Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sábado, 13 de dezembro de 2014

"Don't lose Yourself" de Laura Veirs, música inspirada na obra "Ensaio sobre a Cegueira"

Laura Veirs
Álbum -  "Saltbreakers"
Música - "Don't Lose Yourself"

(Laura Veirs)


(... ) "As questões sociais também fazem parte do repertório de Laura Veirs, que interpretou um tema sobre «todas as guerras», mas que no palco do Alquimista dedicou às circunstâncias do último conflito no Iraque. As problemáticas da civilização humana têm eco nos livros de José Saramago. Fã confessa da literatura do escritor, em especial da obra "Ensaio sobre a Cegueira", a songwriter afirmou que pretende escrever uma canção com passagens do livro, como aquela que citou de uma tradução em inglês: "Don't Lose Yourself". (...)

Don't Lose Yourself - Letra Original
I felt my vocal chords weakening
I felt my concave thoughts
I felt my voluntary blindness
For staring straight into the sun
The romantic air of your eye patch
Called me across the room
I clung there and danced with you silent
Admired your divine tattoos

We slept in the shadow of a cedar tree
We made love on the rising tide
We smelled the perfume of the waxing moon
We dreamt of all the friendships kind
We touched the blood of the black cat
We pet the mammoth dog of tears
In the flickering light we were laughing
Necessity conquers fear

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Dreaming we were stones in black stillness
Dreaming of the death of the sun
Waking to a world of white blindness
Painted eyes of the holy ones
The death of the word was upon us
And the discipline of the wind
We see less and less all the time, dear
Just look at this mess we are in

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Staring at the entrance to the mine
I prayed for your wounds to close
Tiger ointment and a cosmic collision
And the crucifixion of the rose

Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself
Don't lose yourself, don't lose yourself

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Don't lose yourself
Don't let yourself be lost
Don't lose yourself
Don't let yourself be lost

Don't Lose Yourself (Tradução)
Eu senti minhas cordas vocais enfraquecendo
Eu senti meus pensamentos côncavos
Eu senti minha cegueira voluntária
Por olhar diretamente para o sol
O ar romântico do seu olhar
Me chamou pela sala
Eu fui até você e dançamos em silêncio
Admirei suas tatuagens divinas

Nós dormimos na sombra de um cedro
Fizemos amor com a subida da maré
Sentimos o perfume da lua de cera
Sonhamos com todos os tipos de amizade
Tocamos no sangue do gato preto
Nós acariciamos o cão mamute com lágrimas
Na luz tremulante nós estávamos rindo
A necessidade vence o medo

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Sonhando nós somos pedras em um silêncio negro
Sonhando com a morte do sol
Acordando para um mundo de cegueira branca
Olhos pintados daqueles que são sagrados
A morte do mundo estava sob nós
E a disciplina do vento
Nós vemos menos e menos todo o tempo, querido
Apenas olhe para essa bagunça em que estamos

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Parados na entrada da mina
Eu rezei para as suas feridas fecharem
Pomada de tigre e uma colisão cósmica
E a crucificação da rosa

Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca
Não se perca, não se perca

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Não se perca
Não deixe que você seja perdido
Não se perca
Não deixe que você seja perdido

Citador #20 ... a morte resignada que se deixa vencer pelo amor (As Intermitências da Morte)

Citador #20
... a morte resignada que se deixa vencer pelo amor



(Iluminura, o belo e a morte, agarrar a vida, enfrentar a morte, várias interpretações

(...) "A passagem difícil foi transporta sem que ele se tivesse apercebido da proeza que havido cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metido entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma implacável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou o homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."

em, "As Intermitências da Morte"
Caminho
Página 213 e 214

Documentário "Levantado do Chão" - do regresso a Lavre e a gesta dos "Mau-Tempo"

Documentário exibido na RTP, baseado na obra e vida de José Saramago, prémio Nobel da Literatura de 1998, "Levantado do Chão" de seu nome.
O regresso à terra, Lavre, de onde José Saramago revisita a Azinhaga e os seus avós maternos; as palavras dos que com ele, durante um ano, deu vida às gerações "Mau-Tempo", e que estes, por sua sorte, deram corpo a uma das obras centrais que retrata o Alentejo da lutas pelo trabalho, pela miserável jorna, pelo pão...
Fica para a história, como um lúcido e coerente registo bibliográfico de Saramago.  

(Aqui, link via Youtube, em https://www.youtube.com/watch?v=wwzwDzTw0_g)

"Documentário inédito sobre a vida e obra do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. No dia em que se assinalam os dez anos da atribuição do primeiro Prémio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, a RTP exibe um documentário que retrata o percurso singular do escritor José Saramago, que se afirma "pessimista pela razão, optimista pela vontade". Durante quase um ano, uma equipe da RTP reconstitui os pontos cardeais em que a vida e obra de Saramago se fundem, num trabalho que aborda a história do escritor português mais lido e conhecido do mundo. Mais do que uma biografia, este documentário pretende dar a conhecer ao grande público os momentos decisivos da vida de um homem que aos cinquenta e três anos não era ainda escritor. Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago imigrou para Lisboa com dois anos.

Grande parte da sua vida decorreu na capital, que serve de cenário a alguns dos seus romances. Mas durante a adolescência, foram muitas e prolongadas as suas estadias na aldeia natal, Azinhaga, Golegã, que o marcou para toda a vida. Ficou célebre, o discurso que Saramago proferiu há dez anos na entrega do prémio Nobel, evocando com emoção os avós Jerómino e Josefa, que dormiam com porcos na cama, única forma de sobreviverem todos. José Saramago frequentou o liceu e a escola industrial mas, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir os estudos. É um homem "Levantado do Chão", título de uma das suas obras, e título escolhido também, para este documentário. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico e neste trabalho reencontramos a oficina dessa época assim como ex-colegas de ofício."


(...) "Sobem os senhores do latifúndio ao outeiro para que o sol só a eles aqueça, tosco sonho sonhou João Mau-Tempo, pois não têm os senhores rosto e o outeiro nome, mas é assim de ciência certa quando João Mau-Tempo acorda, e assim que readormece, vai uma procissão de senhores e ele à frente moendo com o enxadão as raízes do mato, a abrir caminho à bela companhia, arreda os tojos com as mãos, já o sangue lhe corre, e os senhores do latifúndio vêm conversando e rindo, são generosos e pacientes quando ele se atrasa na arroteia, ficam à espera, não maltratam nem chamam a guarda, ficam só à espera e enquanto esperam fazem piqueniques, e ele tira forças do coração e lança a enxada, agora sim, raspa a terra e corta as raízes, já é um homem, e dali de cima, da encosta do outeiro, vê passarem camionetas com um letreiro em que se diz Sobras de Portugal, destinando-se a Espanha, para os vermelhos nem a ponta dum corno, para os outros, os santos, os puros, os que me defendem a mim, João Mau-Tempo de meu nome e proveito, do perigo de cair no inferno, abaixo e morra, e agora vem atrás de mim um senhor a cavalo, e o cavalo, é a única coisa que neste sonho sei, chama-se Bom-Tempo, afinal os cavalos têm uma vida longa, Acorda João, que são horas, isto diz a mulher, e no entanto ainda é noite fechada." (...)

em, "Levantado do Chão"
Caminho, 10.ª edição
Página 96 e 97



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância" - Texto de Adelino Gomes (Público, 12/11/2006)

"O homem a quem roubaram as oliveiras da infância"

Texto de Adelino Gomes, publicado no jornal Público, em 12 de Novembro de 2006

Aqui, em http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/o-homem-a--quem-roubaram--as-oliveiras--da-infancia-106925



"Vamos! Vamos!", diz, poucos minutos após a primeira paragem.
Foi ele quem chamou a atenção para a curva do rio. Um carro desviara-se da estrada principal. Preparamo-nos para esclarecer as razões da inusitada incursão de um casal entre uma e a outra estreita margens, mas o escritor Nobel mostra-se impaciente. Tem pressa de chegar à Azinhaga, a terra onde nasceu. 
O que vê, porém, à medida que avança o carro - no qual viajam, além dele próprio, José Saramago, a mulher, Pilar, o fotógrafo espanhol Jose Manuel Navia e este jornalista do PÚBLICO - deixa-o inconformado. 
- Aqui havia oliveiras - começa por constatar. - Roubaram-me as minhas oliveiras! - protesta, por várias vezes, à medida que desfila aos nossos olhos a interminável, monótona paisagem, nua de árvores.
- Olhem para estes campos [de milho transgénico]. Aceitaram as indemnizações que a CEE ofereceu e agora temos isto, tudo igual...
Iniciámos a peregrinação a pé pela aldeia. Quase nenhuma emoção perante o lugar em que outrora se ergueu a casa natal. Está guardada para mais à frente, no que resta da casa que foi dos avós maternos.
Pilar acha que deve comprar o espaço. Não parece ser essa a sua ideia
Desfia recordações para o fotógrafo espanhol, que pretende ilustrar, com imagens desta peregrinação, o texto que a revista de domingo do El Pais lhe vai dedicar, na série com grandes escritores mundiais deste Verão de 2001. 
Os locais gostam de lembrar que a aldeia, administrativamente situada no concelho da Golegã, tem foral desde D. Sancho II e que é a mesma a que, antes da fundação de Portugal, chamavam Santa Maria do Almonda. Características edificações na rua principal constituem a prova de que ali se ergueram, a partir do século XII, palácios, solares, igrejas e capelas, o mesmo será dizer, "ali se foi construindo um país". 

