Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

domingo, 23 de novembro de 2014

Saramago Um estilo diferente de escrever

Quem conheceu José Saramago, ao ponto de poder dizer alguma coisa sobre a sua pessoa, alguma coisa que acrescente ao conhecimento da sua personalidade, e ao mesmo tempo, que possa identificar o que lhe influenciou o modo de escrever e pensar, poderá falar na musicalidade da sua pessoa. Tenho ouvido e lido de e em diversas fontes, que Saramago era música, era som, era melodia. 
Não raras vezes, se encontram nas suas obras, referências à musica clássica - o "Violoncelista" em "As Intermitências da Morte", é exemplo disso.
A musica, a sensibilidade especial para as diversas artes, a leitura intensiva e estudo de aspectos não relacionados com a feitura de livros, as viagens que fez pelo mundo, tudo poderão ter sido aspectos influenciadores e facilitadores do momento em que recolhidamente estruturava o pensamento, e ao fim do dia, o poderia transpor para o papel. 
Com o "Levantado do Chão", às 22 ou 23 páginas dactilografadas, Saramago confidencia a João Céu e Silva, a adopção de um novo estilo de escrever, como que este lhe tivesse aparecido por "milagre" ou artes mágicas, e assim o manteve, com as devidas adaptações em função do que ia escrevendo, durante todo o resto da sua obra - e que, terá sido muito do que o diferenciava de outros autores de escrita dita "convencional".
Este facto, esta alteração da escrita, do tal momento em que o discurso directo e indirecto estão presentes, toda a movimentação e deslocação da pontuação, fez muita confusão no meio literário nacional, muito dado a um eventual seguidismo e pouco inventivo.
A escrita transcreve ideias, imagens, situações, emoções e razões... a escrita é fazer "raptar" o leitor para dentro da página e arrastá-lo durante todo o livro, isto se, sempre que possível numa única "viagem". O leitor tem de pegar no texto, tem de deixar-se conduzir pelo narrador, pelo autor, pelas personagens... o caminho do leitor, por mais linear ou sinuoso, que seja dentro da leitura, tem de chegar ao fim. 
A obra de José Saramago, é isto.
Por diversos motivos, muitos leitores consideram o estilo de Saramago maçudo, denso, e um não sei números de características escapatórias para justificar o fecho do livro e colocá-lo de imediato na estante. Alguns destes muitos leitores, que ao não se darem por vencidos, retornam uma e outra vez, "aprendem" uma nova forma de ler, vivendo as palavras escritas. E a aprendizagem passa por ler. Ler, em voz muda, mas sonora dentro da cabeça. Ler, em voz alta e ressoando as palavras dentro da cabeça. Ler, mas ouvir o som. Sentir o som das palavras. Sentir as linhas e os momentos falados das personagens. Eis a leitura, muito ajudada pela forma de escrever de forma única, muitas vezes contra natura, mas que criou um mundo "Saramaguiano".
Se algum dia, alguém disser a meu lado que não gosta de ler Saramago, ou que não o consegue ler - simplesmente direi - "Leia em voz alta, mas que dentro de si oiça as personagens a contar a história"   




"E começa a escrevê-lo (n.r. "Levantado do Chão") já num outro estilo?
Chego à página 22 ou 23 dactilografada e de repente - acho que tenho de aceitar a existência de um milagre. Apesar de ateu, apesar de racionalista e de tudo isso, parece que tenho de acreditar na existência de um milagre! - estava a escrever com tudo aquilo que é a escrita normal, pontos de interrogação, travessões, isto e aquilo, e ninguém tinha nada que me apontar - era assim que se escrevia - e, sem tê-lo decidido, sem tê-lo pensado antes, levado pelo próprio fluxo da história que eu estava a contar, passo àquilo que logo se transforma no estilo que me é característico. Claro que quando cheguei ao fim do livro tive de voltar atrás para pôr aquelas 22 ou 23 páginas de acordo com o  que vinha depois. É aí que começa tudo! Não é um processo que se repita mecanicamente porque há diferenças de livro para livro, mas no essencial aquilo que eu comecei a escrever em 1979, aquela forma integrante de discurso directo e discurso indirecto e tudo o mais, nasceu ali e manteve-se. E mantém-se até hoje, não num livro como este "As Pequenas Memórias", que não podia ser escrito assim, mas que está presente no que estou a trabalhar agora, num outro livro que retoma o estilo embora de uma maneira diferente. Enfim, logo se verá, quando eu acabar de escrevê-lo."

em, "Uma Longa Viagem com José Saramago"
João Céu e Silva
Porto Editora
Pág. 73

( ... numa sessão de autógrafos, ladeado pelo seu editor Zeferino Coelho da antiga Caminho)


Aqui, em http://www.instituto-camoes.pt/revista/mundliterjs.htm

Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas
Número 3 · Outubro-Dezembro de 1998

Kim Yong-Jae, do Departamento de Português da Universidade de Pusan, Coreia do Sul, traça uma visão sobre o mundo literário e escrita de Saramago

"Esforço em fazer reviver a História e identidade portuguesa através de uma nova linguagem

O Mundo Literário de José Saramago é constituído por quatro elementos fundamentais : Primeiro, a dúvida do homem moderno numa dupla lógica de assumir uma posição crítica sobre o passado e, ao mesmo tempo, aprender com o passado. Segundo, a introdução dos elementos sobrenaturais, ou seja, fantásticos, não se distanciando, no entanto, do mundo real. Terceiro, a tentativa de uma nova linguagem que altera a sua expressão gráfica e pontual, respeitando a sintaxe da narrativa comum. Por último, a viagem não só no mundo real, mas também no interior do Homem através da imaginação. Com estes elementos de 'tempo', 'sobrenatural', 'torrencialidade da narrativa' e 'a viagem' que se interpenetram as suas obras procuraram a utopia através de alusões alegóricas, críticas e éticas.
Assim, Saramago tem vindo a tentar, nas obras publicadas desde "Levantado do Chão", a harmonia entre a realidade e a imaginação através de trabalhos que pretendem unir numa só empreitada os planos expressivos da fala, do pensamento e da escrita. Por isso, uma relação de quase simbiose entre o narrador e a matéria narrada, o discurso interior e as tensões internas do discurso narrativo são importantes na compreensão as suas obras. O que se denota facilmente nos seus romances é o espírito renovador e experimental em procurar um estilo muito pessoal e, ao mesmo tempo, solto e torrencial.
Na realidade, utiliza só vírgula e ponto final, não distinguindo discursos directos e indirectos, de modo que os seus romances têm de ser lidos diferentemente dos outros romances. Isto significa que o texto exige uma atenção especial aos leitores, dando-lhes a impressão de estarem envolvidos directamente no mundo real e, ao mesmo tempo, fictício, ambos construídos nas suas obras.
Para além do elaborado trabalho de linguagem, Saramago aborda profundamente os problemas de Portugal contemporâneo e da identidade do povo lusitano. Além de apresentar o rumo que Portugal deverá seguir e a sua visão do mundo, Saramago procura a identidade do homem perdida na sociedade moderna. Talvez através do seu estilo torrencial, que às vezes o toma difícil de ler, esteja a procurar a identidade de Portugal após a sua adesão à União Europeia.
Concluindo, a grandeza das obras de Saramago reside no esforço de evocar a História e a identidade da 'pátria perdida', juntamente com a procura de uma nova linguagem literária em que se afirma o seu espírito experimental."

