Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Jornal das Caldas - Entevista a José Saramago (16/07/1992)


Referências mais antigas, recolhidas numa crónica baseada em algumas entrevistas que José Saramago concedeu ao jornal regional "Jornal das Caldas"

Aqui o link da publicação, em http://jornaldascaldas.com/

"Nos primeiros meses de existência do JORNAL DAS CALDAS, em 16 de Julho de 1992 publicámos uma entrevista a José Saramago, numa altura em que tinha acabado de receber o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.
Na altura explicava a sua assiduidade de publicações: 
“Há duas coisas que é preciso ter sempre em conta naquilo que temos de fazer, na vida ou onde for. Uma delas é não ter pressa e outra é não perder tempo. Parecem duas declarações contraditórias, e eventualmente o são, mas a verdade é que há coisas que precisam de um tempo para puderem amadurecer, mas também não podemos ficar com a ideia de que o tempo que temos de vida é suficiente para tudo”.
E prevendo um dia já não ter tempo, declarou: 
“Tenho 69 anos, o tempo que eu tenho para viver não é tanto que eu possa perder”.
Ainda teria pela frente mais 18 anos e muitas obras e sucessos, o principal dos quais a distinção como Prémio Nobel da Literatura.
O escritor falava também na ocasião do orgulho por ver as suas obras traduzidas em várias línguas. “A primeira vez que sucede é um deslumbramento. Ficamos felicíssimos, como é o caso da primeira entrevista que se dá, o caso da primeira pessoa que encontramos a ler um livro nosso ou quando o vemos na montra de uma livraria. Tudo o que acontece pela primeira vez é realmente um choque, como é ver o nosso primeiro livro traduzido. Só nesse dia nos apercebemos ter passado a fronteira para o lado de lá. Mas depois começam a ser tantas as traduções, desde o japonês ao hebraico, do sueco ao finlandês, do alemão até ao grego, que já não é aquela emoção. Posso dizer é existirem dois tipos de satisfação, uma é a satisfação pessoal, outras é menos egoísta e tem a ver com a nossa terra, língua e cultura, e é através do escritor que a Literatura Portuguesa chega ao lado de lá. Eu não me lembro de ter sentido uma emoção tão forte como em Milão ouvir um cantor lírico italiano dizer a palavra Portugal”, manifestou.
A relação polémica de Saramago com a Igreja (que teve o expoente máximo com a obra “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”) também foi comentada pelo escritor: 
“Estou perfeitamente consciente que a Igreja não gosta. Não pode gostar, de facto. Respeito as suas convicções sob condição de que respeitem as minhas e o direito que tenho de escrever sobre o que entender, da forma que entender”. E adiantou: “A primeira carta que eu recebi foi de um bispo fundamentalista, em que ele começa dizendo: ‘Isto não é uma ameaça’; e acabava assim: ‘Não por fanatismo mas em nome da justiça, o senhor devia ser condenado à morte sem sepultura’. Para que as coisas não fossem tão dolorosas, ele fechava a carta dizendo: ‘Rezo por si!’”.
Saramago, nessa entrevista ao JORNAL DAS CALDAS, conduzida por José Patrício, concluía: “Um escritor não se define, espera que os outros o façam”.
A 14 de Outubro de 1998, o JORNAL DAS CALDAS tinha motivos mais do que suficientes para falar do escritor. Tinha sido contemplado com o Nobel e o jornalista Luís Pires escrevia que “Saramago é um provocador. Apesar da sua aparência serena, imagino como se ri cada vez que termina um novo romance que sabe perfeitamente ir entrar no pensamento dos leitores e revolucionar todos os seus conceitos”.
Duas semanas depois, a propósito da vinda de Saramago às Caldas da Rainha, a convite da livraria Loja 107 para uma sessão de autógrafos, tendo a autarquia aproveitado para lhe entregar a Medalha de Honra do Município, Luís Pires comentava: “O povo português é de extremos. É capaz de criticar mortalmente qualquer acontecimento ou pessoa, e a seguir, perante algo bom que aconteça, levar em braços os responsáveis, criar canções de homenagem e quase chorar, sentindo cada alegria como se fosse conseguida por si individualmente. Saramago é o mais recente exemplo desse peculiar ‘orgulho de ser português’”.
Recordando declarações proferidas na ocasião, o presidente da Câmara, Fernando Costa, afirmava que o admirava o escritor por ser “um homem que luta toda a vida por princípios nos quais acredita”.
Já o escritor explicava que o Prémio Nobel “reforçou-nos a auto-estima”. E defendia: “Temos que pôr em movimento uma política efectiva de defesa da língua portuguesa. Se houver realmente um esforço coerente, este prémio, além da satisfação que deu, irá servir para que a nossa língua ganhe força”.
A atribuição da Medalha de Honra foi feita após aprovação da Câmara e da Assembleia Municipal das Caldas da Rainha. Marcelo Morgado, da bancada do PSD na Assembleia Municipal, disse, em nome pessoal, discordar da atribuição da medalha, considerando que o laureado “agride-me profundamente por uma questão ética, pois não me esqueço que foi também um escritor político e que foi durante o PREC o saneador dos jornalistas do Diário de Notícias, e se isso só não bastasse, vi-o num espectáculo na cidade do Porto a abraçar o senhor presidente do Governo de Cuba (Fidel Castro), um homem que tem tantos crimes políticos no bolso como tem o senhor Pinochet”. Não impedindo uma aprovação por unanimidade, o deputado ausentou-se da sala na altura da votação.

Crónica de Inês Pedrosa - Agosto de 2010

"A Alegria de Saramago"