(Estátua de José Saramago, na Azinhaga)


A Azinhaga foi, nos célebres concursos salazaristas de António Ferro, a "aldeia mais portuguesa do Ribatejo". O contacto com os toiros, nas fainas do campo, fez da raça de maiorais desta terra "de lezírias e espargais", pelo saber, os mais famosos campinos das terras da Borda d"Água, diz uma nota do rancho folclórico "Os Campinos da Azinhaga", lida durante a breve paragem para almoço.
Não foi para estas divagações, contudo, que José Saramago se deslocou de Lisboa. Sobe, e nós com ele, ao campanário da igreja. Dá um beijo a uma prima, encontrada na rua. Ruma ao Paul do Boquilobo, para onde gostava de ir, em longas viagens de dias, e para onde - torna-se claro nos gestos, nas recordações, na insistência em ir até onde o carro pode chegar - não se importava nada de partir agora mesmo em nova aventura. Boquilobo, oferecida, depois da crise de 1385 por D. João I a João das Regras com a legenda "Melhor lhe dera se melhor houvera".
Passados cinco anos, estas recordações tomam a forma de livro - As Pequenas Memórias (Editorial Caminho) - que aqui mesmo vai ser lançado, em cerimónia de ressonância internacional, na próxima quinta-feira, 16, num regresso simbólico aos lugares da infância e adolescência do escritor, na aldeia ribatejana. 
Casas, oliveiras, arbustos, dois rios, um pântano. Que importa que deles só restem os dois últimos? Que tenha desaparecido sob um monte de escombros a casa que foi a pobríssima morada dos avós maternos de quem os leitores já sabem os nomes, desde o discurso de aceitação do Nobel da literatura, em 1998 (Josefa e Jerónimo se chamam, este último, analfabeto, "o mais sábio dos homens" que Saramago conheceu)? Que importam os estragos do prémio da CEE sobre os olivais desaparecidos?
A cada instante, José levantará as paredes da casa branca, plantará as oliveiras, fechará o postigo da porta e a cancela do quintal e dirá: "Avó, vou por aí dar uma volta", e ouvi-la-á responder: "Vai, vai", meterá "um bocado de pão de milho e um punhado de azeitonas e figos secos no alforge", pegará num pau para qualquer mau encontro canino e partirá para uma das quatro partes em que o universo se dividia então para a criança "melancólica", para o adolescente "contemplativo e não raro triste" que era ele: o rio, "os olivais e os duros restolhos do trigo já ceifado", a mata de tramagueiras, faias, freixos e chopos que ladeia o Tejo, um pouco à frente da confluência com o Almonda, ou o Paul do Boquilobo, "um lago, um pântano, uma alverca que o criador das paisagens se tinha esquecido de levar para o paraíso". 
Tudo nítido setenta anos depois - paisagem, gentes, afectos -, numa revisitação através do "poder reconstrutor da memória". E da literatura. 

Adelino Gomes

Citador #19 ... em "A Caverna" - Cipriano Algor e o "segredo da abelha"

Citador #19
Cipriano Algor e o suposto "segredo da abelha"


(...) "E quando isso acontece, que fazem, perguntou Cipriano Algor por perguntar, ao que o subchefe respondeu em tom condescendente, Meu caro senhor, suponho que não está à espera que eu lhe vá descobrir aqui o segredo da abelha, Sempre ouvi que o segredo da abelha não existe, que é uma mistificação, um falso mistério, uma fábula que ficou por inventar, um conto que podia ter sido e não foi, Tem razão, o segredo da abelha não existe, mas nós conhecem-lo. Cipriano Algor retraiu-se como se tivesse sido vítima de uma agressão inesperada. O subchefe sorria, insistia complacente que a ideia era boa, mesmo muito boa, que ficava à espera da primeira entrega e que depois já lhe daria notícias. Oprimido, sob uma inquietante impressão de ameaça, Cipriano Algor entrou na furgoneta e saiu do subterrâneo." (...)

em, "A Caverna"
Caminho
Páginas 239 e 240

"Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens", de Pedro Fernandes (Revista 7faces)

Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens, de Pedro Fernandes de Oliveira Neto (encarte para a edição especial Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago)

Aqui, o link para consulta, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/blog-post_22.html



Género
Ensaio

Capa
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Páginas
102

Outras informações
O catálogo inclui entrevista exclusiva com o professor Horácio Costa e inéditos de José Saramago

Descrição
Não foi de heterônimos como Pessoa, que foi único em cada um dos vários, mas disse ser a soma de todas as suas personagens. Não alçou a qualidade de Super-Camões, como Pessoa ao encontrar Portugal para encontrar a língua, Mensagem, mas sucede e ladeia Camões, e sucede e ladeia Pessoa, como escritor, que se sentiu responsável pela sua língua, por pensar o destino do povo Português, lançando jangada de pedra ao mar, assumindo o posto de Ricardo Reis, a vagar por Portugal, a procurar quê de povo, a encontrar quê de gente, ao enxergar todos cegos, e entregar a uma mulher, a mulher do médico, olhos para vê o que não se via e coragem, coragem de um povo que levantado do chão, cumpre o seu destino de ser filho, e filho, pai, de pai, avô, numa ciranda de povo, que se é continuidade e se é continuísmo, como foi continuidade e continuísmo de um avô analfabeto e criador de porcos, fiel ao seu ofício a cumprir destino, como certo oleiro que ver recusado pelo centro a matéria de trabalho de suas mãos, mãos que também, ao correr teclas, postaram um não reescrevendo a história da presença moura em Lisboa, postando imagens, certo de que, se pintura, há o momento em que não comporta mais pinceladas, mas se palavras, podem prolongar-se ao infinito, lição de manual, de pintura, de caligrafia, de viagem que pela geografia dos mitos, das crenças, da geografia, viagem do viajante que passeia aqui e acolá, a ermo, armado de humor, armado de ironia, por temas, e por espaços quando viajante às margens do Douro vê que a mistura das águas e o ir e vir dos peixes não responde a fronteiras, fronteiras que pode haver entre si e si mesmo, quando duplicado, cópia de si mesmo, no tempo que viu todas as reproduções desfazer o insubstituível, e que não calou caderno porque nele expôs pensamentos acerca das pessoas e das coisas pelos anos, observador de Lanzarote, que antes de lá está e por razão de lá ir, contou de Cristo e o Evangelho, e na barca presenciou entre o Deus pai e o Cristo filho a conversa de todos os tempos enquanto Caim viajava tempos por sina e imposição deste mesmo Deus, pois este nome, José, de este também outro nome, Saramago, que fez da escrita, da devoção à língua, do senso de ser português, e de ser português, ser Camões, ser Pessoa, ser Portugal, que cumpriu seu destino de achar o mundo em caravelas, procurou levar Portugal a cumprir seu destino pela língua em palavras, fiou ser estes todos os nomes.

Gustavo Leite Sobral

"Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago" de Pedro Fernandes (Revista 7faces)

7faces - Caderno-revista de poesia . Edição especial. Julho de 2011. "Variações de um mesmo tom: diálogos sobre a poesia de José Saramago".

Aqui, o link, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/7faces-caderno-revista-de-poesia_22.html

Organização
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Projeto gráfico, editoração eletrônica e diagramação
Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Conselho editorial para esta edição
Profa. Dra. Aurora Gedra R. Alvarez (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Prof. Dr. Carlos Reis (Universidade Aberta de Lisboa), Profa. Dra. Conceição Flores (UnP), Prof. Dr. José Rodrigues de Paiva (UFPE), Prof. Dr. Gerson Luiz Roani (UFU), Profa. Dra. Maria Edileuza da Costa (UERN), Prof. Dr. Márcio de Lima Dantas (UFRN), Prof. Dr. Márcio Muniz (UFFS), Prof. Dr. Miguel Alberto Koleff (Universidad Católica de Córdoba)

Páginas
232

Formato
edição eletrônica

Autores desta edição
Carlos Reis, Fernando J. B. Martinho, José Rodrigues de Paiva, Sandra Ferreira, Jorge Valentim, Lucas Antunes Oliveira, Rosidelma Pereira Fraga, Maria Elena Legaz, Hilda Orquídea Hartmann Lontra, Elielson Antônio Sgarbi, Luciana Stegagno Picchio, Soares Feitosa, José Saramago, Horácio Costa


Encarte
Encartado a esta edição foi publicado o ensaio "Um ensaio itinerante para ler José Saramago - paisagens", de Pedro Fernandes de Oliveira Neto.



Descrição
Depois de publicado Terra do pecado, em 1947, seu primeiro romance, José Saramago passaria um intervalo de quase vinte anos sem publicar nenhum outro livro. O que não quer dizer que o escritor durante todo esse tempo não tenha escrito. Do contrário. Inéditos expostos em A consistência dos sonhos, exposição organizada pelo curador espanhol Fernando Gómez Aguilera, deu contas de que nesse período Saramago foi tão polígrafo quanto no período no qual se consagra escritor. Esboço de poemas, contos, romances inacabados, resenhas, crônicas, peças de teatro, enfim, uma leva de materiais escritos que dão contas de um Saramago que buscava, em todos os territórios da escrita, um lugar próprio. E o encontrou. Tardiamente, como romancista. Mais precisamente em 1980, com o romance Levantado do chão. Antes, porém, depois do longo verão das publicações, a 'reestreia' se dá em 1966, e vem através de um gênero no qual o autor nunca será reconhecido pelo tal: a poesia.Entretanto, da extensa obra deixada por José Saramago que temos conhecimento, convém sublinhar que, também a poesia, se constitui num naco significativo no âmbito do conjunto completo da sua produção literária. Para efeito, citem-se: Os poemas possíveis - o referido livro de 'reestreia' literária do escritor, publicado naquela que, à época, foi a mais importante coleção de poesia portuguesa, a coleção Poetas de Hoje;Provavelmente alegria, em 1970; e O ano de 1993, publicado em 1975, que é o que podemos chamar de sua assinatura oficial ao fim da produção no gênero. Fruto de uma “fabricação poética” (para usar os termos do próprio escritor em entrevista a Carlos Reis, 1998), todo esse material seria revisto mais tarde por Saramago e republicado não só com um certo número de rasuras, mas também com um certo número de emendas. Entendendo que, antes de ser espaço-prólogo de escrita, isto é, de ensaio para composição da obra que se estende pós-poesia, a obra poética de José Saramago tem, coerentemente, um significado para o quadro da poesia portuguesa contemporânea e, consequentemente, na produção literária do escritor. Trata-se, no entanto, de uma das zonas de criação do escritor menos explorada ou pelo menos ainda não estudada com profundidade, seja pela crítica brasileira, seja pela crítica estrangeira. A concepção e a elaboração desse número especial do Caderno-revista 7faces pretende chamar atenção para esta parte da obra de José Saramago e pretende ser um espaço para um diálogo acerca desse material poético do escritor português e recebe textos que, no seu âmbito, se propõem a discutir a poesia e aspectos concernentes à poesia do escritor. A ideia dessa edição nasce ainda em junho de 2010. Ao longo desse período uma série de ações foi realizada, dentre as quais, cito a inauguração do espaço Um caderno para Saramago, a realização do concurso Uma página para Saramago, a realização dos cursos Um universo de José Saramago - paisagens e Diagnósticos do presente em José Saramago, Chico Buarque e Jorge Reis-Sá. Esta edição que o leitor tem agora em mãos é, pois, fruto de um esforço de longa data e coletivo e, antes de ser um trabalho de leitura para uma face menos escura da literatura saramaguiana, uma homenagem que tem por interesse perpetuar uma obra que foi e é um acontecimento relevante para o universo das literaturas em expressão portuguesa.

