tal podia agora circular a minha vontade. Mas a vida, se reparamos bem, só é o que vidas forem. A esta de João Serra juntaram-se outras, a do Machado, do Abelha, do Badalinho, do Catarro, do Cabecinha,da Mariana Amália, a de outro João, o João Basuga, meu amigo do coração, e tantos, tantos mais. Quem lhes quiser conhecer os nomes, falo dos que mais perto estiveram de mim, encontra-os na dedicatória do livro. também lá estão os nomes de dois mortos. Não há inconvenientes. Estes vivos e estes mortos fazem boa companhia uns aos outros. Enfim, se eu não tivesse, num dia daquele ardente Verão de 1975, levado livros a Lavre, não existiria este livro. Um espírito malicioso e facilmente hábil dirá que não há certeza de se ter ganho alguma coisa com isso. Ouso crer que não se perdeu.

Estão aí muitos livros por escrever
Pelo menos uma certeza eu ganhei: a de que estão aí muitos livros por escrever, de Norte a Sul, à espera. Eu fui a Lavre, concelho de Montemor-o-Novo, e escrevi um. Não inventei nada, claro está, ao viajar até ao Alentejo. O que eu fiz, outros o fizeram antes de mim, nesse e outros lugares. Honra lhes seja feita. O meu receio é que poucos estejam dispostos a fazê-lo agora, quando mais necessário é.

Levantado do chão fala de gente real, utiliza testemunhos vivos, mas não é propriamente jornalismo. É literatura de elevada expressão poética. Fala-me dos problemas formais que teve de enfrentar para transformar a vida, que é o suporta da sua narrativa, no objecto estético em que o livro acaba por se transformar.
Boa pergunta, já lhe disse que quando regressei de Lavre trazia comigo uma montanha de apontamentos, notas, registos vários, gravações, documentos. Bastaria arrumar um pouco, sistematizar um pouco, limpar o supérfluo, acrescentar o comentário, aliteratar onde fosse conveniente, afinar o tom. Porém, não foi assim. Quando decidi instalar-me em Lavre, não era essa a intenção que levava. O que eu queria era escrever um romance, não uma reportagem, por mais útil e exemplar que ela pudesse ser, como tantas que felizmente têm vindo a ser escritas, algumas delas excelentes materiais para futuras obras. Mas a decisão de escrever um romance também não era pacífica. Um romance, sim senhor, mas que romance? Modelos, se eu os quisesse tomar, não me faltavam, e ilustres. Muita gente escreveu sobre o Alentejo, alguns escreveram certo e bem. E ainda escrevem. Para mim, poderia ser fácil e fazer-me beneficiar de uma certa e bem humorada condescendência. Assentar os pés nas pegadas marcadas pelos colegas e já aprovadas pela critica, seguir o itinerário, deixar-me ir. Ficava a história contada, o livro rematado, a obrigação cumprida sem excessivos riscos. Também isso não quis fazer. Mas, se sabia claramente o que não queria, tive de esperar que viesse a mim o que fosse meu. Estive em Lavre em 1976, o livro aparece em 1980, quatro anos depois. É certo que entretanto concluí outro romance, escrevi um livro de contos e uma peça de teatro, mas essencialmente, o que eu estive foi à espera de que terminasse o trabalho de germinação que sabia estar a fazer-se. Posso garantir-lhe, com toda a simplicidade e sem disso me gabar, que não tive de resolver quaisquer problemas formais, no sentido que a palavra «resolver» contenha de esforço, tentativa, rectificação, ajuste, pesquisa. Limitei-me a ter paciência, a não forçar o tempo. O livro foi escrito, por assim dizer, em dois períodos: o primeiro de dois dias, para as quatro páginas iniciais; o segundo de alguns meses, para o resto. Entre esses dois períodos tão desiguais, decorreu muito tempo.

«Só poderia escrever o livro se o contasse» 
Até que um dia compreendi (foi uma coisa súbita de que mal tenho memória) que só poderia escrever o livro se o contasse, isto é, transformando-me eu me narrador multiplicado, de fora de dentro, próximo e distanciado, grave e irónico, terno e brutal, ingénuo e experiente, um narrador que ao dizer a realidade, e para a dizer, fosse capaz de a inventar em cada momento. Percebi que isto só poderia ser feito se reconstituísse a oralidade na escrita, se fizesse da escrita discurso no sentido próprio, mas rejeitando sem piedade qualquer tentação de transcrição fonética, que é a pior das armadilhas. Sacrifiquei sem nenhum remorso o pitoresco, a cor local, o folclore. Com isto tudo, não tive de empurrar nenhuma porta, foi ela que se abriu quando me aproximei pelo caminho certo. A partir daí foi fácil. Diria que escrevi este livro com espírito liberto, com a espontaneidade do narrador que se abandona à imaginação e às arcas da memória para tornar diferente as histórias que ouviu, por saber, ou ser sua pessoal convicção, que a diferença é justamente o melhor que a história contém, ou virá a conter, se alguma vez mais vier a ser contada, por mim, por você, pelo leitor. Quer saber como eu me imagino? Imagino-me a contar este «Levantado do Chão» a um grupo de pessoas, lá no Alentejo, ou aqui em Lisboa, ou em qualquer outro lugar, a contar em voz alta, voltando atrás quando me apetecesse, metendo pelo meio coisas da sabedoria popular, ditados, alusões directas ou indirectas a casos marginais, questões de famílias, boas ou más vizinhanças, e se entre essas pessoas houver analfabetos, essa será a grande prova, é maior dever do narrador contar e bem claro. Amanhã, noutro lugar, contaria a mesma história, mas diferente, sempre diferente, outros ditos, outras voltas, outros caminhos. Haveria de ter sua graça experimentar, mas, não podendo ser, aí fica o livro em sua forma de livro e aparente invariabilidade.

Obra aberta

Aqui há anos falou-se muito em obra aberta. 
Hoje vai-se dizendo o mesmo, mas com outro vocabulário. Ora, eu, que sou partidário da obra conclusa, no sentido inteiro levado ao extremo (mas existirá tal obra?), descubro-me hoje a reivindicar para este «Levantado do Chão» um estatuto de obra aberta. Aberta ao leitor e também constantemente aberta pelo leitor, solicitado pelo próprio discurso ou decurso do texto a introduzir nele a sua própria memoria e a sua própria imaginação. Tanto mais que eu o preveni logo no princípio: «Mas tudo isto pode ser contado doutra maneira». Aqui tem o que o autor pensa, não de problemas formais que não teve, mas de questões formais que crê serem suscitadas por este livro. Fico curioso de saber o que pensa a critica. E mais curioso ainda de saber o que pensam os leitores. Mas onde está a comunicação entre o escritor e o leitor?

