Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst mencionadas em "Os Apontamentos"

José Saramago, no livro de crónicas políticas "Os Apontamentos", apresenta uma entrada a 8 de Março de 1972, sobre o Dia Internacional da Mulher.
Tece algumas considerações sobre a condição da mulher, os retrocessos que a civilização vai impondo. Interessantes as menções a Olympe de Gouges e Emmeline Pankhurst



(...) Com maior rigor diríamos que a mulher é mantida atrás do homem: muitas das suas conquistas são apenas aparência, e, quando se tornam reais, correm o risco de, com maior ou menor rapidez, perderem conteúdo e poder de aplicação prática. Na maior parte dos casos, o tempo e os interesses dos homens encarregam-se de neutralizar as conquistas alcançadas: a emancipação (no plano económico, através do trabalho remunerado, no plano intelectual, graças ao desenvolvimento da instrução, e no plano político, pela obtenção dos direitos de voto e de elegibilidade) encontra-se ainda hoje limitada por mil e uma pequenas teias. À volta da mulher continua a tecer-se o emaranhado casulo que a manteve isolada do mundo. Há excepções, bem sabemos, mas essas, ao que dizem, só existem para confirmar a regra...
Vai longe o ano de 1792 em que a Olympe de Gouges escrevia a sua «Declaração dos Direitos da Mulher e a Cidadã»; já vai igualmente longe a época de Mrs. Pankhurst, aquela inglesa que criou, no princípio do século, a União Feminina Social e Política, e que mereceu, com as suas companheiras de missão e de luta, o apoio displicente, senão desprezativo, de «sufragista». Mas é apenas de ontem, de 1952, para sermos mais exactos, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher, aprovada, por maioria, pela Assembleia Geral das Nações Unidas... (...)
(...) O Dia Internacional da Mulher deveria ser, sobretudo, um dia de exame de consciência para os homens. (...)

Os Apontamentos
2.º Edição de 1990
Caminho

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Olympe_de_Gouges

Olympe de Gouges, pseudônimo de Marie Gouze (Montauban, 7 de maio de 1748 — Paris, 3 de novembro de 1793) foi uma feminista, revolucionária, historiadora jornalista, escritora e autora de peças de teatro francesa.
Os escritos feministas de sua autoria alcançaram enorme audiência. Foi uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Na sua obra "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" (em francês: Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne) de setembro de 1791, desafiou a conduta injusta da autoridade masculina e da relação homem-mulher que expressou-se na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão durante a Revolução Francesa. Devido aos escritos e atitudes pioneiras, foi executada.
Marie Gouze nasceu em uma família pequeno-burguesa em 1748 em Montauban, Tarn-et-Garonne, no sudoeste da França. Seu pai era açougueiro, sua mãe, lavadeira. Entretanto, ela acreditava ser filha legítima de Jean Jacques Lefranc; a rejeição no reconhecimento dessa paternidade influenciou sua defesa apaixonada dos direitos das crianças ilegítimas.
Casou-se jovem em 1765 com Luis Aubry de quem teve um filho, Pierre. Enviuvou logo depois e, em 1770, transferiu-se para Paris onde adotou o pseudônimo de Olympe des Gouges.
Pelas pinturas remanescentes, era uma mulher de notável beleza. Em torno de 1784 (ano da morte de seu suposto pai biológico), começou a escrever ensaios, manifestos e iniciou ações de cunho social.
Em 1774, escreveu uma peça de teatro anti-escravagista L'Esclavage des Nègres. Pelo fato de ser sido escrito por uma mulher e do assunto controvertido, tal obra somente foi publicada em 1789, no início da Revolução Francesa. Mesmo assim, Olympe demonstrou sua combatividade na luta incessante, porém, sem sucesso, pela encenação da peça. Ao mesmo tempo, escreveu obras feministas relacionadas aos temas dos direitos ao divórcio e às relações sexuais fora do casamento.
Como apaixonada advogada dos direitos humanos, Olympe de Gouges abraçou com destemor e alegria a deflagração da Revolução. Mas logo se desencantou com a constatação de que a fraternité da Revolução não incluía as mulheres no que se refere à igualdade de direitos.
Em 1791 ela ingressou no Cercle Social— uma associação cujo objetivo principal era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reunia-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres Sophie de Condorcet. Foi aí que Olympe expressou pela primeira vez sua famosa assertiva: "a mulher tem o direito de montar o seu palanque".
No mesmo ano, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ela escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã1 . Logo depois, escreveu o Contrato Social, nome inspirado na famosa obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo o casamento com relações de igualdade entre os parceiros.
Por se envolver ativamente nas questões que lhes pareciam injustas, como a condenação à morte de Luis XVI, por ser contra a pena de morte, e desapontada em suas expectativas, passou a escrever com mais e mais veemência. Em 2 de junho de 1793, os Jacobinos prenderam os Girondinos e seus aliados, enviando-os em seguida à guilhotina. Nesse mesmo ano, Olympe escreveu a peça Les trois urnes, ou le salut de la Patrie, par un voyageur aérien e, por causa dela, foi presa. A peça demandava a realização de um plebiscito para escolher uma das três formas potenciais de governo: República indivisível, Governo federalista e Monarquia constitucional. Os Jacobinos, que já haviam executado uma rainha, não estavam dispostos a tolerar a defesa dos direitos das mulheres: exilaram Sophie de Condorcet e, um mês depois, em 3 de novembro de 1793, guilhotinaram Olympe de Gouges.


Emmeline Pankhurst discursando

Informação via Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Emmeline_Pankhurst

Emmeline Pankhurst, nascida Emmeline Goulden, (Manchester, 14 de julho de 1858 — Londres, 14 de junho de 1928) foi uma das fundadoras do movimento britânico do sufragismo. O nome da "Sra. Pankhurst", mais do que qualquer outro, está associado com a luta pelo direito de voto para mulheres no período imediatamente antes da primeira guerra mundial.
Em 1879 casou com Richard Marsden Pankhurst, um advogado. O Sr. Pankhurst era já um apoiante do movimento das sufragistas, e tinha sido o autor da legislação Married Women's Property Acts (Lei da propriedade da mulher casada), de 1870 e 1882. Em 1889, a Sra. Pankhurst fundou a Liga do Franchise das mulheres. A campanha não seria interrompida pela morte do marido em 1898. Em 1903 fundou a melhor conhecida união social e política da mulher (WSPU), um movimento militante cujos membros incluíramm a famosa Annie Kenney, a "mártir" do sufragismo; Emily Davison e a compositora Dame Ethel Smyth. Foi juntada no movimento por suas filhas, Christabel e Sylvia, ambas fariam uma contribuição substancial à campanha em maneiras diferentes.
As tácticas da Sra. Pankhurst para atrair a atenção ao movimento tiveram como resultado o emprisionamento por diversas vezes, mas por causa de seu perfil elevado, não passou as mesmos privações como outras colegas sufragistas (embora experimentasse alimentação forçada após greve de fome). A liderança da campanha não agradou a todos, e houve separatismo dentro do movimento em consequência. A autobiografia, Minha própria história, foi publicado em 1914. Morreu em 1928, tendo atingido a maior de seus objetivos: o direito de voto para as mulheres no Reino Unido.


Uma reflexão sobre o "homem" - o seu caminho provável


José Saramago tinha uma característica, muitas vezes considerada incómoda.
Pensar. Reflectir. Ir buscar ao passado de... recuperá-lo, para um presente, e alertar com algum pessimismo e muito cepticismo o futuro.


 Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

O ser humano... de forma global

(...)
Enfim, como é o retrato do poeta enquanto jovem, aos 80 anos?
(risos) Em primeiro lugar, acho que sou uma boa pessoa (aliás, estou casado com uma mulher que não me permitiria que não o fosse...). Em segundo lugar, creio que o trabalho que estou a fazer tem  uma qualidade, que não desmerece do que fiz antes: estou ainda com capacidade e O Homem Duplicado de alguma maneira o demonstra.
Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos e séculos, milénios até, de estudo, cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah!, tem gente maravilhosa, tem heróis, santos... Tem, mas como não são eles que governam o mundo... A bondade de hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa pelo mundo) dá-me um mal-estar todos os dias...
Por isso podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora... Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.

Quer dizer que hoje não és um homem de esperança, pelo menos com esperança?
Não. Não tenho nenhum motivo para ter esperança. No plano estritamente pessoal, podemos ter razões para isso. Mas se falarmos numa esperança que nos envolva a todos, ela não é possível num mundo como este. Como será daqui a 50 ou cem anos? Estamos no fim de uma civilização e não temos ideia nenhuma do que vem aí.
Nem sabemos se no futuro o ser humano terá alguma coisa a ver com o actual, ou se será outra coisa que deva passar a chamar-se de forma diferente. (...)

domingo, 2 de novembro de 2014

José Saramago - Levantado do Chão - Documentário da RTP

Documentário inédito sobre a vida e obra do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. No dia em que se assinalam os dez anos da atribuição do primeiro Prêmio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, a RTP exibe um documentário que retrata o percurso singular do escritor José Saramago, que se afirma "pessimista pela razão, otimista pela vontade". Durante quase um ano, uma equipe da RTP reconstitui os pontos cardeais em que a vida e obra de Saramago se fundem, num trabalho que aborda a história do escritor português mais lido e conhecido do mundo. Mais do que uma biografia, este documentário pretende dar a conhecer ao grande público os momentos decisivos da vida de um homem que aos cinquenta e três anos não era ainda escritor. Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago imigrou para Lisboa com dois anos.