Isabel Coutinho, elaborou o seguinte trabalho.


"Saramago - O escritor que brinca com a pontuação" 

"Vamos fazer um jogo: «A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço, e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora. O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se, Sabes quem sou, o que faço, de que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Sei só isso.»

Ao fim das primeiras linhas, o leitor atento terá percebido que está a ler qualquer coisa que saiu da imaginação do escritor português José Saramago. Trata-se de um excerto de O Evangelho segundo Jesus Cristo, romance publicado em 1991, onde é visível a maneira peculiar como o prémio Nobel da Literatura usa a pontuação na sua escrita. 

Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas. 

Mas se tem a ideia de que José Saramago eliminou nos seus textos a pontuação, os académicos e o autor dizem-lhe que essa ideia é errada. O prémio Nobel da Literatura português inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula – ele prefere chamar-lhe os sinais de pausa –, marcando a frase com um outro ritmo dado pela oralidade. Saramago subverteu a norma: pôs tudo em estado de desordem, revolucionou.

Se este é um aspecto claramente inovador da sua obra, não está isento de controvérsia. Para o professor universitário Carlos Reis, da Universidade de Coimbra e reitor da Universidade Aberta, só os comentadores apressados e os críticos que o não leram é que dizem que Saramago não usa pontuação — «um disparate sem remissão possível».  Saramago «usa pontuação, mas reinventa-a de acordo com um outro ritmo prosódico, que é o da oralidade de quem fala a língua», explica. O autor redescobre sentidos ocultos nas palavras que o nosso uso quotidiano nelas acabou por desgastar, diz.
Manuel Gusmão, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também considera inovador o tipo de frase que veio a caracterizar o escritor: uma frase onde podemos «encontrar o narrador a dialogar com uma ou mais personagens, ou duas personagens que dialogam». Saramago, conclui Gusmão, traz assim o diálogo para o interior da instância narrativa — «como se também ele concordasse que a unidade mínima da linguagem em acção é o diálogo».

Onde está o princípio?

Tudo terá começado no «ensaio de romance» Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Essa é a opinião da professora universitária Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, que acaba de publicar José Saramago. Foi nessa obra que o autor ensaiou, pela primeira vez, a sua técnica de construção romanesca e nunca mais a abandonou. Todos os seus futuros romances estão contidos em Manual de Pintura e Caligrafia, tal como todos os seus grandes temas futuros estão lá. Desde o «ateísmo confesso», passando pelo «papel de primordial importância concedido à mulher» até ao carácter humanista e humanitário. Arnaut diz que estão lá também as marcas que pautarão o estilo saramaguiano – um «peculiar uso dos sinais de pontuação ou outras entropias sintácticas e semânticas». 

Mas, a acreditar nas palavras do Nobel, foi durante a escrita de Levantado do Chão, romance publicado em 1980, que José Saramago se viu perante uma outra forma de narrar. Já tinha escrito vinte e tal páginas, quando lhe surgiu esta nova maneira de contar e voltou atrás, reescrevendo tudo desde o princípio para uniformizar o estilo.

O escritor já explicou várias vezes esse processo. «Era como se eu lhes tivesse a contar a eles a história que eles me tinham contado. E, como você sabe, quando falamos, não usamos sinais de pontuação. Temos pausas [de respiração] e até, como eu digo nos meus livros, os dois únicos sinais de pontuação, o ponto e a vírgula, não são sinais de pontuação, são uma pausa, uma pausa breve e uma pausa longa. No fundo, como também digo muitas vezes, falar é fazer música», disse em 2004 numa entrevista ao semanário Expresso. O escritor não estava a dizer mais do que já tinha escrito em Cadernos de Lanzarote – Diário II (1994):  «(...) É como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não precisa de pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras.»

Na entrevista publicada sábado no semanário Sol, o escritor explica mais um pouco: «O processo não é mecânico, não passa automaticamente de livro para livro, há ligeiríssimas diferenças – tão ligeiras, que se calhar só eu consigo aperceber-me delas. O leitor comum achará que é o mesmo: Ah, ele eliminou a pontuação.»

Essas diferenças fazem a obra do escritor dividir-se por vários ciclos, diz Arnaut. O primeiro ciclo caracterizado por marcas de «portugalidade intensa», directa ou indirectamente enraizado na realidade portuguesa, vai desde o Manual Pintura e de Caligrafia (1977) até O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991). E é em alguns dos livros deste ciclo, veja-se Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa, que aparecem páginas e páginas sem parágrafos, onde o escritor deixa de usar de forma canónica a pontuação (e o leitor pode ter de ler várias vezes para perceber e se só dias mais tarde recomeça a leitura pode ter de voltar atrás). 

Um segundo ciclo começa com Ensaio sobre a Cegueira (1995) e vai até Ensaio sobre a Lucidez (2004), momento em que o escritor passa para temas mais universais e há uma maior aproximação ao cânone do português. Encontramos uma maior linearidade na exposição dos acontecimentos, a clareza passa por maior narratividade e o leitor comum já não voltará atrás na sua leitura. 

O terceiro ciclo inicia-se em 2005 com a publicação de As Intermitências da Morte. E a autora da obra José Saramago explica: «Romance em que o autor parece abandonar o tom e a cor cinzentos que caracterizavam os romances anteriores para adoptar tonalidades narrativas que chegam a despertar o sorriso aberto nos leitores. Além disso, verificamos uma maior aproximação ao que se diz ser a pontuação correcta.»

José Saramago chamou-lhe, aliás, «uma espécie de ressimplificação», situando-a a partir de Ensaio sobre a Cegueira, numa conversa com Carlos Reis (in Diálogos com José Saramago). «Hoje verifico que há como que uma recusa minha de qualquer coisa em que eu me divertia, que era uma espécie de barroquismo, qualquer coisa que eu não conduzia, mas que de certo modo me levava a mim; e estou a assistir, nestes últimos dois livros (o Ensaio sobre a Cegueira já mostra isso muito claramente e este que estou a escrever também), a uma necessidade maior de clareza.»