Uma das grandes qualidades de José Saramago - morto aos 87 anos em 18 de junho passado - era o de nunca ter sofrido daquela doença que o crítico americano Harold Bloom definia como "a angústia da influência". Vivia as obras alheias - de há quinhentos anos ou de hoje - com o genuíno orgulho de quem, acima de tudo, se identifica com a grandeza das coisas belas. Se sofria de alguma coisa, era da alegria da influência. Como diria o professor e escritor português Eduardo Prado Coelho, não tinha medo de gostar.
Começo esta memória projetiva de Saramago sob o signo da alegria, porque estou cansada das recorrentes acusações de pessimismo que lhe foram sendo feitas. Muitas e muitas vezes lhe perguntavam porque se indignava tanto, porque fazia questão de futurar em negativo, quando a vida se mostrava tão afável com ele. Saramago respondia desabridamente a estas provocações, porque não confundia a sua felicidade com a infelicidade de grande parte do mundo à sua volta. Possuía, em altíssimo grau, aquilo a que os cristãos chamam compaixão — capacidade de partilhar a paixão dos outros.
Também isso fez dele um escritor universal. Ao velho postulado segundo o qual a literatura não se faz com bons sentimentos, poderia responder: nem com sentimentos ruins. Sobretudo, a literatura não se faz com o umbigo, mas com as tripas - e ele sabia como ninguém expôr as tripas do mundo. Há muito de "instalação", no sentido plástico e contemporâneo do termo, nas alegorias que são o motor dos seus romances. Muito de "performance", também; o seu discurso é uma intersecção vibrante, torrencial, de vozes eruditas e populares.
Aquilo que parece, como tantas vezes é dito, "uma escrita difícil", torna-se transparente palavra-em-ação, quando lido em voz alta. Utilizou a vírgula como marca de democratização da palavra: no barroco arrojado de Saramago, as vozes menores habitam o mesmo espaço das vozes maiores. Os seus romances históricos são futuristas, porque proféticos e protagonizados por personagens da arraia-miúda; os seus romances futuristas são históricos, porque desenvolvem tragédias anunciadas. A sua é uma escrita de herança, como era a do Padre António Vieira, um dos seus grandes modelos - na escrita, e não só. Como Vieira, Saramago foi revolucionário e conservador, feroz e terno, um vendaval de lucidez e assombro. Gostava de gostar, sim - mas também de não gostar.
Extremamente delicado no trato, não era um homem de contenções, e menos ainda de mesuras. O professor Eduardo Lourenço escrevia, no dia seguinte à sua morte: "Aparece tarde no horizonte da ficção portuguesa, quando já ninguém o esperava, provavelmente nem ele. E isso é já em si um paradoxo e sobretudo um milagre cultural. À sua maneira, era uma versão nossa da Gata Borralheira."
Depois de consagrado Cinderelo, este Gato Borralheiro dedicou-se a levantar do chão a gata lamurienta e pobrezinha que a cultura portuguesa se acostumou a ser, apesar de possuir um armário cheio de fadas e trajes sumtuososos. As suas primeiras declarações depois da notícia do Prêmio Nobel, em 1998, foram de exaltação da literatura de expressão portuguesa, de Luís de Camões a Jorge Amado e Sophia de Mello Breyner. E deu o seu nome a um prêmio para jovens escritores - prêmio que que foi concedido a Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe e, nesta edição, João Tordo. O depoimento da escritora Hélia Correia ao jornal Público é eloquente: "Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um 'poeta', daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso".
É nessa dimensão de exemplo que a ideia de uma "geração Saramago" pode fazer sentido. As parábolas alegóricas que são a matéria e o ato da ficção saramaguiana funcionam como sonhos instigantes, um genuíno cinema da imaginação. A constante defesa do escritor em relação à transposição para o cinema real - em particular o hollywoodesco - dos seus livros é, em si mesma, outra parábola exemplar. Permitiu apenas um filme, a um particular cineasta, o brasileiro Fernando Meirelles (que filmou o meu Saramago favorito, Ensaio sobre a Cegueira).
Em nenhum dos jovens escritores laureados com o Prêmio José Saramago se sente sequer uma nota da música do mestre - mas todos eles confessam a sua admiração diante do poder imagético e da energia verbal dessa obra. Saramago é difícil de copiar; o seu trajeto ensina precisamente a não temer as influências - e , sobretudo, a não nos vergarmos a elas. Ensina-nos também a não termos pressa e a não nos deixarmos encandear pelas sereias do sucesso - e esse é um ensinamento precioso, nestes tempos em que a literatura facilmente se confunde com a indústria da moda.
Creio que a felicidade que teve a coragem de procurar e alimentar na sua vida pessoal contribuiu para que o seu espírito crescesse em liberdade, inquietação e generosidade. Respeitou o neorrealismo dos seus camaradas políticos mas criou uma voz única - clássica, barroca, cubista. Fez o mesmo com a sua cabeça e a sua existência - largou a pele da ortodoxia sem rejeitar as suas origens nem abandonar os seus ideais. Os livros que nos deixa são feitos de tudo isto - e do riso de um homem que morreu de bem consigo e com a vida. Coisa rara.

Inês Pedrosa

1 de Agosto de 2010

Livro autografado


Autografo de José Saramago
Na Feira do Livro de Lisboa
17 de Maio de 1998
"Que Farei com Este Livro?"

A causa "Chiapas" pelo seu punho

José Saramago recusava a postura do escritor de secretária, que com toques e artifícios de génio publicava os seus "escritos". Saramago não se acomodou à secretária, vivia o mundo, viajava pelos cantos mais diversos deste planeta, experenciava várias influências que o mantinham sensível tanto ao ideal nacional e ibérico, como não descurava a luta dos povos deste mundo que se mantinham subjugados a governos, ou a grupos de interesses que condicionam os governos para seu interesse.
Saramago era isto.

"Uma Longa Viagem com José Saramago"
de João Céu e Silva
Porto Editora, páginas 28 e 29

(...) "José Saramago não pára de viajar pelo mundo e de se integrar nas causas que defende e que sente que necessitam do apoio de um Prémio Nobel como mais um dos seus defensores. Com pedidos vindo de toda a parte do planeta, os últimos anos do escritor têm sido repletos de deslocações constantes, de presenças em manifestações e em apresentações dos seus livros e de outros em vários países, de discursos em palanques e palcos, de participações em debates, de entrevistas, de assinaturas em manifestos e de inaugurações de exposições, seja sozinho ou ao lado dos líderes políticos mais importantes do mundo, seja com as Mães de Maio na Argentina seja com os palestinos ou com os índios Chiapas. (...)

Aqui também pelo seu testemunho.

Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16 de Janeiro de 2003

(...)
Uma das várias batalhas, na América Latina, em que tiveste intervenção activa foi a de Chiapas, de que agora não se tem falado. O que sucedeu?
A Latino-América tem muitos e muito graves problemas. Mas tem um «especial», que é o problema indígena. E às vezes parece haver a convicção de que ele se resolve com o tempo. Houve um longo e lento genocídio dos indígenas: nuns casos foi a eliminação física, noutros foi a entrega o abandono dessas populações à sua (má) sorte. Um exemplo, entre outros, é o da Guatemala, onde essa população representa 50% do total.
Em Chiapas, o que houve foi uma guerrilha armada, zapatista, que não durou muito. Parte desse exército refugiou-se na selva. E através de meios como a internet, conseguiu dar dimensão internacional à sua luta. Depois dos acontecimentos conhecidos que tiveram repercussão mundial, como a longa marcha até à Cidade do México, o comandante Marcos esteve muitos meses calado. Recentemente escreveu uma carta, a propósito da ETA, que foi um erro político. Chiapas é muito rica - em petróleo, água, café, cacau, aquilo, aqueloutro - e a sua situação está num beco sem saída. O que parece é que toda a gente está à espera que as populações se afundem, se dissolvam, desapareçam, não se sabe porque artes mágicas, para caírem em cima daquilo e se apropriarem de tudo.

A situação é particularmente difícil na América Central...
A situação é dramática. E se os EUA se comportam como se comportam em relação ao resto do mundo, então ali, que se consideraram um seu feudo, imagine-se! (...)




Aqui o texto publicado, em http://caderno.josesaramago.org/58506.html

"O sangue em Chiapas"

Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.


Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009



Todos somos Chiapas

Artículo escrito en primera persona por José Saramago, resultado de sus impresiones recogidas durante su viaje a Chiapas, con motivo de los disturbios que enfrentaron a la población indígena con el gobierno mexicano, y publicado en La Revista del diario español El Mundo. 