Grande parte da sua vida decorreu na capital, que serve de cenário a alguns dos seus romances. Mas durante a adolescência, foram muitas e prolongadas as suas estadias na aldeia natal, Azinhaga, Golegã, que o marcou para toda a vida. Ficou célebre, o discurso que Saramago proferiu há dez anos na entrega do prémio Nobel, evocando com emoção os avós Jerómino e Josefa, que dormiam com porcos na cama, única forma de sobreviverem todos. José Saramago frequentou o liceu e a escola industrial mas, por dificuldades econômicas, não pôde prosseguir os estudos. É um homem "Levantado do Chão", título de uma das suas obras, e título escolhido também, para este documentário. O seu primeiro emprego foi de serralheiro mecânico e neste trabalho reeencontramos a oficina dessa época assim como ex-colegas de ofício.

Primeira Parte
Segunda Parte

Terceira Parte

Saramago e a "censura" - entrevista ao Público (Maio de 1992)


Imagens da peça de teatro "A Noite"
Obra baseada na história de um jornal na véspera do 25 de Abril de 1974




In PÚBLICO de 10 de Maio de 1992
José Saramago critica responsáveis da Cultura
"É a terceira vez que sou censurado por Sousa Lara"
Por Torcato Sepúlveda

Em entrevista ao PÚBLICO, o romancista José Saramago não poupa o Governo português. O responsável é ele e não o regulamento do prémio. "A CE não podia esperar que isto acontecesse". E defende a Frente Nacional para a Defesa da Cultura.

... a velhinha máquina de escrever...

Como se sente na pele de um escritor censurado, dezoito anos depois da Revolução de Abril? Por que antes do 25 de Abril, era normal para si ser censurado...
Sim era normal. Não tanto como escritor - porque os livros que publiquei antes do 25 de Abril nunca foram objecto de censura - mas como jornalista. Em 1972 e 1973 trabalhei no "Diário de Lisboa" com funções de editorialista e todos os dias se guerreava com a censura.
Não esperava que, depois do 25 de Abril, se repetissem comportamentos desses, nessa altura institucionalizados. Embora a exclusão do meu romance "Evangelho Segundo Jesus Cristo" tenha também um carácter institucional, porque não foi uma medida extemporânea. É uma decisão tomada por uma instância do Governo e foi no exercício de uma autoridade governamental que a decisão foi tomada. Quanto ao meu estado de espírito: estou triste e indignado. Sinto-me também estupefacto: nos primeiros dias após a decisão governamental, perguntava-me se isto estava de facto a acontecer.
Mas Governo, secretário de Estado da Cultura e subsecretário de Estado da Cultura tiveram a resposta que mereciam: repúdio. O que não diminui a indignação, contaminada por um sentimento de tristeza profunda. Mais: tendo acontecido, como é possível que primeiro-ministro, secretário de Estado e partido do Governo procurem ladear isto, tentando encontrar uma solução para o que não tem solução. O facto é brutal e não pode ser diminuído, sejam quais forem os artifícios de retórica ou de baixa dialéctica política, ou de cabotinismo.

Considera este caso apenas português? Não se tratará de um precedente que amanhã pode permitir a um governo qualquer da CE tomar uma medida semelhante? Este caso não se tornou já europeu?
As Comunidades não esperavam que isto acontecesse no interior delas. Estou certo que na comunidade europeia, no seu conjunto ou nas instâncias onde o regulamento foi inventado e o prémio foi criado, não passou pela cabeça de ninguém que isto pudesse acontecer, e por isso não elaboraram normas preventivas.
Eu não estou tão contra o facto de os governos apresentarem os seus candidatos, desde que funcionem como simples caixa de correio. Instituições responsáveis e competentes, designadas para fazer uma escolha, apresentam aos governos, por uma questão de mero funcionamento administrativo, os candidatos. E os governos deveriam limitar-se - e nos anos anteriores assim sucedeu - a pôr o carimbo: "Siga". Eu próprio já fui candidato a este prémio, e o Governo de então era chefiado por este primeiro-ministro. Quem dirigia na Secretaria de Estado da Cultura teve o bom senso de não intervir. O absurdo deste caso é que houve também a intervenção do chamado factor pessoal. Há pessoas no PSD que não cometeriam a asneira do senhor Sousa Lara. Poderiam pensar que era um horror que o meu livro representasse Portugal, mas não se atreveriam a intervir, por mero respeito democrático. Este senhor não. Demais, com o seu ar tão elegante, bem educado... Se o físico das pessoas diz alguma coisa, o rosto de Sousa Lara, o seu modo tão suave parecem incompatíveis com tal atitude. Lembro-me, porém, que nas galerias de pintura, quer aqui, quer em Espanha, os retratos de inquisidores apresentam semelhanças, uma espécie de ar de família, entre o senhor Sousa Lara e os seus antepassados do Santo Ofício.

Insisto. Não terão sido as Comunidades Europeias demasiado optimistas em relação a si próprias?
Foram, claro que foram...

...amanhã, um governo chefiado pelo senhor Le Pen pode fazer o mesmo com Thar ben Jelloun, porque é de origem árabe. As Comunidades devem saber que os monstros vivem nelas.
Sim, sim. Mas mais do que a CE somos nós que temos de saber que os monstros vivem dentro de nós. E vivem aqui, vivem em Espanha, vivem na Alemanha, vivem em toda a parte. E estão a levantar a cabeça. E se é certo que a CE pode, perante casos como este e outros de natureza diversa, tomar medidas, também é certo que as medidas devem ser tomadas no interior de cada país, de cada sociedade, nas relações internas de toda a ordem e nas relações com os outros. Não devemos esperar que a a CE decida comportamentos, regras, métodos para evitar que coisas destas aconteçam, mas criar aqui os anticorpos contra o mal. Quando o senhor Sousa Lara diz no Parlamento que este caso não deveria ter sido tornado público, defende o triunfo da hipocrisia.

Estes casos estão a tornar-se frequentes. O embaixador de Marrocos achou que o filme de João César Monteiro, "Recordações da Casa Amarela", poderia chocar a mentalidade muçulmana. Já não é um ministro ou um secretário de Estado a emitir julgamentos restritivos sobre uma obra de arte. É um simples funcionário... Dentro de cada um de nós habitará um Intendente Pina Manique?
Bom, essas pulsões são inseparáveis da natureza humana. Mas não foi por acaso que a sabedoria popular criou este dito: "Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão". O grande mal que pode acontecer às democracias - e penso que todas elas sofrem em maior ou menor grau dessa doença - é viverem da aparência. Isto é, desde que que funcionem os partidos, a liberdade de expressão, no seu sentido mais directo e imediato, o Governo, os tribunais, a chefia do Estado, desde que tudo isto pareça funcionar harmonicamente, e haja eleições e toda a gente vote, as pessoas preocupam-se pouco com procedimentos gravemente antidemocráticos.
Na relação do senhor Sousa Lara comigo, este não é o primeiro episódio. Já este ano, o que me leva a crer que tudo isto tem origem no "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Foi enviado, penso que em Fevereiro, um pedido de subsídio para que eu me deslocasse a Paris, à Expolangues, e o senhor subsecretário de Estado, não fez censura porque não tomou decisão alguma: exerceu o veto de gaveta. Mais grave porém: recentemente, em Abril, a Universidade francesa de Clermont-Ferrand convidou-me para lá ir. E mais uma vez foi feito, através do Instituto Português do Livro e da Leitura [IPLL], o pedido de apoio para a viagem. O IPLL limitou-se a passar o pedido a quem tem o poder de decidir, mais uma vez ao senhor Sousa Lara. Que respondeu que não haveria subsídio para mim e que ele sugeria outro escritor. Sei o nome do escritor alternativo, que não tem nada que ver com o assunto com certeza. Mas a Universidade de Clermont-Ferrand respondeu: "Está muito bem, mas quem nós queremos cá é o senhor Saramago. E eu lá fui, o Estado português não gastou um tostão. Portanto, o veto para o Prémio Literário Europeu é o terceiro caso de censura que sofro este ano.

Em declarações ao "Expresso" sugeria, com tristeza e melancolia, a hipótese de abandonar Portugal. Saramago será mais um vencido da vida? Um vencido do reino da estupidez?
Há uma coincidência que eu não busquei. Acontece que dentro de alguns meses, mas isto estava já decidido antes, vou viver alternadamente aqui e fora de Portugal. Por razões que não tenho que explicar, mas que se prendem com desejo de tranquilidade. A vida está a tornar-se-me cada vez mais difícil e tenho que encontrar calma para fazer o que tenho ainda a fazer, porque não cheguei ao fim com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Nessa conversa com Clara Ferreira Alves, do "Expresso", dadas as circunstâncias em que ocorreu, era inevitável que eu exprimisse indignação, protesto, dizendo: "Qualquer dia vou embora". Mas as alterações na minha vida estavam previstas. Não abandonarei a minha terra, a não ser que este ou outro Governo cometesse a asneira de me transformar em ovelha negra, coisa para a qual não vejo grandes razões.