O romance histórico

E tudo o que Saramago faz é inovador? Ana Paula Arnaut responde que a questão não é tanto se já foi feito, mas a forma e a intensidade como é feito: «Não uma coisa nova, mas de uma maneira nova.» Por exemplo, no romance de José Cardoso Pires O Delfim, já está tudo lá de uma maneira embrionária.

Mas o que há de mais inovador na obra do Nobel português? O modo como José Saramago «perturbou a tradição do romance histórico», diz Manuel Gusmão; ou fez «a inscrição da História na ficção», diz Carlos Reis. E falamos agora daquela que é uma das mais interessantes características da produção saramaguiana: a subversão da «história oficial», de acordo com três ingredientes fundamentais – as traves mestras da história, a sua extraordinária capacidade imaginativa e «fontes menos oficiais», explica Ana Paula Arnaut.

Saramago tem uma «extraordinária capacidade» para descobrir «sentidos novos e temas por inventar» numa ficção e num teatro que se tornaram referências canónicas da nossa literatura, afirma por sua vez Carlos Reis. Saramago «reclama» a história, porque a chama de novo à nossa atenção, dando-lhe uma nova leitura. 

O Nobel português inventa factos, mistura o maravilhoso com o empírico, o conhecimento do presente com o reconhecimento ou as novas versões do passado, diz Gusmão. «Joga ironicamente a ficção contra o relato histórico", mostrando "como uma tradição e história dos pobres, dos explorados, oprimidos e vencidos se pode construir contra a história dos vencedores».

A sua inovação no romance é ao mesmo tempo «erudita e popular», explica a professora Maria Alzira Seixo, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É erudita, porque «tem bases historiográficas sólidas», quer nos livros sobre eventos do passado, quer nos romances onde procedeu a investigações próprias e elabora conjecturas para a compreensão de uma época ou de uma figura. E é popular, «pois inventa uma expressão oralizada, que tem a ver com o saber tradicional comunitário (como em Levantado do Chão), criando a sua frase característica», explica Alzira Seixo. E, apesar de os seus livros serem poeticamente muito elaborados, não deixam de ser pedagógicos, transmitindo ensinamentos com uma forte dimensão ética e ao alcance de todos. «São ainda um exemplo raro, na pós-modernidade, da criação literária que se alia a valores humanos e colectivos, como bem se vê em Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte.»

Como os mais novos o vêem

Numa literatura em que Saramago se tornou um cânone, os escritores mais novos já ganham prémios com o nome de Saramago e é normal que lhes perguntemos o que acham do Nobel. O primeiro inquirido é José Luís Peixoto, que recebeu o Prémio Literário José Saramago 2001. É o «conhecimento do humano», aquilo que Peixoto encontra de «mais intenso e original» na obra do Nobel português. O domínio da narrativa e da língua são colocados ao serviço desse elemento central: «O ser humano, tanto no que toca à sua força, como às suas fragilidades e contradições.» Saramago inovou na forma como, em cada livro, construiu novas parábolas que se distinguem pela grande ironia e imaginação com que são construídas.

O premiado em 2005, Gonçalo M. Tavares, diz que o que há de mais «estimulante na obra de José Saramago é o desenvolvimento ficcional de uma ideia impossível». «O desenvolvimento desta espécie de realidade paralela é de tal forma minucioso e pormenorizado, que a certo momento o leitor esquece que se partiu de uma hipótese inverosímil e parece estar perante algo que sempre foi assim», continua o escritor. «Olhamos de novo para a realidade e sem uma epidemia de cegos parece que algo falta ou que algo mente.»

Válter Hugo Mãe, o escritor que assina sem maiúsculas (não é uma influência de Saramago), que ganhou o prémio em 2007, diz que o seu grande feito, naquilo em que acrescenta algo à literatura portuguesa e mundial, tem a ver com «a busca incessante de chegar ao colectivo dos homens, seduzindo-o para a grande história humana no sentido de amigar as gentes e combater toda a exclusão». Nos livros de Saramago, o homem é universal, visto a partir das suas raízes, como qualquer anónimo enredado numa aventura. O escritor distingue-se assim «por levar à literatura uma grande coerência ideológica, extremamente humanista, que recupera a força das grandes histórias numa projecção sempre colectiva e nada egocêntrica». E isso é muito raro num escritor, diz Válter Hugo Mãe. Ponto final" 

Público do dia 23 de Abril de 2008 :: 24/04/2008

"A Caverna" de um centro comercial em construção, nasce uma obra filosófica...

A alegoria da Caverna de José Saramago, é inspirada na acelerada mutação da sociedade agrícola e mais rudimentar, numa vivência industrializada baseada na criação da produção em massa, intensiva, global e asfixiante, em que o homem enquanto ser social consome de foram viciada e dependente sem questionar.
Este espaço comercial em construção, à entrada da cidade de Lisboa (capital e alusão a uma metáfora superior no espaço e tempo de uma sociedade), pela sua brutal dimensão e oferta de produtos e serviços ao dispor dos visitantes, foi o mote para a reflexão que Saramago propôs construir.
A co-relação entre a alegoria proposta por José Saramago, com uma vincada índole consumista e política, da alienação do homem social aos ditames de interesses corporativos sobre as massas, faz a ponte com a milenar e original metáfora de Platão, na "República", "Livro VII" - "Alegoria da Caverna". 
Aqui, Platão, à luz da sociedade organizada da antiga Grécia, preocupava-se em teorizar sobre a "prisão" do ser humano, enquanto ser pensante e eventualmente auto-exilado em si. 
Platão conjuntamente com os seus discípulos, alerta e debate sobre a capacidade do homem de então, poder pensar por si e com os seus (outros) em comunidade. Pensar, discutir, propor, decidir e acima de tudo poder questionar. 
Saramago, adopta e assume este princípio de Platão (e outros seguidores, desde então até esta data, assumindo esta capacidade filosófica com muitas centenas de anos) e acrescenta à metáfora a consciência política e económica de Marx e Engels. O homem que sob o trabalho escravo, sob a miséria das relações laborais, perde a sua condição pessoal e social de independência; ao mesmo tempo, não questiona, não assume a ruptura em conjunto com os seus demais, e deixa-se subjugar.
Acima de tudo, "A Caverna" é o espelho da viciação do ser humano. 




