Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Da militância comunista, do PCP, do comunismo

Ao longo da obra de João Céu e Silva, «Uma longa viagem com José Saramago», é abordada a temática que envolve a militância comunista, quer pela prática, junto do PCP, quer pela teoria, isto no seu pensamento implícito e explícito no seu compêndio literário produzido.



O antes... Saramago explica a João Céu e Silva

(...) Antes do 25 de Abril era militante do Partido Comunista Português desde 1969 e tinha a actividade normal daqueles tempos. Eu nunca passei para a clandestinidade porque não foi necessário, fiz aquilo que tinha que fazer, distribuir papéis, elaborar documentos, enfim, o comum e o normal da época. (...)

Se não tivesse acontecido o 25 de Abril, quatro dias depois seria preso!
Sim, a 29 de Abril estava determinado que eu seria preso. E a coisa acaba assim porque a partir daí já não tive mais patrão. 

Páginas 46 e 47
Edição Porto Editora

A menção da prisão, aparece também mencionada, na entrevista com Fernanda Eberstadt (New York Times) em que diz: "Eu tive sorte. Eu nunca fui preso. Muitas vezes isso poderia ter acontecido, mas os meus camaradas presos tiveram a coragem e a dignidade de não me denunciarem"

O seu posicionamento político e ideologia dificultam o chegar aos leitores ou, pelo contrário, tem facilitado?
Não sei, mas aí entram vário factores. Claro que eu penso aquilo que penso e sou aquilo que sou e do ponto de vista político, ideológico e filosófico isso está muito claro nos meus livros. Mas sem que eu tivesse de preocupar-me com frase de Engels - e o Engels não era qualquer pessoa! - há uma carta em que ele responde a uma jovem escritora que lhe pedia conselhos e em que diz: «Quanto menos se notar a ideologia melhor». Essa frase podia-me ser aplicada. Grande parte dos escritores politicamente empenhados nas ideias socialistas e comunistas, ou coisa que o valha, não leram esta frase ou se a leram não lhe deram importância nenhuma e em muitos casos, designadamente no chamado realismo socialista - onde também há grandes obras -. a ideologia nota-se de uma forma e quantidade que não é necessária.

É muito transparente?
É demasiado óbvio. E é tão óbvio que dá vontade de dizer: «Não faças isso. Não digas. Sugere.» A questão tem de estar lá, no poder de sugestão que a história tenha, que permita ao leitor ir mais além do que aquilo que parece estar dito, porque naquilo que está escrito há implícito uma quantidade de coisas a que o leitor, que é inteligente, é capaz de chegar por sua própria conta. (...)

Página 53
Edição Porto Editora

Luís Cília canta poema de José Saramago em 1967 - «Contracanto»



Aqui o link do blog, em
http://samuel-cantigueiro.blogspot.pt/2010/06/jose-saramago-luis-cilia-contracanto.html

"Estávamos em 1968. Luís Cília, o grande divulgador da poesia portuguesa, mostrava-nos em disco (“La poesie portugaise de nos jours et de toujours – 1, de 1967)” e aqui, num programa da TV francesa, este “Contracanto”, escrito por um autor pouco conhecido."

Contracanto

Aqui longe do sol que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei

Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem das mós

Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.

(José Saramago)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Citador #7 - a desumanização do homem, a imposição da crueldade, a bestialidade

Citador #7
A desumanização do homem, a imposição da crueldade, a bestialidade



em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Página 34

" Não somos capazes de reconhecer que foi o ser humano quem inventou algo tão alheio à natureza como a crueldade. Nenhum animal é cruel, nenhum animal tortura outro animal. Têm de seguir as leis impostas pela vontade de sobreviver, mas torturar e humilhar os seus semelhantes são invenções da razão humana."

O feminino no universo de Saramago, pelas suas palavras



(imagem alusiva à personagem Blimunda, do "Memorial do Convento, alimentando-se e assim evitando, "ver por dentro" de Baltasar)


(...) O personagem central da história é outra vez uma mulher. Suponho que às minhas leitoras lhes agradará que isto seja uma constante, porque verdadeiramente, como personagens, quem sempre salva os meus livros são as mulheres. Não é que os homens não sejam pessoas boas, que o são e podem sê-lo, mas ao lado delas aparecem sempre como pequenos aprendizes. Quero clarificar algo que já assinalei antes, a propósito do facto de não se encontrarem heróis nos meus romances, apenas gente normal, que vive vidas normais, embora no caso de Baltasar e Blimunda eles assistam com naturalidade a certos prodígios. Reflicto e escrevo sobre pessoas comuns porque essa é a gente que conheço. É provável que as mulheres que invento não existam, talvez não sejam mais do que projectos, talvez me seja mais fácil imaginar um projecto de mulher que um projecto de homem. Em qualquer caso, e para não fugir à questão, acrescentarei o facto de ter sido criado por mulheres, de viver e crescer sempre entre mulheres, pressupôs, em definitivo, ter aprendido com elas o que efectivamente é benéfico, não no sentido utilitário, mas em profundidade e humanismo. Devo isto às mulheres e, por isso, assim fica reflectido nos meus livros. (...)

em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Página 35

Citador #6 - Marçal Gacho e o seu uniforme de guarda do Centro



Citador #6
«A Caverna»
Caminho
Página 14

(...) "Conhecesse-a Marçal Gacho, que talvez fizesse valer perante o sogro o peso da autoridade que a farda lhe conferia, conhecesse-a Cipriano Algor, que talvez passasse a falar ao genro com menos irónica condescendência. É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe." (...)


(desenho de homens escravizados)

Pinacoteca Nacional de Bolonha onde Saramago recolhe material para "O Evangelho segundo Jesus Cristo"

(...) O "Evangelho segundo Jesus Cristo", dizia, é o romance que gerou mais polémica e é a causa de ter mudado a minha residência de Lisboa para Lanzarote, em Espanha. É um livro que não projectei, porque jamais me havia passado pela cabeça escrever uma vida de Jesus, havendo tantas e sendo tão diferentes as interpretações que dessa vida se fizeram, destrutivas por vezes, ou, pelo contrário, obedecendo às imposições restritivas do dogma e da tradição." (...)