DL — O que foi, é e será para si o Alentejo, o homem alentejano?
Do que o Alentejo foi, creio que o meu livro dará uma ideia. Do que ele é, também este livro saberá dizer alguma coisa. Por exemplo, a repressão violenta, que em nada se distingue dos tempo do fascismo: exprime o mesmo ódio ao trabalhador agrícola. Quanto ao que o Alentejo será, não tenho dúvidas. Será uma terra de mulheres e de homens donos da sua vida. Quando? Isso não se dizer. Mas sei que gostaria de ainda poder ver no nosso País a fraternidade de trabalhadores que encontrei junto dos meus amigos do Alentejo. O que ali está em gestação é, em sentido literal, um homem português novo.

E a reacção sabe-o. Sabe e teme. Por isso é que são os insultos, os vexames, as agressões e as mortes. É o mundo velho a querer estrangular o mundo novo. No meio de tudo isto, que vem fazer o meu livro?
Hoje é um testemunho. Amanhã, faço votos por que seja um simples artefacto arqueológico, fora de uso, ou, quando muito, e não será pouco, um registo para a memória colectiva. Há-de ser possível dizer um dia: «Pensarmos nós que a vida no Alentejo foi assim...». É claro que não posso deixar de exprimir, um outro voto, mais egoísta: que mesmo nessa altura, graças a algum valor literário que hoje tenha e então conserve, ainda o Levantado do Chão seja lido. 


Ilustrações Manuel Ribeiro de Paiva
(algumas das que constam na publicação)






"José Saramago fala sobre Deus, Igreja e Bíblia" Entrevista para a Folha de São Paulo (Brasil)


"José Saramago fala sobre Deus, Igreja e Bíblia"
Entrevista do "Folha de São Paulo" - Brasil (2/12/2008)
Pode ser recuperada e consultada via YouTube, aqui

domingo, 5 de abril de 2020

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira" - Revista Blimunda #93 Março2020

A revista Blimunda pode ser descarregada gratuitamente, tal como todas as anteriores edições

Páginas 66 a 98

Notas sobre o "Ensaio sobre a Cegueira"

Em 1993, algumas semanas depois de se ter mudado para a ilha de Lanzarote, José Saramago deu início a um projeto que já orbitava sobre a sua cabeça: um romance sobre uma cegueira branca que ataca os habitantes de uma cidade. Durante pouco mais de dois anos, o escritor trabalhou na escrita
de Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995. “No fundo, o que o livro quis expressar é muito simples: se somos assim, que cada um se pergunte porquê”, disse o autor uns anos depois, numa conferência.
Nos últimos meses, com a pandemia de um super-vírus que nos obriga ao confinamento em casa e levanta questões sobre a nossa capacidade de vivermos em coletividade, o romance de José Saramago passou a ser muito citado e recordado.
Durante os meses em que esteve envolvido no projeto, José Saramago deixou anotadas no seu diário as dificuldades e aflições com que se deparou ao escrever o romance, assim como as descobertas e aprendizagens que ele trouxe. A Blimunda deste mês recupera algumas notas do diário do escritor que fazem referência ao Ensaio sobre a Cegueira e que podem servir para os interessados em ler ou reler o romance.

Cadernos de Lanzarote I (1993)
20 de abril
Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira, e durante uns minutos tudo me pareceu claro — exceto que do tema possa vir a sair alguma vez um romance, no sentido mais ou menos consensual da palavra e do objeto. Por exemplo: como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? Quantos anos serão precisos para que se encontrem substituídas, por outras, todas as pessoas vivas num momento dado? Um século, digamos que um pouco mais, creio que será bastante. Mas, neste meu Ensaio, todos os videntes terão de ser substituídos por cegos, e estes, todos, outra vez, por videntes… As pessoas, todas elas, vão começar por nascer cegas, viverão e morrerão cegas, a seguir virão outras que serão sãs da vista e assim vão permanecer até à morte. Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo «clássico» do «conto filosófico», inserindo nele, para servir as diferentes situações, personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada. 

21 de abril
Chegou uma cópia da segunda edição de In Nomine Dei. Mais cinco mil exemplares, que se vão juntar aos dez mil da edição inicial. Pergunto: que se passa, para que uma peça de teatro atraia tanta gente? Já não é só o romance que interessa aos leitores? Terá isto que ver, apenas, com a simples fidelidade de quem se habituou a ler-me? Ou será que, neste tempo de violência e frivolidade, as «questões grandes» continuam a roer a alma, ou o espírito, ou a inteligência («moer o juízo» é uma expressão com muito mais força) daqueles que não querem conformar-se? Se assim é, espero que venham a sentir-se bem servidos com o Ensaio sobre a Cegueira…

21 de junho
[…] Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.

2 de agosto
Escrevi as primeiras linhas do Ensaio sobre a Cegueira. 

15 de agosto
Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará António ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero é ter de levar pela mão essas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos. Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, que quando alguém lhe apareça na narrativa se pergunte se é a primeira vez que tal sucede, se o cego da página cem será ou não o mesmo da página cinquenta, enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.

20 de agosto
Uma hipótese: talvez esta necessidade imperiosa de organizar uma lembrança coerente do meu passado, dessa sempre, feliz ou infeliz, única infância, quando a esperança ainda estava intacta, ou, ao menos, a possibilidade de vir a tê-la, se tenha constituído, sem que eu o pensasse, como uma resposta vital para contrapor ao mundo medonho que estou a caminho de imaginar e descrever no Ensaio sobre a Cegueira. 

22 de agosto
Começo a compreender melhor a relação que a gente nova tem com os jogos de computador, e como é fácil ficar prisioneiro do teclado e do que vai acontecendo no ecrã. Nos últimos dois dias, pouco atraído pelo Ensaio, cheio de espinhos, que ainda vai no primeiro capítulo, dediquei-me a investigar um pouco mais uma máquina (chamo máquina ao computador…) que até agora só me tinha servido para escrever.

30 de agosto
Terminado o primeiro capítulo do Ensaio. Um mês para escrever quinze páginas… Mas Pilar, leitora emérita, diz que não me saí mal da empresa.

25 de novembro
Em que ponto está o Ensaio sobre a Cegueira? Parado, dormindo, à espera de que as circunstâncias ajudem. Mas as circunstâncias, mesmo quando parecem propícias, não perdem a sua volubilidade natural, precisam de uma mão firme e boa conselheira. Até ao fim do ano (por causa da viagem às terras do Mais Antigo Aliado, e depois as festas, com a casa cheia de gente), não terei mais remédio que deixá-las à solta (falo das circunstâncias, claro) mas logo a seguir tratarei de as prender curto. Entretanto, vou escrevendo umas quantas coisas como esta que a revista Tiempo, de Madrid, me pediu, sobre a anunciada criação do Parlamento de Escritores […].

17 de dezembro
Voltei—timidamente—ao Ensaio. Modifiquei umas quantas coisas, e o capítulo ficou bastante melhor: a importância que pode ter usar uma palavra em vez de outra, aqui, além, um verbo mais certeiro, um adjetivo menos visível, parece nada e afinal é quase tudo.

