Perguntam-me não raras vezes:
- "Qual o livro de José Saramago que mais gostaste de ler?"
A resposta que pode ser dada a cada momento:
- "Impossível de dizer... não sei responder, não seria justo para com outros (livros) não nomeados. Mas uma coisa sempre soube. Uma obra de Saramago, enquanto "pseudo ser vivo" ou com "gente dentro" tem que me raptar, prender-me, não me deixar sair de dentro das suas páginas. Fazer de mim um refém, e só me libertar no final da leitura... mesmo ao chegar à última página. Aí, o "Eu" leitor que se mantém refém, liberta-se da "gente que a obra transporta dentro" e segue o seu caminho.
Mas segue um caminho que se faz caminhando, conjuntamente com mais uma família"

Rui Santos

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"O nariz de Saramago" de Marcelo Lazzaratto (Ilustríssima - Folha de São Paulo / Brasil - 08/05/2016)


(Foto de Marcelo Lazzaratto - Elenco da Companhia do Elevador do 
Teatro Panorâmico com a companhia de José Saramago, 
aquando da encenação da peça de teatro "A Ilha Desconhecida", 
no Teatro TBC (São Paulo / 2001) 


Pode ser recuperada e consultada, aqui 
em http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/05/1768527-o-nariz-de-saramago.shtml?cmpid=compfb

De Marcelo Lazzaratto (08/05/2016)

"Ah! as convergências! O teatro, por ser uma arte coletiva, é um terreno fértil para elas. Momentos de convergência geralmente são contundentes e intensos. Às vezes são felizes. Outras não.

Em 2000, minha companheira, então grávida, me mostrou "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago.

Li esse pequeno grande livro naquele mesmo dia e, como por encanto, visualizei/imaginei/senti toda a encenação de um espetáculo teatral para crianças.

A cidadela, o castelo, as portas, a população, o porto e o barco; a movimentação dos atores, a dinâmica da narrativa, tudo se materializava em minha mente com muita clareza. Inspiração e êxtase se fundiam em meu corpo.

Àquela altura, acabava de criar, junto de atores que iniciavam sua carreira profissional, a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, e nos colocáramos como uma de nossas metas a criação de um espetáculo infantil. É claro que propus a eles que montássemos o conto do Saramago. Outras ótimas ideias, outros temas, outros livros apareceram e, depois de avaliações e debates, Saramago venceu.

Optamos por assumir o risco de trazer aos palcos um texto não dramatúrgico de um autor consagrado mundialmente, porém direcionado às crianças. Um risco enorme para uma grupo de teatro que dava seus primeiros passos. Se errássemos a mão, poderíamos ser tachados de pretensiosos e inconsequentes.

Escrevemos rapidamente um projeto, pois havia um edital aberto para temporada na sala pequena do Teatro Sérgio Cardoso, e fomos aprovados. Mas, quando soubemos, só tínhamos um mês para realizar o espetáculo. Não tínhamos verba para produção. Não tínhamos nenhum apoio cultural. Tínhamos o desejo e a vontade imperiosa de fazer teatro: românticos e pertinazes. Tínhamos um belo tema nas mãos e queríamos trazê-lo a público do nosso jeito: alegres e metidos!

Desde o início, trazia a certeza de que a nossa adaptação não facilitaria a linguagem de Saramago visando o universo infantil. Sentia que deveríamos preservar a linguagem e as construções filosóficas ricamente por ele sintetizadas. Não as "traduziríamos" previamente às crianças.

Já estávamos em 2001 e, em meio, a todo processo de produção nasce nossa filha Chiara. Em três semanas, mão no bolso-dinheiro na mão, empenho e criação, estreia "A Ilha Desconhecida". Sem nenhuma divulgação, formadores de opinião e críticos compareceram no primeiro fim de semana e já na semana seguinte começam a surgir críticas e comentários extremamente favoráveis à montagem.

A primeira temporada se encerra. Optamos por assumir outro risco: resolvemos alugar a Sala Assobradado do TBC acreditando no dinheiro da bilheteria. E surpreendentemente tínhamos casa cheia em uma sala com o dobro de lugares. Mas outra agradável surpresa nos aguardava.

Soubemos que Saramago estaria em São Paulo. Entramos em contato com ele e o convidamos, temerosos e ao mesmo tempo destemidos, para assistir ao espetáculo. Ele, muito cortês, aceitou.

Fomos buscá-lo no hotel. Com Chiara no colo, vejo Saramago sair do elevador e, a passos largos, se aproximar de nós. Um "olá" meio sem jeito e, de repente, eis que a bebê, com sua mãozinha de sete meses, aperta o nariz de Saramago. Pronto. Sorrisos. Derretimento, a sem-gracice se foi. O afeto venceu. Como na ilha.

Chegamos ao TBC. A conversa fluía solta, os atores se preparavam, comoção geral, coração na boca. Saramago nos assistiria.

Na plateia, sentado a seu lado, mal me lembro do que pensava, do que sentia. Estava em pura suspensão e suava em bicas.

Durante a peça, fazia força para perceber o que ele estava achando, mas não queria dar na cara.

A peça termina. No meio do aplauso, Saramago de pé, levanta os braços e pede um instante de silêncio. Todos se sentam. Grande expectativa, os atores no palco, eu ao lado dele, o público calado e ele no meio da plateia, diz a todos: "Penso que, por ter assistido a essa pequena maravilha, valeu a pena ter escrito o conto".

"MARCELO LAZZARATTO, 49, é diretor artístico da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico e professor de artes cênicas da Unicamp. Dirige a peça "Sala dos Professores", em cartaz no Espaço Elevador, em São Paulo, até 29/5."

Curso “Projeções acerca do feminino na literatura de José Saramago” - Prof. Dr. Pedro Fernandes de Oliveira Neto - UERN Faculdade de Serviço Social (FASSO) - Brasil / Mossoró (Campus Central)



Informação e detalhes a consultar aqui,

"A Faculdade de Letras e Artes (FALA) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, por meio do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem, promovem o minicurso “Projeções acerca do feminino na literatura de José Saramago”, a ser ministrado pelo professor Dr. Pedro Fernandes de Oliveira Neto, nos dias 16 e 17 de maio de 2016, das 18h50 às 22h15, no Auditório da Faculdade de Serviço Social (FASSO), no Campus Central, Mossoró (RN). 

As inscrições podem ser feitas no Departamento de Letras Vernáculas (manhã e noite).

José Saramago é um dos escritores mais importantes de Língua Portuguesa da atualidade, sendo também, até o presente, o primeiro e único escritor de origem lusitana a ser laureado com o Prêmio Nobel (1998).

(Capa da edição "Retratos para a Construção 
do Feminino na Prosa de José Saramago")


A crítica e o próprio José Saramago expuseram por via diversa as formas como o tema do feminino constitui-se numa expressão recorrente na construção das representações ensejadas por uma obra interessada em revalidar um lugar caro à expressão literária – o de ser uma aguda crítica aos discursos deterministas e aos modelos culturais, sociais e históricos impostos pelo pensamento ocidental dominante. O objetivo do curso ora apresentado é o de compreender, pela reflexão da crítica literária, como o escritor projetou e construiu um imaginário diverso e singular sobre a figura feminina; imaginário que é num só tempo representação e reinvenção dos modos de ser e estar no mundo. A partir da visita a alguns lugares sobre o conjunto da obra (poesia e teatro), propomos algumas linhas sobre a gênese dessa obsessão e sua constituição no âmbito da prosa romanesca. No fim, o que oferecemos é uma via de contato para uma das produções literárias de língua portuguesa desde então fundamentais para a reflexão sobre uma contemporaneidade espectral e diversa.

(Sessão de autógrafos, no lançamento da obra (05/10/2012)
Livraria Cooperativa Cultural Natal/RN)
 
Pedro Fernandes é professor na Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA); Doutor em Estudos da Linguagem com área de concentração em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPGeL) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); Mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN); e Graduado em Letras com habilitação em Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras e Artes (FALA) por essa mesma instituição. Membro do Grupo de Estudos Críticos da Literatura (GECLIT). É coeditor da Revista de Estudos Saramaguianos e do caderno-revista 7faces. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (ensaio acadêmico, Editora Appris, 2012) Sertanices (poesia, inédito) e do e-book Palavras de pedra e cal (poesia, edição independente)."