(...) Um dia, à entrada de Lisboa, aonde regressava vindo do norte, vi, ao lado da estrada, um grande cartaz que anunciava a próxima abertura de um novo centro comercial. Imediatamente, a imaginação desenhou na minha mente uma escavação profunda, da qual se levantava um edifício de dimensões enormes, de muros potentes, como uma fortificação gigantesca. Acabava de nascer "A Caverna", que é a visão de um mundo possível, onde os seres humanos quererão habitar no interior dos mesmos espaços comerciais que lhes vendem o que necessitam ou creem necessitar. É uma metáfora da vida nos países desenvolvidos ou que, não o sendo, se enganam a si mesmos em virtude de uma prosperidade apenas aparente, e é também uma alegoria: "A Caverna" retoma o mito platónico e por isso a epígrafe que abre o livro e diz. «Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós». O que "A Caverna" faz é perguntar ao leitor: 



«Seremos nós como os prisioneiros da Caverna de Platão que acreditavam que as sombras que se moviam na parede eram a realidade?
Estamos vivendo num mundo de ilusões?
Que temos feito do nosso sentido crítico, da nossa exigência ética, da nossa dignidade de seres pensantes»? (...)

em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 40


sábado, 22 de novembro de 2014

Citador #10 - em "Todos os Nomes"

Citador #10
da razão de "Todos os Nomes"
"A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 38 e 39

(...) Desta história familiar nada passou ao romance, mas "Todos os Nomes" não existiria se eu não tivesse investigado os dados da breve vida do meu irmão Francisco. (...)


Epígrafe na obra "A Caverna" - Saramago coloca a menção a Platão

"A Caverna"
Caminho


"Que estranha cena descreves e que
estranhos prisioneiros, São iguais a nós."

Platão, República, Livro VII


Informação sobre a "Alegoria da Caverna", 

A alegoria da caverna, também conhecido como parábola da caverna, mito da caverna ou prisioneiros da caverna, foi escrito pelo filósofo grego Platão e encontra-se na obra intitulada A República (Livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade, onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.
Imaginemos todos os muros bem altos separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.1 Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.
Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras.
Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, correria como Sócrates o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas possibilidades.
A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto.

O diálogo de Sócrates e Glauco[editar | editar código-fonte]
Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Concordo.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão. A República. Livro VII)

Interpretação da alegoria
O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância,1 isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.
Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o domínio das ideias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo das ideias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gerar conhecimento perfeito.

Citador #9 - do Caos...


"O caos é uma ordem por decifrar"

José Saramago

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Citador #8 - da "religiosidade



"Para se ser ateu como eu, é preciso um alto grau de religiosidade"

"Sou um religioso sem necessidade de Deus"

Grupo de Teatro de Campolide, Maio de 1979, encena a peça de teatro "A Noite" - Joaquim Benite




(1979, capa da edição Editorial Caminho)

Informação sobre a peça de teatro, constante na Bibliografia Activa, na página da Fundação José Saramago, em http://www.josesaramago.org/a-noite-1979/

«A Noite, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de abril de 1974. A ação passa-se na redação de um jornal em Lisboa e o autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.”» (Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998)


«Depois de ter feito jornais, escreveu sobre eles. Foi em “A Noite”, a primeira obra dramática de Saramago que o escritor dedica a Luzia Maria Martins, a pessoa que o “achou capaz de escrever uma peça”. Seria mesmo. A noite de que se fala nesta peça ficou para a história: de 24 para 25 de Abril. A acção passa-se na redacção de um jornal em Lisboa e autor avisa: “Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.” Nem outra coisa seria de esperar. A ironia passa também pela história desta noite em que administradores e redactores entram em conflito. Uns a gritar que a máquina “há-de parar” e outros a defender que ela “há-de andar”. Quando o escreveu, Saramago já sabia que, para o bem e para o mal, a máquina tinha continuado a andar. “A Noite” chegou aos palcos em Maio de 1979 pelo Grupo de Teatro de Campolide. Com encenação de Joaquim Benite e direcção musical de Carlos Paredes, a peça contava, entre outros, com a participação de António Assunção no papel do chefe de redacção Abílio Valadares.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)


"José Saramago, com o colectivo do Grupo de Campolide, que com encenação de Joaquim Benite, representaram em Maio de 1979, A Noite." 
- Post do blog Cais do Olhar, em http://caisdoolhar.blogspot.pt/ - 

A Guerra de Israel contra a região da Palestina, em "Das pedras de David aos tanques de Golias"

Artigo original, publicado no jornal "Público", a 3 de Março de 2002.

"Das Pedras de David aos Tanques de Golias"

(Diário de Notícias, 29 de Março de 2002)

No "Caderno", volta a inserir esta crónica, e apresenta a seguinte explicação.

"Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa acção de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto."

1.ª parte (8 de Janeiro de 2009), em http://caderno.josesaramago.org/20424.html

2.ª parte (9 de Janeiro de 2009), em http://caderno.josesaramago.org/20584.html

"Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.
Esta preocupação de exactidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestino para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.
As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba."

Adelino Gomes entrevistou Pilar del Rio - "Os livros de Saramago transformaram-me a vida" - 16/07/2001


A entrevista ainda se encontra disponível, para leitura neste link (jornal Público),
em, http://www.publico.pt/noticias/jornal/os-livros-de-saramago-transformaramme-a-vida-159896

Uma Voz própria e independente...

"O ano da morte de Ricardo Reis" trouxe-a a Lisboa, para fazer o percurso do romance. Tinha 36 anos. Passados dois anos, Pilar del Rio casava-se com o autor, José Saramago, então a rondar os 66. Hoje, é sua tradutora para espanhol - trabalho que faz quase em simultâneo com o acto de criação do escritor. Mas assume-se como jornalista, acima de tudo. Tem um estúdio em casa, donde entra no "ar" com as suas colaborações radiofónicas. Faz entrevistas - uma das últimas foi ao escritor mexicano Carlos Fuentes; antes desta, ao subcomandante Marcos; uma das próximas queria que fosse a António Guterres - para o suplemento dominical "El Semanal", inserido em mais de 40 jornais espanhóis e que atinge, no seu conjunto, uma tiragem superior a um milhão e meio de exemplares. Manteve uma rubrica de intervenção cívica, durante dois anos, na rádio andaluza . Pôs-lhe o nome de "Blimunda não se rende". Como Saramago, afirma-se comunista, ainda que sem cartão. Despreza os programadores da televisão que se está a fazer cá e em Espanha. Acha que um livro, mais ainda do que a Capela Sistina, é a expressão acabada do espírito humano. A ministra da Cultura da Região Autónoma da Andaluzia gostava de a ter como Comissária do Livro e da Leitura. Excertos de uma conversa que se prolongou por três dias e decorreu no salão de entrada de um hotel, numa viagem à Azinhaga, terra natal do marido, e à mesa de improvisada esplanada da Feira do Livro de Lisboa, enquanto o Prémio Nobel, ali a dois passos, multiplicava autógrafos por longas filas de indefectíveis leitores. 

P - Em que medida o prémio Nobel ajuda ou prejudica Pilar jornalista?
R - Pode parecer mentira, mas nem me ajuda nem me prejudica. Trabalho onde e como trabalhava antes.