Cadernos de Lanzarote II (1994)
3 de janeiro
Zeferino Coelho regressou hoje a Lisboa. Enquanto cá esteve leu tudo quanto tenho escrito nos últimos tempos: estes Cadernos, o capítulo do Ensaio, as notas para as Tentações. Propôs-me levar já os Cadernos, para publicar em abril um primeiro volume. O trabalho que tive para contrariar-lhe a ideia não precisou de ser grande, mas obrigou-me a pensar sobre o que quero fazer, ou melhor, sobre a ordem por que haverão de sair estes livros, por enquanto ainda só promessas deles. Concluí que devo lançar-me de vez ao Ensaio e não ir buscar desculpas cómodas ao tempo que as Tentações e os Cadernos vão continuar a tomar-me. Nestas duas semanas pouco poderei adiantar (primeiro vem o José Manuel Mendes, depois aparecerá o João Mário Grilo com a equipa de filmagem), mas, passadas elas, terei de voltar ao trabalho, desviar os olhos deste céu, deste mar, destas montanhas. Contra o meu desejo, duramente. (Há dias saiu-me «brutalmente»… Enfim, palavras.) […]

29 de abril
Sentei-me a trabalhar no Ensaio sobre a Cegueira, ensaio que não é ensaio, romance que talvez o não seja, uma alegoria, um conto «filosófico», se este fim de século necessita tais coisas. Passadas duas horas achei que devia parar: os cegos do relato resistiam a deixar-se guiar aonde a mim mais me convinha. Ora, quando tal sucede, sejam as personagens cegas ou videntes, o truque é fingir que nos esquecemos delas, dar-lhes tempo a que se creiam livres, para no dia seguinte, desprevenidas, lhes deitarmos outra vez a mão, e assim por diante. A liberdade final da personagem faz-se de sucessivas e provisórias prisões e libertações.

8 de julho
O Ensaio saiu do atoleiro em que tinha caído há já não sei quantos meses. Pode vir a cair noutro, mas deste safou-se. Há uns poucos dias que eu tinha decidido deixar de lado dois capítulos que se haviam convertido numa daquelas armadilhas onde se pode entrar com toda a facilidade, mas donde não se sai. O novo rumo parecia-me animador, abria perspetivas. Em todo o caso, ainda não me sentia completamente seguro. Foi então que andando por aí, hoje, ao vento, me sucedeu algo muito semelhante ao episódio de Bolonha, quando, depois de meses sem saber o que poderia fazer com a ideia do Evangelho, nascida em Sevilha, toda a sequência do livro — enfim, quase toda — se me apresentou com uma claridade fulgurante. Estava na Pinacoteca, vira a pintura da primeira sala à esquerda da entrada, e foi ao entrar na segunda (ou teria sido na terceira?) que os pilares fundamentais da narrativa se me definiram com tal simplicidade que ainda hoje me pergunto como foi que não tinha visto antes o que ali me parecia óbvio. Não era nada de complicado, basta ler o livro. Neste caso — o do Ensaio— a «revelação» não foi tão completa, mas sei que vai determinar um desenvolvimento coerente da história, antes atascada e sem esperanças. Todos os motivos que vinha dando, a mim mesmo e a outros, para justificar a inação em que me achava — viagens, correspondência, visitas —, podiam, afinal de contas, ter sido resumidos desta maneira: o caminho por onde estava a querer ir não me levaria a lado nenhum. A partir de agora, o livro, se falhar, será por inabilidade minha. Antes, nem um génio seria capaz de salvá-lo.

24 de julho
Uma coisa seria querer fazer um romance sem personagens, outra pensar que seria possível fazê-lo sem gente. E esse foi o meu grande equívoco quando imaginei o Ensaio sobre a Cegueira. Tão grande ele foi que me custou meses de desesperante impotência. Levei demasiado tempo a perceber que os meus cegos podiam passar sem nome, mas não podiam viver sem humanidade. Resultado: uma boa porção de páginas para o lixo.

26 de outubro
João Cabral de Melo Neto recebeu hoje, aqui em Madrid, das mãos da rainha, o Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana. Disse-me que perdeu a visão central, as suas primeiras palavras foram mesmo: «Estou cego», e eu só pude abraçá-lo com força. Mais tarde pensei nos meus cegos do Ensaio e achei-os insignificantes diante da realidade pungente daqueles olhos perdidos. Cego, João Cabral, o maior poeta de língua portuguesa vivo, com perdão de outros que também são grandes… O discurso de agradecimento, lido pelo embaixador do Brasil, foi muito belo, de uma serenidade profunda, como de alguém que, por cima das tristes dores da vida, está em paz consigo mesmo.

Cadernos de Lanzarote III (1995)
8 de janeiro
Há tempos prometi a Lakis Proguidis, para o seu L’atelier du roman, um ensaio sobre Ernesto Sábato, para o qual até já dispunha de título, uma vez que, como é minha incorrigível tineta, batizo sempre a criança antes de ela ter nascido. Chamar-se-ia O Olhar Sobrevivente. O condicional já está aí a dizer que a promessa não chegou a ser cumprida. Talvez regresse um dia a esse projeto, mas nunca antes de me libertar da legião de cegos que me rodeia. Aliás, é bem possível que o título me tenha vindo, por desconhecidos caminhos, daquele «olhar sobrevivente» que, em sentido literal, existe no Ensaio sobre a Cegueira. Isso e, por diferentes vias, o Informe sobre Cegos do mesmo Sábato (onde o número de cegos não conta comparado com os do Ensaio…), é o que provavelmente me terá levado ao título desse outro «ensaio» que ficou por escrever.

12 de janeiro
[…] José Manuel Mendes pergunta-me num fim de carta: «Como vai o Ensaio?» Vou responder-lhe com uma palavra simples: «Avança.» Provavelmente, ele pensará: «Enfim… já não era sem tempo.» 

15 de janeiro
Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos. Objeto Quase, por exemplo, ficaria perfeito se só contivesse a página que leva a citação de Marx e Engels. Lamentavelmente, a crítica salta por cima dessas excelências e vai aplicar as suas lupas e os seus escalpelos ao menos merecedor que vem depois. Não foi esse o caso de um certo crítico que, atento à matéria, não deixou passar em claro a epígrafe da História do Cerco de Lisboa, aquela que diz: «Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.» São palavras do Livro dos Conselhos, confirmava com toda a seriedade, movido provavelmente por uma reminiscência, de direta ou indireta via, do Leal Conselheiro de D. Duarte. Ora, convém dizer que são também palavras do Livro as que irão servir agora de epígrafe ao Ensaio sobre a Cegueira, em andamento. Estas rezam assim: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Espero que o bem-intencionado crítico, tendo refletido sobre a profundidade do asserto, não se esqueça, com idêntica circunspeção, de mencionar a fonte, salvo se, desta vez, tomado de súbita desconfiança ou de científico escrúpulo, se decidir a perguntar: «Que diabo de Livro dos Conselhos é este?»

16 de janeiro
O Livro dos Conselhos não existe.