"He visto el horror. No el que hemos observado en lugares como Bosnia o Argelia. No. Éste es otro tipo de horror. Estuve en Acteal, en el mismo lugar de la matanza... escuchando a los supervivientes. Es difícil expresar lo que se siente cuando uno sabe que se encuentra con los pies sobre el mismo lugar donde hace tres meses asesinaron a estas personas. 

Me imaginaba la escena... La gente tratando de escapar... los paramilitares disparando a discreción... las mujeres y los niños gritando, huyendo entre la maleza... el lamento de los heridos... 

En Chiapas se vive una situación de guerra o una ocupación militar, que al final es casi lo mismo. No es una guerra en el sentido común, con un frente y dos partes confrontadas. Yo nada más he visto una parte confrontada: el Ejército y los paramilitares. La otra parte, las comunidades indígenas, no están enfrentándolos, no tienen medios. Están rodeados, no tienen comida ni agua... Viven en condiciones infrahumanas. Son casi campos de concentración. No los reunieron allí a la fuerza, es cierto, pero cuando huyeron a esos lugares (se refiere a los campos de refugiados) los rodearon los paramilitares y el Ejército. Entonces esos campamentos se convirtieron en una especie de campo de concentración. 

Si alguna vez hubo en la historia de la humanidad una guerra desigual, no la hubo nunca como ésta. Es una guerra de desprecio, de desprecio hacia los indígenas. El Gobierno esperaba que con el tiempo se ¡acabaran! todos, simplemente eso. 

Pero ellos sobreviven, alimentándose de su propia dignidad. No tienen nada, pero lo son todo. Enfrentan la guerra con ese estoicismo que me impresionó tanto, un estoicismo casi sobrehumano que no aprendieron en la universidad, que consiguieron tras siglos de humillación. Han sufrido como ninguno y mantienen esa fuerza interior, una fuerza que se expresa con la mirada... La mirada de ese niño al que le han destrozado para siempre la vida... (Saramago conoció al pequeño de cuatro años Gerónimo Vázquez al que los paramilitares amputaron cuatro dedos en Acteal) Es algo que no se me borrará jamás de la memoria... Las miradas serias, severas, recogidas de las mujeres, de los hombres... son algo que está por encima de todo. Los indígenas no tienen nada, pero lo son todo. ¿Cómo es posible que después de tanto sufrimiento ese mundo indio mantenga una esperanza? ¿Cómo puede sonreír ese hombre de Polhó que nos acaba de decir "mañana puede que nos maten a todos, pero bueno, aquí estamos"? Es algo que no alcanzo a entender.

En Chiapas encontré un mundo que no comprendo. El mundo indio es un mundo donde el europeo no puede entrar fácilmente. Es como si me asomara a una ventana que da a otro mundo y, aunque lo tengo enfrente, no lo puedo entender. 

También descubrí otra realidad, la de un territorio ocupado militarmente. Un territorio donde los paramilitares y el Ejército son la uña y la carne juntas. Por una razón muy sencilla: de no ser así, los paramilitares no podrían haber hecho lo que hicieron y lo que siguen haciendo. Yo vi camiones del Ejército transportando a civiles que seguro no viajaban allí por la amabilidad de los militares. Minutos después de que abandonáramos Acteal hubo un acto de intimidación e hicieron hasta 30 disparos al aire. Esto sólo puede ocurrir si el Ejército da su bendición. Nada más fácil para el Ejército que identificar a los paramilitares y desarmarlos. 

Me parece esquizofrénico que el Congreso pueda estar debatiendo una ley (el Proyecto de Ley sobre Autonomía Indígena propuesto por el ejecutivo) supuestamente para resolver los problemas de las comunidades indígenas, como si fuera una ley normal, en situaciones normales para objetivos consensuados, cuando al mismo tiempo hay miles de desplazados que no pueden volver a sus tierras, con miedo a ser asesinados, mientras hay una ocupación militar clara en el territorio de Chiapas. Y mientras los paramilitares se pasean tranquilamente y hacen lo que quieren. 

¿Cómo es que no se empieza por pacificar la situación para después discutir una ley donde participen todos los sectores y todas las comunidades? 

Todo se ha hecho sometiendo a los indios de Chiapas a una presión incalificable y esto no puede llamarse humanidad. 

El pueblo de México tiene que reclamar a su Gobierno una paz justa y digna. Yo no puedo, sólo soy un escritor extranjero acusado de injerencia. El pueblo mexicano no puede quedarse parado, dejando que los gobernantes lo decidan todo, hay que bajar a la calle... no estoy pidiendo un levantamiento sino simplemente que las conciencias se manifiesten... estoy pidiendo una insurrección moral, desarmada, étnica... 

Acteal es un lugar de la memoria que no puede de ninguna manera desaparecer. Sabemos lo que ocurrió y no lo queremos olvidar. Chiapas es el cuerpo de México. La sociedad civil debería admirar no sólo a los indios sino a los que se levantaron para defender a esos mismos indígenas. 

De Chiapas me llevo no sólo el recuerdo, me llevo la palabra misma... Chiapas... La palabra Chiapas no faltará ni un solo día de mi vida. Si tenemos conciencia pero no la usamos para acercarnos al sufrimiento ¿de qué nos sirve la conciencia? Volveré a Chiapas, volveré". 

Transcripción de Javier Espinosa 

(Declaraciones concedidas a LA REVISTA por José Saramago (Portugal, 1922) en México DF tras su viaje a Chiapas el 14 y 15 de marzo. En su visita conversó con los supervivientes de la matanza de Acteal en el lugar de la masacre, recorrió después el campo de refugiados de Polhó y hasta se acercó al campamento militar de Majomut, sito en las inmediaciones del asentamiento indígena). 

José Saramago fotografado por Helena Gonçalves



Aqui o link:
em http://www.salgadeiras.com/Exhibition.aspx?InExhibitionId=64&InMenuOption=1&InArtistId=0#.VGIymTSsU8g

11.09.10
Helena Gonçalves
Fotografia
Espaço da Companhia de Teatro Útero, Ginjal

Helena Gonçalves apresenta nesta instalação fotográfica uma série de retratos de figuras da nossa cultura e que, no seu entender, recorrem à expressão artística como forma de tornar melhor o mundo em que vivemos. Fotografias de grande formato em exposição no Espaço Ginjal tirando partido das características físicas, emocionais e de memória deste lugar.
Ballet Gulbenkian (Adriana Queiroz, Benvindo Fonseca, Francisco Rousseau, Olga Roriz, Paula Fernandes, Sandra Rosado, Wilson Domingues), Diogo Dória, José Saramago e Rodrigo Leão retratados em situações de guerra e tensão, em ambientes frios, hostis e descaracterizados, com as suas “armas” sejam elas o corpo, os livros, os instrumentos musicais, testemunhando na primeira pessoa que, se cada um der o seu contributo, é possível o mundo ser mais consciente, mais justo, mais humano. Um apelo à nossa própria reflexão.