Atente-se, nestas anteriores palavras. Refere abertamente que a sua vida sofreu perturbações e mudanças após a publicação da obra (que o leva a deixar a vida normal e fixa em Lisboa, passando a habitar em Lanzarote), ao mesmo tempo que recorda a sua prévia reticência em abraçar a idealização e esquematização da sua interpretação da vida de Jesus.
Esta reticência, e porque ao tocar nela, com uma visão não alinhada, não seguidista, abalroando os dogmas e evidenciando o seu cepticismo perante a interpretação das diversas "escrituras", Saramago, comprou uma guerra.
É minha interpretação, que José Saramago teria a convicção de que a "Igreja", enquanto organização o ignoraria, desprezaria-o, ao mesmo tempo que alguns sectores mais radicais, quais defensores e cruzados, lançariam umas "alfinetadas" aqui e ali. A este propósito confidencia a José Carlos de Vasconcelos, que o livro é capaz de dar um editorial na Rádio Renascença.
Mas, talvez tenha sido apanhado de surpresa, ou não estivesse preparado para uma agressão e censura, perpetrada pelas mais altas figuras do "Estado" português.
Este "Estado" de origem Republicana e Laica, assumia ao mais alto nível que o "Evangelho segundo Jesus Cristo" seria um livro blasfemo, censurável pela sua visão desalinhada com o Vaticano e "bispos" de Lisboa. 
A história e repercussão que a mesma teve, é por demais conhecida, e Saramago refere que depois de muito se discutir esta questão... tudo ficaria na mesma. 
Ouso pensar, que pela sua cabeça, deverão ter ressoado estas palavras: «É tempo de dizer, um até já e fiquem a falar sozinhos...»
Prossegue.



(...) "Simplesmente, o homem põe e a circunstância dispõe e aqui está o que me impeliu a uma tarefa cuja complexidade ainda hoje me assusta: Estava em Sevilha, ia ao encontro de Pilar, minha mulher, e, atravessando a Praça da Campana em direcção à Rua Sierpes, li, ao longe num quiosque de jornais que mais tarde vim a saber era conhecido como o Quiosque de Curro, entre a confusão de jornais e revistas expostos numa lateral, e escrito num português do mais nítido que possa ver-se, estas palavras: «O Evangelho segundo Jesus Cristo». Olhei e segui em frente, atravessei a rua, e dez metros mais à frente, Rua Sierpes adentro, detive-me e disse a mim próprio que aquilo não era possível, que tal coisa não podia existir, de modo que voltei atrás para acabar por comprovar que nem em português, nem em espanhol, nem em italiano, nem em nenhuma outra língua do mundo estava a palavra «Evangelho», nem a palavra «Jesus», nem a palavra «Cristo» (...)
(...) Durante cerca de um ano andei com aquele pressentimento de livro, sentia que deveria ser o seguinte trabalho mas não encontrava a ponta do fio por onde lhe poderia pegar. E aconteceu que, passados meses, fui a Itália e na Pinacoteca de Bolonha, entrando na segunda ou na terceira sala à esquerda, de repente vi todos os pontos de apoio de que precisava para escrever o livro. Depois foi o tempo do trabalho, e o romance está aí e por aí circula.
Com este livro terminou a "estátua". A partir de "O Evangelho segundo Jesus Cristo", e isto sei-o agora que o tempo passou, começou outro período da minha vida de escritor. (...)
(...) Quando terminei "O Evangelho" ainda não sabia que até então tinha andado a escrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com o "Ensaio sobre a Cegueira". Percebi, então, que alguma coisa tinha terminado na minha vida de escritor e que algo diferente estava a começar. (...)

em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Páginas 32 a 34


Brilhante menção à Pinacoteca Nazionale di Bologna, aqui o site em http://www.pinacotecabologna.beniculturali.it/, onde José Saramago, descobriu as diversas fontes para que pudesse pegar nas pontas do seu projecto.

"La Pinacoteca  
La Pinacoteca Nazionale di Bologna ha sede nella zona universitaria, nello stesso edificio storico che ospita l’Accademia di Belle Arti e la Soprintendenza per il Patrimonio Storico Artistico ed Etnoantropologico di Bologna, così da costituire un complesso dove si fondono esposizione, tutela, conservazione e studio del patrimonio storico artistico cittadino e regionale.
Con le sue trenta sale espositive, ed uno spazio adibito esclusivamente alle mostre temporanee ed alla attività didattica, la Pinacoteca, rinnovata ed adeguata agli standard europei, è oggi da annoverare tra le più moderne ed importanti Gallerie nazionali conosciute ed apprezzate all’estero.
Il suo patrimonio si è arricchito negli anni con nuove acquisizioni statali, lasciti e donazioni di privati che hanno completato il già vasto percorso artistico dell’arte emiliana che va dal XIII all’ inizio del XIX secolo."