4 de março
Dia de chuva e frio em Braga. Colóquio de inauguração da Feira do Livro, com a escritora espanhola Soledad Puértolas e Luísa Mellid Franco, que foi a moderadora. Apesar do mau tempo, que terá retido muita gente em casa, o auditório esteve cheio durante as duas horas que o colóquio durou. Soledad Puértolas falou em castelhano (a sorte dos espanhóis, que os portugueses sejam tão benévolos…) e foi escutada com a maior atenção. Deve ter ido satisfeita com o público de Braga. Quanto a mim, porque não tinha nenhum livro recente que pudesse servir-me de bengala, resolvi levantar um pouco mais o véu que ainda cobre o Ensaio sobre a Cegueira e desenvolver algumas reflexões a propósito. À medida que ia falando, tornava-se-me cada vez mais claro quanto a mim próprio me inquieta o pessimismo deste livro. Imago mundi lhe chamei, já em conversa com o Luiz Francisco Rebello, visão aterradora de um mundo trágico. Desta vez, a expressão do pessimismo de um escritor de Portugal não vai manifestar-se pelos habituais canais do lirismo melancólico que nos caracteriza. Será cruel, descarnado, nem o estilo lá estará para lhe suavizar as arestas. No Ensaio não se lacrimejam as mágoas íntimas de personagens inventadas, o que ali se estará gritando é esta interminável e absurda dor do mundo.

18 de junho
Voltei ao Ensaio. Com a disposição firme de levá-lo desta vez ao fim, custe o que custar. Durante todo o tempo que andei por fora, amigos e conhecidos não pararam de me perguntar pelos meus cegos. Chegou a altura de eles responderem por si mesmos.

15 de julho
Pausa de vinte e quatro horas no Ensaio para apresentar em Las Palmas o livro de Juan Cruz, Exceso de Equipaje, que é uma brilhante demonstração da arte do fragmento intimista e da observação do quotidiano imediato. Fez-me bem o derivativo, aliviei a tensão que me andam a causar os cegos, conheci gente simpática e inteligente, reencontrei amigos, como o poeta Manuel Padorno, e Toni, Luz e María del Carmen, as professoras do Coletivo Andersen.

9 de agosto
Terminei ontem o Ensaio sobre a Cegueira, quase quatro anos após o surgimento da ideia, sucesso ocorrido no dia 6 de setembro de 1991, quando, sozinho, almoçava no restaurante Varina da Madragoa, do meu amigo António Oliveira (apontei a data e a circunstância num dos meus cadernos de capa preta). Exatamente três anos e três meses passados, em 6 de dezembro de 1994, anotava no mesmo caderno que, decorrido todo esse tempo, nem cinquenta páginas tinha ainda conseguido escrever: viajara, fui operado a uma catarata, mudei-me para Lanzarote… E lutei, lutei muito, só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora se me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais. Seria agora a altura de fazer a pergunta de que nenhum escritor gosta: «Que ficou dessa primeira ideia?» (Não gostamos porque preferiríamos que o leitor imaginasse que o livro nos saiu da cabeça já armado e equipado.) Da ideia inicial direi que fi cou tudo e quase nada: é verdade que escrevi o que queria, mas não o escrevi como o tinha pensado. Basta comparar a inspiração de há quatro anos com aquilo que o Ensaio veio a ser. Eis o que então anotei, com nenhumas preocupações de estilo: «Começam a nascer crianças cegas. Ao princípio sem alarme: lamentações, educação especial, asilos. À medida que se compreende que não vão nascer mais crianças de visão normal, o pânico instala-se. Há quem mate os filhos à nascença. Com o passar do tempo, vão morrendo os “visuais” e a proporção “favorece” os cegos. Morrendo todos os que ainda tinham vista, a população da terra é composta de cegos apenas. Um dia nasce uma criança com a vista normal: reação de estranheza, algumas vezes violenta, morrem algumas dessas crianças.O processo inverte-se até que — talvez — volte ao princípio uma vez mais.» Compare-se… Quanto à palavra inspiração que aí ficou atrás, esclareço que a empreguei em sentido estritamente pneumático e fisiológico: a ideia andava flutuar por ali, no oloroso ambiente da Varina da Madragoa, eu inspirei-a, e foi assim que o livro nasceu… Depois, pensá-lo, fazê-lo, sofrê-lo, já foi, como tinha de ser, obra de transpiração…

10 de agosto
Chegaram a Lanzarote, e instalámo-los cá em casa, José Luis García Sánchez e Rosa León. Vieram para a estreia, em Canárias, de Suspiros de España (y Portugal), que ele dirigiu. Motivos para a viagem, apenas os da amizade, porquanto não é costume dos realizadores de cinema andarem atrás dos seus fi lmes, a estreá-los aqui e ali. Não sei como se agradece isto. Rosa e José Luis tiraram-se do seu trabalho, viajaram de Madrid a Lanzarote, muito mais para me festejarem a mim do que para receberem, eles, aplausos. A rever e a corrigir o Ensaio, não poderei fazer-lhes toda a companhia que deveria, mas dei hoje com eles uma rápida volta pela ilha, de que me resultou uma estranha impressão: encerrado em casa há tanto tempo, dei por que me inquietava o mundo exterior.

18 de agosto
Lá foram, uma cópia para Zeferino Coelho, outra para Maria Alzira Seixo, ele porque é o editor, ela por ter escolhido o Ensaio para tema do estudo que prometeu escrever para um volume que Giulia Lanciani está a preparar sobre o autor destes Cadernos. Daqui por poucos dias já saberei o que pensam estes primeiros leitores. Primeiros depois de Pilar, claro está. E que disse Pilar? Que o livro é bom. Será? Leitora exigente e criteriosa é ela, sem dúvida, mas sempre temo que se deixe iludir (enganar, cegar), pouco que seja, pelos sentimentos. Um pensamento que me tem ocupado nestes dias: há vinte anos chamei «ensaio de romance» ao Manual de Pintura e Caligrafia (a designação só aparece na primeira edição, a da Moraes), hoje ponho ponto final num romance a que dei o nome de Ensaio. Vinte anos de vida e de trabalho para ir dar, por assim dizer, ao mesmo sítio: de falta de persistência e sentido de orientação não poderão acusar-me… 

20 de agosto
Zeferino Coelho telefonou para dizer que gostou do livro. O autor apreciou sabê-lo e disse consigo mesmo que, agora sim, o Ensaio está terminado. Mas Zeferino também avisou que a disquete que lhe enviei, juntamente com o escrito, e que deveria conter o romance, estava em branco… A minha falta de jeito para as informáticas foi confirmada uma vez mais. Felizmente que o José Serrão, responsável pelos assuntos gráficos da editora, me deu, pelo telefone, passo a passo, com paciência e competência, as instruções que antes eu havia saltado e trocado. Fiquei felicíssimo, como um garoto, quando pude comprovar que, finalmente sim, o romance tinha sido copiado inteirinho do disco duro para a disquete. Mas logo me perguntei: copiado, como? E como foi possível que a passagem de um a outro tenha sido praticamente instantânea? Que o romance esteja por aí algures dentro do computador, aonde os meus olhos não podem chegar, admito-o, tenho de admiti-lo. Mas que ele se encontre agora neste objeto tosco de plástico e metal que seguro com dois dedos e que, à vista, não difere em nada de quando estava vazio, isso é que não consigo fazer entrar-me na cabeça. Mais de trezentas páginas, mais de cem mil palavras, estão metidas aqui dentro? Digo-me: estão, mas não são. Estão porque as reencontro de cada vez que quiser ler a disquete no computador, mas ao mesmo tempo não são porque não podem existir lá como palavras, têm de ser uma outra coisa, algo inapreensível, algo volátil, como (estranha semelhança esta) as palavras dentro do cérebro. Não estão, e contudo são. Que monólogo não teria o Hamlet para dizer se Shakespeare vivesse hoje…