P - Não recebe mais propostas?
R - Não. Já antes do Nobel trabalhava com Mara Malibran, a directora de "El Semanal". Também trabalho como comentadora na Cadena Ser e no Canal Sur. Tenho um estúdio em casa. A única novidade é ser colunista quinzenal do grupo Progressa, do "El País" (18 jornais). Comecei este ano. De resto, sou jornalista como era jornalista. Iniciei-me na Rádio Nacional (informação política e cultural) e em 1982, após o triunfo do PSOE, fui convidada a ir para a TVE, onde me encarreguei da programação na Andaluzia. Fui apresentadora, durante vários anos, de um telejornal.

P - Como foi a experiência televisiva?
R - Gosto mais da Rádio.

P - Porquê?
R - É mais imediata, mais directa, mais limpa.

P - O que quer dizer mais limpa?
R - Na televisão, mesmo quando se dão as horas a mensagem já está manipulada. Pela maquilhagem, pela iluminação, pelo cenário, pode converter-se a inocente mensagem das horas em algo magnífico ou triste.

P - Se formos por aí, também a voz é manipuladora porque ela sozinha seduz ou afasta, desperta a imaginação. Para não falar das vozes através das quais não passa nada...
R - Sim, há vozes e vozes. Mas na televisão há, para além disso, a intenção de uma série de pessoas - realizador, iluminador, etc. São demasiadas manipulações para uma mensagem tão simples como dizer que horas são. Saí da TVE em 86, dizendo que nunca mais voltava à televisão, nem para participar num programa como convidada. Só quebrei a promessa uma vez, por circunstâncias muito especiais. Mas nunca mais quero entrar num estúdio de televisão.

P - Houve alguma experiência concreta que a levou a tomar essa decisão?
R - Decidi sair da TVE por razões que tiveram a ver com um acto de censura. Mas a minha posição sobre a televisão é mais geral e tem a ver com o do estádio de imoralidade em que ela entrou. E com a complacência dos jornalistas que a fazem.

P - Complacência com quem ?
R - Com a direcção económica que é também a direcção ética. Não podemos dizer que é a publicidade ou os espectadores que pedem uma programação tão reles. Os jornalistas também são culpados. Nunca vi nenhuma greve de jornalistas exigindo a melhoria dos conteúdos, exigindo a dignificação desses programas. Pelo contrário, nos telejornais os jornalistas são servis e dóceis com o poder político do momento, e nos programas de entretenimento são canalhas. 

P - Isso aplica-se só a Espanha, ou também a Portugal?
R - E também à Itália, a França. Mas Espanha e Portugal estão-nos mais próximos. A programação é patética, dá vergonha. E porquê? Porque os senhores programadores não têm inteligência para propor coisas melhores. Sexo e violência asseguram-lhe um público fácil. Não têm capacidade e cultura para ir mais longe. O mesmo nas televisões públicas. 

P - Tem estado a pôr os jornalistas da rádio e dos jornais de fora das suas críticas. Mas peguemos num exemplo: em Espanha, um fenómeno televisivo como o "Big Brother" merece chamadas consecutivas de primeira página em jornais de referência como o "El País".
R - Primeiro: os jornalistas da televisão não cumprem o seu dever. Segundo: alguns jornalistas dos outros media também não. Terceiro: o mau cheiro alastra e acaba por atingir tudo. A discussão da chamada de primeira página está instalada na redacção do "El País". A mim parece incrível que se faça este tipo de programa. Por mim, nunca o vi, nem um só segundo.

P - Isso é partir logo do princípio de que nem vale a pena ver, ao menos para criticar. Onde está a moral de quem critica se nem sequer conhece?
R - Por amor de Deus! Não oiço falar de outra coisa. Eu não participo como público nesse espectáculo. Não me interessa. Mas vou mais longe: se os programadores das televisões de Espanha e de Portugal são seres que não têm imaginação nem cultura e que programam mais baixo e mais rasteiro do que os programadores dos outros países, a verdade é que alguém conseguiu fundir os dois países neste lodaçal. Dantes os níveis de qualidade não eram estes. 

P - Os públicos, que são quem faz as audiências , colocam esses programas nos primeiros lugares.
R - Dou um exemplo apenas, e recente: em 1988, quando a televisão estreou uma série baseada no livro de Torrente Ballester "O Prazer e a Sombra", foi um acontecimento, como se se tratasse de um jogo de futebol.

P - O mundo mudou muito, depois disso.
R - Alguém o fez mudar...

P - ... se calhar foram a escola, a família, antes da televisão.
R - Estou absolutamente convencida de que houve um objectivo muito claro, muito bem trabalhado por parte de alguém, que aliás também controla a escola, mas que em primeiro lugar controla os media, para ter cidadãos alucinados.

P - Essa não é uma visão demasiado conspirativa da história?
R - Eu vi-o. Estava na direcção da TVE.

O seu nome ficou escrito na antiga Rua da Estação, que passa frente à junta de freguesia e à Biblioteca José Saramago e que se cruza com a rua que em 1987. recebeu o nome do escritor. 
A placa, de azulejos, com orla em tons de amarelo, exibe o nome de Pilar del Rio, seguido da citação constante no livro Pequenas Memórias: 
«A Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar». 
Pilar, que recebeu uma réplica da placa toponímica, desejou que «todos os enamorados do Mundo se encontrem e dêem um beijo nesta esquina».


P - Viu o quê, exactamente?
R - Vi como a exigência e o nível iam baixando dia após dia. Ouvi dizer: 'temos que fazer uns programas mais ligeiros para que os espanhóis vão para a cama descansados, para mais gente ficar satisfeita. Basta de chatices e de solidariedades'. Vi como dia a dia se iam pondo filmes mais reles.

P - Se havia uma central dessas, que objectivos pretendia atingir?
R - Eu não disse que há uma central. Digo que houve um objectivo político aqui e em Espanha porque uma população embrutecida é mais facilmente dominável. Uma população cujo objectivo maior é ver o "Gran Hermano" é uma população que não pensa. 

P - Não foram nem os portugueses nem os espanhóis quem inventou esses formatos, que vieram de um país tão civilizado como a Holanda. 
R - Por que é que não se copiam certas formas de estar na vida dos países nórdicos e só se vão lá buscar os "Big Brothers"? Na Holanda há outras coisas, para além do "Big Brother". Aqui há o "Big Brother", ponto final.

P - Se a escola criar o gosto pela leitura, ou simplesmente o gosto, os que dela saiem irão engrossar o grupo de que a Pilar faz parte.
R - A escola também é culpada, claro. Mas em primeiro lugar ler não é obrigatório. E depois, dá trabalho. Lembra-me quando o primeiro ministro Cavaco Silva perguntou à mulher: 'como se chamava aquele livro do Saramago que tentei ler e não consegui?' O "Big Brother" não dá trabalho. Basta uma pessoa sentar-se com umas pipocas.
P - É fácil criticar os directores que optaram por este tipo de programação de sucesso. Onde estão os outros, capazes de traçar e manter uma programação que concilie a qualidade com as audiências?
R - Pergunte-o aos de agora, que sabem com que artes os esmagaram, expulsaram, assassinaram civilmente.