"Ensaio sobre a Cegueira, Um Requiem pela Humanidade" de Jorge Salgueiro

(...) "Ensaio sobre a Cegueira" é a história de uma cegueira fulminante que ataca os habitantes de uma cidade. Poderia tratar-se de uma epidemia, de uma praga, isso não está explicado no livro nem importa, a única coisa que se diz é que a gente perde a visão. (...)
(...) Mas o autor crê que já estamos cegos com os olhos que temos, que não é necessário que nenhuma epidemia de cegueira venha a assolar a humanidade." (...)

em, "A Estátua e a Pedra
Fundação José Saramago
Páginas 34

(...) "O cão das lágrimas esgueirou-se pela escada 
acima, roçou como um sopro as saias da velha, que nem 
se apercebeu do perigo que acabara de passar por ela, e 
foi pôr-se ao lado da mulher do médico, donde anunciou 
aos ares a proeza cometida. A velha do primeiro andar, 
ouvindo ladrar com tamanha ferocidade, temeu, mas 
sabemos quão demasiado tarde, pela segurança da sua 
despensa, e gritou esticando o pescoço para cima, Esse 
cão tem de estar preso, não vá matar-me aí alguma 
galinha, Fique descansada, respondeu a mulher do 
médico, o cão não tem fome, já comeu, e nós vamo-nos 
embora agora mesmo, Agora, repetiu a velha, e houve na 
sua voz um quebramento como de pena, era como se 
estivesse a querer ser entendida de um modo muito 
diferente, por exemplo Vão-me deixar aqui sozinha, 
porém não pronunciou uma palavra mais, só aquele 
Agora que nem pedia resposta, os duros de coração 
também têm os seus desgostos, o desta mulher foi tal que 
depois não quis abrir a porta para despedir-se dos
desagradecidos a quem tinha dado passagem franca pela 
sua casa. Ouviu-os descer a escada, falavam uns com os 
outros, diziam, Cuidado, não tropeces, Põe a mão no meu 
ombro, Segura-te ao corrimão, são palavras de sempre, 
mas agora mais comuns neste mundo de cegos, o que lhe 
pareceu estranho foi ouvir uma das mulheres dizer, Aqui 
está tão escuro que não consigo ver, que a cegueira desta 
mulher não fosse branca já era, só por si, surpreendente, 
mas que ela não pudesse ver por estar escuro, que 
poderia isto significar. (...) 
Excerto do "Ensaio sobre a Cegueira"



Título: Ensaio sobre a Cegueira
Obra: Ensaio sobre a Cegueira
Compositor: Jorge Salgueiro
Intérprete Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música
Registo Áudio
Título Ensaio sobre a Cegueira
Tipo de Registo Áudio Música
Tipo de Suporte CD
Faixas 1-22
Número de Pistas 2
Duração 00:76:00
Intérpretes da Gravação Sara Belo (soprano), Sílvia Filipe (mezzo-soprano), Inês Homem de Melo Marques (voz de criança) Coros do Círculo Portuense de Ópera Orquestra Nacional do Porto Jorge Salgueiro (direcção)



José Saramago e as suas palavras repletas de musicalidade e melodia...

Descobri uma brilhantíssima inserção de um post no blogue "Nossa Rádio", datado de 22 de Junho de 2010, por Álvaro Ferreira, abordando uma compilação de poemas de José Saramago, musicados por alguns artistas. 
A lista é riquíssima e vasta, merece a exploração e audição destas referências.
Como base de trabalho exploratório, aqui reproduzo as palavras e conhecimentos de Álvaro Ferreira. 


Publicado no Blogue " A Nossa Rádio... Ouvintes com Opinião"

Link do blogue, em http://nossaradio.blogspot.pt/

Link do post, em http://nossaradio.blogspot.pt/2010/06/jose-saramago-na-musica-portuguesa.html

"Muito antes do compositor italiano Azio Corghi (*), se ter debruçado sobre a produção romanesca e teatral de José Saramago, já a obra poética do autor – que compreende os livros "Os Poemas Possíveis" (Portugália, 1966), "Provavelmente Alegria" (Livros Horizonte, 1970) e "O Ano de 1993" (Futura, 1975) – merecera a atenção de grandes compositores e intérpretes portugueses. Luís Cília, durante o exílio em França, foi o primeiro a musicar e a cantar a poesia de Saramago, na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (1967, 1969 e 1971), portanto, cerca de três décadas antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Seguiu-se Manuel Freire, com os poemas "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (1971), "Ouvindo Beethoven" (1973) e "Dia Não" (1978), que viriam a ser regravados com novos arranjos, em 1999, no álbum "As Canções Possíveis". Com os outros nove poemas que completam o alinhamento deste CD, Manuel Freire afirmou-se o mais dedicado intérprete da poesia de José Saramago, e quiçá o que melhor a cantou.
Embora de forma mais avulsa, também Pedro Barroso, Carlos do Carmo, Mísia, Amélia Muge, Fernando Tordo e Marco Oliveira juntaram os seus nomes à galeria dos que deram voz cantada aos versos do grande escritor.
Aqui fica o rol das versões conhecidas, perfazendo as três dezenas, considerando-se as regravações que alguns poemas tiveram. É muito provável que a lista esteja incompleta e, nessa conformidade, os leitores ficam convidados a indicar as eventuais ausências (contacto: ajferreira1974@gmail.com).
A ordem é cronológica e alfabética (no caso de temas pertencentes ao mesmo disco).

1. Contracanto – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967)
2. Dia Não – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
3. Há-de haver – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
4. Não me peçam razões – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
5. Poema à boca fechada – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971)
6. Venham leis – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
7. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in EP "Dulcineia", Zip Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
8. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in EP "Abaixo D. Quixote", Sassetti, 1973; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
9. Dia Não – Manuel Freire (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)
10. Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo – Pedro Barroso (in LP "Água Mole em Pedra Dura", Sassetti, 1978; CD "Cartas a Portugal", Strauss, 2000)
11. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in LP "Mais do Que Amor é Amar", Philips/Polygram, 1986, reed. Philips/Polygram, 1996)
12. Fado Adivinha – Mísia (in CD "Fado", BMG Ariola, 1993)
13. Nenhuma Estrela Caiu – Mísia (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)
14. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira", EMI-VC, 1999)
15. A Ponte – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
16. Circo – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
17. Dia Não – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
18. Dispostos em Cruz – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
19. É Tão Fundo o Silêncio – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
20. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
21. Jogo do Lenço – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
22. Nem Sempre a Mesma Rima – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
23. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
24. Retrato do Poeta Quando Jovem – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
25. Tenho a Alma Queimada – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
26. Tenho um Irmão Siamês – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
27. Se Não Tenho Outra Voz – Amélia Muge (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
28. Fado Adivinha II – Mísia (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/EMI-VC, 2005)
29. Circo – Fernando Tordo (in CD "Tributo a los Laureados Nobel", Factoría Autor, 2005)
30. Retrato do Poeta Quando Jovem – Marco Oliveira (in CD "Retrato", HM Música, 2008)