6 de outubro
Em Lisboa, para o lançamento do Ensaio sobre a Cegueira e o mais que se há de ver. Assinar livros, dar entrevistas, repetir o já redito, perguntar-me uma e muitas vezes se vale a pena, e apesar disso continuar, porque direi a mim mesmo que o devo fazer. Miguel Torga não concedia autógrafos, Herberto Helder não dá entrevistas: quanto a mim, ainda que me pusesse a procurá-las, sei que não conseguiria encontrar razões para não assinar a um leitor o livro que escrevi e para não lhe explicar porquê e como o fiz. É uma fraqueza, reconheço, mas lembro-me do que dizia a minha eterna avó Josefa, a propósito doutras histórias: «O que o berço deu, a tumba o leva», o que, aplicado ao meu berço e ao meu caso, teria de significar que quando nasci, lá naquela rua da Azinhaga a que chamam da Alagoa, já estava fadado para vir a dar autógrafos e entrevistas, coisa em que nem mesmo a dita e confiada avó acreditaria, vendo com que competência eu mudava a palha das pocilgas ou Jorge desnocava a nuca aos coelhos com uma pancada seca do cutelo da mão… Ai, os destinos!

2 de novembro
Disseram-me que no lançamento do Ensaio terão estado presentes entre quinhentas e seiscentas pessoas. De facto, custava a crer no que os olhos viam: aquela sala do Hotel Altis, enorme, completamente cheia de gente amiga, nada mais que para ver e ouvir o autor e o apresentador, que foi, belissimamente, o Francisco José Viegas. «Ora, ora, aquilo é tudo marketing, é propaganda, é publicidade…»,rosnaram com certeza os meus inimigos de estimação, como lhes chama Zeferino Coelho. Sim, publicidade, a mesma publicidade, caríssima, sofisticada e avassaladora,que os editores usam desde o cursus publicus do imperador Augusto: enviar convites pelo correio. Claro que no meu caso não deve ser esquecida a ação do departamento de agitprop do Partido, cuja eficácia mobilizadora, desta vez, até lá conseguiu levar, imagine-se, um primeiro-ministro, António Guterres…

16 de novembro
Encontro no gravador de chamadas as vozes de Eduardo Lourenço e de Baptista-Bastos, um a falar de Providence, outro de Lisboa, e ambos dizendo coisas bonitas sobre o Ensaio. Não podia desejar melhores presentes de aniversário. E como estes são dos que se devem guardar, aqui ficam, cuidadosamente transcritos. O estilo é de facto o homem: as chamadas são, cada uma delas, o retrato psicológico de quem as fez. Eis o que disse o BB: «É o Baptista-Bastos, para o Zé. Zé Saramago, querido amigo, olha, estou a telefonar-te pelo seguinte: é que escreveste um grande romance. Acabei ontem de ler, com grande cuidado, com grande aprazimento, e escreveste um grandessíssimo romance, e o resto é conversa. É para te dizer isto e dar-te um grande abraço, que as felicitações são para mim porque li um grande romance. Outro grande abraço para ti, Zé, e um beijinho para a Pilar.» Do Eduardo Lourenço: «Bom dia, meu caro José. Devo ser o último a dar-te os parabéns pelo Prémio Camões. Já tentei telefonar, mas nunca te apanho. Um prémio mais do que merecido. Vou escrever-te a propósito do livro, do teu livro, que me deixou perplexo e que gostaria de comentar contigo, por carta ou em público. Para já,repito, é um livro de muito impacto e de muita importância. Merecia ser discutido por aquele país, e não só. Um grande abraço, Eduardo.» Obrigado, amigos, obrigado, em nome desta reconfortada alma. 

Cadernos de Lanzarote IV (1996)
22 de fevereiro
A primeira crítica, em Espanha, ao Ensaio sobre a Cegueira, apareceu hoje num jornal de Las Palmas de Gran Canaria, La Província. Do que o seu autor, Ángel Sánchez, escreveu, extraio duas passagens que me pareceram particularmente interessantes. A primeira: «Insiste [o autor] no recurso de partir de um ponto qualquer da realidade mais corrente para ir derivando no sentido da ficção pura e dura, até ao ponto de permitir ao imaginário que, num dado ponto da narração, devore a realidade corrente do ponto de partida ou a ponha ao seu serviço.» A segunda: «Submetidos [os protagonistas] como estão às pequenas misérias da sua proteção e sobrevivência, não deixam por isso de ver a luz da razão e formulá-lo no seu veículo oral. Se continuam a razoar, alguma esperança resta. Filosofarão portanto à sua maneira, coisa em que o autor continua a ter parte ativa — as mais das vezes—com esse seu humor desprendido e essa lógica relativista, que no caso português parece ser a amarga poesia do “fatum / fado”, memoriosamente expressada pelo idioleto, mais um rasto de subtil humor britânico bastante percetível.» Este tipo de observações, que não costuma encontrar-se na crítica portuguesa, ajuda a compreender melhor o que se lê. Acho eu.

23 de maio
A apresentação do Ensaio fez-se no Círculo de Bellas Artes (nunca perceberei por que tenho de dizer el arte no masculino e bellas artes no feminino…). José Antonio Marina, o autor dessas obras magnífi cas, estimulantes, que são Teoria da Inteligência Criadora (que não alcançou ainda em Portugal os leitores que merecia) e Ética para Náufragos, e que acaba de publicar nestes dias El Laberinto del Sentimiento, fez uma apresentação em que houve tanto de inteligência quanto de generosidade, orientando o diálogo que travámos sobre a razão e os seus absurdos, e em que me esforcei por manter-me à altura, sem sempre o conseguir… Num certo momento, dei por mim a perguntar-me angustiado: «Poderá a razão, realmente, razonar sobre si mesma?»

12 de junho
Em Milão, para o lançamento de Cecità, título italiano do Ensaio sobre a Cegueira. Sete entrevistas em sete horas foram as que me arrancaram hoje, sem ao menos ter sido respeitado o intervalo para comer a que qualquer trabalhador tem direito: o almoço no hotel foi extensamente conversado, com um jornalista sentado à minha direita, comendo, fazendo perguntas e tomando notas.