Até certa altura, os intelectuais exerciam uma espécie de poder moral sobre a sociedade. Mas com a crise do comunismo, os "clercs" - talvez com medo de serem acusados de comunismo - refugiaram-se na luta puramente cultural. Ramalho Ortigão até sobre a poda das árvores falou em "As Farpas". Aqui parece residir o grande defeito da Frente Nacional para a Defesa da Cultura. Falaram do IVA nos livros mas não se importaram com o IVA no pão e no leite. E metade da população portuguesa não vive tão bem como isso... Parece que os intelectuais se têm afastado afectivamente do resto da população.
Os escritores, as pessoas a quem chamamos intelectuais, eram gente de ideias gerais. E sobretudo havia uma diferença, que para mim é radical, profundíssima, quanto à situação da comunicação social no tempo e à comunicação social hoje. Os escritores de então, um Fialho, com "Os Gatos", para falarmos apenas dos nossos, um Ramalho e um Eça, com "As Farpas", toda essa gente que intervinha socialmente pela pena, supria as deficiências da comunicação. No caso concreto, da imprensa. Hoje, a situação está invertida. O que levava os escritores no século passado a fazerem jornalismo e nas suas próprias obras literárias a fazerem qualquer coisa que tinha que ver com o jornalismo no sentido da informação, da edificação do leitor, da construção da sua mentalidade, do seu sentido crítico, tudo isso passou, ou tudo isso deveria ter passado, para a comunicação social de massa. O escritor achou-se fora desse processo. É a própria evolução tecnológica, o desenvolvimento das comunicações de massa que exclui o escritor dessa tarefa. Não significa que um ou outro não o faça, mas não é dele que a população de um país espera isso. Procura-o na imprensa, na rádio e na televisão. E nós sabemos como o faz. A televisão, por exemplo, asfixia-nos com imagens, imagens não tratadas, que nos submergem, mas no fim de um telejornal, informação, nenhuma.
É preciso não tomar a reacção ao IVA, e tudo o que levou à criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura como defesa de interesses corporativos, pânico de gente que vai vender menos livros. Uma visão mesquinha. O que se deveria ter visto neste movimento, a que se chamou Frente, o que parece ter chocado muita gente, e Nacional, o que parece ter chocado ainda mais - a comparação era fácil, em França há o Front National; jogar assim com as palavras é lamentável - é o mal estar que o IVA despoletou. Porque não surgiram apenas ataques à Frente, descobriu-se uma preocupação, que já não pode ser mantida em silêncio, sobre o estado da cultura em Portugal. A Frente aparece por causa disso, mas não é isso que lhe dá o sentido verdadeiro. Como também não é a famosa reestruturação dos serviços da Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Sobre a qual reestruturação não sei se é boa se é má. Tirando a questão da Biblioteca Nacional e a do IPLL, o resto, a redução das direcções gerias, não sei se é bom se é mau. Não estudei o assunto. E há que dizer que não me interessa muito. Pode até provar-se amanhã que, de um ponto de vista meramente estrutural, se está perante uma boa solução ou uma solução aceitável.
A questão é saber se a política cultural do Governo está orientada no sentido de corrigir os profundos males, que não são apenas de estrutura de serviços. São males enraizados na nossa educação e na nossa mentalidade. Não se pede que o Estado seja o médico que vai tratar de tudo, mas pede-se que o Estado cumpra a sua obrigação. Porque o resto não é com ele, é com os cidadãos todos e, neste caso, com os chamados intelectuais.
O que não faz sentido é que se diga que a frente não apresentou soluções. Peço um minuto de reflexão: reúnem-se mais de setenta associações de diversa índole - que vão das desportivas, às ecológicas, às culturais em geral, às profissionais - que até então não tinham estabelecido qualquer contacto umas com as outras (e não estabeleceram ainda, porque a Frente não está estruturada para reunir em plenário com toda esta gente para tomar decisões, não há sede, não há secretaria, não há fundos) e quer-se que ela apresente propostas... É impossível que a Frente apresente propostas e sobretudo que as apresente imediatamente, como se as já tivesse no bolso, como se antes de ser Frente já andasse a estudar tudo isto. E na hora de se declarar Frente dissesse: "Aqui estão". Há a ideia - que espero vá para diante - de fazer um exame objectivo da cultura em Portugal. Relatores, apoiados por comissões, analisarão dez, ou doze, ou quinze áreas culturais. Que serão estudadas profundamente. As comunicações serão depois debatidas durante dois ou três dias, não sei bem, porque tudo isto está ainda verde. Este levantamento permitirá depois a formulação de propostas. Mas por favor dêem-nos tempo...
No fim disto, em meu entender- mas aqui há diferenças de opinião - a Frente acaba. Porque depois serão as setenta associações que fazem parte dela que devem continuar o trabalho.

O que parece é que o José Saramago, tal como alguns críticos da Frente, tem a preocupação do real, do concreto...
Se os bibliotecários se juntaram à Frente é por razões da sua própria actividade. Isso é que deveria ter sido investigado, e foi isso que grande parte da comunicação social não fez. Compreendo os articulistas e os cronistas que se pronunciaram contra a Frente. Mas uma coisa me deixou magoado: há pessoas que pelo seu passado e pela sua própria responsabilidade não têm o direito de formular a sua opinião de qualquer maneira. Não perdoo que Joaquim Vieira, director adjunto do "Expresso", na sua coluna "Quente e Frio", diga coisas como "pela média etária, a Frente parece-se muito com o bureau político do PCUS". Não sei a que média etária se refere, a das organizações que formam a Frente? De qualquer maneira disse-o. E isto reflecte duas coisas: desprezo pela velhice e anticomunismo primário.

Santana Lopes, em entrevista à revista "Grande Reportagem", de Maio, afirma que Saramago já o elogiou duas vezes: na Semana de Bordéus e numa sessão da Mundial Confiança, aquando da estreia da "Blimunda", no São Carlos. É verdade?
É mentira. O senhor secretário de Estado utiliza alguns factos para construir um discurso que só a ele interessa. Estive em Bordéus e falei com ele, de facto: para lhe dizer que ele tinha de defender em Bruxelas a nossa identidade, se não "eles" comiam-nos. Estive presente na sessão da Mundial Confiança, mas não lhe disse nada. O senhor secretário de Estado é que não apareceu na estreia de "Blimunda". Não o vi lá. Se ele disser que esteve, convém que apresente testemunhas.

Censura e Inquisição - Opinião e pensamento de José Saramago


A arte que transporta a Liberdade... os povos se que se exprimem através da arte.

José Saramago foi polémico, considera uns.
José Saramago foi incómodo. muitos o sentem.
José Saramago foi desassossegado, sempre inquieto.

Via Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Censura_em_Portugal)
"Em 1992, o subsecretário da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu, justificando tal decisão dizendo que a obra não representava Portugal mas, antes, desunia o povo português. Em consequência do que considerou ser um acto de censura por parte do governo português, Saramago mudou-se em 1993 para Espanha, passando a viver em Lanzarote, nas ilhas Canárias."

Este episódio poderá ser marcante, na e da cultura portuguesa, um entre muitos exemplos.
A censura em democracia, circula sem lápis azul... por certo e de certo que quem sente a censura, ela lhe aparece sob a forma mais subtil - o lápis transparente.

O pensamento primeiro, ou dos primeiros que me surge, transporta o peso de uma ideia - Portugal país milenar, de invasões e descobertas, nação una à volta da mesma língua, percorreu meio mundo divido através de uma negociada (tratado de Tordesilhas), onde a cultura há muito que não merece um ministério. Um edifício estatal que proteja e promova as diferente artes e língua.

Nas entrevistas que José Saramago concedeu, muitas vezes aflorou o tema da censura e suas formas de se manifestar, como um sensor das mentalidades e públicas virtudes.
O homem, o democrata, deu por diversas vezes o corpo às balas... demasiadas vezes sozinho.

Um dia, este homem, que amava o seu país - deverá ter pensado... estou farto do lápis azul...



Jornal de Letras
5 de Novembro de 1991
José Carlos de Vasconcelos

"Evangelho Segundo Jesus Cristo" é apresentado

A ideia que Saramago alimentava sobre alguma polémica com a Igreja

(...)
Então ainda pode ser excomungado...
Posso. Mas não penso que a Igreja me tome tanto a sério ao ponto de excomungar...

O tome tanto a sério ou tome tanto a sério o romance?
Acho que a Igreja vai fazer de conta que o livro não existe. O que não significa que não surjam por aí alguns ataques, mas não será a Igreja directamente como instituição que vai produzir uma nota ou um comunicado.

É capaz de dar um editorial da Rádio Renascença...
Sim, um editorial da Rádio Renascença é capaz de dar (risos)...

Isso diverte-o ou preocupa-o?
Nem me diverte nem me preocupa. Cumpri uma espécie de dever: tinha de escrever um livro, está escrito. O que possa acontecer depois atingir-me-á, de uma maneira ou de outra, mas de certa maneira as questões que se vierem a pôr não são comigo. São com o livro. Sou o seu autor e único responsável, não o podem retirar de circulação.