A estas versões cantadas, acrescentam-se as gravações de poesia dita/recitada. Além dos espécimes presentes em edições discográficas, como é o caso do poema "Circo", recitado por Vítor de Sousa no CD "No Palco da Poesia" (Ovação, 1995, reed. 2000), há que considerar os registos existentes no arquivo sonoro da RDP, na voz de António Cardoso Pinto, Paulo Rato e outros.
Sem prejuízo da transmissão de excertos de entrevistas de José Saramago, era expectável e desejável que a direcção de programas da Antena 1, nos dias em que Portugal se despediu do seu (primeiro e único, até agora) Nobel da Literatura, deitasse mão aos seus poemas – os cantados e os recitados – e os desse a ouvir, se não na íntegra, numa boa parte. Mas não. Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos não tinham conhecimento da existência de tão importante acervo fonográfico? Se não tinham, podiam ter-se dignado perguntar a quem os soubesse informar. Enfim... mais um triste episódio que põe a nu as gritantes deficiências que se vêm verificando no serviço público de radiodifusão.

(*) Azio Corghi compôs as seguintes obras, baseadas em livros/textos de José Saramago: "Blimunda" (1989 - ópera, a partir do romance "Memorial do Convento"); "Divara" (1993 - ópera, a partir da peça "In Nomine Dei"); "La Morte di Lazzaro" (1995 - cantata dramática); "Cruci-Verba" (2001 - para voz recitante e orquestra, a partir do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"); "De Paz e de Guerra" (2002 - cantata para coro e orquestra); "Il Dissoluto Assolto" (2005 - ópera, a partir da peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido").
Em Portugal, Jorge Salgueiro é autor de "Ensaio sobre a Cegueira: um Requiem pela Humanidade" (2004 - ed. Tradisom, 2005), composto para a adaptação dramática do romance "Ensaio sobre a Cegueira", levada à cena pela companhia de teatro "O Bando", em co-produção com o Teatro Nacional de São João (Porto)."

Carlos do Carmo que canta poemas de José Saramago, recebe Grammy Latino de Carreira

Notícia do Jornal I, em 5 de Julho de 2014
Sob o título "Três ex-presidentes deram os parabéns a Carlos do Carmo. Só Cavaco não o fez", mais uma vez, Cavaco Silva, demonstra a incapacidade de homenagear cabalmente e com a solenidade que as distinções merecem e obrigam, os que seguem desalinhados no elogio à suposta figura máxima do "Estado" português.




"Não sinto falta", diz o fadista sobre o silêncio de Belém em relação à distinção que recebeu esta semana
O fadista Carlos do Carmo, galardoado com um Grammy pela sua carreira, diz ao i não ter recebido qualquer mensagem - ainda que privada - de felicitações da parte de Cavaco Silva. Ao contrário do que aconteceu com os três ex-presidentes da República: "Recebi felicitações do general Ramalho Eanes, de Mário Soares e de Jorge Sampaio."
As regras de Belém têm ditado que, quando um português é distinguido com um prémio de relevo, a Presidência emite uma nota de congratulação. Desta vez não aconteceu. Mesmo sabendo que, em 2008 - quando Carlos do Carmo recebeu o Prémio Goya para a melhor canção original -, a Presidência divulgou uma nota de felicitações pela "distinção".
Apesar da insistência do i, a Presidência voltou a não tecer qualquer comentário à atribuição do Grammy ao fadista. Também por isso, Carlos do Carmo diz, sobre a ausência de um cumprimento de Belém: "Tenho de confessar que não sinto falta. O problema não é meu", remata.
Entre o Goya e o Grammy distam seis anos e muitas críticas do fadista a Cavaco Silva. Por exemplo, em 2011, quando Carlos do Carmo o apontou como o responsável número 1 pela situação em que o país se encontrava - passavam então seis meses sobre a assinatura do Memorando.
À Renascença, o fadista disse que "toda a nossa desgraça começou com Cavaco". No ano passado, à SIC Notícias, Cavaco voltava a estar sob o foco de Carlos do Carmo. "Ter este Presidente da República como primeiro- -ministro e como Presidente foi um azar dos Távoras. Este país regrediu muito. É só analisar. Foi mau de mais para ser verdade." Mas os comentários mais negativos estavam ainda para ser feitos. E chegaram em Novembro do ano passado, na Aula Magna. O encontro promovido por Mário Soares ficou marcado por fortes críticas ao chefe de Estado, também de Carlos do Carmo. "Nunca me passou pela cabeça, depois de 40 anos de salazarismo, levar com este homem 20 anos. Um homem que é inseguro, inculto, medroso. E não interpretem isto como uma questão pessoal, não sou dado a questões pessoais", referiu o fadista.