Os nomes das obras e o que elas concernem - Um exemplo




"A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago
Página 28

(... ) Como já terão notado, os meus romances caracterizam-se por terem títulos que não são os mais apropriados para o género: um, já citado, chama-se "Manual de Pintura e Caligrafia", o que não é de todo título para um romance. Quando apareceu, no final dos anos setenta, um distribuidor de Angola, supondo que era um livro didáctico, comprou duzentos exemplares. Não sei o que aconteceu a esses volumes: em plena guerra civil, com uma economia depauperada, encomendar duzentos livros que não eram o que prometiam deve ter sido uma tremenda decepção.
Seguramente terão ficado por aí abandonados ou se calhar os insectos dos trópicos já os devem ter devorado todos. (...)



Como "nasceu" a ideia da obra "Memorial do Convento"

Depois de "conviver" com a obra de José Saramago, importa-me saber alguns detalhes sobre as origens e casualidade à volta do processo criativo.
Sendo ideias que ocorrem, como no "Ensaio sobre a Cegueira" num restaurante na Madragoa, num escaparate de jornais em Espanha, ou na visita à imensidão do "calhau" do Convento de Mafra.
Se não é importante para a obra, não ajuda à sua interpretação, porém é fundamental para se conhecer o processo criativo e construtivo que o romancista referencia.




(...) Memorial do Convento, romance que nasceu duma circunstância fortuita que passo a contar em meia dúzia de palavras. Um dia, estando em Mafra com algumas pessoas contemplando o Convento, pronunciei em voz alta: «Gostaria um dia de pôr isto num romance». Provavelmente, se não as tivesse dito em voz alta, se simplesmente o tivesse pensado e permanecido em silêncio, a própria dimensão da tarefa me haveria intimidado tanto que talvez não tivesse sido capaz de escrever o livro. Aconteceu que, por pronunciar em voz alta aquilo que tinha pensado, em senti obrigado perante as pessoas que me tinham ouvido, e que inevitavelmente não deixariam de perguntar-me depois como levava o livro sobre o Convento... Devo aclarar que a ideia de escrever sobre o Convento de Mafra foi posterior à ideia de "Ano da Morte de Ricardo Reis", no entanto, "Memorial do Convento" foi publicado em Portugal em 1982 e o "Ano da Morte de Ricardo Reis" em 1984. A explicação é simples: se enfrentar-me ao Convento de Mafra me pareceu uma ideia tremendamente arriscada, tocar a figura de Ricardo Reis, que é a mesma coisa que dizer Fernando Pessoa, era então o cúmulo da ousadia. Senti tal receio de provocar as iras e os desdéns dos eruditos pessoanos, eu que não diplomas, nem atributos académicos, nem méritos conhecidos ou por conhecer, que disse para mim mesmo, não como o outro «Afasta de mim esse cálice», mas sim «Afasta de mim essa tentação». Por isso o "Memorial do Convento" foi escrito antes, como se a tarefa não fosse, coisa que acabei por saber depois, muitíssimo mais árdua e difícil que a de descrever o que sucedeu no ano em que morreu Ricardo Reis... (...) 

A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Páginas 23 e 24





Saramago considera Alexandre Herculano um verdadeiro Romancista Histórico

A temática da categorização de romancista histórico, que volta e meia tentavam catalogar José Saramago, foi de alguma forma "desmontada" na alusão comparativa, com o trabalho de Alexandre Herculano.
Muitas vezes, não bastou dizer que o assunto não se colocava, dado que, o escritor o não se considerava. Não se poderia considerar algo que não era. Não chegavam as menções e alguns dados teatrais sobre a história nacional, que se podem encontrar em "O Ano da Morte de Ricardo Reis" ou no "Memorial do Convento", para que, Saramago viajasse no tempo para encarnar não só o relato de outras épocas ou vestir a "pele" de historiador.



(Alexandre Herculano, 1810-1877)


A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Página 19

(...) não tenho outro remédio senão regressar ao problema de que sou ou não sou romancista histórico. Alexandre Herculano, o grande historiador do século XIX, dedicou-se também a escrever romances históricos (O Monge de Cister, Eurico o Presbítero e O Bobo), romances que hoje não são fáceis de ler porque  estão escritos com um estilo muito denso, lento, com demasiada frequência sobrecarregados de um retórica romântica dificilmente suportável. De toda a forma, são livros cujo conhecimento é imprescindível se nos referirmos à literatura portuguesa do século XIX. No caso de Alexandre Herculano pode-se dizer que a sua obra literária foi uma consequência directa do seu trabalho de historiador. (...)


Refere Saramago, em "A Estátua e a Pedra", a propósito do "Memorial do Convento", a necessidade que entende poder colocar-se num determinado momento temporal da obra, e ao mesmo tempo, manter a lucidez do tempo em que vive. Importante para o conceito.

Página 25

(...) "Memorial do Convento" não pertence a este tipo de romance histórico. É uma ficção sobre um dado tempo do passado, mas visto da perspectiva do momento em que o autor se encontra,  e com tudo aquilo que o autor é e tem: a sua formação, interpretação do mundo, o modo como ele entendo o processo de transformação das sociedades. Tudo isto visto à luz do tempo em que ele vive, e não com a preocupação de iluminar o que os focos do passado já tinham clarificado. Ver o tempo de ontem com os olhos de hoje. Dar ao autor a liberdade de entrar e sair do romance que está a escrever, porque ele no seu trabalho, é omnisciente, não está a realizar uma obra de arqueologia, os anacronismos são intencionais já que a visão pessoal do autor é tão válida e pertinente como a das personagens que o narrador inventa e situa no tempo escolhido. (...)



Informação na Wikipédia, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Herculano

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa, 28 de Março de 1810 — Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, 18 de Setembro de 1877) foi um escritor, historiador, jornalista e poeta português da era do romantismo.
Como liberal que era teve como preocupação maior, estabelecida nas suas acções políticas e seus escritos, sobretudo em condenar o absolutismo e a intolerância da coroa no século XVI para denunciar o perigo do retorno a um centralismo da monarquia em Portugal.
Alexandre Herculano nasceu no Pátio do Gil, na Rua de São Bento, em 28 de Março de 1810; a mãe, Maria do Carmo Carvalho de São Boaventura, filha e neta de pedreiros da Casa Real; o pai, Teodoro Cândido de Araújo, era funcionário da Junta dos Juros (Junta do Crédito Público).3 Na sua infância e adolescência não pode ter deixado de ser profundamente marcado pelos dramáticos acontecimentos da sua época: as invasões francesas, o domínio inglês e o influxo das ideias liberais, vindas sobretudo da França, que conduziriam à Revolução de 1820. Até aos 15 anos frequentou o Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Néry, então instalados no Convento das Necessidades em Lisboa, onde recebeu uma formação de índole essencialmente clássica, mas aberta às novas ideias científicas. Impedido de prosseguir estudos universitários (o pai cegou em 1827, ficando impossibilitado de prover ao sustento da família) ficou disponível para adquirir uma sólida formação literária que passou pelo estudo de inglês, francês, italiano e alemão, línguas que foram decisivas para a sua obra literária.
Estudou Latim, Lógica e Retórica no Palácio das Necessidades e, mais tarde, na Academia da Marinha Real, estudou matemática com a intenção de seguir uma carreira comercial.
Alexandre Herculano casou, em 1 de Maio de 1867, com Mariana Hermínia de Meira. Morreu, sem descendência, na sua quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, (Santarém) em 18 de Setembro de 1877, onde se tornara agricultor e produtor do famoso "Azeite Herculano". Encontra-se sepultado no Mosteiro dos Jerónimos transladado para aí em 6 de Novembro de 19786 .