Já não há inquisição...
Não há inquisição, não há censura. (...)

Nesta entrevista, transparece o sentimento da liberdade do autor. É um romance, uma obra, o homem não concebe por estes dias a inquisição e a censura. Não redondo.


Revista Visão
16 de Janeiro de 2003
José Carlos de Vasconcelos

Passados anos... a censura sempre existiu... no tempo e à distância, atenta-se nestas palavras

(...) ... que aliás é (o «senso comum») uma personagem importante do teu último romance...
... um pouco de senso comum: em 1992 era governo o PSD, que pela pena ou a palavra de um subsecretário de estado da Cultura cometeu contra mim um acto de censura que não foi desautorizado pelo secretário de estado, nem pelo primeiro-ministro, nem por ninguém. Protestei, falou-se muito, inclusive na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, saí de Portugal e vim para aqui para Lanzarote. A seguir, veio um governo do PS, com quem tive relações normais, cordiais - para além de as ter, antigas, com alguns dos seus membros. Depois, regressou o PSD ao Governo. E o que eu disse é que não colaboraria com um Governo que cometeu um acto de censura do mais descarado e insultuoso da inteligência e do qual nunca pediu desculpa. E não tenho que colaborar, como se não tivesse acontecido nada, com instituições oficiais que dependem desse Governo. Que me peçam desculpas públicas (não através de uma cartinha confidencial), e a questão resolve-se. Ninguém deste Governo, a que pertencia o actual primeiro-ministro, se insurgiu contra o que se passou. Pelo contrário, chegou a haver um jantar de homenagem ao Sousa Lara! Então que queres que faça? Que não tenha vergonha na cara? O que lhes falta a eles, sobra-me a mim. Ah!, mas o prejudicado é o País... Por muito que me prejudique o País, nunca será tanto como eles o prejudicaram cometendo, com a divulgação internacional que se sabe, um acto de censura contra um escritor português que por acaso, uns anos mais tarde, veio a receber o Prémio Nóbel. (...)


Passado um ano, em Março de 2004, o assunto volta à baila. Talvez mais incisivo e decidido.

Revista Visão
25 de Março de 2004
José Carlos de Vasconcelos

(...)
Como vai o «mal de amor» pela Pátria de Saramago?
O mal de amor de José Saramago pela Pátria é conhecido. Pago todos os impostos em Portugal e voto em Portugal. Se não vivo em Portugal é porque fui maltratado, publicamente ofendido pelo Governo de Cavaco Silva, de que era secretário de Estado da Cultura Santana Lopes e subsecretário de Estado Sousa Lara. E no Governo, a que pertencia Durão Barroso, não se levantou uma única voz dizendo «isto é um disparate, isto não se faz»! Outro dia, alguém falou no caso ao primeiro-ministro (Durão Barroso), que disse querer arrumar o assunto: vinha a Espanha e teria muito gosto em almoçar comigo. Assim, durante o almoço, provavelmente entre a fruta e o queijo, ele diria «vamos pôr uma pedra sobre o assunto, não se fala mais nisso»; e eu diria, «sim senhor, vamos pôr». Só que comigo as coisas não são assim. Ofensa pública, desculpas públicas. (...)



sábado, 1 de novembro de 2014

Rogério Ribeiro ilustrador da obra "O Ano de 1993"



A menção anteriormente aqui colocada, a propósito da influência estética, reconhecimento da pessoa e da sua obra, é agora realçada com à referência das belíssimas ilustrações da obra "O Ano de 1993".
O contexto corrido do livro poema é apoiado pelas ilustrações.  



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Saramago e a força que sentia do seu público - "Sou uma pessoa amada"

Muitas vezes me questionei:
Qual seria a sensação que Saramago experimentava, ao receber do seu público, o reconhecimento. Como é que a mensagem era recepcionada e intuída?
Saramago, autor tardio dizem muitos, para mim, escritor que chegou até ao povo quando teria de ter chegado. Da entrevista dada à revista Visão (16/01/2003, com José Carlos de Vasconcelos), extrai-se este sentimento "Sou uma pessoa amada, tenho a certeza absoluta".
A atribuição do prémio Nobel, trouxe muitos leitores, mais internacionalização da obra, mas livros traduzidos em mais línguas, mais solicitações, mais exaustão pessoal, mais respostas às mesmas perguntas.
Lê-se na entrevista as recepções por este mundo fora, com centenas e milhares de pessoas para o ouvirem, verem, pedirem um autógrafo, o tal que seja especial - lembro-me de estar em longas filas nos idos tempos de noventas, na feira do livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII... realmente o povo tinha por ele uma enorme gratidão pela obra e pelas palavras.
Hoje, nos fins de 2014, do vários cantos deste planeta chegam relatos e memórias, evocações e lembranças.
Os Saramaguianos e as Saramaguianas, encetaram em si um desígnio muito especial - o homem morreu mas a obra tem descententes.




Entrevista de José Carlos de Vasconcelos para a revista Visão em 16/01/2003
(…)
E andaste aí pelo mundo, quase de uma ponta a outra. Como é que resististe, até fisicamente?
Bom, não foi fácil. E continua. Ainda no ano passado, só nos Estados Unidos estivemos, eu e a Pilar, quase um mês, percorrendo-os de uma costa a outra. Em meados de Dezembro chegámos de uma volta de mais um mês, por Portugal, Espanha, Itália. E os convites não param.

Isso tudo, além de muito cansativo, não é, a partir de certa altura, muito chato? Ou os momentos gratificantes fazem com que valha a pena?
A atitude com que vou para essas coisas é muito parecida com a que te referi quanto às entrevistas. Vou contrariado, mas à terceira palavra já estou onde tenho de estar. E essas coisas dão-me muitas alegrias. A maior, perdoe-se-me a vaidade ou presunção, é saber que para centenas ou milhares de pessoas que estão ali, o que lhes vou dizer tem importância. Podem estar enganadas, ou iludidas, mas tem importância para elas. Quando vou a Bogotá e me encontro com um teatro repleto, com 1700 pessoas lá dentro para ouvir falar de livros, e cerca de mil pessoas cá fora a protestarem por não conseguirem entrar; quando na grande praça de Cidade do México apresento um livro (A Caverna) para dez mil pessoas; quando em La Antigua, na Guatemala, havia mais de mil pessoas; quando vou dar uma conferência e me encontro com uma fila de gente que dava a volta toda a um quarteirão para entrar numa sala que já estava cheia; quando em Buenos Aires, a autografar livros na Livraria Ateneo, havia cá fora, sob chuva intensa, dezenas de pessoas à espera de conseguirem entrar – então, sem nenhuma vaidade, tenho de concluir que sou uma pessoa amada. Não é estimada – é amada. Se há alguma coisa de que tenho a certeza absoluta é deste afecto especial que liga muito dos meus leitores, apetecia-me dizer quase todos, em relação ao escritor, mas sobretudo em relação à pessoa. E isso, que acontece também em Espanha, na Itália, no Brasil, em toda a parte, dá-me a maior alegria.

A que o atribuis, dado haver escritores também muito lidos e famosos com que isso não acontece? Ao próprio tema dos livros e às tais opiniões que neles também dás?
Julgo que sim. Essas pessoas não me conhecem, não vieram aqui a casa ver como eu era. Devem é ter encontrado nos livros uma voz e assuntos que lhes interessavam. E um certo tom, a minha tal presença nos romances que escrevo, a implicação constante em cada página, em cada linha, em cada palavra. Eu há muito digo que todos os livros, e já agora em particular os meus, deviam levar uma cinta com estas palavras: atenção, este livro leva uma pessoa dentro. É isto no fundo: os meus leitores encontram nos meus livros a pessoa que eu sou e gostam. Que queres que eu te faça (risos) e que queres te diga mais? Sou um homem de sorte, até nisso sou um homem de sorte.

Há algum caso, alguma história, que te tenha marcado mais?
É muito difícil. Tenho conversado com Pilar sobre isto: as Obras Completas estão incompletas porque lhes falta o outro lado, ou como agora se diz a recepção dos leitores. Gostaria, depois de já cá não estar, que a Pilar organizasse, para publicar, cartas absolutamente extraordinárias, muitas vezes de pessoas sem qualquer preparação académica, de uma emoção raras, que me chegam de toda a parte. E que juntasse aos 30 e tal volumes que eu deixe escritos um ou dois com essas cartas.

Pintor Rogério Ribeiro referência para Saramago

A entrevista que José Saramago concedeu a Carlos Vez Marques (Junho de 2008, revista Ler), aponta logo no início para a referência a Rogério Ribeiro, pintor e artista plástico, revelando a sua importância referencial no mundo Saramaguiano.

"Mas é uma figura a que tem uma ligação muito forte, como o azulejo na fachada da casa e o quadro que tem nesta sala provam. (nota: referência à figura de Blimunda)
Isto, são duas obras de Rogério Ribeiro. O meu querido Rogério, que já cá não está. Quando ao azulejo, havia um nicho para que o dono da casa pusesse ali o que quisesse e nós decidimos pôr ali uma Blimunda, que ele (Rogério Ribeiro) nos desenhou, pintou e pôs lá."