"Essa coisa misteriosa que é sempre a mulher" - Extracto da entrevista de Leonor Xavier a José Saramago Revista Máxima (25/10/1990)

"Eu não encontro qualidades morais masculinas ou femininas, penso que as diferenças se encontram mais no plano da sensibilidade. Ao homem falta em geral algo a que chamamos sensibilidade. Eu não falo da emoção ou da lágrima fácil, mas desse modo sensível de entender o mundo que é o da mulher, como a vejo e ponho nos meus livros. A realidade chega à mulher por outras vias que não a da razão. Como a do sentido da maternidade, ela dá-lhe outra dimensão, que o homem não pode ter.
Nós usamos as palavras, mas não sabemos a que correspondem. Eu falo de maternidade, mas o que é que um homem sabe da maternidade? Essa palavra só pode ser entendida quando dita por uma mulher-mãe, se eu a disser, não é a mesma coisa."

Extracto da entrevista de Leonor Xavier a José Saramago
Revista Máxima (25/10/1990)

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Há-de haver..." poema de José Saramago musicado por Luis Cilia em 1969

https://www.youtube.com/watch?v=OLBSeTJrto0


"O seu segundo disco da triologia "la poesie portugaise de nos jours et de toujours" 
começa com este poema de José Saramago. Estávamos em 1969."

"Há-de haver..."
Um juntar de palavras escondido,
Há-de haver uma chave para abrir
A porta deste muro desmedido.

Há-de haver uma ilha mais ao sul.
Uma corda mais tensa e ressoante, 
Outro mar que nade noutro azul, 
Outra altura de voz que melhor cante. 

Poesia tardia que não chegas 
A dizer nem metade do que sabes: 
Não calas, quando podes, nem renegas 
Este corpo de acaso em que não cabes."

Original de José Saramago
"Os Poemas Possíveis"
Portugália Editora (1996)
Reedição Porto Editora, página 49

domingo, 8 de maio de 2016

"Todos os Nomes" e o mistério sobre a morte do irmão Francisco na inspiração desta obra ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 1996)

Sinopse da obra apresentada na página da Fundação José Saramago, e que pode ser aqui consultada, em http://www.josesaramago.org/todos-os-nomes/
"O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro."

Capa da edição grega (1999)

27 de Agosto (de 1996) 
"Prossegue o mistério da morte de meu irmão Francisco. Julgava eu, recordando o que tantas vezes ouvi dizer a minha mãe, que ele tinha sido internado, sofrendo de difteria, no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, onde viria a falecer, mas o Instituto, depois de buscar nos arquivos, informa-me de que nenhum Francisco Sousa filho dos nossos pais deu ali entrada. Teria, afinal, morrido em casa? Se assim foi, como é possível não ter eu conservado qualquer recordação do lutuoso acontecimento, por muito criança que fosse então? Teria ido morrer a outro hospital? É mais do que duvidoso, uma vez que o tratamento de casos clínicos daquela natureza tinha como lugar próprio (e talvez mesmo obrigatório) o Instituto Câmara Pestana. É certo que o desconhecimento destes e outros privilégios da civilização lisboeta, compreensível em quem só há poucos anos viera da bisonha Azinhaga para a cidade, poderia ter levado os meus pais a descuidar da gravidade do mal, acabando-se-lhes, por assim dizer, o filho nos braços. De todo o modo, não creio: meu pai estava na Polícia de Segurança Pública, com certeza falou da doença do filho aos colegas, e algum destes, ou um superior, não deixariam de encaminhá-lo caridosamente aonde convinha. Seja como for, porém, morresse onde morresse o mano Francisco, como é que o registo do seu falecimento não consta na Conservatória da Golegã? Que passo deverei dar agora? Pedir a alguém que percorra por mim os labirintos arquivísticos dos cemitérios de Lisboa, à procura de um Francisco Sousa que parece não querer aparecer? É que não é a mesma coisa requerer a um funcionário o favor de pesquisar uns poucos de livros antigos numa conservatória de província ou os registos de um estabelecimento hospitalar especializado, e esquadrinhar as infinitas, as vertiginosas listas mortuárias desses lugares aonde toda a vida vai parar..."

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 207 (27/08/1996)

Cada da edição brasileira - Companhia das Letras (1997)

21 de Setembro (de 1996) 
"Esta manhã, ainda deitado na cama, entre as névoas do primeiro despertar, tal como se na minha frente fossem flutuando peças soltas de um mecanismo que, por si mesmas, procurassem os seus lugares e se encaixasssem umas nas outras, comecei a distinguir, de um extremo a outro, o desenvolvimento do enredo de Todos os Nomes, esse romance cujo título nasceu, em Janeiro, num avião que descia para Brasília, e que, para mostrar-se (definitivamente?), precisou que um outro avião me trouxesse a Amherst. Estava a pensar, de um modo vago, sonolento, nos esforços que tenho feito para encontrar a pista do meu irmão, e de repente, sem qualquer relação aparente, começaram a desfilar-me na cabeça as personagens, as situações, os motivos, os lugares de uma história que não chegaria a existir (supondo que a virei a escrever) se o óbito do Francisco de Sousa tivesse sido registado na Conservatória da Golegã, como deveria..." 

in, "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, página 222 (21/09/1996)



"Não sei o que tenho em Beja" prefácio para livro da Camara Municipal de Beja a pedido de José Manuel Mendes ("Cadernos de Lanzarote Diário IV - 10/08/1996)