Carreira política e profissional
Em termos políticos, Herculano identifica-se com a ala esquerda do Partido Cartista, liberal, mas no entanto não aceita as ideias socialistas, democrático-republicanas e iberistas.
Com apenas 21 anos, participará, em circunstâncias nunca inteiramente esclarecidas, na revolta de 21 de Agosto de 1831 do Regimento n.° 4 de Infantaria de Lisboa contra o governo miguelista, de D. Miguel I, o que o obrigará, após o fracasso daquela revolta militar, a refugiar-se num navio francês fundeado no Tejo, nele passando à Inglaterra e, posteriormente, à França (Rennes), indo depois juntar-se ao exército Liberal de D. Pedro IV, na Ilha Terceira (Açores). Alistado como soldado no Regimento dos Voluntários da Rainha, como Garrett, é um dos 7.500 "Bravos do Mindelo", assim designados por terem integrado a expedição militar comandada por D. Pedro IV que desembarcou, em 8 de Julho de 1832, na praia do Mindelo (na verdade, um pouco mais a sul, na praia de Arnosa de Pampelido, um pouco a Norte do Porto - hoje "praia da Memória"), a fim de cercar e tomar a cidade do Porto (ver Desembarque do Mindelo e Cerco do Porto). Como soldado, participou em acções de elevado risco e mérito militar.
Iniciado na maçonaria em data e local desconhecidos, porventura durante o exílio em Inglaterra, ou antes, cedo a abandonou.
Nomeado por D. Pedro IV como segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto, aí permaneceu até ter sido convidado a dirigir a revista O Panorama (1837-1868), de Lisboa, revista de caráter artístico e científico de que era proprietária a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, patrocinada pela própria rainha D. Maria II, de que foi redactor principal de 1837 a 1839. Em 1842 retomou o papel de redactor principal e publicou o Eurico o Presbítero, obra maior do romance histórico em Portugal no século XIX. Também se encontra colaboração da sua autoria no Jornal da Sociedade dos Amigos das Letras (1836) e em diversas revistas, nomeadamente na Revista Universal Lisbonense (1841-1859), A illustração luso-brasileira (1856-1859), A semana de Lisboa (1893-1895) e A Leitura (1894-1896).
Ao construir uma das obras mais notáveis de Alexandre Herculano é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume é publicado em 1846. Obra que introduz a historiografia científica em Portugal, não podia deixar de levantar enorme polémica, sobretudo com os sectores mais conservadores, encabeçados pelo clero. Atacado pelo clero por não ter admitido como verdade histórica o célebre Milagre de Ourique – segundo o qual Cristo aparecera ao rei Afonso Henriques naquela batalha -, Herculano acaba por vir a terreiro em defesa da verdade científica da sua obra, desferindo implacáveis golpes sobre o clero ultramontano, sobretudo nos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba. O prestígio que a História de Portugal lhe granjeara leva a Academia das Ciências de Lisboa a nomeá-lo seu sócio efectivo (1852) e a encarregá-lo do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica (recolha de documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), projecto que empreende em 1853 e 1854, e que começarão a ser publicados em 1856.
Herculano permanecerá fiel aos seus ideais políticos e à Carta Constitucional, que o impedira de aderir ao Setembrismo. Apesar de estreitamente ligado aos círculos do novo poder Liberal (foi deputado às Cortes e preceptor do futuro Rei D. Pedro V), recusou fazer parte do primeiro Governo da Regeneração, chefiado pelo Duque de Saldanha. Recusou honrarias e condecorações e, a par da sua obra literária e científica, de que nunca se afastou inteiramente, preferiu retirar-se progressivamente para um exílio que tinha tanto de vocação como de desilusão. Numa carta a Almeida Garrett confessara ser seu mais íntimo desejo ver-se entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga. Ainda desempenhando o cargo de Presidente da Câmara de Belém (1854 a 1855), cargo que abandona rapidamente.
Retomando forças foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856.
No ano seguinte, seguindo o mesmo propósito anti-clerical demonstrado no seu livro de história de Portugal, ataca vigorosamente a Concordata com a Santa Sé.
A 31 de Dezembro de 1858 preside a um comício anti-clerical.
Participa na redacção do primeiro Código Civil Português (1860-1865), tendo proposto a introdução do casamento civil a par do religioso, o que originou uma nova polémica com o clero.
Quando se começou a fazer muito eco na imprensa e política portuguesa para promover o iberismo, em 1861, foi criada a Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640 contra essa vontade e, entre outros nomes, que constam dela é o nosso Herculano que imediatamente a ela se uniu nesse ideal de raiz patriótica.
Em 1867, após o seu casamento com D. Mariana Meira, retira-se definitivamente para a sua quinta de Vale de Lobos (Azoia de Baixo, Santarém) para se dedicar (quase) inteiramente à agricultura e a uma vida de recolhimento espiritual - ancorado no porto tranquilo e feliz do silêncio e da tranquilidade, como escreverá na advertência prévia ao primeiro volume dos Opúsculos. Em Vale de Lobos, Herculano exerce um autêntico magistério moral sobre o País. Na verdade, este homem frágil e pequeno, mas dono de uma energia e de um carácter inquebrantáveis era um exemplo de fidelidade a ideais e a valores que contrastavam com o pântano da vida pública portuguesa. Isto dá vontade de morrer!, exclamara ele, decepcionado pelo espectáculo torpe da vida pública portuguesa, que todos os seus ideais vilipendiara. Aquando da segunda viagem do Imperador do Brasil a Portugal, em 1867, Herculano entendeu retribuir, em Lisboa, a visita que o monarca lhe fizera em Vale de Lobos, mas devido à sua débil saúde contraiu uma pneumonia de que viria a falecer, em Vale de Lobos, em 13 de Setembro de 1877.