Pedro Fernandes
caderno-revista 7faces

Aqui, o link, em http://www.revistasetefaces.com/2012/07/7faces-caderno-revista-de-poesia_22.html


José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante") - Entrevista de Anabela Mota Ribeiro

Aqui, o link da entrevista original, no site da autora,
em, http://anabelamotaribeiro.pt/jose-saramago-a-pretexto-de-a-viagem-do-122930

"José Saramago (a pretexto de "A Viagem do Elefante")

José Saramago num sábado à tarde. Sala aquecida, luz fria de um Inverno que ainda não é, chilreio de meninos que passam no bairro. Talvez de alguns pássaros, também. Ele parece ser maior do que a casa; melhor, as pernas parecem não caber no sofá, no espaço disponível. Troca-as, destroca-as, o joelho sempre erguido e pontiagudo. Tem ainda a imponência de um gigante. Mas agora seco, delgado – como o avô Jerónimo – o cabelo ralo, um fio de voz. De muitas palavras – ao contrário do avô Jerónimo. Nessa tarde, Saramago foi assim.
Ganhou peso, tem uma espécie de protuberânciazinha no lugar da barriga. Há um ano julgou que morria. Pensou que não avançaria nas 40 páginas já escritas. Avançou. Ganhou peso. Ou, como Saramago diria, porque é muito ordenado no pensamento, ganhou peso, avançou. Chegou ao seu destino. Escreveu “A Viagem do Elefante”.
Saramago empenhou na escrita do livro a sua palavra e a sua vida – como se pode ler. Por agora, o destino é esse. Depois, não pode ser outro senão a morte. Conversa com um homem lúcido.
O livro relata a viagem de um elefante, presente de casamento do rei Dom João III e Dona Catarina a Maximiliano de Áustria, de Lisboa a Viena. É uma “visita sentimental de um bruto paquiderme”, que passa por Valladolid, o mar, Génova, as montanhas; Viena, por fim. Passa por lobos e desfiladeiros, aldeias curiosas, em ambiente de campanha. Atravessa a Igreja Católica sedenta de um milagre e as lutas internas com o luteranismo. O condutor do elefante não é aquele que conduz a história – esse papel fica para o narrador. Tem um nome indiano que significa branco. E o elefante, quem é? E para onde vai, além de Viena?


Começamos pelo livro: “A ressurreição, afinal, estava sobretudo, dependente da livre vontade de lázaro e não dos poderes milagrosos, por muito sublimes que fossem, do nazareno. Se lázaro ressuscitou foi porque lhe falaram com bons modos, tão simples quanto isso”. Na sua doença, foi você que quis viver ou foi Pilar que lhe falou com bons modos?
Eu não lhe podia falar com maus modos. Nem tinha forças. E ela muito menos. Comunicávamos com as frases que eu conseguia arrumar na minha cabeça, entre o cá e o lá em que me encontrei numa fase – demasiado longa, para meu gosto. Salvar-me, transformou-se no objectivo e desejo de todos os meus amigos, e, no caso de Pilar, numa obsessão. Enfim, escapei. Dizer que lhe devo a vida… Devo-lhe a vida a ela, aos médicos, a toda a gente que me manteve à tona, e também devo a vida a mim mesmo.

Antes disso, estava entre a consciência e a inconsciência?
Tenho a memória de que qualquer coisa na minha cabeça entrava em deriva, e eu deixava-me ir. Não era ir atrás dos pensamentos, porque, em rigor, não posso dizer que estava pensando. No quarto, já com largos períodos de consciência total, ficava por vezes numa espécie de limbo. E eu via isso. Era como se fosse um ecrã. A comparação maior é o céu negro com quatro estrelas. Mas no meu caso não eram estrelas. Eram simplesmente quatro pontos brancos, dispostos em quadrilátero, não regular. Era para mim claríssimo, e defenderia essa ideia contra quem fosse, que eu era aquele quadrilátero.

Como se se visse de fora?
Sim. Esta complicadíssima experiência teve outro efeito: usamos uma linguagem que não é sempre a mesma, que vai variando consoante os tempos que vivemos. Somos um armazém de sedimentos, ou extractos linguísticos. São os que usámos e retivemos nos diferentes períodos da nossa vida. Claro que quando estava na aldeia, na minha adolescência, tinha uma linguagem, não só da época como do lugar. E ficou cá. Quando a minha vida mudou, em Lisboa, e aos 24 anos publico um livro, já era outra pessoa, outra linguagem, outro modo de entender as coisas.

No livro, dois personagens mudam de nome. O condutor do elefante passa de Subhro a Fritz e o elefante de Salomão a Solimão. Como se uma palavra diferente dissesse respeito a uma outra identidade.
Exacto. O que é que aconteceu durante a minha doença? É que a ordem destes sedimentos alterou-se. Encontro-me diante de uma evidência, que demonstraria com o próprio livro. Este livro está escrito de uma maneira que é simultaneamente moderna e quase arcaica. Algumas coisas que estavam lá no fundo, nessa revolução interior de extractos linguísticos, passaram à superfície. Na hora de escrever o livro apresentaram-se-me construções frásicas, certas utilizações de verbos, palavras que não recordava ter usado nos últimos 40 anos.

É pela palavra que nos fazemos, que nos criamos, que nos salvamos.
Não temos outra coisa. É que não temos outra coisa. Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso. Se eu digo: estou pensando, e me perguntar: “em quê?”, a minha resposta só pode ser com palavras. Não posso tirar o pensamento da cabeça e pô-lo em cima da mesa: aqui está o que eu estava pensando.

O livro anterior a este é um livro de memórias, em que se volta, sobretudo, para a infância – um sedimento muito antigo, onde as palavras eram outras. O inconsciente tê-lo-á guinado para aquele lado? Como é que passa de um livro ao outro?
O livro d’ “As Pequenas Memórias” é escrito com linguagem que uso hoje. No caso d’ “A Viagem do Elefante” é como se houvesse outra mão que me guiasse. Para que eu aceitasse, recebesse e utilizasse palavras e expressões. O que mais caracteriza este livro é o tom narrativo, o modo de narrar. O narrador é um personagem numa história que não é sua. Sempre defendi a ideia de que o narrador não existe. Neste livro resolvo a questão – pelo menos resolvo-a para mim, que é a única coisa que importa. Passando a considerar-me autor sim, mas autor-narrador, não dissociado. Assumo tudo.

É o narrador-autor, aquele que conduz a viagem. Mas está também nas outras personagens? No cornaca (aquele que guia o elefante), no comandante (que se pode imaginar ser um alter-ego seu), no elefante.
Provavelmente estou em todas as personagens. Os dados históricos comprovados que se referem à viagem deste elefante cabem numa página, e ainda sobra. Portanto, este livro é um livro de invenção. As personagens históricas, o arquiduque, a arquiduquesa, D. João III, a Rainha Catarina, vejo-os mais como comparsas – embora estes últimos tenham um papel, o que têm para dizer tem importância no contexto do livro. O resto, o capitão de cavalaria, os austríacos, toda a gente que se vai encontrando pelo caminho, são produto da imaginação. Eu não seria o arquiduque, embora certas manifestações poderia aceitar como minhas. A arquiduquesa é uma sombra que passa, destinada a parir 16 vezes. E temos o elefante.

É fácil olhar para ele como metáfora da própria vida.
É. Não há nada que o elefante faça que possa ser interpretado como consequência de um pensamento seu.

Diz, aliás, ao longo do livro, que não se pode saber o que o elefante pensa.
Ele não tem palavras, não usa palavras. Se os elefantes pensam, eu não sei como é que pensam. Se nem sei muito bem como é que pensa o meu cérebro… O Torga, nos “Bichos”, que são uns contos magníficos, antropomorfizou tudo – aqueles bichos pensam. Eu não queria isso. Queria que o meu elefante fosse levado de Lisboa a Viena como um animal que não sabe onde o levam, que não tem nenhuma ideia de qual possa ser o seu destino e que vai andando, porque outros o levam, e também vão andando. Realmente, é um pouco como a vida. O que dá sentido a este livro é o final – o final da vida deste animal, Salomão. Como tinha que acontecer, esfolam-no. A pele é oferecida pelo arquiduque a um conde qualquer.

E há aquele detalhe medonho: de usarem as patas para pôr bengalas e bastões. As mesmas patas que poderiam ter produzido um milagre, no miolo do livro.
Sem isso, provavelmente o livro não existiria. A viagem do elefante, a autêntica viagem, é o que o leva a isso. As suas pernas andaram milhares de quilómetros, estiveram na Índia antes de o trazerem para Lisboa, serviram-no. E essas mesmas pernas são cortadas e transformadas irrisoriamente num recipiente para pôr as bengalas, os guarda-chuvas, as sombrinhas. Esse é o destino do elefante que faz essa viagem, com episódios épicos, e que acabou ali. A epígrafe do livro acompanha isto: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Claro que em termos latos, aquilo que nos espera é sempre a mesma coisa: a morte. Neste caso, não é só a morte, é o destino final. Caricato. Disseram-me que até há pouco tempo, essas patas ainda estavam no lugar onde tinham sido postas.