A propósito do lançamento da obra "Rogério Ribeiro uma monografia", na qual José Saramago elaborou um prefácio muito elogioso, percebemos que o pintor Rogério Ribeiro foi muito importante e um vector referencial. http://www.jn.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=577578

Para homem que se diz "desajeitado" na hora de felicitar, José Saramago até nem se saiu mal "Rogério Ribeiro é o melhor desenhador vivo em Portugal". O elogio foi deixado no Porto, ontem, durante a sessão de lançamento daquela que é a mais completa edição consagrada à obra do pintor Rogério Ribeiro. Trata-se de um livro com cerca de 600 páginas editado pela Cordeiros Galeria, que representa o artista de Estremoz há mais de dez anos.
Dessas quase seis centenas, uma foi escrita por José Saramago. "Uma página só, quando muitas não bastariam", diz o escritor, para quem "a substância da arte de Rogério Ribeiro é o assombro de sermos". Quem sabe se propositadamente lidas só lá para o fim da intervenção, estas palavras fecharam a mensagem que o romancista fez questão de deixar e que se resume desta forma "Na pintura há muito mais do que a obra visualmente consagrada - é condição nossa pensar".
Porque "a pintura pode ser entendida também como uma forma de expressão filosófica", Saramago afirma que "o mais importante é o que é invisível", o que vai para além "da simples cor e do simples desenho". Numa só expressão, "é a vontade de sermos outra coisa, como sermos humanos". "O que este livro necessita é que não nos contentemos com a imagem, por mais bela que ela seja", disse ainda, para acrescentar que as cores na pintura de Rogério Ribeiro, como na de outros artistas, "servem para dizer aquilo que o pintor não saberia dizer de outra forma". E porque considera que as cores, essas sim, é que podem ser belas, diz que "é um insulto chamar 'bonito' a um quadro". Além do prefácio de José Saramago, o livro "Rogério Ribeiro, uma monografia" contém textos de Eduardo Paz Barroso, responsável pela concepção editorial, Mário Cláudio, Ana Isabel Ribeiro e do próprio artista.
No próximo dia 9, chega às livrarias portuguesas o novo livro de José Saramago, intitulado "Pequenas memórias", um projecto que o autor tem vindo a adiar desde há 20 anos.
São relatos de vários momentos da sua vida, memórias "que começam pelos quatro anos e acabam aos 14 ou 15", como o próprio referiu ao JN. "Não fui uma criança feliz, mas também não posso dizer que fui uma criança infeliz", confessou, criticando o facto de os pais, nos dias de hoje, "quererem que as crianças estejam sempre contentes".
Saramago faz a apresentação pública da nova obra a 16 de Novembro, dia em que completa 84 anos.



Via Wikipédia
"Rogério Ribeiro (Estremoz, 31 de Março de 1930 - Lisboa, 10 de Março de 2008) foi um artista plástico português.
Fez a sua formação académica em pintura, na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, actual Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Foi sócio-fundador da Gravura – Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses (1956), onde desenvolveu intensa actividade como gravador. Trabalhou em cerâmica e em tapeçaria por encomenda de particulares, empresas e organismos oficiais. Em 1961 iniciou a sua actividade de professor de Pintura e Tecnologia na Escola de Artes Decorativas António Arroio (Lisboa). Primeiros trabalhos no âmbito do Design de Equipamento e Gráfico (1964) e colaboração com vários arquitectos nos estudos de cor e integração de materiais e trabalhos artísticos.
Foi professor da ESBAL desde 1970, instituição onde, em 1974, coordenou o grupo de trabalho de reestruturação do currículo escolar na área do Design. Em 1983 foi co-autor do projecto da Galeria de Desenho do Museu Municipal de Estremoz, com Joaquim Vermelho, Armando Alves e José Aurélio, entre outros.
Membro do Partido Comunista Português desde 1975 e do seu Comité Central entre 1983 e 1992, foi fundador da primeira Galeria Municipal de Arte em Almada e também responsável pelo projecto Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, um dos principais pólos culturais do concelho de Almada."




A antiga revista "Bola Magazine" entrevista José Saramago

A antiga e ao mesmo tempo extinta revista "Bola Magazine", em Novembro de 1998, entrevistou José Saramago. 
O mote de lançamento da entrevista é deveras interessante. Qual a visão sobre o desporto, suas eventuais influências e referências, o desporto colectivo...

A revista digital "Blimunda" da Fundação José Saramago, publica no seu número dois, em Julho de 2012, a entrevista.
O número em causa por ser descarregado aqui: http://www.josesaramago.org/blimunda-2-julho-2012/

Preview da entrevista:
"O segundo número da revista Blimunda coincide com o mês em que terminou mais um Europeu de Futebol. Atenta ao que a rodeia, a Blimunda não poderia deixar de abordar este tema, não de um ponto de vista desportivo mas sim analisando a forma como o futebol, esse fenómeno de massas, afeta a sociedade, condiciona resultados políticos ou é tratado pela literatura. Tudo isto se pôde confirmar este ano nos jogos que opuseram equipas como a Alemanha a outras como Portugal, Espanha ou Grécia, momentos que significaram mais do que simples jogos de futebol, momentos que motivaram inúmeras discussões políticas, económicas e sociais. Ainda no dossier sobre este tema, a Blimunda recupera um texto de Fernando Assis Pacheco e outro do colombiano Jairo Aníbal Niño, aqui em formato de som, numa edição da Boca – palavras que alimentam, mostrando que muitas das nossas mais fortes memórias caminham para a par com a bola, de pano ou de pele, jogada na rua ou no campo de futebol da nossa imaginação. A secção Saramaguiana recupera uma entrevista de José Saramago dada à revista A Bola Magazine no ano de 1998. Vamos falar de futebol é o título do conjunto de respostas em que José Saramago aborda temas que partem do futebol e do desporto em geral e que passam pelo Iberismo ou pela luta dos mais fracos contra os mais fortes."


A Bola Magazine, novembro de 1998
Uma bela manhã Portugal acordou e tinha, finalmente, o Nobel que anos após anos lhe era prometido e depois negado. E, no dia seguinte, o País esqueceu-se de tantas das ingratidões que infligiu a José Saramago e transformou-o no mais recente dos seus heróis. E mesmo quando o ouvimos dizer que “nenhuma vitória é definitiva”, ficamos com a certeza de que esta é.
Geralmente é assim: há uma entrevista, marcada e agendada como é natural que aconteça com todas as entrevistas, mas também uma conversa que lhe fica por cima, às vezes não muito por cima, apenas um pouco, outras definitivamente longe daquilo para que as perguntas e as respostas nos conduzem. Com José Saramago houve,portanto, a entrevista, inevitável e incontornável, mas houve sobretudo, em redor dela, uma conversa muito mais bonita porque existem ainda em Portugal pessoas que vale a pena ouvir falar, escutando-lhes atentamente a sabedoria que foram retirando do movimento rotativo da vida.
Como estas coisas têm regras, era a nós que cabia fazer as perguntas. Mas foi ele que foi levando as respostas por onde quis, com as perguntas a perderem, mais cedo ou mais tarde, o significado na sua peugada. De tal maneira que dava vontade de dizer como o padre Manuel Velho, na citação que abre o Memorial do Convento: “Yo no voy, este me lleba”. 
E então ficou desta forma:

Ser o Prémio Nobel é mais ou menos como ser campeão do Mundo da Literatura?
Não acho que seja. Os campeões do Mundo correm, ou jogam, ou lutam uns contra os outros. Nos Prémios Nobel, sejam eles da literatura ou lá do que foram, não existe contacto físico nem exibição de dotes atléticos.

Mas há competição...
Nega de pronto, como se a sugestão lhe causasse desagrado:
Não, não há competição! Cada um está a fazer o seu trabalho. E ao fazê-lo não está em competição com A ou B e muito menos com todos. É o resultado desse trabalho que é objeto da atenção de uma instituição, no caso a Academia Sueca. E, portanto, não se pode falar em... campeonato. Além disso também não está provado que
nestas coisas de Nobel ganhe o melhor.

Como no desporto, aliás. Mas este ano não podemos dizer que não foi o melhor que ganhou...
Ri e interrompe:
Isso não é a mim que cabe julgar.

Se fizesse parte de um júri encarregado de galardoar o Prémio Nobel do Desporto, em quem votaria?
Transparecem-lhe as dúvidas. Rapidamente desfeitas:
Não conheço bem o desporto mundial, nem sequer o nosso, mas vamos colocar-nos no pequeno mundo português: tal como estão as coisas agora, eu dava o prémio à Manuela Machado.

Porque é que o desporto em geral e o futebol em particular têm sido incompatíveis com a literatura? Quer dizer, o desporto não é propriamente um tema literário, pois não?
Aqui entre nós, não é. Mas na América Latina é, e muito. Tem-se escrito, e muitíssimo bem, sobre o mundo do futebol.

Mas qual o porquê de esse fenómeno ser tão localizado?
Não sei como responder-lhe a essa pergunta. No caso da América Latina poderíamos atribuir isso à terrível paixão com que o jogo é vivido por lá.