10 de Agosto (de 1996)
"Há tempos, José Manuel Mendes pediu-me que escrevesse algo sobre Beja, destinado a um livro que a Câmara Municipal tinha na ideia publicar, com textos dos escritores que passaram pela sua Biblioteca. Embora a Viagem a Portugal pareça estar aí a demonstrar o contrário, nunca me sinto à vontade de cada vez que tenho de produzir este tipo de prosas, mas, vindo de quem vinha o pedido, não tive mais remédio que fazer do aperto decisão e espremer a cabecinha, a ver o que sairia. O que saiu apareceu-me agora em letra impressa: o livro estava à minha espera quando regressei de El Escorial. A releitura foi quase novidade, tão mal me lembrava do que havia escrito. Aqui deixo, portanto, este Não sei o que tenho em Beja, como se tivesse acabado de sair do estaleiro: 
«Isto de cidades, no fundo, é como as pessoas. Damos com elas no caminho e na vida, umas vezes paramos a ver, a conversar, outras vezes, ou porque levávamos pressa, ou porque nos mostraram cara fechada, encontro pode ser que tenha havido, se encontro era, mas conhecimento a sério é que não. Durante muitos anos não fui nada viajeiro, levava a vida apertada, os carros eléctricos, ainda que isto pareça invenção minha de agora, consumiam-me em metade do mês a verba para transportes, e se é certo que sempre me restava o recurso natural de fazer a pé o caminho entre a casa e o trabalho, e volta, está claro que não me iria pôr a andar por esse Alentejo fora, para ir saber o que tinha em Beja. E não é que eu não tivesse sido, em tempos que evidentemente já lá vão, um andarim de mais que razoáveis dotes: cinquenta quilómetros com a mochila às costas para ir acampar nas margens da lagoa de Albufeira, além na península de Setúbal, fazia-os eu sem mais ajudas que os pés com que nasci e sem olhar para trás. Mas ir a Beja, está-se a ver, seria outra maratona. Imagine-se: à torreira do sol, por esses descampados, ainda por cima tendo de resistir à tentação de umas aldeias, vilas e cidades que me sairiam ao caminho a oferecer, consoante os casos, o simples refrigério de uma sombra e de um copo de vinho, um caldo, uma talhada de melão, ou, no caso de me picar a curiosidade das artes, que já então me entravam desses arrebatos, a penumbra silenciosa de um museu com figuras antigas a olhar para mim. O mais certo era não conseguir chegar a Beja. 
«O tempo, como sabemos, tanto muda como não. Vezes sem conta dá-lhe para ficar sentado, sabemo-lo quando as pessoas, se lhes perguntamos como vai a vida, respondem encolhendo os ombros: «Sempre na mesma, sempre na mesma.» De repente, o diabo do tempo, não se sabe o que lhe deu, levanta-se, mexe-se, corre, pula, tira os nossos bens donde os tínhamos e arruma-os pela ordem que lhe apetece, fecha, tranca e condena umas portas, abre outras de par em par, recorta uma janela onde havia uma parede cega, é, como já ficou dito, um vivo demónio. Foi assim que comecei a fazer umas quantas viagens, poucas, modestas, primeiro pelos arredores, depois mais adiante, por aí fora, na direcção dos três pontos cardeais, no outro estava o mar, aí nem com botas de cortiça, até que cheguei a Beja. 
«Se dessa vez tinha lá alguma coisa, não dei por isso. Andava com tanta literatura na cabeça que todo o meu afã foi assomar-me ao janelão donde, como se conta, a freira Mariana, às escondidas das colegas ciumentas, fazia sinais de lenço ao cavaleiro de Chamilly. O que eu queria perceber era se semelhantes manejos de sentimentaria, com seu quê de ridículo, poderiam objectivamente compaginar-se com as febris palpitações de um coração feminino que ousara trocar o Senhor por um bigode francês. Concluí que não. Ou bem que ela acenava com o lenço, ou bem que se retorcia nas ânsias de um amor culpado e pecador. Decidi esquecer a freira e o cavaleiro e ater-me apenas às cartas, à literatura, o que foi erro rematado. Ainda me faltava comer muito pão e muito sal, ainda tinha muito que viver antes de compreender que o espírito nunca está na letra, está sempre na pessoa que a escreveu, mesmo quando a pessoa se resignou a parecer menos que a sua própria letra. 
«Passaram os anos, e eu sem saber o que tinha em Beja. Voltei lá uma vez, outra vez, vi o dentro e o fora, o baixo e o alto, pisei o chão e respirei o ar, andei por praças, ruas, igrejas e museus, disse e ouvi, perguntei-me se a colina onde está seria colina de verdade, se não foi a inúmera gente que ali viveu - romanos, visigodos, sarracenos, cristãos, e, antes de todos, aqueles primeiros de quem não sei o nome nem a história -, se não teriam sido eles que, construindo incessantemente sobre ruínas e demolições, foram levantando sobre a planície rasa a enorme mamoa prenhe de restos, de detritos, de fragmentos, de colunas, de pórticos, de umbrais, de pedras do lar, de ecos de palavras, de gritos de dor, de risos, de morte, de vida. Imaginei um poço que desces-se por ali verticalmente, através de todos aqueles mundos, pondo à vista a composição e a espessura da felicidade e da desgraça, da fome e da fartura, do certo e do errado de cada dia, até alcançar o nível da planície, onde ainda estão as cinzas da primeira fogueira e o sinal de um pé descalço. Pensei que provavelmente era isto o que eu tinha em Beja, o mesmo que em qualquer outro lugar por onde tivesse a humanidade passado. 
«Depois veio o tempo em que a planície e as colinas alentejanas se puseram a estremecer de um gozo novo, quando abrir a terra para depor a semente se tornou em acto sacral, quando os homens e as mulheres repetiam os gestos antigos e os encontravam novos. Andei por lá, mas não por Beja, a escrever um livro, a levantá-lo do chão, como quem recolhe as cinzas de uma fogueira e o desenho de um passo. Foi por essa altura que um amigo, tão honrado de vida como de nome, me disse com expressão risonhamente repreensiva: «Vocês ficam todos lá por Évora...» A partir desse dia, comecei a suspeitar de que o que eu tinha em Beja, afinal, era uma dívida, não uma conta que tivesse deixado por pagar, não um empréstimo vencido e não liquidado, uma dívida como assim, aparentemente sem quê nem porquê, mas essas, se calhar, são as piores, as que mais custam a levar, as dívidas que não têm por trás o rosto de um credor. Quem depois me viu caminhar por aquelas ruas, becos e travessas, espreitando aos portais, farejando às esquinas, como quem anda à procura de algo que nem sequer conhece, não podia imaginar que pesos eu ia carregando na consciência. Soubera, finalmente, o que tinha em Beja, mas o que tinha em Beja não era nada que pudesse apagar de mim. E assim vivemos, ela e eu, até há mais ou menos um ano. 
«Convidaram-me a falar em Beja sobre intolerâncias antigas e modernas, e eu lá fui, apesar de cansado doutras andanças semelhantes. A conferência era na Biblioteca Municipal, um edifício novo, funcional, de organização excelente, apenas com o senão de uma escadaria de acesso perigosamente empinada, como se de súbito ao arquitecto tivesse faltado o terreno ou como se deliberadamente a tivesse ali posto para avisar os leitores de que os caminhos do conhecimento tudo podem ser, menos caminhos de facilidade. Fizeram-me visitar a Biblioteca, secção por secção, quase livro por livro, e eu não precisei de fingir nem o sentimento nem as palavras para felicitar quem tinha a responsabilidade do seu governo. Para terminar, levaram-me a ver a secção infantil, ampla, desafogada, com pequenas cadeiras e pequenas mesas, almofadas coloridas, o paraíso da leitura, pensei eu, lembrando-me dos duros assentos daquela outra biblioteca municipal onde fiz, adolescente, as minhas primeiras aprendizagens literárias. 
«Nisto estava, crendo não ter mais para ver, quando o meu guia me fez entrar numa espécie de caverna armada a um lado do grande salão de leitura. «E isto?», perguntei. «Os miúdos gostam de vir ler para aqui», responderam-me, enquanto entrávamos curvados. Não duvidei, na verdade eu próprio tive vontade de pedir um livro e estender-me naqueles coxins, como se estivesse dentro de um ovo, com um céu de pano por cima da cabeça, esquecido da conferência, resolvido a começar a aprender tudo outra vez, desde o princípio. Imaginei uma criança a entrar ali com o tesouro de um livro na mão, e sair de lá com esse outro tesouro maior que é o livro lido. Senti-me subitamente em paz, não devia já nada a Beja, o que eu tinha agora em Beja não era uma dívida, mas uma esperança. A esperança de que uma daquelas crianças, saídas da gruta de Ali-Babá e as Quarenta Lições, venha a escrever um dia, sobre Beja, o livro que eu não escrevi.» 

in "Cadernos de Lanzarote Diário IV"
Caminho, páginas 196 a 200 (10/08/1996)


"Tenho um irmão siamês" poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" - Publicado em Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

Pode ser recuperado e visualizado, via YouTube, aqui

"Tenho um irmão siamês"
 poema musicado por Manuel Freire para o seu trabalho "As Canções Possíves" 
Publicado em "Provavelmente Alegria" - Caminho (1987) da 1.ª edição, Livros Horizonte (1970)

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

in Provavelmente Alegria, 
Caminho, 1987, 3.ª edição - 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970

sábado, 7 de maio de 2016

Antevisão de "Blimunda" de Maria João Avillez (Público, 9 de Maio de 1991)

Antevisão de "Blimunda"
Por Maria João Avillez - "Público" (9 de Maio de 1991)

Pode ser recuperado e consultado, via site do jornal Público, aqui
em http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/joseSaramago/antevisaoBlimunda.htm