20 de junho
Juan Cruz achou que o Ensaio sobre a Cegueira devia ser apresentado também aqui [Lanzarote], e eu, que sou o mais dócil dos autores dóceis, concordei.
Valeu a pena. A sala grande do museu da Fundação César Manrique encheu-se de pessoas para quem sou já um deles e que como tal me festejaram.

7 de outubro
[…] No meu romance Ensaio sobre a Cegueira tentei, recorrendo à alegoria, dizer ao leitor que a vida que vivemos não se rege pela racionalidade, que estamos usando a razão contra a razão, contra a própria vida. Tentei dizer que a razão não deve separar-se nunca do respeito humano, que a solidariedade não deve ser a exceção, mas a regra.
Tentei dizer que a nossa razão está a comportar-se como uma razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo. Tentei dizer que ainda nos falta muito caminho para chegar a ser autenticamente humanos e que não creio que seja boa a direção em que vamos.

Em 2015, para assinalar o 20º aniversário da publicação do Ensaio sobre a Cegueira, a Porto Editora e a Fundação José Saramago prepararam o livreto Arquitetura de um romance, que reúne anotações e discursos de José Saramago sobre a construção do romance. Link para a publicação:
https://www.josesaramago.org/wp-content/uploads/delightful-downloads/2015/11/CJS-ESCBR_20154312_F01_02.pdf
Fotografias de Jorge Silva — Sara, Rafa, Matt, Sari, Vinícius, Maria, Tito, Jorge e Leonor estão em quarentena na Quinta dos Salgueiros, Idanha-a-Nova.

sábado, 28 de março de 2020

Edição n.º 11 da Revista de Estudos Saramaguianos

Aqui link para consulta e download da edição


SUMÁRIO

13 - Apresentação
20 - As portas de abertura do evangelho segundo Saramago (Conceição Flores)
33 - O espaço da memória em José Saramago (Denise Norona Lima)
48 - As marcas ancestrais na ficção de José Saramago (Jurema José de Oliveira)
55 - A singularidade amorosa em Saramago: da ilha desconhecida 
à ilha do amor (Maria Aparecida da Costa)
67 - INÉDITO: JOSÉ SARAMAGO, O CRÍTICO LITERÁRIO E O POETA
José Saramago, breve comentário sobre o crítico 
literário leitor de Jorge de Sena (Pedro Fernandes de Oliveira Neto)
91 - A cegueira saramaguiana como construtora da consciência coletiva (José Gonçalves)
102 - In nomine Dei – o ocaso de deus e a agentividade do homem 
numa tragédia moderna (Marco Aurélio Abrão Conte)

terça-feira, 24 de março de 2020

“Palavras para uma cidade” de José Saramago e voz de Pilar del Río

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

“Palavras para uma cidade” de José Saramago

"Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que frequentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.Talvez não seja possível falar de uma cidade sem citar umas quantas datas notáveis da sua existência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o pecado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de auto-complacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. Mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje.Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “…cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

José Saramago
Folhas Políticas 1976-1998, Caminho, 1999, pp 178 – 182

sábado, 18 de janeiro de 2020

12 a 17 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

12 de Janeiro
(...) "Primeira participação no programa da RDP O Mundo de..., para que Adelino Gomes me convidou em Novembro do ano passado. Voltarei de cinco em cinco semanas,decidido, como sempre, a não dizer o que não penso..."

13 de Janeiro
"Pastelaria Versalhes. Enquanto almoço, entretenho-me a pensar nos enredos do livro que ando a ensinar a andar, este Todos os Nomes por enquanto bastante inseguro de pernas, quando uma palavra repetidamente dita numa mesa próxima começou a romper a muralha de abstracção em que me tinha envolvido e a empurrar o estaleiro do romance para fora da área dos cuidados imediatos. A palavra era «universo»" (...)

17 de Janeiro
"Hoje, em Lanzarote, lendo o jornal, enquanto tomava o sol no terraço, tive noticias do Universo, aquele cujo nome costumamos escrever com a letra inicial maiúscula para não fazer confusão com o da Pastelaria Versalhes. Dois cientistas da Universidade do Michigan, Fred Adams e Greg Laughlin, afirmam que acabará dentro de um numero de anos definido por 154 zeros (...) Pressinto que não viverei tanto..." (...)

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12 a 17 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

13 de Janeiro
"Em Lisboa, para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para um vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta: «É impossível que este país tenha como presidenta da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não fizesse sentido, mas porque o faria de mais...»" (...)

14 de Janeiro
"A minha tranquilidade tinha razão, Jorge Sampaio ganhou. À noite, de Lanzarote, telefona-me Pilar a dizer que El País se lembrou de pedir um artigo sobre as eleições." (...)

15 de Janeiro
"«A esquerda explicada». Assim chamei o artigo, interrompido não sei quantas vezes por chamadas de urgência. Não sei se os leitores vão realmente encontrar a esquerda explicada. Por mim, penso que esta será uma maneira tão boa como outra de dizer o que a esquerda é" (...)

16 de Janeiro
"Juan Goytisolo veio a Lanzarote para dar uma conferência. Com ele veio Monique Lange, sua amiga e companheira, mulher inteligente, de uma simplicidade rara, que em tempos foi secretária de Gaston Gallimard." (...)

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12 a 17 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

12 de Janeiro
"E vão três. Suspeito que os cães de Lanzarote andam a passar a palavra uns aos outros. Agora é uma cadela de uma raça a que aqui chamam sato, cor de amarelo-torrado (...) Desde há três dias que não nos larga a porta. Demos-lhe comida e água, em que começou por não tocar. Tremia, assustada. Depois foi-se tranquilizando, comeu e matou a sede. Pepe e Greta não foram simpáticos ao princípio, mas não tardaram muito a aceitá-la." (...)

13 de Janeiro
"A experiência pessoal e as leituras só valem o que a memória tiver retido delas.Quem tenha lido com alguma atenção os meus livros sabe que, o que ali há é um contínuo trabalho sobre os materiais da memória, ou, para dizê-lo com mais precisão, sobre a memória que vou tendo daquilo que, no passado, já foi memória sucessivamente acrescentada e reorganizada, à procura de uma coerência própria em cada momento seu e meu." (...)

15 de Janeiro
"Contra mim falo: o melhor que às vezes os livros têm são as epígrafes que lhes servem de credencial e carta de rumos." (...)

16 de Janeiro
"O Livro dos Conselhos não existe."

17 de Janeiro
"Sempre se morre demasiado cedo. Miguel Torga sai do mundo aos 87 anos, depois de uma longa e dolorosa doença. (...) 
Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi.. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto." (...) 

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12 a 17 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

12 de Janeiro
"Conversa com João Mário Grilo e Clara Ferreira Alves sobre o documentário - formato «Artes e Letras» - que Isabel Colaço teve a ideia de produzir." (...)
"Há dias de sorte. Tive hoje - 12 de Janeiro - a grata satisfação de receber do Gabinete das Relações Culturais Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura um fax que se fazia acompanhar de uma carta da Fundación El Libro, de Buenos Aires, datada de 13 de Setembro do ano passado, em que me convidam a participar na Feira do Livro que em Março ali se irá realizar." (...) 