Notícia, via Observador, aqui em 

"O fadista Carlos do Carmo recebe hoje o Grammy Latino de Carreira, no Hollywood MGM Theatre, em Las Vegas, no Nevada, antecedendo a entrega anual dos Grammy Latinos, na quinta-feira.
Além do criador de “Canoas do Tejo”, recebem igualmente um Grammy de Carreira, por “Excelência Musical”, Willy Chirino, César Costa, o Dúo Dinámico, Los Lobos, Valeria Lynch e Ney Matogrosso.
Nesta mesma cerimónia, prevista para as 10:00 locais (18:00, hora continental portuguesa), recebem o Prémio do Conselho Diretivo da Latin Academy of Recording Arts and Sciences (LARAS) os músicos André Midani e Juan Vicente Torrealba.
“O ‘Board of Trustees’ da Latin Academy of Recording Arts and Sciences decidiu, por unanimidade, atribuir a Carlos do Carmo o “‘Lifetime Achievement Award’, galardão que distingue a obra das grandes referências do panorama musical internacional”, segundo comunicado da academia.
Em declarações à Lusa o fadista afirmou: “Num momento de sofrimento como o que o meu povo está a viver, e a minha pátria está a viver, a alegria que possa dar às pessoas, apesar da simplicidade que as coisas têm – isto não lhes mata a fome, nem lhes arranja emprego -, mas que possa dar-lhes uma alegria, já fico muito contente”.
O artista, com uma carreira de 51 anos, disse que esta é uma oportunidade para dar a conhecer outros artistas portugueses que, no futuro, podem vir a ser premiados.
Fazendo uma reflexão da sua carreira, Carlos do Carmo, filho da fadista Lucília do Carmo, afirmou: “Corri sempre em pista própria e não em pista de competição, nunca competi, até porque cantar não é o mesmo que correr. Há sempre gostos. Uns gostam mais de A, outros, de B. Isso não quer dizer que A ou B cantem muito bem ou cantem mal, são os gostos das pessoas”.
A cerimónia anual de entrega dos Grammy Latinos, nas diferentes categorias, realiza-se, na quinta-feira, a partir das 20:00 locais (05:00, de sexta-feira, na hora continental portuguesa)."


Carlos do Carmo - "Aprendamos o Rito"
Poema: José Saramago
Música: Muiguel Ramos


"APRENDAMOS O RITO"

Põe na mesa a toalha adamascada
Traz as rosas mais frescas do jardim
Deita o vinho no copo, corta o pão
Com a faca de prata e de marfim

Alguém veio juntar-se à tua mesa
Alguém a quem não vês mas que pressentes
Cruza as mãos no regaço, não perguntes
Nas perguntas que fazes é que mentes

Prova depois o vinho, come o pão
Rasga a palma da mão no caule agudo
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos
Cumpriste o ritual e sabes tudo. .

Relembrando a activista e resistente Saharaui Aminatou Haidar

Declaração Pública de José Saramago

"O que fez Aminatou Haidar, ao colocar em risco a sua própria vida tem de servir para despertar a comunidade internacional para um problema que já deveria ter sido resolvido há muitos anos", disse José Saramago depois de se encontrar com Aminatou Haidar, no Aeroporto de Lanzarote, onde se encontra extremamente fragilizada.
O Prémio Nobel da Literatura José Saramago pediu, à ONU "que imponha a Marrocos o cumprimento das suas resoluções sobre o Sahara Ocidental".


José Saramago, no Aeroporto de Lanzarote, afirmando pessoalmente a sua solidariedade para com a resistente saharaui, Aminatou Haidar. Na altura estava em greve de fome, depois de lhe ter sido recusada a entrada em Aaiún, capital do Sahara Ocidental ocupado.



Carta aberta, redigida por José Saramago à activista

"Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo.

Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário. Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua terra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possam alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio – quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá. Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem glória, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo… terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar

José Saramago"

Aminatou Haidar (Izquierda) abraza a la periodista y viuda de José Saramago, Pilar del Río, que recogió en Sevilla el Premio a la Solidaridad Juan Antonio González Caraballo, otorgado al escritor portugués.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Utopia ou a realização, pessoal e social, amanhã... já



(...) o conceito "utopia". 
(...) No Fórum Social de Porto Alegre, onde se reúnem todas as utopias do mundo, aparece um senhor para dizer acabemos, de uma vez, com todas as utopias. E tentei demonstrá-lo porque é  muito simples, tão extremamente simples, que quando se explica, e espero que isso aconteça aqui também, uma pessoa perguntar-se por que não o tinha visto antes. (...)
(...) Vou explicar: a utopia é algo que propomos, uma construção mental que enunciamos projectada para o futuro porque temos consciência de que um objectivo que consideramos bom não o poderemos alcançar no tempo em que estamos vivos e, ainda que tenhamos consciência de que não o não podemos conseguir, mantemos a esperança de que venha a poder realizar-se no futuro. (...) Não será para mim, nem para os meus filhos, mas talvez os meus netos possam viver essa utopia.
E todos muito contentes, esquecendo uma coisa tão simples como esta: quem nos diz que o que não podemos ter agora vai ser desejado pelas pessoas do futuro, que passados duzentos anos as pessoas desse tempo vão querer o que nós sonhámos? Por que hão de estar interessadas na minha utopia essas pessoas que nem sequer sei como serão? (...)
(...) Não podemos estar certos de que o ser humano seja, em todos os momentos do futuro, a pessoa que hoje somos. (...) A única utopia viável é a do dia de amanhã, porque ainda estejamos vivos e então, sim, podemos fazer cumprir o que necessitamos hoje. Adiá-lo e adiá-lo no tempo não crio que valha a pena. (...)

em, "Democracia e Universidade"
Conferência Universidade Complutense de Madri
2005
Edição Fundação José Saramago - páginas 35 e 36


(a simbologia da Passarola, Memorial do Convento)


Aqui, em http://caderno.josesaramago.org/3855.html

"Esperanças e utopias"

"Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se neste nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."
29 de Setembro de 2008