P - Bom, a verdade é que os portugueses e julgo que os espanhóis das diferentes literacias e estatutos socio-económicos continuam a preferir as tais programações e a nem sequer olhar para as RTP 2 que lhes são oferecidas...
R - O truque é simples: prepara-se a estrumeira, empurram-se as pessoas e logo dizemos que só lhes agrada a merda. É mesquinho, barato, mas funciona. 

P - Nas outras áreas - artes, literatura - o panorama em Portugal e Espanha é também assim desolador?
R - Há uma vida cultural rica, mas desgraçadamente os meios de comunicação não aparecem lá. Quando uma pessoa viaja e vê tantas actividades em tanto lado, é impressionante como nada disso passa para a comunicação social.

P - Mais devagar: em Portugal há um programa de televisão como o "Acontece", caso raro no mundo; temos jornais como o DN, o PÚBLICO, com várias páginas dedicadas à cultura...
R - ... não, perdão, não. Várias? Uns dias mais outros dias menos, poucas..

P - Muitíssimo mais do que há 30 anos.
R - Não faltava mais nada. Não vamos agora pôr a ditadura como referência, está bem? Há umas páginas entaladas junto do Desporto no final. E a maior parte da Cultura é espectáculo. O que é que se passa nos museus portugueses? Quantos estão fechados? Porquê estão fechados? Dedicam duas páginas ao espectáculo de Madona em Barcelona...

P - O "El País", que fez isso, é o mesmo, insisto, que todo os dias dedica várias páginas à Cultura.
R - Sempre menos do que à Economia. Quem é que disse que a Economia é mais importante que a Cultura? Não, não. Dá poucas páginas à Cultura e até à Política. Aliás, não há Política nos jornais, há fofoquice. Quem procura retratar a que se passa mesmo, o que se joga hoje nos partidos políticos? Quem descreve as lutas pelo poder? O que se passa na preparação das listas para as autárquicas?

P - O meu jornal tem vindo a dar páginas e páginas sobre isso.
R - Não. Tem vindo a apresentar candidatos. A nossa função não e reproduzir o que eles querem. É a de dizermos o que eles nunca quereriam que nós disséssemos.

P - Está portanto desiludida? 
R - Fui jornalista no tempo da ditadura e tinha muitas esperanças na democracia. Nos primeiros tempos da democracia fomos cúmplices, em Espanha, com a classe política, porque tínhamos que fazer a transição. Mas houve um momento em que eu pensei que não iríamos contentarmo-nos em ser fiscalizadores. Que devíamos tentar ver por detrás. Mas não conseguimos. Pior: a nova geração não tem qualquer interesse nisso. Estamos a fazer um jornalismo de conferência de imprensa. Sem qualquer interesse.

P - Exerceu a profissão nos dois países. O jornalista espanhol é mais engajado do que o português, não é verdade?
R - Não estou de acordo. Há gerações. A mais nova tem ousadia, mas ao mesmo tempo também muita indiferença. E há essa história absurda da independência. Dizem que o jornalista deve ser independente!...

P - Não acha que deve? 
R - Por amor de Deus!

P - Deve ser então dependente?
R - Temos é que ser honestos. Quando se fala em jornalista independente está-se a dizer independente dos partidos de esquerda. Independente de quê? O jornalista depende do banco, do patrão, da ideologia, da educação, da cultura, da forma como vê o mundo.

P - Já são tantas dependências, e ainda lhes quer acrescentar a de um cartão que a liga e faz depender de um partido?
R - Eu não pertenço a nenhum partido. Sou dependente da minha cabeça. Nunca fui correia de transmissão de nenhum partido político.

P - Então estamos de acordo. Porquê criar uma dependência partidária?
R - Mas ser de esquerda e assumi-lo não me impede de criticar a esquerda. Pelo contrário. Se vir um erro, uma corrupção, uma mentira, criticá-la-ei com mais razão ainda. Sou mais exigente com os meus do que com os outros. 
P - É comunista?
R - Sou comunista ideológica e emocionalmente, mas nunca se pôs a questão de ser militante.



P - Nunca foi convidada?
R - Sim, mas fui deixando passar. E por mais de um partido de esquerda.
P - Incluindo o PSOE?
R - Sim, naquela época [de Franco].

P - Li algures que a Pilar, sevilhana, gosta de touradas. 
R - Gostava. Saí do ambiente, deixei de estar rodeada da ornamentação (que era o que me agradava) e afastei-me. Hoje não me interessam. Sou contra. 

P - É verdade que foi freira teresiana? Que tipo de ordem é essa?
R - Fui membro de um instituto secular chamado Instituição Teresiana, quer dizer, fui "teresiana" e de alguma forma continuo a sê-lo, pelo menos no respeito e na admiração que sinto pela mulher forte que foi Teresa de Jesus.

P - Por que é que abandonou a instituição?
R - Não abandonei. Disseram-me, num acto que honra a instituição, que não podia continuar a viver uma vida que não me fazia feliz. Saí com pena, porque acreditava que seria útil dedicando a minha vida aos outros com base naqueles princípios.

P - Saramago disse numa entrevista: "Para se ser ateu como eu, é preciso um alto grau de religiosidade". E também disse: "Sou um religioso sem necessidade de Deus". Está de acordo? É também esse o seu sentimento?
R - Creio que se pode ser religioso sem Deus: ao fim e ao cabo, Deus é uma abstracção. O que importa na religião é a ligação com os homens. No catolicismo falam de "comunhão dos santos", na vida consciente e solidária dizemos dever, obrigação, justiça... É um sentimento profundo que nos descobre humanos entre humanos, todos responsáveis, todos feitos da mesma massa e com os mesmos direitos.

P - A veemência com que fala parece indicar que nada distingue a Pilar militante católica da Pilar comunista.
R - Quando era cristã aprendi que não se podia desperdiçar em tontarias nem um minuto da vida, sobretudo pública. Digo o mesmo agora. Não percamos tempo em fofoquices havendo tantas coisas importantes. Não para ficarmos o tempo todo numa atitude de reflexão. A vida pode ser simples, não tem que ser complicada e pesada. Mas façamos a nossa vida. Quando vamos às aldeias as pessoas costumam falar de coisas boas do passado para rematarem, resignadas: 'bom, mas isso passou, já não volta'. Porquê? Não tem que ser assim. 

P - A que é que se está a referir, concretamente?
R - Nunca houve tanto dirigismo. O dirigismo da URSS era uma brincadeira de meninos comparado com o dirigismo do sistema democrático. Mudam-nos a moeda, mudam-nos as fronteiras, mudam-nos a soberania, mudam-nos os hábitos. É um dirigismo autoritário. Normas, costumes, hábitos alimentares (seriam todos maus?), tudo mudou.