13 de Janeiro
"Diz o Gabinete das Relações Culturais Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura que não teve culpa. Diz que o convite lhe foi comunicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros em 2 de Novembro e que o imediatamente o transmitiu ao Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro" (...)

17 de Janeiro
"Durante quatro dias a casa esteve transformada num pequeno estúdio de cinema (...) eu respondendo às perguntas de Clara, eu escutando as recomendações de João Mário, eu esforçando-me por parecer inteligente na palavra, no gesto, na expressão.

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domingo, 12 de janeiro de 2020

11 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Lisboa. Leio que Le Figaro dedicou alguns comentário elogiosos à pianista «argentina» Maria João Pires... É um lugar-comum das anedotas internacionais dizer-se que os franceses não sabem geografia. O pio é que, pelos vistos, não estão dispostos a aprendê-la (...) É sempre desculpável um erro involuntário, mas nunca a leviandade, a indiferença, a imponderação. (...)

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11 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"Há em Oviedo um cão boxer, chamado Simba, que, de vez em quando (soube-o agora por um recorte que de lá me chegou), escreve umas crónicas para os jornais, onde depois saem publicadas com o nome do dono. O dono do Simba é o escritor asturiano Manuel Herrero, que teve a inaudita ventura de lhe haver saído na rifa um cão com habilidades de literato. A mim, que tenho não um, mas três cães, não acontecem fortunas dessas. O que os meus fazem, além do comer, ladrar e dormir que a natureza pede, é entrar-me a toda a hora no escritório para fiscalizar o andamento do trabalho. Greta, que é a mais abelhuda, tem a mania de subir-me para o colo, suponho que para ver de perto o que estou a fazer. Pepe, digno e discreto, como mais velho, limita-se a sentar-se, a levantar a cabeça e a pôr-me uma pata na perna, pregando em mim um olhar que significa claramente: «Como vai isso?» Quanto a Camões, que, esse sim, poderia indicar-me o caminho para a imortalidade, desconfio que resolveu abandonar definitivamente as letras depois de ter escrito Os Lusíadas. Se alguma vez o Manuel Herrero vier de visita a Lanzarote, pedir-lhe-ei que traga consigo o Simba para que leia aos cachorros da casa o belíssimo artigo que sobre eles e sobre mim escreveu, justa e precisamente intitulado «Os amigos de Saramago»…

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11 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Carlos Câmara Leme, do Público, pediu-me, a propósito da próxima publicação duma edição crítica dos poemas de Ricardo Reis, umas palavras que recordassem as circunstâncias em que os li pela primeira vez." (...)

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Carlos Câmara Leme

Aqui pode ser recuperado um post com entrevista de José Saramago ao jornalista do Público
http://desaramago.blogspot.com/2017/01/o-presente-e-uma-linha-tenue.html
"O presente é uma linha ténue" Recuperação da entrevista de Carlos Câmara Leme a José Saramago (Público, 25/10/1997)

A entrevista pode ser recuperada e consultada aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/todosOsNomes.htm

"Público" de 25 de Outubro de 1997
"O presente é uma linha ténue"
Por Carlos Câmara Leme

11 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"José Manuel Mendes partiu hoje, levando umas cinco ou seis horas de gravações. Não lhe invejo a sorte, ter de desenredar de um discurso sempre digressivo e não raro caótico umas quantas ideias mais ou menos aproveitáveis que por lá se encontrem. (...) Chegou carta de Jorge Amado. O Instituto de Letras da Universidade da Bahia organiza em Maio em encontro de tradutores e um seminário de ensino e aprendizagem de tradução (...) Pilar e eu lemos a carta ao mesmo tempo, e quando chegámos ao fim ele perguntou-me: «Que viagens temos em Maio?» Ainda que não pareça decididamente explícito, foi uma maneira de dizer sim..."

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Jorge Amado e José Saramago 
1990 Bahia - Brasil

sábado, 11 de janeiro de 2020

10 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Barcelona, Palácio Güell. Gravação da entrevista para o programa Negro sobre blanco, de Fernando Sanchéz Dragó. O tema foi o Ensaio sobre a Cegueira. Ajudaram generosamente à conversa Raúl Morodo, actual embaixador de Espanha em Lisboa, e Miguel Durán. A propósito, Miguel contou que, no tempo do franquismo, um notável do regime, cujo nome, se chegou a dizê-lo, me escapou, sugeriu ao governo a construção de uma cidade destinada exclusivamente para cegos." (...)

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10 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"A RTP (abençoada ela seja por esta vez) trouxe-nos, decentemente concebido e realizado, um documentário sobre Fernando Lopes-Graça. Éramos quatro (Carmélia e a mãe, Pilar e eu) os que, recolhidamente, escutávamos as palavras do amigo desaparecido e assistíamos a uma reconstituição ordenada da sua vida. Enquanto o documentário ia passando, imagens, palavras, palavras e imagens, a informação pareceu-me bastante equilibrada, satisfatória, quem em amplitude quer em rigor, mas, quando ele chegou ao fim, tive a impressão, como já me tem sucedido em casos semelhantes, de que o mais importante tinha ficado por mostrar." (...)

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Cartaz alusivo ao evento que marcou os 90 anos da data de nascimento de José Saramago, com apresentação de obras de Fernando Lopes-Graça (12/12/2012)

10 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"De Jerusalém telefona-me a minha tradutora, Miriam Tivon, para me dar notícias do Evangelho (excelentes), mas sobretudo para informar-me de que um fotógrafo de Israel (dos melhores, segundo Miriam) quer convidar-me a escrever algo sobre fotografias suas, e de tudo, imagens e palavras, fazer depois um livro. Se lembrar que já tenho um compromisso com Arno Hammacher, o amigo holandês que aqui passará todo o mês de Fevereiro a fazer fotografias para um livro seu e meu sobre Lanzarote, começarei a desconfiar que os fotógrafos deste mundo andam, sinistramente, a passar palavra uns aos outros..."

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Bruna Lombardi entrevista José Saramago para o programa "Gente de Expressão"

Recuperação da entrevista de Bruna Lombardi a José Saramago


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

9 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"Os dados estão lançados. Expedida por Ray-Güde Mertin, uma longa tira de papel saída do fax, que reproduz treze páginas do contrato, diz-me que cedi os direitos de adaptação cinematográfica da Jangada de Pedra." (...)

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9 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Duzentas e vinte milhas a nordeste de Lanzarote, o mar grosso meteu no fundo um barco de pesca português. Leio que, entre tripulantes marroquinos e portugueses, morreram vinte pescadores. O barco era de Sesimbra e chamava-se Menino de Deus. Têm-me dito que Deus e Alá estão em toda a parte, como é próprio de deuses. Não duvido que estejam, mas não salvaram os seus meninos..."