Escreve na primeira parte do livro: “É a lei da vida: triunfo e olvido”. Perguntam o que vai acontecer ao elefante, e a resposta é: vão dar-lhe umas palmadas – que nós diríamos nas costas - vai haver muita gente nas ruas, e depois esquecem-se dele. Consigo, também vai ser assim?
Inevitavelmente. Não vale a pena que tenhamos ilusões. Pode não acontecer em 50 anos, e talvez em 100 anos ainda haja quem me leia. Depois passo a ser um nome. Um nome que algum excêntrico vai ler e conhecerá. Quem é que, no momento em que estamos aqui a conversar, está a ler o Camões? – para além dos que tenham de lê-lo por obrigação. Quem é que está a ler o Gil Vicente, Dom Francisco Manuel de Melo, ou Padre António Vieira? Quem é que tem paciência para ler sermões, mesmo que eles sejam um esplendor?

Desde quando tem a noção de que a sua vida será também triunfo e olvido?
Desde sempre. Este pendor relativizante começou por mim mesmo. Depois do “Ensaio sobre a Cegueira”, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, que me recordassem como o criador do Cão das Lágrimas. Já vê que é pedir bastante pouco… Ninguém escreve para o futuro, ao contrário do que se julga. Somos pessoas do presente que escrevemos para o presente. Também pode acontecer que os livros deixem de ser livros e que o nome do autor continue como uma referência.

Abrimos uma chaveta para dizer: José Saramago, aquele que inventou o Cão das Lágrimas, escritor, comunista. Pensamos nas palavras cardeais do seu universo: ironia, compaixão, imaginação.
Acabamos por converter-nos em conceitos. Já não temos existência, mas continuamos a existir – naquilo que deixamos, nas ideias que as pessoas desse tempo, do futuro, têm sobre aquilo que deixamos, e que podem não coincidir com as nossas. Mas sobre isso não podemos nada, já não estamos cá. De qualquer forma, o olvido está garantido, mesmo que não seja total. Uma das coisas que me dá uma satisfação íntima… O meu avô morreu em 1948, a minha avó viveu ainda uns bons anos mais. Aí, o processo de esquecimento começava exactamente no momento em que cada um deles morreu. Dá-me uma satisfação que talvez nem saiba exprimir o facto de ter-lhes dado uma vida.

Ao recordá-los, ao nomeá-los.
Eu não deixei que morressem. O nome deles nunca mais seria citado, nunca mais se falaria nisso. A família está reduzida a quase nada: estou eu, a minha filha, um vago primo que talvez ainda os recorde. Estavam condenados a desaparecer já. Escrevi sobre eles. E em qualquer parte do mundo, alguém que se interesse por aquilo que faço, já sabe que tem que aguentar com os meus avós.

Citou o seu avô no discurso que fez na Academia Sueca e apontou-o como o homem mais sábio que conheceu.
Foi o princípio da minha conferência. E aí deixo o nome deles: Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha. Falar deles nestes termos pode levar a uma certa idealização. E sim, servindo-me deles como personagens literários, idealizei-os. Mas não imaginem que eram extraordinários: eram pessoas comuns.

Eram analfabetos. Porque é que ele era para si o homem mais sábio que conheceu?
Porque eu era garoto. Era um homem alto, seco, delgado, de poucas palavras. Olhava para ele, não como se fosse o super-homem, ou um anjo caído do céu, porque era um homem, um camponês, não conhecia uma letra; contudo, como não tinha outros mestres, além dos da escola primária, aquele, sem que alguma vez lhe tivesse chamado isso, foi um mestre de vida. O próprio não sabia que era mestre, eu próprio não sabia que era seu discípulo; simplesmente vivíamos juntos na mesma casa. É possível que haja aqui muita elaboração mental. Mesmo que assim seja, no centro da questão está…

O amor.
Também. Eles não eram muito carinhosos. Não tinham tempo nem tinham sido educados para a expressão do afecto. Já muito tinham em que pensar – tendo comido ao almoço, se tinham comida ao jantar. Chamemos-lhe o momento mágico da infância para resolver esta questão – que não fica nada resolvida, claro.

Um pouco como o narrador-Saramago que resolve no livro uma coisa por elipse, com um plof!
Imagine se eu tivesse que resolver o processo… assim não: plof, e já está!

Falei de imaginação, lucidez, ironia, compaixão, que comummente se dizem ser os pilares da sua narrativa. Quando recuperou da doença, temeu ter perdido alguma destas faculdades?
Não. No que tem que ver com ironia e humor, nos diálogos que mantinha com os médicos usava uma ironia por vezes agressiva. A Pilar olhava para mim com os olhos esbugalhados; não era a dizer como é que eu me atrevia – estávamos a falar de igual para igual; mas afinal de contas estava muito vivo na minha cabeça. O corpo, estava um desastre, os pulmões encharcados, a perder peso a cada hora que passava, até aos 51 quilos com que saí do hospital. A prova de que não devo ter perdido nada do que era meu antes está no próprio livro.

Mas isso só percebeu na escrita do livro? Quando partiu para ele, tinha uma insegurança de algum tipo?
O livro foi escrito em duas fases. A primeira desde Fevereiro do ano passado até ao Verão, em que escrevi umas 40 páginas. Depois o meu estado agravou-se e o estado em que me encontrava tirou-me o apetite de escrever. E nisto passaram-se meses. No fim de Outubro, fui quatro dias a Buenos Aires – um autêntico disparate. Praticamente não comi. A certa altura meteu-se-me na cabeça que queria maçãs assadas. Mas é impossível encontrar na Argentina maçãs para assar e alguém que as saiba assar. Vim de lá muito mal e fui para uma clínica em Madrid, onde me fizeram uns quantos exames. Não acertaram com o diagnóstico. Fomos para Lanzarote. Aí entro na rampa e começo a deslizar para o fundo. Não tive uma dor, não posso dizer que sofri, dá mesmo a impressão que não estava lá. O meu estado era de tal ordem que no hospital tiveram dúvidas em aceitar-me. Porque não queriam que morresse no hospital deles! [riso] Se eu queria morrer, que fosse morrer noutro sítio! Aí a Pilar armou-se em Joana D’Arc e convenceu-os de que não podiam fazer isso, e revelaram-se pessoas e médicos extraordinários.

Esteve três meses no hospital. Quando voltou a casa, de quanto tempo precisou até voltar a escrever?
Eu era uma sombra. As minhas pernas eram incapazes de suster-me, agora imagine andar… Vinte e quatro horas depois já estava sentado à mesa a trabalhar.

Porque é que escrever foi indispensável?
Aquele trabalho tinha sido interrompido. Durante o tempo em que estive doente cheguei a dizer à Pilar: “Não sei se vou conseguir acabar o livro”. A Pilar, falando com os médicos, chegou a dizer-lhes: “Garantam-lhe a vida por mais três meses para que ele possa terminar o livro”. Há que dizer que três meses não bastariam.

A Pilar sabe pedir… Sabe falar com bons modos…
Sabe, sabe. A Pilar, se quer alguma coisa, é irresistível! [riso] Essa dedicatória que pus, “a Pilar que me agarrou pela gola do casaco e não me deixou cair ao poço” [na verdade, o que está escrito no livro é: “A Pilar, que não deixou que eu morresse”], figuradamente é isso.

Curiosamente, a palavra pilar aparece no livro uma única vez, para dizer “pilar da fé”. Um pilar é algo que nos sustém. É o pilar da sua vida?
Foi, tem sido, e espero que continue a ser o meu pilar. Além de ser intimamente a minha Pilar, é também o meu pilar.

Voltemos à necessidade de 24 horas depois estar a trabalhar. Era uma forma de manter-se vivo?
Vivo estava eu. Não era o corpo que queria escrever, era a cabeça. Essa ideia – não sei se vou conseguir acabar o livro – continuava cá dentro. A primeira coisa que fiz foi rever tudo o que estava escrito. E corrigir. Se me pergunta: tinha cabeça para correcções? Tinha cabeça para o que fosse. Quando cheguei ao fim dessas correcções, engatei a história, e terminei o livro no dia 12 de Agosto.

É um livro muito luminoso. É surpreendente, sabendo de onde vem…
Embora a mim não me surpreenda. Tenho uma capacidade de distanciamento muito, muito grande. E neste caso, um distanciamento em relação ao doente que tinha sido, ao convalescente que continuava a ser. Não reflecti: posso ou não posso escrever. Já se veria se podia. Abri o computador, procurei o que estava há meses parado, numa certa palavra, e recomecei sem dramatismos. Detesto dramatismos. Detesto aquilo que os escritores cultivam muito: a relação dramática com a escrita.

Porque é que detesta esse dramatismo?
 Porque acho que é falso.

Fala como se o que faz fosse simplesmente um ofício.
Escrever é um trabalho. Da mesma maneira que um médico, o que faz, é um trabalho. Essas histórias em volta da página branca, o horror da página branca…

No seu passado de editor ou jornalista estava em contacto directo com as palavras; mas era para si um ofício diferente.
Não é a mesma coisa estar no Diário de Lisboa, e escrever o editorial, ou no Diário de Notícias, e escrever os meus apontamentos; mas não difere muito. Num caso e noutro estou a usar as palavras, e as palavras de um romance são as mesmas, vêm do mesmo depósito de palavras. Quando eu era um escritor que ninguém conhecia já pensava: isto é um trabalho. Eu poderia ter as melhores ideias para livros, as inspirações mais fulgurantes, mas tenho que as pôr no papel. Pode acontecer, e acontece, que aquilo que eu julgava fulgurante afinal não o é tanto.

Isso é trabalhar a forma.
Quem trabalha a forma trabalha o conteúdo, quem trabalha o conteúdo trabalha a forma. Comparo o trabalho ao computador com o trabalho do oleiro. O oleiro agarra num bocado de barro, põe-no no torno, o torno gira e ele começa a trabalhar o barro até chegar à forma que quer. Há qualquer coisa de artesanal com o trabalho no computador.

Não teve dificuldade em retomar o fio, em engatar, como disse?
Nenhuma. Não tem virtude nenhuma. É simplesmente uma maneira de ser. Você está a ver a excelente ocasião que perdi para fazer do reatamento do meu trabalho um drama, uma angústia, uma ânsia, e agora como é que vai ser?, vou ser capaz?

Nunca foi um angustiado, pois não?
Nunca, nunca, nunca, nunca. E ainda bem. Tive os meus momentos de abatimento, mas entrar em depressão, nunca entrei.