Aparentemente, por aqui também há paixão...
E conclui, após uma pausa ligeira:
...mas talvez não haja.

Se calhar há apenas facciosismos...
Olhe, se calhar é isso mesmo.

Que me lembre, dos 94 Prémios Nobel da Literatura que o precederam, apenas um, Camilo José Cela, escreveu assumidamente em redor do desporto no seu Onze Contos de Futebol. Alguma vez lhe passaria pela cabeça escrever contos sobre futebol?
Não... Não. E a razão é simples: trata-se de um mundo que não conheço. Em princípio, quem escreve deve ter muito cuidado e não meter-se por assuntos que não domina. Da mesma maneira que não seria capaz de escrever um romance ou um conto em que o personagem principal fosse um presidente do conselho de administração
de uma empresa multinacional, também não seria capaz de meter-me na pele de um dirigente de um clube de futebol ou de um jogador de futebol.

Mas há outros casos. Gente que não escreve sobre desporto mas que, ao longo dos seus livros, passa por lá. O Hugo Claus, por exemplo, como bom belga, não dispensa umas descrições sobre os sprints entre Vervaecke e Bartali; o próprio Vergílio Ferreira tem aquela história do ponta-esquerda a quem amputam uma perna e, na
cama do hospital, continua a sonhar com o momento de marcar o penalti... Em Saramago nem isso acontece...
Até agora nunca me aconteceu...

O distanciamento entre si e o desporto é assim tão grande?
Bom, eu joguei ténis durante muitos anos, vivia na Parede e tinha acesso fácil aos courts. Nado, como qualquer pessoa nada, pratiquei um desporto menos que amadorístico, as mudanças da minha vida afastaram-me da prática desportiva. Mas distanciamento não posso dizer que haja. Sou dos que assistem aos espetáculos confortavelmente sentados frente à televisão. Gosto de ver umas modalidades bem menos que outras. O salto em comprimento, por exemplo, aborrece-me porque é excessivamente repetitivo. Mas aprecio as corridas. As corridas que não são de longa distância, porque essas são excessivamente táticas, deixando a resolução para as últimas voltas, dando vontade de perguntar para que é que se correram todas as voltas anteriores. O futebol tem o velho problema: ou é bem ou mal jogado.

Tal como os livros. Ou são bem ou mal escritos...
E, da mesma maneira que um livro mal escrito se torna entediante, também me sucede estar a ver um jogo de futebol e deixá-lo a meio. Além disso, o futebol de hoje tem uma coisa que não suporto e que é o jogo violento. Não o jogo violento no sentido... razoável. Não é preciso embrulhar os jogadores em algodão-em-rama. Mas existe uma violência, assente na crueldade, que não aceito. Que me incomoda.

Em Portugal, um mau jogador de futebol, para não dizer um péssimo jogador de futebol, pode ganhar a vida decentemente a fazer o que gosta. Um bom escritor arrisca-se a morrer de fome, se o tentar...
Isso desgosta-o?
A resposta é imediata:
É, evidentemente, uma coisa que me desgosta muito. Como me desgosta outra situação que vem nessa linha: um escritor ganha um prémio, não precisa de ser um Nobel, bastam dois ou três mil contos, e é infalível que lhe saia ao caminho um jornalista a perguntar o que é que ele vai fazer ao dinheiro. Pergunta que nunca colocam a um jogador de futebol que ganha, numa temporada, quatro, cinco, seis vezes mais do que um escritor ganha durante a vida. Eu estava em Frankfurt, dei uma entrevista a uma cadeia de televisão, já não sei qual, e lá veio a pergunta: “E agora o que é que vai fazer a esse dinheiro?” Claro que podia ter respondido: “E o que é que o senhor tem a ver com isso?” Mas não, limitei-me a dizer-lhe: “Já perguntou isso alguma vez ao Ronaldo, ao Bebeto ou ao João Pinto?” O Ronaldo, se calhar, não sabe mesmo o que fazer ao dinheiro... Lá saberá. E, muito naturalmente, compra coisas que eu nunca compraria. 

Para lá da vidraça há um céu claro, sem nuvens e sem pássaros. E uma Lisboa que fervilha, uma quinzena de andares abaixo: “Viajo devagar, o Tempo é este papel em que escrevo”, dizia Saramago nas páginas do seu Manual de Pintura e Caligrafia. Viajamos também devagar a todo o comprimento das estradas da conversa. Que ele conduz sem sobressaltos. Ele que não gosta de conduzir...
Já li, numa entrevista que deu, se não me engano ao Baptista-Bastos, que o futebol deixou de exercer em si qualquer atração. Qual foi o porquê da desilusão? Houve alguma razão especial para isso?
Não. Eu fui sócio do Benfica com os meus oito ou nove anos, Por influência do meu pai, claro está!, ele era um benfiquista ferrenho, no tempo do Estádio das Amoreiras, com aquelas bancadas e aquele
peão de terceiro mundo. Mas depois as mudanças de vida levaram-me por outros caminhos. Não me apetecia estar a sair de casa para ver um jogo. Nunca fui suficientemente entusiasta para andar de bandeira e cachecol e toda essa parafernália que fez com que o espetáculo se tenha deslocado do campo para as bancadas. O que, aliás, está de acordo com os atuais costumes do Mundo. Além do mais desagradei-me...

Interrompe-se. Muda de ideias e decide-se pela inflexão do discurso:
Também não quero estar aqui com a conversa saudosista do “antigamente é que era bom”. Mas a verdade é que, nessa época, o jogador tinha o seu clube, e clube e jogador estavam pegados um ao outro. A camisola era uma coisa respeitável. Quase como uma outra bandeira. E o Benfica viveu o orgulho de só ter jogadores portugueses... Num tempo não muito distante. E agora o que é que acontece? Caiu-se num exagero. Onde estão hoje o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto? O futebol não passa de um negócio. Desapareceu uma certa solidariedade de grupo. Isso fez-me desinteressar pelo futebol, mas também é certo que nunca fui um grande aficionado.

No dia em que a Academia tornou público o seu nome como vencedor do Nobel, um dos seus amigos de infância, quando lhe pediram para recordar alguma coisa de si, disse simplesmente: “Foi o primeiro miúdo do nosso tempo a ter uma bola de cauchu...”
Faz um gesto como para impedir-nos de continuar:
Você sabe que a nossa memória é a coisa mais suspeita que se possa imaginar. Ela é capaz de inventar coisas que não existiram e passar a acreditar nelas. Até acontece que eu nunca tive uma bola de cauchu. Lembra-me bem de andar por lá a dar os meus pontapés mas a bola não era minha.

O poeta T. S. Eliot, por acaso também ele Nobel lá pelos idos de 48, dizia que “o futebol é um elemento fundamental da cultura contemporânea”.
Que comentário lhe merece esta frase?
Mexe-se na cadeira e sorri:
O comentário que essa frase me merece é o de que nem sempre os poetas têm razão.

E continua, bem-disposto:
Essas coisas são sempre muito pessoais. E nada pior do que as citações dos escritores. Primeiro, porque correspondem a uma ideia pessoal; depois, porque as formulam como se fossem ideias universais. O futebol converteu-se num espetáculo e já nada tem praticamente de desporto. Apenas isso.

Deixemos então as frases dos outros e passemos para uma frase sua, retirada de uma entrevista concedida ao Jornal de Letras: “O êxito e o fracasso são coisas que têm que ver com o temperamento”. Acha que os campeões, os vencedores, são assim, fabricados por eles próprios, mesmo contra as circunstâncias?
Às vezes as circunstâncias desfazem as pessoas. Mas também é certo que as circunstâncias nos ajudam em momentos fundamentais das nossas vidas. Eu tenho de dizer que fui obrigado a lutar contra umas quantas circunstâncias. E, frequentemente, nem sequer estamos conscientes de que travamos uma batalha. Temos um objetivo e tentamos caminhar em direção a ele. E neste trabalho tão discreto que é de todos os dias acabamos por vencer essas circunstâncias sem que essa vitória se confunda com um grande acontecimento, pelo contrário, seja algo de absolutamente natural. Depois olhamos para trás e ficamos com a noção dos obstáculos que ultrapassámos.

Você é, neste momento, o rosto mais visível de um certo iberismo...
Eu não sou exatamente iberista...

É o autor do conceito do transiberismo, o que para a questão que lhe quero colocar vai dar ao mesmo. Quando se trata de um Campeonato do Mundo ou de uns Jogos Olímpicos, por quem torce: pelos portugueses, pelos ibéricos, pelos lusófonos?
Eu defendo que devemos sair deste pequeno quintal que é o nosso e pensarmos que estamos numa realidade maior que é a Península Ibérica. Mas também não é ficar por aí. Olhar para o outro lado do Atlântico, para a América, para a África. E esta recente cimeira Ibero-Americana fez-nos perceber que podemos esperar do futuro algumas coisas magníficas nesse domínio, logo veremos o quê. Quanto ao que me pergunta, enfim, eu continuo a ter uma forte costela patriótica. Agora se são, por exemplo, espanhóis a defrontar alemães, eu fico do lado dos espanhóis, naturalmente. O que também não significa muito, porque prefiro sempre aqueles que fazem o seu trabalho bem feito. E se uma boa equipa alemã joga com uma boa equipa portuguesa, vejo por vezes a minha preferência cair para aquele que está a jogar melhor, independentemente do patriotismo. Com uma exceção, em todo o caso: quando um pequeno joga com um muito grande, mesmo que jogue mal estou a favor do pequeno.