"Um dia longínquo de l984, José Saramago recebe em casa uma carta que o deixa perplexo: a editora italiana Suvini Zerboni escreve-lhe para o informar que o compositor Azio Corghi está interessado em fazer uma ópera a partir do "Memorial do Convento". O escritor relê a carta, continua a achá-la "insólita", não responde. E passa o caso à Sociedade Portuguesa de Autores, para que aprofundasse aquela sugestão singular. 
"A verdade é que eu fiquei um pouco céptico... Transformar um romance português numa ópera italiana?", recorda ele, sorrindo. 
A editora reincide, o compositor não desarma. Quase um ano depois, José Saramago tem em Roma o seu primeiro encontro com Azio Corghi, de quem entretanto ouvira já alguns discos e "muito boas referências" artísticas e profissionais.
"O 'Gargantua' de Rabelais fora, por exemplo, um excelente trabalho do Azio... Mas porventura o que contou mais foi o facto de eu ter gostado dele", diz José Saramago. "É um homem de grande lhaneza, muito simples e dono de uma grande competência técnica. Mas é alguém de tal forma simples e discreto que enquanto não se ouve a sua música temos que adivinhá-la... Descobri um compositor apaixonado pelo 'Memorial do Convento', pela história, pelos valores do livro. Meses depois, voltámos a encontrar-nos em Milão, e estas duas conversas deixaram as coisas claras... Foi um encontro feliz."
E assim nasceu "Blimunda"... Numa noite de Maio de 1990 e num berço de ouro, o Scala de Milão. Um ano depois, "Blimunda" tem para si outro palco de ouro, o do São Carlos, enquanto aguarda o de Turim e ainda outras chamadas de prestígio, que a irão levar, se tudo se concretizar, a Toronto, Los Angeles, São Francisco, ao Met de Nova Iorque. E palcos primeiros da Europa manifestaram já a intenção de produzir novas encenações deste libreto. 
Hoje, José Saramago ainda se confessa um autor quase involuntário desta ópera. Encontro-o, camisola verde-escuro, camisa às riscas verde e branco, na casa onde mora, um pequeno andar debruçado sobre uma rua "de silêncio e de paz", que mais parece uma aldeia em plena Lapa. Bebemos um café que vem "ali de baixo", conversamos, o telefone nunca parará de tocar. 
"O libreto da 'Blimunda' vem com dois nomes, o meu e o do Azio Corghi, mas o trabalho essencial é dele... A minha contribuição foi mais uma troca de impressões, uma discussão de proposta de soluções, um trabalho de acompanhamento, muito mais do que um fazer real. Mas ele insistiu com grande delicadeza em que o libreto contivesse os nossos dois nomes..."
Daqui a quatro dias, sentado na plateia do Teatro de São Carlos, José Saramago terá provavelmente dificuldade em dizer o sentimento com que viveu essa noite. E lembrar-se-á, com certeza, dessa outra noite de Maio, quando, há um ano, sentado no Scala, viu pela primeira vez surgir a "sua" Blimunda. Já uma Blimunda outra, que não lhe pertencendo continuava a ser sua. 
Por dentro do escritor vive um homem pudico que não se molda a explicitar sentimentos ou a publicitar emoções. As suas mãos desenham incessantemente gestos e círculos no ar e, de vez em quando, a sua ligeira gaguez tornar-se-á mais lenta. E será sempre num registo contido que hoje olhará para trás e se recordará dessa outra noite fria de Primavera, em Itália. 
"É difícil... Foi sobretudo emocionante. É que nunca posso separar-me daquela ideia de que sou um português de Portugal. Há uma ligação profundíssima, uma raiz e tudo o que tem a ver com ela. Lembro-me de mim e da minha emoção ali sentado, diante daqueles actores, dos cenários, a ouvir uma história que eu escrevera... Tive por vezes a garganta apertada. Era como se eu, sabendo que parte daquilo era meu, não tivesse ao mesmo tempo a certeza de o merecer. Senti-me orgulhoso mas também muito humilde. E houve um sentimento de responsabilidade. Sabe... (sorri), não é um sentimento fácil... ou simples. Será talvez ingénua esta ideia de se ser responsável pelo país a que se pertence... Enfim, não tenho que dizer senão isto."
No S. Carlos, entretanto, vive-se também a azáfama - e que azáfama! - dos grandes momentos, e a contagem do tempo, tal como ali perto, no Teatro Nacional, inverteu já o seu ritmo: a partir de agora a contagem do tempo é descrescente. Há rostos ansiosos, uma atmosfera de tensão, no ar cruzam-se várias línguas numa algaraviada indescritível, o chão está juncado de mil fios, uma sofisticadíssima aparelhagem de mistura de som ocupa uma parte da plateia, fazem-se ensaios de luzes. A confusão tem aquela marca inconfundível da véspera das estreias. 
"Houve aqui dois cavaleiros que muito se bateram pela 'Blimunda'. O José Ribeiro da Fonte e o Manuel José Vaz, directores deste teatro. Gosto de dizer e de reconhecer isso", afirma José Saramago, na penumbra da plateia. 
No palco, vão lentamente nascendo os cenários de Michel Le Bois, a sala é envolvida pelas vozes de Blimunda e Baltasar - Kathia Lytting e William Lewis -, os figurinos de Jacques Schmidt cruzam a cena. A orquestra vai tomando o seu lugar e os cantores Fernando Serafim, Marina Ferreira e Jorge Brás de Carvalho também já se encontram prontos para um dos últimos ensaios. Pelos bastidores, na plateia, em cena, agitam-se centenas de pessoas - assistentes, técnicos, cantores, actores, elementos do coro, uma leva de figurantes. Daqui a algumas horas chegará ainda o octeto vocal madrigalista Swingle Singers. 
Todo este espectáculo - à sua maneira também ele uma superprodução -, assente numa carpintaria forte e em efeitos cénicos que prendem o olhar, foi produzido - e cronometrado - pela imaginação de Jerôme Savary, o encenador que Lisboa descobriu com a "Zazou", em recente noite de pompa, circunstância e espectáculo. 
Saramago:
"O livro é o livro, a música é a música, mas há o... encenador. E eu achei a encenação magnífica! Se o livro abre caminhos para soluções cénicas, o Savary explorou esses caminhos com efeitos cénicos deslumbrantes. Um dos factores do êxito da ópera em Milão foi certamente esta encenação... "
O escritor olha Kathia Lytting no palco e emociona-se: "Ela tem o temperamento e a voz duma diva... É uma wagneriana..."
A soprano é bela e jovem e sedutora. Há um ano, quando pela primeira vez cantou "Blimunda", estava grávida. Viveu com tanta intensidade o seu personagem que disse a si própria que se lhe nascesse uma filha teria o mesmo nome. 
"Assim foi, assim é: nasceu uma menina, chama-se Blimunda...", recorda, sorrindo, José Saramago. 
Blimunda-mulher, heroína desse fresco memorável que é o "Memorial do Convento". Hoje, passados que são já alguns anos sobre o momento e o acto da escrita, ainda a ama, como então, o escritor?
Pausa.
"Essa senhora fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim... Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me, com uma força que a partir de certa altura me limitei a... acompanhar. Aquele sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor... Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer... E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas... Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo... Porquê? (sorriso) Porque é assim na vida... A mulher é o motor do homem. (Pausa) Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm duvidas, são personagens masculinos com complexos... As mulheres, não."
José Saramago tem hoje os seus seis romances traduzidos em vinte e seis línguas. O escritor ri: "Do finlandês ao hebreu, do grego ao búlgaro..." E depois: "Tenho uma reduzida capacidade de acompanhar tudo isso. Há certos tradutores que têm o escrúpulo de pedir esclarecimentos, de apresentar duvidas. Mas (suspiro), há outros que não perguntam nada. Há um ou outro caso em que faço uma revisão aqui, em Portugal. Mas claro que se trata, no geral, de uma verificação que me escapa. "
A fama, o sucesso, o dinheiro, a invulgar notoriedade que hoje rodeia a sua assinatura, parecem não impedir a sua aparente serenidade ou contenção. Está-lhe no carácter essa forma de respirar perante os outros. Mas nas entrelinhas resvalam muitas vezes palavras reveladoras da vaidade, e sobre elas, não raro, desliza a sombra do orgulho.
"Essa espuma é lisonjeira, todos gostam de ser estimados... E eu acredito na sinceridade disso... Às vezes, todas estas solicitações ou este barulho podem ser opressivos, porque me roubam tempo e disponibilidade. Sobre o dinheiro, gostaria apenas de dizer que vivo do meu trabalho. Desejaria que isso fosse para os outros um direito e uma possibilidade. Mas gostava de voltar a isso da responsabilidade, porque no fundo, o sentimento principal é esse... Não é por importância, mas por verificar - através das reacções e das atitudes em Portugal ou lá fora, no estrangeiro - que transporto comigo uma certa responsabilidade... Eu quase diria que sou representante da língua que falamos, da nossa cultura... E não evito esta impressão de levar o meu país comigo..." 