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9 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Assim são as coisas. Gabei-me aqui de não ter gasto muito tempo a dissuadir Zeferino Coelho da sua vontade de levar os Cadernos para publicar já, e afinal o José Manuel Mendes levou ainda menos a convencer-me do contrário. (...) Compreendi que a relutância provinha só de um temor não confessado a enfrentar-me com reacções suscitadas por referências feiras nestas páginas a pessoas e procedimentos." (...) 

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"Invitation au voyage L’Alentejo de José Saramago" de Linda Lorin para o canal Arte (em Françês)

"Invitation au voyage
L’Alentejo de José Saramago / Malaisie / Le pont de Brooklyn"

A reportagem pode ser consultada aqui
em https://www.arte.tv/fr/videos/091152-007-A/invitation-au-voyage/?fbclid=IwAR3wdwIJNxuZtzrPDOha4Oq16PZGh-NtNHsjDcZ5r7dOUNncElcITcml32o

"Linda Lorin nous emmène à la découverte de notre patrimoine artistique, culturel et naturel. Dans ce numéro : L’Alentejo vibrant de José Saramago - So british, la Malaisie des Cameron Highlands - Sur le pont de Brooklyn, ça trompe énormément.

L’Alentejo vibrant de José Saramago
En 1976, José Saramago, alors journaliste au chômage, séjourne dans la région de l’Alentejo au Portugal. Le futur prix Nobel de littérature puise dans ces terres sèches et dans le destin tourmenté des travailleurs agricoles l’inspiration pour écrire "Relevé ""de terre", l’un de ses romans majeurs."


"O Conto da Ilha Desconhecida" no Teatro Municipal Baltazar Dias (Funchal - Madeira)

A notícia pode ser recuperada e consultada aqui
em https://www.dnoticias.pt/impressa/hemeroteca/diario-de-noticias/conto-de-saramago-musicado-estreia-a-22-de-maio-no-tmbd-CA5640756


"‘O Conto da Ilha Desconhecida’ é um conto musical composto por Sérgio Azevedo a partir da obra homónima de José Saramago, uma encomenda do Teatro Municipal Baltazar Dias (TMBD) a estrear no dia 22 de Maio pela Orquestra Académica do Conservatório - Escola Profissional das Artes da Madeira."
"Francisco Loreto mostrou a partitura que já tem em mãos, nas redes sociais."
Fotografia dnoticias.pt

"Sérgio Azevedo (na foto) é o autor da música do conto criado por José Saramago." 
Fotografia de David Rodrigues dnoticias.pt

8 de Janeiro de 1997 - "Cadernos de Lanzarote V"

"Leio (...) que o retrato do primeiro-ministro António Guterres vai ser colocado nas paredes das repartições públicas do país. Pensava eu que nos havíamos curado destas demonstrações iconográficas depois de tantos anos a aturar deus-pátria-família e seus derivados, com o sábio varão de Santa Comba a fiscalizar do alto os impostos que pagávamos à boca do cofre ou com juros de mora, sob a presidência, conforma as épocas e mandatos, do bigode mosqueteiro de Carmona, do ar de quero-mas-não-posso de Craveiro Lopes, da expressão transcendentalmente estúpida de Américo Tomás..." (...) 

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8 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"Na noite de Natal puseram-me no sapatinho a promessa de uma antena parabólica. Pilar tinha achado que eu não podia continuar a viver sem notícias regulares da pátria, especialmente nestes dias que vamos ter eleições para a Presidência da República. (...) Sabia, pelas informações da meteorologia espanhola, que andava a chover muito em Portugal, mas não imaginava que o desastre atingisse tal dimensão. Percebi então que estar longe é não poder participar, não ser molhado pelas mesmas chuvas, não sentir as mesmas aflições." (...)

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8 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

"Há tempos prometi a Lakis Proguidis, para o seu L'atelier du roman, um ensaio sobre Ernesto Sábato, para o qual até já dispunha de título, uma vez que, como é minha incorrigível tineta, baptizo sempre a criança antes de ela ter nascido. Chamar-se-ia O Olhar Sobrevivente. O condicional já está aí a dizer que a promessa não chegou a ser cumprida. Talvez regresse um dia a esse projecto, mas nunca antes de me libertar da legião de cegos que me rodeia. Aliás, é bem possível que o título me tenha vindo, por desconhecidos caminhos, daquele «olhar sobrevivente» que, em sentido literal, existe no Ensaio sobre a Cegueira. Isso e, por diferentes vias, o Informe sobre Cegos do mesmo Sábato (onde o número de cegos não conta comparado com os do Ensaio...), é o que provavelmente me terá levado ao título desse outro «ensaio» que ficou por escrever." (...) 

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José Saramago com Ernesto Sábato

8 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

"Chegaram-nos ecos do desastre que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a quem os acasos e as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do partido." (...)

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

7 de Janeiro de 1996 - "Cadernos de Lanzarote IV"

"No dia em que principiei estes Cadernos, tinha começado também a escrever o que viria a ser O conto burocrático do capitão do porto e o director da alfândega, aproveitando um caso real de acumulação de funções que tive conhecimento por Ângela Almeida (...) 

O conto foi recuperado e publicado neste blog aqui

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7 de Janeiro de 1995 - "Cadernos de Lanzarote III"

(...) "Fui ver no mapa onde fica Urqueira (...) a uns dez quilómetros de Vila Nova de Ourém. Tem uma Caixa de Crédito de Agrícola que, segundo se descobriu e a polícia investiga, fazia parte de uma rede de falsificação de meios de pagamento a traficantes de órgãos humanos. 
Graças a Deus, imagino, os directores da Caixa nunca tocaram com as suas honestas mãos os fetos congelados: só faziam a contabilidade, passavam cheques e guardavam comissões. Para a educação dos filhos, claro."

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7 de Janeiro de 1994 - "Cadernos de Lanzarote II"

Sobre o mito da batalha de Ourique
"Reminiscências histórico-melancólicas. Durante séculos, como se tivessem sido testemunhas presenciais do milagre, os portugueses acreditaram piamente que Cristo apareceu a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique, garantido-lhes não só ajuda imediata como protecção para o futuro, tanto para ele como para os seus descendentes." (...)

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"O Milagre de Ourique" é uma pintura a óleo sobre tela do pintor português Domingos Sequeira realizada em 1793 e que está em exposição no Museu Louis-Philippe do Palácio de Eu em França.


"José e Pilar" - Trailer Oficial produzido pela Jumpcut Portugal

Pode ser recuperado via YouTube aqui


Sinopse

A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo -- ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

"Evangelho segundo Jesus Cristo"

(...) "José dormia, com um sorriso resignado nos lábios, mas triste era como se sentiria se ouvisse Maria dizer-lhe, Que o não queira o Senhor, que de ciência certa sei eu que esse homem não tem onde descansar a cabeça. Em verdade, em verdade vos digo que muitas coisas neste mundo poderiam saber-se antes de acontecerem outras que delas são fruto, se, um com o outro, fosse costume falarem marido e mulher como marido e mulher." (...)

"Evangelho segundo Jesus Cristo"
Caminho (Pags 71 e 72)



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