“Sou tão pessimista que acho que a Humanidade não tem remédio. Vamos de desastre em desastre e não aprendemos com os erros.” 
Quem escreve desta forma viveu obrigatoriamente um sem-número de desilusões. E, no entanto, o seu rosto pacificado, tranquilo, desmente-as. Fala por vezes baixo, devagar, como que para si próprio.
Mas as suas frases nunca perdem a fluência, apesar das pausas que sugerem os pontos parágrafos que não comparecem ao encontro das suas prosas.
Quando fala dos portugueses e da “sua capacidade de esperar que não é mais do que um desejo de adiar” não está , de algum modo, a explicar a razão da escassez dos nossos êxitos?
Talvez sim. Porque um dos nossos males é a dificuldade de metermos as mãos à obra. Quando decidimos que é preciso fazer alguma coisa – vamos pôr de parte acontecimentos excecionais como a Expo-98, que esses concentram os objetivos de toda a gente e, portanto, fazem-se, refiro-me ao trabalho do dia a dia – andamos demasiado. Alimentamos a ideia “se não temos hoje, amanhã haveremos de ter”. E se assim não fosse, talvez tivéssemos muitas coisas hoje. Não quero com isto dizer que devemos cair na obsessão de fazer tudo o possível no imediato. O dolce farniente tem os seus encantos, mas infelizmente tornou-se um mal nacional. E esta espécie de resignação marcou-nos muito. Com o tempo, as coisas mudaram. Nos dias de hoje vivemos um frenesim de nos comportarmos como se comportam os outros, que faz com que tenhamos perdido uma forma muito própria de viver e caído no dilema de não saber o que imitar e quem imitar. Andamos à procura de um modelo...

O que é estranho num povo antigo como o nosso.
Sim. O que é estranho num povo que vai para nove séculos de História. Parece-me que já deveríamos ter encontrado uma forma de sermos suficientemente independentes na descoberta dos nossos caminhos. Sujeitos a influências, claro está!, com uma certa permeabilidade, mas sem esta precipitação num processo de imitações sucessivas que me conduz à dúvida de não saber muito bem quem somos. E esse não é. como compreende, o caminho do sucesso.

Faz uma pausa, junta as pontas dos dedos, e conclui:
Tenho, sobretudo, esta sensação nada agradável de perceber que não temos um projeto nosso. Que povo é que nós temos? Ou já não temos nenhum? Estaremos prontos a diluir-nos em qualquer coisa?
Para muitos de nós, o passado que temos não interessa. E quem não tem passado não tem presente. E muito provavelmente não tem futuro.

Os portugueses não sabem ganhar ou não sabem perder?
Acho que as duas situações são verificáveis. Não sabem ganhar porque cada vez que ganham passam logo a dizer que são os melhores. E não percebem que tudo isso é transitório. Não sabem perder porque vão logo à procura de justificações. Não querem aceitar-se a si mesmos na relatividade dos êxitos e dos fracassos. Acho que há uma regra de vida, que obviamente não imponho a ninguém mas que guardo para mim: as vitórias e as derrotas são idênticas numa coisa: nem uma nem outra são definitivas. Era assim que deveríamos encará-las., tanto na vida como no desporto.

E usa um exemplo para reforçar a sua teoria:
Não faz sentido vivermos ainda hoje do êxito de um terceiro lugar no Mundial de 1996. Como também não faz sentido encararmos os momentos em que as coisas não nos correm bem como momentos de humilhação. Tenho a impressão de que dramatizamos isso por não sermos capazes de nos aperceber do real sentido dramático da existência noutras áreas. Quando lhe disse que atribuiria o Nobel do Desporto à Manuela Machado é porque encontro na sua competição com os outros a luta real que ela tem consigo própria. E isso causa-me a maior das admirações e dos respeitos. Quem luta contra os seus próprios limites é para mim um exemplo. Porque acho que toda a gente sabe mais do que imagina, e este saber de que falo não é o saber que se aprende nas escolas e pode mais do que imagina. Precisa é de exteriorizar aquilo que sabe mesmo que julgue que o que sabe não tem importância.

O José Saramago também foi, à sua maneira, um maratonista.
Talvez.

E de novo um sorriso desenha-se-lhe no rosto:
Porque vivi muito... e eu costumo dizer que se tivesse morrido aos 60 anos não teria ganho os prémios que ganhei. E porque fui trabalhando e fazendo as coisas em que acreditava. Claro que o Nobel não era um objetivo. O objetivo foi sempre o livro seguinte, sem saber onde é que eles me levariam. Tentando fazer continuamente melhor. Estamos no caminho e só quando chegamos ao fim dele é que fazemos uma pausa para pensar no que é que aconteceu. O António Machado dizia e com razão: “No hay camino, se hace camino al andar”. 

O caminho faz-se a andar.
Como as conversas.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Georges Duby - Historiador e sua influência na visão e análise do relato histórico (História do Cerco de Lisboa)

(Livro no mural existente na Fundação José Saramago)

José Saramago reconhece a influência de alguns historiadores, na forma como encara o relato histórico nas suas obras. 
Na entrevista a José Carlos de Vasconcelos (Jornal de Letras, 18/04/1989), aquando do lançamento da obra "História do Cerco de Lisboa", Saramago faz a seguinte alusão a este processo, também ele formativo, e presente na forma de relatar a visão dos acontecimentos passados.

"Algum historiador o influenciou?"
" Traduzi livros de Georges Duby, e um deles, O Tempo das Catedrais, fascinou-me. Aí pude ver como é tão fácil não distinguir o que chamamos ficção, e o que chamamos história. A conclusão, certa ou errada, a que cheguei, é que, em rigor, a história é uma ficção. Porque, sendo uma selecção de factos organizados de certa maneira para tornar o passado coerente, é também a construção de uma ficção."


“O tempo das catedrais” de Georges Duby traduzido por José Saramago para a Editorial Estampa.

Em 1978, a Editorial Estampa publica “O tempo das Catedrais. A Arte e a Sociedade, 980-1420″ de Georges Duby com a tradução de José Saramago. O livro viria a ser re-editado, em 1993, na colecção Nova História.


Pequena menção a Georges Duby na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Georges_Duby)
"Georges Duby (7 de Outubro de 1919 - 3 de Dezembro de 1996) foi um historiador francês, especialista na Idade Média.
Deu início à sua carreira universitária em Lyon, no ano de 1949, tendo sido posteriormente membro da Academia Francesa e professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. Foi um especialista em história medieval, lançou mais de 70 livros e coordenou coleções importantes, como a História da vida privada."

Carlos Vaz Marques entrevista José Saramago no programa Pessoal e Transmissivel



«A morte serve para que possamos continuar a viver»

Em 2005 na TSF, no programa Pessoal e Transmissível, José Saramago falou sobre a morte e disse não acreditar que a obra que escreveu fosse imortal. A TSF recorda aqui as convicções  e confissões do prémio Nobel da Literatura 1998 que morreu hoje, aos 87 anos, na sua casa na ilha espanhola de Lanzarote.

Aqui o link para ouvir a entrevista na integra 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Referência a Benedetto Crosse - José Carlos de Vasconcelos entrevista Saramago

José Carlos de Vasconcelos entrevista José Saramago
Jornal de Letras - 18 de Abril de 1999

No momento em que seria lançado o livro "História do Cerco de Lisboa", foi realizada esta entrevista, de onde a menção a Benedetto Crosse. Quem foi e o que motivou a referência que se transcreve.

José Carlos de Vasconcelos, a propósito da obra carregada por uma profunda encenação histórica, que concorre em paralelo com a participação do revisor Raimundo Silva; questiona José Saramago sobre o estudo e referências na obra.

"O livro obrigou-o a alguma preparação histórica. Isso agrada-lhe?"
Agrada-me muito. E provavelmente cada vez mais. Cada vez melhor compreendo a verdade e significado extremo da célebre frase de Benedetto Crosse: «Toda a história é a história contemporânea»." 
in Conversas com Saramago, Jornal de Letras



Benedetto Croce (Pescasseroli, 25 de fevereiro de 1866 - Nápoles, 20 de novembro de 1952) foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano. Os seus escritos giram em torno de um largo espectro temático, sobretudo estética e teoria/filosofia da história. É considerado uma das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.
Croce nasceu em Pescasseroli, na região de Abruzzo, no seio de uma família rica e influente. A sua educação foi marcada por uma atmosfera fortemente religiosa, da qual o jovem Croce cedo se distanciaria. Em 1883, perdeu os pais, Pasquale e Luisa Sipari, assim como a irmã, Maria, todos mortos num terremoto que acometeu a vila de Casamicciola Terme, na ilha de Ísquia, onde a família passava férias. Nesta ocasião, o próprio Croce permaneceu soterrado por longo tempo, tendo corrido sério risco de morte. Após a fatalidade, ele herdou a fortuna da família, o que lhe permitiu viver em relativo conforto, e dedicar tempo à reflexão filosófica.
Na política, foi nomeado senador em 1910. Entre 1920-21 foi ministro da educação. Croce opôs-se ao governo fascista de Benito Mussolini, embora inicialmente o tivesse apoiado.