A obra
Herculano deixou ensaios sobre diversas questões polémicas da época, que se somam à sua intensa actividade jornalística.
Herculano foi o responsável pela introdução e pelo desenvolvimento da narrativa histórica em Portugal.
Juntamente com Almeida Garrett, é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal, desenvolvendo os temas da incompatibilidade do homem com o meio social.
Como historiador, publicou História de Portugal de Alexandre Herculano, em quatro volumes, e História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, e organizou Portugaliae Monumenta Historica (coleção de documentos valiosos recolhidos de cartórios conventuais do país).
A parte mais significativa da obra literária de Herculano concentra-se em seis textos em prosa, dedicados principalmente ao género conhecido como narrativa histórica. Esse tipo de narrativa combina a erudição do historiador, necessária para a minuciosa reconstituição de ambientes e costumes de épocas passadas, com a imaginação do literato, que cria ou amplia tramas para compor seus enredos. Dessa forma, o autor situa ação num tempo passado, procurando reconstituir uma época. Para isso, contribuem descrições pormenorizadas de quadros antigos, como festas religiosas, indumentárias, ambientes e aposentos, topografias de cidades. São frequentes as intervenções do narrador, que tece comentários filosóficos, sociais ou políticos, muitas vezes relacionando o passado narrado com o quotidiano do século XIX.
A narrativa de caráter histórico foi desenvolvida inicialmente por Walter Scott (1771-1832), poeta e novelista escocês que escreveu A Balada do Último Menestrel e Ivanhoé, entre outros trabalhos. Também o francês Vitor Hugo (1802-1885) serviu de modelo a Herculano: Hugo escreveu o romance histórico Nossa Senhora de Paris, em que surge Quasimodo, o famoso “Corcunda de Notre-Dame”. A partir desses modelos, desenvolveu-se a narrativa histórica de Herculano, que pode ser considerada o ponto inicial para o desenvolvimento da prosa de ficção moderna em Portugal.
As Lendas e Narrativas são formadas por textos mais ou menos curtos, que se podem considerar contos e novelas. Herculano abordou vários períodos da historia da Península Ibérica. É evidente a preferência do autor pela Idade Média, época em que, segundo ele, se encontravam as raízes da nacionalidade portuguesa.
O trabalho literário de Herculano foi, juntamente com as Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, o ponto inicial para o desenvolvimento da prosa de ficção moderna em Portugal. A partir disto, as narrativas históricas foram focando épocas cada vez mais próximas do século XIX.
Deixou ainda alguma poesia, romances não históricos e peças de teatro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em 2003, Saramago perguntava sobre Portugal

Imaginar hoje o que Saramago se fosse vivo, poderia pensar sobre estes dias de Portugal.
Imaginar o seu pensamento, é recuar no tempo e procurar as suas perguntas, as suas questões.
Em 2003, perguntava "Onde está uma ideia de futuro para Portugal?"
Em 2014, estamos no futuro próximo, vivido, para responder à Saramago.
Cada vez mais, a ideia, o pensamento, o elementar princípio da ideia unificadora de Portugal - Não existe.



em, Revista Visão
José Carlos de Vasconcelos
16/01/2003

(...) Estávamos (com Mário Saramago) na sala a conversar sobre tudo isto e perguntei-lhe se tinha a certeza de que Portugal daqui a 50 anos ainda existiria - e ele disse-me que não...

Por passar a estar integrado nos Estados Unidos da Europa?
Porque não temos um projecto de País, um futuro próprio. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. Não há um querer próprio, as pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto! Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência e nada por trás.
Onde estão as ideias? 
Onde está uma ideia de futuro para Portugal? 
Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa?
Parece que ninguém quer pensar nisto, os governos todos navegam à vista da costa. Falta ousar ir mais além. (...)

Carlos Vaz Marques entrevista Saramago - TSF "Pessoal... e Transmissível" - 03/11/2008

Via TSF
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?audio_id=1037821&content_id=917512

Programa:
Pessoal... e Transmissível

Autor:
Carlos Vaz Marques


Info via TSF
"Considera Barack Obama uma revolução na política americana. Poucos dias antes de ser posto à venda o novo livro de José Saramago, A Viagem do Elefante, o prémio Nobel português é o convidado de Carlos Vaz Marques."

3 de Novembro de 2008



Revista "Contraste" - Clara Ferreira Alves entrevista Saramago em Junho de 1986

Segundo consegui apurar, esta entrevista não está completa.
Procuro obter mais dados e elementos que completem esta inserção.

Aqui, o link: 


"Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!"

Citador #3 - Romancista Histórico! Sim ou não?

José Saramago, recusava rótulos, e este o de romancista histórico, era rapidamente afastado.
Aqui fica um pequeno exercício filosófico sobre esta temática.






(...) "Trata-se do rótulo gasto de que sou um romancista histórico, o que se confirmaria tanto por alguns livros que escrevi como pela minha relação com o tempo e posição perante a história. (...)
Imaginemos por um momento que estamos numa praia: o mar está ali, e continuamente aproxima-se em ondas sucessivas que chegam à costa. Pois bem, essas ondas, que avançam e não poderiam mover-se sem o mar que está por detrás delas, trazem uma pequena franja de espuma que avança em direcção à praia onde vão acabar. Penso, continuando a usar esta metáfora marítima, que somos nós a espuma que é transportada nessa onda, essa onda é impelida pelo mar que é o tempo, todo o tempo que ficou atrás, todo o tempo vivido que nos leva e empurra. (...)
E a história, onde fica? Sem dúvida a história preocupa-me, embora seja mais certo dizer que o que realmente me preocupa é o Passado, e sobretudo o destino da onda que se quebra na praia, a humanidade empurrada pelo tempo e que ao tempo regressa, levando consigo, no refluxo, uma partitura, um quadro, um livro ou uma revolução. Por isso prefiro falar mais de vida do que de literatura, sem esquecer que a literatura está na vida e que sempre teremos perante nós a ambição de fazer da literatura vida." (...)

em, "A Estátua e a Pedra"
Fundação José Saramago

Filme baseado na obra de José Saramago "A Jangada de Pedra"


Aqui via Fundação José Saramago, http://www.josesaramago.org/jangada-de-pedra-1986/

1986, «Em “A Jangada de Pedra” (…) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)


Filme baseado na obra "A Jangada de Pedra"



Omar Variño programa "Contracorriente" entrevista José Saramago


Entrevista realizada por Omar Variño - Programa "Contracorriente" - Cuba

Palestra Grande Teatro do Palácio das Artes - Belo Horizonte - Brasil




Programa especial em homenagem aos 90 anos de José Saramago. Palestra gravada em Belo Horizonte, em maio de 1999, no Grande Teatro do Palácio das Artes. 

domingo, 9 de novembro de 2014

José Saramago – É preciso recomeçar a viagem. Sempre. / Jornal Avante

Espaço dedicado a José Saramago na Festa do Avante - PCP

Análise que pode ser aqui consultada


José Saramago – É preciso recomeçar a viagem. Sempre.
«-Vivemos entre os homens, ajudemos os homens. – E que faz o senhor para isso? – Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora.» In Claraboia1 

No mês em que se cumprem, e assinalam, 4 anos da morte de José Saramago; no mês em que se estreia mais um filme baseado na sua obra, O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, relembremos neste espaço alguns tópicos da obra do escritor, um dos maiores e mais fecundos autores da nossa Literatura, obra que, justamente, mereceu reconhecimento internacional e recebeu o maior prémio que é possível atribuir a uma Literatura, a uma Língua, a um Autor: o Prémio Nobel.