O que é que o segurou? O que é que fez com que nunca caísse em depressão?
Já não o pensava há muitíssimos anos, e é simplesmente uma frase, mas é como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali não entra nada. E que se traduz numa certa serenidade, que se acentuou com a doença. Se alguma coisa pude aproveitar dela foi este sentimento de extrema serenidade. Passei pelos momentos maus e bons que todas as vidas têm, mas nunca perdi esta…, não quero chamar-lhe segurança de mim mesmo... É um pouco como o olho do furacão: em redor é morte e destruição, mas ali o vento não sopra.

Essa noção, de ter essa parte intocada, tem-na desde quando?
Desde que é possível ter consciência de uma coisa como esta. Pode ter sido aos 30 anos – ponhamos assim. Mas quando tive consciência, percebi que já antes era assim.

Que auto-estima tinha esse homem que está para trás? O homem que foi na primeira parte da sua vida. Isso que descreve, parece ser uma coisa por sua conta, autónoma.
De certo modo. Eu tinha 18 ou 19 anos e tinha um grupo de amigos – como éramos cinco, chamávamo-nos Pentágono! E um dia conversando sobre umas quantas coisas sérias – o que é que era a vida? – disse esta frase que recordo tal qual e que me ficou para toda a vida: “Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter”. Na boca de um rapaz, nos anos 40, uma frase como esta parece reflectir um fatalismo radical. Fala-me de auto-estima: creio que sempre a tive e que esta frase pode ser interpretada nesse sentido. Como nunca fiz projecto de carreira, como nunca fui uma pessoa ambiciosa, como na minha vida não houve cálculo, realmente não fiz nada para que as coisas acontecessem. A não ser o trabalho que tinha de fazer a cada momento.

Fez todos os trabalhos com o mesmo empenho?
Fazia o melhor que sabia e podia, quer fosse na oficina de serralharia onde comecei, quer nas actividades que vieram depois. Vou contar-lhe uma coisa: o Nataniel Costa era o director editorial da Estúdios Cor. Encontrávamo-nos no Café Chiado. Eu não tinha quaisquer credenciais. Tinha os meus amigos, os tais do Pentágono – portanto, ficava numa mesa à parte. E ouvia os outros, os Abelairas, essa gente, ali reunida. Passado tempo, o Nataniel entra na carreira diplomática e falou comigo. Seguimos juntos pelo passeio, em direcção à Brasileira. “Queria perguntar-lhe se está disposto a ocupar o meu lugar na editora enquanto eu estiver ausente, e depois logo se verá”. Porque me dizia aquilo a mim? “Não faltam pessoas a quem poderia ter falado; mas não tenho a certeza de que não aproveitassem essa circunstância para me apunhalarem pelas costas”. Isto é dos momentos mais importantes da minha vida. Alguém que não tinha sido pago para isso nem tinha razões afectivas para o fazer, disse o que disse.

Além de confiarem na sua lealdade, foi o início de um período, em que foi editor.
É como se pudesse dizer-me: tenho razão em ter feito a minha vida como a fiz até hoje. Durante anos escrevíamo-nos, trocávamos ideias e sempre nos entendemos sem o mínimo atrito, nunca houve roçadura de pele.

A imaginação, a ironia, a compaixão estão para o autor como a moral, a coerência, o comunismo estão para o homem? Contaminam-se, e são do mesmo?
São, são. Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito. É isso. Mais recentemente converti isto na declaração: o comunismo é um estado de espírito. Dois camaradas atacaram isto, em nome do materialismo dialéctico. Não entenderam.

Voltando ao livro, há momentos de provação. Como quando a caravana enfrenta o desfiladeiro ou os lobos. O que há numa situação e noutra é o medo. Não sei da sua relação com o medo.
Nunca me encontrei em situações em que o medo se desencadeasse fora do meu domínio. Pondo esta salvaguarda, não me considero uma pessoa medrosa. Também não sou um exemplo de valentia – nunca fui posto à prova. Vamos à experiência mais recente, a doença. O medo da morte, que é um medo tão comum, nunca tive. A probabilidade de morrer era alta. Talvez não tenha tido medo por causa da costela fatalista que tenho – o que tiver de ser, será.

É evidente que o elefante não pode sucumbir aos lobos, ou cair no desfiladeiro – ou seja, nas partes menos boas.
Se transportar isso para a vida, é uma forma de optimismo. E que liga com aquela frase dos 19 anos.

Escreve para ser amado? Escrever é uma forma de ser amado?
Pode ser entendido assim. O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exacto dizer que a gente escreve porque não quer morrer. Ser amado pelo outro não está na nossa mão; podemos escrever para que isso aconteça, e depois acontecerá ou não. Já que temos que morrer, que alguma coisa fique. Não é imortalidade – isso seria um disparate; é um reconhecimento por algum tempo mais.


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Gosta do filme?
Gosto muito. Tinha gostado da primeira vez que o vi, mas de uma forma mitigada. Porque as condições de projecção do cinema S. Jorge eram más. Não vi o filme em Cannes; não estava em condições de fazer uma viagem dessas e andar por lá. Na antestreia, vi uma nova versão, com uma nova montagem. O Fernando [Meirelles] e eu tínhamos conversado, tinha-lhe dado a minha opinião. Na montagem que fez restituiu ao filme algo que lhe tinha retirado – violência. O filme é acusado de ser violento. A minha resposta é que não é mais violento do que as séries que nos entram diariamente em casa para consumo das famílias.

O livro é mais violento do que o filme.
Muito mais violento. A Julianne Moore é um portento, como todos os outros. Fiquei surpreendido pela escolha do Gael para chefe da camarata dos malvados; está um pouco histérico, mas faz um bom papel. A montagem é perfeita. A imagem é eloquente. Uma coerência dramática perfeitamente conseguida.

Tem uma cena preferida?
Há uma cena que me impressiona muitíssimo: quando as mulheres vão para a camarata dos outros cegos. Passam em fila indiana, uma atrás das outras, cabisbaixas, em direcção ao martírio. Pareceu-me que, no fundo, a história da mulher, no mundo, na História, estava ali.

Lembra-se quando começou a sua relação com o cinema?
Devia ter seis anos. Morávamos na Mouraria. Perto havia o Salão Lisboa, a que chamávamos O Piolho. Foi aí que comecei a ir ao cinema, com um rapaz mais velho do que eu que vivia na mesma casa, o Félix. (Era no tempo em que se alugavam partes de casa). Vi as coisas mais disparatadas, filmes de terror, um filme em que aparecia um leproso com um capuz… O outro cinema onde ia, mais tarde, era o Animatógrafo. Giríssimo, pequeno, com uma espécie de grade que separava uma plateia da outra. Foi aí que vi uma parelha de cómicos suecos, que eram conhecidos à francesa por Pat & Patachon. Garanto-lhe que se tenho conhecimento que aparecem aí os filmes do Pat & Patachon, vou a correr!"


Publicado originalmente no Público em 2008

María Pagés na reflexão de José Saramago


"Utopía" de María Pagés

"It is known that María Pagés lives in the genius of dance, and as such we proclaim it. But there is more to this woman; she dances and by doing that, she moves everything that surrounds her. 

Nor the sky nor the earth is the same after María Pagés has danced."

(José Saramago)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Canal Sur - entrevista José Saramago num programa "Especial Saramago"

(Aqui o link da entrevista, em https://www.youtube.com/watch?v=i2vARBxzjaE)

Cipriano Algor e Marta, das viscosidades da barbotina

Cipriano Algor, oleiro de outras tarefas, e sua filha Marta, estão no preciso momento em que estudam a forma de tornar prático e rápido o fabrico em série de bonecos. Depois, do encarregado das compras do Centro, ter mandado recolher todo o stock de peças de barro, armazenadas umas, rejeitadas outras, outras não vendidas por eventual defeito, e a consequente imediata interrupção das relações comerciais, conseguiram uma promessa de venda de duzentos bonecos de seis moldes diferentes. São eles, a enfermeira, o assírio de barbas, o mandarim, o bobo, o esquimó e o palhaço.
Saltou-me a interrogação, tal como, Cipriano Algor o fez - Gallenkamp, «Quem é esse Senhor».

Aqui, neste link, numa linguagem científica, explica-se a modelagem e fluidez da barbotina. Não há dúvida, que esta explicação mostra, as dificuldades que Cipriano Algor provou, nos dias seguintes ao início dos trabalhos.
Em, http://www.ebah.pt/content/ABAAAehK8AE/apostila-colagem

"As qualidades de uma barbotina irão determinar a qualidade do produto formado. Este deve apresentar boa resistência à verde e homogeneidade em sua constituição, o que significa a ausência de bolhas de ar, de ondulações, de aglomerados e de retração excessiva, a qual implicaria em distorções ou empenamento no item. No entanto, além de se obter um bom produto, é desejável também que a barbotina possua certas características operacionais. Entre estas se destacam a estabilidade da barbotina que significa a possibilidade de uma barbotina ser utilizável por um longo período com um mínimo de ajuste de suas propriedades. A fluidez necessária ao manuseio da barbotina no âmbito industrial. Certa robustez que significa a tolerância a pequenas variações de temperatura, composição química, etc. Baixo consumo de aditivos. Por fim, constância, ou seja, a obtenção da repetição de parâmetros ou rotina operacional.
Como resultado, o controle das propriedades das barbotinas passa a ser um sistema complexo, contemplando vários campos da físico-química, como propriedades dos fluidos, sedimentação, filtração, difusão, absorção, propriedades dos colóides, como capacidade de trocas iónicas e forças electrostáticas entre partículas, etc."