"Deste Mundo e do Outro" - Saramago e as fortes referências dos avós maternos



José Saramago assume desde sempre a complexidade e a influência dos seus avós maternos, Josefa da Conceição e Jerónimo Melrinho, na sua construção enquanto homem e guias nos seus tempos da juventude na Azinhaga.

No livro de crónicas, "Deste Mundo e do Outro", editado em 1971 pela Editora Arcádia, esta influência vem numa sentida referência aos avós. Sentimento e interrogação.

Na 3.º edição de 1986 - Editorial Caminho, páginas 27 a 31

"Carta para Josefa, minha avó»
"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. (...)
(...) Não sabes nada deste mundo. (...) És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. (...)
(...) Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. (...)
«O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!» É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua."

"O meu avô, também"
(...) "Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. (...)
(...) Só isto - e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo."

Este assunto é confortavelmente retratado com diversos episódios em "As Pequenas Memórias", mas aqui se vinca a importância da forte presença dos seus avós maternos.

Fernando Alves na crónica "Sinais" - A "Escritaria" em Penafiel - Out2009 dedicada a José Saramago

A "Escritaria" na cidade de Penafiel, em 2009 dedicada a José Saramago

Fernando Alves, na sua crónica diária "Sinais" deixou-nos esta memória para o futuro.

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1391490


http://www.escritaria.pt/

O "Escritaria" de Saramago
Apresentação [setembro 2009]
 
Depois do êxito da primeira edição, dedicado a Urbano Tavares Rodrigues, o "Escritaria em" volta a Penafiel e será dedicado a José Saramago.

Alberto Santos, presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Manuel Andrade, administrador das Edições Cão Menor, António Castanheira, fundador da Escritaria, e Urbano Tavares Rodrigues, escritor|tema da edição que terminou, foram unânimes na escolha do nome que deveria suceder ao de Urbano e foi o próprio escritor quem formalizou o convite, telefonicamente, para Lanzarote.

O formato, que remonta já ao Praxis ou como fazemos o que fazemos de 2006 e cujo sucesso é bem visível pela apropriação que se vai notando pelo país, será mantido com as adapatações justificadas pela especificidade do convidado. O centro da cidade será novamente receptáculo das intervenções que constituem a exposição sobre José Saramago, um colóquio internacional reunirá algumas das personalidades mais relevantes no conhecimento do escritor, um videograma documental tornará evidentes alguns traços da construção da identidade de José Saramago, duas obras de arte em torno da obra do convidado - desta vez da responsabilidade de dois ateliers de arquitectura - passarão a integrar o património cultural de Penafiel, o teatro marcará presença dentro e fora de portas e o cinema chegará pelas mãos de Fernando Meirelles, que trará pessoalmente o seu Ensaio sobre a Cegueira, e por A maior Flor do Mundo, de Juan Pablo Etcheverry. A música poderá ser uma novidade com obras de Azio Corghi sobre textos de José Saramago.

As atribuições mantêm-se: o promotor e anfitrião do Escritaria em é a Câmara Municipal de Penafiel, salientando-se a manutenção do empenhamento pessoal do presidente Alberto Santos; a organização do colóquio e dos espectáculos é das Edições Cão Menor, que também será a editora nacional do DVD; a concepção das intervenções plásticas no espaço da cidade é nossa, com a coordenação gráfica do designer e ilustrador Rui Martins e, finalmente, a produção do videograma é também mais uma vez da escritaria.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

"José e Pilar" o filme



Descrição retirada do mesmo link. 

"Um dia escrevi que tudo é autobiografia; que a vida de cada um de nós estamos contando enquanto fazemos e dizemos; nos gestos, na maneira como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer, então, que vivendo rodeado de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. Seja como for, que os leitores se tranquilizem: este Narciso que hoje se contempla na água, desfará, amanhã, com sua própria mão, a imagem que o contempla". - José Saramago

Difícil dizer qual dos dois é mais lindo, José Saramago ou sua companheira e fiel escudeira, a jornalista espanhola a jornalista Pilar Del Río.

Miguel Gonçalves Mendes dirige o filme a partir da coleta de 240 horas de material sobre o cotidiano de José e Pilar que, portanto, são os próprios atores de seus personagens.

O filme se desenvolve em torno da criação e lançamento do livro "A Viagem do Elefante", de Saramago.

Os quatro anos de filmagens resultaram em um filme inicial com 6 horas de duração, das quais Saramago pode assistir a uma versão com 3 horas, antes de morrer.

A edição do filme durou mais de um ano e meio.

Para convencer o casal a filmar, o diretor Miguel Gonçalves Mendes levou 6 meses.

O resultado é um filme surpreendente onde somos levados ao dinâmico e cultural universo de Saramago e Pilar, nos deparando com um relacionamento belíssimo de dois seres que fazem jus ao adjetivo "humanos".

Saramago, o comunista ateu que quando o vestiam com roupa de marca, pedia que arrancassem com a tesoura a etiqueta da Armani, nos presenteia com passagens belíssimas de sua vida, já perto dos 84 anos de idade, sempre ativa e produtiva.

Destaque para suas declarações sobre religião,após a leitura de um trecho de seu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", onde Jesus clama, sobre seu pai "Homens, perdoai-lhe, por que ele não sabe o que faz": "É uma aldrabice, pá, uma aldrabice completa... Eu fui uma ou duas vezes à missa, quando tinha 6 anos, mas eu não... Enfim, aquilo não me convenceu nada, pá. E fui eu quem disse a minha mãe: 'não, eu não vou a isso...' E não fui... E Nunca mais... E não tive nenhuma crise religiosa, e não tenho medo da morte, não tenho medo inferno, não tenho medo, digamos, do castigo eterno pelos pecados... Que pecados? Pecados? O que é isso, o pecado, pá? Quem é que inventou o pecado? A partir do momento em que se inventa o pecado, o inventor passa a dispor de um instrumento de domínio sobre o outro, tremendo! E foi o que a igreja fez, e já não faz tanto, porque, coitados, já não têm nem metade do poder que tinham, é mais uma farsa, mais uma farsa trágica... Deus... Onde está? Antigamente, dizia-se: 'está no céu'. Mas, o céu não existe! Não há céu! Não há céu! O que é isso, pá, céu? Há o espaço. Há 13 mil milhões de anos-luz. Imagina, pá...
Os limites do universo se encontra há 13 mil e 700 milhões de anos-luz... Anos-luz! Onde está deus? Quem quiser crer, creia e acabou-se! Eu digo em alto e bom som, que não, enfim, para mim, não. E repara que com 83 anos já seria uma boa altura para começar a pensar no futuro, quer dizer, uma pessoa, durante a vida, pode fazer umas quantas tonterias, dizer umas quantas barbaridades a respeito do senhor deus, mas quando chega aos 83 tem de, deveria começara a ter um bocadinho de cuidado com o que diz. Mas isso não muda nada a realidade. A realidade continua a ser igual a de sempre: nascer, viver e morrer, e acabou. Mais nada. Que isso não aconteça. Espero morrer lúcido e de olhos abertos. Pelo menos gostaria, que fosse assim".

A força e o caráter de Pilar, se refletem bem no trecho do filme em que ela declara:
"A mim o que me parece é que a razão tem que prevalecer sobre a vontade. Isso parece o que há de mais frio e o que há de mais forte que se pode dizer, mas creio que somos racionais, e temos a obrigação de ser racionais e de não nos deixar levar, jamais, pelo instinto. Ou seja, recuso-me, recuso-me a chorar e a ficar insatisfeita e deprimida. "Ah, mas é que a depressão existe..." Sim, pois sim, mas tomamos uns comprimidos e vamos trabalhar, ponto! Sou a favor dos fármacos. Ouve, uma vida inteira sofrendo com dores quando há a Medicina, que nos ajuda, e vêm agora uns quantos gurus dizer: "Não... É que fazem mal!" Não, o que faz mal é passar mal! É preciso desdramatizar! Sobretudo nós, os privilegiados... Eu não posso estar e não posso me dar ao luxo de estar desesperada, nem sem esperança, nem triste, porque tenho tudo, e mais, tenho, inclusive, a força para combater, o que é o maior privilégio!"

"Já não estar" - tema do filme "José e Pilar" cantado por Camané

"Já não estar" - tema do filme "José e Pilar", 
música de José Mário Branco, letra de Manuela de Freitas e interpretado por Camané.

Voz: Camané
Composição: José Mário Branco
Letra: Manuela de Freitas
Guitarra e Arranjo: José Peixoto


Entrevista da RTP2 - Judite de Sousa entrevista José Saramago


José Saramago, Prémio Nobel da Literatura (entrevista a Judite de Sousa, 2/12/1998)


Referência ao homem, à humanidade, que vai até ao planeta longínquo de Marte mas não consegue erradicar os males que permanecem neste mundo.

Entrevista que antecede o discurso em Estocolmo