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura (Entrevista de Judite de Sousa, RTP2, Dezembro 1998)

Pode ser visualizado via YouTube, aqui

Postado no blog "Um caderno para Saramago", aqui 
em http://umcadernoparasaramago.blogspot.pt/2016/04/blog-post_23.html?m=1

sexta-feira, 6 de maio de 2016

"El cementerio fractal de Saramago" de Juan Manuel Ruiz (El País - 16/06/1999) via Fundação José Saramago

José Ovejero e Pilar del Río, numa conversa moderada por Ricardo Viel 
sobre os livros "A Invenção do Amor" e "Todos os Nomes" (05/05/2016 - FJS)

"De 1999, um artigo do El País sobre o Cemitério Geral de "Todos os Nomes", de José ‪#‎Saramago‬, e a sua relação com a teoria fractal. Mais logo, às 18h30, este será um dos dois livros que serão abordados na conversa com José Ovejero e Pilar del Río."
Publicado pela Fundação José Saramago na sua página do Facebook, aqui

"El cementerio fractal de Saramago" de Juan Manuel Ruiz (El País - 16/06/1999) via Fundação José Saramago

Publicado no "El País" e que pode ser recuperado e consultado aqui,

"La imagen de un cementerio la asociamos a una pequeña estructura cuadrada en la ladera próxima al pueblo, más amplia en las ciudades, con límites definidos, a veces tapiados, a veces abiertos como en los umbríos parques sajones, pero siempre una estructura fría, poligonada. El lugar donde se guarda lo inanimado ha de tener, en nuestra sociedad, ese sereno encanto de lo exacto propio de la geometría euclidiana. En un delicioso capítulo de su novela Todos los nombres (Alfaguara, 1997), José Saramago se inventa un cementerio que rompe ese canon de siglos: El Cementerio General. Contra lo establecido, el Cementerio General no es una estructura euclidiana sino fractal. Las estructuras fractales se caracterizan por no tener una medida definida. Un ejemplo es el de la frontera entre España y Portugal ¿Cuánto mide? Pues depende de la escala que utilice. Si lo hace sobre su atlas obtendrá unos determinados kilómetros. Sobre su mapa de carretera, de escala algo mayor, la frontera será más larga porque existen entrantes y salientes que habrá medido ahora y que no aparecían en su atlas. Y si, como el excéntrico emperador chino que nos recreó Borges, utiliza un mapa de escala 1/1, es decir, si recorre paso a paso la frontera, no le quepa duda que la caminata será mucho más larga de lo previsto. Las fronteras naturales tienen la geometría propia de la naturaleza, la geometría fractal. Así también el Cementerio General.

Según Saramago, el Cementerio General comenzó con un núcleo inicial, un recinto cuadradito donde el conservador tenía tiempo de organizar, con euclidiano espíritu, el lento acúmulo de muertes del pequeño pueblo. Cuando se necesitó más espacio, se trasladaron algunas de las primitivas tapias para seguir con el tedioso ordenamiento. Todo cambió cuando el encargado, agobiado por el rápido incremento de decesos de la ciudad, sucumbe ante la imposibilidad de disponer las sepulturas según el orden prescrito y opta por derribar las paredes dejando tan sólo la fachada principal. Desbordada la lenta planificación por el vertiginoso flujo de enterramientos, el cementerio comienza a crecer por diversos puntos, inicialmente protuberancias que se convierten más tarde en dedos, en ramas que se extienden, sin que nadie las guíe, probablemente hacia los valles más accesibles entre las colinas aledañas. Algunas de esas ramas topan con las urbanizaciones que aparecieron en los alrededores. Sorteando esos obstáculos, el cementerio avanza por las zonas de mínima presión urbanística, creando bifurcaciones de las primeras ramas de las que a su vez nuevas y nuevas bifurcaciones aparecerán, dando lugar, por un proceso de autoorganización a una estructura dendrítica con incontables entrantes y salientes, de dimensión fraccionaria. Un cementerio que "observado desde el aire, ... parece un árbol tumbado, enorme, con un tronco corto y grueso, constituido por el núcleo central de sepulturas, de donde arrancan cuatro poderosas ramas, contiguas en su nacimiento pero que después, en bifurcaciones sucesivas se extienden hasta perderse de vista, formando ... una frondosa copa en la que la vida y la muerte se confunden".

Condición imprescindible para generar esta estructura, como el propio Saramago genialmente intuye, es que la agregación sea continua e irreversible, es decir, que en el Cementerio General estén todos los nombres, pues de otra manera, la fría geometría se hubiera perpetuado al reemplazar, como hacemos nosotros, los viejos por los nuevos difuntos.

El Cementerio General está acorde con la entrañable historia de subversión que relata esa novela. Ciertamente, cuando el flujo de las ideas, de los avances sociales o técnicos (o de las defunciones) es tan rápido que no puede ser asimilado por el orden establecido, la salida es revolucionaria. Algunos dirán, caótica. Sólo que ahora ese caos comenzamos a entenderlo y, como muestra el ejemplo de Saramago, un nuevo tipo de estructura resulta de la auto-organización, discutible en su eficacia, pero desde luego bella.

Juan Manuel García Ruiz es geólogo."

"Este articulo apareció en la edición impresa del Miércoles, 16 de junio de 1999"

"Manhã" Poema de José Saramago - "Provavelmente Alegria"

"Manhã"

"Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós descida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.

Confiança das tuas mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos."

in, "Provavelmente Alegria"
Caminho, página 39

Poema "Inventário" de José Saramago ("Os Poemas Possíveis") musicado por João Afonso para o CD "Nesta Esquina do Tempo"

Via YouTube, aqui

"Inventário"
"De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas."

In, "Os Poemas Possíveis"

terça-feira, 3 de maio de 2016

Recuperação da entrevista de Francisco José Viegas a José Saramago (Abril de 1989) - Revista LER #6

(Capa da edição)

Revista "Ler Livros & Leitores" - N.º 6 - Primavera de 1989
Entrevista de Francisco José Viegas
Fotografias de Luís Ramos

"Com a publicação de História do Cerco de Lisboa (Editorial Caminho), José Saramago conta sete romances. Nesta entrevista, o autor de Memorial do Convento e de O Ano da Morte de Ricardo Reis fala de alguns deles. E da forma como a vida continua a surpreendê-lo."


É uma máquina de escrever, esta que está junto de nós enquanto fala-mos: teclado hcesar, de ferro, marca Hermes. No lugar que ela acaba de deixar, sobre a mesa onde José Saramago escreve, está agora um computador (processador de texto). E curioso saber, agora, que Blimunda e Baltasar, antes de conhecerem as páginas impressas do Memorial do Convento, se namoraram primeiro nestas teclas de bater antigo. E que o primeiro olhar, o matinal, de Blimunda, fora antes decidido neste teclado já gasto. Interrompeu-se um ciclo, com esta mudança para o visor com letras verdes do ecrã do computador, abandonando a imagem da página em branco, de papel A/4? «Não creio. A única questão que eu coloco é a de saber se serei capaz de escrever o próximo livro com este novo material...» Soubessem o Padre Gusmão desta novidade, ou Ricardo Reis, assim entregues à escrita de Saramago. A ver o que diriam. 

Fotografia de Luís Ramos

"Ao fim de alguns anos, sobretudo de-pois do Memorial do Convento, o seu nome é uma referência fundamental para se falar sobre a literatura portuguesa contemporânea. Como encara, agora, esse facto? 
— Sinceramente, não me sinto nada uma figura de proa da literatura portuguesa no estrangeiro. Sinto-me é como alguém que está a fazer os seus livros e que os livros que essa pessoa faz são bem recebidos. 

Mas o Memorial do Convento tem registado um êxito muito grande em todo o lado... 
— Sim, o Memorial do Convento é o livro que está mais divulgado e traduzido e eu sinto-me contente por isso, evidentemente. É um livro entre outros que, por circunstâncias que têm a ver com algumas características do próprio livro... 