P - Qual será então a diferença entre o seu engajamento ideológico de hoje e a militância católica do passado?
R - Sou uma pessoa de expressão veemente. Nada me é indiferente. Envolvo-me nas coisas. A ideologia são os óculos com que vejo o mundo. A diferença entre o meu passado e o meu presente? Há um sentido da transcendência no cristianismo e eu não o tenho.

P - Perdeu-o?
R - Não o tive nunca. Sou um sujeito activo e quero que as coisas aconteçam porque é justo que elas aconteçam. Não podia participar na transformação das coisas para ganhar o céu. Quero participar porque recebi muito e tenho que dar muito. Sou uma privilegiada - nasci na Europa, nesta época, tive acesso à cultura - e tenho que pagar. 

P - Há dez anos vivíamos num mundo bipolar. Depois houve a implosão do império soviético. Declarou-se há pouco comunista. Como viu essa derrocada da URSS?
R - Nunca fui ao império soviético. O que eu vi na minha vida foi a ditadura de Franco, o império do capital e uns quantos senhores muito honestos que tentavam que os cidadãos tivessem melhores condições de vida, que eram os comunistas na clandestinidade. E vi sempre o capitalismo em acção, o império dos Estados Unidos com bases que me rodeavam. Nunca vi o império soviético.

P - Mas sabia que existia o muro de Berlim, que existia uma série de países...
R - ...Na Andaluzia, onde vivia, sentia o muro que há no estreito de Gibraltar . Claro que havia um muro de Berlim, aliás levantado por duas partes. Mas nunca me senti ameaçada pelo Pacto de Varsóvia. 

P - Não percebo. O muro de Berlim é irrelevante para si?
R - Há muitos muros e todos são muros da vergonha. Mas eu também falo dos outros muros que se levantam entre a África e a Europa, entre a América do Norte e a do Sul, entre as casas ricas do Rio de Janeiro e as pobres, entre a sociedade opulenta de Portugal e os desgraçados. Não quero que o pensamento único me oriente, me obrigue a falar do muro de Berlim. Quero falar de todos os muros. Cada dia há mais ricos e mais pobres. O muro de Berlim, horrível, afectou muita gente. Os outros afectam milhões e milhões e ninguém fala deles. Ninguém deita abaixo os muros que separam a riqueza da pobreza.

P - Falou há pouco de senhores limpos e honestos, referindo-se aos comunistas em Espanha. Lá como aqui em Portugal, os comunistas foram olhados com simpatia por muita gente, logo a seguir à queda das duas ditaduras. Mas essa simpatia desapareceu. Como explica que os espanhóis, como os portugueses, tenham deixado de ser sensíveis à mensagem eleitoral desses senhores?
R - Os meios, quer dizer, quem os faz, decidem o que é notícia e o que não é. Por exemplo em Espanha, no recente debate sobre o estado da nação, reduziram a informação a um circo em que [o primeiro ministro ] Aznar e [o secretário-geral do PSOE] Zapatero competiam entre si para ver quem era mais alto, mais forte, mais ágil. Durante o debate e após ele dedicaram-se a dar pontos às capacidades oratória, de improviso, de resposta, à elegância de um e do outro... Os outros dirigentes políticos não existiam e muito menos a nação. É como se o estado do país e as soluções não interessassem a ninguém. Claro que o líder da Izquierda Unida, [Gaspar] Llamazares, que saiu do circo e chegou com denúncias e propostas concretas, foi ignorado e insultado. Por falar em problemas, a imprensa chamou-lhe apocalíptico; por propor soluções à margem do pensamento único, chamaram-lhe sonhador. Quanto ao caso do PCP, recordo que há anos [década de 80] este partido denunciou que as câmaras de televisão se instalaram precisamente atrás da sua bancada na Assembleia da República, de modo que quando se apresentavam imagens do plenário viam-se todos os grupos parlamentares menos o comunista. Não foi por acaso. Aliás, qualquer pessoa vê o tratamento que é dado a pessoas e às propostas da esquerda, em contraste com o temor reverencial com que de um modo geral se trata os poderosos. Dão-se poucas piadas aos grandes da economia ou aos instalados da política. - E dão-se piadas aos da esquerda?- Por exemplo, uma pessoa como [o general e ex-primeiro ministro entre 1974 e 1975] Vasco Gonçalves: de cada vez que um jornalista, por mais jovem que seja, se refere a ele, dá-se ao luxo de o ridicularizar. Pois eu digo-lhes: se conseguirem ter alguma vez metade da honestidade de Vasco Gonçalves, serão grandes homens, mas até lá, não. Se a vida pública portuguesa tivesse 10 pessoas tão honestas como Vasco Gonçalves, o país seria outro - mais limpo e melhor. 

P - Mas teve um projecto para Portugal que as pessoas não apoiaram. 
R - Muitas pessoas não apoiaram, outras apoiaram. Mas acima de tudo, foi a CIA que não o aceitou, a NATO que não o aceitou, o grande capital que não o aceitou, os meios de comunicação controlados pelo grande capital que não o aceitaram, a pressão internacional não podia aceitá-lo... Não sejamos simplistas. Os países normalizaram-se e Portugal não iria ter a oportunidade de ensaiar fórmulas políticas diferentes, por mais democráticas que fossem. 

P - Mas acha que as pessoas andam enganadas toda a vida, todo o tempo? 
R - À medida que o tempo passa as pessoas estão mais angustiadas porque têm que pagar a prestação do carro, a prestação da casa. A liberdade, esse grande conceito, traduz-se em ter um carro maior, em fazer viagens, em comer todos os dias em restaurantes, em vestir Armani. Então quando chegam uns imbecis minoritários, mal vestidos, a falar de Reforma Agrária, as pessoas desatam a rir.

P - Houve uma oportunidade de fazer a Reforma Agrária em Portugal. E se ela acabou mal, não foi apenas por actos do poder. As próprias experiências no terreno não correram bem.
R - O capitalismo também não está a correr bem e temo-lo aí todos os dias. Desde quando existe o capitalismo? Desde Viriato ou antes mesmo? E no entanto tem sempre novas oportunidades. Mas quanto à Reforma Agrária, protagonizada por gente inexperiente, diz-se que não correu bem. Não tiveram tempo. Não tiveram tempo.

P - Foram estas ideias que a aproximaram de Saramago, também? Que criaram entre vocês uma cumplicidade?
R - Eu não me apaixonei por ideias, mas pelo homem.

P - Mas não se apaixonou pela obra, antes de conhecer o autor? Quando veio a Portugal antes de o conhecer, vinha à procura do autor da obra ou do homem que estava por detrás do autor?
R - A verdade é que vim a Portugal para fazer o trajecto de Ricardo Reis.