Saramago não é autor de fácil abordagem. Que o digam Maria Odete Santos Jubilado, Maria Alzira Seixo, Teresa Cristina Cerdeira da Silva, Clara Ferreira Alves, Maria Lúcia Lepecki, Helena Kaufman, Leyla Perrone-Moisés, Eula Pinheiro, Carlos Reis, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Dacosta, Harold Bloom, António José Borges, Baptista Bastos, Fernando Venâncio, só para referir alguns dos autores que se meteram em trabalhos sobre os códigos de uma escrita que rescreve os modos da abordagem romanesca, ao mesmo tempo que reinventa a própria linguagem em que esses códigos se plasmam – e julgo que o terão encetado com renovado prazer, dado não se haverem limitado aos estudos iniciais e terem, de forma recorrente, regressado ao «local do crime», ou seja, a esse vasto repositório das suas especulações ensaísticas. Há anos, numa homenagem a José Saramago realizada na festa do L´Humanité, assinalando a edição francesa de Levantado do Chão, homenagem em que tive a honra de participar, faziam-me uma pertinente pergunta: porquê, tantos e tão diversos autores, haviam percorrido os signos de uma escrita, a um tempo real e fantástica, do universo ficcional saramaguiano? Sem dados disponíveis, como agora, saiu-me de jorro uma, provavelmente, pouco científica resposta: esse facto deve-se, por certo, ao fluxo narrativo do autor, a esse estranho modo de contar, a uma fala que é moderna e clássica, sedutora e racional, inquietante e irónica, poética e sagaz, e a nossa cartesiana postura, perante o humano que a estrutura, nos convocar para abordagens diversas sobre tão complexo discurso na ânsia, vã, por certo, de plenamente a descodificar.

Partindo da obra romanesca de José Saramago – a que podemos considerar dentro de um universo temático que estrutura uma reflexão demorada e estimulante, e profusamente informada, quer na forma quer na abordagem, sobre esse estranho e equívoco desígnio do ser português, ou seja, da singularidade histórica e cultural das gentes que, desde o século XII, habitam este rectângulo ibérico, e que na diversidade temporal que a obra de Saramago reflecte, inclui títulos que vão de Manual de Pintura e Caligrafia até A História do Cerco de Lisboa, considerando-se assim, em definição conjuntural, como a 1.ª fase da sua obra ficcional; a que se debruça sobre a ficcionalidade do real, mesmo quando o mágico a invade, e do histórico: Levantado do Chão, Viagem a Portugal, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e História do Cerco de Lisboa – recorrência a que Saramago só voltará, com rasante ironia, num dos seus títulos finais, A Viagem do Elefante e, já após a sua morte, com esse notabilíssimo romance que é Claraboia, tantos anos guardado e que nos mostra um autor que, aos 31 anos possuía já uma escrita seguríssima, uma capacidade de análise e de descrição invulgares. Neste romance o jovem Saramago inscreve, com desarmante clareza (nos métodos da abordagem, na agilização linguística) uma perspectiva lúcida e assertiva sobre o percurso das componentes sincrónicas, hipodiegéticas e intertextuais que estruturam o modo literário, como lhe chamou Maria Alzira Seixo, ou seja, os plurais acervos simbólicos, o poder de representação da natureza humana que configuram o discurso ficcional saramaguiano, cujos se explanarão em plenitude nos textos posteriores. Aos 31 anos, Saramago é já um autor de inegáveis capacidades inventivas, seguro e dextro nos recursos, estilísticos e narrativos, mesmo quando considera, em louvável autocrítica, ser Claraboia um livro também ingénuo, mas que (...) tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser. Nada mais exacto.

E aqui cabe referir, dado que novas edições da sua obra se perfilam nos escaparates, esse estranho objecto literário que é Manual de Pintura e Caligrafia. José Saramago, encena neste livro a utópica ambição, que todo o criador de génio persegue, de explicar, de tornar menos absurdo o volátil existencial, esse magma que nos cola, mente e vísceras, a este cósmico chão – a necessidade de tornar, através da arte, perene o que é efémero e dar algum sentido ao caos. Transportar na pele, nos ossos, esse semental de ideias, de que nos fala Luís Rebelo de Sousa e que este romance, ainda não inteiramente compreendido de Saramago, dado que percorre, com subtileza, alguns dos formulários do nouveau roman, sendo este um texto a um tempo denso, complexo e prospectivo; brilhante exercício que é sobre a linguagem, a arte misturando-se com os referentes memoriais e introspectivos, a desnudar-se num rarefeito autodiegético, num tempo ainda de incertezas mas já de balanço, fim de uma jornada e recomeço – o rigor e o domínios formais que Manual inaugura e se prolongará com uma respiração mais solta em Levantado do Chão, livro que contém já os sinais de uma escrita poderosa, um estilo de reconhecida identidade. É José Saramago que nos dirá numa passagem de Manual, em jeito expositivo, que a sua obra posterior glosará até que esse exercício vocativo se torne um programa, um modo, forma de abordagem do real e do histórico ficcionáveis, ou da realidade transmudada em modo de ficção: sei disto um pouco, porque o aprendi em tempos, porque tenho pintado, porque estou a escrever. Agora mesmo o mundo transforma-se lá fora. Nenhuma imagem o pode fixar: o instante não existe.

É a partir destes sinais, deste modo de inventar utopias, que o universo narrativo de Saramago se estrutura, dissecando os signos, dentro do realismo mágico, até ao osso. É no irónico, nos «sinais da vida» e no profundo humanismo, nessa «competência ideológica» de que nos fala Philipe Hamon, que a ficção de Saramago se definirá, dentro e fora de fronteiras (literárias e ideológicas), rasgando preconceitos e impondo-se como um dos mais geniais criadores literários contemporâneos, tornando universal uma Literatura que parecia condenada a ser periférica.

Na obra singular que nos legou, na sua pluralidade imagética, no humano que a edifica, encontramos o esplendor da linguagem, os significantes perenes que, diversamente, atravessam essa escrita e a tornam rara, absorvente e mágica: o desafio intertextual; a tradição oral; o jogo com as derivantes da sabedoria popular; as componentes metonímicas; a herança prosódica integrando os campos semânticos; o surreal e o fantástico; a certeza, como em Defoe, Rousseau e Yourcenar, de que «toda a verdade é ficção» ou ficcionável; a questão da verdade (a dualidade verdade/histórica vs. verdade/ficcional) – os teoremas de uma escrita poderosa e única, esse gosto/gozo de jogar no cerne das palavras, como acontece na evocação de O Lusíadas num dos seus mais brilhantes e lúcidos textos dramáticos, Que Farei com Este Livro?

Que faremos nós, hoje e aqui, com esse legado único, com esse monumento de palavras que os livros de José Saramago são? Partir com eles numa nova, exaltante viagem, dado que o fim duma viagem é apenas o começo doutra.