...Com o tipo de escrita e com a temática?... 
— ...sim, sim, talvez. Com essas características principalmente. Bom, o livro teve êxito. E outro dos factores é extremamente simples: é que, às vezes, a gente entra em boa hora... O que eu acho é que, de um lado estão os livros que eu escrevi e, do outro, o destino desses livros. São coisas distintas que, por um feliz acaso, se conjugaram no bom caminho. 

Está surpreendido? 
— Sim, mas é muito difícil dizer por que é que me sinto surpreendido. É como se tivesse de olhar para o lado, para ver se esse êxito todo não pertence a outra pessoa. Talvez isso se explique pelo auto-equilíbrio que eu tenho. Evidentemente que somos humanos e que gostamos do êxito, mas não tiro daí a conclusão de que sou uma espécie de representante da literatura portuguesa no estrangeiro ou onde quer que seja... 

Olhe, na última Feira de Frankfurt, perguntavam por si no pavilhão português. Numa tarde, um italiano, um americano e um africano, creio que do Benin, entraram pelo pavilhão dentro e queriam falar consigo. Mas você não estava... 
— Bom, mas eu recebo muitas cartas, de todo o lado. Não recebo tantas cartas como a Madonna [risos], claro, mas recebo muitas cartas a falar dos meus livros... Há coisas que tocam mais as pessoas, e eu creio que isso tal-vez se deva ao facto de eu contar histórias extremamente simples. Para lá da imaginação, da fantasia, do fantástico, o que está na base de tudo é sempre uma história muito simples onde as pessoas estabelecem uma relação com outras pessoas e onde há um certo ar de surpresa diante das coisas e da vida. Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim, na vida. Na literatura também. Mas aquilo que talvez distinga os meus livros é o facto de parecer que eu olho as coisas pela primeira vez e poder, assim, traduzir a surpresa daquilo que é visto pela primeira vez. Veja o caso da Viagem a Portugal... Aquilo que o distingue é justamente a surpresa do novo, a imagem do novo que o autor talvez consiga traduzir naquilo que vai escrever. Quando falo do amor, ou de uma cidade — aquilo que o narrador consegue exprimir passa ao leitor, ou talvez ele sinta que aquilo tem a ver com ele próprio, para além das tais diferenças. O lado bom do livro está no facto de ter a ver com o leitor ou de o leitor ter a ver com o livro. 

Esse olhar pela primeira vez é só nos livros ou é seu, na vida? 
— É o meu, e tem uma razão de ser biológica. Tenho 66 anos mas, apesar disso, sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada. É como se tivesse vivido em dois planos: um, biológico; outro, não direi propriamente intelectual ou cultural, mas que tem a ver com isso, e que me fez entrar pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente. Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. Um olhar não habituado. Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados. 

Faz algum esforço para as coisas acontecerem assim? 
— Não. Não é um método nem uma técnica. Tem a ver comigo mesmo, é uma coisa que aconteceu e que continua a acontecer, felizmente. Eu sei que já se viu tudo muitas vezes, na vida, mas a verdade é que as coisas que vejo continuam a surpreender-me. Neste livro, na História do Cerco de Lisboa, faço uma distinção entre olhar, ver e reparar. Eu penso que são três níveis de atenção: olhar, que é a mera função; ver, que é um olhar atento; e reparar, que é já uma atenção a uma dada coisa ou a um dado fenómeno — passamos a reparar naquilo que só tínhamos visto, a ver aquilo que só tínhamos olhado. E isso faz o tal olhar não habituado. Isso passa-se em relação a Lisboa, também. Alguns críticos estrangeiros transformaram-me no escritor de Lisboa. Não penso isso. Penso é que escrevi sobre Lisboa de outra maneira... 

Com O Ano da Morte de Ricardo Reis... 
— Sim. Foi um livro que me levou a reparar em Lisboa de outra maneira. E a escrita do próprio livro também, porque cada um de nós é a visão que tem. 

Por isso é que a Blimunda do Memorial era muitas coisas... Mas, voltando a Lisboa, como é a sua relação com a cidade? 
— Em primeiro lugar, não sou um escritor de Lisboa. Talvez o seja de uma certa Lisboa, antiga, de recantos, de almas dispersas. Não conheço nada da vida nocturna de Lisboa, além de um bar onde vou por vezes. Claro que gosto da cidade, mas não sou um fanático nem caio nessas expansões líricas sobre a Lisboa maltratada, ofendida ou magoada. Não tenho essa paixão moderna por Lisboa, embora saiba que é um privilégio viver nesta cidade —não me refiro a coisas práticas (tudo tão depauperado, os transportes, as ruas estragadas, etc.) mas à topografia, ao céu, ao rio... 

"Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, 
como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, 
já foi feito há muito tempo, antes de nós, 
Tudo é assim, na vida, Na literatura também."

De qualquer modo, não é muito visto na cidade, nos lugares públicos... 
— Não. Não sou. Mas não é por misantropia, nem para tornar-me interessante («ah, ele nunca aparece, está a escrever, não se dá...»). O que acontece é que gosto das pessoas mas não tenho muitos amigos (não tenho nem deixo de ter pena). Os que tenho são bons. Nem tenho essa necessidade de aturdimento social, de ir de festa em festa, de cocktail em cocktail. 

Mas viaja muito... 
— Viajo muito para o estrangeiro. Mas, se eu lhe disser que a minha primeira viagem para o estrangeiro (quase tudo me aconteceu tarde...) aconteceu quando eu tinha 47 anos... Claro que, ultimamente, tenho viajado muito. 

"Sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada, 
Entrei pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente, 
Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. 
Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados a isso."

O sucesso dos seus livros (e do seu nome) começou há uns anos atrás, sobretudo depois do Memorial do Convento, que marcou o seu trabalho como escritor de forma definitiva. Há uma data determinada? 
— Há uma data, que é 1980, com o Levantado do Chão, que é um livro inseparável da Viagem a Portugal. A história desses livros é bastante curiosa e tem a ver com o facto de eu ter ficado desempregado em finais de 1975 (até hoje...). Bom, eu pensei «vamos lá a ver o é que eu vou viver agora; ainda não sei ar sou escritor; mas se tiver de ser é agora ou maca». Ou arranjava um emprego para fazer qualquer coisa, o que não era interessante mas mão me deixava sem dinheiro ao fim do mês, ou arriscava... Escrevi então o Levantado do Chão depois de, em 1976, ter estado no Alentejo. Três anos depois, em 1979, o livro saiu e coincidiu com o convite que o Círculo de Leitores me fez para escrever a Viagem a Portugal. Ninguém sabia o que iria sair dali, nem eu nem o editor. Esse convite possibilitou-me duas coisas: a transformação do meu próprio modo de escrever e, claro, as condições materiais para escrever. Eu, que entre 1975 e essa data tinha vivido de traduções, pude (e não digo isto para ser agradável a ninguém) encontrar uma estabilidade e uma segurança económica que me permitia a tranquilidade necessária para aprofundar o trabalho que tinha começado com o Levantado do Chão. A Maria Alzira Seixo disse um dia, e com toda a razão, que a Viagem a Portugal e a Bagagem do Viajante são dois livros de passagem, que fazem a viragem para os que vêm a seguir. Qualquer olhar mais atento, qualquer crítico, não devia ignorar o papel desempenhado quer pela Viagem quer pelo livro de crónicas, A Bagagem do Viajante. Claro que se pode entender o meu trabalho actual sem ler as crónicas, mas eu penso que esse livro é fundamental. 

Depois, vem o Memorial do Convento... 
— O Levantado do Chão é a rampa de lançamento e o Memorial é o míssil... E um livro que não pára de surpreender-me, dizem-me coisas bem agradáveis de ouvir. 

É esse o livro de que mais gosta? 
— O livro de que mais gosto é a História do Cerco de Lisboa [risos]. Para convencer os leitores risos]... 

Dos já publicados... 
— O livro de que mais gosto, aquele que estai mais dentro de mim, é O Ano da Morte de Ricardo Reis. Gosto do Memorial do Convento, que mexe muito com as pessoas, mas O Ano da Morte de Ricardo Reis talvez seja aquele que ainda hoje me emociona mais, talvez por falar de uma época que nós vivemos há pouco tempo. E que eu apanhei a parte inicial desse tempo. Em 1936 eu tinha 14 anos... 