"História do Cerco de Lisboa" - e o Paradigma da Verdade Histórica



(...) A "História do Cerco de Lisboa", que não é História nem romance histórico. Sim é, no entanto, um livro onde se questiona aquilo a que chamamos a «verdade histórica». A acção passa-se em dois planos temporais, o século XII e o século XX, e tem como figura principal uma pessoa sem demasiada importância, para não dizer totalmente insignificante, como por outro lado são quase todos os meus personagens: nos meus livros não há heróis, não há gente muito formosa, talvez nem sequer as mulheres o sejam, ainda que, como em geral não as descrevo, o leitor possa recriar a imagem segundo as suas preferências. O autor prefere dar três ou quatro pinceladas, como pontos cardeais, mas nada de descrever metódica e minuciosamente rostos, alturas, figuras, gestos... o autor prefere que seja o leitor quem assuma essa tarefa e responsabilidade. Ora bem, o personagem principal da "História do Cerco de Lisboa" é um revisor de texto, o «conservador» por excelência, alguém que tem a obrigação de respeitar o que encontra escrito, a autoridade explícita e implícita do documento, de modo que não pode alterar nada (...)
(...) E no entanto, este homem (...) decide introduzir uma palavra que nega o que de facto é uma verdade histórica, verdade manifesta no livro que está a rever, obra de um historiador, e que tem como título «História do Cerco de Lisboa». (...)
(...) Irritado com a suficiência arrogante dos documentos históricos e com a evidente falsidade de alguns deles, o nosso revisor, onde o historiador havia escrito que os Cruzados, como de facto aconteceu, ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa, comete a ousadia, a barbaridade, o sacrilégio de introduzir a palavra «não». E o que acaba por ser publicado, o que aparecerá no livro, é que «os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa», o que significa, como disse antes, a negação de uma verdade rigorosamente histórica. (...)
Nesta obra, aparentemente a mais histórica de quantas escrevi, sustento que a verdade histórica não existe, que em muitos casos estou de acordo com Eça de Queirós quando dizia a Oliveira Martins que a história é provavelmente uma grande fantasia... (...)

em, "A Estátua e a Pedra"




Aqui um pequeno apontamento sobre Eça de Queirós e Oliveira Martins, mentores da chamada «Geração de 70» -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Geração_de_70
"Geração de 70 ou Geração de Coimbra foi um movimento académico de Coimbra do século XIX que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do realismo.
Num ambiente boémio, na cidade universitária de Coimbra, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para renovação da vida política e cultural portuguesa. Portugal vivia então uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70.
Em Coimbra, este Grupo gerou uma polémica em torno do confronto literário com os ultra românticos do "bom senso e do bom gosto", disputa mais conhecida como a Questão Coimbrã. Mais tarde, já em Lisboa, os agora licenciados formaram o grupo Cenáculo. Em 1871, o grupo organizou uma série conferências no Casino Lisbonense, para discutir temas ligados à literatura, educação, religião e política. As conferências acabaram por ser proibidas pelo governo.
Depois das reuniões, a geração de oiro de Coimbra acabou por não conseguir fazer mais nada, muito menos executar os seus planos de revolucionar o país, e seus integrantes acabaram por se autodenominar "os Vencidos da Vida", por sugestão de Joaquim Pedro de Oliveira Martins. A denominação decorre claramente da renúncia dos membros do grupo às suas aspirações de juventude. O grupo incluía, além de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, José Duarte Ramalho Ortigão, António Cândido Ribeiro da Costa, Guerra Junqueiro, Luís de Soveral, Francisco Manuel de Melo Breyner (3.° conde de Ficalho), Carlos Félix de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1º Conde de Arnoso) e António Maria Vasco de Mello Silva César e Menezes (9.º conde de Sabugosa), entre outros. Eça de Queirós integrou o grupo a partir de 1889."

Escola e Família, Instruir ou Educar, e, quem tem a obrigação de fazer o quê?


"Democracia e Universidade"
Conferência Universidade Complutense de Madri
2005
Edição Fundação José Saramago - páginas 25 e 26

(...) Eu próprio estou num grupo de prémios Nobel - coisas que acontecem - que se reúne anualmente em Barcelona exactamente para isso, para tomar o pulso ao ensino superior. (...)
(...) E no último encontro, já um pouco cansado de tanta conversa, disse: "vamos ver, quem chega à universidade? Chegam os estudantes que passaram pelo ensino médio e primário. Estamos a ocupar-nos do que acontece na universidade,  em matéria de instrução, não de educação, que isso está fora do debate, e já se reconheceu que tampouco está em níveis óptimos, mas como se pretende que se dê o milagre de funcionar o último nível, a última etapa de um processo de aprendizagem que começa aos quatro anos e termina aos vinte e tal, se o que antecede não está bem?
Se a escola primária está mal - e está em todo o lado, não apenas em Espanha ou Portugal, se o ensino médio está mal, como aspirar a resolver o problema do último nível? (...)
(...) A nascente do rio começa com o "a", o "e", o "i", o "o", e o "u", as vogais que o menino ou a menina aprendem, esse é o gérmen, tudo o que venha depois pode simplificar a tarefa da universidade, anos mais tarde. (...)
(...) A universidade é o último nível formativo em que o estudante se pode converter, com plena consciência, em cidadão; é o lugar de debate onde, por definição, o espírito crítico tem de florescer: um lugar de confronto, não uma ilha onde o aluno desembarca para sair com um diploma." (...)

Imagem, do professor Tertuliano Máximo Afonso, interpretado por Jake Gyllenhaal, no filme "O Homem Duplicado", baseado na obra de José Saramago, com o mesmo nome.
Para além de toda a metáfora à volta e em redor do "Eu" e do "outro Eu", este professor propõe ao director da escola, a ideia de serem invertidos os processos de ensino na cadeira que ele lecciona. 
Pretende inverter a lógica da transmissão da cronologia dos factos ou momentos da história. Alega este professor, que ao ensinar os factos mais recentes em direcção aos mais antigos, é criado um sistema mais intuitivo e linear na causa/efeito, ou na interpretação da razão para que um determinado acontecimento tenha tido lugar.