Respeitou-se, neste título, a grafia do autor

Domingos Lobo 

Jornal Avante - Edição Nº2117  -  26-6-2014

sábado, 8 de novembro de 2014

Saramago prefacia o livro "Terra" de Sebastião Salgado - 1997

O livro Terra, que foi lançado em 1997, conta com 109 fotografias a preto e branco tiradas por Salgado entre 1980 e 1996. Além do prefácio de Saramago, o trabalho também teve a participação de Chico Buarque, que compôs duas canções inspiradas nas imagens – o livro vinha acompanhado de um CD com quatro músicas do cantor brasileiro. Os direitos autorais da obra foram doados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra).

http://www.josesaramago.org/nos-70-anos-de-sebastiao-salgado/




Via Youtube - Chico Buarque canta para o livro de Sebastião Salgado - 3Terra"

Prefácio de José Saramago
Livro de Sebastião Salgado - "Terra"

"Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a ideia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milénios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.
Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projecto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríferas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar - as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prémio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.
Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de Si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea máxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído. É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia acontecido.
Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas.
Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão. Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça.” E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito.” E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece." E Deus: "Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito.” 
Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite.” Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando às mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas.
No dia 17 de Abril de 1996, no estado brasileiro do Pará, perto de uma povoação chamada Eldorado dos Carajás (Eldorado: como pode ser sarcástico o destino de certas palavras...), 155 soldados da polícia militarizada, armados de espingardas e metralhadoras, abriram fogo contra uma manifestação de camponeses que bloqueavam a estrada em acção de protesto pelo atraso dos procedimentos legais de expropriação de terras, como parte do esboço ou simulacro de uma suposta reforma agrária na qual, entre avanços mínimos e dramáticos recuos, se gastaram já cinquenta anos, sem que alguma vez tivesse sido dada suficiente satisfação aos gravíssimos problemas de subsistência (seria mais rigoroso dizer sobrevivência) dos trabalhadores do campo. Naquele dia, no chão de Eldorado dos Carajás ficaram 19 mortos, além de umas quantas dezenas de pessoas feridas. Passados três meses sobre este sangrento acontecimento, a polícia do estado do Pará, arvorando-se a si mesma em juiz numa causa em que, obviamente, só poderia ser a parte acusada, veio a público declarar inocentes de qualquer culpa os seus 155 soldados, alegando que tinham agido em legítima defesa, e, como se isto lhe parecesse pouco, reclamou processamento judicial contra três dos camponeses, por desacato, lesões e detenção ilegal de armas.
O arsenal bélico dos manifestantes era constituído por três pistolas, pedras e instrumentos de lavoura mais ou menos manejáveis. Demasiado sabemos que, muito antes da invenção das primeiras armas de fogo, já as pedras, as foices e os chuços haviam sido considerados ilegais nas mãos daqueles que, obrigados pela necessidade a reclamar pão para comer e terra para trabalhar, encontraram pela frente a polícia militarizada do tempo, armada de espadas, lanças e alabardas. Ao contrário do que geralmente se pretende fazer acreditar, não há nada mais fácil de compreender que a história do mundo, que muita gente ilustrada ainda teima em afirmar ser complicada demais para o entendimento rude do povo.
Pelas três horas da madrugada do dia 9 de Agosto de 1995, em Corumbiara, no estado de Rondônia, 600 famílias de camponeses sem terra, que se encontravam acampadas na Fazenda Santa Elina, foram atacadas por tropas da polícia militarizada. Durante o cerco, que durou todo o resto da noite, os camponeses resistiram com espingardas de caça. Quando amanheceu, a polícia, fardada e encapuçada, de cara pintada de preto, e com o apoio de grupos de assassinos profissionais a soldo de um latifundiário da região, invadiu o acampamento. Varrendo-o a tiro, derrubando e incendiando as barracas onde os sem-terra viviam. Foram mortos 10 camponeses, entre eles uma menina de 7 anos, atingida pelas costas quando fugia. Dois polícias morreram também na luta.
A superfície do Brasil, incluindo lagos, rios e montanhas, é de 850 milhões de hectares. Mais ou menos metade desta superfície, uns 400 milhões de hectares, é geralmente considerada apropriada ao uso e ao desenvolvimento agrícolas. Ora, atualmente, apenas 60 milhões desses hectares estão a ser utilizados na cultura regular de grãos. O restante, salvo as áreas que têm vindo a ser ocupadas por explorações de pecuária extensiva (que, ao contrário do que um primeiro e apressado exame possa levar a pensar, significam, na realidade, um aproveitamento insuficiente da terra), encontra-se em estado de improdutividade, de abandono, sem fruto.
Povoando dramaticamente esta paisagem e esta realidade social e económica, vagando entre o sonho e o desespero, existem 4 800 000 famílias de rurais sem terras. A terra está ali, diante dos olhos e dos braços, uma imensa metade de um país imenso, mas aquela gente (quantas pessoas ao todo? 15 milhões? mais ainda?) não pode lá entrar para trabalhar, para viver com a dignidade simples que só o trabalho pode conferir, porque os voracíssimos descendentes daqueles homens que primeiro haviam dito: “Esta terra é minha”, e encontraram semelhantes seus bastante ingénuos para acreditar que era 
suficiente tê-lo dito, esses rodearam a terra de leis que os protegem, de polícias que os guardam, de governos que os representam e defendem, de pistoleiros pagos para matar. Os 19 mortos de Eldorado dos Carajás e os 10 de Corumbiara foram apenas à última gota de sangue do longo calvário que tem sido a perseguição sofrida pelos trabalhadores do campo, uma perseguição contínua, sistemática, desapiedada, que, só entre 1964 e 1995, causou 1 635 vítimas mortais, cobrindo de luto a miséria dos camponeses de todos os estados do Brasil. com mais evidência para Bahia, Maranhão. Mato Grosso, Pará e Pernambuco, que contam só eles, mais de mil assassinados.
E a Reforma Agrária, a reforma da terra brasileira aproveitável, em laboriosa e acidentada gestação, alternando as esperanças e os desânimos, desde que a Constituição de 1946, na sequência do movimento de redemocratização que varreu o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, acolheu o preceito do interesse social como fundamento para a desapropriação de terras? Em que ponto se encontra hoje essa maravilha humanitária que haveria de assombrar o mundo, essa obra de taumaturgos tantas vezes prometida, essa bandeira de eleições, essa negaça de votos, esse engano de desesperados? Sem ir mais longe que as quatro últimas presidências da República, será suficiente relembrar que o presidente José Sarney prometeu assentar 1.400.000 famílias de trabalhadores rurais e que, decorridos os cinco anos do seu mandato, nem sequer 140.000 tinham sido instaladas; será suficiente recordar que o presidente Fernando Collor de Mello fez a promessa de assentar 500.000 famílias, e nem uma só o foi; será suficiente lembrar que o presidente Itamar Franco garantiu que faria assentar 100.000 famílias, e só ficou por 20.000; será suficiente dizer, enfim, que o actual presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu que a Reforma Agrária irá contemplar 280.000 famílias em quatro anos, o que significará, se tão modesto objectivo for cumprido e o mesmo programa se repetir no futuro, que irão ser necessários, segundo uma operação aritmética elementar, setenta anos para assentar os quase 5.000.000 de famílias de trabalhadores rurais que precisam de terra e não a têm, terra que para eles é condição de vida, vida que já não poderá esperar mais. Entretanto, a polícia absolve-se a si mesma e condena aqueles a quem assassinou.
O Cristo do Corcovado desapareceu, levou-o Deus quando se retirou para a eternidade, porque não tinha servido de nada pô-lo ali. Agora, no lugar dele, fala-se em colocar quatro enormes painéis virados às quatro direcções do Brasil e do mundo, e todos em grandes letras, dizendo o mesmo: 
UM DIREITO QUE RESPEITE, UMA JUSTIÇA QUE CUMPRA.

JOSÉ SARAMAGO - 1997"

Aqui também para consulta, no portal do MPT 
http://www.mst.org.br/node/10125