P - Mas telefonou ao autor.
R - Para o felicitar. Por maneira de ser, digo sempre o que penso, o bem e o mal. Quando leio um livro extraordinário, digo-o. O mundo está tão carecido de palavras de afecto...

P - Chegou a fazer o tal percurso do Ano da Morte - Hotel Bragança, que já não existe, cemitério dos Prazeres? Foi nesse quadro que telefonou a Saramago?
R - Telefonei de Espanha. Um número de telefone não resiste aos jornalistas. Liguei para o felicitar e para lhe dizer que gostava de o cumprimentar. Ele esteve de acordo. Mas o percurso fi-lo sozinha com o livro. Devo dizer, a propósito, que esta ideia não tinha nada de louco: na semana a seguir vieram cá fazer o percurso uma irmã minha e o marido. E uns dias antes tinham-no feito uns amigos nossos. Durante muito tempo, e ainda hoje, houve amigos nossos a fazerem-no.

P - Portanto: começou a gostar de José Saramago pessoa...
R - Eu não sabia nada da pessoa, quem era, como era, em que circunstâncias vivia , só sabia que tinha nascido em 1922 e isso parecia-me impossível.

P - Achava que devia ser mais novo?
R - Não, achava que era um clássico, mas ao mesmo tempo as ideias que exprimia eram de alguém deste tempo. Havia aqui uma contradição, e eu tinha interesse em comprovar que era um contemporâneo o homem que escrevia desta forma. De modo que nos conhecemos, tomámos um café e adeus.

P - O namoro não começou logo?
R - Ah, não! Passados meses. Mantivemos correspondência sobre livros, eu não sabia nada da vida dele e ele nada da minha vida e então um dia perguntou-me se me podia ir visitar em Sevilha. 



P - E o namoro começou?
R - Fomo-nos encontrando.

P - Tinha quantos anos?
R - 36.

P - A diferença de quase trinta anos não constituiu um problema? Não digo para si, eventualmente, mas para o seu filho, a sua família?
R - Porque que é que havia de constituir?

P - Casou dois anos depois, mais ou menos. A sua vida mudou totalmente?
R - Chegámos a pensar na hipótese de José se mudar para Sevilha, porque o meu trabalho não me permitia vir para Portugal. Mas entretanto a directora-geral da TVE, Pilar Miró, convidou-me para ser a correspondente em Portugal.

P - A decisão de irem para Lanzarote é tomada apenas por causa daquele episódio muito conhecido do veto ao livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo"?
R - Sim, desse acto de censura do candidato à Câmara de Lisboa.

P - Não, esse é Santana Lopes. A proposta foi do subsecretário de Estado dele, Sousa Lara...
R - A decisão foi do governo. O outro [Santana Lopes] manteve e apoiou a proposta e foi ao parlamento defender a política do subordinado.

P - Quer dizer que se ele ganhar as eleições... 
R - ...é uma vergonha para Lisboa...

P - ...e vocês deixam de vir a Lisboa?
R - Eu com Lisboa não terei problema nenhum. Mas com a Câmara teria. Não, não vai ganhar.

P - Vão então para Lanzarote...
R - A situação estava também a tornar-se difícil em Lisboa porque era um corrupio. Toda e qualquer pessoa que vinha a Portugal procurava-o. Começámos a procurar um sítio fora de Lisboa, visitámos algumas casas em Mafra, mas não encontrámos aquilo que queríamos.

P - Qual a sua intervenção no processo criativo de Saramago?
R - Como é óbvio não intervenho no processo criativo de Saramago.

P - É primeira leitora? Crítica?
R - Sou a sua primeira leitora: generosamente, cada noite José passa-me as folhas que escreveu para que eu as leia e, nos últimos livros, as traduza, já que serão apresentadas simultaneamente nos países de língua portuguesa e castelhana de todo o mundo.

P - Dá-lhe ideias?
R - Claro que não dou ideias nem critico: o processo criativo é pessoal e intransmissível. Eu sei qual é o meu lugar e jamais ousaria intervir, só oiço o que o autor me conta, as várias hipóteses, as mudanças que podia introduzir...

P - O que representa o livro para si?
R - O que me interessa acima de tudo no livro são as paisagens humanas. Tanto quanto me interessam os homens que pensam e escrevem os livros. Os livros são a expressão de outros seres humanos. Interessam-me em geral e individualmente. Mais do que um pôr do sol, mais do que uma flor, mais do que uma obra arquitectónica, mais do que a Capela Sistina. 

P - E a literatura?
R - Pode ser a expressão mais acabada do espírito humano. É a que melhor entendo. Voltando aos livros: encontro sempre alguma coisa boa num livro. Nem que seja a capa.

P - Qual o livro de que mais gostou na vida?
R - Em cada obra há um livro de que gosto mais. É essa a glória dos livros. Enquanto a Capela Sistina se apresenta como um bloco, os livros são múltiplos, diversos, têm vidas distintas.

P - Indique dois ou três.
R - Os de Saramago, que me transformaram a vida.

P - Quem lhe transformou a vida não foi antes José Saramago?
R - Não. Comecei pelos livros. Coleccionei-os, antes de conhecer José. Posso dizer que gosto de falar dos livros de José Saramago porque já o fazia antes de o conhecer. Recomendei-os antes. Agora só tenho mais motivos para o dizer, porque são os livros da minha vida.


(Saramago, que entretanto chegou de mais uma longa sessão de autógrafos e ficou à espera do fim da entrevista, contesta uma observação do entrevistador acerca da superioridade da democracia representativa sobre todos os outros sistemas, discorre sobre a "falsa democracia" que deixa "contentinhos" os menos exigentes, diz que os jornalistas deviam investigar quem são e onde estão os que detêm verdadeiramente as rédeas do poder no mundo em vez de encherem páginas e páginas com "histórias dos Guterres e dos Aznar, que não mandam nada", revela ("pensei nisso hoje de manhã, nem o disse à Pilar") que um dia destes ainda o hão-de ver numa daquelas manifestações anti-globalização como a de Gotemburgo - "na primeira fila, ali ao lado daqueles que os editorialistas dizem que cheiram mal" - e remata, longos minutos passados: "Sofia [de Mello Breyner] escreveu aqueles versos muito glosados no 25 de Abril dizendo que a poesia estava na rua. Pois bem, o que falta é a democracia na rua. A democracia deve vir para a rua." - Que pena não ter sido a Pilar a responder. Dava um bom título: 'a democracia deve vir para a rua'..., comento. - A Pilar não disse mas está de acordo, replica Saramago.- Sim, sim, claro, intervém ela, com calor. - Pode portanto usar no título, conclui o Prémio Nobel).