    

Aristóteles - do seu tratado sobre a Política

Na senda da explicação do valor original e substantivo da "palavra", Saramago nesta conferência caminha a passos largos para trazer a "política" e "democracia" à baila, num processo demonstrativo e metamorfoseado destes conceitos.
Talvez, e tomando por certa esta ideia, desde que o homem é um ser colectivo, também o é enquanto ser político, nas decisões do quotidiano, na gestão da sociedade em que se insere, isto, de forma mais ou menos organizada. Aqui entra a alusão à ideia de Aristóteles, no seu tratado "Política".
Sendo um aspecto que José Saramago, de forma mais implícita ou explícita, com palavras directas ou inserindo-as numa alegoria, o vinha demonstrando.

Na obra "Ensaio sobre a Lucidez", talvez o testemunho mais ético e político de Saramago, a "democracia" é colocada em vários patamares. A democracia de quem vota em branco. A democracia de quem não aceita os resultados do duplo sufrágio. A democracia dos "governantes" que abandonam a capital. A democracia da conspiração do qual resulta a detonação de uma bomba e consequências que daí advém. A democracia do insubordinado Presidente da Câmara perante a linha oficial do partido/governo. E por último, a democracia dos que abatem o "Cão das Lágrimas" e a "Mulher do Médico".
Estas "democracias", ou "A Democracia" em diferentes patamares, são o motivo da reflexão sobre o peso e significado das palavras. A política aristotélica, com mais de dois mil anos, sendo um elemento reflexivo, não tem a mesma repercussão na governação dos povos nos dias que correm. A representação dos povos pobres em Aristóteles, hoje é suplantada pela artificial implementação de um estado social, mínimo e exíguo, para comportar os mais desfavorecidos.
Atente-se, então na transcrição das palavras de José Saramago.


"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."

(...) Aristóteles - embora nunca tenha estudado na universidade, li Aristóteles - dizia no seu tratado de "Política" que um governo realmente democrático deveria necessariamente, por lógica matemática, por pura aritmética, integrar no seu seio mais pobres que ricos porque, dizia ele "os pobre são mais que os ricos", logo, se o governo da "polis" tem, por exemplo, vinte pessoas, dezassete teria de ser pobres e os três restantes ricos.
Acrescentava Aristóteles que não é que os ricos não devam estar representados no governo da "polis", claro que sim, mas em proporção justa. Esta ideia utópica, uma entre tantas, tem dois mil e tal anos, foi enunciada por um senhor que viveu na Grécia e que continuamos a considerar um mestre. E colocou, preto no branco, esta afirmação revolucionária, nunca realizada e que provavelmente jamais será levada a cabo. Claro que o que estava implícito, ainda que Aristóteles não o tenha dito, era que devia existir um partido de pobres, mas talvez não tenha falado disso porque se deu conta de que um partido de pobres não tem muito para prometer, e se não promete não ganha as eleições. (...)

em, "Democracia e Universidade"
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 27 e 28
Conferência realizada na Universidade Complutense de Madri em 2005


"Abro com duas citações de Aristóteles, ambas extraídas da "Política". A primeira delas, curta, sintética, diz-nos que "em democracia, os pobre são soberanos, com exclusão dos ricos, porque são eles o maio número, e porque a vontade da maioria é lei". (...) Eis o que nos diz a citação segunda: "A igualdade (no estado) pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção do número existente de uns e outros. Este parece ser o meio de garantir ao Estado, eficazmente, a igualdade e liberdade". (...)
(...) Não resisto a recordar-vos, sofrendo com a minha própria ironia, que, para o discípulo de Platão, o Estado era a forma superior da moralidade... (...)

em, "Verdade e Ilusão Democrática
José Saramago
Fundação José Saramago e ed.ufpa
Página 59 e 60
Conferência em Santiago do Chile, abril de 2003
"Las Conferencias de la moneda"
Aqui, link http://www.josesaramago.org/democracia-e-universidade-2010/



Aristóteles, segundo Wikipédia, aqui em http://pt.wikipedia.org/wiki/Aristóteles
Aristóteles (em grego antigo: Ἀριστοτέλης, transl. Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Em 343 a.C. torna-se tutor de Alexandre da Macedónia, na época com treze anos de idade, que será o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em 335 a.C. Alexandre assume o trono e Aristóteles volta para Atenas, onde funda o Liceu.
Aristóteles era natural de Estagira, na Trácia, sendo filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.
Segundo a compilação bizantina Suda, Aristóteles era descendente de Nicômaco, filho de Macaão, filho de Esculápio.
Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela academia platônica e nela permaneceu vinte anos, até a morte de Platão, no primeiro ano da 108a olimpíada (348 a.C.).
Em 347 com a morte de Platão, a direção da Academia passa a Espeusipo que começou a dar ao estudo acadêmico da filosofia um viés matemático que Aristóteles (segundo opinião geral, um não-matemático) considerou inadequado, assim Aristóteles deixa Atenas e se dirige, provavelmente, primeiro a Atarneu convidado pelo tirano Hérmias e em seguida a Assos, cidade que fora doada pelo tirano aos platônicos Erasto e Corisco, pelas boas leis que lhe haviam preparado e que obtiveram grande sucesso.
Durante 347 a.C e 345 a.C, dirige uma escola em Assos, junto com Xenócrates, Erasto e Corisco e depois em 345/344 a.C. conhece Teofrasto e com sua colaboração dirige uma escola em Mitilene, na ilha de Lesbos e lá se casa com Pítias, neta de Hérmias , com quem teve uma filha, também chamada Pítias e Nicômaco. Em 343/342 a.C Filipe II escolhe Aristóteles como educador de seu filho Alexandre, então com treze anos, por intercessão de Hérmias.
Pouco se sabe sobre o período da vida de Aristóteles entre 341 a.C e 335 a.C, ainda que se questiona o período de tempo da tutela de Alexandre, alguns estimam em apenas dois ou três anos e outros em sete ou oito anos.
Em 335 a.C. Aristóteles funda sua própria escola em Atenas, em uma área de exercício público dedicado ao deus Apolo Lykeios, daí o nome Liceu. Os filiados da escola de Aristóteles mais tarde foram chamados de peripatéticos. Os membros do Liceu realizavam pesquisas em uma ampla gama de assuntos, os quais eram de interesse do próprio Aristóteles: botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Em todas essas áreas, o Liceu coletou manuscritos e assim, de acordo com alguns relatos antigos, se criou a primeira grande biblioteca da antiguidade.
Em 323 a.C, morre Alexandre e em Atenas começa uma forte reação antimacedônica, em 654 a.C. por causa de sua ligação com Alexandre, Aristóteles foge de Atenas e se dirige a Cálcides, onde sua mãe tinha uma casa, explicando, "Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia" uma referência ao julgamento de Sócrates em Atenas. Ele morreu em Cálcis, na ilha Eubeia de causas naturais naquele ano.1 Aristóteles nomeou como chefe executivo seu aluno Antípatro e deixou um testamento em que pediu para ser enterrado ao lado de sua esposa.
Política - A política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim último do estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. O estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral, porquanto esta tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política, de que acima se falou.
Em Ética a Nicômaco Aristóteles descreve o assunto como ciência política, que ele caracteriza como a ciência mais confiável. Ela prescreve quais as ciências são estudadas na cidade-estado, e os outros - como a ciência militar, gestão doméstica e retórica - caem sob a sua autoridade. Desde que rege as outras ciências práticas, suas extremidades servem como meios para o seu fim, que é nada mais nada menos do que o bem humano.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"Contra las armas, contra la guerra" - Texto do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince

Um texto do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince sobre o "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"


Via Facebook da Fundação José Saramago

Via página do autor, 

"A un verdadero escritor no lo calla ni la muerte, y menos a los portugueses -recuérdese a Pessoa, prácticamente inédito en vida-, que parecen seguir susurrándonos al oído incluso después de muertos. José Saramago dejó una novela incompleta, Alabardas, y de ella acaban de publicarse los primeros tres capítulos, los únicos que pudo terminar. Aun siendo una obra inacabada, el solo planteamiento anuncia que iba a ser una de sus grandes novelas alegóricas. El dilema que esboza es uno de los más hondos a los que el ser humano se enfrenta: ¿haremos lo que debemos hacer o solamente lo que nos conviene?
La última batalla de José Saramago no fue contra la enfermedad sino contra la industria de armamentos. El origen de un libro, muchas veces, es una idea vaga, una voz que pregunta: ¿por qué los obreros que fabrican bombas, cañones, metralletas, tanques, no hacen nunca huelga? ¿Por qué no se rebelan los empleados de las empresas de armamentos? ¿De dónde sacaron valor los obreros portugueses, que sabotearon algunas armas que se iban a usar para bombardear a los republicanos en la Guerra Civil Española?
Saramago es, sin duda, el arquetipo del escritor comprometido: hablaba, reflexionaba, escribía sobre los acontecimientos de nuestro tiempo. Cuando mejor lo hacía no nos propinaba un sermón laico, una perorata moralista, sino que usaba el arma preferida por cierto tipo de escritores excelsos -Chuang Tzu, La Fontaine, Voltaire-: el apólogo, la fábula, la alegoría. La idea, en este género literario, no se presenta de un modo teórico sino humano, traducida a una situación cotidiana. En el caso de Alabardas el dilema se plantea entre el deber (y el amor, pues la esposa del protagonista es pacifista y lo abandona por su complicidad con la industria de la muerte) y la conveniencia.
La primera impresión que tuve al terminar esas pocas decenas de páginas (87 en la generosa edición de Alfaguara) fue una gran punzada de tristeza. Esto podrá parecer extraño, pues este principio de novela no tiene para nada un estilo melancólico de despedida. Al contrario: la prosa es al mismo tiempo dura y juguetona, seca, rabiosa y divertida. Todo lo contrario de la tristeza. Pero la situación sí produce tristeza. Pesar por lo que la novela iba camino de ser: una gran historia de política y de amor que, de repente -por la edad y la sangre y la maldita muerte- no pudo terminarse. Pesar por lo que pudo haber sido y ya no será nunca.
Porque la gran incógnita es cómo iba a resolver Saramago el dilema planteado en las primeras páginas. Un libro inacabado es, más que ningún otro, una “obra abierta”. No sabemos cuál va a ser el comportamiento final del protagonista, Artur Paz Semedo, el contable de la empresa de armamentos Balona S.A. La pregunta que pesa sobre él, y sobre el desenlace del libro, es la misma que pesa sobre todos nosotros: cómo vamos a portarnos si la vida nos pone frente a una encrucijada moral que nos definirá como personas: ¿seremos valientes o cómplices, víctimas o verdugos?
Dos textos más acompañan los capítulos y las notas de trabajo de Alabardas. Uno erudito, y muy útil, de Fernando Gómez Aguilera, que enmarca la novela inacabada dentro de la obra completa de Saramago; otro, eficaz, de Roberto Saviano. Este último parece predecir para el protagonista un destino heroico. Por las notas, a mí, no me parece que ese fuera a ser el desenlace del libro. Creo que las huellas que don José nos dejó marcadas, señalan un camino distinto: hay algo oscuro y perverso en quienes se dedican a ese oficio cínico y lucrativo de vender armas. Según las páginas del libro la verdadera esperanza está en la mujer del protagonista, Felicia. Esta mujer con carácter -que de algún modo se me parece a Pilar del Río- será quien tal vez nos ayude a conseguir un mundo donde no haya guerras y donde quienes comercian con ellas no tengan que ser definidos con el adjetivo “despreciables”, sino con otro más manso y discreto: superfluos."


Haverá definição para "Filho"?




"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. 
Isto mesmo ! 
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado. 
Perder? 
Como? 
Não é nosso, recordam-se? 
Foi apenas um empréstimo!"