Em, "A Caverna"
Caminho
Páginas 150 e 151

(...) "É o que aqui vem explicado, disse Marta, Lê lá, então, Sobre a densidade, a ideal é um vírgula sete, por outras palavras, um litro de barbotina deve pesar mil e setecentos gramas, à falta  de um densímetro adequado, se quiser conhecer a densidade da sua barbotina use uma proveta e uma balança, descontando, naturalmente, o peso da proveta. E quanto à fluidez, Para mediar a fluidez usa-se um viscosímetro, há-os de vários tipos, cada um delas dando leituras assentes em escalas fundamentadas em diferentes critérios, Não ajuda muito, esse livro, Ajuda, sim, dê atenção, Dou, Um dos de uso mais frequente é o viscosímetro de torção cuja leitura se faz em graus Gallenkamp, Quem é esse senhor, Aqui não consta, Continua, Segundo esta escala a fluidez ideal situa-se entre os duzentos e sessenta e os trezentos e sessenta graus, Não encontras por aí nada ao alcance da minha compreensão, perguntou Cipriano Algor, Vem agora, disse Marta, e leu, No nosso caso usaremos um método artesanal, empírico e impreciso, mas capaz de, com a prática, dar uma indicação aproximada, Que método é esse, Mergulhar a mão profundamente na barbotina e retirá-la, deixando a barbotina escorrer pela mão aberta, a fluidez será tida como boa quando, ao escorrer, formar entre os dedos uma membrana como a dos patos, Como a dos patos, Sim, como a dos patos. Marta pôs o livro de lado e disse, Não adiantámos muito, Adiantámos alguma coisa, ficámos a saber que não podemos trabalhar sem desfloculante e que enquanto não tivermos membranas de pato não teremos barbotina de enchimento que sirva, Ainda bem que está do bom humor," (...)

"Caim" ou a derradeira tentativa de humanizar a bondade



Em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Fernando Gómez Aguilera, ensaio complementar à obra, "o autor diante do reflexo da sua obra"
Páginas 57 a 59


(...) "A aparição de "Caim" em 2009 significou o regresso do autor ao tema da religião, encarado novamente de forma frontal; embora, nesta ocasião, situando-se no Antigo Testamento para ler literalmente e reescrever uma dezena de episódios extraídos do Génesis, do Êxodo e do Livro de Job, cuja característica comum é a violência e o absurdo lógico em que se sustentam. Confronta-se, pois. com um dos últimos grandes relatos vigentes esgrimindo o seu ateísmo anti-religioso, que o faz considerar a Bíblia um «manual de maus costumes», «um catálogo de crueldade». No final dos seus dias, regressa à literatura apetrechado do seu voltaireanismo mais radical, para combater a superstição e a irracionalidade do dogma e das crenças, que, na sua opinião, escravizam o homem, porque, no marco da fé, a felicidade repousa sobre a sua missão. Sai em defesa do livre arbítrio, do direito à liberdade individual e, diante do mito, esgrime lucidez e a razão como valores universais que protegem a dignidade humana, numa leitura alternativa, num dialogo crítico que recorre também ao riso irreverente, à sátira, para censurar um deus, fruto da criatividade humana, que, aos seus olhos, se comportava com modos arbitrários e soberbos, opressivos e cruéis. Saramago aceita e emprega a literatura como possibilidade de subversão do poder, como instrumento de pensamento e de rebeldia, de combate intelectual, apegado ao humanismo libertador que sempre orientou a sua visão do mundo." (...)



(...) "Caim conclui com uma «negação total» que, em boa medida, sintetiza a visão estratégica e desencantada do mundo que o acompanhou até ao final dos seus dias: «A terra está completamente corrompida e cheia de violências, só encontro nela corrupção, pois todos os seus habitantes seguiram caminhos errados, a maldade dos homens é grande, todos os seus pensamentos e desejos pendem sempre e unicamente para o mal, arrependo-me de ter criado o homem.» Inverter o sinal desse destino só podia estar nas nossas mãos. Daí que, para Saramago, fosse imprescindível uma revolução ética que, reivindicando o valor supremo da bondade, reconhecesse como  única prioridade o ser humano."

José Saramago (a pretexto de "As Pequenas Memórias") por Anabela Mota Ribeiro

Nos próximos tempos, deixarei aqui, uma compilação de textos e entrevistas, de Anabela Mota Ribeiro, a José Saramago, ou, referente ao autor.
Confesso, ao desconhecer estes trabalhos, e agora que por obra do acaso, me foram sugestionados para minha análise, não poderia deixar de aqui fazer menção.

Sua referência biográfica, aqui link, via http://anabelamotaribeiro.pt/14713.html
"Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa.
Licenciou-se em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Neste momento prepara a tese de mestrado em Filosofia (variante Estética). 
É jornalista freelance. Colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles DNa (suplemento do Diário de Notícias), Selecções do Reader’s Digest, Elle, Máxima. Actualmente escreve para o Público e o Jornal de Negócios.
Foi autora e apresentadora de programas de televisão da RTP. Trabalhou em rádio e foi correspondente da Antena 1 em Londres entre 2007 e 2008.
Organiza e modera um debate mensal sobre livros na Bertrand do Chiado.
Conduziu o colóquio “Nós, a Cultura e eu” na Fundação de Serralves em 2003. Comissariou o ciclo de conferências "O que é a América hoje?", co-organizado pela FLAD e Casa da Música, em 2011, e o ciclo de cinema “Noite e Nevoeiro – Portugal e o Holocausto”, organização da Cinemateca com a Embaixada dos EUA, FLAD e Gulbenkian, em 2013.
O género a que mais se tem dedicado é a entrevista. Publicou um livro com 14 entrevistas, “O Sonho de um Curioso” (2003).
Desde Maio de 2013 disponibiliza o seu arquivo no blog http://anabelamotaribeiro.pt."

(À esquerda, Anabela Mota Ribeiro; ao centro, Richard Zimler; 
à direita, João Paulo Esteves da Silva)


Link, do seu site, em http://anabelamotaribeiro.pt/

Aqui, o link, da entrevista original, http://anabelamotaribeiro.pt/4805.html

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008

"José Saramago (a pretexto de "As Pequenas Memórias")"
"José Saramago tem 84 anos e volta “ao fundo movediço, composto de restos, de detritos de tudo e de todos” onde fica a infância. Volta à Azinhaga, aos pais, “migrantes empurrados pela necessidade”, aos quartos com serventia de cozinha nas casas partilhadas de Lisboa, ao primo José Dinis, à Domitília, aos tios, às baratas que passeavam pelo sono, às camas entre a palha dos animais, à violência doméstica, aos rapazes que lhe enfiaram um arame na uretra. Recupera o mais primitivo dos refrescos, de água, vinagre e açúcar, (que já tinha recuperado no “Evangelho” para matar a sede a Cristo), traz um sapateiro que lhe perguntou: «Você acredita na pluralidade dos mundos?».
José Saramago fala do começo do mundo, do primeiro dos seus mundos. Eduardo Lourenço resolve numa frase a imensa improbabilidade de o mesmo rapaz, que se descreve nestas memórias, ser o Nobel da Literatura português: «A tua vida é um milagre».
Quando a distinção da academia sueca lhe foi atribuída, José, Zé, Zezito, falou do avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler, nem escrever”. É por ele, citado no livro, que começo a entrevista. Nela se fala de morte, de uma fúria de viver, da influência de que inequivocamente goza, do sentimento de ser amado como homem e autor, e de esse constituir o maior dos tesouros.
(Aviso aos amantes da polémica: a comida requentada é quase sempre estéril, desagradável, empobrecedora. Por isso não são trazidas questões antigas, secas, respondidas. Como Cuba e Fidel. A acusação de que perseguia não-comunistas quando era director do Diário de Lisboa. Sousa Lara e o veto do “Evangelho segundo Jesus Cristo. A razão porque foi viver para Lanzarote. Se quiserem abandonar aqui a leitura, lamento. O que se segue é muito mais fértil do que qualquer uma dessas linhas). Eis um homem a quem a vida deu muito e que se deu a ela completamente. 

Começo por uma longa frase, que parece uma despedida: “Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. (...) Que palavra dirá então?”. Este livro deve ser entendido como uma antecâmara de qualquer coisa?
Não diria isso. O tempo que tenho para viver já não é muito. Se tivesse que desejar uma maneira de terminar o meu trabalho, podia até considerar esta excelente. O fim volta ao princípio, o ciclo fecha-se. Há uma vida, há um trabalho, depois há um regresso às origens. Dentro de um ano ou dois já saberemos se é a antecâmara do silêncio ou se é simplesmente um livro de passagem para outro livro.

A ideia da morte perpassa estas “Pequenas Memórias”. Há uma parte em que diz que quando pensou em escrevê-las, achou que tinha de descrever a morte do seu irmão...
Não é isso, não comecem a complicar as coisas. Senão, depois, acabam por mas complicar a mim e tenho de começar a pensar que os meus motivos não tinham nada que ver e que são os vossos que justificam o livro. Está claríssimo que, se ia escrever esse livro, em que recordo a minha infância, não podia ignorar a morte do meu irmão, embora não tenha praticamente memória nenhuma dele. Falo de uma falsa memória, quando imagino que estamos numa cave, há uma janela, e há uma cómoda com uma gaveta aberta e outra aberta, como se eu quisesse subir pelas gavetas até chegar lá acima.

Quando o seu irmão morreu, tinha três anos e meio.
Fui testemunha directa do que aconteceu, mas testemunha não-consciente do que aconteceu. Do que falo aí é do que sei pelo que o meu pai contava, a minha mãe contava. Algumas suposições minhas, quanto ao modo de ser da minha mãe – um pouco seco –
, pode ter sido motivado pela morte do primeiro filho, e depois não querer demonstrar grandes sentimentos em relação ao segundo, não fosse dar-se o caso de eu também... Tudo isto é ao mesmo tempo muito simples e muito complicado, como todas as coisas. Mas gostava de saber: antecâmara de quê, na sua opinião?

Acho legítimo que uma pessoa da sua idade se pergunte quanto tempo mais vai viver, em que condições, e sinta um desejo de acertar coisas, dizer coisas.
Não tinha contas a ajustar com nada. Esse livro, de existência na minha cabeça, tem 20 anos, pelo menos. Foi um livro que comecei, depois interrompi, depois voltei a ele, depois interrompi. Porque sempre aparecia, felizmente para mim, uma ideia para um novo romance, e deixava as memórias. Até que este ano, não tinha outra ideia, e decidi acabar isto. Que eu tenho 84 anos e não posso viver mais 84, está claro. Não penso na morte. Ou melhor, todos pensamos na morte. A morte para mim não é tanto isso de morrer; é mais simples, e ao mesmo tempo mais duro. A pessoa estava e já não está – isso é que é o pior de tudo.