Quando o livro saiu, em 1984, um crítico acentuou, especialmente, o facto de se tratar de uma imagem de fim de século. 
— Bom, mas o século XIX entrou, em Portugal, pelo século XX dentro, até à década de cinquenta. É uma imagem de fim de século no que se refere a um mundo que está a acabar, a uma espécie de letargia, de povo que acaba, de uma vida real que está em contradição com o folclore fascista. Porque a vida era outra e não tinha nada a ver com os foguetes do Estado Novo: era mais triste, difícil, sem sentido... 

Como é que se deu esse encontro com Fernando Pessoa? 
— Era um encontro que tinha de se dar. É natural que nós nos encontrássemos um dia, mas o que é interessante foram as circunstâncias em que esse encontro se deu. Eu estava a acabar o meu curso de serralheiro-mecânico na Escola Industrial de Afonso Domingues e, aí, havia uma biblioteca que, não funcionando muito bem, à semelhança de todas as bibliotecas portuguesas, possuía coisas tão bizarras como a revista Athena (veja-me com dezassete anos, em 1939...). Folheio ao acaso e dou com aquelas odes de um senhor chamado Ricardo Reis. Que era Ricardo Reis e não outro qualquer. Qual Fernando Pessoa! Nessa altura, em que eu já gostava de ler e começava a comprar livros, fiquei deslumbrado com as odes e lembro-me de ter feito de uma delas uma espécie de divisa, que é aquela onde se lê «para ser grande, sê inteiro...» [Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui./ /Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ /No mínimo que fazes./Assim em cada lago a Lua toda/Brilha, porque alta vive.]. Depois, mais tarde, soube que Ricardo Reis era Fernando Pessoa. 

"O livro de que mais gosto, 
aquele que está mais dentro de mim, 
é O Ano da Morte de Ricardo Reis. 
É aquele que me emociona mais."

Ficou desiludido? 
— Não. A contradição fascinava-me, e compreendia-a. Nesta mesma ode, aliás, a contradição está presente. 

É Ricardo Reis o heterónimo de que mais gosta? 
— Gosto muito de Ricardo Reis, por razões históricas. Pessoais, claro, que têm a ver com esta minha relação com a sua poesia. De resto, divido-me muito entre o Caeiro e o Campos. Mas aquele de que menos gosto é o próprio Fernando Pessoa... 

Depois de O Ano da Morte de Ricardo Reis aparece a surpresa do título A Jangada de Pedra. 
— Sim, a seguir é A Jangada de Pedra... 

Que não se chamava assim... 
— Pois não. O Memorial do Convento estava para se chamar só O Convento, mas nessa altura a Agustina Bessa-Luís publicou O Mosteiro. Foi por isso que se chamou Memorial do Convento... A Jangada de Pedra foi o livro mais difícil quanto ao título. Ainda pensei em O Mar Aberto, ou A Grande Pedra do Mar, ou só A Jangada. Mas havia um título assim do Romeu Correia. Portanto, retomei A Jangada e... pus-lhe a Pedra. 

Foi então que se falou em iberismo... 
— O iberismo entrou muito no vocabulário político entretanto. Mas a ideia do livro era a de soltar toda a península do resto da Europa. Um todo? Talvez, mas isso não tem nada a ver com a questão iberista entre nós. Um crítico espanhol, aliás, viu a história muito melhor, e escreveu uma coisa muito inteligente ao dizer que mais do que ler esse fenómeno de separação da península como separação em relação ao continente, deve entender-se como deslocação para o sul, arrastando a Europa para o sul... Mas, nisso, o problema é o da unidade política de Espanha, como se sabe. Se não houvesse uma unidade política tão vincada, seria possível estabelecer melhores relações, de tipo multilateral, entre Portugal e as várias zonas de Espanha... Aqui vivemos muito no medo de a Espanha nos devorar...
 
Porquê? 
— Nós, portugueses, não sabemos por que pensamos coisas que achamos que pensamos... 

Sente-se fascinado pela Espanha? 
— Não propriamente fascinado. Mais no sentido da surpresa e do maravilhamento... A minha mulher é espanhola, tenho muitos amigos espanhóis, por aí fora. Mas, de resto, o que é fascinante é a Espanha, não a minha relação com a Espanha... 

"Esta crise no PCP traduz o conflito entre opiniões diferentes. 
Entre o que foi, o que é e o que será. 
E sobre isso, há duas saídas para o problema, 
Uma, que é estagnar, girar volta de si próprio, 
Outra, que é avançar em circunstâncias e exigências novas, 
colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos."

O que é fascinante em Espanha? 
— Sobretudo a diversidade, os mundos que cabem naquele país. Estão hoje, em virtude dessa diversidade, perfeitamente justificadas as autonomias, com aquela enorme diferença de caracteres. E isto não é um lugar-comum: as pessoas são realmente diferentes, um andaluz é completamente diferente de um galego, um galego de um catalão, um castelhano de outro qualquer... Viajar em Espanha é surpreendente porque se está, permanentemente, a passar de um mundo a outro e isso sim é fascinante...
 
Bom, agora é a História do Cerco de Lisboa... Creio que se trata de um dos cercos de Lisboa mas, também, de outro cerco, provavelmente... 
Talvez sim... Ou seja, é e não é, porque, de facto, há um cerco de Lisboa, histórico, no passado, embora isto não seja razão para se falar de romance histórico. O Memorial não é um romance histórico, e História do Cerco de Lisboa é ainda menos histórico que o Memorial. Tem é uma história que se passa em dois planos temporais: o dia de hoje e o tempo desse cerco... 

Qual? 
— Vem no livro... É um dos dois cercos de Lisboa... 

Ao longo dos seus livros construiu dezenas de personagens, mas nota-se sempre uma ternura maior pelos personagens femininos. Está de acordo? 
— Sim, sim. No caso dos meus romances, os personagens femininos são aqueles que eu mais quero, que eu prefiro. Os homens, nesses romances, são sempre, ou quase sempre, não diria pobres diabos, mas gente menor... No Levantado do Chão os homens têm ainda força (talvez devido a uma espécie curiosa de machismo alentejano que vai desaparecendo em favor de uma força crescente das mulheres, de geração para geração). No Memorial do Convento, repare, à frente da Blimunda, não há Baltasar que se aguente [risos]... O Ricardo Reis, ao pé da Lídia é, apenas, um pobre heterónimo [risos]... 

E no caso da História do Cerco de Lisboa? 
— Aí, a força está nas mulheres... Claramente nas mulheres. Isto não é uma atitude feminista — deve-se ao facto de eu crer que elas são realmente fortes, que têm muito para dar. E porque eu gosto muito delas... Acho que, para não cair na frase (coitadas das frases...) do Aragon, aquela famosa da femme est l'avenir de Thomme» — que é uma coisa mais vazia do que à primeira vista se possa pensar ou dizer —, eu penso que elas têm mais autenticidade e mais generosidade que nós. Valem mais que nós, homens. Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, aprendi pouco com homens e aprendi muito com as mulheres. Não por idealizações. É o ser humano inteiro, aquilo que elas são... Bom, algumas, eu sei, não são nada disto... 

"Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, 
aprendi pouco com os homens e muito com as mulheres. 
É o ser humano inteiro, o que elas são..."

O que se passou, em si, entre o Levantado do Chão e História do Cerco de Lisboa? 
— Passou-se tudo de forma bastante simples, normal, tranquila. Fica-se contente pela atenção que as pessoas deram ao que escrevi, pela atenção que deram ao escritor. Se tudo isso me tivesse chegado mais cedo, poderia acontecer que eu me tivesse imbuído de um sentimento de.importância até chegar àquele lado lamentável da vida em que já se tem o título de mestre [risos]... Como tudo isto me aconteceu tarde, na altura em que já se sabe estar tranquilo, então não olho para estes anos de escritor com olhar céptico. Disfruto aquilo que vivo. Gosto de que as pessoas não separem em mim o homem do escritor. Vivo isto tudo muito discretamente, não me sinto a tal figura de proa. Mas também tenho consciência de que o meu trabalho literário já significa alguma coisa. Mas não sei o quê... 