Significa já não poder experimentar o que quer que seja...
Não, não é isso. Daqui a duas ou três semanas, quando voltar a casa, posso chegar à varanda, olhar para o jardim e pensar: “Agora estou aqui, vejo os meus cães, a minha mulher e depois já cá não estou”. Mas é assim para todos, animais, vegetais. Tudo o que nasce morre.

É um livro muito sensorial. A descrição da infância está cheia de temperaturas, bichos, cheiros. Mas para um homem de palavras, volto à questão inicial: «Que palavra dirá então?». Há a muito célebre frase de Goethe, no leito da morte, fruto da invenção ou não, mas que chegou até nós: “Mais luz, mais luz”.
As últimas frases são uma coisa horrorosa. Não devia ser permitido falar nesse momento. Não quer dizer que não haja frases espontâneas... Mas temo muito que algumas delas sejam pensadas, com tempo.

A posar para a posteridade.
A posar para posteridade.

“Deixa-te levar pela criança que foste” serve de epígrafe ao livro. Sendo um bom ponto de partida para o ler, não sei se seria um bom ponto de partida para ler a sua vida. Que palavra, que aforismo, que epitáfio seria o certo para o evocar?
Está a pedir-me demasiadas coisas para as quais não vinha nada preparado, nem me vou preparar agora, evidentemente.

Mas podemos ir falando...
Você falou de epitáfio, e há um interessante: “Aqui jaz Fulano de Tal, indignado”. Indignado, porque é uma partida que nos fazem, estávamos cá tão bem, supondo que estávamos bem, e de repente levam-nos a outro lado, onde não há nada. Não me vai perguntar se acredito no Além?

Não, imagino que não acredite.
Faz muito bem em imaginar.

Mas há uma figura do Além que aparece no livro, uma “costureira ímpia condenada a coser roupa à máquina por toda a eternidade dentro das paredes das casas”.
Nessa época era tão natural, estava-se numa casa e uma pessoa vinha dizer: “Olha, lá está a costureira”... Ouvi-a em Lisboa e na aldeia. Punha-se o ouvido e era aquele ruído característico de quando se quer travar a máquina e se leva a mão à roda. Nunca ninguém achou que precisava de ser explicado. Que não era uma ilusão dos sentidos, alguém que disse e outro acreditou, não era. Curiosamente, a professora Maria Alzira Seixo, no artigo que escreveu no JL sobre este livro, diz que também ouviu a costureira.

Quando estava a ler o episódio da costureira, perguntei-me como é que as parábolas (de que se fazem os seus livros) surgem na sua vida. Como é que um racionalista, um marxista, encaixa esta dimensão mística? Até que ponto essa infância de necessidade, em que aconteciam coisas inexplicáveis, não lhe deixou uma marca de fantasmagoria que vai reaparecendo em toda a sua vida?
É difícil confirmar ou dizer que não. Claro que tudo o que nos acontece nos constrói ou nos destrói, e se as coisas andam cá dentro, não são muitas vezes conscientes. Quando chega a hora, podem manifestar-se de maneiras que não são directas. Para seguir o percurso seria necessário um trabalho muito atento de auto-reflexão ou de entrega às mãos de um psicanalista – coisa que não fiz nem farei nunca. Mas não creio. Repare, uma vida de necessidade é uma vida de necessidade: o que está por cima de tudo é a necessidade.

A marca da aldeia é poderosa.
As impressões mais fortes, aquelas que terão contribuído para fazer de mim a pessoa que sou, são da aldeia, e não da cidade. Mas não posso identificar que sou assim por causa daquilo que aconteceu, ou sou assado porque não aconteceu – como é o caso do cavalo do meu tio que nunca montei. Quando digo que fiquei com um trauma desde então, não é um trauma, mas a prova de que alguma coisa significa é que não me esqueci. E quando me lembro, faz-me raiva, porque eu também merecia andar montado naquela sela. Mas nada disto é muito importante.

Mas afinal, o que é que importa mesmo na vida de uma pessoa?
Ao contrário de muitas outras pessoas, sempre tive consciência da importância que a infância tinha tido para mim. Não me esqueci – está aí demonstrado –, nem quis esquecê-la. E há coisas que estão aí “ipsis verbis”, frases que ficaram durante 70 anos ou mais na minha memória. Até mesmo factos, pessoas e nomes que julgava esquecidos, quando comecei a escavar, de repente, subiram à superfície. O quarto onde se dormia, a varanda que dava para a Rua Heróis de Quionga, na Mouraria, a prostituta que me disse assim, eu tinha doze anos: “O menino quer vir para o quarto?”.

O que parece, a partir do livro, é que não foi especialmente amado, ou nunca se sentiu especialmente amado.
Posso ter dado essa ideia, mas não é assim. Em primeiro lugar, há que pôr as coisas num contexto. Especialmente amado..., realmente, talvez não. E por que é que tinha que ser especialmente amado? Tratava-se de uma classe que não era alheia aos sentimentos, mas que se tinha habituado a não expressar os sentimentos. Não caía bem, sobretudo tratando-se de homens.

Seria piegas?
Sim. Essa coisa que se consubstanciou na frase célebre “os homens não choram”. E portanto havia uma certa..., não era dureza, as pessoas não se davam mal, mas não andavam no dia-a-dia a derramar-se em sentimentos e em sentimentalismos. A vida fazia-se de palavras simples. A ninguém lhe ocorria dizer “gosto de ti”, “o teu sorriso é como um colar de pérolas”, tipo “Cântico dos Cânticos”. Era uma maneira de viver austera. Fui amado como qualquer outro dos componentes da família. Se estava doente, a minha mãe preocupava-se, o meu pai preocupava-se.

Lembrei-me daquela imagem que se tornou muito célebre, do reencontro com a sua mulher, depois de se saber que tinha ganho o Nobel. Foi um abraço altamente emotivo. Quando li a austeridade da sua infância, pensei nos passos que teve que dar para conseguir exprimir afecto daquela maneira. 
Sim, passos no sentido de adquirir o material expressivo para comunicar os sentimentos. Para isso, precisava de tempo, precisava de viver. Mas sempre fui uma criança muito sensível. E como a vida não me endureceu, não me tornou mais egoísta do que aquilo que cada um de nós naturalmente é... Tenho uma péssima fama, fama de sisudo, de carrancudo, de cara fechada. E depois passa-se a qualificativos de outro género: “Arrogante”, “orgulhoso”, “vaidoso”. Não me reconheço em nada disso, mas cada um olha para mim como quer. Claro que não me desmancho em sorrisos para toda a gente, não sou assim. Uma gargalhada para mim, é muito complicada. Pode sair alguma, no dia em que o rei faz anos...

O que é que lhe dá prazer? O que é que o faz sorrir? O que é que o faz ter vontade de expressar afecto?
Em primeiro lugar, senti-lo. E se o sentes, e não tens pudores do tipo “o homem não chora”, isso acontece naturalmente. Tenho chorado, como qualquer pessoa.

Chorou a escrever o livro?
Não, neste livro não.Já me aconteceu chorar ao terminar um livro. A descarga da tensão, o sentir que está feito, mais do que uma vez, já me provocou lágrimas.

Em circunstâncias normais, o que é que o comove?
Se for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não estou a falar do abraço erótico. O abraço, os braços que rodeiam o corpo do outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos, não é o meu caso.

O que é que perdeu? Não se fala taxativamente de inocência neste livro.
É um assunto a que sempre estamos a voltar: a inocência. A criança não sabe se é inocente ou não. É o adulto que fabrica esse estado imaginário da inocência. Eu podia dizer assim: a perda da inocência está na última página [do livro]. Na última página está a história de um homem e de uma mulher que vi; a mulher disse: “ai, ele conhece-me e vai avisar o meu marido”.

Essa história, e o livro, termina com: “Nunca mais tornei a ver o lagarto verde”.
Como se o lagarto verde fosse o símbolo da inocência. Gosto muito de lagartos [na verdade, JS diz: “mi gusta mucho os lagartos”], acho que é um animal bonito. Tenho-os no meu jardim.

Na sua infância, tinha um pesadelo recorrente com um quarto em forma de triângulo...
Era realmente angustiante. No canto havia uma coisa que ia crescendo, ocupando o espaço, aproximando-se de mim... Havia também uma música, que nunca consegui fixar. Aquilo nunca me asfixiou, nunca me fez nenhum mal, a não ser o medo. Quando o medo chegava ao paroxismo, fazia-me acordar.

Ao longo do livro, outros sentimentos são recorrentes: a humilhação e a vergonha. Kafka dizia que a vergonha é o mais estigmatizante dos sentimentos.
Eu li o Kafka.

Com certeza. Gostava era que me dissesse se concorda com o Kafka e se o sentimento da vergonha é nuclear em si.
Não sei se o será. Tem-se vergonha por alguma que se fez e não se devia ter feito. Ou por ter sido posto em causa, ridicularizado, por exemplo. Como os adultos nunca entenderam nada sobre as crianças, é possível que não imaginem quantas vezes terão humilhado os próprios filhos, sem se darem conta que estavam a humilhá-los. Não creio que em mim um factor influente, até mesmo determinante, tenha sido a vergonha. A humilhação, sim. Mas não era grave, eram situações correntes às quais estava a reagir a sensibilidade de uma criança, que não devia ter passado por aquela situação, mas que está a vivê-la. E isso deixa um rasto.

No lado oposto disto, há um momento de glória, quando chega a uma escola nova e dá um único erro ortográfico no ditado: escreve “calsse” em vez de “classe”, e passa para a carteira do melhor. “Foi aqui, agora que o penso, que a história da minha vida começou”. Na página seguinte conta: “Quando o PEN Clube me atribuiu o seu prémio pelo romance “Levantado do Chão”, contei esta história para assegurar às pessoas que nenhum momento de glória presente ou futura poderia, nem por sombras, comparar-se àquele”.
Tinha publicado o “Levantado do Chão” em 1980, ainda tinham que passar 18 anos para que me dessem o Prémio Nobel... Momento de glória, o que é que isso quer dizer?

O que quer dizer, para si?
Satisfação. Sentimento de que o trabalho foi reconhecido. Uma sensação de glória só pode ser algo muito fugaz. O que constrói a glória é a visão dos outros. Já que os outros acham que têm motivo para isso, a pessoa começa também a achar. Recordo nitidamente esse episódio da aula. Tinha sete anos. Claro que saí satisfeito quando ia em direcção ao meu lugar, mas um pouco aturdido. A professora: estúpida. Se queria distinguir-me pelo meu feito, havia outras maneiras. Agora, brutalmente, mandando sair de lá aquele que tinha ganho o seu lugar, não se faz. Não creio que tenha pensado nisto. O Nobel é outra coisa.

O Nobel é uma coisa que muda a vida?
Não mudou muito. Imaginar que por causa do Nobel é que passei a andar num virote... A minha vida antes já era essa, desde os anos 70, final dos anos 60. Claro que nos anos 60 não viajava aos Estados Unidos, ou à Austrália, ou à Islândia, mas participava na vida política, e isso levava-me a ter encontros e a falar às pessoas.

No fundo, só intensificou aquilo que já existia na sua vida?
Só multiplicou aquilo que vinha sucedendo já. Mas multiplicou por muito, tenho que dizer.

E intimamente, mudou alguma coisa? A confiança que tem em si, na sua escrita, no seu talento?
Não mudou nada. Nem me pôs defeitos que não tivesse antes, nem introduziu qualidades que não fossem as minhas. A pessoa que sou não mudou. E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo que escreve”. São pequenas glórias praticamente quotidianas. Aqui ou em Espanha.

Por que é que isso é tão gratificante? Não sabe mais daquelas pessoas, não sabe por que é que elas gostam de si, com que intuito se lhe dirigem...
É uma relação de conveniência, digamos assim. A mim convém-me que comprem os livros porque é disso que vivo, e às pessoas convém porque os apreciam. Não sei porquê, estabeleceu-se uma outra relação: tenho a sorte de ser estimado com escritor e como pessoa.

Como é que sente isso?
Podia dar como prova o tom com que me falam, como me fazem parar na rua. “O Homem Duplicado” foi apresentado no Teatro Colón, em Buenos Aires, e estava cheio. Tem quase quatro mil lugares e a fila das pessoas cá fora calcularam em cerca de mil. E como eu digo, não bailo nem canto, só falo. Sei que as pessoas gostam de mim. Nisso acredito. Gostam do que escrevo, mas mais importante é que gostam da pessoa que eu sou. Se há algum motivo de glória que tenho, nem é o dia na escola primária nem sequer é o Nobel: é o saber-me amado por muitíssimos milhares de pessoas no mundo. Pode isto parecer uma presunção, que estou aqui a inventar uma história bonita para os leitores do seu jornal, mas não. A história bonita é, mas não é inventada.

Estava a pensar no “Balas sobre a Broadway”, do Woody Allen, no momento em que um autor de sucesso pergunta à namorada: “Mas tu amas o homem ou amas o autor?”. Para si as duas...
... estão fundidas.

Muitos autores há em que tal não acontece. Lê Céline da mesma maneira, “esquecendo” que foi colaboracionista? Ou vê os filmes de Elia Kazan, que denunciou comunistas em Hollywood? Ou ouve Karajan, que era nazi?
Há coisas que não são completamente suportáveis, por muito extraordinária que seja a obra ou a acção da pessoa. Há essa mazela, que nem é sentida da mesma maneira em diversos momentos. “Aquele filho da mãe, que bem escreve, e imagina aquilo que fez, aquilo que era...”. Normalmente, esses autores não os leio. Mas tenho de confessar que ouvi muita música dirigida pelo Karajan; mas a música não é dele, é do Bach, do Beethoven.

Céline não é um autor que leia?
Nunca gostei dele, nem sequer por essas razões. Tem pontos de exclamação e reticências a mais. O Elia Kazan é um canalha. Um canalha pode produzir uma obra-prima.

«Esplendor na Relva» é um filme que consegue ver sem pensar que Kazan é um canalha?
Não sei como é que o veria hoje. Às vezes, a beleza das imagens pode fazer-nos pensar, em lugar de “aquele tipo era um canalha”, “que pena que aquele tipo tivesse tido aquela fraqueza”.

Conseguirá ler o Günter Grass sem se lembrar do episódio agora revelado?
Se vivemos com as nossas próprias vergonhas, por que é que não vamos viver com as vergonhas alheias? Tenho que pensar que o Grass entrou para as SS de cada vez que leio um livro dele? Que ao longo do livro possa recordar isso, uma vez ou outra... Não me pode levar a dizer: “Não te leio”. Aliás, o homem já disse o que foi. Demorou muito tempo, mas disse, acabou-se. E agora é deixá-lo viver e trabalhar.

Ainda não tinha aparecido nesta entrevista esse seu lado, polemista e político. Convictamente, assertivamente expressa-se sobre temas como o conflito israelo-paslestiano, Cuba...
E tudo aquilo que se passa em democracia...

[entra Pilar, a mulher, que lhe estende um papel para assinar “sobre o aborto”]

Foi um anjo que apareceu na sua vida.
Foi, mais do que um anjo, uma mulher. Podia ser qualquer outra, dirá você. Pois, mas é esta. A diferença está aí. De anjo tem muito pouco. É de carácter demasiado forte.

Mas estávamos a falar da sua dimensão política.
As coisas estão aí. Em primeiro lugar como pessoa e depois como escritor, não sou pessoa para contentar-se em cultivar o seu jardim. Considero isso muito respeitável, não estou a criticar ninguém pelo facto de dizer: “Não, a minha prioridade absoluta é a minha obra”.

A sua, não é?
Não. Pode ser uma prioridade, mas não é a prioridade absoluta. Se amanhã deixar de escrever, coisa que sempre pode acontecer e acontece muitas vezes, porque a pessoa reconhece que já não tem nada para dizer que valha a pena, a obra deixou de ser a prioridade. Não está preocupado que tem que escrever obras-primas até ao último instante da sua vida, ainda por cima obras-primas, sempre... A minha obra é prioritária sobre umas quantas coisas.

Nomeadamente? Que lugar, afinal, ocupa a sua obra na sua vida?
Quero ter tempo para escrevê-la, reivindico tempo para escrevê-la. Mas não é a única prioridade, eu vivo neste mundo. E o que se passa, em primeiro lugar interessa-me, em segundo lugar impressiona-me, em terceiro lugar indigna-me, e tenho que dar voz a estes sentimentos. Passe-se a questão na América Hispânica, em África, na China. Não é que ande a dar lições de moral a todo o mundo. Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam. Ninguém me cala.

Ter conquistado esse direito é expressão de ser um homem poderoso, um homem influente.
Poderoso não.

O poder assume várias faces.
[Sou um homem] com alguma influência.

Que noção é que tem da sua influência, da importância daquilo que diz?
Agora, nestes felizes tempos da Internet, qualquer coisa que diga dá a volta ao mundo em três segundos, e o alerta do Google, que eu não tenho, mas que tem a minha mulher, sai-me sempre com uma enfiada de repercussões, aqui e ali, de declarações minhas. No outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.

Acha que o que está na génese dos conflitos é mais a religião e menos a economia?
Eu não disse isso.

É outra questão, bem sei.
Aqui há uns anos escrevi um artigo que deu um certo barulho, chamava-se “O factor Deus”. Tinha que ver com os conflitos religiosos. Dizia mais ou menos isto: Deus não tem nada que ver com isto, provavelmente nem sequer existe, o que existe é o factor Deus e esse tem vindo a ser usado desde sempre como uma arma. O teólogo Hans Kung que agora está zangado com o papa, dizia: “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros”, pelo contrário. No “Ensaio sobre a Cegueira”, lembra-se do momento em que a mulher do médico entra na igreja e os santos estão todos com os olhos tapados? Porquê aquilo? E a minha resposta é muito simples: Deus não merece ver o sofrimento humano.

Ou Deus devia ser obrigado a ver o sofrimento humano?
A Deus ninguém pode obrigá-lo.

Mas quando diz que não merece, é como se fosse um prémio. E o sofrimento não é uma coisa digna de ser vista.
Não. Mas exactamente, nem sequer isso merece.

O que quer dizer é que, a existir, Deus é iníquo por consentir...
Claro.

Se olho para este livro, se olho para este rapaz que foi, dou-me conta do quão improvável é o seu destino. Dinis Machado escreve em «O Que Diz Molero», “as flores nascem do estrume”. Como se as mais radiosas fossem as que vêm da pobreza. Consegue perceber o que é que fez da sua vida uma vida diferente?
Não sei, não consigo, não é fácil. Há um factor que levo em conta, o factor sorte. Não é o que seja o que sou hoje por uma questão de sorte. Mas também contam muito os momentos em que as coisas sucedem. Às vezes se sucedessem um pouco antes ou um pouco depois, já o efeito não seria o mesmo. Também não é fácil destrinçar numa vida que momentos são esses. Não há dúvida nenhuma de que não estava no caminho de chegar onde estou, a esta cadeira, na Editorial Caminho, em Lisboa, conversando consigo.

O que é que aconteceu pelo caminho?
Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Em 47 escrevi um romance, escrevi outro logo a seguir que ficou inédito, que se chama “Clarabóia”, e que ficará inédito enquanto eu viva.

Não gosta dele, é por isso?
Podia chamar-se oportunismo comercial, publicar agora esse livro escrito há 50 anos ou 60 anos. Aceitei que a “Terra do Pecado” fosse publicado porque a Pilar e o Zeferino [Coelho, editor] empenharam-se muito nisso. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966.

Era um homem maduro, tinha 44 anos nessa altura.
O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o “Manual de Pintura e Caligrafia”, e o “Objecto Quase”. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever “Uma Viagem a Portugal”, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro – ele já estava ganho.

Não imagina as vezes que folheei esse livro quando era pequena.
Ah, sim? Que bom.

Nem eu ia imaginar, que um dia estaríamos aqui.
O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: “A tua vida é um milagre”. E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.

O que é que mais do que tudo justifica a sua vida? Como é que quer ser recordado?
Se calhar vou pedir o impossível: eu considero-me boa pessoa. Então, que nem a pessoa que sou apague o escritor que também sou, e que nem o escritor que sou apague a pessoa que sou. Se calhar é muita sorte alguma destas ficar. Que fiquem as duas, é capaz de ser impossível."

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em Outubro de 2008