Não está a ser modesto demais? 
— Não. Não, nada disso... Repare. Lembra-se do Carlos Manuel a marcar aquele golo no jogo de Estugarda, contra a Alemanha, que nos deu a passagem para a fase final do campeonato do mundo de futebol? Veja se hoje ainda alguém se lembra. O escritor é um pouco isso, em termos de prestígio, nos dias de hoje. Escritor é jogador de futebol. Olhe o caso da Rosa Mota. Depois de ela ter ganho uma série de provas decisivas, houve um dia em que desistiu, e um jornal escreveu na primeira página Rosa Mota: derrocada em tal sítio... Mas esse jornal tinha embandeirado em arco algum tempo antes... Bastou que a atleta tivesse sido forçada a desistir para que a situação mudasse radicalmente de um dia para o outro... Com o escritor é quase a mesma coisa. Como um jogador de futebol. Amanhã há um deslize e pronto... 

Mas há outra dimensão no trabalho literário... 
— Esta coisa de ter prestígio hoje em dia é muito complicada porque... quem me garante que esse período não vai ser curto? 

Mas, não acredita no seu trabalho? 
— Acredito no meu trabalho da mesma forma que outras pessoas acreditam no seu trabalho, mas não se pode estar convencido de que o trabalho literário, hoje em dia, e infeliz-mente, é olhado pelas pessoas de uma forma transcendente, metafísica... Você veja: o que se escreve hoje sobre o Rodrigues Miguéis? Nada. Sobre o José Gomes Ferreira? Nada. Não acho que devamos estar sempre a gabar, a contribuir para o deleite das nossas letras, mas o facto é que em Portugal esquecemo-nos muito. Não só dos escritores. De quase tudo o que fomos amando. O Raul Brandão — de quem somos devedores, porque ele era muito grande — morreu e, algumas semanas depois, o Castelo Branco Chaves publica na Seara Nova um artigo, demolindo-o. Parece-me mal. É um pouco o que aconteceu agora com um artigo publicado no Expresso sobre o Fernando Namora... Eu acho que se deve contestar, claro, e a rebeldia literária só tem dado bons frutos. Mas também penso que esta malta nova devia começar por estudar mais um pouco as coisas que vão passando. Senão, passa-se de moda em moda... 

Tem-se dito que o Prémio APE está permanentemente contra si... 
— Isso diverte-me muito, porque já são três livros meus publicados desde o prémio APE e a situação é essa, de as pessoas me considerarem o eterno candidato. Mas candidato é aquele que se candidata, e eu não me candidatei. Os livros estão aí, e o júri é que pode entender escolhê-los ou não... Mas há coisa divertidas nisso do prémio APE, não nego. Uma delas foi a declaração de voto de um membro do júri do prémio que dizia que A Jangada de Pedra era um ensaio... Outra foi uma outra declaração em que se dizia que eu já escrevo para o mundo... Portanto, como você vê, nada de prémios nacionais. Havia ainda uma pessoa muito respeitável que escreveu que «por circunstâncias infelizes» o prémio ainda não me tinha sido atribuído... Ora a única circunstância infeliz era, para mim ter havido livros melhores que o meu. A não ser que haja outras circunstâncias que eu desconheço... Mas isso não tem importância nenhuma. As pessoas até acham divertido que, depois de o Memorial do Convento não ter sido premiado, os outros livros continuem a merecer a mesma atenção... 

Mas, sente que há outras razões? Que há uma perseguição... 
Não! Que ideia absurda! O júri gosta mais de outros livros. É só isso... 

Você é o autor comunista que as pessoas de direita também lêem... 
— Se eu quisesse auto-lisonjear-me, diria que isso é uma prova do bom-gosto das pessoas... O Eduardo Prado Coelho dizia, com muita graça, e a propósito, que com o Memorial do Convento eu tinha alargado a minha base social de apoio... Mas lembro-me de uma conhecida jornalista da nossa terra (jornalista, não... colaboradora da imprensa...) se ter recusado a ler o Levantado do Chão porque o autor era comunista. Acho que tudo isso se pode resumir em duas frases, separadamente: «ele é comunista mas é bom» e «ele é bom mas é comunista»... 

Mas, o facto de ser comunista tem tido influência na recepção dos seus livros? 
— Não sei se tem. As pessoas não me lêem mais pelo facto de eu ser comunista... Apesar da nossa vida democrática (coitadinha...), esteve aqui ontem um jornalista do Corriere della Sera durante uma hora e tal, e confessou-me que várias pessoas a quem ele disse que tinha um encontro marcado comigo o informaram, espantados, dizendo «mas olhe que ele é comunista.» O jornalista dizia-me, claro, que em Itália é muito diferente... Claro que é. Lembro-me, já agora, de que foi espalhado por certos espíritos maledicentes que o êxito do Levantado do Chão se deve ao facto de o romance ter o Alentejo por cenário — e de os militantes do meu partido terem recebido ordem para comprar o livro... Sob outro ponto de vista, claro que todo o trabalho literário também é um trabalho político e não poderá deixar de o ser a menos que o autor seja inerte e mentalmente incapaz. Quanto a isto não há dúvidas por parte do leitor. Ninguém poderá é dizer que utilizo a literatura para fazer política... 

Ultimamente, o seu partido, o Partido Comunista Português, tem atravessado uma crise política. Preocupa-o, a situação no PCP? 
— Claro que me preocupa a situação no partido. E preocupa-me no sentido em que eu me preocupo com a vida do meu partido. Estes últimos acontecimentos têm um significado bastante especial e traduzem algumas divergências, conflitos de opinião sobre o que deve ser o partido e a sua política. Repare, também, que eu disse que me preocupava e não que me inquietava. Nada de estar com inquietações muito profundas, nada disso. O meu partido está a viver uma crise — e esta é uma ocasião para usar a palavra crise porque em relação às crises diz-se que «esta é uma crise mas vamos vencê-la» — esta, claro, será resolvida. O partido não vai deixar de ser o que é. Além do mais, desde que temos em Portugal uma vida democrática, todos os par-tidos já tiveram as suas crises, mais ou menos dramáticas, mais ou menos significativas... 

Esta crise, que o PCP atravessa, traduz a oposição entre o novo e o velho no interior do partido? 
— Traduz o conflito entre opiniões diferentes. Entre o que foi, o que é e o que vai ser. E, sobre isso, há duas saídas para o problema. Uma, que é estagnar, girar à volta de si próprio, perecer. Outra, que é avançar, em circunstâncias e exigências novas, colocadas pelos tempos e pela capacidade de entender os novos tempos, sem renunciar àquilo em que se acredita. Fundamentalmente, um corpo que não se transforma é um corpo que não cresce e que não se desenvolve. A história está cheia desses exemplos, de relações de conflito entre a autoridade e a liberdade com vista a ponderar a necessidade de transformação. Às vezes a autoridade entende, outras não entende. O que se verifica no interior do PCP é o que se verifica em toda a parte. Aconteceu, agora, no interior do PCP, e ainda bem. 

Acabou este livro, História do Cerco de Lisboa. Sente-se feliz com o seu trabalho até agora? Com a sua vida? 
— Eu poderia ser felicíssimo como homem e ter uma pouca sorte danada como escritor. No meu caso, sinto-me em paz com o meu trabalho, sei o que quero fazer e julgo que faço aquilo que quero. Uma obra que se pensa fazer é sempre um destino que se inicia. Mas os livros não me têm decepcionado. Nem este, porque tenho uma boa relação com aquilo que escrevo. 

E consigo próprio? 
— Como homem posso dizer de mim mesmo que sou um homem feliz...


domingo, 1 de maio de 2016

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José Saramago na visão bem humorada do caricaturista e ilustrador Ricardo Campus

Informação sobre o autor
"Ricardo Campus é natural da Póvoa de Varzim, formado em desenho técnico industrial pela ETGI, Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, desempenhando até à data funções na área de projecto, formação, tecnologias de informação e comunicação. Autor de caricaturas, ilustração e cartoon editorial." 

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Autoria de Ricardo Campus - 2011

Autoria de Ricardo Campus - 2016